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Greve dos jornalistas

por João Távora, em 14.03.24

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Antigamente comprava-se um ou outro jornal quotidianamente, diário ou semanário, consoante o atractivo que apresentava, escolhido por causa dum colunista específico ou algum assunto destacado na capa. Gosto muito de ler jornais, por isso hoje teimo comprar um semanário ao fim de semana e assino um jornal online para a família toda, independentemente dos conteúdos diários que apresente. A minha escolha reduzida.

Salvaguardadas as diferenças, confesso que esta greve dos jornalistas se assemelha demasiado a um protesto de chapeleiros nos anos sessenta. Infelizmente. 

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Quousque tandem abutere Sic patientia nostra? (*)

por José Mendonça da Cruz, em 13.03.24

Recomendo vivamente a charla de José Miguel Júdice ontem, na SicNotícias, depois das 22 horas, por ser simplesmente brilhante no elenco das novidades políticas estruturais e conjunturais resultantes da votação de 10 de março. Como bónus, recomendo, embora menos vivamente, a pergunta final de Carla de Sousa: «E se houver um empate?», não porque tenha sido repondida, porque evidentemente não foi, mas por ser reveladora de que não ouviu nada do que JMJ disse, ou, se ouviu, não percebeu nada.

Dizem que Clara de Sousa é do melhor que há na Sic, e custaria a crer por esta amostra. Mas depois de ver os jornais da tarde da Sic, hoje, a abrirem com PCP, Bloco, Livre e PS, que, portanto, são para aquela redacção os grandes temas da actualidade, passei a achar perfeitamente crível a superioridade intelectual relativa de Clara. Eu escrevi: relativa!

 

(*) Nota para socialistas: Até quando abusarás Sic da nossa paciência?

O quarto poder escolheu o lado errado da barricada

por henrique pereira dos santos, em 13.03.24

"Eduardo Oliveira e Sousa, ex-presidente da Confederação dos Agricultores de Portugal, que gerou polémica por negar as alterações climáticas...", escreveu ontem no Público Ana Bacelar Begonha.

Quando li isto lembrei-me imediatamente de uma cena de Notting Hill em que a actriz principal, depois de uma confusão qualquer, responde, a quem lhe diz para não dar importância ao que vem nos jornais porque no dia seguinte estarão no lixo, que a história vai ser arquivada e até ao fim dos dias dela, sempre que alguém escrever alguma coisa sobre ela, a história vai voltar a ser desenterrada.

A grande diferença do filme para a realidade é que no filme a cena diz respeito a uma situação que realmente aconteceu, na realidade a observação que ela faz continua a ser verdadeira, mesmo para coisas que nunca aconteceram (ou de que não há registo de que tenham acontecido), como o famoso "nunca me engano e raramente tenho dúvidas", o não menos famoso "vem aí o Diabo", para não falar do mais distante "se não têm pão, comam brioche".

Oliveira e Sousa vai ter de viver até ao fim da vida com o surgimento periódico da invenção mediática de que terá negado as alterações climáticas num comício da AD em Ourém.

Para quem queira saltar por cima da mediação do quarto poder, pode ouvir aqui, integralmente, o seu discurso nesse comício.

Ao minuto 15 do vídeo pode ouvir-se o momento em que Oliveira e Sousa começa a criticar algum ambientalismo.

Ao minuto 16 e 45, aparece a primeira crítica que o quarto poder resolveu usar para inventar posições políticas que não foram expressas, atribuindo-as a Oliveira e Sousa.

Ao minuto 19 começa a falar de alterações climáticas, começando por referir vários fenómenos meteorológicos extremos do passado, para ilustrar a ideia de que sempre houve fenómenos meteorológicos extremos.

Ao minuto 20 e 03, conclui dizendo "O planeta tem vida própria. Mas as alterações em curso são diferentes e são mais recorrentes. Há que deitar mão do conhecimento e dos meios técnicos para encontrarmos soluções que diminuam os riscos que sabemos que corremos".

É absolutamente claro, cristalino, que Oliveira e Sousa não nega as alterações climáticas como, pelo contrário, faz pedagogia sobre o assunto ao responder a um argumento recorrente de quem nega as alterações climáticas - sempre houve fenómenos meteorológicos extremos -, dizendo que sim, isso é verdade, mas aquilo a que assistimos agora é diferentes e mais recorrente.

Não me interessa discutir se tem razão ou não, se o discurso é bom ou não, etc..

O que me interessa é a opção do quarto poder.

Neste caso, como em muitos outros, a opção de esquecer os factos para apresentar argumentos, o que me parece que resulta da ideia errada de que o jornalismo é um contra-poder que deve ajudar a mudar o mundo, e não apenas a actividade de produzir informação útil às pessoas comuns (que, frequentemente, acaba em ser contra-poder, mas isso é um ponto de chegada, não de partida).

Recentemente apareceram notícias de mais um despedimentos colectivo num grupo de comunicação social, ilustrando a prolongada crise dos jornais (não necessariamente do jornalismo, mas não vou entrar por aí), que terá, com certeza, razões estruturais e de contexto, mas é também o resultado de um jornalismo de causas, que é como agora chamam ao jornalismo oportunista que aproveita a visibilidade dos seus agentes para contrabandear ideias, mascarando a nudez crua da propaganda sob o manto diáfano do jornalismo.

O quarto poder, quando é limitado pelas preferências dos seus leitores, tem ligações à realidade que o impedem de desembestar pelo mundo poético de superioridade moral em que vive a generalidade do jornalismo, mas quando vive de fontes de financiamento sem ligação com os seus leitores, como é o caso do Público que vive da caridade da família Azevedo, ou o Expresso, que vive do bolso fundo e da televisão do seu dono, perde qualquer limitação que o obrigue a procurar a confiança das pessoas comuns.

Infelizmente, o quarto poder parece ter vindo a escolher o lado errado da barricada, focando-se no que julga ser a sua missão de nos salvar a todos, mudando o mundo, em vez de se focar em dar-nos informação fiável que nos permita, a cada um de nós, com as nossas limitações, fazer opções que entendermos sobre as melhores formas de lidar com a realidade.

Correu bem

por Jose Miguel Roque Martins, em 12.03.24

As eleições do dia 10, parece-me, trouxeram bons resultados.

A AD ganhou e vai existir um novo governo e orientação. Claro que se não governarem bem, não vai ser por muito tempo: todos o sabem, aumentando a motivação para fazer bem e depressa.  Sermos mal governados não interessa, já temos demais desse tipo de governação, para mal, podemos sempre contar com o PS. O pior que pode acontecer é, recorrendo a medidas populistas, o novo governo conseguir aguentar-se sem governar bem. Tenho esperança que não aconteça.

O Chega, conseguiu mais de 1.1 milhões de votos e, desconfio, foi responsável por uma queda na dramática abstenção das últimas décadas. Ganhou a democracia e ganharam os Portugueses. Os grandes partidos tradicionais perceberam, finalmente, que já não há espaço para ignorarem a maioria silenciosa.

Os riscos de ingovernabilidade, que tanto receio aparenta causar, poderão até ser um incentivo para melhor governabilidade e tantos portugueses que, simplesmente, foram remetidos para a classificação de fascistas inoportunos ( ou sempre ignorados) poderão, agora, passar a ser considerados como potencial eleitorado a ser ouvido nas suas preocupações e aspirações.

O PCP, um anacronismo museológico, continua a dar mostras de declínio acentuado e de extinção. Ao contrário de muitos, não choro o fim deste partido histórico que não me parece ter dado contributos assim tão positivos ao longo dos anos: lembro sobretudo muitas coisas más.

Apenas fiquei um pouco irritado porque, as minhas esperanças, ao princípio da noite, de não ter que aturar o PAN, não se verificaram. É a Democracia. 

 

 

 

Mãos à obra?

por João Távora, em 12.03.24

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Mais que ripostar ou atender à verborreia chantagista de André Ventura, o que compete ao futuro Governo é responder de forma peremptória, pragmática e perceptível, às expectativas do eleitorado descontente que emergiu em grande medida da abstenção e das periferias sociológicas e geográficas do nosso país – os desistentes. Ao contrário do que nos querem fazer crer as elites urbanas, não se tratam de reivindicações ideológicas aquelas que nos trazem os descamisados que hoje eleitoralmente transitam de um extremo para o outro do protesto, ou que simplesmente se sentiram atraídos pela mensagem zangada do Chega: uma justiça operante e imparcial não é de direita ou de esquerda, a ordem e segurança pública não são assuntos de direita ou de esquerda; medidas de regulação da imigração e políticas profiláticas contra guetos de estrangeiros não são de direita nem de esquerda; um SNS de saúde eficiente para todos não é de direita nem de esquerda, como o não é um sistema de ensino livre, democrático e competente.

Os resultados eleitorais e as primeiras declarações dos seus belicosos actores indicam-nos um cenário de aparente caos e ingovernabilidade, que é o terreno ideal para o crescimento da discórdia e das propostas populistas. Por outro lado, a arte da política numa democracia madura e civilizada consiste na descoberta de pontes e de saídas para imbróglios aparentemente insanáveis. O governo que sair deste parlamento tem de ter como objectivo primordial surpreender-nos a todos com a implementação de soluções perceptíveis.

Mãos à obra, que os cães ladram e a caravana passa.

"Schadenfreude"

por henrique pereira dos santos, em 12.03.24

Tive de ir ao google saber o que queria dizer o título deste post, que vem directamente de um comentário a um post meu anterior, e depois de ver, achei que era um bom arranque para um post.

Talvez seja da natureza humana, talvez não seja nada de especificamente português, mas a verdade é que em Portugal há uma grande tendência para olhar para nós pelas lentes dos mitos, um "manto diáfano de fantasia" que nos defende da "nudez crua da verdade", como diria o outro.

Um bom exemplo é-me sugerido pelo facto de continuar a ler o livro de Nuno Palma, depois de ter lido parte do que foi escrito sobre ele.

Frequentemente há gente a escolher o facto de Nuno Palma dizer que Pombal foi o pior governante que Portugal teve (não tenho a certeza que a formulação que use seja exactamente esta), centrando-se nesta ideia (que é sempre discutível, como é evidente) em vez de se centrar na fundamentação que ele apresenta como base para essa conclusão, que é bastante objectiva.

Nuno Palma defende (pelo menos é essa a minha interpretação) que a disponibilidade de ouro do Brasil destruiu económica e institucionalmente o país (destruiu é um exagero meu, para ser mais rigoroso, afectou negativamente), sendo aliás uma das razões que teriam permitido a Pombal exercer o poder de forma tão livre e absoluta (neste ponto, compreendendo que possa ter contribuído, diria que o despotismo foi uma tendência geral na Europa ocidental na mesma época de Pombal, portanto é preciso alguma prudência na atribuição a causas nacionais pelo contexto cultural em que Pombal exerceu o poder).

E é a partir dessa ideia que faz a apreciação que faz do governo de Pombal.

Acima de outros aspectos que refere, escolhe a destruição do sistema escolar, com a expulsão dos Jesuítas, como a decisão mais negativa de Pombal, por coincidir com o fim das entradas do ouro do Brasil, com o tudo o que isso significa de dificuldade económica, dificuldade essa cuja resolução é travada pela destruição da capacidade de fazer crescer o capital humano, exactamente quando no resto da Europa ocidental a escolarização generalizada se começa a desenvolver, em paralelo com a industrialização.

Até aqui, nada de especial, acontece e pode acontecer em qualquer lado do mundo, uma decisão trágica, tomada por conveniência política de manutenção do poder, que acentua as dificuldades de contexto de uma sociedade, potenciando o desenvolvimento negativo do país, por décadas.

O que me parece extraordinário é que, ainda hoje, mais de duzentos anos depois, a defesa do governo de Pombal ainda motive discussões e mais de cem anos depois da sua saída do poder o país lhe tenha dedicado uma das mais proeminentes estátuas da capital do país, não porque uma historiografia rigorosa tivesse demonstrado que Pombal foi um grande governante, mas porque servia o mito de um poder político forte, que se opõe à igreja e às forças obscurantistas.

Ainda hoje esse mito sobre Pombal, e as maravilhas que fez na modernização do ensino em Portugal (que destruiu sem apelo nem agravo), é ensinado nas escolas sem grande escândalo, provavelmente porque preferimos discutir mitos a ter o trabalho de procurar entender a realidade e operar sobre ela, procurando sistematicamente avaliar o que funciona ou não funciona e quem ganha ou perde com cada decisão que o poder político vai tomando.

Toda a campanha eleitoral foi feita nesta base.

Quando uma afirmação perfeitamente sensata de Passos Coelho sobre a necessidade de levar a política de imigração a sério apareceu, raramente se discutiu o problema real levantado, preferindo-se tecer grandes considerações sobre a dimensão da virtude de cada um no amor ao próximo.

Quando uma defesa perfeitamente legítima de um ponto de vista, por Paulo Núncio, foi feita, raramente se discutiu a questão de fundo, optando-se por falar dos grandes mitos associados ao famoso "não passarão" e ao avanço civilizacional que o aborto representa (é extraordinário como um avanço civilizacional, o fim da perseguição legal de mulheres em desespero, é confundido com o recuo civilizacional que consiste em achar que não há nada a discutir sobre os limites da legitimidade de intervenção no desenvolvimento de um embrião de pessoa).

E finalmente chegamos ao título deste post, que decorre de um pequeno post scriptum meu sobre a actual Iniciativa Liberal, na sequência do que um amigo meu classificou como "a necessária clarificação interna".

O que aconteceu na Iniciativa Liberal não tem nada de novo, aliás, um outro amigo meu, perante a minha indignação com os métodos de sufocação da divergência que foram usados na Iniciativa Liberal, limitou-se a responder que os partidos são assim, inevitavelmente.

Ora é exactamente esta resignação sobre a degradação institucional, neste caso, dentro de um partido, que me indigna, não é qualquer espécie de "Schadenfreude".

É verdade que gostei de ver o que aconteceu em Lisboa com a Iniciativa Liberal (na verdade, o único distrito em que a Iniciativa Liberal desceu em deputados, votos e percentagem, há apenas um outro distrito em que a Iniciativa Liberal desce em percentagem, mas não em votos) porque isso me dá esperança, mostrando que pessoas comuns, como eu, reagiram de forma clara e tranquila a uma pulhice (não, não é a ausência de Carla Castro que motiva esta reacção de eleitores como eu, mas sim todo o contexto de eliminação da divergência, associado a uma sonsice éticamente inaceitável na forma como se pretendeu neutralizar a divergência, no caso de Carla Castro).

Ao mesmo tempo que fiquei muito contente com a eleição de Mário Amorim Lopes em Aveiro e tenho pena que Pedro Brinca não tenha sido eleito em Coimbra.

O que está em causa na Iniciativa Liberal não é nenhuma "necessária clarificação interna", isso fez-se nas eleições, ganhou a linha dos liberais em toda a linha, está o assunto resolvido, do ponto de vista da clarificação interna.

O que está em causa é a necessidade que o poder legítimo dentro da IL, obtido com 51% dos votos, sentiu de sufocar toda a divergência, de eliminar os "liberais conservadores", como eles dizem, os que discordam, os que contestam, resumindo, a opção por uma "linha justa" em detrimento de uma opção pela aceitação da conflitualidade potencial decorrente da pluralidade do conceito de liberal.

Para o actual poder na IL a divergência e a diversidade ideológica é um risco para o partido, para mim, essa é uma condição base de crescimento e aumento da influência social das ideias liberais, aceitando que há quem defenda âmbitos mais alargados de aplicação de ideias liberais e quem restrinja a validade desses conceitos a âmbitos mais restritos.

Espero que Lisboa, onde foi levada mais longe a defesa da linha justa, com insídia e sobre o alvo mais inesperado, seja suficiente para pelo menos haver gente, dentro da IL, a ter dúvidas sobre a virtude de expurgar do partido todos aqueles que não encaixam na pureza da definição de liberal que hoje é dominante na direcção do partido.

Acredito que o Chega não teve o resultado que desejava

por Miguel A. Baptista, em 11.03.24

É inegável que Ventura teve um grande resultado, no entanto duvido que tenha tido o resultado que desejava. 

Cerca de 18% é muito voto, mas pode não significar grande coisa. Aliás, em 1985, o PRD de Hermínio Martinho, também com um discurso anti-corrupção, atingiu um resultado semelhante, para passados menos de dois anos, se ver reduzido a menos de 5%. 

Para o resultado ser perfeito para Ventura faltou algo que chegou a andar por perto, uma vitória do PS. Uma vitória do PS teria garantido ao Chega dois aspectos cruciais: 

- Por um lado tal teria garantido a desagregação do PSD. O PSD é um partido de poder, muitos anos afastado deste fazem-no "perder cola" e esboroar. Tal já começava a ser visível no consulado de Rio, esta vitória de Montenegro conseguiu travar, in extremis, um processo que já ameaçava irreversibilidade. A erosão, ou implosão, do PSD permitiria ao Chega ocupar o seu lugar. 

- Por outro lado, uma vitória do PS, trazendo consigo o mesmo bando de incompetentes, (basta atentar para a lista de candidatos a deputados que o partido apresentou) garantiria o aprofundamento da mediocridade. Enquanto partido de protesto, para o Chega "quanto pior, melhor". O partido só teria que esperar mais uns dois anitos para que as coisas se degradassem mais um pouco e assim ter o caldo perfeito para que a sua mensagem salvífica fosse plenamente acolhida. 

Acresce ainda que uma oposição ao PS seria, para o Chega, fácil de fazer. Bastar-lhe-ia opor-se a tudo e procurar cavalgar todos os movimentos de contestação. A oposição a um governo PSD não poderá ser assim feita. Se os votantes do Chega têm "ódio" ao PS, muitos deles mantêm "mixed feelings" em relação ao PSD. Uma política de bota-abaixo poderá ser penalizadora. 

Se seria praticamente seguro que uma vitória do PS representaria a continuação da escalada do partido de Ventura para o cume, não ocorrendo esta, as coisas estão menos previsíveis, e mais complicadas para Ventura.  

E ainda bem. 

A Comunicação Social é um dos Derrotados

por Miguel A. Baptista, em 11.03.24

Um dos derrotados da noite é a comunicação social. Não só porque não tiveram sucesso na sua campanha evangelizadora anti-Ventura, mas também, e sobretudo, porque falharam naquilo que é a sua missão central, informar.  

A comunicação social preocupou-se muitíssimo em diabolizar Ventura e nada fez para nos explicar as causas que permitem que ele emerja como fenómeno. Por exemplo, para mim não é preciso perder muito tempo para perceber que a proposta de Ventura, de que serão os cidadãos da Comunidade Europeia a pagar as nossas reformas, é absolutamente demagógica e inviável. 

Mas eu, que gosto de procurar compreender os fenómenos sociais, estaria na disposição de investir algum do meu tempo para perceber porque é que os algarvios estão tão revoltados que dão a primazia do seu voto a um partido de protesto. 

Será que é porque não vêm o poder central a apontar soluções para a falta de água? Será porque sentem a impunidade daqueles que "roubam a alfarroba"? Será que se revoltam contra aqueles que perseguiram a actividade de alojamento local, como se de algo criminoso se tratasse? Será porque há desinvestimento na região? Será porque veem com desconfiança a chegada de povos indostânicos? Será porque o sentimento de insegurança está a aumentar? Será que é um bocadinho de todas as causas anteriores? 

Para todas essas questões, eu não tenho resposta. Eu, que não vivo no Algarve, gostaria de ter sabido o que se passa por lá, o que sentiam as gentes de lá, e a comunicação social não me deu essa informação. A pretexto de que falar em vários desses temas seria "promover o Ventura" a comunicação social lançou um manto de silêncio cúmplice sobre muita informação que é relevante. 

Tal como já aconteceu noutros países da Europa, ao apenas escolher as temáticas e as perspectivas que vão ao encontro da sua narrativa, a comunicação social cometeu um duplo pecado. Por um lado, falhou na sua missão central, que é informar, e por outro, contrariando aquilo que seriam as suas intenções, acabou por alimentar extremismos, pois deixou reservados para estes temáticas que são relevantes, e tema de preocupação, para as "pessoas normais". 

Até pela crise em que se encontra, a comunicação social deveria fazer um esforço de reflexão. No entanto, não tenho qualquer esperança que o faça. 

Ontem deve ter sido assim

por João-Afonso Machado, em 11.03.24

1. No dia em que foi eleito deputado único pelo Chega, André Ventura, eufórico, profetizou, - o seu partido ainda seria governo. Creio que jamais. Mas esclareçamos desde já: o Chega não é um papão; tem meia dúzia de sujeitos que programam as suas tomadas de posição (eles estão lá na sala, discretamente, todos sentados, inofensivos, já de alguma idade e cabeça rapada à Duce ou bigode e pêra como Italo Balbo) e o histrião André; e tem consigo a saturação - um pouco naif - de centenas de milhares de portugueses, aliás reforçada com a quebra da abstenção (por fim!...).

2. Por seu turno, a Esquerda entrou em colapso do qual só se safou (e foi premiado com 4 deputados) o Partido Livre. A minha visão: Rui Tavares é uma pessoa civilizada e dialogante. Como se viu no seu debate com Montenegro. Essa postura, hoje em dia, está a tornar-se preciosa.

3. Do que resulta a quebra do PS (apesar da irrequietude de Santos e de toda a Imprensa a seus pés, não é ó Anabela?) e o razoável score da AD (que perdeu cem mil votos para um ADN desconhecido) não bastante para contrariar a avalanche Chega. A IL manteve-se ela mesmo, um pouco à margem das manobras.

4. Ora essas manobras - as que agora importam - começaram antes do fim da noite eleitoral. Quando Costa arribou ao Altis, subiu aos andares de cima e chamou PNS, ordenando: - Vai já aos microfones e anuncia a tua derrota! - Teoricamente, creio que o PS ainda pode ser ganhador, se arrebanhar os 4 deputados pela emigração... Mas porquê esta pressa toda?

5. Pelas razões acima expostas. Porque em caso algum Santos poderia governar sem pedir uma mãozinha à Direita, e os socialistas são capazes disso, mas não lhes convem isso, nem mesmo em nome da sua actividade contratual paralela. E porque o PS percebeu que Montenegro vai cumprir o que afirmou e não se encostará ao Chega. O sentido de honra do líder do PSD será a grande oportunidade, a médio prazo, dos socialistas, logo alcançou Costa.

6. De modo que Santos veio aos microfones e repetiu a sabatina: - Parabéns pela vitória! Somos oposição! Não contem connosco, muito menos para deixar passar orçamentos! - E foi à vida dele, todo contente.

7. Montenegro vai-se ver aflito por uma banda e por outra. Provavelmente não resistirá. Todas as reformas verdadeiras de que Portugal carece há tanto tempo estão adiadas sine die. Talvez consiga, porém, duas metas fundamentais - dar atenção verídica e leal a quantos protestavam durante meses e meses de "democracia" socialista, satisfazendo os seus anseios no âmbito das funções próprias do Executivo; e governar sem escândalos: sem suspeitas de corrupção, sem favores nem desfalques, antes com gente independente, honesta, dedicada e meritória.

Se assim for, a AD ganhou realmente as eleições. O Chega irá esvaziando. E o PS perderá muito, sofrerá a bancarrota, na bolsa dos valores negociais em que sempre se movimentou.

Dez anos

por henrique pereira dos santos, em 11.03.24

O Facebook tem uma função de memória que vai mostrando coisas escritas anteriormente, na mesma data, mas em anos anteriores.

É uma função divertida, aqui e ali pode ser um bocadinho constrangedora quando se lê coisas que, lidas hoje, são autênticos disparates (e às vezes já eram, quando foram escritas) e hoje lembrou-me de que há dez anos usei este gráfico, vindo do INE, no relatório das contas de 2013 e que tinha saído nesse dia.

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Num comentário, eu escrevia: "Este gráfico é muito, muito expressivo: primeiro do lado esquerdo o desequilíbrio das contas externas, na linha, o progressivo endividamento consequente, a tentativa de correcção progressiva do fim de Guterres e governos PSD/ CDS, a guinada de Sócrates logo em 2005, assente em necessidades de financiamento cada vez maiores (que se potenciam pelo stock crescente da dívida, mesmo quando as contas externas mostram alguma melhoria) e finalmente a correcção entre 2011 e 2013".

Achei muito útil trazer para aqui, exactamente hoje, no dia seguinte aos das eleições, um gráfico que começa quando começa Guterres e vai até ao meio de Passos Coelho e que, na minha opinião, explica em cinco segundos as razões para a chamada da troica e os excelentes resultados obtidos com o programa de assistência financeira (de que, felizmente, António Costa resolveu manter o essencial).

E acho útil porque ilustra bem as responsabilidades dos partidos na encruzilhada em que estamos (claro que há muitos outros factores não controláveis a contribuir para a tendência de progressiva degradação institucional e social em que estamos metidos).

A esquerda, toda a esquerda (ou seja, inclui a esmagadora maioria das redacções dos jornais, rádios e televisões), inventou uma história da carochinha sobre a responsabilidade exclusiva de Passos Coelho, e da direita, nas dificuldades sentidas durante o programa de ajustamento.

Com isso, em vez de estabelecer um chão comum de reconhecimento do problema e do caminho comum para o resolver, criou uma nebulosa argumentativa que nos impediu de investir seriamente na optimização das políticas públicas que contribuíssem para responder aos problemas que o gráfico mostra (e que são muito anteriores à troica, Sócrates, e o PS de então, apenas escolherem ignorar irresponsavelmente os problemas, agravando-os, para não perder votos).

A opção tem razões claríssimas de sobrevivência partidária e o artigo que, para mim, melhor mostra isso, é este artigo de Porfírio Silva (de quem sou pessoalmente amigo e de quem digo que é dos maiores sectários que conheço).

Dito de outra maneira, o PS, com medo de morrer ou se tornar irrelevante, resolveu torpedear os interesses do país (reconhecer os bons resultados do programa de ajustamento e respeitar o esforço das pessoas para os obter, fazendo a pedagogia da necessidade de criar riqueza como forma de ter uma vida melhor) para impor os seus interesses: garantir o acesso ao poder.

Púrpuro acaso, vi ontem um filme sobre o rapto do dono da Heineken, em que várias vezes ele diz que se pode ser rico de duas maneiras, ou tendo muito dinheiro, ou tendo muitos amigos, o que não se pode é ser rico das duas maneiras em simultâneo.

O PS (e a esquerda em geral), preferiu ter muito amigos, isto é, ter muitos votos, a contribuir para que o país tivesse mais dinheiro.

O resultado das eleições de ontem é consistente com o que seria de esperar de uma opção dessas que, ainda por cima, assenta no logro permantente de anunciar uma política (virar a página da austeridade) e manter a substância de outra política (a aplicação diferente da mesma política de austeridade).

Essencialmente, e simplificando, das eleições resultaram três blocos com dimensões apreciáveis: 1) os que não vêem alternativa a esse jogo de sombras e têm medo de mudanças, quaisquer mudanças (a perfeita definição do que é um reaccionário), que é o hoje o bloco das esquerdas, todas as esquerdas; 2) os que querem retomar o caminho que o gráfico vinha a desenhar na sequência do programa de ajustamento, sem grandes sobressaltos e aproveitando as condições mais favoráveis para cativar a sociedade para o esforço de criar mais riqueza; 3) os que se sentem enganados e sem esperança.

Da resultante de forças entre estes três blocos virá o caminho que vamos fazer daqui para a frente.

Por mim, o que me parece mais razoável, é que o grupo que acede ao poder faça o que tem a fazer e deixe aos outros as opções que entenderem.

P.S. sobre a Iniciativa Liberal - Não faço segredo do facto de ser ideologicamente liberal, de ter apoiado a Iniciativa Liberal e de continuar a achar que é a formação política que melhor me representa, ideologicamente. Também não fiz segredo da minha opção de votar na AD, na sequência de um processo sectário de gestão interna da Iniciativa Liberal, subsequente às eleições internas que houve, que culminou na proposta de um sétimo lugar nas listas de Lisboa a Carla Castro. O argumento de que seria um lugar perfeitamente ao alcance da eleição foi a base de uma proposta de uma perfídia sectária que não quis deixar de penalizar (nem eu, nem, pelos vistos, muito mais gente, visto que em Lisboa a IL perdeu um deputado, perdeu percentagem e número de votantes). Espero que a demonstração de que Roma não paga a traidores modere a sanha sectária do actual grupo dominante na IL, para eu voltar a ter em quem votar alegremente.

Mudança e mofo

por José Mendonça da Cruz, em 11.03.24

Ontem, a direita -- ou, para as almas mais sensíveis, os que rejeitam a mediocridade socialista a solo ou com extrema-esquerda a ajudar -- ganhou as eleições legislativas. AD 29,5% + Chega 18,1% + IL 5,1% = 52,7%

Há uma maneira diferente de ver este resultado, vindo de dois lados opostos:

- há uma direita que prefere perder a negociar com mais de 1 milhão de eleitores que, por sobranceria ou distração, considera deploráveis;

- há uma esquerda derrotada que, para salvar-se, acha exatamente a mesma coisa, ou seja, que continua a haver dois partidos, o PSD e o PS, e estão empatados. Posso garantir que esta será a versão que verão martelada pela esquerda e pelos media (com desculpas pela taulotologia).

Eu repito: o que a esquerda e os media vão martelar desesperadamente é que só há dois partidos, o PSD e o PS, que PSD e PS estão empatados, e que no dia 10 de março não se passou nada mais digno de nota.

Não há lodo a que não desça

por José Mendonça da Cruz, em 11.03.24

Ontem, Pedro Nuno Santos subiu ao pódio para anunciar a derrota do PS e cumprimentar a AD pela vitória.

Mas, na plateia, o «jornalista» José Manuel Mestre, da Sic, perguntou-lhe porque é que estava a anunciar a derrota, quando ainda, segundo ele, Mestre, da Sic, havia uma possibilidade de o PS ganhar.

Então, Pedro Nuno Santos, que esteve surpreendentemente bem de serenidade e pragmatismo, explicou ao «jornalista» Mestre, da Sic, que o PS tinha perdido mesmo.

Mal acabara de responder, e já o «jornalista» Mestre, da Sic, insistia que talvez não fosse assim, que ainda havia uma hipótese.

O que fez Pedro Nuno Santos explicar ao «jornalista» Mestre, da Sic, que não, que o PS tinha perdido mesmo, e que não havia que alimentar ilusões.

Ora eu confesso que nunca tinha visto um «jornalista» que se julga jornalista descer tão baixo ao tentar desesperadamente fazer realidade das ilusões mais definitivamente perdidas. Agora já vi, foi o Mestre, foi a Sic. Mas quem julgar que isto é jornalismo e informação, e não o oposto, deve continuar a ver a Sic.

Portugal no longo prazo

por henrique pereira dos santos, em 10.03.24

Portugal no longo prazo é o nome do blog de Nuno Palma.

Conheço Nuno Palma por nos termos cruzado no éter (depois cruzámo-nos pessoalmente duas ou três vezes, a mais longa das quais num almoço para o qual o Nuno me convidou) e desde aí acompanho o que escreve porque me parece muito consistente com o que eu próprio escrevo.

Sei que todos nós temos tendência para gostar de ver os nossos preconceitos confirmados de forma independente, razão pela qual faço um esforço para ler o que contradiz Nuno Palma, ou pergunto a terceiros que saibam mais de economia que eu se um ou outro aspecto que me pareça mais estranho tem base sólida ou não.

De maneira geral, as fontes independentes (sejam fontes primárias de informação, sejam opiniões de pessoas a quem reconheço seriedade e conhecimento sobre assuntos de que sou um mero leigo) confirmam, pelo menos em traços largos, o que o leio do que o Nuno escreve.

Tem havido excepções, mas confesso que na maioria dos casos são coisas sem interesse (o livro tem ideias boas e originais, mas as boas não são originais e as originais não são boas, como escreveu Diogo Ramada Curto, é um comentário típico de preguiçoso que prefere o lugar comum à crítica objectiva) ou coisas intelectualmente indigentes, como esta, por exemplo.

O Nuno nem sempre é fácil, como se pode ver por este post em que explica por que razão se recusa a falar com o Expresso (há mais jornais em que parece que não entra, pelo menos não tenho dado por isso, mas desconheço as razões).

Mas, aparentemente, a esquerda militante que domina na academia, perpetuando mitos sobre a nossa história (como o que se deve ao Marquês de Pombal no ensino, ou o esforço do Estado Novo para manter o país pobre e analfabeto), parece, finalmente, estar a perder a guerra cultural.

Por um lado, o livro de Nuno Palma sobre a nossa história económica estará a entrar na 5ª edição, com vinte mil exemplares vendidos, o que é extraordinário para um longo ensaio sobre história económica.

Por outro são cada vez mais os textos com visões menos marcadamente ideológicas sobre a nossa história económica dos últimos cem a duzentos anos e seria uma grande comemoração dos 50 anos do 25 de Abril o enterro definitivo de uma série de mitos fundadores do regime, que o tem mantido preso a ideias que nos tolhem os passos, enquanto comunidade e nação.

O próprio livro do Nuno, e o seu inegável êxito, é a demonstração de como o pêndulo tem andado num sentido diferente do que era dominante na historiografia do Estado Novo, movimento de recentragem que começou há muitos anos, também na academia, mas que tem tardado a chegar às pessoas comuns, ainda ensinadas na escola a tecer loas às reformas educacionais do Marquês de Pombal, sem o contraponto de lhes ser ensinado que há um grande desfasamento entre papel e prática e, na verdade, o que Pombal fez, por razões políticas e de gestão do poder, foi reduzir em 90% os alunos existentes no país. Não porque tivesse objectivo, mas porque precisava de derrotar os jesuítas, que na altura asseguravam o grosso do ensino no país.

Este ensaio publicado no Observador (chamam-me a atenção para a falta de rigor de dizer que o autor é professor de Harvard, com base numas aulas que ele lá dá ou deu, parece que em Portugal continua a ser normal enfeitar-se com penas alheias), é um bom exemplo de como é hoje normal encontrar-se na imprensa mainstream um discurso sobre a história económica do país que não assenta nos mitos fundadores do regime democrático.

A mim interessaram-me sobretudo dois gráficos, cujo rigor também parece deixar a desejar (o gráfico com a percentagem da despesa do Estado por tipo não inclui 100% da despesa, aparentemente faltam ali 30% não explicados), mas que são muito expressivos: a Formação Bruta de Capital Fixo no país (distribuída pelo contributo do Estado e dos privados) e o gráfico com a percentagem da despesa do Estado por tipo, que me parece mostrar as despesas sociais a começar a subir antes do 25 de Abril e as depesas de investimento a cair para níveis que, dizem os autores, não chegam para repôr o stock.

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Não me parece um mau dia para olhar para "Portugal no longo prazo".

Do trabalho

por henrique pereira dos santos, em 09.03.24

É muito frequente, quando aparecem as tolices habituais nesta altura do ano relacionadas com o tiro aos lucros, haver alguém que pede para se comparar a Jerónimo Martins (e os seus principais rostos) com a Delta (e o comendador Rui Nabeiro).

Aparentemente, pretendem demonstrar a diferença entre a consciência social de Rui Nabeiro e a ausência de consciência na família Soares dos Santos.

A principal ferramenta de distribuição social da riqueza criada pelas empresas é a remuneração do trabalho, por isso vale a pena ser esse o critério central da comparação.

Comecemos pela dimensão dos postos de trabalho associados aos dois grupos: cerca de 4 mil trabalhadores na Delta, contra 130 mil na Jerónimo Martins, ou seja, trinta vezes mais famílias vivem da riqueza criada na Jerónimo Martins que na Delta.

Claro que para quem acha que propriedade é roubo ou, menos radicalmente, que a mais valia é apropriação indevida do valor do trabalho pelo capital, isso significa que a Jerónimo Martins explora trinta vezes mais pessoas que a Delta.

Para as pessoas comuns, no entanto, significa que o grupo Jerónimo Martins é responsável por distribuir riqueza, através da remuneração do trabalho, por trinta vezes mais pessoas que a Delta.

Pode argumentar-se, no entanto, que isso resulta de um grau de exploração maior do trabalho, que é menos remunerado na Jerónimo Martins que na Delta, ou seja, que embora a Delta alimente muito menos gente, é muito mais justa da forma como remunera o trabalho.

Vamos esquecer uma pergunta perfeitamente legítima (se a Jerónimo Martins explora mais as pessoas, e se as pessoas são livres de procurar trabalho onde quiserem, como mantém uma força de trabalho de 130 mil pessoas?) e avaliar se há alguma razão para pensar que de facto há uma maior injustiça na remuneração do trabalho que as pessoas vendem à Jerónimo Martins, em relação ao que vendem à Delta.

Quer a Jerónimo Martins, quer a Delta, fazem parte de um grupo de empresas relevante que adoptaram como política salarial ter os seus ordenados de entrada mais altos que o salário mínimo nacional (todas elas empresas de certa dimensão, lucrativas, pagadoras de impostos, fazendo parte da pequena minoria de empresas do país que pagam a esmagadora maioria dos impostos e segurança social, isto é, são as empresas cujos lucros servem de base ao desporto do tiro aos lucros).

Quer numa, quer noutra, não é fácil saber qual é o ordenado médio e muito menos o mediano, mas o facto é que o ordenado de entrada na Jerónimo Martins parece ser ligeiramente superior ao da Delta, e não vi nada que me faça pensar que quer uma, quer outra empresa, tenham niveis de remuneração do trabalho desalinhados com os respectivos mercados e sectores de actividade, portanto parece-me razoável presumir que tenderão a ter uma remuneração de trabalho ou igualmente justa (para uns), ou igualmente injusta (para outros).

Em qualquer caso, quer um grupo, quer o outro, pagam melhor que a mediana do mercado, isto é, desempenham um papel de distribuição de riqueza, através da remuneração do trabalho, que é melhor que a generalidade da economia (incluindo Estado e sector social, provavelmente).

A sensação que tenho é a de que a discussão de assuntos complexos seria muito mais simples se cada vez menos pessoas insistissem em jamais permitir que a realidade influencie os seus argumentos.

Diário da campanha (3)

por João Távora, em 08.03.24

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Esta campanha eleitoral ficará para mim marcada por um acontecimento lateral, perturbador, acontecido em França há uns dias: a quase unânime consagração constitucional do direito ao aborto. França há muito que se distingue por inaugurar as mais sinistras modas.  Que este tema filosoficamente complexo, de claro conflito de legitimidades, seja assim arrumado de forma simplista como se de um assunto de mera liberdade individual se tratasse, diz muito do caminho que a civilização ocidental vem tomando. Por cá, entristeceu-me assistir ao vivo e a cores à gradual capitulação das forças políticas tradicionalmente conservadoras face aos temas morais e éticos fundacionais da nossa cultura. O júbilo das domésticas minorias progressistas na conquista do centro político, sempre vulnerável às modas era previsível, mas triste. Cuidado, amigos: o hiperindividualismo mata.

Mudando de assunto, tenho esperança de que no Domingo o resultado das eleições resulte no sentido da mudança por cá: que vença um caminho para a libertação do país da repressão estatista que bloqueia a eficiência dos serviços públicos como os hospitais, as escolas, os transportes, enfim; a criação de riqueza e emprego que convida os nossos jovens à emigração. Com os resilientes socialistas a morder os calcanhares à AD nas sondagens, tenho esperança que não venha a ser o Chega a impedir uma solução de governo sólido para reformar, capaz de enfrentar as vicissitudes dum panorama internacional instável, uma dívida ainda sufocante com taxas de juro inflaccionadas, e duma oposição esquerdista, que não poupará energias vocais para agitar a rua por forma a manter o statos quo do empobrecimento socialista e dos pobres com que se alimenta e autojustifica.

Não se espere uma revolução mágica com a hipotética derrota das esquerdas, que Roma e Pavia não se fizeram num dia. Mas acredito que com um governo AD, capaz de convocar os melhores na academia e nas empresas para o serviço público, seja possível a Portugal sair da cauda da Europa. Para que, sem fantasias, se devolva algum entusiasmo aos portugueses que desejem assumir o protagonismo nos seus destinos, construindo um futuro melhor para todos.

O tiro ao lucro

por henrique pereira dos santos, em 08.03.24

Por coincidência, li ontem um post de Miguel Alçada Baptista sobre as reacções às notícias da apresentação de resultados da Jerónimo Martins e um dos meus amigos do Bloco de Esquerda publicitou um video do Bloco que intercalava declarações de Pedro Soares dos Santos e um discurso de Mariana Mortágua, ilustrando na perfeição o desporto nacional que nesta época do ano é muito praticado: o tiro ao lucro.

Começo por transcrever o que disse Mariana Mortágua com letras a traço grosso, com comentários meus dentro de parêntesis e em itálico, pedindo que a transcrição seja lida tendo em atenção que era um discurso de campanha, portanto o rigor formal do português, e mesmo da lógica, tem as suas fragilidades, não deixando de se perceber o essencial.

"O caso de Pedro Soares dos Santos.
Dono da Jerónimo Martins. (por uma questão de rigor, Pedro Soares dos Santos é apenas um dos donos do grupo, aliás, no caso do Pingo Doce, tenho ideia de que 49% do capital nem sequer é da família Soares dos Santos, mas reconheço que esta é uma informação relativamente lateral)
Soares dos Santos gosta que se fale de impostos, desde que seja ele a receber o bónus fiscal que a direita lhe quer oferecer. (esta afirmação é extraordinária porque é um comentário a declarações de Pedro Soares dos Santos a queixar-se de se falar demasiado em impostos, quando, na opinião dele, se fala tão pouco sobre a criação de riqueza sobre a qual os impostos incidem. É um tipo de distorção do discurso de terceiros em que o Bloco de Esquerda, e Mariana Mortágua, são especialistas. Compreendo a dificuldade em dizer que Pedro Soares dos Santos está, na verdade, a sugerir que o choque fiscal proposto pela direita é muito menos importante que a discussão sobre as condições para a criação de riqueza no país, tal como o Bloco defende) 
Soares dos Santos tem o mérito de ter herdado uma das maiores fortunas do país. (isto não passa daquelas estribilhos que o Bloco repete contra a meritocracia. É verdade que Pedro Soares dos Santos "nem sequer foi ouvido no acto de que nasceu", mas Mariana Mortágua está a omitir que não foi ele o escolhido como sucessor do pai no grupo, inicialmente. Após essa sucessão, o grupo fez um investimento ruinoso que quase que levou o grupo à falência, que foi preciso um trabalho e engenho imenso para encaixar os prejuízos e voltar a relançar o grupo, tendo Pedro Soares dos Santos desempenhado um papel essencial nesse processo, razão pela qual o pai, e depois o resto da família, o escolheu para sucessor no grupo. Nisso terá algum mérito).
Ganha mais num único ano que o trabalhador médio da sua empresa ganharia em 260 anos de trabalho. (esta afirmação tem dois erros colossais. O primeiro é o de confundir o ordenado de Pedro Soares dos Santos no grupo como sendo o que ele ganha num ano, visto que tem rendimentos de capital substanciais que não estão incluídos no salário que recebe e a que se refere Mariana Mortágua. O segundo erro resulta da vontade irresistível que Mariana Mortágua tem de embelezar a realidade: a diferença de 260 vezes não é para o ordenado médio do grupo, mas para o ordenado de entrada, o que é muito diferente. Nunca percebi de onde vem a convicção de que Mariana Mortágua é rigorosa no que diz)
Para fazer o quê?
A fortuna deste milionário é o resultado de um exército de trabalhadores mal pagos que são mandados comprar barato aos produtores para vender caro no supermercado, fazendo com que os preços subam.
Isto não é produzir, isto não é criar, isto é tirar à economia, tirar à agricultura, tirar ao trabalho, tirar ao país".

Aqui está o que diz uma economista sobre a actividade retalhista, o mais primário e básico comentário sobre intermediários que se conhece desde tempos imemoriais (não há vez nenhuma em que me cruze com este comentário de taxista sobre os comerciantes que não me lembre do jogo de cintura de Ângelo Correia, nos idos do PREC, num comício do PSD em Aveiro, em que fazia toda uma diatribe contra os intermediários, um clássico da demagogia populista. Alguém lhe faz chegar um papelinho a alertá-lo para o facto da sala estar cheia de comerciantes, uma das bases mais sólidas de apoio ao PPD da altura. Ângelo Correia faz uma pausa de segundos e diz "isto é o que os comunistas dizem dos comerciantes, mas nós, pelo contrário, etc. e tal).

Vamos a factos.

Os lucros apresentados pela Jerónimo Martins andam pelos 3% de margem sobre as vendas, e andam talvez a menos de 6% de rentabilidade de capitais (eu não sou Mariana Mortágua e digo já que são números que vi por aí e não verifiquei, teria de perder muito tempo a verificar o seu rigor, mas do que conheço parecem-me ser números dentro do razoável, se alguém tiver melhor informação facilmente verificável, cá estarei para corrigir).

É um dos maiores contribuintes para a segurança social do país (está com certeza nos cinco primeiros), o que não é de espantar sendo um dos maiores empregadores do país e um dos maiores contribuintes (está consistentemente entre os dez maiores pagadores de impostos em Portugal).

Mais que isso, o salário de entrada no grupo, ou seja, o salário mais baixo que paga (normalmente por pouco tempo porque regra geral há subidas ao fim de um ano de trabalho), é umas dezenas de escudos (vi por aí que seria 80 euros, mas não sei se é tanto neste momento) acima do ordenado mínimo nacional (ao contrário do que é uma crença popular, as pessoas que trabalham nas caixas de supermercado da grande distribuição não recebem, na sua larga maioria, o ordenado mínimo nacional e se trabalharem na Jerónimo Martins não há ordenados que sejam o ordenado mínimo nacional, como penso também ser o caso no Continente, mas não fui verificar).

Ao mesmo tempo, apresenta ao consumidor preços competitivos, razão pela qual a esmagadora maioria dos operários e camponeses (para usar linguagem que Mariana Mortágua percebe) preferem ir comprar o que precisam à grande distribuição, e não ao comércio local tão acarinhado pela esquerda caviar e clássica.

Por fim, é um grupo que regularmente distribui participação nos lucros pelos seus trabalhadores (dois bónus por ano, de maneira geral, tanto quanto as caixas de supermercado me vão dizendo), investe na formação dos seus trabalhadores, investe no apoio social aos seus trabalhadores, financia fundações várias, incluindo a Fundação Francisco Manuel dos Santos (que financiou a publicação de um dos meus livros, fica feita a declaração de interesses), a Fundação dos Oceanos, que gere o Oceanário (penso que a concessão foi ganha em concurso público, não tenho a certeza), financia a Pordata e produz muitas outras coisas.

Tudo isto, na óptica de Mariana Mortágua é apenas retirar à economia, à agricultura, ao trabalho e ai país, através de um esquema manhoso de comprar barato (coitados dos produtores, não há mais ninguém no país a quem vender produtos) e vender caro (coitados dos consumidores, não há mais ninguém no país a quem comprar produtos).

Paulo Raimundo também passa o tempo a falar dos 25 milhões de lucros diários dos grandes grupos económicos, que, pelos vistos, o PCP considera um problema que deveria ser resolvido transferindo-os para os trabalhadores.

É tentador, representaria um aumento generalizado dos trabalhadores em cerca de 130 euros mensais (14 meses), o que parece ser um preço razoável a pagar pela destruição da capacidade de investimento e de remuneração do capital do país.

Estes tais grandes grupos económicos, ou as grandes empresas (a terminologia varia, mas não a realidade), pagam melhor aos seus trabalhadores, investem mais, são mais inovadores, têm políticas sociais e ambientais mais consistentes e sólidas, são os grandes contribuintes da segurança social e os grandes pagadores de impostos, e isso até seria bom, não se desse o caso dessas empresas serem lucrativas.

Um crime sem perdão que não pode passar sem castigo, como parecerá evidente a qualquer pessoa de bem e que norteie a sua vida pela busca do bem comum e não do interesse privado.

Troglodita, disse ela

por henrique pereira dos santos, em 07.03.24

Ontem estava a passar numa coisa qualquer da televisão, sem grandes objectivos, e vejo Ana Gomes e Cecília Meireles, aparentemente, numa discussão.

Não tenho a menor paciência para o sectarismo e truculência de Ana Gomes, mas gosto bastante da ponderação de Cecília Meireles, de maneira que parei e andei para o começo daquilo, que ainda envolvia Sebastião Bugalho e Paulo Baldaia.

Não vi tudo, até porque às tantas falava tudo ao mesmo tempo e não se percebia nada (e, na verdade, quer Ana Gomes, quer Paulo Baldaia, para mim, caem na categoria dos que falam mais que o que dizem) mas vi o princípio em que Ana Gomes resolve classificar com uma nota de 8 em 10 Pedro Nuno Santos e com 0 Montenegro.

Há quem ache que estas notas não servem para nada, eu (como João Miguel Tavares disse um dia destes) acho que para entender a realidade são, com certeza, inúteis, mas são bastante explícitas sobre o ponto de vista de quem as dá, como se vê pelo exemplo acima.

A fundamentação para este disparate de Ana Gomes prendia-se com a elevação de Pedro Nuno Santos na resposta às interrupções no comício da Aula Magna (a discussão sobre as próximas eleições, do lado do PS, não passa destas minudências) e com o facto de Montenegro ter dito que Pedro Nuno Santos não tem estabilidade emocional (o PS não tem mais nada com que se entreter e acha que ganha votos achando que um comentário destes é uma coisa inqualificável, um ataque pessoal soez).

Resumindo, Ana Gomes valorizava, no que estava a dizer, a elevação da discussão política, condenando, sem apelo nem agravo comentários pessoais: combate político sim, ataques políticos, sim, mas ataques pessoais, isso era completamente inaceitável.

Nem meia dúzia de minutos depois, para ilustrar como a campanha da AD era má e a AD era perigosa (o PS acha que ganha muitos votos agitando papões, Ana Gomes esqueceu-se do que aprendeu, nos seus tempos do MRPP, sobre tigres de papel), fala do troglodita que é cabeça de lista da AD por Santarém, respondendo a Cecília Meireles, que lhe fez notar a deselegância de andar a insultar pessoas dessa forma, que era apenas um comentário político, não era um insulto (ao escrever este post, procurei uma coisa qualquer e dei com Miguel Sousa Tavares a dizer exactamente o mesmo aqui, no meio de uma conversa completamente ignorante sobre agricultura e o mundo rural).

Conheço Oliveira e Sousa das minhas andanças ligadas à conservação da natureza e ao mundo rural, tenho simpatia pessoal por Oliveira e Sousa, e posso garantir que nunca lhe encontrei um único traço de negacionista climático e, muitíssimo menos, de troglodita.

Ainda que o fosse, acho extraordinária a ideia de que os negacionistas climáticos não têm lugar na sociedade e nas discussões sociais, devendo ser tratados como leprosos e não contraditados com argumentos racionais.

Tem posições diferentes das minhas em relação ao ponto de equilíbrio entre economia e transição energética ou adaptação climática, mas tenho com ele largas áreas de sobreposição de pontos de vista sobre a forma concreta como a gestão dos problemas associados aos riscos ambientais precisa de ser tratada.

E posso garantir que sobre essas matérias, é incomparavelmente mais bem informado e sensato que Ana Gomes (convenhamos que não é difícil), que Miguel Sousa Tavares (convenhamos que não é difícil) e muitíssimo mais bem informado e sensato que a gente da Climáximo (ainda menos difícil).

Assuntos sérios e complexos não se tratam excluindo da discussão pessoas de quem se discorda radicalmente, e muito menos caricaturando as posições contrárias ao ponto dos adversários não as reconhecerem como suas.

Uma coisa é a discussão sobre a existência ou não de alterações climáticas (uma matéria em que há um esmagador consenso, sendo útil lembrar que consenso não é o mesmo que definição da verdade), outra coisa é a discussão sobre a origem e natureza dessas alterações climáticas (matéria em que ainda existe um largo consenso, embora menor que o anterior) e outra é a discussão sobre a forma como a sociedade deve responder a essa realidade, matéria sobre a qual não existe consenso nenhum, começando pela fortíssima clivagem entre os que querem essencialmente mitigar ou impedir essa alteração através das políticas de redução da emissão de carbono para a atmosfera, e os que querem essencialmente desenhar políticas de adaptação a essa nova realidade que, em larga medida, consideram inevitável.

Pelo meio existem milhares de nuances entre as posições defendidas pelas pessoas mais bem informadas sobre o assunto (não são apenas mais bem informadas sobre a física da atmosfera e coisas assim, são também as pessoas mais informadas sobre o funcionamento das sociedades, porque é disso que se trata).

Cada medida tomada na resposta ao problema das alterações climáticas tem efeitos positivos e negativos, sendo útil lembrar o princípio geral da química enunciado por Paracelso: a diferença entre um veneno e um remédio está na dose (por isso é tão risível ouvir pessoas que supostamente têm mundo, falar de uma agricultura sem pesticidas ou insecticidas, como Miguel Sousa Tavares que, pelos vistos, desconhece que a descoberta humana que isolada mais vidas salvou no mundo é a síntese da amónia).

Discutir cada uma dessas medidas, avaliar efeitos positivos e negativos, saber quem é que beneficia ou fica prejudicado em cada uma dessas medidas, é o mínimo que se exige nesta discussão.

E facilita, evidentemente, que as pessoas que querem participar na discussão tenham um mínimo de temperança, boa educação, gentileza e atenção a quem pensar de forma diferente, lembrando-se sempre do início do Discurso do Método, de Descartes: “O bom senso é a coisa que, no mundo, está mais bem distribuída: de facto, cada um pensa estar tão bem provido dele, que até mesmo aqueles que são os mais difíceis de contentar em todas as outras coisas não têm de forma nenhuma o costume de desejarem mais do que o que têm. E nisto, não é verosímil que todos se enganem; mas antes, isso testemunha que o poder de bem julgar, e de distinguir o verdadeiro do falso que é aquilo a que se chama o bom senso ou a razão, é naturalmente igual em todos os homens; da mesma forma que a diversidade das nossas opiniões não provém do facto de uns serem mais razoáveis do que outros, mas unicamente do facto de nós conduzirmos os nossos pensamentos por vias diversas, e de não considerarmos as mesmas coisas”.

Anda um espectro pela Europa

por henrique pereira dos santos, em 06.03.24

Pequeno passeio por um texto com quase 180 anos cuja leitura é muito proveitosa para entender os movimentos milenaristas associados a Greta Thundberg, Climáximo e, de forma mais suave, a muitos outros que vão dizendo que enfim, não se reconhecem em tudo, mas a vozearia milenarista destes extremistas até é útil e se justifica, mesmo que contenha partes que seria melhor dizer de outra maneira e assente em práticas que talvez fosse melhor rever.

A razão pela qual é útil reler este texto integralmente (aqui estão apenas bocados sem contexto), não se prende com a ligação entre as actuais tendências milenaristas assentes nas questões climáticas e este texto (duvido que quer Greta, quer a generalidade das pessoas da Climáximo tenham perdido tempo a lê-lo) mas sim com as semelhanças estruturais deste discurso milenarista, o nós contra eles, a razoabilidade de alguns diagnósticos face ao desvario das soluções propostas (incluindo o que hoje sabemos do que resultou das tentativas de aplicação prática), o gosto por teorias de conspiração, etc..

Tirando esta pequena introdução em itálico, o resto vem tudo directamente de um texto que facilmente se encontra procurando no Google qualquer dos bocadinhos citados, começando pela sua primeira frase que usei no título do post.

os mercados continuavam a crescer, a procura continuava a subir. Também a manufactura já não chegava mais. Então o vapor e a maquinaria revolucionaram a produção industrial. Para o lugar da manufactura entrou a grande indústria moderna; para o lugar do estado médio industrial entraram os milionários industriais, os chefes de exércitos industriais inteiros, os burgueses modernos.

O mercado mundial deu ao comércio, à navegação, às comunicações por terra, um desenvolvimento imensurável. Este, por sua vez, reagiu sobre a extensão da indústria, e na mesma medida em que a indústria, o comércio, a navegação, os caminhos-de-ferro se estenderam, desenvolveu-se a burguesia, multiplicou os seus capitais, empurrou todas as classes transmitidas da Idade Média para segundo plano.

O moderno poder de Estado é apenas uma comissão que administra os negócios comunitários de toda a classe burguesa.

A burguesia despiu da sua aparência sagrada todas as actividades até aqui veneráveis e consideradas com pia reverência. Transformou o médico, o jurista, o padre, o poeta, o homem de ciência em trabalhadores assalariados pagos por ela.

A necessidade de um escoamento sempre mais extenso para os seus produtos persegue a burguesia por todo o globo terrestre. Tem de se implantar em toda a parte, instalar-se em toda a parte, estabelecer contactos em toda a parte.

As antiquíssimas indústrias nacionais foram aniquiladas, e são ainda diariamente aniquiladas. São desalojadas por novas indústrias cuja introdução se torna uma questão vital para todas as nações civilizadas, por indústrias que já não laboram matérias-primas nativas, mas matérias-primas oriundas das zonas mais afastadas, e cujos fabricos são consumidos não só no próprio país como simultaneamente em todas as partes do mundo. Para o lugar das velhas necessidades, satisfeitas por artigos do país, entram [necessidades] novas que exigem para a sua satisfação os produtos dos países e dos climas mais longínquos. Para o lugar da velha auto--suficiência e do velho isolamento locais e nacionais, entram um intercâmbio omnilateral, uma dependência das nações umas das outras.

A burguesia, pelo rápido melhoramento de todos os instrumentos de produção, pelas comunicações infinitamente facilitadas, arrasta todas as nações, mesmo as mais bárbaras, para a civilização. Os preços baratos das suas mercadorias são a artilharia pesada com que deita por terra todas as muralhas da China, com que força à capitulação o mais obstinado ódio dos bárbaros ao estrangeiro. Compele todas as nações a apropriarem o modo de produção da burguesia, se não quiserem arruinar-se; compele-as a introduzirem no seu seio a chamada civilização, i. é, a tornarem-se burguesas. Numa palavra, ela cria para si um mundo à sua própria imagem.

A burguesia submeteu o campo à dominação da cidade. Criou cidades enormes, aumentou num grau elevado o número da população urbana face à rural, e deste modo arrancou uma parte significativa da população à idiotia [Idiotismus] da vida rural. Assim como tornou dependente o campo da cidade, [tornou dependentes] os países bárbaros e semibárbaros dos civilizados, os povos agrícolas dos povos burgueses, o Oriente do Ocidente.

A burguesia suprime cada vez mais a dispersão dos meios de produção, da propriedade e da população. Aglomerou a população, centralizou os meios de produção e concentrou a propriedade em poucas mãos. A consequência necessária disto foi a centralização política. Províncias independentes, quase somente aliadas, com interesses, leis, governos e direitos alfandegários diversos, foram comprimidas numa nação, num governo, numa lei, num interesse nacional de classe, numa linha aduaneira.

A burguesia, na sua dominação de classe de um escasso século, criou forças de produção mais massivas e mais colossais do que todas as gerações passadas juntas. Subjugação das forças da Natureza, maquinaria, aplicação da química à indústria e à lavoura, navegação a vapor, caminhos-de-ferro, telégrafos eléctricos, arroteamento de continentes inteiros, navegabilidade dos rios, populações inteiras feitas saltar do chão — que século anterior teve ao menos um pressentimento de que estas forças de produção estavam adormecidas no seio do trabalho social?

A condição essencial para a existência e para a dominação da classe burguesa é a acumulação da riqueza nas mãos de privados, a formação e multiplicação do capital

na vossa sociedade existente, a propriedade privada está suprimida para nove décimos dos seus membros; ela existe precisamente pelo facto de não existir para nove décimos. Censurais-nos, portanto, por querermos suprimir uma propriedade que pressupõe como condição necessária que a imensa maioria da sociedade não possua propriedade.

Em sentido próprio, o poder político é o poder organizado de uma classe para a opressão de uma outra.

 

E o ambiente?

por henrique pereira dos santos, em 05.03.24

Volta não volta, aparece alguém indignado porque o ambiente não aparece na campanha.

Claro que todos os partidos têm coisas sobre ambiente nos seus programas eleitorais, de maneira geral declarações de sinalização de virtude, asneiras e coisas sensatas.

Se não aparece na campanha é simplesmente porque não é matéria relevante para a formação do voto da maioria das pessoas (ou, pelo menos, não é entendida assim pelas pessoas que decidem dar importância a esta ou aquela matéria na actividade política).

Não vale a pena argumentar que isso é criminoso e estamos à beira de uma catástrofe ambiental, o facto é que as pessoas comuns não têm essa opinião ou, mesmo que a tenham, não é por causa disso que votam neste ou naquele. Ou melhor, não é sobretudo por causa disso que votam assim ou assado.

É bem possível que as intervenções de Greta Thundberg e seus seguidores, quer os mais institucionais, como António Guterres, quer os mais histéricos, como a Climáximo, tenham um efeito negativo na forma como as pessoas comuns olham para a questão ambiental (há muita gente farta de ruído que não entende), ao contrário da convicção corrente de que contribuiu para aumentar a visibilidade do problema. Não sei se será assim, não sei eu, nem sabe ninguém, o facto é que não se nota qualquer efeito positivo na sociedade que obrigue os agentes políticos a dedicar ao assunto mais que palavras de circunstância.

A Montis, uma associação de conservação de que fui co-fundador e que está a dias de fazer dez anos, vai lançar uma subscrição pública para a compra de terrenos para conservação da natureza, dentro de dias, veremos se ao fim de dez anos consegue ser mais mobilizadora do que foi no seu início, mas o que me parece é que o trabalho de formiguinha destas associações é bem mais relevante, do ponto de vista social, que a vozearia climáxica.

Ainda assim, insuficiente para que o assunto tenha um papel central na campanha para uma eleição.

Eu, que tenho o meu ordenado dependente das políticas ambientais, que ajudei a fundar organizações de conservação, que profissionalmente me dedico ao assunto há dezenas de anos, nem sequer olho para os programas ambientais dos partidos (abri uma excepção para o programa da Iniciativa Liberal, para avaliar as diferenças deste programa para aqueles em que participei, em eleições anteriores, mas por mera curiosidade).

E não é apenas, ou sobretudo, por entender que o maior problema ambiental, o que está na base de todos os outros, é a pobreza, é mesmo porque acho que na nossa vida colectiva há coisas mais relevantes a tratar politicamente neste momento: a qualidade das instituições, a transparência da acção pública, a eficácia da administração pública, a liberdade individual, incluindo das liberdades económicas, a contenção da voragem estatista, só para dar alguns exemplos, são assuntos que podem influenciar mais o meu voto que as questões ambientais.

Isso é desvalorizar as questões ambientais?

Acho que não, no fundo, no fundo, tirando os lunáticos que acham que tudo se resolve destruindo o capitalismo, a verdade é que todos os partidos tenderão a ter uma política ambiental, e a distinção entre os diferentes partidos nessa matéria não será tanto na orientação dessa política, mas na qualidade da sua execução, isto é, transparência, participação e respeito pela realidade, o que inclui a consciência da complexidade do problema.

Não é o ambiente que é um ausente da campanha, somos nós que estamos preocupados com outras coisas, e isso diz mais sobre a qualidade de intervenção dos agentes das políticas ambientais (o que me inclui), privadas ou públicas, que outra coisa qualquer: as generalidade das organizações privadas e públicas na área do ambiente está mais focada em saber onde vai buscar os recursos para as actividades que os seus dirigentes acham úteis, que em trazer as questões ambientais para a vida quotidiana das comunidades em que vivemos.

A estratégia do medo

por henrique pereira dos santos, em 04.03.24

Já aqui citei uma editorialista do Público nesta pérola sobre Passos e a invencionice da sua suposta xenofobia: "o ex-primeiro-ministro continua a ser fiel à mesma estratégia: instigar o medo, e o medo mais básico, como o medo do outro".

Ontem, por acaso, li um comentário de um amigo meu, amigo da vida real, não diria que é amigo de casa, mas reconhecemo-nos como amigos com diferenças acentuadas, que é de uma esquerda mais inorgânica, mas não menos solidamente esquerdista, a propósito do mesmo assunto e da responsabilidade dos políticos em relação a isso: "os políticos não podem ignorar [as percepções do público], mas quando lhes põem um microfone na boca podem ir à raiz do problema e debater como combater as sensações e produzir políticas públicas pró ativas ou podem aproveitar para agitar mais as "sensações" e aumentar as percepções do medo e da insegurança. Estes últimos se calhar estão a trabalhar para aumentar a faturação dos mercados da segurança?"

O que tem mais graça nesta história é que a generalidade da esquerda, que agora se sente bem representada neste argumento deste meu amigo sobre o que disse Passos Coelho (e, no caso, Ricardo Reis no seu artigo do Expresso desta semana) ter passado mais de quatro anos, entre o fim de 2010 e o fim de 2015, a falar da espiral recessiva, do facto da austeridade apenas poder gerar mais austeridade, no inevitável segundo resgate, e etc., como se pode ver nesta capa do Público de 28 de Setembro de 2013.

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Não se pense que era um caso isolado, isto era o quotidiano dos jornais e dos meios de esquerda (perdoem-me o pleonasmo), que inclui uma outra capa do Público que também reproduzo frequentemente sobre uma estupidez de uma jornalista do Público fazer umas contas idiotas sobre a previsão do défice, com base num estudo do FMI, para dizer que o FMI dizia que o défice português ia ser muito mais alto que foi.

Aliás, no dia seguinte, dia 24 de Setembro, a mesma jornalista (Isabel Arriaga e Cunha, correspondente em Bruxelas do Público na altura), voltava à carga:

"Governo junta-se a Bruxelas e nega "negociações" para segundo resgate a Portugal

...

O comunicado diz ainda que o Executivo, formado pela coligação PSD-CDS, “lamenta” a notícia publicada este sábado pelo PÚBLICO, dizendo que esta não tem “fundamento”, mostrando o seu desagrado por ter sido publicada “enquanto estão em curso a oitava e nonas avaliações do PAEF e o país se encontra em dia de reflexão eleitoral.

Esta manhã, também a Comissão Europeia negou peremptoriamente que já esteja a trabalhar num novo resgate a Portugal, garantindo que o cenário de um novo pacote de ajuda financeira não está em cima da mesa, “nem parcialmente nem de qualquer outra forma”.

...

Segundo a notícia do PÚBLICO, a eventualidade de Portugal precisar de um segundo resgate para assegurar o seu financiamento é agora vista em Bruxelas como o cenário provável e que já está "parcialmente na mesa".

"Muito provável", "praticamente inevitável" e mesmo "largamente inevitável" foi a avaliação feita ao PÚBLICO por várias fontes envolvidas no actual programa de assistência financeira a Portugal. No centro desta convicção está a constatação de que muito dificilmente Portugal reconquistará a confiança dos investidores para voltar a obter nos mercados o financiamento necessário ao funcionamento do Estado a partir do fim do actual programa de ajuda, em Junho de 2014.

O PÚBLICO não escreveu que decorriam "negociações" em Bruxelas, mas sim que há "trabalho" a ser feito sobre a possibilidade de um segundo resgate."

Independentemente da falta de honestidade do Público, com rodriguinhos semânticos para evitar ter de dizer que a manchete do dia anterior (e respectiva notícia), era uma mentira que a jornalista assentava em fontes anónimas (numa clara violação das regras da sua profissão), o que interessa agora é que esta instigação do medo foi permanente durante o tempo de intervenção da troica e nos oito anos seguintes de governação do PS, sendo ainda hoje a trave mestra da campanha dos partidos de esquerda para as próximas eleições.

Costa ganhou as últimas eleições com uma maioria absoluta que muita gente de esquerda acredita que resultou do medo do Chega e da direita em geral, e portanto carregam nas cores ao falar das ameaças que a direita carrega consigo.

Eu, por acaso, acho isso um disparate, o PS teve uma maioria absoluta porque as pessoas se fartaram do jogo duplo do BE e do PC e, no lado da oposição, estava Rui Rio e anos de oposição à Rui Rio, isto é, de uma oposição que pretendeu negar Passos e o trabalho do seu governo, como Pedro negou Jesus por três vezes antes do galo cantar.

Que agora invoquem uma suposta ilegitimidade da adopção de estratégias de medo é uma ironia deliciosa cujos resultados veremos no dia 10.

Parece que vai estar de chuva no dia 10, os profissionais de sondagens vão explicar que isso altera os dados da abstenção e é tecnicamente muito difícil lidar com a abstenção quando se fazem sondagens, o que é potenciado pela elevada quantidade de indecisos que ainda existem e que ninguém sabe como votam (excepto Carmo Afonso que já demonstrou que são todos de esquerda).



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