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Bonecas

por Teresa Ribeiro, em 27.04.08

No meu tempo as bonecas serviam-me para brincar às casinhas ou recriar as minhas histórias de encantar preferidas. Sem sexo e sem curvas, as minhas filhas de plástico, mesmo quando faziam papéis de crescidas, nunca perdiam a inocência. Aliás, para mim, a definição de boneca passa por essa noção de inocência perene, resistente até aos desvios inevitáveis da imaginação infantil pelo mundo misterioso da sexualidade.
Aqueles corpinhos amorfos e os rostos bochechudos, de aspecto mais infantil que o meu, nunca me desafiavam. Dóceis e afáveis, adaptavam-se às exigências dos meus guiões na perfeição. Se numa brincadeira rodopiavam, triunfantes, nos braços de um príncipe imaginário, na seguinte regressavam ao meu colo, na condição de bebés sem que algo na sua anatomia se revelasse contraditório em relação a qualquer dos papéis.
No meu tempo as Barbies não estavam na moda. Nem eu nem as minhas amigas simpatizávamos com aquela serigaita em tudo mais perfeita que nós. Instinto? Talvez. Acredito que foi bom para a minha geração ostracizá-la. Poupámo-nos a preocupações desnecessárias. Mas infelizmente o marketing acabou por vencer, impondo a boneca de cintura fina e pernas longas às gerações que se seguiram. Imagino que não deve ser fácil sair da infância tendo aquela vamp como referência e pergunto-me até que ponto a mania das dietas precoces estará associada ao ícone preferido das garotinhas de sete anos.
Rompendo com a inocência original das bonecas, esta loira estilizada foi fazendo escola ao longo dos 49 anos que já leva no mercado mundial. Hoje há sucedâneos da Barbie e marcas da sua cultura all over. O produto mais recente da cultura rosa shocking de que tenho notícias é de suporte digital. Trata-se de um jogo chamado Miss Bimbo, que convida as participantes a fazer das suas bonecas as mais belas, famosas e ricas do mundo. Para o efeito é possível recorrer a cirurgias plásticas, comprar-lhes lingerie e adquirir comprimidos para emagrecerem. O objectivo é entrar em competição com outras meninas a fim de transformar as suas bonecas num sucesso, conquistando fama e maridos milionários para elas.
Muito popular entre as meninas dos 9 aos 16 anos, o Miss Bimbo é jogado por milhões de crianças de 200 países.



5 comentários

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De Ana Vidal a 27.04.2008 às 22:46

O jogo parece-me assustador, Teresa. Tudo tão perverso e subvertido, no mundo que devia ser ainda o da inocência!
O texto, pelo contrário, é excelente. Vou levá-lo.
Beijo
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De Cristina Ribeiro a 27.04.2008 às 23:04

Todas nós passamos por aquela fase : "o melhor presente para uma menina é uma boneca"; e era!
Mas também eu preferia uma boneca parecida com mulheres "normais".
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De Mike a 28.04.2008 às 00:21

Há que começar a treinar, Teresa. Só assim algumas dessas meninas se tornarão verdadeiras misses bimbos...
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De Once a 28.04.2008 às 12:32

ou seja: o objectivo é esvaziar a palavra brincar.
Bem a propósito do que se quer que seja o futuro.
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De cristina ribeiro a 28.04.2008 às 15:01

Obrigada Teresa. Não apareço como blogger, porque como quase info-excluída que sou, não consegui inscrever-me no sapo :)
Beijinho

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