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A ternura dos quarenta

por João Távora, em 06.09.07
Era inevitável enfrentar o problema. Desde que deixei de fumar há quase quatro anos, num também histórico 1º de Dezembro, iniciei um lento processo de expansão adiposa. Esse foi um duro período de provação e de alguma incontinência emocional, confesso. Com a tolerância à frustração nos mínimos dos mínimos, recorrentemente descompunha meio mundo (decididamente unido para me tramar), quase me divorciava e perdia o emprego. No início desse tempo de trevas, engordava só de olhar para os bolos na montra da pastelaria ou de ler a ementa do restaurante. Prescindira do prazer de fumar e chegara à plenitude dos “quarentas”. Simplesmente continuei jovialmente a gostar de Alheiras fritas, ou da bela Feijoada com pãozinho para molhar... sem esquecer uns deliciosos Ovos Moles ou um Suspiro de vez em quando. Não resistia a uma Fartura frita na feira ou a um belo Bacalhau à Braz ensopado em azeite lá da terra (nem sei qual, que eu sou de Lisboa). Ainda olhava com desprezo para todos os subprodutos light, "zero", magro, saladas e quejandos. Seria capaz de me inspirar nisso para escrever a mais mordaz crónica sobre a proliferação gastronómica para dondocas, anorécticas e metrossexuais. "Pela boca morre o peixe", e eu às vezes também me lixo.
Até há pouco tempo, o meu organismo sempre queimava desprendidamente a mais vasta gama de gorduras e guloseimas. Mas esse tempo lá se foi, fui inchando lentamente até começar a ficar com a roupa mais justa, apertar mal o casaco e o botão do colarinho. Estes foram os emergentes e dolorosos alertas. Depois de deixar de fumar, chegara a hora de deixar de comer.
Assim, há uns meses iniciei um exigente regime alimentar, tudo como mandam as regras. Primeiro, comecei por engolir o orgulho, o que suponho é do mais dietético que há; para logo de seguida me tornar freguês daqueles absurdos restaurantes de comida dita “saudável”. Até começar a encher o carrinho do supermercado com comida “a fingir” cheia de coraçõezinhos estilizados e silhuetas femininas na embalagem. Aqui nas Amoreiras, com total confiança na minha masculinidade, hoje circulo com surpreendente à vontade no meio das mais esbeltas ou escanzeladas figuras femininas. Todas elas fãs de queijos frescos e daquelas saladas cheias de nada e umas raspas de noz moscada. Agora também bebo aqueles sumos e sopas, mistelas indizíveis, a saber a pouco ou coisa nenhuma. Tudo isto para almoçar e ficar esganado de fome. Aliás é muito fácil comer poucas bolachas quando estas sabem a casca de árvore. E depois, já me oriento no supermercado no meio daquelas prateleiras cheias de comida Zen, "zeros" e lights, manteiga magra (!)... ou ainda aquelas infusões de ervas e águas amargosas, livres de calorias (!) mas com fibras e a bela carnitina... a fome acessível à endinheirada freguesia!
Ao fim-de-semana, com mais tempo, uma Dourada grelhada é que marcha mesmo bem... e depois p’rali fico, oprimido, a salivar pelos Bitoques dos miúdos e a ver a minha mulher feliz (mas culpada, eu sei!) a comer um delicioso Bolo de Claras.
Agora, estou quase a atingir o meu peso ideal, estou quase a acabar com o tormento, esta louca cruzada, de que me rio para não chorar. E sinceramente acho que vou voltar a comer aquilo que me apetecer. E que, com um pouco mais de ginástica, até vou controlar as coisas!

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15 comentários

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De rduarte a 13.09.2007 às 14:17

Olha João eu não precisei de chegar aos 40. Com 33 aconteceu-me isso tudo…por outras razões que não são para aqui chamadas. Agora divido-me entre a dieta e o ginásio. Só com ginásio é impossível, isso já o comprovei. E só com dieta pensamos muitas vezes: valerá a pena este esforço? Um complementa o outro. E é tão bom! Depois de uma aula de RPM, pelo esforço (trabalho!!) que faço, era incapaz de comer um bitoque! Até por isso é bom. E sempre que me perco nos prazeres da carne, ou dos doces, lá vou eu dobrar o exercício regular que faço. É uma espécie de guerra interna…mas saudável.

Grande abraço
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De só a 06.09.2007 às 23:43

pois é deixar de fumar, deixar de comer...
a seguir é deixar de f...
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De teresa ribeiro a 06.09.2007 às 18:30

Hoje tem que fazer uma excepção!
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De João Távora a 06.09.2007 às 17:48

Com a boa da convesa, aguenta-se melhor, caro Pedro! De resto agradeço os comentários simpáticos.
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De Pedro Correia a 06.09.2007 às 17:24

Ó João, não é de muito bom augúrio este texto a poucas horas de mais um jantar Cortas-Fitas.
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De Anónimo a 06.09.2007 às 16:29

Pasmo com a sua ingenuidade: a coisa é mais ou menos como "Zé" diz.
Eu dir-lhe-ei ainda que é uma luta sem ou com poucas tréguas e sem panache, como verificará quando se descobrir um dia de beiços besuntados, frente ao frigorífico, pela calada da noite.
Há nisto tudo, alegrias: lembro-me de pasmar para esse novo mundo "light": a manteiga foi um choque, as natas motivaram-me reflexões filosóficas profundas. Hoje compro "béchamel light" e oriento-me no departamento do leite e yogurtes de soja com o à-vontade dos connaisseurs.
Às vezes, porém, o desâmino toma-me e descubro-me, aparvalhado e trémulo, num «gourmet», com as mãos atafulhadas de latas de foie d'oie fraîche ou truffé e uma abjecta garrafa de Sauternes. Vou entrar para o mosteiro em Outubro. É misto, é o consultório do dietista da moda.
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De Zé a 06.09.2007 às 14:44

Permita-me algumas opiniões, certamente disparatadas: (i) a culpa não é da falta do tabaco, mas das alterações que o corpo sofre com a mudança de idade, agravadas certamente por excesso de sedentarismo.
(ii) O apetite desmesurado resulta provavelmente de frustrações e de carências alimentares (lembro-me, muitos anos atrás, de ter lido em Josué de Castro, creio que o livro se chamava Homens e Caranguejos, que os nordestinos tinham a cabeça cheia de comida imaginária...).
(iii) O exercício pode não ser a solução: em dose suficiente, emagrece, mas, por outro lado, tende a abrir o apetite... Por experiência própria, recomendo ao jantar um bom prato de sopa tradicional, daquelas em que o feijão não deixa a colher chegar ao fundo, e um copo de bom vinho tinto: satisfaz e não deve engordar muito. Por outro lado, a ginástica é geralmente pouco estimulante do ponto de vista intelectual, passada a fase da competição - que, normalmente, as pessoas abandonam pelos 25, 30 anos. Sugiro modalidade exigente tanto pelos desafios intelectuais como físicos: karaté, ju-jitsu, tai chi... dependendo da sua condição física e das apetências. Tenho 53 anos, 1 ou 2 quilos a mais (ah, as férias!) e desde que descobri o karaté, há quase 25 anos, nunca mais o larguei. À sua prática, continuada e regular, atribuo a boa condição física e a saúde de que tenho gozado.
JCC
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De Once In a While a 06.09.2007 às 12:56

solidária eu estou a pensar .. muito seriamente .. em abandonar este hábito que é o fumar ..
vou reler tudo com mais atenção para ver se me convenço .. ou não ;)

Gostei Sr. JT .. as usual
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De Anónimo a 06.09.2007 às 10:54

Esta sua nova tendência alimentar entra em contradição com um post antigo escrito por si sobre os másculos barbeiros de bairro versus os modernos cabeleireiros unisexo que oferecem cafézinho e lhe perguntam se quer "fazer unhas" ou arranjar sobrancelhas ou, sabe-se-se lá, uma massagem ou uma depilação.
Seguindo a lógica, devia fazer publicidade às tasquinhas de bairro com as iscas, o peixe frito, as alheiras, os torresmos, as febras etc.
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De Anónimo a 06.09.2007 às 10:10

Agora já ía umas papas de sarrabulho,a bem dizer.

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    Muito bom!

  • Anónimo

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  • João Cabral

    Apenas duas correcções: "outubro" deve ser Outubro...

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