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Ana Sá Lopes: a versão civilizada do Chega

por henrique pereira dos santos, em 31.03.25

A crónica de Ana Sá Lopes hoje, no Público, é a versão civilizada dos cartazes do Chega que comparam Sócrates e Montenegro.

É uma crónica muito interessante, não pela ilustração da forma ínvia como o jornalismo e a esquerda (peço desculpa pelo pleonasmo) pretendem forçar o paralelismo entre as acções de Sócrates (acusado, pelo sistema de justiça, de mercadejar o cargo de primeiro-ministro) e Montenegro (acusado, por um jornalista, de fazer um parecer jurídico favorável a uma empresa a quem comprou betão para a sua casa), mas sobre o jornalismo.

Por um lado permitiu-me perceber as razões para o Público ter ido entrevistar Miguel Morgado, porque está identificado (com razão) como um dos críticos de Montenegro no PSD, o que evidentemente o torna apetitoso para aparecer no Público (só não fazem o mesmo com Passos Coelho porque, até agora, não conseguiram e, na verdade, não têm a certeza de que Passos estivesse assim tão alinhado com a agenda anti-Montenegro).

Por outro é uma crónica cristalina no retrato que faz do meio jornalístico, quer quando omite todo o trabalho de António Balbino Caldeira, no blog "Do Portugal profundo" sobre a licenciatura de Sócrates para atribuir o mérito da investigação a Ricardo Dias Felner e ao Público, quer, sobretudo, quando diz que o Diário de Notícias (que se esquece de dizer que era um jornal em que tinha grande influência a então namorada de Sócrates) decidiu não pegar no assunto da licenciatura de Sócrates para não andar a chafurdar na lama, mas depois teve de rever essa posição.

Porque a realidade se tinha imposto aos jornalistas do Diário de Notícias? Não, de acordo com a crónica de Ana Sá Lopes, não foi pelos factos serem irrefutáveis, foi porque o Expresso fez uma manchete sobre o assunto.

É uma crónica notável, não no seu esforço de apoiar os métodos do Chega no combate político, dando-lhes algum polimento, mas na  involuntária luz intensa sobre os mecanismos de um jornalismo para quem a realidade é uma coisa praticamente irrelevante.

O estranho mundo da bolha político-mediática

por henrique pereira dos santos, em 30.03.25

Uma das burocracias das eleições são os debates que deixaram de ser decididos por jornalistas, com critérios jornalísticos, para passarem a ser decididos com base em critérios burocráticos: só (quase) partidos parlamentares e todos em pé de igualdade teórica (quase).

Nem o facto da Iniciativa Liberal, quando ainda não era um partido parlamentar, e o Chega, terem demonstrado que a importância de enxamear a televisão com discursos pré-formatados é muito relativa, levou a que se questionasse este modelo.

Dentro deste modelo, a AD decidiu que os debates deveriam ser divididos entre os parceiros da coligação, escolhendo Montenegro para uns, e Nuno Melo para outros.

É uma opção que tem argumentos pró e contra, mas é uma opção sem grande relevância e sem grande efeito no resultado das eleições (como se, por exemplo, Nuno Melo ser esmagado num debate com Mariana Mortágua determinasse alterações de voto relevantes).

A esquerda e o jornalismo (peço desculpa pelo pleonasmo), resolveu fazer desta irrelevância uma grande questão, como é seu hábito de cada vez que as regras do debate não são inteiramente determinadas pela esquerda.

A tontice é tal que ontem, no Público, havia um editorial assinado por Helena Pereira, divertidíssimo, desde o título "Luís Montenegro e o Rei Sol", aos argumentos ("Cavaco Silva, que nunca aceitou debates com adversários políticos" é apenas um dos mais absurdos e sem qualquer relação com a realidade), passando pela sua tese central.

A ideia central do editorial, cuja lógica me escapa totalmente, é a seguinte: "Montenegro quer que a campanha eleitoral para as eleições de 18 de Maio se centre exclusivamente em si e no seu governo ... por isso pretende reduzir ao máximo a participação em debates televisivos ... Luís Montenegro, qual Rei Sol, quer que todos os caminhos dêem a si, ao seu Governo e ao seu estilo de liderança", portanto, se bem percebo, uma pessoa que quer concentrar tudo em si, decide que alguns debates sejam feitos por outros.

Parece-me uma lógica semelhante aos que acusam Montenegro de ser pouco democrático por dividir os debates entre si e o seu parceiro de coligação, mas vão avisando que se recusam a debater com esse parceiro de coligação, só aceitam debates com uma pessoa e que o fundamental é a discussão das políticas e não das pessoas.

A mim parece-me que só a completa viciação em raciocínios circulares típicos de comunidades fechadas faz com que não se veja a infantilidade de tudo isto, desde a definição de regras burocráticas sem grande sentido para a generalidade das pessoas (basta ver as audiências dos diferentes debates para perceber que as pessoas comuns distinguem perfeitamente a relevância social de um debate entre Montenegro e Pedro Nuno Santos e a relevância social de um debate entre Inês Sousa Real e Rui Tavares) até este tipo de argumentação que não tem ponta por onde se lhe pegue, a propósito de um assunto largamente irrelevante.

O facto do Bloco de Esquerda ter dez vezes mais apoiantes e simpatizantes que o Chega a debitar platitudes no espaço mediático não altera o facto do Chega ter dez vezes mais deputados que o Bloco de Esquerda, e isso, pelos vistos, não leva os jornalistas a questionar-se sobre a relevância do que andam a fazer, pelo contrário, não resistem aos remoques de típica superioridade moral pelo facto de Montenegro ter decidido dar uma entrevista a Manuel Luís Goucha, em vez de dar trela aos bonzos do jornalismo político ("Cavaco não queria debates e só dava entrevistas, mas não a programas da tarde, como agora é moda", escreve Helena Pereira do fundo do seu rancor por haver políticos que, justamente, não lhe dão a importância que acha que merece).

Relaxem, nem os governos têm a importância que se atribuem a si próprios, nem o jornalismo tem a importância que atribui a si próprio, nem os debates televisivos têm a importância que se lhes quer dar, e muito menos tem importância se o debate entre o Livre e a AD é com Montenegro e Tavares, Paulo Muaxo e Nuno Melo ou o Rato Mickey e o Pateta.

Domingo

IV da Quaresma

por João Távora, em 30.03.25

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo, os publicanos e os pecadores aproximavam-se todos de Jesus, para O ouvirem. Mas os fariseus e os escribas murmuravam entre si, dizendo: «Este homem acolhe os pecadores e come com eles». Jesus disse-lhes então a seguinte parábola: «Um homem tinha dois filhos. O mais novo disse ao pai: ‘Pai, dá-me a parte da herança que me toca’. O pai repartiu os bens pelos filhos. Alguns dias depois, o filho mais novo, juntando todos os seus haveres, partiu para um país distante e por lá esbanjou quanto possuía, numa vida dissoluta. Tendo gasto tudo, houve uma grande fome naquela região e ele começou a passar privações. Entrou então ao serviço de um dos habitantes daquela terra, que o mandou para os seus campos guardar porcos. Bem desejava ele matar a fome com as alfarrobas que os porcos comiam, mas ninguém lhas dava. Então, caindo em si, disse: ‘Quantos trabalhadores de meu pai têm pão em abundância, e eu aqui a morrer de fome! Vou-me embora, vou ter com meu pai e dizer-lhe: Pai, pequei contra o Céu e contra ti. Já não mereço ser chamado teu filho, mas trata-me como um dos teus trabalhadores’. Pôs-se a caminho e foi ter com o pai. Ainda ele estava longe, quando o pai o viu: encheu-se de compaixão e correu a lançar-se-lhe ao pescoço, cobrindo-o de beijos. Disse-lhe o filho: ‘Pai, pequei contra o Céu e contra ti. Já não mereço ser chamado teu filho’. Mas o pai disse aos servos: ‘Trazei depressa a melhor túnica e vesti-lha. Ponde-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés. Trazei o vitelo gordo e matai-o. Comamos e festejemos, porque este meu filho estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi reencontrado’. E começou a festa. Ora o filho mais velho estava no campo. Quando regressou, ao aproximar-se da casa, ouviu a música e as danças. Chamou um dos servos e perguntou-lhe o que era aquilo. O servo respondeu-lhe: ‘O teu irmão voltou e teu pai mandou matar o vitelo gordo, porque ele chegou são e salvo’. Ele ficou ressentido e não queria entrar. Então o pai veio cá fora instar com ele. Mas ele respondeu ao pai: ‘Há tantos anos que eu te sirvo, sem nunca transgredir uma ordem tua, e nunca me deste um cabrito para fazer uma festa com os meus amigos. E agora, quando chegou esse teu filho, que consumiu os teus bens com mulheres de má vida, mataste-lhe o vitelo gordo’. Disse-lhe o pai: ‘Filho, tu estás sempre comigo e tudo o que é meu é teu. Mas tínhamos de fazer uma festa e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi reencontrado’».

Palavra da salvação.

Da eficiência no Estado

por henrique pereira dos santos, em 29.03.25

No post anterior falei de efeitos concretos da carga fiscal, isto é, da forma como o Estado cobra às pessoas uma comissão para se financiar.

Mais que a discussão sobre se imposto é roubo ou é a propriedade que é roubo (discussão frequentemente pueril), interessa-me discutir a eficiência relativa das pessoas ou do Estado na aplicação dos recursos a que têm acesso (ou porque os produzem, ou porque cobram comissões sobre a riqueza que outros produzem ou porque roubam, seja qual for a forma de aceder aos recursos).

E interessa-me sobretudo o concreto nessa discussão, razão pela qual vou usar um exemplo de áreas que conheço melhor.

Escolho uma notícia, poderia escolher muitas outras semelhantes.

Não escolho as notícias sobre o financiamento do galinheiro de linces que há ali para Silves, em que não se fala de dinheiro, porque é fácil perceber que, neste momento, não há utilidade social nenhuma em andar a produzir linces de aviário quando nascem às dezenas na natureza, sem custo nenhum para o contribuinte (ou, neste caso, o consumidor de água).

Prefiro falar de gestão de fogo.

Neste caso há uma ideia congratulatória com o facto de se ter gasto meio milhão de euros a intervir em 130 hectares, ou seja mais de três mil e oitocentos euros por hectare. É apenas um exemplo, há dezenas de exemplos destes, quer sob o nome de condomínio de aldeia, quer faixas de gestão de combustível, quer plantações, enfim, os nomes são muitos, o resultado é sempre o mesmo: gastar uma pipa de massa num processo que não se sabe como vai funcionar nos dez anos seguintes.

Um pastor com 150 cabras consegue interver em 100 hectares, um resineiro consegue intervir em qualquer lado em que haja pinheiros com boas produtividades para resina, um fogo controlado faz-se com menos de 200 euros por hectare, a Montis intervém em 300 hectares com um orçamento anual de 130 mil euros (e não é a única).

Dir-se-á que são intervenções pontuais, não estratégicas, ao contrário destes condomínios de aldeia ou faixas de gestão de combustível.

Sim, é verdade, mas qual é a eficácia das faixas de gestão de combustível, onde o PRR enterra uns largos milhões (só neste caso, 120 milhões cujo único beneficiário é o Estado, mas são mais, muitos mais milhões)?

Os estudos que existem e que fazem a avaliação que permite responder a esta pergunta são claríssimos: quase nula.

Daí a pergunta: por que razão se cobram impostos às actividades que gerem combustíveis para aplicar esses recursos em políticas estatais ineficazes?

E por que razão se mantêm políticas reconhecidamente ineficazes?

Ao jornalismo político ficaria bem andar à procura de respostas para coisas destas, em vez de andar a reproduzir declarações tontas de políticos, como "eles têm Ana Paula Martins, nós temos Fernando Araújo", declaração infantil sem qualquer interesse fora da bolha político-mediática, que é muito mais fácil de encontrar num jornal que qualquer discussão razoável sobre a eficácia das medidas de política no sector da saúde.

O significado dos impostos

por henrique pereira dos santos, em 28.03.25

Há uma discussão sistemática entre quem defende que é melhor o dinheiro estar nos bolsos dos contribuintes e quem diz que é preciso que o Estado tenha recursos para atender a quem é deixado para trás pela sociedade.

Provavelmente os dois estão certos, o problema está no ponto de equilíbrio que respeita a maior eficiência de cada um de nós a alocar os recursos para o que queremos, sem deixar de haver recursos para os que não se conseguem aguentar neste ambiente económico e social.

Eu sou presidente do conselho fiscal da Montis, que terá uma Assembleia Geral amanhã para aprovar contas e ao olhar para os documentos que foram enviados para todos os sócios não deixei de fazer a ligação com a questão dos impostos.

A Montis é uma pequena associação que tem um orçamento anual em torno dos 130 mil euros.

Cerca de metade das despesas dizem respeito a pessoal, por volta dos 60 mil euros.

Destes 60 mil euros, são 9 mil e quinhentos euros directamente para o Estado, sob a forma de Taxa Social Única.

Para além das outras despesas com pessoal, ficam 43 mil e quinhentos para remunerações, mas o Estado não ficou satisfeito com os primeiros 9 mil e quinhentos e a estes 43 mil e quinhentos que são os ordenados, vai ainda buscar mais 11% de TSU (pouco menos de 5 mil euros) e o IRS, que vamos admitir que são outros 5 mil euros, ou seja, dos 60 mil euros iniciais referentes a despesas com pessoal que a Montis tem, cerca de um terço, uns vinte mil, correspondem a uma avença paga pela Montis ao Estado.

Ou seja, por cada euro que a Montis consegue angariar (consignação do IRS, quotas, donativos, acordos de parceria), 15 cêntimos marcham directamente para o Estado.

Apesar do Estado reconhecer a utilidade pública da Montis, o certo é que os 25 euros de quota que os sócios pagam correspondem, na melhor das hipóteses (na verdade não estou a falar dos impostos cobrados no resto das despesas que não dizem respeito a despesas com pessoal, que não devem andar longe do mesmo nível, por exemplo, para alugar uma casa por 100 euros por mês, a Montis tem de pagar 140, porque o Estado cobra 28% de impostos ao senhorio), a 21,25 porque o Estado cobra uma comissão de 3,75 euros.

A questão aqui não é a Montis, uma pequena organização, a questão é o conjunto da sociedade que tem de carregar às costas este nível de taxação, que será tão socialmente mais negativo quanto mais o Estado for ineficiente na forma como gasta os recursos assim angariados.

Havendo eleições dentro de pouco tempo, a mim parecer-me-ia muito mais útil que o jornalismo político moesse o juízo dos candidatos com perguntas sobre o que isto significa que discutir as magnas questões do cabeça de lista de este ou aquele, neste ou naquele distrito, matéria que só interessa aos directamente envolvidos.

Para quem é, bacalhau basta

por henrique pereira dos santos, em 27.03.25

Primeiro era a aprovação da "lei dos solos" que servia para rentabilizar os terrenos, actuais e futuros, dos governantes.

Depois eram umas avenças para coisa nenhuma que Montenegro recebia.

Depois, afinal as avenças eram para pagar serviços realmente prestados, mas em part-time pelo primeiro-ministro que tinha a obrigação de se dedicar, exclusivamente, à governação.

Havia ainda umas pessoas que se acham intelectualmente sofisticadas, que não se diminuem nem se excluem do que quer que seja, que clamavam contra a procuradoria ilícita.

Mais tarde, passaram a ser os conflitos de interesse óbvios, esquecendo-se de que o óbvio é uma coisa muito subjectiva mas serve para alguém se dispensar de explicar os fundamentos do que diz ou escreve.

Foram sempre cavalgando tudo isto, fazendo acusações gravíssimas, elaborando complicadas análises que tinham sempre, sempre, a mesma conclusão: Montenegro, para além de um escroque, era um aldrabão de quinta categoria, completamente incompetente para apagar os traços das suas actividades duvidosas.

Montenegro fartou-se e apresentou-se no parlamento com uma moção de confiança, ou acham que sirvo para isto, ou vamos perguntar a quem manda.

Durante uma semana a quinze dias, disseram coisas extraordinárias sobre esta opção e o preço altíssimo que Montenegro ia pagar ("Cada vez há mais pessoas a fazerem contas à derrota de Luís Montenegro, dentro do PSD ... isto vai ser uma hecatombe ... quando nós tivermos uma derrota pesada, quem é que nós vamos meter aqui para recuperar ... alguém que acha que este discurso cola, é alguém que ainda não percebeu o que está a acontecer", dizia Miguel Pinheiro em 12 de Março de 2025, como se fosse uma evidência indiscutível, o tal óbvio).

"De repente, não mais que de repente", parece que tudo mudou e multiplicam-se as igualmente evidentes declarações de que a AD vai ganhar, provavelmente folgadamente, as eleições.

Eu não sei se vai ganhar ou não, acho que sim, neste momento, mas dois meses é uma eternidade em política, o que sei é que os mesmíssimos cavaleiros que cavalgaram todas as grandes acusações, e se atiraram sem medo para todas as cascas de banana que lhes foram sendo lançadas sobre Montenegro, "de repente, não mais que de repente", mudaram de estribilho: afinal a questão não é a facilidade com os sofisticados pensadores e analistas morderam iscos que, desde o primeiro minuto, pareciam histórias mal contadas, afinal o problema é a enorme tolerância da população à corrupção paroquial ou uma reduzida exigência ética que faz com que o povo conviva alegremente com o passado de Montenegro, ao contrário dos comentadores que, acham eles, têm elevadíssimos padrões éticos que os impedem de viver tranquilamente nesta piolheira.

Lá admitir que talvez o passado de Montenegro seja mais normal do que o pintaram e que não se encontra nada que justifique o charivari que fizeram, isto é, lá admitirem que foram "embarretados" como Nicolau Santos admitiu sobre Artur Baptista Silva, isso é que nunca, porque isso seria admitir que as suas análises e comentários políticos não diferem muito dos meus ou dos gajos de Alfama, umas vezes acertam, outras não.

Sejamos pragmáticos

por João Távora, em 26.03.25

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(Amanhãs que cantam? Tenham medo, muiiito meeedo!)

Tenho para mim que a política é um meio para alcançar tantos quantos possíveis objectivos, fundados em valores, dispostos hierarquicamente, para o bem comum. Como dizia sabiamente o Dr. Oliveira Salazar, “a política é a arte do possível”. Não existindo um partido que reflicta exactamente todos os meus ideais e valores, sendo absolutamente implausível um milagre (ou sangrenta revolução) que proporcionasse a implementação de todos eles, para fazer a minha opção de voto, disponho-me a hierarquizar os valores em disputa, os partidos concorrentes mais próximos dos meus, e a sua aptidão para chegar ao poder.

É com esta linha de pensamento que, dos partidos capazes de ganhar eleições (ou seja, por em prática um programa), desde logo não consigo confundir o PS, que carrega indelével a sua marca republicana e laica, herdeira do progressismo jacobino da 1ª República, com o PSD que tem um cariz bem mais liberal, que sempre conviveu pacificamente com católicos e monárquicos sem tentações progressistas. Ainda passível de entrar nesses mesmos cálculos, surge a IL que parece disposta depois de 18 de Maio a colaborar com a AD para uma solução de governo, certamente com intenções de nele imprimir uma marca de liberalismo económico mais ambiciosa. Acontece que eu sou incapaz de votar num partido que, contrariando a sua marca liberal, sempre se tem mostrado aderente à agenda fracturante no que diz respeito a costumes, ou seja, ao progressismo positivista, que vai visceralmente contra a minha sensibilidade conservadora e pessimista. Depois, escuso-me de aprofundar muito a opção pelo partido Chega, cuja agenda e programa é para mim absolutamente incompreensível, já para não falar do seu estilo desenfreadamente vulgar, para não dizer alarve. Não vai com os meus padrões estéticos. 

Finalmente, depois das últimas quatro semanas de acusações ao primeiro-ministro Luís Montenegro, iniciada sob o pretexto dum suposto conflito de interesses entre negócios imobiliários e a chamada “Lei dos Solos”; aqui chegados nenhum caso emergiu que seja propriamente escandaloso e comprometedor da sua hombridade. Pareceu-me mais uma tentativa de assassinato de carácter, oportunisticamente protagonizado pelo Chega e pelo PS.

Talvez as eleições antecipadas sejam afinal uma oportunidade para os portugueses alcançarem um governo estável e reformista à direita, só possível com uma maioria absoluta. Sejamos pragmáticos, então.

O combate dos chefes

por henrique pereira dos santos, em 26.03.25

Já terei escrito algures que me parece que Ventura tinha um objectivo estratégico muito bem definido: ter mais um voto que o PSD e, com isso, chegar ao Governo, a partir do qual tencionava tornar o Chega a força dominante da direita.

Os ventos eram favoráveis a esta hipótese, com o PS a alimentar o Chega numa manobra de tenaz sobre o PSD, com Montenegro, que não entusiasma ninguém, à frente do PSD e com a falta de credibilidade e influência da imprensa, que permitia a Ventura dizer o que lhe era útil em cada momento, sem grandes custos políticos.

A forte votação do Chega e a fraca votação do PSD (a votação do PSD é maior que a do Chega, mas para os padrões de um e de outro, a percepção é que o Chega teve um grande resultado e o PSD um péssimo resultado) permitiam ao Chega pressionar o PSD para entrar no Governo, quer para garantir estabilidade, quer para permitir a aplicação de um programa político verdadeiramente diferente do programa do PS (saúde, habitação, educação, segurança, imigração e fiscalidade poderiam de facto cavar as diferenças para o PS).

Montenegro, aparentemente, intuiu muito cedo o risco que ligação ao Chega representava para o PSD - se o Chega tivesse mais um voto que o PSD, em qualquer momento, o risco do PSD desaparecer ou tornar-se secundário era bem real - e optou por uma estratégia de risco que consistia em queimar todas as pontes com o Chega, usando a governação para reposicionar o PSD e alterar a relação de forças na Assembleia da República, tanto mais que ninguém conseguiria garantir que o Chega não roía a corda no momento em que lhe fosse mais favorável.

Ao que me parece, e é uma percepção muito pouco fundamentada em factos verificáveis, Montenegro terá optado não tanto por tentar ganhar votos mobilizando o eleitorado tradicional de Cavaco, mas por ir respondendo ao eleitorado moderado do Chega (que existe) e ao eleitorado moderado do PS (que também existe), ao mesmo tempo que deixava de dar razão aos eleitorados radicais dos dois partidos para se mobilizarem, adormecendo-os.

Ventura respondeu a esta estratégia radicalizando o seu discurso sobre Montenegro, procurando criar condições favoráveis a uma futura aliança Chega/ PSD sem Montenegro.

A queixa de Montenegro sobre os cartazes do Chega, um cartaz que me parece muito favorável a Montenegro (um ataque pessoal sem ponta por onde se lhe pegue, em que o contraponto a Montenegro não é Pedro Nuno Santos mas Sócrates, só pode beneficiar Montenegro), só pode explicar-se por este braço de ferro, com Montenegro a dar visibilidade ao cartaz e, ao mesmo tempo, reforçar a estratégia de queimar todas as pontes com Ventura, seguindo o velho princípio napoleónico de nunca impedir o avanço de um inimigo quando ele está a cometer um erro.

Veremos o que nos reserva o futuro, mas a mim parece-me que estamos mais longe de um PSD sem Montenegro, como pretendia Ventura, que de um Chega sem Ventura, como única forma de permitir desbloquear a conversa à direita.

No recreio da politica

por henrique pereira dos santos, em 25.03.25

O Bloco de Esquerda está desesperadamente a tentar recuperar algum do eleitorado que fugiu para o PS e para o Livre.

Como sempre foi um partido especialmente focado na juventude, tiveram uma ideia brilhante para aumentar o número de deputados: foram chamar uns dinossauros para entreter a criançada.

O dinossauro principal não se fez rogado, quando uma criança lhe perguntou: "Estava com saudades do parlamento, ou é um pequeno sacrifício que faz?" (atenção, embora o post seja a reinar, esta pergunta é verdadeira, feita por uma jornalista do Público, aliás, tudo o que estiver entre aspas é de uma entrevista ao dinossauro excelentíssimo), ele entra na brincadeira sem hesitação.

"É uma resposta a uma emergência ... Nós temos um fascista na Casa Branca. ... Temos discursos canalhas como o de Marke Rutte ou de outros, a dizer que daqui a três anos podemos estar em guerra".

Resumindo, quer o dinaussauro excelentíssimo, quer os dirigentes do Bloco ("A Mariana bateu-me à porta dizendo isto mesmo") estão fortemente empenhados em responder à emergência criada pela eleição de Trump e pelo reforço do pilar europeu da Nato, razão pela qual decidiram dar uma resposta fortíssima e excepcionalmente bem conseguida a este contexto: candidatar Francisco Louçã por Braga.

E têm razão, mais nenhum partido seria capaz deste arrojo e desta coragem para responder à altura das circunstâncias.

O dia seguinte

por João Távora, em 24.03.25

Na linha do que escreve aqui em baixo o Henrique Pereira dos Santos, o outro grande derrotado das eleições na Madeira foi a Comunicação Social.
Ora, o problema que mais contribui para o divórcio da Comunicação Social com os consumidores é que os jornalistas preferem escrever para os quadros e militantes dos partidos em vez de escrever para os eleitores, focados nos seus anseios e apreensões. E depois, o que é pior, é que não disfarçam o desejo de nos educar.

Outra coisa: quando, a propósito dessas eleições, os jornalistas e comentadores insistem chamar República ao Continente, sinto-me tentado a mudar-me para as ilhas...

Finalmente, a propósito do inusitado cartaz do Chega que compara Montenegro com José Sócrates, o Primeiro Ministro que o deixe estar. Ou muito me engano ou trata-se afinal de mais um precioso contributo para o reforço eleitoral da AD. 

O bailinho da Madeira

por João-Afonso Machado, em 24.03.25

Ontem foi em grande: Portugal goleou a Dinamarca; o PSD, os Cafofos de Madeira e os tontinhos locais do Chega. Não podíamos pedir mais.

Albuquerque revelou-se um Trincão. Avancemos para as flash interviews. Claro que o treinador do PS, Mister Santos, não podia baixar os braços. O argumento foi o costumeiro, a realidade insular nada tem a ver com a continental. Nesta pressa toda esquecendo o que estava em causa e, assim, insultando o arquipélago na maioria dos seus eleitores.

Porque do que se tratou foi, exactamente, não questões de política mas de idoneidade pessoal - a de Miguel Albuquerque. E o PS fez coro com o casto Chega na moção de censura que deitou abaixo o Governo da Região; e ambos (e outros) se entretiveram, não a falar algo mais a não ser a corrupção, que paira por aí sempre às costas do adversário do lado.

Ora, de duas uma: ou os madeirenses são, em maioria, contemplativos com a dita corrupção - e então convém dizer isso, para sua vergonha - ou então andam Pedro e André, esses apóstolos, a caluniá-los.

Que é o que é.

Tal a semelhança previs´vel: a campanha continental também será uma flecha lançada à pessoa de Montenegro. E só!!! Do que será o nosso eleitorado capaz?

Perderam ontem, vão perder a 18 de Maio

por henrique pereira dos santos, em 24.03.25

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Já em tempos publiquei este boneco sobre a confiança dos americanos em diferentes instituições.

Não conheço dados destes consistentes para Portugal, mas eu estou convencido de que a confiança das pessoas comuns no jornalismo e nos jornalistas anda manifestamente pelas ruas da amargura e o resultado das eleições de ontem na Madeira são apenas mais um dos sintomas disso.

Ontem havia quem se indignasse com o resultado de Albuquerque, apesar das suspeitas que o rodeiam.

O que não falta é gente a considerar inaceitável que um arguido possa candidatar-se a cargos políticos.

Já em tempos defendi num post, "Miguel Albuquerque fez o que deveria ser feito sempre pelos políticos que se vêem envolvidos em processos judiciais: avaliar politicamente a sua situação e tomar as decisões políticas que entenderem, impedindo que a confusão entre ética e lei, entre exercício de cargos políticos e investigações judiciais, acabem a dar ao sistema de justiça um poder ilegítimo, e aos políticos desculpas para se desresponsabilizarem pelas suas decisões políticas".

Talvez não tenha sido tão claro na principal razão para não se aceitar que as incidências jurídicas de processos devam ter tradução automática nas opções dos políticos, como se houvesse sanções acessórias decorrentes de opções judiciais.

Se se aceitar que António Costa não pode continuar primeiro ministro por causa do famoso parágrafo do comunicado da Procuradoria Geral da República (coisa que não aceito, acho uma trafulhice inventada por António Costa para fugir para Bruxelas sem pagar o ónus reputacional que Durão Barroso pagou, ainda ninguém me explicou por que razão, sem nenhuma alteração, o mesmo parágrafo não impede António Costa de ser Presidente do Conselho Europeu), é inevitável que o Ministério Público acabe condicionado nas suas opções de investigação a políticos, ao saber que a divulgação de diligências de investigação judicial não são apenas isso, diligências de investigação judicial, mas são também condicionamento político desproporcional para os visados.

As dúvidas e as suspeições resolvem-se em eleições e as eleições não lavam nem a reputação, nem a responsabilidade jurídica das pessoas envolvidas, que são matérias a tratar com outros meios.

Aparentemente as pessoas comuns intuem isto de forma mais lúcida que a generalidade do jornalismo, que insiste em funcionar à Ventura, considerando uma vergonha tudo e mais alguma coisa que os jornalistas decidam que é inaceitável.

Perderam estas eleições e vão perder as próximas, senhores jornalistas.

Domingo

III da Quaresma

por João Távora, em 23.03.25

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo, vieram contar a Jesus que Pilatos mandara derramar o sangue de certos galileus, juntamente com o das vítimas que imolavam. Jesus respondeu-lhes: «Julgais que, por terem sofrido tal castigo, esses galileus eram mais pecadores do que todos os outros galileus? Eu digo-vos que não. E se não vos arrependerdes, morrereis todos do mesmo modo. E aqueles dezoito homens, que a torre de Siloé, ao cair, atingiu e matou? Julgais que eram mais culpados do que todos os outros habitantes de Jerusalém? Eu digo-vos que não. E se não vos arrependerdes, morrereis todos de modo semelhante. Jesus disse então a seguinte parábola: «Certo homem tinha uma figueira plantada na sua vinha. Foi procurar os frutos que nela houvesse, mas não os encontrou. Disse então ao vinhateiro: ‘Há três anos que venho procurar frutos nesta figueira e não os encontro. Deves cortá-la. Porque há-de estar ela a ocupar inutilmente a terra?’. Mas o vinhateiro respondeu-lhe: ‘Senhor, deixa-a ficar ainda este ano, que eu, entretanto, vou cavar-lhe em volta e deitar-lhe adubo. Talvez venha a dar frutos. Se não der, mandá-la-ás cortar no próximo ano».

Palavra da salvação.

Anuncio Liberdade Portuguesa.jpg

“A Liberdade Portuguesa”, de Henrique Barrilaro Ruas, numa 2ª edição, que conta com mais quatro textos inéditos e um prefácio de Augusto Ferreira do Amaral, é a mais recente publicação da chancela Razões Reais da Real Associação de Lisboa, na sua missão de promover a Causa Real e as ideias que a sustentam. Adquira e conheça esta e outras obras de doutrina monárquica, aqui.

O medo de pasokar

por henrique pereira dos santos, em 21.03.25

Imediatamente depois das eleições que Passos Coelho ganhou, sem que tivesse maioria da Assembleia da República, Porfírio Silva escreveu um texto muito interessante: "E agora, esquerda?".

O ponto de partida era a possibilidade da morte de partidos, em concreto a ideia de que "Uma forma clássica de matar um partido é permitir que ele deixe de representar aqueles que prometeu representar".

Desde essa altura que estou convencido de que grande parte da actuação dos dirigentes do PS decorre do medo de acontecer ao PS o mesmo que aconteceu ao PASOK (ou ao partido socialista francês, por exemplo), isto é, um rápido desaparecimento eleitoral e crescente irrelevância política.

Desde essa altura, há nove anos, António Costa foi conseguindo conciliar o seu interesse pessoal de sobrevivência política com o seu interesse partidário de manter o PS relevante, absorvendo grande parte da extrema esquerda, para manter o seu partido como hegemónico nessa área, mesmo num contexto de perda relativa de peso da esquerda, e promovendo a extrema direita para enfraquecer o seu principal adversário.

Fazer a geringonça foi uma questão de sobrevivência politica de António Costa, mas foi também uma questão de impedir que, gerindo Passos Coelho o pós-troica, o PS fosse relegado para anos de oposição, eventualmente levando à sua pasokisação como, lucidamente, fez notar Porfírio Silva.

E, até agora, resultou.

Se eu fosse do PS, estaria agora, outra vez, com medo de pasokar.

A possibilidade real da direita (mais liberal ou menos liberal) governar em condições de alguma bonança económica, depois de António Costa ter desbaratado todo o seu capital político em manobras inconsequente e depois se ter pisgado para Bruxelas, deixando o partido à deriva porque os seus interesses divergiram dos do PS, pode resultar numa diminuição global da esquerda e, mais perigoso para o PS, aparecer um "portugal insubmisso" qualquer que ocupe o lugar de oposição à direita.

Se isso acontecer (não vejo ninguém, por enquanto, para desempenhar o papel da França Insubmissa), acentuar-se-á o desfasamento da esquerda com a realidade, dificultando a sua reconstrução como campo político gerador de governos.

Ora o PS, há muitos anos, não tem grande programa político para oferecer aos eleitores, sem o poder, que é como quem diz, sem a possibilidade de usar o Estado para fidelizar clientelas, o PS tenderá a definhar e, eventualmente, pasokar.

A opção de transformar dúvidas legítimas sobre Montenegro em acusações delirantes, que resulta de uma evidente radicalização do PS, só tem como efeito aumentar a velocidade de pasokização, a menos que alguém, no PS, resolva inverter o caminho.

Aparentemente, Medina estará disposto a, depois das eleições que tudo indica que o PS vai perder, pôr a render a sua declaração de voto na rejeição da moção de confiança.

Provavelmente, tal como eu, é hoje a direita do PS que tem medo da pasokização que a esquerda do PS usou para se tornar dominante no partido até 18 de Maio.

Um grande agradecimento a Luis Rosa e ao Observador

por henrique pereira dos santos, em 20.03.25

Esta peça do Observador é o que eu gostaria que fosse, dominantemente, o jornalismo.

Claro que se pode perguntar se o acesso à documentação não terá sido proporcionado por alguém ligado à empresa, violando deveres de confidencialidade em relação aos clientes e outras questões metafísicas do mesmo tipo.

Também se pode questionar o uso de fontes anónimas, mas não só o seu uso é restrito como não serve para contrabandear opiniões, serve para ajudar a interpretar a documentação e alargar os pontos de vista na interpretação da informação.

Certo, certo, é que se a imprensa funcionasse sempre assim, não só não estaríamos agora em campanha eleitoral (jamais os dirigentes do PS adoptariam o discurso que adoptaram, com insinuações gravíssimas, para justificar o absurdo da Comissão Parlamentar de Inquérito em que se empenharam, se a informação dominante no espaço público fosse a que resulta desta peça jornalística), como o espaço para a intriga, a insinuação não fundamentada, a difamação e outras formas ilegítimas de condicionar o debate público não seria o que é hoje, restringindo os efeitos socialmente negativos que decorrem do contexto de suspeição permanente e generalizada em que estamos metidos, promovido por uma imprensa que se esqueceu de regras básicas da profissão.

Obrigado Luís Rosa e obrigado Observador.

"Seja justo ou não"

por henrique pereira dos santos, em 19.03.25

A ideia foi consistentemente aplicada contra Passos Coelho.

Passos Coelho executou, com grande dignidade política (isto é, optando claramente pelo que entendia ser o bem comum sobre o que seria o seu, ou do seu partido, interesse político) um duríssimo programa de austeridade, com resultados muitíssimos bons.

A generalidade da imprensa malhou sem descanso em Passos Coelho (desde a Tecnoforma até à espiral recessiva e ao segundo resgate), sempre, sempre sem grande razão, negando as evidências do que os números do êxito do programa de ajustamento iam dando conta.

Quando a imprensa considerava evidente que Passos Coelho ia levar um arraso eleitoral, porque o povo não esqueceria as malfeitorias que lhe fez (ainda por cima, contra o melhor político da sua geração, repetiam incessantemente sobre António Costa), Passos Coelho ganhou as eleições, mas sem dimensão suficiente para se defender da canalhice de António Costa que optou sempre por não dizer que, perdendo, iria fazer um acordo com o PC e o BE, se tivesse deputados para isso.

Depois aguentou uns tempos a ser vilipendiado pela imprensa (e pelos seus inimigos, isto é, a gente que no PSD o queria ver pelas costas) que, quando não tinha mais nada para fazer, inventava umas coisas (a maior parte das vezes através da técnica da deturpação, como aconselhava António Aleixo "P'ra mentira ser segura/ e atingir profundidade,/ tem que trazer à mistura/ qualquer coisa de verdade) e depois o responsabilizava pela má imprensa, acusando-o de não saber comunicar.

É a fase em que estamos com Montenegro, a fase do justa ou injustamente, Montenegro tem de ser afastado por uma questão de sobrevivência do PSD.

Voltando a Passos Coelho, esta conversa desembocou em Rui Rio e na maioria absoluta do melhor político da sua geração, António Costa, ajudado também da inteligência excepcional de Marcelo Rebelo de Sousa, qualidades de um de outro amplamente reconhecidas, mas de que apenas os próprios parecem ter beneficiado, visto que se desconhece qualquer benefício para o país da superior qualidade política de António Costa e da superior inteligência de Marcelo Rebelo de Sousa.

Há só a chatice de haver umas eleições a 18 de Maio.

A insistência das classes dominantes em triturar os lentos rurais que não fazem parte da bolha político-mediática dominante pode funcionar a favor de Montenegro, tal como funcionou a favor de Passos Coelho, porque é bem possível que as pessoas comuns se cansem de tanta sobranceria e arrogância.

Camilo: a força indomável das letras portuguesas

por Daniel Santos Sousa, em 18.03.25

 

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Camilo foi muito maior do que o século XIX, não cabem rótulos, nem escolas, ou séquitos, a quem almejou maior liberdade. Sem mestre e sem discípulos foi um colosso das letras: poucos alcançaram tanto de forma tão arrojada e completa. Não entrando em paradoxos, encontramos particularidades com os contemporâneos. Se Eça almejou a corpulência perfeccionista de Flaubert, então Camilo superou a audácia laboriosa de Balzac ou a capacidade inventiva de Dumas. Mas ambos foram muito mais do que este mimetismo: Camilo e Eça dissociam-se e complementam-se ao mesmo tempo. Estilos e temperamentos diferentes, certamente.

Seria pois redutor colocar Eça como o escritor cosmopolita e Camilo como o autor provinciano. Eça o homem moderno e Camilo o homem do "Portugal antigo". Mas sem dúvida que representam sensibilidades e visões diferentes desse mesmo Portugal.

Assim como diferenciado se manteve da ilustre "Geração de 70". Não tão viajado como Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão, nos livros encontrou a escapatória para entender a humanidade; nem empedernido foi de ânsias positivista como Oliveira Martins, Antero de Quental, Guerra Junqueiro ou Teófilo Braga. As modas eram para ele retalhos que mereciam ser martelados com a firmeza do verbo.

Ao contrário de Eça, estrangeirado a construir na distância geográfica o reportório literário do naturalismo, snob que almejava a França como ideal cultural, cujas famosas personagens e os conhecidos enredos foram observados muitas vezes telescopicamente (nem sempre mas nas obras cimeiras bem longe de Portugal); ao contrário do seu émulo literário, Camilo conviveu de perto com o povo, partilhando iguais mágoas e dissabores, sentindo a amargura que dilacerava as inteligências. Entre os seus conviveu e saboreou o mesmo aroma que preencheu milhares e milhares de páginas. No conflito existencial não perdeu a ânsia dos filósofos, onde a arte é o reduto para explorar os infernos insondáveis da alma humana.

Ao mesmo tempo romântico e naturalista, homem de aspirações metafísicas e preso à imanência terrena, revolucionário e contra-revolucionário, em todas as metamorfoses da vida encontrou espaço para ampliar a audácia literária. Cada personagem continha um pouco do seu próprio mistério. Narrativas que, não explorando tão cansativamente o mundo e a mente, nem perdendo o arrimo da acção na fórmula galicista de tudo reduzir ao racionalismo , Camilo desejou sobretudo contar uma boa história, mas elevada pela erudição e grande conhecimento da língua. Escrevia de rajada, pouco corrigindo, mas domando a letra com habilidade.

No final, Camilo terá sido muito mais completo, muito mais argucioso, muito mais profundo. Em todas as latitudes da arte conduziu o seu desaforo e desatino, a sua violência e candura, uma mesma força demolidora capaz de arrasar com os mais cândidos e tíbios vates que pululam nas Academias e nos salões. Literatos e lentes arrasou Camilo com audácia. A pena afiada perpassou os variados géneros literários, romance, conto, novela, poesia, teatro, crónica, crítica literária. Uma verdadeira galáxia literária, queixando-se o mesmo de ser um prisioneiro do trabalho. Martírio dos homens abençoados pelas musas.

Também bibliófilo, referia-se em carta ao amigo, o poeta Feliciano Castilho, aos seus "mil volumes sofríveis". Não fossem as dificuldades financeiras, as errâncias de um espírito indomável, e quem sabe que invejável biblioteca legaria. Alguns volumes foram ainda recuperados, cada página recheada de notas marginais onde não perde o lado mais cáustico.

Na biografia foi a conjugação do poeta e do aventureiro, com vicissitudes que igualavam os dramas que soube elaborar. Vida que chocou e invejou os contemporâneos. E no final de tudo, conduzido por essa mesma força robusta, decidiu o próprio fim. Camilo foi pois a força indomável das letras portuguesas.

O burro

por henrique pereira dos santos, em 18.03.25

"Muito boa gente desconfia de que Montenegro teve comportamentos duvidosos por uma razão bastante simples: se não houver o menor vestígio de trafulhice, então o desastre absoluto das suas explicações fariam dele o político mais burro do mundo. E burro Luís Montenegro não parece ser". (João Miguel Tavares na enésima crónica sobre as trafulhices de Montenegro que nunca explica quais sejam, hoje no Público, preocupado com a magna questão de saber quanto custou a casa de Espinho de Montenegro).

João Miguel Tavares, fiel leitor do Expresso, está convencido de que um dossier de facturas da obra da casa é a chave para se encontrar os tais "comportamentos duvidosos", contrariando a Polícia Judiciária, que investigou os tais "comportamentos duvidosos" mas não achou essencial consultar o dito dossier (limitou-se a pedir, num mail, uma cópia em formato digital, devem ter dado tanta importância ao dossier que nem uma deslocação para o consultar acharam justificada).

Cada um entretém-se com as teorias de conspiração que quer, claro, mas o que me interessa é o parágrafo final da crónica com que começo este post.

1) A desconfiança sobre os "comportamentos duvidosos" não advém de nada em concreto, mas do facto das explicações para perguntas fundamentais (qual é o preço final de uma casa, por exemplo) do visado serem um desastre;

2) Se as explicações do visado são um desastre, só podem ser por ser burro, ou esconder alguma coisa (por exemplo, esconder o preço final de uma casa);

3) Não sendo o visado burro, então está demonstrado que há "comportamentos duvidosos".

Uma maneira um bocado pitoresca de dizer que qualquer pessoa que não consiga demonstrar a sua inocência (por ser burro ou por não querer, é irrelevante) é, em princípio, culpado.

Aparentemente não existe a hipótese de alguém achar que não tem de responder a perguntas que acha irrelevantes sobre matérias que são do foro privado, seja quais forem as razões que tem para isso, incluindo achar que não tem de contribuir para a devassa que a imprensa se acha no direito de fazer, substituindo-se à polícia.

Não faço a menor ideia se Montenegro teve "comportamentos duvidosos", o mais provável é que sim, porque a santidade é rara e, provavelmente, todos nós, aqui e ali, tivemos comportamentos duvidosos.

Volto a citar uma frase para que há tempos me chamaram a atenção:

"“If we insist that public life be reserved for those whose personal history is pristine, we are not going to get paragons of virtue running our affairs. We will get the very rich, who contract out the messy things in life the very dull, who have nothing to hide and nothing to show and the very devious, expert at covering their tracks and ambitious enough to risk their discovery.”

Depois queixem-se do êxito dos demagogos que se apresentam como os grandes regeneradores morais da sociedade.

Domingo

II da Quaresma

por João Távora, em 16.03.25

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo, Jesus tomou consigo Pedro, João e Tiago e subiu ao monte, para orar. Enquanto orava, alterou-se o aspecto do seu rosto e as suas vestes ficaram de uma brancura refulgente. Dois homens falavam com Ele: eram Moisés e Elias, que, tendo aparecido em glória, falavam da morte de Jesus, que ia consumar-se em Jerusalém. Pedro e os companheiros estavam a cair de sono; mas, despertando, viram a glória de Jesus e os dois homens que estavam com Ele. Quando estes se iam afastando, Pedro disse a Jesus: «Mestre, como é bom estarmos aqui! Façamos três tendas: uma para Ti, outra para Moisés e outra para Elias». Não sabia o que estava a dizer. Enquanto assim falava, veio uma nuvem que os cobriu com a sua sombra; e eles ficaram cheios de medo, ao entrarem na nuvem. Da nuvem saiu uma voz, que dizia: «Este é o meu Filho, o meu Eleito: escutai-O». Quando a voz se fez ouvir, Jesus ficou sozinho. Os discípulos guardaram silêncio e, naqueles dias, a ninguém contaram nada do que tinham visto.

Palavra da salvação.

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