Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Carlos Barbosa de Oliveira

por Francisco Almeida Leite, em 12.05.08

 

 

 

A fada madrinha e a bruxa má

 

Andam a impingir-nos a ideia de que a crise alimentar que assola o mundo, provocando o aumento dos produtos e ameaçando de fome milhões de pessoas, foi imprevisível e nada havia a fazer para a evitar. Não é verdade! Eu, que não sou profeta nem tenho bola de cristal, alertava em 1991, no jornal Tribuna de Macau, para a forte possibilidade de vir a ocorrer uma crise, fruto de um mercado livre desregulado que inevitavelmente provocaria interferências no sector alimentar. Não foi por práticas de bruxaria ou poderes de adivinhação que lancei o alerta. Acontece que nesse ano andei em viagens estafadas entre a Ásia, a Europa e a América Latina, em reuniões preparatórias da Cimeira da Terra no Rio de Janeiro, onde ouvi as preocupações das ONG sobre as “barreiras técnicas” que o GATT (actual OMC) insistia em aplicar em relação às medidas de protecção ambiental. Pretendia então o GATT, com o apoio dos EUA - que durante duas décadas boicotou o “Código de Boas Práticas das Multinacionais” - conceder às multinacionais um maior acesso aos recursos naturais dos países do terceiro mundo, oque mais não significava do que uma recolonização daqueles países.

O resto da história é conhecido. O perigo da escassez alimentar foi levantado na Cimeira do Rio, em 1992, exactamente nas mesmas bases em que hoje é discutido: crescimento demográfico, com consequente aumento do consumo; subida do preço dos recursos energéticos, (nomeadamente os petrolíferos); desenvolvimento industrial de países emergentes que levariam ao exaurir do petróleo; alterações climáticas; desertificação (em 1992 já desaparecia um hectare de solo arável em cada oito segundos); o perigo de utilização de alimentos nos biocombustíveis. A questão continuou a ser alvo de polémica nas cimeiras do Cairo, Seattle, Quioto e Joanesburgo, mas os defensores do mercado livre sempre contrapunham com as virtudes da globalização que, tal fada madrinha, nos havia de conceder o desejo de salvar a Humanidade.

Porém, ao contrário do que acontece nos contos de fadas, na economia de mercado é (quase) sempre a bruxa má quem sai vencedora.

Resta uma consolação: o alerta provocado pela crise alimentar pode levar as pessoas a interiorizar que a escassez de água não é uma invenção de fundamentalistas, mas uma realidade a muito curto prazo. Quem não acreditar, sempre terá a hipótese de beber gasolina e trocar um telemóvel por uma espiga de milho... transgénico!

 

Carlos Barbosa de Oliveira (do blogue Crónicas do Rochedo)



8 comentários

Sem imagem de perfil

De cristina ribeiro a 12.05.2008 às 13:40

Lido o texto, divago: perante isto, que comédia escreveria Dante?
Sem imagem de perfil

De carlosbarbosaoli a 12.05.2008 às 23:09

Cristina Ribeiro: sem dúvida, "Uma Comédia de Enganos"!
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 12.05.2008 às 14:21

A "impigir-nos"? Nunca dei por isso.
Imagem de perfil

De Teresa Ribeiro a 12.05.2008 às 23:01

Nunca é demais voltar a este assunto. Um hectar por cada oito segundos? Será mesmo verdade? Arrepia!
Sem imagem de perfil

De carlosbarbosaoli a 12.05.2008 às 23:49

Teresa Ribeiro: infelizmente os números são mesmo verdadeiros. Presumo que com o acelerar do desenvolvimento industrial e a expansão das cidades, em cujos limites se foram construindo dormitórios, colonizando terrenos aráveis, a situação esteja muito pior.
Estive recentemente na Índia e na China e, neste último país, a situação dos agricultores é de tal forma miserável, que estão a abandonar as terras e a "fugir" para as cidades. O que vi em Xangai e em Pequim, dava para escrever post diários durante uma semana.
Claro que corria o risco de ser acusado de fundamentalista e catastrofista, que foi do que me acusaram algumas pax em Macau em 1991!
Sem imagem de perfil

De Patti a 12.05.2008 às 23:18

E a história repete-se. É a re-colonização como tão bem o Carlos refere. Mas ainda tenho esperança que a fada madrinha vença a bruxa má.
Já não estarei é cá para ver.
Sem imagem de perfil

De maloud a 12.05.2008 às 23:37

Uma economia de mercado feita à medida dos proteccionismos europeu e norte-americano, que secaram as economias do Terceiro Mundo.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 13.05.2008 às 14:16

Excelente reflexão. Obrigado por esta visita.
Um abraço, Carlos.

Comentar post



Corta-fitas

Inaugurações, implosões, panegíricos e vitupérios.

Contacte-nos: bloguecortafitas(arroba)gmail.com




Notícias

A Batalha
D. Notícias
D. Económico
Expresso
iOnline
J. Negócios
TVI24
JornalEconómico
Global
Público
SIC-Notícias
TSF
Observador

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes

  • Anónimo

    Ias tão bem na narrativa...porque meteste o CHEGA ...

  • Anónimo

    ...-e meu também...!

  • Anónimo

    José Monteiro by 19.52especializado em técnica de ...

  • Anónimo

    Imperdível, a ponto de ir levar o Post, para algum...

  • Francisco Albino

    Ficamos mesmo bem governados, com 70 membros do Go...


Links

Muito nossos

  •  
  •  
  • Outros blogs

  •  
  • Links úteis


    Arquivo

    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2018
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2017
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2016
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2015
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2014
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2013
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2012
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2011
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2010
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2009
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2008
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D
    157. 2007
    158. J
    159. F
    160. M
    161. A
    162. M
    163. J
    164. J
    165. A
    166. S
    167. O
    168. N
    169. D
    170. 2006
    171. J
    172. F
    173. M
    174. A
    175. M
    176. J
    177. J
    178. A
    179. S
    180. O
    181. N
    182. D