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Uma das coisas chatas das intervenções nas televisões, sobretudo em alturas de crises nos fogos, são as secas que se apanham à espera de entrar em antena.
Ontem, por acaso, a coisa até correu bem na SIC, e não tive de esperar muito, mas esperei o suficiente para entretanto ouvir André Ventura a falar sobre fogos, com propostas verdadeiramente revolucionárias e inovadoras, que me motivam a fazer este post.
Como penso que quase toda a gente concordará, grande parte do génio político de André Ventura consiste em ter dez soluções milagrosamente simples para cada problema complexo.
Foi exactamente o que ouvi ser explicado por André Ventura, naquela sua maneira de falar sempre zangado com o mundo inteiro que tarda em lhe reconhecer o génio, o Governo está a gerir muito mal a questão dos fogos e tem de garantir que vai fazer legislação para não deixar os incendiários em paz.

O que me fascinou foi o carácter inovador desta ideia de que para gerir o fogo, o fundamental é produzir legislação, uma coisa que nunca tinha ocorrido a ninguém, como se vê neste boneco retirado da tese de doutoramento do Tiago Oliveira.

O boneco acima é uma imagem do satélite MODIS AQUA de ontem, 29 de Julho, às três da tarde.
O boneco ilustra aquilo que sabe qualquer pessoa que tenha interesse na gestão do fogo, que é muito diferente de ter interesse no espectáculo do fogo, a situação complicada de gestão do fogo desse dia, a essa hora, resulta, essencialmente, das condições meteorológicas, o que no boneco se vê pela direcção do fumo dos incêndios, consequência da direcção do vento entre Leste e Nordeste.
Todos os anos, quando arde, vejo as mesmas pessoas a ser ouvidas para analisar as situações críticas (eu incluído), a dizer essencialmente o mesmo (ontem, até o patrão dos patrões dos bombeiros, António Nunes, dizia que, dadas as circunstâncias, uma boa parte do que os aviões andavam a fazer era dar conforto às pessoas, porque com terreno tão acidentado e inacessível não conseguiam pôr "botas no terreno" para consolidar a supressão) e, cinco minutos depois de saírem do estúdio, a esmagadora maioria do jornalismo, quer pivots, quer repórteres no terreno, voltarem às tretas dos meios aéreos, dos incendiários, dos eucaliptos, da imprevisibilidade do vento, dos meios empenhados no combate e essas coisas todas que os tais que se interessam pela gestão do fogo, cinco minutos antes, tinham dito que não eram coisas muito relevantes.
Ontem tive a honra de ser interrompido pelo directo com o Senhor Primeiro Ministro e tinha acabado de dizer que a conversa dos meios aéreos não interessava nada, e como foi uma interrupção inopinada e ninguém mais me disse nada da televisão em que estava a falar, fui ficando na video chamada, para saber se voltava a entrar em antena.
Foi assim que, dois minutos depois de eu acabar de dizer que a conversa dos meios aéreos não interessava nada, verifiquei que o senhor que acompanhava a visita do senhor primeiro ministro à autoridade nacional de protecção civil, em vez de querer saber por que razão se estava na protecção civil em vez de se estar na secretaria de estado das florestas ou na presidência do conselho de ministros, em vez de querer saber por que razão o governo tinha excluído os privados do acesso ao programa de gestão activa da floresta, em vez de querer saber por que razão a senhora ministra do ambiente tinha mandado o fundo ambiental voltar a financiar centrais de biomassa, quando a mesma medida, tomada por José Sócrates, já tinha sido tomada e abandonada por falta de resultados, quer discutir uma treta qualquer sobre a importância que na situação que se vê no boneco acima, teria ter 72 ou 79 meios aéreos.
E é isto, permanentemente, alimentado por directos infindos, em que repórteres no terreno conversam com bombeiros e autarcas (sim, os autarcas, que passam a ser especialistas de gestão de fogos por ganharem uma eleição, coitado do Emanuel Oliveira, para saber alguma coisa de uso tradicional do fogo foi fazer um doutoramento porque ninguém lhe explicou que bastava concorrer a uma autarquia), e depois correm a ouvir aquele senhor do Chega que fala sempre muito zangado com tudo, e tem sempre dez soluções milagrosamente simples para problemas complexos (parece o Bloco nos seus tempos áureos), e nem são capazes de reparar que a senhora ministra da Administração Interna, embora com alguma falta de propriedade de linguagem compreensível, disse duas coisas sensatas: 1) que não sabia grande coisa do assunto, e portanto se iria informar com quem sabe (ninguém lhe explicou que para isso a Autoridade Nacional de Protecção civil não é o sítio certo, mas enfim, compreende-se que tenha sido enganada); 2) que ter 72 ou 80 meios aéreos seria irrelevante para alterar a situação que estava a ocorrer.
Tenho insistido que, actualmente, em matéria de fogos, só tenho uma proposta: pagar 100 euros por hectare a quem tenha o seu mato com menos de 50 cm de altura.
Acho que vou começar a insistir numa segunda proposta, mais complicada, cursos intensivos e obrigatórios de gestão do fogo para os jornalistas, sem os quais ficariam impedidos de fazer peças ligadas ao assunto.
Há seis dias, aqui no Corta-fitas, escrevi que, a manterem-se as previsões meteorológicas, este início de semana seria agitado, do ponto de vista dos fogos.
Um tipo mediano, não especialista na matéria, usando informação comum e disponível gratuitamente para qualquer pessoa, consegue acertar frequentemente nas previsões sobre a situação relativa aos fogos, como qualquer pessoa consegue (desde que não se deixe influenciar pelos avisos da protecção civil que têm o risco máximo de incêndio tão baixo, que estão sempre a gritar "vem lobo!, vem lobo!").
A razão para isso é simples, os fogos têm duas variáveis, a acumulação de combustíveis e a meterologia (dentro da meteorologia, essencialmente a humidade atmosférica e o vento) e, sabendo que a acumulação de combustíveis é um dado, basta, naturalmente, estar atento à humidade atmosférica e ao vento (como a humidade atmosférica está fortemente relacionada com a orientação do vento, praticamente basta ver a direcção e intensidade do vento, confirmando depois o resto, se se quiser).
Não podendo nós controlar a meteorologia, sobra o controlo dos combustíveis finos que deixou de ser feito pela economia.
Resumindo, o que temos de fazer é criar economia ou, preferencialmente, potenciar a economia que existe, para aumentar a área de gestão de combustíveis finos.
Pode-se pensar, e durante muito tempo era o que eu fazia, qual é a situação ideal para o controlo do fogo e tentar lá chegar, ou podemos deixarmo-nos de fantasias e partir da economia que realmente existe, para ganhar áreas de gestão de combustível e, dessa forma, ganhar maior controlo sobre o fogo.
O governo continuar a tomar decisões iguais a decisões anteriores e cujos resultados não foram os que se pretendiam, como esta tolice de andar a financiar centrais de biomassa, é uma opção ineficiente, o dinheiro vai desaparecer mas o problema não.
O Governo desenhar grandes programas de apoio, em que deixa de fora os agentes privados, é melhor, porque o programa não se executa, portanto os resultados são os mesmos, mas ao menos poupa-se algum dinheiro.
Já a Gulbenkian financiar oito associações (uma delas a Montis, sobre a qual acho que já nem preciso de fazer uma declaração de interesses) ambientais em que mais de metade fazem gestão concreta de terrenos, é um bom passo, no bom caminho, de trazer gestão para o mundo rural.
Tal como fico satisfeito com o protocolo entre a Real Associação de Lisboa e a Montis para gerir terrenos que estão ao abandono há algum tempo (no tempo do dono anterior, que os doou à Real Associação de Lisboa).
Mas do que o país precisa é mesmo que a sociedade se organize para pagar a gestão de combustíveis finos a quem a faz, não é de persistir na fantasia de que, por vontade do Estado, vai aparecer gestão onde ela hoje não existe porque não há gente interessada em a fazer.
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Neste número da revista Correio Real em que se assinalam as efemérides festejadas recentemente pela nossa querida Família Real temos o dever de realçar as boas notícias no campo dos monárquicos. Acontece que, aos dias de hoje, podemo-nos congratular com a quase completa extinção, de morte natural, do velho jacobinismo republicano. O jacobino revolucionário à francesa, que deu expressão ao “politicamente correcto” do século XX português, tornou-se irrelevante. Bem sabemos que, enquanto vão desaparecendo os últimos exemplares dessa gente maldisposta e ressentida, minoritária, mas ruidosa, que por tanto tempo dominou o espaço público nacional, uma nova variante do vírus vai desabrochando com outros sintomas igualmente perversos. O seu ódio corrosivo já não é dedicado ao rei, mas à identidade portuguesa – agora somos mais, assim nos saibamos defender.
Mas é esse moribundo radicalismo que explica como foram duros os desafios travados durante décadas pelo Senhor Dom Duarte na afirmação das suas causas. Explica porque esses herdeiros de Afonso Costa resistiram de forma tão obstinada e mesquinha a agradecer ao Duque de Bragança os seus precoces, continuados e persistentes esforços para a Independência de Timor em 2002. O Povo de Timor, ele mesmo, tratou de saldar essas contas, como sabemos.
Curioso foi o testemunho que ouvi dum jovem angolano condutor de Uber, cuja nacionalidade era denunciada pela emissora de Luanda que o mostrador do rádio exibia. Para fazer um pouco de conversa, perguntei-lhe se era natural da capital de Angola, ao que o rapaz me respondeu que não, que era oriundo de Cabinda. Então, aproveitando a atenção do seu interlocutor, desabafou com espontaneidade a sua genuína preocupação com os problemas deste riquíssimo enclave, a opressão do seu povo que anseia por outra atenção do governo central. Com um discurso estruturado na descrição desse sensível imbróglio político, foi com surpresa que o ouvi tecer rasgados elogios ao Duque de Bragança, pela sua independente e corajosa posição a respeito do diferendo.
De facto, longe dos holofotes e sem reclamar reconhecimento, o Senhor Dom Duarte, além das estradas e caminhos de Portugal, que conhece como poucos, há décadas que percorre os territórios e visita as mais recônditas comunidades da lusofonia onde é acarinhado e muito respeitado, sempre a construir pontes e a semear laços de paz.
A outra boa notícia que gostava de assinalar nestas linhas é a consolidação institucional da Casa Real portuguesa e o crescente estreitar da sua relação com os portugueses. A solidez de uma instituição serve para defendê-la das contingências e circunstâncias imponderáveis, é garantia de futuro. Esta consolidação tem, nos últimos trinta anos, nomes e caras: os Duques de Bragança, Dona Isabel e Dom Duarte.
Texto adaptado do editorial da revista Correio Real nº 31
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P.S.: No passado dia 26 de Julho o Senhor Dom Duarte de Bragança apadrinhou a assinatura de um protocolo com a Montis, Associação para a Gestão e Conservação da Natureza. O rei, o terrtório e as suas gentes é uma bela conjugação. Saiba mais AQUI
A.S. É extraordinário como organizações responsáveis, como a Organização Mundial de Saúde, que se queixam permanentemente de não ter condições de trabalho em Gaza, de repente, sabem exactamente qual é a situação alimentar de um milhão de crianças. Com base em que métodos de recolha, registo e análise da informação, se Israel impede que os olhos do mundo estejam em Gaza?

Esta imagem, e outras tiradas da mesma sessão fotográfica, são apresentadas como demonstrando a profunda escassez de alimentos em Gaza (no caso, é da capa do Público de Sábado, 26 de julho, mas há milhares de sítios onde podem ser encontradas rapidamente fotografias provenientes da mesma sessão fotográfica).
Sem mais informação, a fotografia não diz nada sobre a existência de fome em Gaza, tanto mais que, estando duas pessoas na imagem, uma delas tem uma extrema magreza, mas a outra, sua mãe, não apresenta sinais evidentes de desnutrição (não estou a dizer que não passa fome ou que não tem dificuldades para se alimentar, em consequência da escassez de alimento em Gaza ou da dificuldade de acesso, estou apenas a dizer que a mãe da criança não apresenta sinais evidentes de fome aguda).
O que tornou esta fotografia (ou outras, da mesma sessão fotográfica) mundialmente presente nos meios de comunicação social é a história que é contada à volta dela, numa demonstração evidente de que uma imagem, por si, raramente diz tudo o que precisamos de saber para a interpretar.
A razão pela qual a história que é contada à volta dela ganha credibilidade é porque a generalidade dos meios de comunicação social mais influentes do mundo, neste caso, em especial a BBC, que entrevistou a mãe da criança (é frequente ouvir-se dizer que em Gaza não há jornalistas, por imposição de Israel que não quer testemunhas do que lá se passa, mas não só há permanentemente notícias de jornalistas mortos, apesar de lá não existirem, como rapidamente a BBC consegue uma entrevista com a mãe desta criança, quando quer), repetem incessantemente a ideia de que a fotografia representa uma criança saudável que, de repente, atingiu este estado de magreza extrema devido à fome aguda que grassa em Gaza.
Há, no entanto, outras possibilidades.
Eu não tenho maneira de saber quais das possibilidades que existem traduzem melhor a realidade, eu sei que estou predisposto a acreditar mais nalgumas versões que noutras, e por ter consciência disso é que me preocupo tanto em procurar fontes primárias de informação (o que, no caso, é impossível de conseguir).

Alegadamente, gostaria de reforçar este alegadamente, esta fotografia é da mesma sessão fotográfica mas é muito menos conhecida, porque não terá sido publicada em praticamente lado nenhum.
Não é impossível que seja uma fotografia manipulada, é claro que vemos a mesma mãe (sem sinais evidentes de subnutrição), outro filho mais velho (sem sinais evidentes de sub-nutrição) e a criança com a magreza que seria devida à profunda escassez de alimentos em Gaza.
Claro que, a ser verdadeira a imagem, não se compreende com um dos filhos chega a este estado extremo de sub-nutrição e o irmão, pouco mais velho, não tem qualquer sinal de sub-nutrição.
Fui buscar esta segunda fotografia a esta longa refutação da história que os media mais influentes do mundo têm apresentado como verdadeira mas, por exemplo, não sabendo árabe, é-me impossível verificar se, como é dito, a mãe diz uma coisa em Árabe e o narrador do video da BBC diz outra em Inglês, ou seja, não tenho mecanismos de verificação que me permitam ter mais certezas quanto ao que realmente querem dizer estas imagens.
Claro que posso perder horas à procura de indícios que apontem num sentido ou noutro, e ir encontrando ecos da discussão sobre o assunto, como aqui.
Só que isto não faz sentido, o que faria sentido é que (e há muitos precendentes deste comportamento de rebanho na imprensa Ocidental) a imprensa séria, em vez de ir a correr atrás das emoções contidas numa imagem (as imagens que estão acima são fortíssimas, emocionalmente, quer representem a fome em Gaza, ou uma criança com problemas de saúde graves para os quais a mãe procura desesperadamente ajuda numa situação de guerra), deveria preocupar-se mais em compreender o contexto das imagens que usa, evitando usar as imagens para difundir as opiniões do jornalistas.
O Hamas já percebeu muito bem como usar as características do modelo informativo do Ocidente para vender o que quer e, nisso, tem demonstrado uma capacidade muito superior à do Estado israelita.
Um dia destes, a propósito do que tenho escrito sobre Gaza, alguém me perguntou a minha opinião sobre os colonatos.
Respondi que não tinha informação suficiente para ter opinião sobre o assunto o que, naturalmente, levou algumas pessoas a chamar-me mentiroso e coisas afins (o "naturalmente" resulta de haver muita gente para quem a ausência de resposta que se pretende é motivo mais que suficiente para demonstrar que o interlocutor é uma besta).
E, realmente, não tenho informação sobre a questão dos colonatos, nunca me dediquei a ler sobre o assunto e tenho ideia de que é um assunto de grande complexidade.
Ora hoje, no Público, António Araújo veio em meu auxílio, escrevendo o obituário de Moshe Zar, o tal colono terrorista que dá título a este post, que copia o título do obituário.
Confirma-se que o assunto é mesmo complexo, ao ponto de Moshe Zar, um colono que pouco antes de morrer, aos 88 anos, dizer numa entrevista "A nossa guerra não é com os Árabes, é com os judeus que nos querem tirar a nossa terra".
A questão da terra parece ser (como digo, não sei grande coisa sobre o assunto, daí o "parece ser") uma permanente fonte de conflitos, e Moshe Zar era um promotor imobiliário que desde o fim dos anos 70 "começou a comprar clandestinamente terras aos palestinianos, na zona da Cisjordânia, prática que os árabes consideram uma traição punida com a morte".
O obituário não é claro, portanto não tenho resposta segura para as perguntas que esta última citação me levanta, sobre quem considera uma traição (já agora, se a traição é comprar a terra ou vendê-la) e quem pune os prevaricadores, através de que processos, com que garantias de defesa dos acusados.
E fico ainda mais confuso quando o mesmo obituário diz "a maioria das construções foi e é feita à maneira árabe, isto é, de forma selvagem e ilegal, prescindindo de licenças e autorizações camarárias", dando indicações sobre o "emaranhado jurídico em que, às tantas, ninguém sabia a quem pertencia o quê, se aos palestinianos, ..., se aos colonos, se ao Governo de Israel ou, enfim, se às organizações que financiaram a compra das propriedades".
Sobre os colonatos, como disse, não tenho informação para ter opinião formulada, do que não tenho grandes dúvidas é que a história de ocupantes (judeus) e ocupados (palestinianos) é uma grosseira simplificação do que se passa numa das regiões mais conturbadas no mundo, desde há séculos.
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
Naquele tempo, estava Jesus em oração em certo lugar. Ao terminar, disse-Lhe um dos discípulos: «Senhor, ensina-nos a orar, como João Batistaensinou também os seus discípulos». Disse-lhes Jesus: «Quando orardes, dizei: ‘Pai, santificado seja o vosso nome; venha o vosso reino; dai-nos em cada dia o pão da nossa subsistência; perdoai-nos os nossos pecados, porque também nós perdoamos a todo aquele que nos ofende; e não nos deixeis cair em tentação’». Disse-lhes ainda: «Se algum de vós tiver um amigo, poderá ter de ir a sua casa à meia-noite, para lhe dizer: ‘Amigo, empresta-me três pães, porque chegou de viagem um dos meus amigos e não tenho nada para lhe dar’. Ele poderá responder lá de dentro: ‘Não me incomodes; a porta está fechada, eu e os meus filhos estamos deitados e não posso levantar-me para te dar os pães’. Eu vos digo: Se ele não se levantar por ser amigo, ao menos, por causa da sua insistência, levantar-se-á para lhe dar tudo aquilo de que precisa. Também vos digo: Pedi e dar-se-vos-á; procurai e encontrareis; batei à porta e abrir-se-vos-á. Porque quem pede recebe; quem procura encontra e a quem bate à porta, abrir-se-á. Se um de vós for pai e um filho lhe pedir peixe, em vez de peixe dar-lhe-á uma serpente? E se lhe pedir um ovo, dar-lhe-á um escorpião? Se vós, que sois maus, sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o Pai do Céu dará o Espírito Santo àqueles que Lho pedem!».
Palavra da salvação.
Comecemos pelo mais básico.
Em Gaza está em curso uma guerra entre o Hamas, e seus aliados, e o Estado de Israel, e seus aliados.
O povo palestiniano não é tido nem achado nessa guerra - nem sequer escolhe o seu governo, portanto, nem essa responsabilidade tem, ao contrário do povo de Israel - é apenas uma vítima indefesa da guerra entre os dois beligerantes que referi.
Essa guerra não nasceu a 7 de Outubro de 2023, no sentido em que havia um ataque constante a Israel com rockets e afins, e no sentido de que o 7 de Outubro foi apenas mais um episódio de uma guerra larvar há dezenas de anos, que aqui e ali emerge em episódios de guerra activa, como o que agora está em curso.
O episódio de guerra activa e total em curso é desencadeado pelo Hamas, que se recusa a baixar armas e libertar os seus reféns.
É uma guerra atípica e assimétrica porque se desenrola entre um Estado de direito, democrático, com liberdade de opinião e escrutínio do governo pela imprensa, e um grupo armado que não respeita nenhuma das convenções da guerra, começando pela convenção base: o uso de uniforme pelos combatentes, para os distinguir dos civis.
É também moralmente assimétrica porque o Estado de Israel usa os seus combatentes para proteger os seus civis e os seus recursos para investir na capacidade de defender os seus civis e o Hamas usa os seus civis para proteger os seus combatentes, usando os seus recursos para aumentar a sua capacidade de destruir o Estado de Israel.
Em quase vinte anos de governo do Hamas, a fome ou a sua ausência foram sempre arma de guerra, como acontece desde sempre na guerra.
Quando o Hamas toma o poder, pela força, em Gaza, a população não chegava ao milhão e meio de pessoas e é hoje um pouco mais de dois milhões, dificilmente se poderá argumentar que a fome campeava em Gaza, mas a esmagadora maioria dos recursos existentes não dependem da economia local, mas da ajuda externa (quer a que era canalizada por via da ONU, quer os muitos doadores que existem).
Controlar a ajuda externa, em Gaza, é controlar o poder (via Ana Cristina Leonardo: "Mais voici ce qu'ils ne diront pas : à Gaza, celui qui contrôle la nourriture contrôle la population. C'est pourquoi le débat sur la distribution de nourriture est plus qu'une question humanitaire : c'est aussi une question politique et militaire."), como se demonstra pelo esforço do Hamas em destruir o sistema alternativo de ajuda humanitária desenvolvidos pelos EUA e Israel, a Gaza Humanitarian Foundation, que ontem distribuiu mais um milhão e trezentas mil refeições, num total de 92 milhões, desde que começou a operar em Maio.
Por isso, quando Israel acusou a ONU de se recusar a distribuir quase mil camiões de ajuda alimentar e, mais que isso, recusar a ajuda da GHF para o fazer, eu tive dificuldade em acreditar.
Por isso procurei, como procuro sempre que uma história me parece mal contada (a vida tem-me ensinado que quando uma história parece mal contada, geralmente é porque está mesmo mal contada), fontes primárias de informação.
Encontrei uma conferência de imprensa do porta-voz do Secretário Geral da ONU com a resposta oficial para a acusação feita.
"Question: Hi. Thanks for having me on. With all of its flaws, and there are many, the Gaza Humanitarian Foundation has been issuing these daily pleas to the UN to offer some sort of cooperation between agencies and GHF. Is there any sort of response you want to give to them and their pleas?
Spokesman: It’s the same response we’ve been giving over and over again. There is enough work for many humanitarian organizations for us to work with. We welcome working with any other partners. All we ask is that those partners work based on the most basic humanitarian principles, one of them being that don’t set up an operation that will increase the risk of people to be shot at or trampled while trying to get food. Also, we have a system that works. All we’re asked is to be allowed to do that system. I don’t think we need to add another layer of for-profit organizations. We need humanitarian partners, and we welcome working with any and every humanitarian partners that works along those basis."
Independentemente de, para mim, a resposta mais interessante da conferência de imprensa ser a explicação para que a ONU não tenha declarado uma "famine" em Gaza, o facto é que a ONU confirma que não distribui a ajuda alimentar por falta de segurança, em primeiro lugar, e por não querer colaborar com um modelo alternativo de ajuda alimentar, aceitando, implicitamente, o aumento das carências alimentares em Gaza, para não pôr em causa os seus procedimentos.
Não estou, com isto, a dizer que a ONU é uma aliada do Hamas, aliás, como é habitual, a imprensa deturpa pesadamente o que diz a ONU oficialmente (com a conivência dos altos funcionários da ONU, evidentemente), o que passa parece-me um bocadinho mais complexo.
O Hamas sempre usou a ajuda alimentar para garantir o poder sobre a população.
A ONU, que continua a recusar-se a declarar o Hamas um grupo terrorista, está fartinha de saber que o modelo de ajuda alimentar da ONU depende da boa vontade dos beligerantes ou, em casos como o de Gaza, da boa vontade do Hamas e, consequentemente, fecha os olhos ao facto de um grupo sanguinário usar os mecanismos da ONU para prosseguir a guerra contra Israel (como disse um altíssimo funcionário da ONU, perante a acusação das organizações da ONU a trabalhar em Gaza estarem infiltradas por simpatizantes e militantes do Hamas, admitindo que o Hamas tem o apoio de um terço da população de Gaza, e fazendo a ONU recrutamento local, naturalmente um terço dos funcionários locais das organizações da ONU poderão ser simpatizantes ou mesmo militantes do Hamas).
Israel, compreensivelmente, resolveu usar também a fome, ou a sua ausência, como arma de guerra, não através do bloqueio à ajuda alimentar, como é acusado, mas criando um modelo alternativo de ajuda alimentar que retirasse poder ao Hamas.
A ONU recusa qualquer colaboração com este modelo alternativo, que considera que viola o direito humanitário, o Hamas, naturalmente, faz tudo o que pode para boicotar este modelo de ajuda alimentar.
O que pode o Hamas fazer?
Criar insegurança, que é o que tem feito, com dois ganhos relevantes: a ONU diminui a sua acção, porque passou a ser mais insegura, Israel é acusado de criar um mecanismo ardiloso para fazer tiro ao alvo a palestinianos (esta alegação é completamente falha de qualquer lógica, mas tem sido mantida viva pela imprensa e por alienados como Francesca Albanese, que abusam do seu estatuto para se pôr do que acham que é o lado certo da história). Note-se que a ONU, nas suas informações oficiais, tem a cautela de não alinhar nesta alegação (aqui e ali foge-lhe a boca para o que lhe convém), apenas diz que há insegurança, perto dos centros de distribuição da GHF ou dos comboios de camiões de ajuda alimentar da ONU.
A ONU, sabendo que a derrota do Hamas vai conduzir, forçosamente, à sua irrelevância na região, tem procurado desesperadamente fazer-se de vítima, conduzindo a ajuda humanitária a Gaza para um pântano do qual a ONU não consegue sair limpa.
Sim, a fome tem sido uma das mais eficazes armas de guerra do Hamas (e seus aliados), sim a GHF é a contra-resposta de Israel (e seus aliados) ao uso do controlo alimentar como instrumento de poder do Hamas, sim, a ONU tem-se deixado afundar num pântano ético de que não sabemos se e quando vai algum dia recuperar.
O que me espanta é a quantidade de idiotas úteis que não têm vergonha de demonstrar a maior falta de respeito pelas vítimas das grandes fomes no Cambodja, Biafra, Somália, Congo, Etiópia, Darfur, Haiti, vindo para os jornais dizer que a dimensão do que se passa em Gaza, do ponto de vista alimentar, não tem paralelo na história.
O Banco de Portugal decidiu, bem ou mal, que precisava de uma nova sede.
Asim sendo, por que razão tem de ser em Lisboa, e não em Castelo Branco?
Eu sei que a pergunta parece (provavelmente é mesmo) uma patetice, mas ainda assim gostaria de a ver respondida de forma séria e é isso que vou tentar fazer neste post.
A tradição dos bancos centrais, que têm (no quadro da união monetária um pouco menos, mas ainda assim) funções de sobrania de primeira ordem, é a de estarem no centro do poder, de preferência simbolicamente em edifícios que representem a sua gravitas, seriedade e majestade.
Neste sentido, nem valeria a pena discutir a sede fora de Lisboa, mas acontece que é exactamente por questões simbólicas que acho que valia a pena discutir a hipótese de fazer a sede do Banco de Portugal em Castelo Branco.
Há muitos anos que defendo a mudança da capital de Portugal de Lisboa para Castelo Branco, proposta que tem alguns problemas sérios contra ela, nomeadamente o custo de capital associado.
Neste caso o custo de capital está resolvido (fica mais barato fazer uma sede imponente em Castelo Branco que uma nova sede numa zona central de Lisboa) e acho mesmo que, simbolicamente, era um reforço da ideia de um novo mundo - em que a soberania se aproxima mais das pessoas comuns que da ideia de majestade e o poder se reparte em centros que se equilibram entre si - cortar com a ideia de que o Banco Central tem de estar no centro de um poder central e único.
Há depois as questões de eficiência desta solução, a constante necessidade de relação com o Banco Central Europeu e os outros bancos centrais obrigam a viagens constantes de avião, pelo que estar longe de um aeroporto internacional seria uma perda de eficiência, o mesmo se dizendo dos interlocutores do Banco de Portugal, que estão todos em Lisboa.
Gosto mais destas discussões com estudos e números, e portanto gostaria de ver avaliadas, seriamente, quer as perdas de eficiência que referi, quer os ganhos de eficiência decorrentes do tempo a mais que as pessoas teriam por viver fora de Lisboa, quer o impacto no sobreaquecido mercado imobiliário de Lisboa resultante da transferência de umas dezenas de postos de trabalho qualificados para fora de Lisboa, etc..
E, já agora, sobretudo pensando na hipótese de transferir a capital do país para Castelo Branco, discutir-se a criação de um aeroporto internacional, de pequena dimensão, com certeza, mas com possibilidade de expansão futura, que servisse Castelo Branco (e, já agora, a raia espanhola envolvente). Aí voltamos ao problemas dos custos de capital, é verdade, mas só estudando e avaliando seriamente é que vale a pena discutir esta hipótese.
As vantagens de transferir emprego para fora das zonas ultra pressionadas do litoral para zonas com grande potencial de expansão, o que significa desviar investimento relacionado com a habitação e transporte em Lisboa para zonas menos pressionadas, com efeitos reais na vida das pessoas muito mais fortes, parecem-me que justificariam a discussão séria desta hipótese.
Eu sei que a generalidade das pessoas se riem desta hipótese e acham ridículo que os actores políticos percam tempo a discutir questões tão absurdas, mas a verdade é que, por exemplo, há meses que se anda a discutir a disponibilização imediata dos imóveis do Estado devolutos para habitação, com um grande investimento intelectual e material nessa ideia, ideia essa bem mais esdrúxula, impraticável e inútil que a ideia de ter a sede do Banco de Portugal em Castelo Branco.
Em muitas discussões, e seguramente nas que existem sobre Gaza, é frequente ouvirem-se argumentos de autoridade como o que dá título a este post.
Basta ir ler a sequência de informações sobre o famoso bombardeamento do hospital Al Ahli Arab Hospital, em Outubro de 2023, para ser perceber que não, a BBC não é nada insuspeita, tal como a generalidade da imprensa, e muito menos os orgãos da ONU e as pessoas que a ONU tem escolhido (sabe-se lá com que razões) para funções específicas, como a conspiracionista Francesca Albanese, que tem a lata de dizer que são mortas crianças a tiro, por divertimento, em Gaza, pelo exército israelita, sem ter a menor base factual para fundamentar esta popular teoria de conspiração.
O que hoje sabemos sobre esse suposto bombardeamento é relativamente seguro, tratou-se de um erro no disparo de um rocket da Jihad Islâmica (nada de extraordinário, 10% dos rockets que se pretendia despejar sobre Israel, às centenas, caíam em Gaza) que terá matado menos de 80 pessoas.
No entanto, nos primeiros dias depois deste desastre, como se pode ver na insuspeita BBC, a propaganda lançada pelo Hamas (seria um bombardeamento intencional de Israel, que teria morto pelo menos 500 pessoas) foi tratado como informação séria, incluindo pelo Senhor Secretário Geral da ONU que veio a correr condenar o bombardeamento de hospitais.
Não há evidência de Israel bombardear hospitais sem pré aviso e evacuação, não há qualquer lógica militar ou estratégica para Israel bombardear um hospital em pleno funcionamento, cheio de refugiados, e há um longo historial de manipulação do Hamas que atribui imediatamente a Israel todas as consequências que possam pesar negativamente na opinião pública que resultem de acções do Hamas e seus aliados.
Ainda assim, a insuspeita BBC, trata, durante dias, em pé de igualdade, a informação não verificável do Hamas e a informação verificável de outras fontes, incluindo, naturalmente, do governo e exército israelita.
A BBC é melhor que muita da imprensa porque, ainda assim, também inclui a informação do governo israelita, tem o cuidado de referir as fontes do que diz e não faz piruetas argumentativas como o Observador que, um dia destes, dizia que os números que estava a citar eram do Hamas (depois de tantos protestos, lá começam a deixar-se de fingir que o ministério da saúde ou a defesa civil de Gaza são coisas diferentes do Hamas), mas validados pela ONU. Validados pela ONU? Como? Com base em que instrumentos? Repetir acriticamente os números do Hamas como faz a ONU não altera a natureza dos números do Hamas, que se inserem na longa história bem documentada de manipulação da informação do Hamas.
Não existem fontes insuspeitas, neste ou em qualquer outro assunto.
Um exemplo comezinho do jornal da SIC de ontem, que entrevista a famosa família de Famalicão sobre as alterações à disciplina de cidadania, referindo que os pais são da Opus Dei, uma informação pouco relevante, cinco minutos depois de terem entrevistado Joana Bordalo e Sá, como quase todos os dias, a propósito de questões de saúde, sem nunca referirem que a senhora foi candidata da CDU a umas coisas, informação bem mais relevante para permitir aos leitores interpretar o que a senhora diz sobre qualquer ministro da saúde que esteja em funções.
O que há é informação verificável e informação de treta.
Agora o que está na moda é a fome em Gaza, que coincide com o interesse estratégico do Hamas em retomar o controlo sobre a distribuição da ajuda humanitária (o interesse estratégico para o Hamas é de tal magnitude, que é uma das exigências centrais do Hamas nas conversações sobre um eventual cessar fogo).
Lá está o Público, pressuroso, a dar voz à UNICEF (é preciso vir com a artilharia pesada para a discussão sobre gaza, e crianças a morrer à fome é do melhor que há para ganhar o apoio da opinião pública), não com informação verificável, mas com uma entrevista telefónica em que um senhor vice-presidente da UNICEF aparece a dizer que se estima que estejam a morrer 28 crianças à fome em Gaza, por dia e, até agora, já morreram à fome umas oitenta.
Que tudo isso coincida com o interesse estratégico do Hamas retomar o controlo sobre a ajuda humanitária, que está rapidamente a perder dado o relativo sucesso da Gaza Humanitarian Foundation, que está a conseguir distribuir mais de um milhão de refeições por dia (ontem terão sido 2,2 milhões de refeições distribuídas, isto é, tantas quantos os habitantes de Gaza), será irrelevante para tanto idiota útil (sabiam que podem acompanhar os relatórios operacionais da GHF aqui? Não sabiam, pois não? É que a generalidade da imprensa prefere citar fontes secundárias a, sequer, dar aos seus leitores os instrumentos para aceder a fontes primárias de informação e fazer o seu juízo, de forma autónoma).
Parece que voltou a conversa do incendiarismo, e com ela a conversa dos incêndiários, à boleia do relatório da AGIF (Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais) sobre os incêndios do ano passado (o reltório é bom, a AGIF produz boa informação e relevante, lá o que cada interpreta a partir dessa informação é que é a questão).
Pela enésima vez, vou tentar explicar hoje, sem falar com os gurus com quem falo quando verdadeiramente quero saber o que se espera, na semana seguinte, sobre fogos.
Comecemos por um boneco que Teresa Gamito publicou, observando, judiciosamente, que estamos a alertar as pessoas que Figueira de Castelo Rodrigo quando é em Coruche que está o risco (a observação não foi exactamente assim, a ideia é esta, a forma fui eu que a inventei por razões literárias).

O mapa da esquerda diz respeito a um índice de risco meteorológico de incêndio reconhecido mundialmente, o da direita diz respeito a uma invenção do ICNF, estupidamente usada por políticos, que uma administração pública acéfala dirigida por cobardes acabou a dar importância indevida.
Na verdade, o boneco da direita é uma combinação deste tal risco meterológico de incêndio, com um risco estrutural definido com alguns factores, nos quais tem muito peso o histórico dos incêndios, e terá alguma utilidade para alocar recursos de gestão de combustíveis finos, mas não tem interesse nenhum para a gestão do risco imediato de incêndio rural, apesar de ser o que as autoridades de prevenção usam e com base nos quais fazem os avisos à população.
O que interessa, e estou a escrever hoje (em grande parte porque ontem me convidaram a ir a programa de televisão falar sobre o que vai acontecer na próxima semana, mas eu tinha um compromisso que me impedia de lá estar, e resolvi escrever aqui o essencial do que pretenderia dizer), quarta-feira 23 de julho, é que nos próximos dias se vai ouvir falar mais de incêndios, em especial no início da próxima semana, se as previsões meteorológicas se mantiverem.
Não, ainda não é natural que seja a tragédia que um dia virá, é apenas um tempo mais activo para os bombeiros que, aqui e ali, pode dar mau resultado.
A menos que eu seja o chefe de operações de um exército de incendiários, e portanto este seja um post com informação privilegiada sobre a logística do incendiarismo, se se verificar um aumento relevante de fogos nos próximos dias, quer isto dizer que a questão não é de incendiários mas de meteorologia.
O vento não parece estar muito forte nos próximos dias e, por isso, as coisas não devem ser muito dramáticas, mas a humidade vai ser baixa e o vento vem de Leste, isso chega para, à partida, haver uma situação complicada (como mostra o boneco da esquerda que está lá em cima).
Não fui ver como está a humidade dos combustíveis e, como disse, não fui confirmar isto com quem realmente sabe, exactamente porque o que quero é tentar demonstrar que se qualquer pessoa mediana, com informação básica, pode saber quando vai arder com uns dias de antecedência, com base na meteorologia, então esqueçam lá o incendiarismo e coisas que tais, e concentremo-nos no que interessa: a gestão dos combustíveis finos e o olhar atento e simples à meteorologia dos próximos dias.
Na discussão sobre o problema do acesso à primeira habitação (não existe crise de habitação nenhuma, o que existe é um problema de acesso à primeira habitação, de resto, o mercado imobiliário segue pujante, como um crescimento sustentado dos preços, das vendas, dos novos licenciamentos e das novas construções, permitindo à generalidade dos portugueses serem bastante mais ricos do que eram há uma década), para além das casas vazias, há sempre alguém que fala dos imóveis devolutos do Estado.
Isso faz-me sempre lembrar os esforços de tanta gente, no ICNF e organismos anteriores, para dar um destino às dezenas de casas florestais, sempre com o mesmo resultado: o dinheiro desaparecia, mas o problema não.
A solução evidente era fazer daquilo alojamento turístico (para habitação não serviam, na generalidade, eram casas muito isoladas, sem acessos razoáveis frequentemente, sem infraestruturas de electricidade e telecomunicações, a água resolver-se-ia se não se ligasse muito à regulamentação sobre qualidade da água, sem escolas para os miúdos que eventualmente existissem).
E houve muitas que foram usadas nesses sentido, com prejuízos operacionais elevadíssimos, pela dificuldade de operação (eram casas isoladas, ler o resto acima), pelo desvio das melhores para quem tinha os contactos certos (nomeadamente o uso pelos próprios funcionários ou membros dos gabinetes governamentais cujas boas graças se pretendiam obter) ou a pura e simples fraude (ainda me lembro da secretária da área protegida em que eu estava que, quando criei uns indicadores de gestão por me terem atribuído a responsabilidade pela gestão das casas, foi apanhada num esquema em que ficava ela com os pagamentos, não registando a ocupação das casas, sem que, aliás, sofresse qualquer sanção posterioe por esse desvio de dinheiro, por protecção da responsável pela área protegida, que se limitou a acabar com o esquema, evitando fazer ondas).
Quando se percebeu que gerir casas de turismo nas dificeis condições em que estas eram geridas não era propriamente o que o Instituto de Conservação na Natureza fazia melhor (diga-se de passagem, também não era o que fazia pior), tentaram-se duas coisas: ou encontrar parceiros para concessionar o uso turístico das casas, ou vender.
Qualquer das duas situações foram inviabilizadas pelo novelo jurídico que rodeava essas casas e, na verdade, porque aquilo não era grande negócio.
Claro que não é bem isto que se passa em muitos dos imóveis devolutos do Estado, alguns deles tão centrais como o famos terreno militar da Artilharia UM, em Lisboa, sobre o qual escrevi há tempos.
Mas sobre esses, temos inúmeros estudos de caso, eu limito-me a referir aqui três (um dos quais, este da Artilharia Um, que é dos meus preferidos para caracterizar esta mania de que o que o mercado não resolve, o Estado resolve melhor).
Temos o antigo edifício do Ministério da Educação, na Av. 5 de Outubro, em Lisboa, que está para ser uma residência universitária desde o tempo dos afonsinhos, e nem sequer começou a obra.
Ou o terreno do antigo quartel da Artilharia Um, vendido com uma capacidade construtiva maximizada para o Estado ganhar mais dinheiro, que a câmara inviabilizou e continua entregue às ervas.
O terreno da antiga feira popular que, esse sim, está com obras, num dos maiores empreendimentos imobiliários do país, actualmente, 70% para escritórios e acho que nem 30% para habitação de gama alta.
Discutir por que razão este problema dos edifícios devolutos do Estado existe, não contribui para resolver o problema da habitação de gama baixa mas, ainda assim, ponho duas hipóteses:
O Estado venderia esses imóveis (e seria criticado pelos mesmos que agora criticam o que está a fazer o presidente de câmara de Loures) para que privados investissem neles o suficiente para ganhar algum dinheiro, o que implicaria fazer casas de gama alta, com as outras não se ganha dinheiro, dada a regulamentação que existe.
Ou então, aumentava largamente os impostos para ter dinheiro para investir nesses imóveis e os disponibilizar a pessoas que hoje fazem barracas por não ter dinheiro para uma casa.
Não vejo como, quer num caso, quer noutro, a situação se alteraria, no essencial, pelo menos mais extensa e rapidamente que investindo naquilo que o Estado deveria concentrar-se em fazer, que é melhorar a eficiência do mercado imobiliário, reduzindo a regulamentação sobre a possibilidade de construção em terrenos, reduzindo a regulamentação sobre as exigências construtivas, liberalizando as rendas e reforçando a liberdade contratual entre senhorio e inquilino (incluindo o reforço e celeridade dos mecanismos de despejo de inquilinos por incumprimento contratual) e, já agora, se não for pedir muito, reduzindo a fiscalidade sobre o sector.
Sim, de tudo isto podem resultar problemas sociais, mas esses cabe ao Estado resolver, não aos senhorios.
A esquerda, por razões que eu não entendo, resolveu investir contra a construção de mais casas como forma de reequilibrar a oferta e a procura de habitação (enfim, abre uma excepção para a habitação estatal, sem perder tempo a explicar por que razão acha que o Estado é mais eficiente a fazer casas que os privados).
O argumento base é o de que o país tem casas vazias e portanto não precisa de casas novas (Tiago Mota Saraiva, um dos vocais apóstolos desta ideia, diz que é imoral ter casas vazias, a esquerda radical acaba sempre assim, a justificar moralmente o controlo que pretende fazer da vida dos outros, naturalmente contestando a moral burguesa, a única moral válida é a que os iluminados defendem em cada momento).
Sim, o país tem casas vazias e, se fosse possível pô-las todas no mercado, isso seria bom para aumentar rapidamente a oferta numa altura de pressão da procura.
Olhando para as casas vazias (vamos esquecer as subtilezas de saber da sua localização, da sua habitabilidade e do capital necessário para as adequar à procura e à regulamentação que existe), há duas grandes opções.
A opção moral da esquerda, favorável ao planeamento central e, portanto, cega à informação do sistema de preços, que diz que se há casas vazias, não são necessárias novas casas, os iluminados decidem que casas as pessoas querem e está o assunto resolvido.
É a opção habitual da esquerda que se recusa a aceitar que a propriedade é um direito humano fundamental (que inclui o direito da dispor da sua propriedade para os fins que entender), e que a segurança jurídica na defesa dos direitos de propriedade é uma condição sine qua non para garantir a eficiência dos mercados.
A opção pragmática dos liberais, mais atentos à informação que resulta dos sistemas de preços, que conclui que estando as rendas e os preços de venda elevados e, mesmo assim, muitos proprietários preferem ter casas vazias, então há riscos muito fortes que levam os proprietários a preferir perder rendimentos relevantes a pôr essas casas no mercado ou essas casas não satisfazem a procura que existe.
Aparentemente, do que se sabe, há dois problemas essenciais para que muitas dessas casas se mantenham vazias e os proprietários prefiram ter dinheiro debaixo do colchão a fazê-lo render (é isso que é uma casa vazia, dinheiro debaixo do colchão, com a vantagem dos riscos da inflação o desvalorizar serem mais baixos).
O primeiro é a inadequação da casa à procura existente (ter uma casa em Alcaravelas não responde à procura em Faro, ter uma casa grande sem elevador num terceiro andar não responde a grande parte da procura, ter uma casa que não tem possibilidade de responder à regulamentação sobre habitabilidade não responde a grande parte da procura, ter uma casa que para se tornar habitável exige investimentos que não conseguem ser remunerados com a renda possível, não responde à procura, etc.).
O segundo é o elemento central do capitalismo: confiança no mercado e no papel do Estado na defesa dos direitos de propriedade.
É a lei de bases da habitação que diz que mesmo que o meu inquilino não cumpra o contrato, eu não o posso despejar rapidamente e, nalguns casos, nem rápida nem lentamente, tenho mesmo de fazer de Santa Casa da Misercórdia, ser uma espécie de bombeiro voluntário, quer queira, quer não queira.
É a legislação geral do arrendamento que me impede (ou dificulta imenso) de fazer contratos de três meses de arrendamento, com a segurança de que, ao quarto mês, tenho a casa de volta de assim quiser, em menos de dois dias (ninguém confia que o sistema de justiça e policial esteja do lado do proprietário se o inquilino resolver não cumprir o acordado, ao ponto de garantir que a casa é despejada à força, se for caso disso, e o inquilino responsabilizado pelos prejuízos decorrentes do seu incumprimento contratual).
É a prática política que tem demonstrado que os governos de turno não têm o menos problema em não alterar a lei se isso for eleitoralmente favorável, como fez o governo de António Costa quando, perante um surto inflacionista, decidiu que, afinal, a legislação que regulava o arrendamento não ia ser cumprida para proteger os inquilinos (muitos eleitores, com apoio sistemático da comunicação social) contra os proprietários (pouco eleitores que a comunicação social trata sempre como especuladores sem escrúpulos).
Haverá sempre casas vazias, mais se os direitos de propriedade não forem sólidos, incentivando os donos a uma atitude de prudência que vai ao ponto de prescindir do rendimento para preservar a disponibilidade do capital, menos se os direitos de propriedade forem sólidos e o Estado não insistir na política demencial de pôr às costas dos proprietários a responsabilidade social de proteger os mais frágeis, no que à habitação diz respeito.
Os populistas de esquerda, esses continuarão a falar dos amanhãs que cantam, com base na ideia de que os direitos de propriedade são uma questão contingente e moralmente duvidosa.
"Artigo 14.º
Ação de despejo
1 - A ação de despejo destina-se a fazer cessar a situação jurídica do arrendamento sempre que a lei imponha o recurso à via judicial para promover tal cessação e segue a forma de processo comum declarativo."
Que qualquer um de nós ache que há despejos em Loures, é como o outro, não somos juristas e podemos achar que um despejo é água atirada pela janela, até porque é verdade que água atirada pela janela é um despejo.
Que a autora da lei de bases da habitação faça gala em ignorar o conceito jurídico da lei de que é autora, por razões de propaganda política, enfim, para quem não tem vergonha, todo o mundo é seu.
Agora que os numerosos jornalistas de bons sentimentos não vão verificar na lei o que é um despejo, antes de usar o conceito ou ligar às parvoíces que são ditas com base no uso errado do conceito, já me parece demais.
O que se passa em Loures não tem qualquer relação com despejos, no sentido da lei de bases da habitação, já que um despejo destina-se a fazer cessar uma situação jurídica de arrendamento, e não há qualquer relação jurídica prévia, de qualquer tipo, relacionada com as barracas que estão, e bem, a ser deitadas abaixo.
O que há é uma quantidade inacreditável de atropelos à lei a que o Estado tem de pôr cobro, sob pena de violar as suas obrigações, incluindo a defesa do direito de propriedade, um direito humano fundamental.
Uma pessoa invade propriedade privada sem consentimento do dono, usa essa propriedade em seu benefício, sem consentimento do dono, constroi o que quer que seja, sem consentimento do dono e sem respeito pelas normas jurídicas aplicáveis à actividade de construção, dessa construção resulta uma habitação sem quaisquer condições de habitalidade definidas na lei, dessa ausência de condições de habitalidade resultam riscos de segurança e salubridade para os habitantes e vizinhos, quando evitar esses riscos sociais é uma das razões para que essas leis e regulamentos existam, frequentemente rouba electricidade e água através do estabelecimento de ligações ilegais e perigosas para si e para os vizinhos, põe os seus filhos em risco ao tê-los a viver naquelas condições e o jornalismo ultra romântico que temos entretém-se com uma visão do problema assente na ideia de que o direito à habitação é essencial e não pode ser posto em causa pela demolição das barracas e a reposição da lei.
É só transpor a lógica para a alimentação e perceber que o facto de alguém ter fome pode ser uma atenuante no julgamento de um roubo, mas não dá a ninguém o direito de roubar e, muito menos, obriga os supermercados a não reprimir os roubos porque o direito a alimentar-se se sobrepõe ao direito de propriedade, nem torna legítimos e legais os roubos até que o Estado providencie a alimentação dessa pessoa (ou seja, lhe dê uma alternativa ao roubo).
O que se passa em Loures é complicado, é humanamente dilacerante, mas não adianta fazer de conta que o Estado tem de ceder a comportamentos ilegais (provavelmente, alguns criminais, mas eu não me meto na avaliação jurídica do assunto), até que consiga resolver os problemas reais e sérios que estão na origem do actual surto de construção de barracas.
Há muitas razões de fundo para que o Estado não ceda a essa lógica, e há uma razão prática: se por construir uma barraca eu passo a ter mais hipóteses de que alguém trate de me oferecer uma habitação, então amanhã o meu problema não é de uma barraca, mas de milhares.
Na Sexta à noite, num programa de televisão, Isaltino Morais, como bom demagogo que é, dizia que o fundamental era congelar o problema impedindo novas barracas (150 novas barracas em dois meses, no bairro do Talude, acho que terá sido o que disse, mas não verifiquei essa informação que me parece plausível), e fazer um programa para daqui a quatro ou cinco anos conseguir dar aos moradores das barracas que existem uma solução de habitação digna.
Isaltino está fartinho de saber que o que disse são lérias, nem nenhuma câmara consegue congelar uma situação daquelas durante quatro ou cinco anos sem começar a demolir a sério (ou seja, impedindo o prémio ao infractor), nem é socialmente aceitável que estas pessoas passem à frente de muitas outras que igualmente esperam que o Estado lhes proporcione habitações dignas, há muitos anos, só porque estas últimas se mantêm dentro dos limites da lei.
O trabalho que Portugal fez nesta matéria é notável e bem sintetizado neste gráfico.

É verdade que uns alienados que, simultaneamente, criaram condições para que seja impossível a construção de gama baixa, destruíram a confiança dos potenciais investidores (o artigo 14º da lei, que cito no início, é um bom exemplo, não faz o menor sentido que havendo incumprimento contratual eu não possa despejar o meu inquilino sem lhe arranjar uma alternativa) e permitiram uma migração sem política de acolhimento e integração séria, são responsáveis por uma situação social aflitiva no que diz respeito ao acesso à habitação.
Um desses alienados, Tiago Mota Saraiva, também estava no mesmo programa de televisão em que estava Isaltino Morais, a defender que havendo mais oferta o preço baixa, no caso das bananas, mas nas casas não era assim porque as casas não se estragam e os donos podem ficar à espera que elas atinjam o preço que querem, demonstrando a sua utilidade para esta discussão: ilustrar como a ignorância tem influenciado negativamente a gestão do problema da habitação em Portugal.
Sim, há um problema sério na habitação de gama baixa, sim, há problemas sérios no arrendamento de gama baixa (os dois por cento de habitação pública é um número falso, há mais três por cento em que o Estado obriga os privados a desempenhar o papel social do Estado através do congelamento de rendas e impossibilidade de despejos), do que resultam problemas sociais sérios como o que enfrentam algumas das pessoas que erguem barracas (outros são vulgares oportunistas, é obrigação do Estado distinguir uns dos outros).
A sociedade faz opções, por exemplo, a família Azevedo prefere direccionar a sua caridade para manter jornalistas ultra românticos com emprego, em vez de a direccionar para apoiar as famílias apanhadas na guerra ideológica que tem limitado a capacidade do mercado desenvolver soluções para essas pessoas, não existe nenhum crowfunding para ajudar uma única dessas famílias, ou para criar um fundo de emergência para acudir a famílias que não têm um tecto, ou não se vêem as igrejas no meio dos destroços destas barracas, nem mesmo o PCP a disponibilizar a quinta da Atalaia, no Seixal, para que seja usada temporariamente pelas famílias que constroem barracas como solução provisória até que alguém lhes resolva definitiva e dignamente o seu problema de acesso à habitação.
O Estado teria feito bem melhor em usar os três mil e duzentos milhões que enterrou na TAP a resolver estes problemas sociais.
Tudo isso pode ser avaliado e discutido, o que o Estado não pode é ceder a estes demagogos que insistem na ideia de que não se pode repôr a legalidade enquanto aos infractores não forem resolvidos os todos os problemas que os levaram a não cumprir a lei, com o argumento de que o direito de propriedade é contingente e deve ser derrogado face a outros direitos sociais que alguém acha mais relevantes.
Há vários dias (Sábado, 12 de julho, há uma semana exacta, verifico agora) li um editorial de Helena Pereira, no Público sobre o qual estava com intenções de fazer um post, para ilustrar a dimensão da ignorância induzida pela cegueira ideológica que campeia nos jornais (Helena Pereira não é uma estagiária, é uma jornalista sénior e influente que até assina editoriais).
Acontece que a série de posts sobre Gaza, e mais uma coisa sobre Loures (a que provavelmente voltarei), acabaram por ir deixando para trás este editorial sobre o qual queria escrever.
Ainda bem, hoje, no Observador, o responsável pela empresa de helicópteros que ganhou o concurso escreve no Observador sobre a matéria, ajudando-me a confirmar o que me parecia evidente, desde o primeiro dia que li notícias sobre os atrasos na disponibilização dos helicópteros.
Helena Pereira é uma estatista feroz, que resolve tudo perseguindo as empresas, os negócios e os privados, que são, na sua visão do mundo, intrinsecamente maus (talvez abra uma excepção para a família Azevedo cuja índole caritativa garante o ordenado de Helena Pereira, apesar de Helena Pereira, como todos nós, também ser um privado de que se deve desconfiar por ser privado, como a jornalista defende sistematicamente).
Não admira que o seu editorial sobre os helicópteros do INEM comece com o facto de actualmente termos "um governo mais aberto a recorrer aos privados" (que horror, é sempre assim na emergência médica, e as experiências para não ser assim têm corrido mal, mas o que interessa a realidade, perante o horror de contar com os privados para responder às necessidades da sociedade?), mas "o Estado tem sérios problemas quando se põe a assinar contratos com entidades privadas" (já quando assina contratos com entidades públicas, é tudo uma maravilha, o que é bem ilustrado com os contratos que o Estado assinou com a TAP que tinha renacionalizado antes).
O problema de Helena Pereira é que o Estado lançou um concurso para assegurar a operação de quatro helicópteros que deveriam estar operacionais em 1 de Julho, o contrato previa uma penalidade de 190 mil euros por dia de indisponibilidade, só que a empresa, malandra, mal assinou o contrato, avisou que não ia ter quatro helicópteros disponíveis a 1 de Julho, porque o Estado se tinha atrasado na adjudicação.
O INEM aceitou as justificações da empresa, porque eram factuais (o Estado tinha-se atrasado no concurso) mas, na opinião de Helena Pereira é inadmissível o Estado assumir as responsabilidades pelos seus atrasos, em vez de executar as penalidades previstas no contrato, como se o contrato tivesse sido assinado a tempo.
Concluindo que é preciso que as entidades de fiscalização verifiquem se o Estado cumpre ou não os seus contratos com terceiros.
Helena Pereira não sabe que isso é feito, e por várias entidades, e o problema não é o Estado ceder aos interesses dos privados e não os obrigar a cumprir as suas obrigações contratuais, o problema é o Estado ser ineficiente na forma como funciona.
Não faço ideia das razões pelas quais o Estado se atrasou a tomar decisões neste caso concreto, mas sei das três principais razões para isso acontecer excessivamente no Estado português.
A primeira é falta de planeamento ou mau planeamento, nomeadamente uma visão optimista do funcionamento do Estado que faz com que os gestores não contem com o que pode correr mal no processo, a segunda é um enquadramento legal da contratação pública kafkiano, exactamente por causa de gente como Helena Pereira que está convencida de que a confiança é uma fraqueza nos negócios, e a terceira é uma lentidão excessiva na execução dos procedimentos por excesso de formalismo e pela criatividade dos controladores na interpretação das regras, opções pelas quais raramente alguém é responsabilizado e que conduz a litigância permanente e excessiva (quer com os privados, quer entre as entidades públicas intervenientes).
O problema não é o Estado ser um peso pluma, como diz Helena Pereira, é exactamente o inverso, o problema é um Estado que funciona mal porque olha para os privados como criminosos potenciais, e não como aquilo que são: pessoas que se organizam para responder a necessidades de terceiros, de uma forma que lhes permita ganhar a vida (é isso que é uma empresa).
No Público, organizam-se de forma a que a família Azevedo não se canse do perdócio em que está envolvida, nas outras empresas organizam-se de forma responder ao caderno de encargos (explícito ou implícito) dos seus clientes potenciais, o Estado é um desses clientes, no caso da emergência médica baseada em helicópteros até será praticamente o único cliente mas, infelizmente, é um péssimo cliente, porque define mal e fora de tempo o que quer, não sendo muito de fiar quanto a pagamentos e exigências.
Mas na opinião de Helena Pereira, cuja experiência de gestão desconheço, o problema é o Estado não se defender das malandrices dos privados, como se um dos exemplos que usa no texto, as parcerias publico privadas na saúde, não fosse um excelente exemplo de como mais Estado não significa, forçosamente, melhor serviço e menos malandrice.
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Foi com bastante inquietação que acompanhei as notícias da violência em Torres-Pacheco, perto de Múrcia. Reconheço o potencial de contágio que possuem estes fenómenos, em comunidades amedrontadas com as gentes estranhas que em poucos anos invadiram as suas praças e ruas. É difícil nestas circunstâncias assegurar a racionalidade e a compreensão do comum dos mortais. A nossa Europa, estéril, envelhecida e descristianizada está cada vez mais assustada, e a irracionalidade ameaça dominar as hostes.
Este panorama há muito que era previsível. É consequência dos riscos ingenuamente (ou será que não?) assumidos com o multiculturalismo, somados à profunda crise da natalidade e ao desvanecimento da identidade colectiva, assuntos os quais aqui abordei por várias vezes. Estamos mesmo metidos num grande sarilho, com a nossa economia profundamente dependente de imigrantes e uma população em envelhecimento acelerado. Aqui chegados, não me arrisco a subscrever qualquer solução milagrosa, que peca sempre por ingénua ou mal-intencionada. Será certamente pouco, mas parece-me bem, e já peca por atrasada, a sinalização para o exterior de que isto por cá “não é da Joana”, que as portas criminosamente escancaradas se estão a fechar, para se abrir um guichet para avaliação dos critérios de entrada de imigrantes. Não nos esqueçamos que dependemos deles nos nossos lares de idosos, nos hospitais, na hotelaria e turismo, na construção civil (sim, o sector que constrói casas) etc, etc,.
O que me parece mesmo inútil, ou até mesmo imprudente, é um discurso que alimente o medo e acicate as pessoas, umas contra as outras. A racionalidade e a moderação ao longo da história poderia ter evitado muitas tragédias atrozes. O ser humano atemorizado e devidamente instigado por oportunistas, em multidão é capaz das maiores barbaridades. A história mostra-nos isso à saciedade. O sentimentalismo, a revolta, a zanga, nunca foram bons conselheiros, sempre foram instrumentos de agendas revolucionárias, sempre desastrosas, como bem sabemos.
Estou pessimista. Não vislumbro saídas para o imbróglio desta Europa em fim de ciclo. Vejo apenas, à esquerda e à direita, insaciáveis matilhas necrófilas a espumar de raiva. Adorava estar enganado…
Escrevi algures:
"Israel faz abrigos antiaéreos para defender os seus civis, esperando que os seus militares morram para os defender, o Hamas constrói túneis para proteger os seus militares, esperando que os civis morram para lhes dar cobertura.
Quem, perante isto, não consegue fazer distinções morais, é porque tem a sua bússola moral avariada".
Em resposta a isto, que na primeira parte é puramente factual, e na segunda é uma conclusão moral que me parece bastante razoável e moderada, uma pessoa com quem tenho divergências ideológicas tão grandes como o respeito que tenho pela sua integridade moral (tanto quanto nos é possível conhecer a integridade moral de terceiros), respondeu-me educadamente, mas muito ofendida.
Resolvi usar partes dessa resposta para realçar a ideia, que repito muitas vezes (desde que a li no discurso do método, de Descartes), de que o bom senso ou razão é a coisa mais bem distribuída no mundo, e se temos ideias diferentes não é por termos mais bom senso ou razão que outros, mas por considerarmos informação diferente ou olharmos de forma diferente para a mesma informação.
"Bússola moral avariada ... tem quem faz uma comparação tão estapafúrdia".
Grande parte da forma sectária como olhamos para o que os outros dizem ou escrevem decorre do facto de querermos situar a discussão no termos que achamos justos, em vez de considerarmos que a opinião dos outros é definida nos seus próprios termos. No caso, não me parece que tenha feito uma comparação estapafúrdia, descrevi uma realidade bem concreta que define os termos morais de actuação das duas partes em conflito em Gaza.
"O que o Hamas tem feito ... nunca deveria ser usado como desculpa, por alguém honesto e defensor dos direitos humanos, para as atrocidades que Israel tem cometido"
É fácil de constatar que eu não usei nenhuma desculpa para coisa nenhuma, limitei-me a realçar o contexto moral em que actuam os dois beligerantes que se guerreiam em Gaza. E muito menos falei nas atrocidades que eventualmente Israel tem cometido em Gaza, essa é uma discussão diferente, difícil pela falta de informação, na qual se confunde muitas vezes o que é a guerra - sempre suja, violenta, letal, com injustiças frequentes, com vítimas inocentes, desumana, como são todas as guerras -, com o que são as intenções das partes em confronto.
"uma opressão e ocupação fanática, destruição de aldeias, com prisões arbitrárias e tortura, quer com o massacre que está a cometer em Gaza".
O que torna a discussão sobre a situação em Gaza difícil (tal como muitas outras discussões), é que quem contesta o que escrevi toma como certo coisas que eu não tomo como tal, no caso, eu olho para a situação e não dou como adquirido que haja mais opressão, ocupação fanática, destruição de aldeias, prisões arbitrárias, tortura e massacres que a que resulta de qualquer situação de guerra, num contexto especialmente difícil.
"Um Estado supostamente democrático que defende os seus, desumanizado e aniquilando outro povo, matando crianças à fome, pode construir bunkers e proteger os seus, mas não merece respeito nem aplauso".
Idem neste caso, em que não dou por adquirido que Israel não seja um Estado democrático, que desumanize e aniquile outro povo e mate crianças à fome.
Mais que isso, onde eu considero que as forças em confronto são o Estado de Israel e o Hamas, o que a frase que citei pressupõe é que haja um confronto entre Israel e o povo palestiniano, pressuposto para o qual não vejo a menor base objectiva. Nem o povo palestiniano está em armas, nem resiste ao exército israelita, nem tem o poder de devolver reféns ou negociar a paz, o povo palestiniano é uma vítima impotente do confronto entre o Hamas e o Estado de Israel, não é parte no conflito.
"Como é que um cristão, judeu, muçulmano ou ateu com um mínimo de sentido de humanidade não se indigna em primeiro lugar com a barbaridade que está a ser cometida pelo tal Estado que pensa nos seus"?
Esta pergunta não faz o mínimo sentido e bloqueia qualquer discussão racional sobre o assunto, na medida em pretende colocar um ónus moral em quem olha para a realidade de forma distinta, no pressuposto de que os termos da discussão que existem são únicos e estão claramente estabelecidos entre as pessoas que pretendem discutir o que se passa em Gaza.
Só que não é assim, a fundação moral da discussão deveria ficar de fora (sim, é a minha frase inicial que apela ao julgamento moral inicial), enquanto a forma como duas pessoas olham para o problema não tiver um chão minimamente comum.
Neste caso, se alguém pensa que existe um confronto entre Israel e o povo palestiniano, e outro alguém pensa que existe um confronto entre o Hamas e o Estado de Israel, sendo o povo palestiniano uma vítima impotente do confronto entre esses dois actores, a conversa torna-se especialmente difícil.
Um bom exemplo é a forma como se olha para a mortalidade de crianças em Gaza.
Para alguns, há milhares de crianças, isto é, pessoas antes da puberdade, a ser mortas em Gaza, muitas à fome, e isso provoca um sofrimento moral indizível nessas pessoas.
Para outros, como eu, sabendo que o conceito de criança vai até aos 18 anos e que a esmagadora maioria das crianças que morrem são rapazes entre os 15 e os 18 anos, indiciando que se trata de combatentes recrutados pelo Hamas, o julgamento moral é mais severo pelo facto do Hamas usar crianças soldado, que pela inevitabilidade de morrerem combatentes numa guerra, mesmo que esses combatentes, por opção do Hamas, sejam crianças, isto é, pessoas com menos de 18 anos.
Nestas duas posições não é a bússola moral que é diferente, é a informação e a forma como se olha para a informação que conduz duas pessoas moralmente sólidas a fazer julgamentos morais completamente diferentes.
Destruindo o chão comum que poderia permitir uma discussão racional de diferentes pontos de vista.
Uma das diferenças fundamentais entre a esquerda e o conservadorismo reside na forma como encaram a natureza humana. A esquerda tende a adoptar uma visão rousseauniana, otimista, que acredita na bondade intrínseca do homem. O conservador, mais cético ou prudente, aproxima-se antes de uma leitura hobbesiana: reconhece que o egoísmo é um traço estrutural e que a generosidade é, muitas vezes, exceção e não regra.
É natural que, com o tempo, se percam algumas ilusões. Aos vinte, a paixão empurra-nos para a esquerda; com a vida, os seus choques e as suas lições, a razão costuma conduzir-nos a outras paragens.
Na visão idealista da esquerda, o ser humano trabalharia com igual afinco tanto para o bem comum como para benefício próprio. Um conservador sabe que isso não é verdade. Por isso não se surpreende com o fracasso reiterado dos regimes comunistas.
O mesmo se aplica ao multiculturalismo. Para a esquerda, as diferentes culturas coabitam em harmonia. O conservador, ou simplesmente alguém que tenha lido Samuel Huntington (O Choque das Civilizações), sabe que a realidade é menos idílica.
Isto significa que sou contra a imigração? Não, de forma alguma. Acredito, sim, que devemos receber os migrantes ao ritmo que a sociedade consiga integrá-los de forma digna e eficaz — e que, sempre que possível, se devem privilegiar culturas com um elevado grau de compatibilidade com a nossa, como as dos países africanos de expressão portuguesa ou o Brasil.
Uma das maiores perplexidades que o pensamento de esquerda me suscita é a incapacidade de confrontar os dogmas com os factos. No campo económico, por exemplo, o comunismo falha sistematicamente — mas há sempre alguém disposto a tentar mais uma vez.
Com o multiculturalismo passa-se o mesmo. A experiência da Suécia, da Holanda ou de França revela dificuldades sérias de integração e coesão social. Mas há sempre quem insista que "desta vez será diferente". Como aquele que, depois de levar um choque, volta a pôr os dedos na tomada, convencido de que, agora sim, nada se passará.
Marina Gonçalves ficou famosa por, numa audição na Assembleia da República, defender que o Estado tem obrigação de assegurar que há casas a preços que a classe média possa pagar no Chiado, só que aplicação prática destas ideias parvas não é o nascimento de casas no Chiado a baixo preço, é mesmo o aparecimento de construção clandestina em qualquer lado.
Há poucos meses, por causa de uma porcaria de uma alteração processual sem grande significado (mas no sentido certo de eliminar constrangimentos e tempo de aprovação de projectos de construção de habitação), Helena Roseta escreveu uns artigos inflamados (raramente escreve coisas que não sejam inflamadas) contra a abertura de portas à especulação imobiliária.
Há anos que Helena Roseta vive aterrada com a possibilidade de se ganhar dinheiro com a construção de habitação barata através de entorses ao sistema de planeamento que está em vigor, usando toda a influência que tem para impedir qualquer alteração a esse sacrossanto sistema de planeamento que visa impedir que patos bravos, sem a sofisticação intelectual dos técnicos de planeamento, façam casas que respondam à procura que existe.
Ora a situação de Loures e o recrudescimento do crescimento de habitação informal e alojamento sem condições, sobrelotados e etc., resulta exactamente do facto das regras de construção que temos dificultarem a resposta da oferta à procura que existe, não só limitando a capacidade de resposta, como encaminhando-a para os segmentos altos da procura, que é onde é possível encaixar as exigências regulamentares dentro do preço a que acabam por ficar as casas.
É exactamente porque pessoas como Helena Roseta, quando têm capacidade para influenciar decisões neste sector, se estão nas tintas para a capacidade da oferta responder à procura de baixa gama que os preços sobem rapidamente quando a procura aumenta, sem que a oferta satisfaça a procura de baixa gama.
A resposta habitual destas pessoas aos problemas sociais daí decorrentes é a que se tem visto no processo de Loures: nem uma só barraca demolida sem soluções para os moradores, isto é, se eu quiser que alguém me dê um tecto, só tenho de construir uma barraca numa noite na Avenida dos Aliados, que Helena Roseta e outros irão defender, com unhas e dentes, a obrigação do Estado manter a barraca na Avenida dos Aliados até me ser garantida uma alternativa qualquer, paga com os impostos dos outros.
Se fossem pentear macacos fariam um trabalho socialmente bem mais útil que o que têm estado a fazer para sinalizar a vossa virtude e o horror que têm aos patos bravos que constroem suburbios tão feios.
"o que chamar ao que vemos todos os dias, às crianças abatidas nas filas de espera para receberem alimentos, como se fosse um desprezível jogo de vídeo? ... o que fazer a um país capaz de tamanhas atrocidades contra civis?"
Amilcar Correia é um jornalista experimentado do Público, no entanto, acha credível que um país democrático (o único na região) desenvolva e execute um plano maquiavélico para atrair crianças e as matar friamente, sem que haja uma só prova de que realmente é isto que está a suceder.
Nem testemunhos de militares (logo, todos os militares israelitas são psicopatas) para além de um testemunho anónimo impossível de confirmar, nem videos da situação, nem identificação verificável das vítimas, nem testemunhos de trabalhadores humanitários, nada, rigorosamente nada, que possa dar um mínimo de credibilidade ao que é escrito pelo jornalista.
Vejamos que informação existe que possa ser verificada.
Israel e os seus aliados acusam a ONU e as organizações envolvidas na ajuda humanitária de deixar que o Hamas roube a ajuda humanitária, usando-a com três objectivos estratégicos: 1) abastecer o seu exército (chamo-lhe assim porque a ONU se recusa a classificar o Hamas como grupo terrorista); 2) financiar-se através da venda dessa ajuda humanitária nos mercados informais; 3) controlar a população fazendo depender da não oposição ao Hamas a chegada de bens essenciais às pessoas.
Que eu saiba, esta acusação não está solidamente demonstrada, é informação de uma das partes em conflito, logo, deve ser vista com bastante cautela.
No entanto, é compatível com o reconhecimento da ONU de que, contratando localmente, é inevitável que entre as pessoas que trabalham para a ONU haja muitos simpatizantes de uma organização que terá o apoio de 30% da população de Gaza, é compatível com a lógica de actuação das partes em conflito e é compatível com o reconhecimento de que a falta de segurança nos circuitos de abastecimento tem levado a muitos roubos e desvios.
Por esta razão, Israel, e os seus aliados, criaram e operam um mecanismo independente de ajuda humanitária, a Gaza Humanitarian Foundation, com mecanismos de funcionamento diferentes dos da ONU (naturalmente, se o problema é que os mecanismos da ONU não garantiram que o Hamas não se apropria da ajuda, os novos mecanismos têm de ser diferentes, para dar resultados diferentes), que as organizações envolvidas nos mecanismos da ONU e o Hamas criticam amargamente.
A oposição do Hamas a este novo mecanismo é de tal ordem que deu instruções claras à população para o boicotar e, perante o facto da população não obedecer, cria dificuldades no acesso da população, com a mesma indignidade moral que atacava (incluindo a tiro) a população de Gaza que entendia seguir as indicações do exército israelita e fugir das zonas de combate mais perigosas.
O assunto, para o Hamas, tem uma importância tal que é uma das principais questões não resolvidas nas actuais conversações para um cessar fogo, o que indicia que Israel terá alguma razão na acusação de uso indevido da ajuda humanitária por parte do Hamas.
Estamos, portanto, perante uma situação complexa em que uma das partes em conflito entende que a ajuda humanitária que permite que chegue à zona de guerra é usada pela outra parte em conflito, não reconhecendo às entidades terceiras a independência e eficácia necessárias para garantir que a ajuda humanitária não é transformada num instrumento de poder e financiamento do Hamas.
O que faz o jornalismo?
Ignorando as acusações de falta de imparcialidade da ONU, não escrutina o que faz e diz a ONU, tomando toda a informação que vem da ONU, ou de funcionários da ONU, como verdades reveladas que não precisam de escrutínio.
Mas que informação transmite a ONU?
Como gosto de fontes primárias (e já vamos à forma como a imprensa depois as usa), é dar um salto aqui e ver que a porta-voz do Comissário para os Direitos Humanos fala em 875 pessoas mortas enquanto procuravam aceder à ajuda humanitária.
Uma boa parte da imprensa, imediatamente usa esta informação como querendo dizer que 875 pessoas morreram por causa do esquema de ajuda humanitária da GHF.
Só que não é isso que está escrito.
674 nas vizinhanças dos postos da GHF e 201 junto de outros sítios, geridos pela ONU.
Primeira surpresa, cerca de um quarto dos mortos ocorrem quando procurem ajuda da ONU.
Segunda surpresa, nenhuma referência é feita a tiros de tropas israelitas.
Terceira surpresa, a ONU não diz qual é a fonte de informação que está a usar.
Olhemos agora para a informação que vem de uma das partes em conflito, a GHF, citada por uma fonte judia.
Primeira surpresa, quando, olhando para a imprensa, Israel é retratado como impedindo a ajuda humanitária, a GHF, num só dia (Segunda-feira), terá distribuído 1,3 milhões de refeições, para uma população de 2,2 milhões (à ajuda da GHF é preciso somar a que é gerida pela ONU, naturalmente). Já agora, desde que começou a operar, já terá distribuído 74 milhões de refeições.
Segunda surpresa, a GHF diz que os números usados pela ONU são os do Hamas (eu não sei se são, sei é que a ONU não diz qual é a sua fonte de informação).
Agora sem surpresa, noutra publicação mais recente da GHF, há uma descrição dos problemas que o Hamas está a causar, implicando a morte de civis, para boicotar o esquema de ajuda humanitária que o põe de lado, difícil de confirmar, para já.
Temos, portanto, duas hipóteses.
A do jornalismo mainstream, que consiste em dizer que Israel e os seus aliados criaram um esquema para atrair crianças e as matar a tiro, a coberto de uma operação de ajuda humanitária.
A da GHF, que consiste em dizer que o Hamas está a criar confusões, que resultam em mortes, como forma de boicotar o esquema de ajuda humanitária que lhe retira poder.
Não há maneira de saber qual das duas hipóteses é verdadeira, para além de dúvida razoável.
Mas em qualquer parte do mundo, qualquer pessoa, considera mais razoável admitir que um grupo de fanáticos militarizados como o Hamas use o seu próprio povo para criar terror e ganhar poder, que um governo democrático crie um jogo de tiro ao alvo a criancinhas sem imediatamente se gerar um escândalo de proporções bíblicas na sociedade em causa.
Ou melhor, em qualquer parte do mundo, excepto Israel, de acordo com a imprensa.
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