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Fumo a bordo

Quando o meu amigo Hugo Chávez (outro bipolar) soube que o José Sócrates ia à Venezuela, telefonou logo para Lisboa:

Traz mi muy amigo Adolfo Ernesto in tu vuelo charter” (ele pronunciou rarter).

Foi assim que me juntei à comitiva de empresários, diplomatas e dirigentes de primeira linha.

Os primeiros 20 minutos de voo foram agradáveis. Mas existe algo nos aviões que provoca uma urgente necessidade de transgressão. Talvez o ar condicionado, não sei, ou a pressão atmosférica inebriante. Poucos resistem. Alguns começam a andar no corredor, para cá e para lá, com o sinal de cinto de segurança aceso. Outros sentem uma irresistível necessidade de falar ao telemóvel, apesar da proibição. Há ainda aqueles que necessitam de fumar um cigarro, incluindo muitos não fumadores. Há quem consiga resistir à pressão cerca de 25 minutos.

Viajei ao lado de um simpático empresário.

“Você é o Adolfo Ernesto que escreve no Corta-Fitas?”, perguntou o importante multimilionário.

“O próprio”.

“Gosto imenso daquela vossa rubrica, a rapariga das sextas-feiras. A prosa tem grande qualidade”.

“Também acho”.

Era a minha vez de fazer perguntas:

“Qual é o seu ramo?”, perguntei.

“Não é ramo, mas sim folhas. Trabalho nos tabacos. Estou aqui a substituir um empresário dos petróleos, que não arranjou tempo de agenda para se juntar a esta comitiva”.

E logo me começou a mostrar as amostras que levava. Cigarros, cigarrilhas e charutos.

Sim, sim, já adivinharam: fui o primeiro a transgredir no famoso voo da polémica, em que ministros fumaram a bordo.

Ignorei os sinais de proibido fumar, ao acender automaticamente um dos cigarros da amostra do empresário. O pior é que nem sou fumador.

Nas filas da frente decorria o conselho de ministros e chegara a pausa do café, o relaxante coffee break. O ministro Pinho veio até à nossa fila, atraído pelo inebriante cheiro do tabaco. Também não resistiu. Depois, veio o José Sócrates, distraído, a pensar nos problemas do país. E o Luciano Alvarez, sentado mesmo ao nosso lado, anotava tudo, com um semblante severo.

A nuvem no interior do avião formou-se devagar, mas acabou por se transformar num espesso nevoeiro. Alguns empresários que faziam jogging no corredor central do aparelho começaram a protestar pela falta de oxigénio e houve também alguns diplomatas que contestaram o facto de não conseguirem ver os números dos seus telemóveis naquela sopa de fumo, o que dificultava a precisão dos telefonemas.

Perante o coro de críticas, refugiei-me na casa de banho, pois tenho este antigo sonho de fumar um cigarro no local onde isso é mesmo perigoso. Mas, a meio, começaram a soar sirenes e houve uma corrida de hospedeiras pelos extintores de emergência. Quando estávamos a fugir para a parte de trás do avião, o José Sócrates, a meu lado só dizia: “nunca mais fumo, é uma promessa de nossa senhora de Fátima”.

E, prontos, depois chegámos à Venezuela, onde já nos esperava a notícia da polémica.

Sem querer entrar em contestações, acho que estão a ver a questão pelo mau ângulo. Claro que nos cabe a nós, à elite nacional, dar o exemplo do saudável cumprimento da legislação em vigor. Afinal, não somos uns sobas.

Mas nos aviões é diferente. Quando chegamos às altas esferas, há qualquer coisa que nos leva a transgredir por transgredir. Não é abuso de poder ou algo assim, mas apenas a altitude, a breve ilusão de que ali não se aplicam os disparates que legislamos.

 Adolfo Ernesto



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