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 Emplastros e velhos de Restelo

Ia a passar na zona de Belém-Restelo, levando pelo braço a minha Clotilde, em passeio dominical, quando me deparei com a celebração do triunfo no campeonato da Europa. Uma multidão verde e vermelha, aos gritos, vitoriava os heróis da selecção. Pela intensidade do ruído, deduzi que tinham vencido todos os jogos. Sou um patriota e desafiei a Clotilde:

“Devíamos juntar-nos aos festejos”.

“Boa ideia”, respondeu ela. “Poderei ser entrevistada pelas televisões”. (A Clotilde tem estudado a técnica do emplastro, que consiste em ficar especada, ao lado do repórter, à espera do directo, fazer olhinhos e depois estar no sítio certo quando o repórter espetar o microfone para recolher uma importante declaração das massas populares).

Naquele caso, tivemos de furar através da massa popular. Felizmente, quando quero sou um ferrabrás. Tive de afastar cinco ou seis lingrinhas, que estavam ali desde as seis da manhã e que ficaram a gritar, depois de serem desalojados dos melhores lugares. Nisso sou parecido com a selecção de todos nós: quando há uma missão, não deve haver sentimentalismo.

A multidão concentrara-se em frente ao palácio presidencial, numa manifestação patriótica sem paralelo na nossa memória colectiva.

“Foi de facto uma bela vitória, nunca vi nada assim”, disse eu, quase às lágrimas, perante tal momento de comunhão e convergência.

Atraí a atenção das pessoas à minha volta, incluindo de um velhinho muito velhinho.

“Pois é, meu jovem”, disse o velhinho muito velhinho, que tinha uma longa barba branca. “Eu ainda me lembro da exposição do mundo português, que foi aqui mesmo junto a esta praça”, e apontou o vetusto dedo na direcção da Torre de Belém, “e vitoriámos o grande Salazar… Era um belo tempo, quando havia ordem e entusiasmo e patriotismo verdadeiro, sobretudo ordem, meu jovem”.

“Sim, mas ainda o país era pequenino e não ganhávamos na Europa”, interrompi.

“Portugal era grande, nessa época”, exclamou o velhinho muito velhinho. E apontando para o céu com um dedo coevo, prosseguiu: “E lembro-me da chegada de Mouzinho, que Lisboa era um mar de bandeiras azuis e brancas. Na altura, meu jovem, ainda não havia esta horrível bandeira verde e vermelha. Bons tempos aqueles, quando ainda tínhamos vitórias a sério”.

“Sim, esse Mouzinho era do Porto, não era? Agora, temos o Moutinho. Mas esta também foi uma boa vitória, amigo”, disse eu, enquanto se sentia o crescente frémito da populaça, pela aproximação iminente do autocarro da selecção.

Uma onda de entusiasmo atravessou a multidão, que gritava vivas a Portugal, num delírio de berros e desmaios.

“Falou aí numa vitória. Mas qual vitória?”, perguntou o taxista que estava ao meu lado.

Encolhi os ombros: “Não percebo nada de futebol, mas com esta histeria toda, é porque ganhámos, certamente”.

“Não vê televisão? Isto é a despedida da selecção, que só joga no sábado”.

Nisto, apareceu o autocarro da selecção e a multidão começou a mover-se, como se fosse uma onda. Ouviu-se o gigantesco rumor, como se fosse um grito de guerra:

“Tragam a taça”, gritou o taxista.

E o velho disse-me, por cima da berrata:

“Tentei avisar o Gama para nunca usar o quatro, três, três e veja só o que deu ele ter ignorado os meus conselhos. Agora, com este brasileiro, é inútil tentar convencê-lo de que só ganhámos aos turcos em Lepanto por termos usado um pentágono, que é muito mais acutilante. Ele vai ser teimoso e quando nos calharem os espanhóis, temos de usar o quadrado, porque em Aljubarrota usámos o quadrado. Mas este não aprende, está a ver? Países jovens, não sabem…”

Compreendera finalmente que ainda não tínhamos ganho nada. Aproveitei para me escapulir dali, enquanto o povo celebrava a iminência da vitória, numa festa louca.

No caminho, encontrei a Clotilde, que vinha a chorar. Não conseguira ser entrevistada, explicou:

“Eu bem me coloquei no local ideal, junto ao repórter. Fiz-lhes olhinhos, mas quando ele apontou o microfone, para fazer uma interessante entrevista, preferiu a mamalhuda que estava ao meu lado”.

Dito isto, a Clotilde esticou o peito e perguntou-me:

“Também achas que são pequeninas?”

Ia dizer que vivemos em tempos maus para achar alguma coisa, mas lá ao fundo, uma multidão vitoriava as nossas grandes esperanças. E respondi, de forma automática:

“São grandes, são grandes”.

 Adolfo Ernesto



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