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Não conhecia Jaime Izquierdo de lado nenhum e não me lembro como começou o nosso contacto, tenho ideia de que um dia Jaime Izquierdo, numa viagem de avião, leu um livro meu de que gostou.
Sei que a partir de certa altura fomos mantendo algum contacto esporádico, chegámos a cruzar-nos pessoalmente algures, e o Jaime tem tido a amabilidade de me mandar algumas das coisas que vai escrevendo, essencialmente à volta da aldeia, no conceito amplo em que usa a palavra.
O Jaime tem umas ideias interessantes especificamente sobre a aldeia e coincidimos bastante no diagnóstico sobre o mundo campesino (para usar uma expressão que raramente uso), nomeadamente sobre o equívoco à volta da ideia de conservação.
É por ele que conheço o conceito de biocracia, que cito, no original, que não me atrevo a traduzir espanhol (Jaime é das Astúrias e à volta da paisagem das Astúrias que escreve): "El concepto de biocracia define um tipo de actitud tecnocrática por el que una corporación bien asentada en la investigación científica especializada e influyente en la política y la administración pública pretende el control del territorio histórico de los campesinos por medio de su mera especialidad académica, la propaganda idealizada de sus "nobles" intenciones dirigida a la sociedad urbana - la conservación de la naturaleza y la defensa de determinados iconos de la fauna - y su influencia en la redacción y promulgación de leyes e normas com las que consiguen hacer legítimas sus visiones y aspiraciones. El concepto fue desarollado por Izquierdo y Barrena".
Acabei há poucos dias um livrinho que me mandou há algum tempo "Una nueva economia para la aldea del siglo XXI" que é um ensaio bem interessante, mesmo que eu tenha as maiores dúvidas sobre as propostas para o futuro das aldeias (é certo que também não tenho propostas melhores).
Por exemplo, quando, partindo do que caracteriza a aldeia ancestral, Jaime constroi um quadro em que à família tradicional, com três gerações debaixo do mesmo tecto e é a unidade produtiva base da aldeia, acaba por contrapor a pequena empresa e a cooperativa de vizinhos (no fundo, replicando a lógico do uso comum do baldio e do conselho de aldeia que o gere) como unidade produtiva base.
A verdade é que a família é a unidade produtiva base, mas o que a define não é isso ou sobretudo isso, portanto não sei como se reconstroi um futuro para as aldeias sem se reconstruir um conceito de família que entretanto se desvaneceu.
O que me interessa, para este post, não é tanto a discussão das minhas dúvidas, mas chamar a atenção para o que escreve Jaime Izquierdo, vale a pena ler, para quem se interessa por esse tal "mundo campesino" que assentava em aldeias que hoje se reduzem a aglomerados de casas, estando em vias de deixar de ser o elemento estruturante da cultura e do território não urbano nem industrial.
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Como aconteceu nos dias de Noé, assim sucederá na vinda do Filho do homem. Nos dias que precederam o dilúvio, comiam e bebiam, casavam e davam em casamento, até ao dia em que Noé entrou na arca; e não deram por nada, até que veio o dilúvio, que a todos levou. Assim será também na vinda do Filho do homem. Então, de dois que estiverem no campo, um será tomado e outro deixado; de duas mulheres que estiverem a moer com a mó, uma será tomada e outra deixada. Portanto, vigiai, porque não sabeis em que dia virá o vosso Senhor. Compreendei isto: se o dono da casa soubesse a que horas da noite viria o ladrão, estaria vigilante e não deixaria arrombar a sua casa. Por isso, estai vós também preparados, porque na hora em que menos pensais, virá o Filho do homem.
Palavra da salvação.
Não me cabe a mim falar em nome da Montis, se as eleições de meio de Dezembro correrem bem (só há uma lista...) farei parte de um conselho consultivo que dará opiniões, nada mais que opiniões, mas cabe à direcção da Montis falar pela associação e pelos sócios (acrescento pelos sócios porque a Montis tem tido uma atitude pouco vulgar entre o movimento associativo ambientla, ao recusar-se a veicular opiniões de política por saber que os sócios têm todos opiniões diferentes e o que os une é a ideia de gerir terrenos em concreto, não é subscreverem opiniões uns dos outros sobre o que se deve fazer nos terrenos de terceiros ou com o dinheiro dos contribuintes).
Em qualquer caso, para além de lembrar que a Montis está a contratar, este post recente parece-me que merece alguma atenção, até porque dá origem à habitual reacção de alguns contra o uso do fogo como instrumento de gestão (felizmente, são cada vez menos e menos influentes, espero que alguma dessa evolução tenha sido influenciada pela prática da Montis, mesmo que marginalmente).
Desde a sua criação que a Montis usa o fogo - um processo ecológico fundamental - como instrumento de gestão, menos do que eu gostaria, mais do que seria admitido por terceiros na altura em que fez o seu primeiro fogo controlado, sendo hoje facilmente verificável o efeito do modelo de uso do fogo no baldio de Carvalhais (noutros sítios tem sido mais complicado o uso do fogo, mas espero que lá se chegue um dia, quando houver recursos para isso e se considerar uma boa opção de gestão).
Está agora aprazado um novo fogo, pelas previsões meteorológicas não será tão cedo, diria eu, com características e objectivos diferentes, de menor dimensão, numa área diferente do baldio de Carvalhais.
O que me interessa realçar é que hoje, se todas as acções de conservação parassem nesses cem hectares, ainda demoraria uns anos e uns fogos descontrolados de Verão a voltar tudo ao mesmo, se é que voltaria (começa a haver bosquetes que provavelmente resistiriam a fogos de elevada intensidade de Verão, para além do facto dos efeitos dos fogos controlados já realizados se prolongarem um bocado no tempo, introduzindo diversidade que limitaria o efeito de razoira que os fogos intensos de Verão provocam nas áreas por onde passam, uniformizando paisagens e formações vegetais.
Insisto e vou continuar a insistir, vão ler os posts para que fiz ligações e digam lá se 25 euros por ano não é muitíssimo barato para todo este efeito.
A coligação Chega/ PS aprovou umas isenções de portagens, com o estafado argumento da coesão territorial (pouco mais ou menos uma estimativa de 20 milhões de euros anuais de despesa para os contribuintes).
Paulo Ferreira, bem, discute esta decisão e, pelo meio, pergunta por que razão não se fazem contas a medidas alternativas no IRS e IRC, se a questão é a coesão social.
Há já ano e meio eu tinha feito um post procurando discutir os custos de oportunidade associados a diferentes opções de uso do dinheiro dos contribuintes a propósito de eliminação de portagens, e continuo convencido de que pagar serviços socialmente úteis é bem mais interessante que mexer na fiscalidade ou eliminar pagamentos de serviços.
Eliminar portagens, isto é, dinamitar o princípio do utilizador pagador, ou usar a fiscalidade para conduzir a economia para aqui ou para ali é razoavelmente inútil para resolver o problema central das regiões economicamente deprimidas do país: a ausência de criação de riqueza.
Pelo contrário, os contribuintes pagarem a gestão de combustíveis finos, como tenho defendido, que é mais barato que eliminar portagens, cria mais economia, emprego, rendimento, riqueza.
Tem é o problema de não resultar em evidentes ganhos eleitorais, nem dar origem a agitação na comunicação social, à semelhança do que acontece em medidas como a duplicação da consignação do IRS, que tem efeitos reais no dia a dia das pessoas, mas com efeitos tão dispersos que não chega para criar dramatismo suficiente para emocionar ninguém.
A democracia tem estas fragilidades, acentuadas por uma comunicação social completamente embrulhada em si própria e no seu mundo.
No DN vi uma citação de Jorge Pinto que, com segurança e certeza, terá referido no seu debate com o Almirante, "em 1974, o SNS parecia uma utopia, tal como a educação de uma população com uma elevada taxa de analfabetismo".
Jorge Pinto, não será analfabeto e até parece que tem um doutoramento. Provavelmente é mais uma vitima da propaganda do regime de Abril. Tal como milhões de portugueses, inconscientemente torturados por mera propaganda, suportada em livros de história perversos e nos media acéfalos ou tendenciosos. Se assim não for será, no mínimo, mentiroso.
Demasiados pensam, estão mesmo convencidos, que antes do 25 de Abril, vivíamos numa espécie de idade média em esteróides. O estado novo, a república e as monarquias, não foram senão uma sucessão de completos e absolutos desastres que nada conseguiram. Não foi exactamente assim.
Em Abril de 1974, com outro nome, já existia um “SNS”. E mais, A saúde, era legalmente um direito consagrado para todos os portugueses. Quanto ao analfabetismo, bastaria continuar o que já tinha sido conquistado para o erradicar completamente.
A reforma trigueira (1945), lança um sistema de saúde digno desse nome. A partir de 1971, inspirado no sistema inglês, é lançada uma profunda reorganização do sistema de saúde em Portugal. Não tinha esse nome, mas era um sistema nacional de saúde. Não eram palavras sem substancia. Em 1973, já existiam mais de 300 centros especiais de saúde novos, uma das bases preconizadas desse programa. Hospitais, existiam muitos novos, alguns símbolos do regime ( Santa Maria e São João), e muitos mais que vinham de passados mais longínquos. Existiam sensivelmente as mesmas camas de hospital do que há hoje, embora mal distribuídas e com piores condições. A grande diferença era um numero de médicos muito inferior aos que hoje existem,. E claro, os meios de diagnostico eram muito menos sofisticados do que os actuais. Lembremo-nos das diferenças entre um carro da década de 70 e um carro actual: não há comparação possível. Com menos recursos, a saúde publica conseguia resultados interessantes, mesmo que a anos luz do que se pratica hoje.
O direito universal à saúde, não estava consignado na constituição. Estava regulamentado pelo Decreto-Lei n.º 413/71, de 27 de Setembro. A outra diferença, era que só garantia a prestação dos serviços de saúde, de acordo com a capacidade do sistema. Hoje tudo é garantido, mas continuamos e provavelmente vamos continuar a ter, grávidas a nascer em carros, ambulâncias e até na rua, a esperar anos por uma intervenção cirúrgica, muitos meses por uma consulta. Não há sistemas perfeitos. A realidade encarrega-se de corrigir as boas intenções e lançar o Estado na ilegalidade.
Lembro-me sempre do exemplo do progresso na saúde que mais foi usado : a descida da mortalidade infantil, a partir de 1974. A questão é que a natalidade infantil já tinha descido muito no passado. No gráfico seguinte, pode ver-se que, desde 1940, a descida é gigantesca, o que acontece depois de 74 é muito bom, mas apenas continua uma tendência de muitos anos. E já agora, se as tivéssemos, as estatísticas iriam muito provavelmente indicar uma queda vertiginosa da mortalidade infantil com mais de um século antes de 1974. Só melhor alimentação e higiene foram extraordinárias no combate á mortalidade infantil.

A referência ao analfabetismo, é simplesmente desprezível. A partir da década de 60, todas as crianças em idade escolar sabiam ler. Para acabar com o analfabetismo, foi apenas continuar o que já era feito, e que correspondeu a um trabalho hercúleo e com bons resultados. O mal pode ser imputado à monarquia liberal ou à primeira republica, apesar dos seus esforços, mas pífios resultados. Culpar o estado novo do nível de alfabetismo, é vergonhoso. Apenas uma critica pode ser feita: a alfabetização de adultos não aconteceu de forma vigorosa. Exactamente o que também aconteceu depois de 1974. 
Já o regime de Abril, conseguiu um enorme avanço nos anos de escolaridade, quer a nível de liceu ( secundário) quer em termos de estudantes do ensino Superior. Extraordinariamente, parece haver uma escolha em que se prefere enfatizar pretensas maldades e falhas do regime anterior, do que lembrar os avanços de sua responsabilidade.
Por muito que custe a um regime, que sempre tentou pôr-se em bicos de pés, mais por denegrir o passado, do que invocando as conquistas que também realizou, Portugal existia antes da III república. Não é ser Salazarista reconhecer factos. Não os reconhecer, ou é ignorância ou má fé. Temos muito disso.
Vivi os tempos em que Cavaco Silva foi primeiro-ministro, assisti à transformação do cenário nacional, numa velocidade que a todos espantou. Eu, ingrato, achava pouco. Era jovem e ainda mais parvo do que sou hoje.
Ontem li um artigo no expresso do Manuel Caldeira Cabral ( A década da geringonça foi excepcional?) . Fiquei impressionado com o que afinal o Sr Costa fez no seu consolado. O que me pareceu realmente impossível de aceitar, foi a alusão a Cavaco Silva, invocando-se crescimentos durante a geringonça, que se diziam aproximar do que tinha acontecido entre 1985 e 1995. Como se diz hoje, Caldeira Cabral, esticou-se.
Obviamente podíamos lembrar que Portugal vinha a recuperar da crise de 2010, e que, da recuperação da crise, e de alguns ajustes estruturais do tempo da troika, seria esperado que o crescimento não fosse anémico. Vamos esquecer tudo isso, tal como vamos esquecer, mais tarde o Covid. Como diria Napoleão a sorte faz parte das circunstâncias do general. Concentre-mo-nos apenas nos números.
Realmente o crescimento económico, entre 2015 e 2024, foi menos mau do que costumava acontecer. As minhas contas não diferem significativamente das apresentadas, pelo que aceito os 2,2% de crescimento anual reportado no artigo. Mesmo assim, a preços constantes, continua muito longe do crescimento médio de 3,64% no consulado de Cavaco Silva.
Mas o pior, é que não se fala de uma variável muito mais importante e justa em termos de comparação, o PIB per capita a preços constantes. Não há dados, ou não os encontrei, para calcular o mesmo indicador em paridades de termos de compra, o indicador que seria verdadeiramente perfeito.
É que não é igual o crescimento da economia com população em forte crescimento (nomeadamente pela emigração), estável ou decrescente. E como sabemos, forte imigração foi o que ocorreu nestes anos. Mais pessoas a trabalhar, a comer e a dormir, expectavelmente fazem a economia crescer. Foi o que aconteceu.
E é aqui que as já grandes diferenças se tornam maiores. Nos tempos de António Costa, o Crescimento do PIB per capita (valores constantes), é de apenas 1,59%, muito longe do valor central de que se fala no artigo (o do PIB). Este valor será ainda inferior se considerarmos os emigrantes ilegais, que por definição, ninguém sabe quantos são. Nos tempos de Cavaco Silva, com uma população com baixo crescimento, o crescimento do PIB per capita foi de 3,44%, um valor próximo do crescimento do PIB, e um valor que é mais do dobro do valor da geringonça e Sr. Costa a solo.
É verdade que o crescimento registado no consulado de António Costa, foi melhor em quase 50% do que a triste media registada entre 1995 e 2015, de 0,98 %. E. Infelizmente foi inferior a metade do registado durante os anos de Cavaco Silva. Por mais que se pretenda o contrário. A estrada da beira, continua a ser diferente da beira da estrada.
Por essas e outras, não estou certo que os outros tantos e tão fortes triunfos reportados, sejam afinal, como são descritos.
Conheço, como qualquer pessoa que nos últimos 40 anos tenha trabalhado mais que um fim de semana em conservação da natureza, Gonçalo Elias.
Não somos amigos, conhecemo-nos e conversamos.
Foi assim que, há já bastante tempo, e sabendo ele das minhas heterodoxias (o que me ri ao ler hoje que parte das minhas heterodoxias são partilhadas pelos linces: "Cerca de 60% dos linces na Península Ibérica preferem instalar-se fora de áreas protegidas, como as da Rede Natura 2000, e vivem em territórios “mais humanizados”, onde enfrentam maiores riscos, como os atropelamentos em estradas. Este foi um dos dados revelados hoje no arranque do Congresso Internacional Lince Ibérico, em Sevilha, Espanha, organizado pelo programa de conservação da espécie LIFE Lynx Connect, que junta entidades públicas e privadas de Espanha e Portugal") em matéria de conservação, me mandou umas perguntas que tinha feito à Infraestruturas de Portugal a propósito do seguimento da Avaliação de Impacte Ambiental de uma linha de comboio de alta velocidade.
A questão era sobretudo institucional, o Gonçalo queria informação que, de acordo com o processo de AIA deveria estar a ser produzida, e a Infraestruturas de Portugal assobiava para o ar, como é habitual em Portugal, país em que o processo de AIA não serve para se executar investimento com o menor impacto ambiental possível, mas simplesmente para obter uma licença cujos pressupostos de execução ninguém verifica (com a larga conivência do movimento ambientalista, que se está nas tintas para o que se passa depois de aprovado um projecto).
De tempos a tempos, o Gonçalo lá me ia falando do assunto, umas vezes para eu me divertir com os percalços de uma coisa tão simples, outras vezes para me perguntar o que eu acharia que se poderia fazer a mais ou melhor para se obter "a verdade a que temos direito" (os mais novos não podem perceber a ironia porque não conhecem este slogan premonitório do futuro da imprensa, que era o slogan de um jornal afecto ao Partido Comunista).
As últimas trocas de informação são fantásticas e revelam bem a cultura institucional do país.
Depois de meses e meses à espera de respostas, o Gonçalo, e bem, recorreu à Comissão de Acesso aos Documentos Administrativos, como era seu direito, para ter acesso a documentos administrativos, como era seu direito.
Um tal António Rodrigues (não, não é um técnico subalterno qualquer, é o Director do Departamento de Relacionamento Institucional Central das Infraestruturas de Portugal), que já devia era ter dado acesso aos documentos, entretém-se a escrever umas idiotices à CADA, sem a delicadeza de delas dar conhecimento ao Gonçalo (que teve acesso a elas porque a CADA, e bem, reencaminhou a mensagem), para tentar justificar o facto da Infraestruturas de Portugal se recusar a cumprir a lei.
Para quem achar excessivo o termo idiotices para caracterizar o que o Director do Departamento de Relacionamento Institucional Central da Infraestrutura de Portugal escreveu à CADA sobre o Gonçalo, cito apenas um bocadinho: “Não podemos deixar de partilhar com a CADA a nossa estranheza com as sucessivas questões colocadas pelo Senhor Gonçalo Elias sobre este tipo de matérias, desde logo porque não são conhecidas habilitações técnicas/curriculares sobre as mesmas e ainda porque, que sejam do conhecimento desta empresa, não lhe foram atribuídas funções de fiscalização da atividade da Infraestruturas de Portugal em matéria de controlo ambiental ou outro".
Não vou citar as longas trocas de mensagens, mas apenas um resumo contido na resposta do Gonçalo: "Esta mensagem já vai longa e, neste ponto, faço um resumo de tudo o que até aqui se referiu: - O Código do Procedimento Administrativo determina que os órgãos da Administração Pública devem atuar em estreita colaboração com os particulares – mas o Senhor António Rodrigues parece ter um entendimento diferente e opta por pôr em causa as minhas habilitações e questionar as minhas motivações; - O Conselho de Ministros decidiu fomentar a participação dos cidadãos na fiscalização das estradas – porém, o Senhor António Rodrigues estranha que eu, em resposta a esse apelo governamental, procure contribuir para esta fiscalização; - A Lei de Bases da Política de Ambiente confere-me, tal como a qualquer pessoa, o poder de exigir de entidades públicas o cumprimento dos deveres e das obrigações, em matéria ambiental e o direito de aceder à informação ambiental – todavia, o Senhor António Rodrigues manifesta reservas, por não me conhecer habilitações técnicas/curriculares para tal; - A Lei de Acesso aos Documentos Administrativos garante-me o direito a consultar os documentos administrativos sem ter de enunciar um interesse e determina prazos para poder ser facultada essa consulta – contudo, o Senhor António Rodrigues, em lugar de efectuar as diligências necessárias para garantir que são cumpridos os prazos legais, e sem se dignar pedir desculpa pelos reiterados atrasos na disponibilização da informação por mim solicitada, decide tecer considerações sobre a minha participação e partilhá-las com entidades terceiras; - A Constituição da República Portuguesa estabelece que eu tenho direito ao bom nome e à reputação – apesar disso, o Senhor António Rodrigues não se coíbe de emitir juízos de valor a meu respeito, afirmando, designadamente, que o meu comportamento não é normal, e de partilhar por escrito esse ajuizamento com a CADA".
O seguimento é ainda mais hilariante (se fosse um sketch num teatro, e não o espelho da cultura institucional do país).
Eu aproveitei para vender ao Gonçalo o meu peixe sobre a reforma do Estado "Devias mandar uma cópia para o gabinete no ministro da reforma do estado para lhe explicar que sem reformar a forma como os funcionários podem ser responsabilizados por optarem por actuar fora da lei, não faz reforma coisa nenhuma", mas essa é a parte menos interessante.
O Senhor António Rodrigues e, através dele, a Infraestruturas de Portugal, em vez de pedirem desculpa e convidarem o Gonçalo para almoçar para lhe agradecer o trabalho de escrutínio e auditoria que de facto está a ser feito, permitindo à Infraestruturas de Portugal funcionar melhor sem gastar um tostão em consultores, resolvem responder, sem pedir desculpas pelo seu comportamento inaceitável e explicando que estiverem tempos sem fim a coligir informações sobre os contactos do Gonçalo para demonstrar que é, de longe, o melhor funcionário não pago que a Infraestruturas de Portugal poderiam ter, responsável por 1,4% dos processos registados no site que existe para esse efeito (240 contactos em mais de 17 mil por ano), sendo cinco vezes mais que as duas outras pessoas que mais contactam a Infraestruturas de Portugal.
E é isto a cultura institucional do país, em que as pessoas empenhadas na melhoria da prestação de um serviço são perseguidas e em que actuações manifestamente ilegais são o padrão de actuação de entidades públicas (e, frequentemente, também das privadas).
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Penso que pouca gente razoável não se congratula com os acontecimentos de há 50 anos, que travaram uma tomada de poder à força pela esquerda do PCP e de outros credos mais finos, e deram início a uma lenta ocidentalização da nossa democracia. Muitas duras batalhas foram travadas até chegarmos perto de alguma normalidade, aí nos anos oitenta, com a revisão da Constituição e a integração europeia. Mário Soares era ufano desse trajecto patriótico, já Sá Carneiro e Amaro da Costa não chegaram a usufruir dos resultados da dura luta que travaram pela liberdade. Foram tempos realmente difíceis.
O PS comete um erro grave ao assumir ambiguidade na celebração do 25 de Novembro. Percebe-se a atracção exercida pelo espaço à sua esquerda quando pragmaticamente se aliou à esquerda revolucionária, digamos assim, para arquitectar a geringonça. A factura chegou depois, e com juros: o espaço à esquerda da esquerda vem diminuindo, perdendo atractividade; o populismo e o radicalismo mudou de geografia, experimenta por estes dias o outro lado do hemiciclo por razões diversas. Será um erro muito grave dos socialistas abandonarem o espaço da moderação e da razoabilidade à AD. Se o PS não se quiser tornar irrelevante, é melhor juntar-se ao imenso eleitorado pouco ideológico que, tendo vivido ou recebido ecos dos excessos esquerdistas do PREC, anseia viver em paz e sossego num Portugal próspero. Uma ambição ainda difícil de realizar nas actuais circunstâncias, mas um sonho legítimo. Só possível sem aventuras revolucionárias ou fantasias Woke.
Post Scriptum: Em sinal de protesto as cadeiras do PCP no hemiciclo do parlamento estiveram vazias nas celebrações do 25 de Novembro, data em que a liberdade venceu a tirania. São tão poucas que quase não se notava e isso é bom.
O 25 de Abril, permitiu a democracia, entre outros rumos. O 25 de Novembro, confirmou a democracia, enquanto resultado do 25 de Abril e impediu males maiores. Como estarmos a escrever em cirílico, entre outras penosas avenças.
Como não celebrar o 25 de Novembro?
Tinha intenção de fazer um post com uma boa demonstração da qualidade da cultura institucional prevalecente em Portugal, a partir da experiência de contacto de Gonçalo Elias com as Infraestruturas de Portugal e vou fazê-lo, mas antes queria escrever sobre uma coisa que julgo que também demonstra como a discussão concreta da qualidade institucional é pobre em Portugal.
João Miguel Tavares, hoje, no Público faz um muito bom artigo lembrando que quem começou com esta parvoíce da discussão da importância do 25 de Novembro foi a esquerda que o quis fazer desaparecer como se nunca tivesse existido.
No meio do artigo, escreve: "um Governo [o de Montenegro] ... que não mexe um dedo onde ser de direita deveria fazer a diferença: na diminuição da sombra tutelar do Estado sobre uma sociedade afogada em dependências malsãs".
Eu percebo a irritação de João Miguel Tavares (partilho-a, em grande medida) com a excessiva cautela de Montenegro, embora ao ver a arrogância e auto-satisfação de Cotrim de Figueiredo, na actual campanha para as presidenciais, me assaltem dúvidas sobre se essa auto-suficiência reformista, completamente desligada da realidade, seria mais útil e, afinal, Montenegro não terá, pelo menos em parte, razão em querer manter-se dentro do que é a realidade aceitável para grande parte do eleitorado.
Só que a minha irritação com Montenegro não vai ao ponto de desvalorizar as imensas diferenças para o que foram os oito anos de governação de António Costa.
Não querendo falar da real diminuição de impostos (eu gostaria de fosse mais, até acho que era possível fazer mais, mas não há como negar que existe uma real libertação da tutela do Estado sobre a sociedade quando diminuem impostos), não querendo falar da sensatez do Ministério da Educação (também percebo a irritação de Nuno Palma com o que fica por fazer, mas não há como negar um esforço de libertação da tutela do Estado central no ensino), não querendo falar das alterações à legislação laboral (veremos para onde se inclina o braço de ferro entre imobilistas e reformistas, mas não há como negar que nunca seria António Costa a correr riscos políticos por mexer na regulamentação laboral), não querendo falar de habitação (já escrevi mais do que deveria, face ao que sei, sobre a matéria), optei por enfatizar um parente pobre da discussão política, pelo qual (parente, não política) tenho especial carinho, ao ponto de o ter proposto várias vezes quando participei na elaboração de programas eleitorais da Iniciativa Liberal (tenho ideia que chegou a constar de um dos programas, mas não tenho a certeza e não quero ir verificar): a duplicação da percentagem do IRS que o contribuinte pode consignar a entidades da sociedade civil que o Estado reconhece que têm utilidade pública.
Logo no seu primeiro Orçamento do Estado, o governo de Montenegro duplicou a percentagem do IRS que pode ser consignada de 0,5% para 1%.
Partindo da ideia de que em 2023 esta consignação rendeu 37,4 milhões de euros a centenas de instituições (grande e pequenas), isso significará aumentar esse valor para o dobro, isto é, praticamente 75 milhões de euros.
O assunto não mereceu grande atenção na altura (só dei pela decisão porque Joaquim Miranda Sarmento a mencionou numa das suas intervenções no debate desse Orçamento de Estado, não me lembro de ter lido, ouvido ou visto qualquer notícia sobre esse debate que mencionasse esta alteração) o que, para mim, não deixa de ser espantoso (aqui está uma excepção que demonstra que houve mais notícias do que as que vi, felizmente).
Não é uma diminuição de impostos, essas sim, objecto de notícias e debate (um debate em grande parte ridículo, muito à volta de saber se o que Montenegro disse na campanha estava a ser cumprido ou não porque o PS, nas vascas da agonia do seu governo, desatou a descer impostos, depois do PSD ter falado nisso na festa do Pontal) porque o contribuinte paga o mesmo, mas é uma evidente libertação da sociedade da tutela do Estado, bem mais que o dedo que João Miguel Tavares diz que nunca se mexe.
Por um lado o Estado prescinde de 0,5% do IRS, que é dinheiro, por outro entrega ao contribuinte a possibilidade de reforçar o orçamento de entidades com utilidade pública, ajudando-as a libertar-se das dependências da decisão do Estado, permitindo-lhes trabalhar a sua relação com a sociedade, em vez de investir no reforço das relações com os agentes do Estado que decidem a afectação de recursos.
O simples facto de esta duplicação (embora ainda em níveis muito modestos) estar completamente ausente do debate público, não havendo um único orgão de informação que tenha achado relevante ir de capelinha em capelinha das pequenas organizações (ou das grandes, se quiserem, como a Amnistia Internacional, a Liga Portuguesa contra o Cancro, as numerosas associações ligadas à paralesia cerebral que gerem instituições de apoio a estes doentes, etc.) a perguntar o que significará, para estas organizações, a duplicação da consignação do IRS, demonstra bem a pobreza da qualidade do debate, com consequências muito claras: só metade das pessoas usam a faculdade de entregar 1% do seu IRS a organizações em quem confiam, em vez de o entregar ao Estado.
Nem eu, que me interesso pelo assunto, me apercebi desta campanha feita esta ano, pela promoção desta consignação.
Para mim, a campanha é irrelevante, quer porque sempre consignei o IRS que me é permitido, quer porque actualmente consigno à Montis, sem fazer, como fazia todos os anos, alguma avaliação das organizações que me parecia mais lógico apoiar (nunca apoiaria a UNICEF, por exemplo, prefiro apoiar organizações mais pequenas, menos profissionais e com menos capacidade de influência entre decisores públicos), mas é relevante que sejam 13 organizações beneficiárias a fazê-lo, porque a comunicação social ignora o assunto.
E com outro resultado negativo: relançar a discussão sobre o aumento desta consignação, agora para 1,5%, torna-se praticamente impossível porque, objectivamente, não tem qualquer vantagem política para nenhum dos partidos.
50 anos depois dos acontecimentos, Sousa e Castro resolveu dizer o que achava do 25 de Novembro, limitando-o a um ajuste de contas entre militares.
Daqui não vem mal ao mundo, o direito à asneira é sagrado e universal.
O interessante é a forma como uma boa parte da esquerda resolveu cavalgar o que disse Sousa e Castro, cuja obra historiográfica desconheço (nunca li o seu livro, "Capitão de Abril, Capitão de Novembro").
O certo é que 50 anos depois dos acontecimentos, o que implica 50 anos de investigação histórica sobre o 25 de Novembro, a esquerda se tenha lembrado agora que o 25 de Novembro não se pode comemorar, primeiro porque era uma data de dividia, em vez de unir, mais tarde porque não tem muita importância para além daquela que a direita lhe quer dar para diminuir o 25 de Abril.
E para dar força a estes delírios, esquece tudo o que contraria a tese extraordinária de que o 25 de Novembro foi um mero ajuste de contas entre militares, e agarra-se com unhas e dentes às declarações de uma pessoa concreta, que estava lá, que terá informação interessante (até escreveu um livro que balizou exactamente pelo 25 de Abril e pelo 25 de Novembro), mas que não é, nem pode ser, considerado como o intérprete fiel do que se passou em 25 de Novembro (entre outras razões, exactamente porque estava lá, não tem a distância necessária que só um trabalho de estudo que inclua todos os pontos de vista possíveis, e não apenas o que dá jeito em cada momento, pode trazer).
O que se tem passado nestes dias com o que boa parte do povo de esquerda tem vindo a dizer com base no que Sousa e Castro achou certo e útil dizer agora, é a enésima manipulação da história em que a esquerda é fértil, desde que optou por se especializar na propaganda em vez de tentar compreender o mundo.
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
Naquele tempo, os chefes dos judeus zombavam de Jesus, dizendo: «Salvou os outros: salve-Se a Si mesmo, se é o Messias de Deus, o Eleito». Também os soldados troçavam d’Ele; aproximando-se para Lhe oferecerem vinagre, diziam: «Se és o Rei dos judeus, salva-Te a Ti mesmo». Por cima d’Ele havia um letreiro: «Este é o Rei dos judeus». Entretanto, um dos malfeitores que tinham sido crucificados insultava-O, dizendo: «Não és Tu o Messias? Salva-Te a Ti mesmo e a nós também». Mas o outro, tomando a palavra, repreendeu-o: «Não temes a Deus, tu que sofres o mesmo suplício? Quanto a nós, fez-se justiça, pois recebemos o castigo das nossas más ações. Mas Ele nada praticou de condenável». E acrescentou: «Jesus, lembra-Te de Mim, quando vieres com a tua realeza». Jesus respondeu-lhe: «Em verdade te digo: Hoje estarás comigo no Paraíso».
Palavra da salvação.
A candidatura de Gouveia e Melo não me suscitou alarme por ser militar. Surpreendeu-me apenas que capitanear uma vacinação, bem-sucedida é certo, fosse motivo para ser famoso, fosse suficiente para ser presidenciavel. Claro que a desconfiança nos políticos profissionais, necessariamente, abre as portas a quem não o é. Lembrei-me que o Almirante poderia interpretar um novo sentimento Sidonista, em que, no desconhecimento ao que vem, cada um lhe atribui as suas virtudes favoritas. Ou tornar-se no celebre Pacheco, do Eça, que sorria, por inteligência claro, mas não dizia nada.
Restava um problema: o Almirante, não poderia deixar de ter de se expor, de mostrar quem é e o que pensa. O presidente, em Portugal, tem muitos poucos poderes, mas tem muita exposição e deve ser, efectivamente, um arbitro de poderes descontrolados. O que obriga a uma campanha publica, que resulta numa exposição mínima, num mesmo que superficial conhecimento do homem por trás da candidatura.
Por isso, com curiosidade, resolvi ver o primeiro debate presidencial do Almirante. Fiquei surpreendido, mas não foi pela positiva. Quando se antecipava assertividade e decisão, Gouveia e Melo, afinal, parece mais um lusitano, um pouco simplório e tímido, adepto do nem sim nem não, nem bem nem mal, nem certo nem errado, antes pelo contrário. Apenas demonstrou que está preparado para ponderar os opostos que descortina (sem grande imaginação). Mas não convenceu ser capaz de tomar uma decisão. Ou, já agora, de ter qualquer tipo de conhecimentos profundos, ter convicções sobre coisa nenhuma, ou sequer saber o papel de um presidente. Confrangeu ter ignorado perguntas e fazer o apelo de outras causas, como o combate à violência doméstica. No estilo de um aluno, numa oral, que diz, “não sei a resposta à sua pergunta, mas sei outras coisas como.....”.
Será isto que é o Almirante? Será isto que os portugueses querem? É o que veremos nos próximos capítulos.
A proposta de paz (?) apresentada na imprensa como sendo uma iniciativa conjunta entre os EUA e a Rússia, é uma espécie nova de realpolitiks: aquela em que uma super -potencia se junta publicamente a outra, para acabar com uma guerra á custa de outrem, colhendo para isso, uma recompensa, por parte de quem recolhe o saque. Por outras palavras, Trump, o presidente democraticamente eleito pelos americanos, propõe-se ficar, publicamente, com o controle de 200.000 milhões de Euros (antes russos), e beneficiar em 50% dos lucros de metade, em troca de ameaçar a Ucrânia com a retirada do seu apoio, obrigando-a a assinar uma paz que mais parece uma rendição incondicional. Que entre outros mimos, significa prescindir de mais de 20% do seu território, do perdão de todos os crimes de guerra cometidos, de prescindir da sua soberania, quer na definição dos efectivos do seu exército, quer abdicando da possibilidade de alguma vez pertencer à nato), entre outras maldades. Já as garantias de segurança que a Ucrânia recebe, depois do banho de “confiança e solidariedade” que a Ucrânia recebeu dos USA, parecem ser muito facilmente destruídas, por uma qualquer operação de falsa bandeira russa. Levantando-se facilmente outras questões: qual o preço dos EUA para intermediar a próxima paz, qual a fatia de território que irá ser perdido na próxima invasão. Porque parece certo que a Rússia está disposta a pagar bem por mais território e população, e Trump, em nome dos EUA, estará sempre disposto a receber mais à custa do sofrimento alheio (para alem do que possa estar a receber particularmente). Até parece que Trump pretende deixar claro ser um bandido. O único consolo é saber que não é o primeiro crápula a ganhar o prémio Nobel.
Pior que Trump, só o partido republicano (dos usa) e a Europa.
É espantoso que o partido republicano pareça capaz de continuar associado à delinquência perversa de Trump. O que Ronal Reagan e tantos outros diriam de tudo isto?
É embaraçoso e vergonhoso que a Europa aceite esta humilhação dos seus valores e interesses, como acredito que possa acontecer. Quem não está disposto a lutar, tem pelo menos de perceber que deixa de ter viabilidade, enquanto sociedade.
PS: escrevi em furia deppois de ler este artigo da reuters, já que na imprensa nacional, curiusamente não se faz referencia nomeadamente ao ponto 14 da proposta de acordo.
É católico? Como entende que se deva pautar a relação do Estado com a Igreja Católica? Qual a sua posição em relação ao direito à vida do nascituro? E quanto ao casamento entre pessoas do mesmo sexo? Acha que que deve ser tomada em conta uma legitimidade histórica da Casa Real Portuguesa, mesmo que no âmbito do simbólico por parte do Estado?
O resto para mim tem pouca importância...
A acreditar no Observador (não fui ouvir a entrevista no original, apesar de não confiar excessivamente nas transcrições que são feitas) e no que diz o Inspector-Geral da Saúde, a Inspecção está enganada.
"As declarações do inspetor-geral Carlos Carapeto foram feitas ... um dia após vários casos na área da Saúde virem a público, como o caso da médica que prescreveu medicação para diabetes a doentes que não sofriam desta patologia, da detenção de duas funcionárias que inscreveram milhares de imigrantes no SNS e da investigação a alegadas má práticas no hospital de Gaia. ... Precisamos de melhorar bastante o sistema de controlo interno das entidades do SNS, neste caso das 39 ULS e três institutos portugueses de oncologia. Todos têm já um sistema de controlo interno, [mas] precisamos de profissionalizar esse sistema de controlo interno“, garantindo que as diferentes situações são “detetadas nas próprias organizações e não vêm a público só quando já é fruto de trabalho das entidades policiais".
E digo que está enganada, não porque discorde do que é dito, mas porque o que é dito ilude a questão central: a avaliação, no Estado, não existe de forma séria e o problema não é de natureza técnica ou funcional (também é, claro, mas essa é já uma consequência, não é uma causa).
Olhemos para outro caso completamente independente deste e, aparentemente, sem qualquer ligação, o parecer do Conselho Nacional de Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (declaração de interesses, deste conselho fazem parte amigos meus muito próximos, e "inimigos" meus, também muito próximos) sobre a revisão da Estratégia da Estratégia Nacional de Conservação da Natureza e da Biodiversidade 2030.
O CNADS é uma organização muito institucional, de maneira geral bastante prudente e que usa frequentemente punhos de renda nos seus pareceres, o que não é defeito nem qualidade, é uma característica a ter em atenção.
Mas não é o caso deste parecer, em que taxativamente se recomenda que o processo de revisão comece de novo, entre outras razões, por isto: " que esta [a estratégia] seja reformulada e, posteriormente, sujeita a nova
consulta pública, acompanhada de: ... 2) Um RELATÓRIO DE AVALIAÇÃO INTERCALAR que integre o Relatório de Monitorização numa versão definitiva e o Relatório CEDRU e que esteja suportado por uma avaliação explícita dos objetivos entretanto alcançados e a ser alcançados em termos financeiros, de metas e de indicadores de execução e desempenho".
Ou seja, a proposta de revisão de uma estratégia sectorial foi feita e apresentada, sem uma avaliação séria dos resultados obtidos até ao momento e, mais que isso, ignorando a informação que existe que procura avaliar o que estava em execução.
Isto não é um problema pontual de processos de gestão frágeis ou inadequados, isto é o padrão da administração pública, com excepções, evidentemente, que resulta de uma cultura de avaliação inexistente, quer por parte da administração enquanto tal, quer por parte das suas tutelas políticas, quer por parte do parlamento (já referi, várias vezes, a forma como todos os partidos ignoraram, por completo, a informação, fundamentada, de que um alto responsável que a lei obriga a ser ouvido pela Assembleia da República, anualmente, mentia com quantos dentes tinha na boca) quer, o que é mais extraordinário, por parte do contexto mediático.
O facto de ser o CNADS a dizer o que está acima, sem que nenhum jornalista da área de ambiente tivesse feito a mesma pergunta sobre a avaliação da estratégia que está em revisão, é um indicador fortíssimo de como a imprensa se demitiu do seu papel de escrutínio, substituindo-o por uma prática de "ouvir os dois lados" que considera suficiente.
A IGAS está, pois, enganada, o problema da avaliação e auditoria no sector da saúde não se vai resolver tão cedo, basta ver a reacção geral da imprensa ao facto do Orçamento de Estado ter um corte (Montenegro diz que não é um corte, mas isso é Montenegro a ser Montenegro, devia dizer, com todas as letras, que é um corte e há razões sérias para acabar com o sistema de bar aberto que existe no sector da saúde) nas despesas do Ministério da Saúde.
Não deixo de ficar de boca aberta com o facto de todos sabermos que a administração funciona num sistema de bar aberto sustentado pelo nossos impostos, e a generalidade da imprensa cair sobre qualquer pessoa ou medida que resolva dizer que precisamos de gerir melhor o dinheiro dos contribuintes, incluindo, em alguns casos, fazer cortes cegos, para obrigar o sistema a adaptar-se a tempos de vacas magras.
Foi feito durante a troika, com excelentes resultados (os custos sociais foram altos, sobretudo porque foi feito em estado de necessidade e não em circunstâncias que permitam ir calibrando os custos sociais com os resultados de melhoria na aplicação dos recursos do país).
Num país em que apenas uns 7% dos trabalhadores são sindicalizados, é extraordinária a dificuldade em discutir as regras que devem existir no mercado laboral.
Comecemos pelo princípio.
O ideal era não haver regras, os empregadores empregam quem querem, os trabalhadores trabalham para quem querem, com as regras que uns e outros concordarem em aplicar a cada caso concreto.
O problema é que a relação laboral é intrinsecamente assimétrica, isto é, o poder do empregador é, frequentemente, bastante maior que o poder do empregado no momento em que se negoceiam as condições a respeitar pelos dois durante o tempo em que vigorar o seu contrato de trabalho.
O principal instrumento para equilibrar a relação contratual entre os dois é a liberdade que o empregado tem para se ir embora se não estiver satisfeito, situação que só se verifica se existirem alternativas para o empregado ganhar o seu sustento, isto é, pleno emprego ou perto disso, e vários empregadores a precisar de empregados.
Nada disto se passa em Portugal que tem um mercado de trabalho rígido, que gera ineficiência, baixa produtividade e nível de salários abaixo do potencial, entre outras razões porque o empregador não tem a flexibilidade de que precisa para rapidamente se adaptar às alterações de contexto nem, frequentemente, tem liberdade para pagar diferentemente a diferentes trabalhadores, em função da avaliação que faz do seu desempenho.
Há por aí quem defenda que a precariedade em Portugal é muito alta, o que demonstra que o mercado de trabalho não é rígido, mas isso é conversa de treta: em Portugal o mercado de trabalho (como o da habitação, o da saúde, o da educação, etc.) é dual, com regras muito favoráveis aos trabalhadores que conseguem ter um contrato de trabalho sem termo, e um mercado de precários, sobretudo no princípio da carreira profissional, em que a ausência de regras e a discricionariedade, incluindo a variedade de esquemas para contornar a legislação, são regra.
E é exactamente a rigidez das regras do mercado de trabalho que empurram os patrões e os trabalhadores para acordos estranhos e precários.
Toda a discussão sobre as melhores regras pode ser feita, mas basta alguém dizer que não faz sentido o patrão estar a pagar horas de trabalho de mulheres que amamentam crianças com mais que alguns meses, ou que não faz sentido os trabalhadores sem filhos, ou com filhos mais velhos, serem sistematicamente prejudicados pela possibilidade dos pais com filhos com menos de 12 anos puderem recusar turnos nocturnos ou ao fim de semana, para cair o Carmo e a Trindade.
Nem mesmo a discussão sobre a experiência de flexi segurança, que reforça a flexibilidade de contratação e despedimento, ao mesmo tempo que assegura prestações sociais a quem perde o seu trabalho, pode ser discutida seriamente, porque os sindicatos, que não representam nem 10% dos trabalhadores, fazem logo um ar muito ofendido e desatam a gritar que vem aí o fascismo e, por isso, acham legítimo bloquear os transportes e os serviços públicos, para dar a impressão de que toda a gente está contra a possibilidade de mudar as regras do mercado de trabalho.
Continuai, continuai, enquanto milhares de pessoas dizem com os pés o que pensam, emigrando para países onde a protecção dos trabalhadores é teoricamente menor.
Tem tudo para dar certo.
A Montis é uma associação de conservação a que estou ligado (a quota de 25 euros anuais é do meu dinheiro mais bem gasto).
De vez em quando escrevo sobre a Montis, por esta ou aquela razão e desta vez tenho duas razões.
A primeira é que a Montis está a contratar, portanto quem queira trabalhar numa associação de conservação que não tem posições políticas e se foca na gestão de terrenos com objectivos de biodiversidade, é só dar aqui um salto e ver se lhe serve.
A segunda razão é que a Montis vai ter eleições a meio de Dezembro e, infelizmente, ainda só concorre uma lista.
Pela primeira vez, desde que a Montis foi fundada, não estou nos órgãos sociais, já estive na direcção e já estive no conselho fiscal, não me lembro se cheguei a estar na Mesa da Assembleia Geral (a Montis tem normas estatutárias que impedem a eternização nos órgãos sociais, limitando o exercício de cargos a dois mandatos no mesmo órgão social).
Pediram-me que fizesse funcionar o conselho consultivo, um órgão de aconselhamento facultativo que nunca funcionou e eu aceitei tentar (se nunca funcionou, é porque não é fácil fazê-lo funcionar, claro).
Estou muito contente com as pessoas que aceitaram estar nesse Conselho Consultivo (António Salgueiro, Carlos Aguiar, Hélia Marchante, Henk Feith, Henrique Pereira dos Santos, Humberto Rosa, Ivan Sellers, Luís Tiago Filipe, Nuno Neves, Pedro Braz Teixeira, Wouter De Broeck) mas, mais que isso, estou muito contente que na lista candidata à direcção estejam três antigos funcionários da Montis.
A Montis também tem normas estatutárias que impedem os órgãos sociais de ser pagos pela associação, o que, evidentemente, exclui actuais funcionários, e a Montis não será o melhor sítio do mundo para trabalhar (a demonstração é que estes três funcionários saíram para outras opções profissionais e há, infelizmente, uma rotação da equipa técnica que é maior que o desejável), porque paga o que é possível e não, forçosamente, o que as pessoas gostariam de receber.
O facto de três antigos funcionários aceitarem fazer parte dos órgãos sociais, no entanto, é o reconhecimento de que, enquanto trabalhadores, foram tratados com justiça e respeito, incluindo um forte investimento no seu desenvolvimento profissional (o que às vezes leva a que as pessoas tenham mais oportunidades fora da Montis).
Onze anos, muito mais terrenos a ser geridos do que se imaginou no início, e muito menos sócios do que gostaríamos, fico muito satisfeito em ver que uma pequena associação com elevados padrões de transparência e exigência na captação de recursos, vai fazendo serenamente o seu caminho, com as dificuldades inerentes a este tipo de organizações que se recusam a ser meras empresas de serviços disfarçadas de associações, ou correias de transmissão de agendas políticas de pequenos grupos empenhados em impor aos outros o que acham que está certo.
Até agora, com mais ou menos percalços, tem valido a pena.
Há um grupo muito activo nas eleições presidenciais que tem uma característica muito divertida: estão órfãos de candidato.
Grande parte da aristocracia do PS e arredores, fortemente presente na comunicação social, na academia e em todo o lado que influencia o debate público não conseguiu arranjar um candidato a presidente da república disposto a sofrer uma humilhação eleitoral desagradável.
Em consequência há um cenário de que este grupo tem bastante medo.
O risco maior não é um candidato de direita ganhar a presidência, todos sabemos que isso não afecta grandemente este grupo e até lhe pode ser útil por lhe permitir responsabilizar terceiros pelos problemas do país.
O risco maior é António José Seguro ganhar as eleições, reduzindo a influência desse grupo no campo político de que se acha dono.
Os pequenos partidos da pequena esquerda têm cada um o seu pequeno candidato, mas daí não vem mal ao mundo, limitam-se a uma actividade burocrática de fixação do eleitorado e aproveitamento das oportunidades de propaganda dos seus pontos de vista, na verdade, não contam para nada.
Na direita, temos Ventura entalado entre a falta de comparência do Chega e o risco de uma votação claramente abaixo dos 20%, mas não lhe restou outra alternativa, depois da derrota clara nas autárquicas, que não fosse tentar estancar a ideia de que o Chega não chega para as encomendas.
Temos Cotrim, como de costume, a tratar da sua vidinha, tentando demonstrar que, seja qual for a circunstância política nas próximas europeias, ele é indiscutivelmente o cabeça de lista.
Temos Marques Mendes.
Para estes órfãos de candidato de que estou a falar, sobra uma estratégia destrutiva: o fundamental é impedir que António José Seguro ganhe as eleições.
Como por razões partidárias estão "impedidos" de apoiar outras candidaturas estritamente partidárias, não dizem em quem votam, para não se comprometer, ao mesmo tempo que deixam a ideia de que António José Seguro não é um voto seguro ou apoiam Gouveia e Melo (com o resultado prático de diminuírem também a candidatura de Gouveia e Melo, que naturalmente perde votos de cada vez que um Manuel Pizarro, um Francisco George, e outros do mesmo grupo, o apoiam).
O tempo dirá qual o efeito destas manobras, mas o facto de elas existirem, em consequência dessa orgulhosa esquerda não ser capaz de gerar uma candidatura que, ao menos, perdesse com honra, diz bem do estado comatoso e da representatividade desse grupo que, há anos, tem uma representatividade na comunicação social, na academia, no espaço público, claramente desfasada da sua pequena representatividade na sociedade.
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Vivemos uma época marcada por um ruído ensurdecedor. Os discursos, cada vez mais radicais, ecoam por toda a parte: nos parlamentos, nas redes sociais, nos encontros de café. A ameaça de guerras eclode nas manchetes dos jornais e nos debates de opinião, criando um clima de desorientação onde o medo e a confusão parecem ganhar terreno. A guerra fria reentrou no léxico corrente, a ameaça nuclear paira de novo. Em termos domésticos os extremismos erguem-se impantes, alimentados por ressentimentos antigos e desilusões recentes. As redes sociais exponenciam a gritaria da multidão zangada, que se expressa sem filtros e sem maneiras. Moderação é fraqueza, ribombam os tambores de guerra – estamos fartos de bem-estar. O problema é que pusemos tudo em causa, foram anos de desconstrução militante. Quem disse que a civilização e as instituições que a ergueram resistia a tudo? Será que o pendulo regressa ao ponto de partida?
As instituições, mesmo imperfeitas – sejam elas democráticas, jurídicas, educativas, religiosas ou culturais – têm servido, ao longo dos séculos, como pilares de coesão social. São elas que garantem a continuidade no meio da mudança, a justiça perante a arbitrariedade, a proteção contra o autoritarismo e o caos. No entanto, a confiança nas instituições sofre abalos profundos quando estas deixam de responder às expectativas dos cidadãos, ou quando se mostram permeáveis à corrupção, à ineficácia ou ao clientelismo.
Se as instituições são a estrutura, os valores são o cimento. São os princípios éticos que atravessam gerações e que, mesmo quando postos à prova, mantêm a sua relevância: a dignidade humana, o respeito pela diferença, a honestidade, a solidariedade, a justiça. Esses valores, longe de serem dogmas imutáveis, requerem constante reflexão e atualização para não se tornarem instrumentos de exclusão ou de moralismo vazio. Mas são, ainda assim, as âncoras que impedem a sociedade de naufragar no relativismo absoluto ou na barbárie.
A leviandade na comunicação é, talvez, um dos sintomas mais visíveis da crise contemporânea. Palavras ditas sem pensar, fake news, insultos e generalizações: tudo isto mina a possibilidade de diálogo e aprofundamento. É fundamental recuperar o valor da palavra ponderada, do debate informado, da escuta ativa. Só assim se criará um espaço público saudável, onde o desacordo não se transforma imediatamente em hostilidade.
Talvez que, afinal de contas, reclamar por instituições sólidas e valores perenes seja pedir por chão firme numa época de terramotos. O problema é que esse chão não se constrói de cima para baixo, nem se herda sem esforço. Exige cidadania ativa, compromisso ético e vontade de refazer pontes onde só restam escombros. Talvez seja este o maior desafio do nosso tempo: não nos resignarmos ao cinismo, nem nos rendermos à raiva, mas construir, juntos, a casa comum do cristianismo. Talvez estejamos todos distraídos a olhar para o dedo que nos quer apontar a lua.
Tenho quatro filhos e preocupa-me o mundo que lhes deixamos, e pelo qual de alguma forma sou responsável. Talvez por isso não desisto de acreditar num futuro onde não sejam os gritos, mas as vozes ponderadas e os gestos solidários, a definir o rumo coletivo.
Mas como construir um rumo colectivo nesta cultura hiperindividualista?
Na imagem: reprodução de Guernica de Pablo Picasso
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