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Comunicação, outro nome para pensamento mágico

por henrique pereira dos santos, em 31.01.26

Gente que considero, gente que pensa, gente inteligente, mas que tem obrigações de falar regularmente, como políticos, jornalistas e comentadores regulares, tarde ou cedo, perante uma catástrofe (tanto faz ser um apagão, uma ciclogénese explosiva, fogos, cheias, qualquer uma das milhares de manifestações da natureza perante as quais temos dificuldade em ficar de pé), acaba a falar das falhas de comunicação do governo de turno.

Aparentemente, de comunistas empedernidos, passando por populistas irrequietos e liberais ferrenhos (o que me custa ver liberais que têm, ou tiveram, responsabilidades políticas, repetirem os argumentos do populismo sobre a omnipotência dos governos), quando não lhes ocorre nada de substancial para dizer sobre a previsão de uma catástrofe, sobre a catástrofe em si, sobre as consequências da catástrofe e sobre a forma como a sociedade reage à catástrofe, falam dos erros de comunicação dos responsáveis políticos.

Dizendo de outra maneira, a minha irmã avisa a família, por canais de comunicação criativos, que não se preocupem com ela, adapta-se à sorte de na rua onde vive não ter havido estragos, ao contrário do que se passou na rua de trás, diz que se ficasse sem água quente mudaria para outro lado qualquer (nestas coisas é que se percebe melhor a diferença entre os problemas dos que têm escolha e os problemas de quem não tem alternativas), mas que ficar sem electricidade e comunicações não é dramático, o que no caso dela significa ficar sem possibilidade de usar o elevador de que depende para sair de casa (também se percebe nestas alturas como as circunstâncias de cada um fazem com que o impacto do que acontece a todos acabe por ser substancialmente diferente para cada um), e boa parte das elites e dos pensadores do país acham que o que ela precisa é de discursos motivacionais dos membros do governo, e não de electricidade e comunicações.

O ambiente tóxico que se vive nestas alturas à volta dos responsáveis políticos, exigindo-lhes o que não podem dar, acaba nesta parvoíce de andar tanta gente a dizer inutilidades, a discutir vídeos produzidos, acções demagógicas de solidariedade, e outras manifestações mediáticas de um pensamento mágico que acredita que está na mão dos governos proteger-nos de todas as adversidades, esquecendo-se que nem as nossas mães conseguiram isso, quanto mais o papá Estado, enquanto as pessoas comuns se limitam a avaliar a situação e tentar resolvê-la, "with a little help from their friends".

O princípio deveria ser simples e universal: há possibilidade de ajudar a resolver um problema concreto que se conhece (incluindo ajudar toda a gente a compreender o que se passa)? Óptimo, é ir em frente.

Não há nada de concreto que possamos fazer? Não faz mal, saiam da frente, não criem problemas novos para juntar aos que existem, haverá muito tempo para discutir o que podemos aprender para o futuro.

Avaliar e linchar

por henrique pereira dos santos, em 30.01.26

Como acontece com alguma frequência sempre que existem acontecimentos com algum dramatismo que se possam relacionar com gestão da paisagem, recebi uns quantos convites para ir vender o meu peixe esta semana.

Por várias razões pessoais declinei vários desses convites e acabei por aceitar um, embora um bocado desconfortável porque não tinha muito que dizer que tivesse algum interesse.

E mais desconfortável quando saí do estúdio.

Como era tarde fui dormir e no dia seguinte fui ver o que tinha dito.

Não fiquei nada satisfeito, não era nada com a jornalista, era mesmo porque realmente não tinha grande coisa que eu achasse útil para dizer e decidi recusar todos os convites seguintes para ir comentar a situação que resulta da tempestade desta semana.

Verdadeiramente só percebi qual era o meu problema quando comecei a reparar na quantidade de colegas meus e outras pessoas que conheço que, a propósito de um fenómeno de vento invulgar, repetiam a cassete do ordenamento do território, da incompetência (dos outros), da negligência (dos outros) e por aí fora.

Eu, como penso que a generalidade das pessoas, estranho quando vejo um hangar militar cair em cima de aviões que custam milhões de euros.

Eu sei que não é possível planear, projectar, construir para situações extremas, sem provocar a ruína do país, dimensionar todas as estruturas do país para ventos de 200 km/ hora implicaria um custo de investimento e manutenção dificilmente sustentável.

E sei que isso não é uma questão de ordenamento do território (para ser mais preciso, não é primariamente uma questão de ordenamento do território), é essencialmente uma questão de engenharia e economia (descontando o relativo pleonasmo implícito no facto de separar engenharia de economia, como se houvesse boa engenharia que não tenha em atenção o seu contexto tecnológico e económico).

Se, ao contrário do que é a tendência dominante, deixarmos de procurar o responsável que podemos crucificar para aliviarmos a nossa consciência do facto de sermos, como indivíduos e como sociedade, intrinsecamente frágeis e vulneráveis, e passarmos a avaliar sistematicamente o que acontece para aprender a fazer melhor na vez seguinte, quem deveria estar a ser convidado para falar do efeito de fenómenos meteorológicos sobre a estruturas que espalhamos na paisagem, deveria ser quem sabe de meteorologia e clima para perceber o que se passou, e quem sabe de engenharia de estruturas para poder distinguir as situações em que é razoável que um fenómeno daqueles tenha efeitos negativos (a vida é assim), das situações em que mau projecto, má construção ou má manutenção resulta em efeitos socialmente inaceitáveis.

Foi um erro meu aceitar o convite para falar disso, uma coisa é falar de cheias, incêndios, dinâmica de populações selvagens, evolução da paisagem e coisas que tais, sobre as quais tenho um ponto de vista razoavelmente informado (embora frequentemente minoritário, ou seja, provavelmente errado), outra coisa é não perceber que não é pelo facto de alguma coisa ocorrer na paisagem que o conhecimento sobre o funcionamento das paisagens é útil.

E como me recuso a refugiar-me na cantilena do costume, apontando o dedo a toda a gente que tenha um bocadinho de responsabilidade na resposta aos problemas, com base no argumento de que há qualquer coisa lá atrás que deveria ter sido resolvida (mesmo que eu próprio, em devido tempo, não tenha identificado de forma clara essa necessidade), e prefiro centrar-me em compreender e fazer melhor da vez seguinte, fico sem nada de útil para dizer.

É certo que terem morrido menos de dez pessoas no fenómeno meteorológico desta semana é trágico, mas não é menos certo que se calcula que tenham morrido mais de cem pessoas no ciclone de 1941. Não descurando o simplismo da conclusão, isto pode significar que alguma coisa vamos aprendendo, o que aliás é consistente com a ideia, mais que documentada, que morre hoje menos gente por desastres naturais do que morria há cem anos.

Esta é uma das razões pelas quais me parece que temos de ser mais concretos, mais ponderados, mais informados a responsabilizar terceiros pelo que acontece de negativo à nossa volta.

O Integralismo Lusitano e a contemporaneidade

por João Távora, em 30.01.26

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Comecemos por reconhecer a particularidade de o pensamento político português no século XX ser profundamente marcado pela questão monárquica, na ressaca duma revolução republicana e da violência tirânica que se lhe seguiu, mas também da experiência traumática da decadência do liberalismo que culmina em 1908 com a brutal decapitação da monarquia pela atrocidade do terrorismo. O poder cairia na rua, e durante quase dezasseis anos seguidos prevaleceria um clima de guerra civil às mãos dos radicais republicanos e suas milícias.

Ora, a prevalência do debate e pensamento político produzido em Portugal na primeira metade do século XX, conhecido como Integralismo Lusitano, é um caso à parte na cena europeia. Inspirado no tradicionalismo monárquico de Charles Maurras, no contexto político português actual a sua evocação ganha uma nova densidade quando se observa o seu núcleo monárquico. António Sardinha, Hipólito Raposo, Alberto Monsaraz, João do Amaral, José Pequito Rebelo e Almeida Braga pensaram o integralismo como uma reacção orgânica e comunitária à erosão da tradição, tendo a monarquia como pedra angular de um modelo alternativo ao centralismo, ao individualismo e ao materialismo do liberalismo moderno.

Para António Sardinha, a monarquia não era apenas uma forma de governo, mas a expressão mais acabada da continuidade histórica portuguesa, um “regresso às fontes vivas da Pátria”. Defendia que só uma monarquia tradicional poderia garantir a harmonia entre poder central e autonomia local, abrigando a pluralidade municipalista que distinguia a tradição lusa. Hipólito Raposo ia além, afirmando que a monarquia “é a instituição suprema que recolhe e representa o sentimento nacional, acima dos interesses transitórios das facções”. A defesa do município, neste contexto, não se opunha ao trono, mas encontrava nele o garante da descentralização e da verdadeira liberdade das comunidades.

No pensamento integralista, o ideal monárquico entrelaça-se com a centralidade da família e do cristianismo. Monsaraz frisava que “a monarquia é a família ampliada”, sustentando que a estabilidade social repousa sobre vínculos de sangue, tradição e fé — elementos reforçados pelo trono, que dessa lógica é primeiro exemplo. João do Amaral evocava a monarquia como “escudo e espelho dos lares portugueses”, enquanto Pequito Rebelo insistia que “sem a monarquia cristã, Portugal perde a alma e a raiz colectiva”. Almeida Braga, por sua vez, via no cristianismo a inspiração e a legitimidade últimas da realeza portuguesa, fonte de autoridade moral e coesão nacional.

O integralismo, ao propor a restauração monárquica, opunha-se frontalmente ao paradigma liberal e individualista que triunfou com a República. Os integralistas criticavam a atomização social, a instabilidade política e a erosão das solidariedades naturais impostas pelo racionalismo moderno. Uma tese bastante actual, diga-se. Contudo, esta visão não é isenta de tensões: ao defender um modelo orgânico, hierárquico e hereditário, o integralismo entra em contradição com os ideais contemporâneos de igualdade, participação democrática e autonomia individual. O dilema permanece actual: poderia uma monarquia tradicional dialogar com as exigências de uma sociedade plural e aberta, ou representará sempre um regresso irrealizável ao passado?

Dito de outra forma: poderia algum dia esta construção intelectual tão lógica e harmónica elaborada durante décadas pelos mais brilhantes pensadores portugueses, por vezes sumptuosamente poética, aplicar-se à madrasta e cruel realidade que se nos impôs? A resposta está patente nesta citação de António Sardinha retirada da Teoria da Nobreza recentemente publicada na Biblioteca Crítica Fundamental da revista Crítica XXI: “(Nós os integralistas) Não somos conservadores, dada a passividade que a palavra ordinariamente traduz. Somos antes renovadores, com a energia e a agressividade de que as renovações se acompanham sempre. O nosso movimento é fundamentalmente um movimento de guerra. Destina-se a conquistar, e nunca a captar. Não nos importa, pois, que na exposição dos pontos de vista que preconizamos se encontrem aspectos que irritem a comodidade inerte dos que em aspirações moram connosco paredes-meias.“ Este é o problema que não consigo superar: não acredito em políticas implantadas pela força.

No entanto, creio convictamente que reflectir sobre o integralismo lusitano é importante, desde logo como imprescindível património intelectual português, mas porque a proposta dos seus fundadores permanece provocatória: sugerem que só uma ordem monárquica, fundamentada no municipalismo, na família e no cristianismo, poderá restaurar o sentido de comunidade e continuidade. Nada mais actual, nestes tempos de atomização social, desvanecimento das nacionalidades e hiperindividualismo. De resto, a tensão entre tradição e modernidade desafia-nos a imaginar formas renovadas de pertença, onde o legado monárquico se possa cruzar, criticamente, com os valores emergentes da liberdade individual e do pluralismo social.

Porque o nosso destino não está traçado.

Publicado também aqui

Na imagem: Da esquerda para a direita, em pé: Ruy Ulrich, Hipólito Raposo, Luís de Almeida Braga e José Pequito Rebelo; sentados: António Sardinha, Vasco de Carvalho, Luís de Freitas Branco, Xavier Cordeiro e Alberto Monsaraz.

Pessoas

por henrique pereira dos santos, em 29.01.26

Desde o princípio (não quer dizer que será sempre assim, até porque a discussão é recorrente) a Montis decidiu não ter programas de educação ambiental tal como é habitual nas organizações de conservação, numa lógica expositiva, indo às escolas, etc..

Para além da facilidade com isso consome recursos sem que se consigam perceber que resultados decorrem desse esforço, a ideia central é de que não vale a pena tentar transmitir o que a Montis pensa sobre conservação, entre outras razões, porque a Montis não pensa nada, os seus sócios, na sua diversidade, pensam, e não pensam todos da mesma maneira.

A opção foi noutro sentido: trazer as pessoas para as nossas propriedades para que, ao trabalhar na sua gestão, formassem as opiniões que quisessem sobre a bondade do trabalho, o que se poderia fazer diferente e melhor, o esforço necessário para fazer alguma coisa, a contingência dos resultados, etc..

Desde sempre se procurou, devo dizer, com resultados que não classificaria como decepcionantes mas, ainda assim, longe do que se gostaria, manter programas de voluntariado activos, com diferentes públicos e diferentes características, mas sempre, sempre subordinados à ideia que a melhor forma de educar com objectivos de conservação é experimentar gerir.

Por exemplo, olhando para este post do início deste Outono, vemos uma fotografia de algumas pessoas e ficamos a saber que foram plantadas 89 árvores. Acresce que, não diria este ano, que tem corrido húmido, mas em anos de seca anteriores, as taxas de sucesso destas plantações andavam perto dos 10% (hoje penso que são maiores, aparentemente temos aprendido alguma coisa).

O trabalho voluntário (ver, por exemplo, o post mais recente do blog), tirando situações relativamente raras, infelizmente, como a da Sara, é um trabalho razoavelmente ineficiente, exige recursos para a captação de voluntários, exige recursos para o acompanhamento de voluntários, ou seja, acaba por ser mais caro que o trabalho profissional.

Claro que há valor de conservação associado ao trabalho voluntário, as tais 8 a 10 árvores que possam sobreviver das 89 plantadas representam uma enorme aceleração do processo de alteração da paisagem do baldio de Carvalhais, porque se trata de matos contínuos, com muito poucas fontes que permitam o aparecimento de novas plantas por semente, e ter mais dez árvores (não se enganem, ao fim de dez anos de trabalho, o número de árvores novas nos cem hectares que estão sob gestão da Montis é já muito grande, ainda são relativamente novas, muitas ainda não produzem novas sementes, mas seriam precisos muito anos para chegar, sem ajuda, ao ponto em que estamos) representa o ganho de vários anos de evolução em relação ao que seria a expansão natural que está, sem dúvida, a ocorrer.

Só que não é esse o verdadeiro valor do trabalho voluntário, a razão central pela qual a Montis tem investido bastante nos seus múltiplos programas de voluntariado é diferente e bem mais prosaica.

O que se pretende é criar oportunidades para que muitas pessoas possam gerir paisagens com a sua cabeça e as suas mãos, para que tenham as opiniões que quiserem sobre conservação da natureza, só que mais informadas, com os pés na terra e sabendo o que custa gerir, à custa do seu próprio esforço.

A mim parece-me uma razão mais que suficiente para que parte do trabalho de gestão da Montis seja feito por voluntários, mesmo que fique, como fica, bastante mais caro que pagar a profissionais.

O direito Internacional não mudou. As circunstancias sim.  

por Jose Miguel Roque Martins, em 28.01.26

Clamores quanto à ultrapassagem do direito internacional, são muito frequentes, porque de facto, as transgressões são muitas. Mas normalmente, cada um de nós só se agita perto de metade das vezes: quando não gostamos do resultado.

No meu caso, raptar Maduro, bombardear o irão ou qualquer acção que eu considere ser contra os “maus”, não deixa de ser uma violação do direito internacional. Mas honestamente, no meu íntimo, não me incomoda verdadeiramente, já que parece, embora ilegal, o que importa em mais riscos gerais de ofensa a lei, em si mesmos, actos justos. Já a invasão da Ucrânia, a repressão aos Uigures, ou as acções bárbaras perpetrados pelo Hamas no dia 7 de Outubro, arrepiam-me. E sou, como todos, muito sensível ao sofrimento de inocentes e crianças.

Comigo, sempre assim foi e, suspeito, acontece o mesmo com a enorme maioria das pessoas. Apenas os “bons” e “maus” de cada um vão diferindo em função de diferentes perspectivas.   

Infracções ao direito internacional são frequentes, constantes, habituais, e acontecem desde o momento em que foi estabelecido. A grande diferença nos dias de hoje são duas. E fazem diferença.

A primeira é que não disfarçar hipocritamente as violações que se fazem e que se pretendem fazer, sobretudo por alguém que era o arauto do mundo livre, o presidente dos EUA, incomoda. Expõe que a protecção que o direito internacional concedia a todos, é mesmo uma ilusão, pelo que aumenta o sentimento de insegurança de todos. Substancialmente nada muda, mas nem haver a consideração de fazer de conta que o direito internacional é para cumprir, assusta.

A segunda, e mais grave para os europeus, é que perderam a absoluta convicção que os EUA seriam absolutamente solidários com infracções do direito internacional que prejudicassem a Europa. E aí, não é apenas um sentimento, são consequências de facto novas que se adivinham.

 

 

Trump, o amigo da Europa

por Jose Miguel Roque Martins, em 27.01.26

Como muitos, detesto o boçal Trump, mas, na verdade, Trump será provavelmente lembrado como um grande amigo da Europa.

Os EUA deixaram de pagar as contas de defesa da Europa, ficou claro que se os Europeus querem uma parceria, têm de ter valor e capacidades próprias, o que tem toda a lógica. Que importa aos EUA terem um parceiro que se assume apenas como despesa continua?

A longo prazo será que obrigar a Europa, como parece que terá de acontecer, a ter defesa própria, não será um grande favor, mesmo que isso signifique pagar a conta? 

Os EUA, num movimento aparentemente absurdo, entraram em guerra comercial com a Europa. Uma agressão inesperada. No que parece ter sido um incentivo para finalmente se fechar o acordo do Mercosul e agora também um importante acordo com a Índia. Note-se que, em ambos os casos, as negociações prolongavam-se por décadas.

A loucura de Trump não terá dado um incentivo à Europa, ao Mercosul e à Índia, para fazerem o que já deveriam ter feito à mais tempo?

Não sei se a intenção de Trump é acabar por diminuir o poder dos EUA, mas é o que parece estar a acontecer, uma analise a ser feita no outro lado do atlantico.  Mas a Europa, está a dar passos para uma vida, mais dura, mas mais adulta.

 

 

Do tempo e da paisagem

por henrique pereira dos santos, em 26.01.26

Só quando comecei a escrever o título deste post (o tempo e a gestão da paisagem) é que reparei como estava próximo do título do meu primeiro livro e adoptei-o para o título do post.

O post começa com um comentário ao que escrevi sobre a propriedade e a gestão da paisagem: "Quem doa terrenos para fins de conservação quer ter a certeza de que pelo menos a gestão irá ser substancialmente diferente. Não me parece que seja o caso."

O comentário é especialmente interessante por acompanhar uma discussão que existe na Montis desde o seu primeiro dia, que se prende com a necessidade de dar visibilidade ao que se pretende fazer e à forma como se consegue fazer o que se pretende.

Desde o início da Montis que há duas linhas de pensamento: a que entende que a Montis se deveria concentrar num terreno suficientemente pequeno para concentrar os parcos recursos que tem, de modo a que a sua acção seja claramente rapidamente perceptível; a que entende que o impacto da Montis será tanto maior quanto mais área gerir e do que precisa é de ter um modelo de gestão incremental em que pequenas acções contribuem, no longo prazo para os resultados pretendidos.

A opção, até hoje, tem sido a segunda (mas um dia será a primeira, o mais natural é que as opções de expansão e concentração se vão alternando num movimento pendular), como explicado aqui.

Talvez a expressão mais clara dessa opção - pequenas intervenções que estrategicamente influenciam os processos naturais que estão a ocorrer, em detrimento de grandes intervenções para contrariar processos naturais - seja o que andamos a fazer na Pampilhosa da Serra.

Há uns anos comprámos, através de uma subscrição pública, um eucaliptal sem grande interesse de produção (com tão pouco interesse que o proprietário anterior nem se tinha dado ao trabalho de seleccionar as varolas, depois do corte).

Como se explica aqui, poderíamos fazer uma intervenção pesada, mais visível, com resultados mais rápidos, e mais cara, mas optámos por uma reconversão lenta, de baixo custo, de elevado envolvimento de pessoas comuns, que permitisse demonstrar que a reconversão de pequenos eucaliptais sem interesse de produção é simples e pode ser feita por qualquer pessoa, desde que se dê tempo ao tempo.

Resumindo, até agora, o que não quer dizer que seja assim no futuro, a Montis tem optado por contar com o tempo, como uma das suas principais ferramentas de gestão da paisagem.

Haverá sempre que fique impaciente com essa opção, confundindo a lentidão da evolução com ausência de gestão, mas não estou convencido de que tenha informação suficiente sobre as grandes alterações que estão a ocorrer a partir de pequenas intervenções nas propriedades geridas pela Montis.

A choldra

por henrique pereira dos santos, em 25.01.26

Ontem o Público tinha uma notícia sobre uma reunião de dirigentes que ocorreu no Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (declaração de interesses, sou funcionário dessa instituição e, já agora, amigo de longa data do seu presidente, com quem mantenho profundas divergências no que à gestão do Instituto diz respeito).

Essa reunião já tinha, aliás, sido referida pela Ministra do Ambiente quando uns dias antes foi ouvida na Assembleia da República, e era uma reunião entre dirigentes do ICNF e a tutela política, no contexto de uma putativa reestruturação do ICNF.

Não é habitual haver notícias sobre reuniões internas de organismos públicos, mas o que se passa neste caso resulta de uma longa tensão entre a vontade do Governo aprovar de forma rápida e eficiente projectos que entende que são importantes para o país e a forma como são tomadas decisões pelos organismos ambientais, em especial o ICNF, tensão essa que não é de agora, é historicamente assim, com os diferentes governos e, convenhamos, será sempre assim, dando origem a inúmeras reestruturações (nalgumas delas participei activamente, não é o caso agora) que, desta vez (como em várias outras anteriores) há quem entenda que significam o fim das políticas de conservação tal como têm existido.

A polémica actual é um bom espelho do estado deplorável em que está a administração pública, a acção política e o jornalismo.

Comecemos pelos jornalismo.

A jornalista faz a peça com base em fontes anónimas, isto é, em princípio, dirigentes do ICNF que estiveram na reunião foram a correr para os braços da jornalista, quebrando as suas obrigações legais, mas sobretudo morais, de lealdade institucional.

Como se vê, eu escrevo o que me passa pela cabeça em relação à gestão do organismo em que trabalho, mas duvido que alguém consiga encontrar um único texto meu a falar de processos em curso sobre os quais eu tenha informação que decorre das minhas obrigações institucionais. Não se faz, em primeiro lugar, é ilegal, em segundo.

E das centenas de vezes que fui contactado por jornalistas a propósito de questões profissionais, não penso que exista um único registo meu a falar sob anonimato: ou não podia responder, e não respondia, ou se respondia, sempre, sempre, sempre, assumi a responsabilidade pelo que dizia, assinando por baixo, apesar das inúmeras ofertas de jornalistas me citarem sob anonimato para eu não ter problemas e poder falar mais livremente (a liberdade, caros jornalistas, não se defende escondendo a mão que atira a pedra).

Portanto, o jornalismo, como vem sendo hábito, prefere a intriga à informação, usando fontes anónimas interessadas para fazer peças que não tem maneira de confirmar.

O que o ministro da agricultura fez, depois de ser acusado de dizer que se a lei não permite a aprovação de qualquer coisa se muda a lei, e enquanto a lei não é mudada, relativiza-se a lei, foi disponibilizar um vídeo com a sua intervenção integral nessa reunião onde não podia estar fisicamente, um vídeo indigente, paternalista, com a esperteza habitual nestas matérias, em que diz coisas formalmente correctas, que se sabe que vão ser interpretadas da maneira incorrecta que pretende, mas não pode dizer.

Sim, é verdade que a peça jornalística não traduz correctamente o que ministro disse (e não sabemos se traduz correctamente o que o ministro pretendia dizer, porque não podemos fazer processos de intenções), mas em vez do senhor ministro se limitar a dizer que a peça, por responsabilidade da jornalista ou da sua fonte (é irrelevante), não traduz correctamente o que diz, desembesta em acusações aos dirigentes do ICNF, partindo do princípio de que a jornalista é impoluta (o Ministro não quer comprar uma guerra com jornalistas, outro dos problemas na choldra) e que os dirigentes a quem se dirigiu (alguns, poucos, tem o cuidado de dizer, sonsamente) são uns mentirosos (é sempre politicamente mais fácil atacar os que dependem de si que contestar lealmente quem escreve nos jornais, não é, senhor ministro?).

O Presidente do ICNF, ou seja, o general que parece não saber que quando se perde uma guerra a responsabilidade é sempre do general, nunca do soldado, resolveu (incompreensivelmente para mim), fazer eco das acusações do ministro.

O ministro tem razão em dizer que quando a lei impede um projecto, é preciso perguntar-se se a lei é a adequada ou se não será melhor mudá-la.

Mas essa responsabilidade é sua, Senhor Ministro, não é do técnico que emite o parecer.

A lei de protecção do sobreiro e da azinheira é absurda e estupidamente castradora, há anos que muita gente diz isso, está directamente sob sua tutela, o que fez para a mudar?

Nada, evidentemente, como os seus antecessores, porque significa comprar uma guerra política séria (as ONG e os jornalistas vão-lhe cair em cima a dizer que está ligado aos interesses e desvaloriza a conservação do património e essas balelas do costume, com um ganho político marginal, porque será sempre criticado pela aprovação de projectos que algumas pessoas acham que não deviam existir).

O senhor ministro tem razão quando diz que, frequentemente, a forma como é aplicada a lei e a sua interpretação é, pelo menos, discutível.

Mas a responsabilidade é sua, Senhor Ministro, é o senhor que nomeia gente sem espinha e sem qualificações para os cargos de direcção, usando uma CRESAP completamente desacreditada com máquina de lavar responsabilidades das suas escolhas de dirigentes, é o senhor que aceita a forma como funciona uma administração pública sem avaliação séria de resultados, é o senhor que varre para debaixo do tapete as responsabilidades que deveria exigir dos serviços que tutela, é o senhor que tem gabinetes de apoio mastodônticos que pretendem substituir a administração pública no apoio à definição de políticas, porque não confia (e bem) numa administração pública em estado miserável.

Tem razão, Senhor Ministro, o seu vídeo não diz o que a jornalista diz que diz, mas diz muito mais e, infelizmente, muito pior, do estado a que se chegou no jornalismo, na administração e na acção política.

Para além de uma choldra, D. Carlos dizia do país que era uma piolheira.

Infelizmente, as suas apreciações, hoje, parecem bem mais suaves que o que realmente caracteriza o país com rigor.

Domingo

por João Távora, em 25.01.26

Leitura da Primeira Epístola do apóstolo S. Paulo aos Coríntios Irmãos:

Rogo-vos, pelo nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, que faleis todos a mesma linguagem e que não haja divisões entre vós, permanecendo bem unidos, no mesmo pensar e no mesmo agir. Eu soube, meus irmãos, pela gente de Cloé, que há divisões entre vós, que há entre vós quem diga: «Eu sou de Paulo», «eu de Apolo», «eu de Pedro», «eu de Cristo». Estará Cristo dividido? Porventura Paulo foi crucificado por vós? Foi em nome de Paulo que recebestes o Batismo? Na verdade, Cristo não me enviou para batizar, mas para anunciar o Evangelho; não, porém, com sabedoria de palavras, a fim de não desvirtuar a cruz de Cristo.

Palavra do Senhor.

Recomendações de voto... Que votemos

por João-Afonso Machado, em 24.01.26

Nas ultimas eleições legislativas a abstenção não chegou aos 42%. Na primeira ronda das presidenciais rondou os 47%. Aparentemente, os portugueses preocupam-se mais com a escolha parlamentar/governativa do que com a chefia do Estado. No que muito bem procedem.

Entretanto, a sondagem da Univ. Católica (ontem divulgada) aponta para 70% pró Seguro versus 30% a favor de Ventura. Repetindo um dizer próximo do célebre "prognósticos só depois do jogo", escrevo "as sondagens valem o que valem". Só para não correr riscos comprometedores.

Mas a Católica prima por esses estudos, perspectivas que, geralmente, a realidade depois confirma. São as mais fiáveis, as da Univ. Católica. E de 70% para 30% decorre uma margem tão extensa que a vitória de Seguro parece incontornável.

Não sinto nem alegria nem tristeza perante o tal resultado. Não sou repubicano, não voto em qualquer candidatura e sigo o assunto à distância. Tento percebê-lo. Ventura será a derrota da malcriação; Seguro, a manutenção do status quo vigente e o discurso redondo, sem mais. Não é por aqui que a Nação se revitalizará.

Mas a mudança urge. Com a rapidez com que Portugal acolhe novas gerações e novas gentes. E, neste contexto, atrevo-me a apelar à formação do Partido do Voto Nulo (PNV). Um partido que dispensa formalidades constitutivas, listas de promotores ou de candidatos a cargos e mesmo do prévio assentimento do Tribunal Constitucional. O PNV apenas funcionará à boca das urnas. E apenas requer a ida ao posto eleitoral, se possível com uma frase no boletim de voto, do tipo - "Pela Monarquia sempre".

Algo que será contabilizado, conquanto sem quaisquer menções exteriorizadas. Mas a votação é escrutinada em cada mesa e, por essa via, a verdade saltará cá para fora. Mais tarde ou mais cedo. Quanto não seja, entre os múltiplos escrutinadores espalhados Portugal fora.

E assim, sem acintes, os portugueses darão conta de que somos - os fieis da Monarquia - muitos, muitíssimos. No caminho da maioria.

 

Sobre propriedade e gestão da paisagem

por henrique pereira dos santos, em 24.01.26

Quando fundámos a Montis, copiando o modelo da ATN, hoje Faia Brava, a ideia central era usar a custódia sobre um terreno para gerir com objectivos de produção da biodiversidade.

A forma mais sólida de garantir essa custódia, em sistemas capitalistas e liberais, é garantir a propriedade da terra (nos outros sistemas não há forma sólida de garantir isso, gerando sistemas inacreditavelmente ineficientes e corruptos de gestão da terra).

Garantir a propriedade é, portanto, o primeiro objectivo que eu acho que a Montis tem (outros, dentro da Montis, poderão achar outras coisas).

Acontece que a Montis foi fundada por meia dúzia de falidos, sem capital, ou seja, a Montis não foi fundada com capital suficiente para começar a partir de uma propriedade, mas era fundamental gerir qualquer coisa para que fosse possível demonstrar, a prazo, o que se pretende com a associação.

A Montis não foi fundada para salvar o que quer que seja, para ser contra o que quer que seja, para defender outras ideias que não a ideia de que é bom que haja quem faça gestão da paisagem com objectivos de conservação (na concepção menos habitual de que conservar a natureza é produzir biodiversidade, não é ficar paralisado pela maravilha da natureza intocável), o que limita muito a sua capacidade de mobilização, por não se organizar em função de inimigos externos movidos por "interesses".

Para resolver este nó górdio fizemos três coisas: 1) estabelecer contratos de cedência de terrenos que nos garantissem um tempo mínimo de custódia de terrenos de dez anos; 2) lançar umas campanhas de subscrição pública para comprar os primeiros terrenos; 3) angariar, se possível doações de terrenos.

Este terceiro ponto tem ainda menos expressão que os terrenos comprados, até agora, não tendo a Montis sido capaz de ter doações como, por exemplo, a Quinta da Moenda, em que penso (nunca lá fui, mas vou vendo por aí) que a Liga para a Protecção da Natureza tem feito um bom trabalho.

A única doação que tivemos, porque uma empresa do Estado não os quis receber, foram dez pequeníssimas a ínfimas propriedades, que ainda não conseguimos integrar totalmente no que vamos gerindo, mas um dia lá se chegará, e uma possibilidade muito real de José Manuel Fernandes nos doar uma propriedade que encontrou nos papéis das heranças da família e que há cem anos ninguém visita com objectivos de gestão, de tal forma que ainda estamos a identificar exactamente qual é o terreno (estamos perto, muito perto de resolver isso).

Esta questão da custódia de terrenos é uma questão relevante para a gestão da paisagem, mas infelizmente todos os governos têm olhado para ela a partir de um ponto de vista moral - os donos têm obrigações de gestão do que é seu -, desenvolvendo programas de acção cujo objectivo é garantir a gestão adequada dos terrenos abandonados, com a agravante de haver demasiada gente que está convencida de que esses terrenos têm algum valor, desde que sejam criadas - pelo Estado, claro - as condições ideais de exploração.

Por mim, preferia uma outra abordagem, deixando de lado a perseguição moral dos malandros dos proprietários que não gerem nem vendem, uma parte porque os terrenos não valem nada, outra parte porque o esforço de venda é desproprocional ao ganho, dadas as regras estabelecidas pelo Estado, mas dando clareza e estabilidade jurídica ao que já vai acontecendo ilegalmente, ou seja, em condições geradoras de ineficiência.

A minha ideia é que se deveria institucionalizar a possibilidade, administrativamente simples, de alguém tomar posse de um terreno, desde que não haja oposição de ninguém, desde que no prazo de dois anos iniciasse acções relevantes de gestão. Não o fazendo, perderia quaisquer direitos sobre o terreno, podendo começar o processo depois de um período de nojo de cinco anos.

Simples, claro e dando a possibilidade de qualquer pessoa ou organização se apropriar de terrenos ao abandono, com protecção do sistema jurídico, desde que não houvesse oposição a essa tomada de posse.

Até lá, pensem bem se não seria de considerar a doação de umas coisas quaisquer que vos caíram no colo, cujo destino não sabem qual seja.

Falemos do que interessa

por henrique pereira dos santos, em 23.01.26

A Montis é uma associação de conservação a que estou ligado (neste momento, não em funções executivas, vou ver se consigo pôr em funcionamento um conselho consultivo que junta Hélia Marchante, António Salgueiro, Carlos Aguiar, Henk Feith, Humberto Rosa, Ivan Sellers, Luís Tiago Filipe, Nuno Neves, Pedro Braz Teixeira e Wouter de Broek) e que se foca na gestão de terrenos com objectivos de biodiversidade, não tendo posições de política.

Começou pequenina há dez anos e continua pequena ao fim de dez anos - tem à volta de 350 sócios que pagam uma quota anual de 25 euros - mas lá vai gerindo, como consegue, entre 300 e 400 hectares, espalhados por várias partes do país.

Uns terrenos são da Montis, que os comprou com recurso a crowdfunding (como se chamam agora as subscrições públicas), uma parte demasiado pequena para meu gosto, menos de 20 hectares, outros são de terceiros, com acordos de cedência de gestão que implicam algum tempo de garantia de gestão pela Montis, e zero troca comercial (em rigor nalguns terrenos que são da Altri Florestal, há um acordo de colaboração paralelo que implica que a Altri pague parte da gestão, mas não é esse o padrão).

Um dia, num almoço do Corta-fitas, apareceu na conversa uma doação de terrenos à Real Associação de Lisboa, que andava à procura de uma solução para a sua gestão, e daí resultaram conversas e acordos que desaguaram na cedência de gestão à Montis.

É do que se fala neste post da Montis, em que se dá conta de como, lentamente, se vai começando a intervir no terreno, sempre, sempre com o objectivo de produzir mais biodiversidade (de maneira geral, processos relativamente lentos, quer porque a Montis não tem recursos, quer porque é da natureza das coisas que a regeneração natural precise de tempo).

É certo que escrevo aqui sobre muitas outras coisas, mas do que gosto mesmo é disto, da capacidade de com pequenas acções, persistentemente no mesmo sentido, ir conduzindo uma paisagem no sentido de ser socialmente mais útil, com maior produção de biodiversidade.

Em relação ao que gostaria, há muita coisa que anda está longe, se usamos o fogo desde o princípio na gestão da biodiversidade, se usamos o voluntariado como forma de envolver pessoas na gestão da paisagem, se contamos com os processos naturais para os optimizar, a verdade é que outras ferramentas que exigem mais recursos, e recursos mais regulares, como o uso do pastoreio na gestão, ainda estão longe de poder ser usadas.

Lá chegaremos, quem quiser conhecer melhor a Montis tem uma boa oportunidade no Sábado dia 31 de Janeiro, no Paúl de Arzila, para a zona de Coimbra.

Apareçam e façam-se sócios, as quotas são dos vinte cinco euros mais bem gastos do ano, garanto eu.

Da importância da abstenção

por João Távora, em 23.01.26

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A elevada taxa de abstenção nas eleições presidenciais de 18 de Janeiro, que atingiu 48%, revela uma preocupante falta de adesão dos portugueses ao modelo de Chefia de Estado vigente. Acrescente-se ainda que mais de 3% dos votos foram brancos ou nulos, indicando que a maioria dos cidadãos não se sente representada por este sistema, onde o Chefe de Estado é tradicionalmente escolhido entre líderes partidários. Estes números não surgem do nada, reflectem uma tendência de distanciamento crescente entre eleitores e instituições políticas nacionais.

Pela minha parte estou vivamente empenhado que o número de votos brancos e nulos suba substancialmente na segunda volta, reforçando e explicitando essa posição passiva.

No entanto não coloco as expectativas demasiado altas, pois sei que demasiada gente vive inebriada na contenda eleitoral do próximo dia 8. É natural, pois há décadas que se habituaram ao nosso sistema político que tudo reduz a disputas sectárias entre “nós e eles”. Nasceram e cresceram na guerra fratricida entre “direita” vs “esquerda”, um jogo viciante que entre nós tudo envenena, um jogo fácil a que tantos portugueses reduzem a sua participação cívica nos destinos da Pátria, perpetuando a fractura social que desincentiva o envolvimento dos cidadãos nas causas públicas. Curiosamente, é nos países mais desenvolvidos, onde não se perde tempo com esta coisa de eleições presidenciais, que a população mais intervém, através dos organismos e instituições dos seus países. Por exemplo, na Suécia e na Noruega, onde não há eleições presidenciais, a participação cívica é incentivada por meio de conselhos locais e associações comunitárias, resultando em níveis de envolvimento superiores a 70% segundo dados da OCDE.

Talvez fosse conveniente promover debates públicos sobre modelos diferentes de Chefia de Estado e colocar à consideração popular reformas que permitam outra solução.

Torna-se necessário enviar um sinal, a coerência é um assunto importante.

Vamos ter um Presidente socialista. Resta saber qual

por Miguel A. Baptista, em 22.01.26

Nenhum dos dois candidatos em presença é um liberal no sentido político do termo. Nenhum defende uma sociedade estruturalmente mais livre, mais moderna ou mais pujante do ponto de vista económico. 

Ambos perfilham modelos marcadamente assistencialistas, justicialistas e, em diferentes graus, populistas. Divergem no discurso, no estilo e no folclore; convergem no essencial: na crença de que é o Estado que resolve os problemas das pessoas e de que esses problemas se resolvem, sobretudo, atirando dinheiro para cima deles. 

Chamar “socialista” a Ventura, como fiz deliberadamente no título, não é rigoroso em termos clássicos de ciência política. É uma provocação. Mas não é uma provocação absurda, e importa explicar porquê. 

A Argentina oferece um paralelo útil. Durante grande parte do último século foi governada por peronistas. Houve peronistas de esquerda, como Cristina Kirchner, e peronistas de direita, como Carlos Menem. Apesar das diferenças ideológicas nos costumes e nos valores sociais, ambos partilharam traços estruturais: populismo, desconfiança do liberalismo, estatismo económico e a convicção de que o Estado é o instrumento central de redistribuição e tutela social. 

As diferenças residiam mais no folclore e na moral pública do que no modelo económico. O peronismo de direita é mais conservador nos costumes; o de esquerda, mais progressista. Transpondo este quadro para o contexto português, António José Seguro encaixa quase na perfeição no arquétipo de um peronista de esquerda, enquanto Ventura se aproxima bastante do modelo de um peronista de direita. 

Para quem considere exagerado atribuir a Ventura uma veia “socialista”, os factos ajudam. No último Orçamento do Estado, PS e Chega votaram juntos 82 vezes em alterações orçamentais. Sempre que a solução passava por “dar coisas”, aumentar despesa ou socializar custos, PS e Chega encontraram-se. 

Se a questão for um pequeno ajustamento nas propinas, ainda que simbólico, aproximando-as do seu custo real e responsabilizando os estudantes, PS e Chega unem-se para impedir. 
Se a escolha for entre o pagamento de uma portagem pelo utilizador ou a sua diluição pelo contribuinte, PS e Chega convergem na promoção da ilusão da gratuitidade. 
Se a TAP escapar ao controlo do Estado, ambos chorarão o desaire. 

O estatismo de Ventura é, aliás, tão pronunciado que durante a vaga inflacionista causada pela guerra na Ucrânia defendeu preços tabelados e margens controladas — uma proposta que nem a própria Mariana Mortágua chegou a avançar. 

Mas a convergência não se esgota no que defendem; manifesta-se também no que não têm coragem de defender. Nenhum dos dois foi capaz de apoiar claramente o pacote laboral, mesmo quando este se apresentava como tímido e moderado. Nenhum teve a coragem política de se demarcar da greve geral, preferindo acenar à rua, aos sindicatos e ao descontentamento organizado, em vez de assumir uma posição responsável, ainda que impopular. Ambos revelam a mesma aversão ao conflito reformista e a mesma dependência do aplauso imediato. 

Tudo isto conduz a uma conclusão desconfortável para muitos dos seus apoiantes: ao nível do modelo económico, as diferenças entre Ventura e Seguro são reduzidas. Ambos defendem soluções assistencialistas incapazes de gerar crescimento sustentado e criação de riqueza a longo prazo. Nenhum parece disposto a promover as reformas estruturais, quase sempre dolorosas, de que o país necessita. Mantendo a terminologia provocatória do título: ambos são socialistas. 

A questão relevante passa então a ser outra. Até que ponto me incomoda ter um socialista em Belém? E, sendo essa uma inevitabilidade, como escolher entre os dois? 

A verdade é que isso, por si só, não me incomoda particularmente. O Presidente da República não governa nem legisla. A sua função é moderar, arbitrar e garantir o regular funcionamento das instituições. Idealmente, teria uma visão económica mais moderna e estaria disponível para apoiar reformas necessárias, ainda que impopulares. Mas isso é desejável, não essencial. 

O essencial é outro: entre estes dois socialistas, qual está mais talhado para a função moderadora? 
Qual deles, suficientemente afastado do seu partido de origem, será capaz de assumir o papel de árbitro isento? 
E qual corre maior risco de confundir cargos e funções, inclinando o terreno do jogo a favor do seu campo político, fragilizando a lógica de "checks and balances" que sustenta a função presidencial? 

Para mim, a resposta é absolutamente evidente. 

 

Os impacientes

por henrique pereira dos santos, em 22.01.26

Há um conjunto de pessoas à direita que está muito zangada com Montenegro porque é um taticista, imita a governação de Costa, não resolvendo nada e não fazendo as reformas imperativas de que o país precisa.

Sem tentar ser exaustivo, diria que Rui Ramos, José Manuel Fernandes, Helena Matos, João Miguel Tavares, Miguel Morgado, e poderia continuar, que se situam mais ou menos entre o PSD e o Chega (uns mais para o Governo, outros mais para o Chega, outros nos  subúrbios da Iniciativa Liberal), de há uns tempos para cá, têm vindo a radicalizar o seu desdém pelas opções políticas de Montenegro, achando que é um homem sem coragem para fazer o que tem de ser feito.

Devo dizer que já estive mais perto de pensar isto de Montenegro, tal como a generalidade destes, eu gostaria de ter Passos Coelho como primeiro ministro, mas ao contrário deles, em quem eu gostaria mesmo de votar era na troica, não em Passos Coelho.

Traduzindo, tenho um imenso apreço (e gratidão) por Passos Coelho, defendi-o com unhas e dentes durante os dificeis anos da troica (já agora, não me lembro de, nessa altura, ter ouvido ou lido o que quer que seja de André Ventura sobre o assunto), mas valorizo mais os contextos que as pessoas: Passos Coelho foi excelente no contexto difícil que lhe coube em sorte, sem esse contexto não sabemos o que teria sido.

E é essa atenção ao contexto que me separa dos impacientes de que falei, servindo-me da crónica de hoje de João Miguel Tavares para ir ilustrando o que penso.

Uma boa parte destes impacientes coincidem num ponto: é preciso um governo forte para fazer reformas difíceis, frequentemente impopulares, e isso só se consegue com uma maioria absoluta, como tiveram Cavaco, Sócrates e Passos Coelho (este numa coligação em que a fiabilidade do parceiro ficou demonstrada pelo episódio do irrevogável).

Montenegro não tem uma maioria absoluta.

Dirão que é exactamente porque é politicamente cobarde e tem medo, por isso incapaz de ser um caudilho que leva a nação atrás, dando o exemplo de Cavaco e do seu governo minoritário, desvalorizando os contextos diferentes de um e de outro, Cavaco a aproveitar a boleia dos resultados de um forte programa de ajustamento financeiro sobre o qual se dá um processo de rápido desenvolvimento na sequência da normalização social do país, Montenegro a aguentar a degradação do Estado e a zanga social resultante do governo de Costa (ele próprio se pôs ao fresco, com medo de ter de apanhar as canas dos foguetes que andou a lançar).

Talvez Passos Coelho, se tivesse estado disponível para combater Rui Rio (que foi o que fez Cavaco internamente, antes do seu famoso governo minoritário) e apresentar-se a eleições, conseguisse uma maioria absoluta, mas a probabilidade era muito baixa, independentemente do facto de Passos não estar disponível.

Montenegro tem, por isso, uma circunstância muito difícil: uma maioria mínima e, pela primeira vez, um partido forte à esquerda e outro à direita.

A tese dos impacientes é a de que Montenegro deveria ter feito uma coligação com o partido à direita para ter força para fazer as reformas de que o país precisa.

Não tenho a certeza de que teria sido uma boa ideia, não estou a ver Ventura atravessar-se na defesa de uma liberalização real e a sério do mercado de arrendamento, e o flic-flac que fez a propósito do pacote laboral e da greve geral parece confirmar que o Chega não é um partido reformista, é um partido de protesto, com diagnósticos que o fazem falar de assuntos sérios que os outros evitam, mas sem a menor coragem para correr o risco de tomar medidas impopulares (o Chega apresenta-se como tendo uma grande coragem para combater o sistema, mas não tem demonstrado a menor coragem para correr riscos de popularidade, como disse Pedro Pinto, para beneficiar os portugueses, até com o Diabo fará acordos).

Montenegro tem, consequentemente, dois problemas, um programático (é difícil perceber realmente o que quer o Chega fazer e como), outro de confiança (pessoalmente entendo-o perfeitamente, eu também não compraria um carro usado a André Ventura).

Concluem os impacientes que isso bloqueia o sistema, e Montenegro se limita a gerir o dia a dia, sem resolver nada.

João Miguel Tavares deixa cautelosamente de lado as finanças públicas (em cujo equilíbrio o Chega não demonstra o menor empenho, mas que tem vindo a ser simplificadas por Montenegro, ao mesmo tempo que vai baixando os impostos), a educação (em que manifestamente há empenho reformista) e diz que na imigração, na saúde e na habitação, Montenegro é igual a Costa, não resolve nada.

Talvez João Miguel Tavares não tivesse ouvido com atenção Ventura (eu sei que ninguém liga nenhuma ao que diz Ventura, nem os seus apoiantes, nem os seus detractores, mas eu ligo), na noite das eleições, a dizer que era a força que os portugueses tinham dado ao Chega que permitia que o país estivesse a melhorar. É Ventura a testar a ligeira adaptação do discurso aos resultados actuais e, sobretudo futuros, das políticas de migração e habitação.

Montenegro reformou de facto a política de migração (se bem, se mal, ver-se-á com o tempo, o que não se pode negar é que o tenha feito), está a reformar profundamente o sector da habitação (se eu acho que seria preciso uma liberalização imediata e radical do arrendamento urbano, acho, se acho politicamente possível, tenho as maiores dúvidas, o que não posso negar é que o governo tem vindo a tomar medidas para mudar estruturalmente a habitação) e, na saúde, suspeito que está a fazer alguma coisa pelo berreiro que fazem as corporações interessadas, mas não tenho maneira de ter opinião própria sobre o sector.

Montenegro tem vindo a fazer isto lentamente?

Sim, tem, eu preferia que fosse mais rápido.

Mas seria possível ser de forma diferente?

Tenho as maiores dúvidas, e Passos Coelho também deve ter, porque não tem demonstrado o menor interesse em regressar à política activa, apesar de ser, hoje, o maior activo político que existe no país.

Mas quando o maior activo político do país não quer ser ser um político no activo, talvez seja boa ideia perceber melhor os limites da acção política resultantes do contexto que existe, em vez de passar o tempo a fazer tiro ao alvo ao incumbente de cada momento.

Acresce que ninguém consegue explicar muito bem como se altera esse contexto de um momento para o outro.

Soluções e desilusões

por João Távora, em 22.01.26

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Tenho uma profunda aversão a revoluções. Na minha experiência pessoal, presenciei uma revolução e toda a instabilidade que dela resultou, quase originando um regime ainda mais opressivo do que o Estado Novo. A História mostra que este é um padrão recorrente: sem recorrer ao exemplo extremo da Revolução Francesa, basta recordar o impacto negativo da acção revolucionária do Marquês de Pombal, das revoluções liberais e da consequente guerra civil, culminando décadas depois na revolução republicana. Na minha família correm histórias terríveis sobre todos esses períodos conturbados.

Analisando o último caso, é evidente que a revolução republicana prosperou, sobretudo nas duas últimas décadas da monarquia, graças a uma estratégia populista e nacionalista implacável aplicada nos meios urbanos, alimentando sistematicamente o ressentimento e provocando emoções básicas, como o medo e a revolta. O contexto português favorecia este cenário: incapacidade de reformar instituições e processos leva invariavelmente a mudanças abruptas, frequentemente violentas, que acabam por manter tudo igual ou, por vezes, agravar os erros e os vícios, apenas trocando clientelas e mascarando as instituições. Assim aconteceu no final da monarquia: a propaganda republicana explorava a miséria do povo, atacava duramente o rei, acusava os jesuítas de raptarem crianças e os padres de manterem o povo no obscurantismo. Os muitos jornais populares amplificavam denúncias contra as velhas elites e a Igreja, promovendo rancores e ideias nacionalistas.

Em reacção à humilhação da crise do Mapa Cor de Rosa, um dos momentos mais baixos do constitucionalismo monárquico, os republicanos criaram uma Comissão de Subscrição Nacional para financiar a aquisição de um navio de guerra, com o objectivo de enfrentar o Império Britânico – uma ideia inusitada! Os muitos jornais republicanos que circulavam, tal como hoje acontece nas “redes sociais”, difundiam mentiras sobre a Família Real, usando termos insultuosos para se referirem a Dom Carlos, como “déspota insensível”, “parasita do erário” ou “inimigo do povo”, reforçando uma imagem negativa da Casa Real. A Rainha D. Amélia era alvo de críticas pelos seus supostos gastos e vida privada promíscua (imagine-se!), enquanto se explorava a Questão dos Adiantamentos, polémica sobre despesas de representação da Coroa sempre muito acima do orçamentado, valor que nunca fora actualizado desde o reinado de D. João VI, sendo o défice coberto por “adiantamentos” autorizados por um ministro, sem aprovação do Parlamento. Curiosamente, tudo isto acontecia num dos países mais livres da Europa, que, mesmo assim, não era dos mais pobres. O populismo é receita de sucesso por cá.

Todos sabemos como terminou esse processo. Como afirmava recentemente Pedro Gomes Sanches, “as sociedades avançam quando as suas elites são responsáveis; colapsam quando enlouquecem, se infantilizam ou se demitem”. Esta tendência é visível em vários países e, em particular, em Portugal, que considero um ecossistema especialmente vulnerável à histeria e à irracionalidade.

Como podemos alterar o rumo dos acontecimentos sem que tudo descambe numa completa ingovernabilidade? Ao contrário do que muitos pensam, nem tudo está errado no nosso país. Grande parte das nossas elites, mesmo que por vezes afastadas da realidade, não deve ser menosprezada – pelo contrário, merece ser valorizada. Muitos avanços importantes foram alcançados desde o 25 de Abril; foram décadas valiosas para aprendermos a viver em liberdade. Aprendemos lentamente, é certo. Já o século XIX parece ter sido um tempo perdido, se olharmos para o desfecho de 5 de Outubro.

Quanto a mim, enquanto monárquico, sinto-me desobrigado de legitimar com o meu voto uma Chefia de Estado que nos foi imposta à força, uma fórmula na qual não acredito. Assim evito desilusões. No próximo dia 8 de Fevereiro, data de nascimento do meu saudoso pai, terei o privilégio de escapar a um grande dilema anulando o meu voto. Mas continuarei a empenhar-me sem descanso por um país que se desenvolva aprazível para lá das inevitáveis divisões e dos conflitos. Um lugar onde os meus netos possam crescer, de forma prospera e cristã.

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Imagem acima: destaque de capa no jornal "A Cidade" sobre a finalidade dos supostos raptos de crianças para produção de um "óleo". 

Publicado originalmente aqui

O canto de sereia do PS

por henrique pereira dos santos, em 22.01.26

O espectáculo do PS que sempre desprezou Seguro a tentar fazer uma OPA sobre a candidatura de Seguro não deixa de ser divertido.

Passando por cima das figuras embaraçantes, para quem tivesse vergonha, que Temidos e afins têm feito, por puro oportunismo político, que é matéria que diz respeito aos próprios a quem falta respeito próprio, não deixa de ser relevante perceber se, como diz aqui Telmo Azevedo Fernandes, a eleição e consequente presidência de Seguro não serve como detergente institucional.

Não tenho a menor dúvida e, se tivesse, o afã com que o PS se tem tentado colar a Seguro e dizer que a vitória de Seguro é uma vitória do PS tirar-me-ia qualquer dúvida que se tivesse perdido na minha cabeça, de que o PS tentará usar a presidência de Seguro como saída do atoleiro em que está.

Há uma parte do PS que pretende usar Seguro para varrer do partido a ala bloquista, reforçar José Luís Carneiro e guinar ao centro, como forma de tornar o PS relevante outra vez.

Há outra parte do PS que pretende usar Seguro para demonstrar que o PS é o grande partido da esquerda e essencial para o funcionamento do sistema democrático e para a alternância de governo, usando-o como biombo que esconde os cacos deixados por Costa no partido.

Só que o que o PS quer e pode fazer é com ele, a questão de fundo está em saber em que medida Seguro serve essa estratégia.

Não estou na cabeça de Seguro, não acredito na completa racionalidade de toda a gente, muito menos no contexto da actividade política, mas não vejo que vantagem, interesse, ou mesmo amor, sugira que Seguro estará disponível para dar a mínima abertura a esta gente.

Seguro tem como interesse imediato ganhar estas eleições, e sabe que a posição que tem hoje, de quase União Nacional contra o mal comportado do escola, foi obtida contra e apesar do PS, logo, nestas duas a três semanas, espero que tenha a sensatez de, evitando fazer a figura triste que o Almirante fez quando Sócrates lhe anunciou o seu apoio (os candidatos não são responsáveis pelos apoios que recebem), manter a distância em relação a estas manobras do PS e da esquerda da esquerda, que pretende apresentar-se como vencedora à boleia de quem desprezam.

Se, sublinho o se, que não alinho em Uniões Nacionais, for eleito, Seguro tem como objectivo ser reeleito cinco anos depois. Ora se até Soares, no seu primeiro mandato, se portou minimamente para chegar à reeleição em posição favorável, para que raio quererá Seguro envolver-se numa manobra de lavagem de imagem do PS, sabendo que grande parte da sua força eleitoral está na distância que manteve, em muitas ocasiões, em relação ao pior do PS?

Por fim, que motivação terá Seguro para dar a mão a quem não só lhe espetou facas nas costas, como ele sabe, e sabe muito bem, que voltará a fazê-lo na primeira oportunidade?

Com a enorme incerteza que estas coisas sempre têm, o PS está empenhadíssimo nos seus cantos de sereia, mas suspeito que Seguro está muito bem amarrado ao mastro do navio.

Votos

por henrique pereira dos santos, em 21.01.26

Um voto é uma decisão estritamente binária cuja efeito se materializa decisões concretas.

O voto é sempre de quem o entrega e só é útil para quem o recebe.

Sim, há aspectos simbólicos associados ao voto.

Por exemplo, nas presidenciais de 2006, Cavaco estava eleito, se não fosse à primeira volta, como foi (embora com menos de 51%), ganharia à segunda volta folgadamente, o que me permitiu votar na primeira volta estritamente por razões simbólicas, isto é, votar em Manuel Alegre por ser o voto que mais chateava Sócrates (que no ano anterior tinha tido a sua primeira maioria absoluta) e o candidato apoiado por Sócrates, Mário Soares.

Se houvesse segunda volta, voltaria à essência do voto, votando Cavaco, para produzir o efeito pretendido que era o de escolher Cavaco entre todos os candidatos que se apresentaram às eleições.

O meu voto em Manuel Alegre esgotou-se no próprio dia da eleição, ri-me que nem um perdido por Alegre ter ficado à frente de Soares apoiado por Sócrates, e fui (eu, mas também Alegre, Soares, Cavaco, Sócrates) à minha vida.

O facto do candidato apoiado pelo primeiro ministro Sócrates, acabado de ganhar uma maioria absoluta e ganhando as eleições seguintes em 2009, ter ficado em terceiro com um resultado humilhante de menos de 15% alterou alguma coisa a autoridade política de Sócrates? Claro que não, no dia seguinte essa votação terá merecido quilómetros de escrita e horas de conversa, mas os efeitos reais dessa votação estavam mortos.

Repetindo, vota-se para obter um efeito concreto, obtido esse efeito, os votos são lixo, não são capital político e essas coisas que levam pessoas inegavelmente inteligentes e talentosas, como Miguel Morgado, a dizer frases completamente ocas como a ideia que anda a vender de que com António José Seguro eleito, "o partido socialista vai ser reconstruído a partir de Belém".

Ninguém consegue explicar o que se quer dizer com este tipo de especulações, ninguém sabe o que é isso de reconstruir o partido socialista, ninguém percebe que interesse tem Seguro em contribuir para a reconstrução de um partido que o ostracizou, dominado por quem ainda há pouco tempo insistia em humilhar considerando-o um homem sem qualidades, e ninguém consegue ver como se operacionaliza a reconstrução de partidos a partir de Belém.

Houve alguns partidos construídos a partir de Belém, que deram péssimos resultados, e houve, especificamente um presidente (Mário Soares), que apoiou a reorganização da oposição ao governo a partir de Belém, mas um presidente odiado dentro do seu partido reconstruí-lo com as pessoas que o detestam e, pior, desprezam, não estou a ver como se faz.

Em qualquer caso, estamos a falar no normal processo político que parte do resultado concreto da eleição (Seguro como presidente, por exemplo), para o qual os votos do último Domingo, excepto na consequência prática de eleger o presidente, não interessam nada.

Tal como Manuel Alegre cometeu o erro de pensar que o milhão e cem mil votos que tinha obtido eram um grande capital político que lhe pertencia, desencadeando a partir dessa ficção um movimento político que deu com os burrinhos na água (já com o apoio do Partido Socialista, nas eleições presidenciais seguintes teve menos 300 mil votos), parece também haver quem queira, agora, usar o capital político que acham que o voto representa.

Desenganem-se, caros Almirante e Cotrim, os resultados que tiveram, um razoável, o do Almirante, outro muito bom, o de Cotrim, hoje, dois dias depois das eleições, não servem para rigorosamente nada, o magnífico resultado de Cotrim é magnificamente inútil, ou passava à segunda volta, ou não passava, não passou, é preciso ganhar outra vez cada um dos votos que se ganhou na eleição anterior, o que se faz daqui para a frente não é a partir de um resultado magnífico e inútil, mas a partir do zero.

O voto é uma coisa muito boa, mas é estritamente binário e, mais importante, completamente conjuntural, cada votante vota com base em razões que, na melhor das hipóteses, só ele sabe e, frequentemente, nem ele sabe definir muito bem.

A normalidade do Chega

por henrique pereira dos santos, em 20.01.26

Parece que há por aí alguma esquerda que anda aos saltinhos a dizer que se tem de fazer uma barreira ao regresso do fascismo, da extrema-direita e esses moinhos de vento habituais e com uma longa história (já quando Cunhal deu a famosa indicação de voto para se tapar a cara do candidato e votar em Soares, o problema era o risco de eleger o fascista Freitas do Amaral, posteriormente ministro de José Sócrates, como se sabe, e cujos esforços para o regresso o fascismo continuam desconhecidos de toda a gente).

Do outro lado, há proclamações igualmente delirantes sobre a liderança da direita que resulta do nível de votação de um ou outro candidato, mas Freitas teve 46,31% na primeira volta, 48,8% na segunda, e chegou mais depressa a ministro de Sócrates (e, em 2015, apoiou Costa contra Passos Coelho) que a líder da direita.

Vamos lá, então, falar do Chega e de Ventura (perdoem-me o pleonasmo).

Tinha um boneco feito com um gráfico que não consigo carregar, de maneira que escrevo o que está o gráfico.

O Chega chega em 2019 às eleições onde tem uns 60 mil votos e elege um deputado. Ao contrário do apocalipse anunciado com a esquerda com a entrada do fascismo na Assembleia da República, a legislatura correu normalmente.

A eleição desse primeiro deputado segue-se a uma legislatura dominada pela geringonça, isto é, a coligação de perdedores que dinamitou as regras não escritas anteriores sobre a formação de governos a partir da Assembleia da República e é exactamente o caldo institucional criado pela geringonça (que inclui a defenestração de Passos Coelho no PSD para o substituir por Rui Rio) que gera o contexto que permite, quer ao Chega, quer à IL, quer ao PAN (neste caso, tinha entrado em 2015, mas passa de um para quatro deputados), quer ao Livre, entrar no parlamento, por haver muitos eleitores órfãos de representação pelos partidos mais antigos.

Nas eleições seguintes, em 2022, as que dão origem à maioria absoluta de Costa, que concentra os votos dos que estão convencidos de que o fascismo vem aí pela mão do Chega e o PSD de Rui Rio não lhe consegue fazer frente, o Chega demonstra a utilidade da cerca sanitária passando dos tais sessenta mil votos para quase 400 mil votos.

É então que com uma maioria absoluta de esquerda que se dá o movimento mais relevante do CHEGA, passando desses 400 mil votos para um milhão e quase duzentos mil votos, em menos de dois anos, nas eleições de 2024, ganhas, por uma unha negra, por Montenegro. O esplendor da utilidade da esquerda inventar moinhos de vento contra quem investir, em vez de tratar o Chega como um partido normal, com propostas políticas que são o que são, cuja discussão e escrutínio pelos outros partidos ajudam os eleitores a fazer opções (o Chega tem sido exímio no toureio, conseguindo que grande parte da esquerda e do jornalismo passe o tempo a investir contra questões imaginárias sobre o Chega em vez de discutir a suas propostas reais).

Mas, e essa é a questão central, desde 2024, ao contrário do que se está sempre a ver, ouvir e ler, o Chega não está num crescimento galopante, nas eleições seguintes, em 2025, tem um milhão e 450 mil votos, um aumento relevante de cerca de 200 mil votos (que se deve comparar com o crescimento de quase um milhão no tempo da maioria absoluta de Costa) e Ventura obtém agora pouco mais de um milhão e trezentos mil, isto é, menos cem mil que nas legislativas de 2025.

E este é o ponto em que estamos, com o Chega e Ventura num dilema estratégico: desde 2024 está mais ou menos atolado em 25% dos votos, o que é um resultado muito bom para um partido que tem uns seis anos, mas não sabe como crescer, isto é, apresentar propostas que seduzam eleitorados novos, sem perder os eleitores fidelizados, que tenderão a cansar-se da falta de poder real do Chega (André Ventura, na sua declaração de vitória nestas eleições presidenciais, disse, e aparentemente ninguém deu importância a essa afirmação, que o aumento de votação do Chega se estava a traduzir numa melhoria do país, o que para mim significa que tem uma consciência muito clara do perigo que representa para o Chega a acção do governo de Montenegro na migração e outras bandeiras do Chega).

O Chega não é nenhum papão, é só um partido que, na minha opinião, tem falta de consistência política, investe quase tudo nas componentes emocionais da política em detrimento da racionalidade das propostas de governação e incorpora aspectos messiânicos que a mim não me interessam nada, isto é, é um partido como os outros, que captou um eleitorado que não tinha representação ao falar de problemas de que os outros não queriam falar. Mas que segue o padrão dos populistas em todo o lado: diagnósticos razoáveis, soluções abaixo dos mínimos de qualidade, em grande parte porque a simplificação retórica dos problemas não contribui para os resolver melhor.

Ventura ser eleito presidente no dia 8 de Fevereiro só seria uma tragédia para o Chega, não para um país que aguentou dez anos de Marcelo Rebelo de Sousa e por isso não seriam dez anos de Ventura que o iriam abalar.

Por mim, prefiro de longe a solidez institucional de Seguro ao "much ado about nothing" que caracteriza Ventura e o Chega, mas não vale a pena atribuir-lhe mais importância que a que tem, inventando moinhos de vento contra quem é imprescindível investir, como faz boa parte da esquerda.

O interrogatório

por João-Afonso Machado, em 19.01.26

Preâmbulo:

Muitos lembrarão as eleições presidenciais de 1985, ganhas na segunda volta por Mário Soares.  E não terão esquecido a sua estratégia: inicialmente piscando o olho à Direita (aquele célebre debate com Lurdes Pintassilgo, em lhe disse, se ela vencesse, no dia seguinte seria um fugir de castiçais de prata para o estrangeiro...), depois tirando a gravata, ultra "fixe" (porque Freitas era um "chato", o carrasco de O Primeiro de Janeiro...) namorando com descaro a Esquerda de onde adviriam os votos para si vitais.

Factos presentes:

1 - O programa na RTP Choque Ideológico, em que o moderador Carlos Daniel parece exigir dos intervenientes uma promessa de voto em António José Seguro. 

2 - A sobranceria dos ditos intervenientes conjugada com as suas juras de fidelidade à democracia, como se tomados por um medo qualquer, um complexo, uma patologia do foro politico-partidário.

3 - Um representante do Chega calado como rato versus um triunfal papagaio socialista. 

4 - Um ouvinte (eu próprio) já meio tentado em votar em Ventura,  tal a dureza do referido processo inquisitorial. 

O devido e o devir:

- Com que direito se faz uma mesa redonda perguntando a cada participante em quem vai votar a 8 de Fevereiro?

- Isto vai ser assim? Ser democrata obriga a assinar uma declaração contra Ventura?

- Porquê a insistência no apoio institucional do PSD e da IL à candidatura de Seguro? Porque não podem estes partidos proclamar a absoluta liberdade de voto dos seus militantes?

- E se Seguro resolve ir à pesca na Esquerda? Se, porventura, é também  um estratega e repete o caminho do seu ídolo Soares? 

- Qual a legitimidade dos partidos da Esquerda para, generosamente, aceitarem o democratismo dos da Direita apenas se estes se unirem (e o proclamarem) contra Ventura?

Rebobinem o programa (são 23.30 quando escrevo este apontamento, e ele está no ar) e não percam o interrogatório. O acusado é Montenegro  - o alvo a abater é o Governo, claro - e parece o estalinismo, sentado em frente do pobre coitado.

 

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