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Elisabeth Butterfly

por João Villalobos, em 13.06.08

Da Caveira de Cristal à concretização de Portugal

 
Fui ontem ver Indiana Jones. “If not goldie, sou pelo menos uma oldie”. Cresci a ver Harrison Ford envelhecer – como só os melhores vinhos envelhecem – no papel de Doctor Jones, não podia resistir a meter-me na estreia para ver o filme.
 
As estreias têm sempre um ar de hora de ponta na marginal. Com a única diferença que não levamos carro e não corremos o risco de apanhar a brigada de trânsito. Em vez disso, obrigam-nos a lutar para não acabarmos tragicamente atropelados pelas pipocas comidas desabridamente ou aspirados pelo cone de ar libertado pelo escape dos refrigerantes sorvidos de baldes de litro, de maneira alarve, por super palhinhas multicoloridas. Chegamos ao ponto de pensar que podemos até puxar por um cigarro... Mas como a sala está escura que nem breu, e não podemos assegurar-nos que o nosso primeiro ministro não está por perto, lá resistimos enquanto chupamos um rebuçado. Ninguém gosta de acabar na televisão acusado de ter fumado ao lado de José Sócrates.
 
Ver este Indy levou-me de volta ao grande cinema americano. O trio Lucas-Spielberg-Ford é realmente imbatível. Mesmo para quem – como eu – acredita que não há great american heroes no celulóide deste século. A Caveira de Cristal transformou-me numa espécie de salteadora da idade perdida à medida que me devolveu aos dezoito anos.
 
Contudo, misteriosamente a meio do filme, recordei-me de uma coisa importante: a verdadeira essência da vida assenta no Conhecimento. Ele há coisas do demo. De repente Indiana Jones levou-me à ideia antiga de uma nova dimensão para o país português, que Portugal não tem porque ainda não conseguimos recordar-nos, enquanto colectivo de cidadãos, da verdade básica que fui reencontrar naquela sala Lusomundo.
 
Esquecidos os cigarros maricas, que agora dei em fumar para fingir que fumo mais saudavelmente, dei comigo a desejar que estivesse ali o nosso pm (merde... veja-se lá o que pode fazer-me um homem como Harrison Ford). Se possível – pensei – ao lado de Ricardo Salgado, Balsemão e Belmiro de Azevedo. Entre outros, também eles conseguiram trabalhar para o nobre feito da elite nacional que foi transformar este país no que é: uma república de sonhos perdidos, esquecida pelos mundos que – com a Espanha – deu ao mundo naquilo que foi a primeira globalização. Talvez, ao verem Indiana e o Reino da Caveira de Cristal compreendessem mesmo que a grandeza de um país não se mede em área geográfica, mas pela sua verdadeira dimensão: o valor que cria ao mundo onde está – porque tem que estar – realmente inserido, se quiser existir. Recordemos a propósito a sábia mensagem de S.Exa o senhor Presidente da República quando falava na necessidade de inserção... Precisamos de nos esforçar mais por inserir Portugal no globo e, se o fizermos, estará garantida a evolução deste povo e o desenvolvimento nacional. Só então haverá inserção efectiva porque a exclusão social dá-se sempre melhor em ambientes de maior atraso cultural como é este português.
 
 
Não sou portuguesa, I’m sorry. Mas sinto-me portuguesa em alma, gosto de fado, e pago impostos. Este canto lusitano, que Camões tão bem cantou, tem na sua própria história o maior valor. Devíamos ser um país feliz, de gente voltada para a prestação de serviços, com uma identidade cultural forte e a respirar cultura pelos poros. Gente orgulhosa da sua história, com esperança no seu futuro. Gente a quem não fosse necessário vir alguém de fora para desfraldar a bandeira nacional...
 
Devíamos servir de referência aos povos do mundo como berço mundial de cultura, e atrair as gentes sedentas de Conhecimento até aos caminhos de um Portugal realmente português. Podíamos ter nesse novo turismo cultural – recuperados para a hotelaria os castelos medievais e outras referências obrigatórias da arquitectura maior como é o Convento de Cristo – uma nova fonte de reconhecimento que transformasse este país, por inteiro, em autêntico património mundial.
 
Não temos. Em vez disso...
 
Fazemos alarido quando um pintor português é rematado em leilão por pouco mais de centena e meia de milhares de euros ou, no caso do desenho mais célebre do mestre Almada, por menos de uma dezena de milhares. Devíamos calar-nos. Devíamos fazer segredo e não contar a ninguém porque qualquer obra de artistas internacionais, como os grafitis levados à tela de Jean Michel Basquiat ou as fotografias porno de Jeff Koons, bate várias vezes esses valores. O problema, claro está, não reside na falta de talento dos nossos artistas. Germina na falta de fé dos nossos investidores e de visão dos nossos governantes. Não souberam nem quiseram desenvolver em conjunto uma acção virada para a cultura e preferiram perder-se em busca da quimera de um PIB decente que não nos chegará tão cedo certamente.
 
Este tema que escolhi não será nunca fácil de abordar numa crónica. Mas, como somos todos políticos, um pouco como vamos sendo treinadores de sofá, resolvi-me a entrar pelo lado difícil que é pensar neste país... Contudo, e aproveitando neste ponto para agradecer o convite amável do corta fitas, resta-me o espaço para recordar a visão de Agostinho da Silva, talvez um dos últimos grandes lusitanos. Em Portugal o primeiro ministro devia ser um ministro da cultura. Contudo, porque nem sempre podemos ter o que desejamos e os ministros da cultura são o que são, resta-nos um Sócrates cujo percurso académico é o que se sabe ou... a incerteza que vem dos lados do PSD.
 
Temos mesmo muito a aprender com este Indiana Jones. Da Caveira de Cristal à concretização do Império português vai só um salto pequeno... Mas enquanto não estivermos preparados para saltar...
 
Fiquem com um beijo de borboleta. Desta, que apesar de estrangeira, procurou absorver aquilo que é hoje o maior Império de Portugal: o Português!

(do blogue Butterfly Pepper's)

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