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Miguel Esteves Cardoso, a minha homenagem

por João Távora, em 31.10.23

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Se eu fosse um bom escritor, ou simplesmente um escritor de sucesso, se começasse a ser alvo de muitas homenagens, ficava desconfiado. Ia logo fazer um check up ao hospital e dobrava o valor do meu seguro de vida. Digo isto a propósito das homenagens que ultimamente se vêm fazendo ao Miguel Esteves Cardoso (MEC); primeiro em Abril com o Grande Prémio de Crónica e Dispersos Literários, da Associação Portuguesa de Escritores e mais recentemente no fim de semana passado, no Festival Escritarias em Penafiel, onde lhe foi prestada uma justa homenagem, acontecimento que o Bruno Vieira Amaral descreve nesta divertida crónica. Tenho para mim que, merecedor de homenagem é qualquer escritor que, em Portugal, tenha vivido da escrita uma vida inteira.

Estava eu em plena adolescência quando o MEC despontou nos jornais. Tomei contacto com as suas crónicas primeiro na revista Música & Som finais dos anos 70 e algum tempo mais tarde no jornal Sete. Além de desvendar à rapaziada cá do burgo pérolas desconhecidas da Pop anglo-saxónica, fazia-o com uma inaudita irreverência, que a sua escrita elegante salientava. O seu estilo, bem-humorado, desavergonhadamente auto-referencial, era pleno de sarcasmo e de assumidas contradições. Era uma linguagem que caia bem a um miúdo de 17/18 anos como eu e, mais importante, era uma pedrada no charco do estilo cinzento e demasiado formal que as redacções progressistas traziam agarradas do tempo do Estado Novo. Quase todos os artistas a quem MEC teceu loas e jurou amor eterno foram esquecidos pela implacável passagem do tempo. Era afinal só música Pop.

Depois veio o Expresso, o sucesso da coluna “A Causa das Coisas”, que em tempos de alguma prosperidade, da generalização da TV a cores foi abraçada fanaticamente por uma recém-chegada burguesia sôfrega por novas referências estéticas e comportamentais, entediada da interminável revolução, definitivamente sem amanhã e sem cantares. Veio o tempo de O Independente, que desvendava uma direita em T-shirt e calças de ganga, que chegou com o sucesso do Rock Português e do Herman José, e muitos liberais em mangas de camisa recém-licenciados – estava enterrada a revolução e era permitido aos “reaccionários” finalmente entrar na festa, beber uns copos e dançar no Bananas ou no 2001. Desses tempos alucinantes, guardo com especial saudade a campanha Eleitoral que o MEC protagonizou em 1987 como cabeça de lista do PPM por um lugar no Parlamento Europeu. Apesar da sua total falta carisma na rua e de jeito em frente às câmaras de televisão, a sua eleição esteve por um fio com os votos nas cidades. Foi uma campanha alegre, que teve por mérito tirar a gravata e o bigode retorcido ao cliché dos monárquicos cuja mensagem nesses dias passou bem-humorada e rejuvenescida. A ideia de monarquia também pode ser Pop.

Confesso que comprava quase todas as semanas o jornal O Independente e ainda hoje guardo uma colecção completa da revista K, tenho na minha estante várias colectâneas de crónicas que convidei os meus filhos a ler, e no Natal passado deleitei-me a folhear a edição revista e aumentada da Escrítica Pop. Mas nas últimas décadas deixei de seguir o MEC, cuja escrita deixou de me interessar. Confesso que esperava muito mais desta estrela da minha juventude, que acabou por se parecer demasiado com a maioria das estrelas Pop que se esquecem, na melhor das hipóteses em duas gerações. Desconfio que o nome de um grande escritor só sobrevive se mergulhou nos incontornáveis temas da tragédia humana.

Dizem que a culpa da desilusão é de quem se deixa iludir, e eu concordo. O que é certo é que as horas de prazer de leitura que o MEC me concedeu, essas, a mim ninguém me tira. Estou convencido de que um niilista como o MEC não se chocaria nada com esta minha perspectiva.

Obrigado por tudo, Miguel.

Havia cessar fogo a 6 de Outubro, cara Ana Sá Lopes

por henrique pereira dos santos, em 29.10.23

Ana Sá Lopes escreve hoje uma crónica no Público que é excelente como resumo da posição da esquerda fofinha sobre o conflito na Palestina, começando logo no título "A vingança até ao extermínio do último palestiniano" (na tal parte do mundo que tem a sétima taxa de crescimento populacional mais alta do mundo).

De maneira geral essa posição da esquerda fofinha usa palavras fortes como "extermínio", para falar de uma realidade complexa sem qualquer relação com essas palavras, o que a mim me parece truque para evitar as discussões dificeis.

Comecemos então pelo que não está nem nesse artigo, nem em lado nenhum que eu tenha visto (estará com certeza em algum lado, eu é que não vi), a proposta de alteração proposta pelo Canadá à resolução das Nações Unidas aprovada recentemente, e que foi proposta pela Jordânia.

O Canadá propôs uma alteração ao texto da Jordânia: " “Protecção dos civis e cumprimento das obrigações legais e humanitárias” (documento A/ES-10/ L.26), proposta pelo Canadá. Além de rejeitar e condenar inequivocamente os ataques terroristas do Hamas ocorridos em Israel a partir de 7 de outubro de 2023, a alteração rejeitada também teria condenado a tomada de reféns e teria exigido a segurança, o bem-estar e o tratamento humano desses reféns (entre aspas, primeiro o título da alteração e depois a proposta do Canadá, nas palavras de Liliana Reis, que segue fielmente o texto da proposta de alteração)".

Isto é, a Assembleia Geral da ONU votou contra a inclusão desta referência numa resolução sobre o cessar fogo na Palestina, o que deixa absolutamente claro o que está em causa.

Em segundo lugar, gostaria de fazer notar esta frase (a ideia já a tenho ouvido a vários intelectuais de esquerda): "Biden não pode fazer grande coisa se quer vencer as próximas eleições americanas e já está a ser alvo da acusação de "anti-semita", que mata qualquer candidato presidencial nos Estados Unidos".

Isto é a mera actualização das teorias de conspiração sobre o poder oculto dos judeus, que mandam no mundo, teorias essas que estiveram na base da generalidade das perseguições aos judeus. Que intelectuais de esquerda com obrigação de saber onde conduziram patetices destas achem normal repeti-las, é para mim um mistério.

Ana Sá Lopes e a generalidade da esquerda fofinha, sempre, sempre ao lado dos oprimidos, mas nunca no meio deles, repetem à exaustão uma argumentação que não tem qualquer relação com a realidade: 1) "O número de resoluções da ONU que Israel nunca cumpriu", sem que se interroguem por que razão é a única democracia da região que concentra condenações de dois terços das resoluções da ONU sobre a região, ao mesmo tempo que a ONU ignora grosseiríssimas violações das ditaduras envolventes, incluindo a conivência com o poder despótico do Hamas em Gaza, há mais de 15 anos; 2) "o facto de manter um Estado com cidadãos de primeira e cidadãos de segunda", uma acusação que é permanentemente feita a Israel, o único Estado da região que, para além de ser uma democracia, tem um quinto da população árabe, incluindo palestinianos, claro, com plenos direitos de cidadania, ao contrário do que acontece no Líbano, Jordânia e Egipto em que os refugiados palestinianos, mesmo nascidos nesses países, estão legalmente impedidos de exercer um conjunto alargado de profissões, de comprar terra e outras coisas que tais, como o acesso aos direitos cívicos que consideramos básicos; 3) "manter Gaza como uma prisão a Céu aberto", a acusação mais estúpida que tenho visto repetida, quando é a própria ONU que diz que antes de 7 de Outubro entravam diariamente 500 camiões de ajuda humanitária, desde 7 de Outubro se lançam sobre civis israelitas rockets que entraram na tal prisão a Céu aberto, operados por profissionais da guerra que saíram para serem treinados no Irão e voltaram, coisa estranha para o que se considera uma prisão a Céu aberto.

Estas três coisas existiam antes do Hamas ter quebrado o cessar fogo, em 7 de Outubro, diz Ana Sá Lopes, inviamente justificando a agressão do Hamas a 7 de Outubro.

"um país que tem sido sistematicamente invasor do território de outros", escreve Ana Sá Lopes sobre Israel, provavelmente sem saber que nenhuma das guerras que levaram à alteração das fronteiras de Israel foi começada por Israel, pelo contrário, foi Israel que foi sempre invadido pelos seus vizinhos, com o objectivo concreto de liquidar o Estado de Israel.

Não admira a conclusão final: "O Ocidente tem um problema moral a resolver: a invocação permanente dos direitos humanos começa a ser conversa de chacha", calculo que os outros, os que votaram contra a alteração proposta pelo Canadá, não tenham problema moral nenhum com a invocação dos direitos humanos, começando pelo governo do Hamas que governou a Faixa de Gaza nos últimos quinze anos, liquidando sumariamente adversários, embebendo a sua estrutura militar no meio da população civil, ignorando os direitos das mulheres e homossexuais, etc., etc., etc..

Depois da quebra de cessar fogo a 7 de Outubro pelo Hamas, parece que o certo seria darmos todos as mãos, cantar o Kumbaya, e trocar reféns civis ilegitimamente capturados por bandidos por outros bandidos legitimamente detidos por um Estado democrático que respeita o Estado de direito, incluindo os direitos de defesa dos acusados, com o argumento de que não pode haver mortes de civis e é preciso evitar uma catástrofe humanitária.

Sim, há uma catástrofe humanitária em curso, sim, na medida do possível é preciso limitar a sua extensão e poupar o mais possível os civis, mas não parece que o futuro seja grande coisa se os que quebraram o cessar-fogo a 7 de Outubro tiverem sucesso na sua estratégia de atacar civis, capturarem reféns e reforçarem o seu exército com mais seis mil pessoas vindas das cadeias de Israel, usando como escudo o seu próprio povo e uma propaganda agressiva a que é sensível esta esquerda fofinha.

Não faço ideia de como se sai desta situação poupando todos os civis, mas parece-me que ceder à chantagem de hoje não abre nenhuma perspectiva para um futuro melhor amanhã.

"O que vinga é o "olho por olho, dente por dente" e é o que estamos a assistir no contra-ataque de Israel a Gaza, depois do atentado terrorista de 7 de Outubro", diz Ana Sá Lopes, como se dizer à população que se afaste é o mesmo que atacá-la de surpresa, como se violar pessoas seja o dia a dia do exército israelita, como se houvesse qualquer notícia credível de atrocidades do exército israelita em Gaza, como se Israel estivesse a fazer reféns para negociar ganhos de causa com o Irão, etc..

Sim, há vítimas inocentes, sim, há danos colaterais, em extensões que não sabemos qual seja porque não há informação independente vinda de Gaza, sim, era bom que fosse possível evitar isso, mas não consigo perceber como raio se pode Israel defender de um grupo de selvagens que se esconde no meio das pessoas de bem, sem que haja danos colaterais.

Ou melhor, até sei, era os selvagens não terem quebrado o cessar fogo que vigorava a seis de Outubro.

Metternich e a ordem europeia

por Daniel Santos Sousa, em 29.10.23

 

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Metternich é ainda fruto de discussão, Pieter Viereck já o tinha como modelo nos idos anos 60, constatando a máxima cunhada pelo ministro de "socialiste conservateur" (assim escreveu em carta a Guizot) como consentâneo dos paradoxos do poder que procurava a harmonia social e o cosmopolitismo aristocrático dentro de uma estrutura monárquica e tradicional, que mantivesse a ordem e impedisse o nacionalismo revolucionário das classes-médias.

Se criticou os revolucionários franceses, também atacou os adversários a que designou de "jacobinos brancos". Entre convulsões revolucionárias e contra-revoluções, procurou um equilíbrio europeu sustentado na ordem e na tradição, mas é muito mais do que o arquétipo do reaccionarismo. No fundo, era o pragmatismo Burkeano e a realpolitik mais tarde cunhada por Bismarck.

Nem tão pouco encontra paradeiro na actual União Europeia, mais descendente de Napoleão do que do Sacro Império ou da Confederação do Reno que Metternich via como "ordens federais defensivas", no valor às particularidades e idiossincrasias do continente e sobretudo às naturezas singulares dos regimes constitucionais, nos antípodas do que se tornou a Europa nos últimos cem anos. Uma figura incontornável para quem quer estudar diplomacia.

Domingo

por João Távora, em 29.10.23

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo, os fariseus, ouvindo dizer que Jesus tinha feito calar os saduceus, reuniram-se em grupo, e um doutor da Lei perguntou a Jesus, para O experimentar: «Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?». Jesus respondeu: «‘Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todo o teu espírito’. Este é o maior e o primeiro mandamento. O segundo, porém, é semelhante a este: ‘Amarás o teu próximo como a ti mesmo’. Nestes dois mandamentos se resumem toda a Lei e os Profetas».

Palavra da salvação.

É difícil ser republicano em Portugal

por Corta-fitas, em 28.10.23

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Aceitei com gosto o convite do João Távora para um repasto em sua casa [almoço anual do Corta-fitas] em vésperas de casamento real. A morada dada era muito exata, mas se não fosse também teria sido fácil identificá-la pela bandeira azul e branca (nada relacionado com futebol) na janela. Uma bandeira bonita, diga-se. Eu não monárquico, não aprecio privilégios políticos herdados e tenho pouco interesse pelas componentes estéticas da monarquia, embora uma parte dos países que utilizo como exemplos de boa governação o sejam. Holanda, Luxemburgo, Dinamarca, Suécia, todos monarquias. Pelo contrário, todos os maus exemplos são repúblicas. 
 
Depois do almoço, fui pela autoestrada a fazer o exercício mental de pensar em todas as coisas negativas para o país que resultariam de termos uma monarquia. 
- Se fôssemos uma monarquia, arriscaríamos a ter constantemente familiares diretos em diferentes lugares de governação... hummm...Bem, se calhar não é por aqui.
- Se fôssemos uma monarquia, poderíamos hoje ainda ser liderados pelos filhos das elites do estado novo... hummm... Se calhar, também não é por aqui.
- Se fôssemos uma monarquia, veríamos os mesmos apelidos a repetirem-se constantemente nas direções de várias organizações, de empresas a universidades... humm... Também não.
- Se fôssemos uma monarquia, a mobilidade social de quem nasce fora de boas famílias poderia ser complicada... hummm... ainda não foi desta.
 
Continuo republicano, mas... é muito difícil ser republicano num país de privilégios em que o apelido vale tanto. Naquela tarde foi especialmente difícil ser republicano, depois de comer tão bem em casa de monárquicos.
 
Carlos Guimarães Pinto

Autodeterminação, a pior herança do imperialismo?

por Jose Miguel Roque Martins, em 28.10.23

O conceito de autodeterminação ganha protagonismo, na Europa, a partir da década de 1860, foi consolidado por Woodrow Wilson em 1918 e mais tarde cristalizado na Carta das Nações Unidas.

Este princípio, definido por Wilson enquanto “os povos só podem agora ser dominados e governados pelo seu próprio consentimento”, foi a pedra angular que presidiu, pelo menos moralmente, ao processo de descolonização das potencias Europeias por esse mundo fora e suportou reivindicações de independência de muitos novos Estados desde o fim da primeira grande guerra. É, ainda hoje, um pilar fundamental do direito internacional.

Aparentemente um princípio á priori simples e adequado é de uma enorme complexidade filosófica e de difícil aplicação pratica. O conflito israelo-árabe é um, de muitos conflitos que orbitam á volta deste princípio, origem de soluções felizes, outras menos felizes, outras ainda não resolvidas e muitas ainda embrionarias. 

O conceito tem muito de Eurocêntrico, um continente com uma tradição de organização de Estados e nações antigas e consolidadas. Não é por isso surpreendente que os frutos da sua implementação, no desmembramento de Imperios Europeus multinacionais, tenha apresentado resultados razoavelmente bons. Noutros continentes,  em especial no Médio Oriente e em África, onde a organização social tradicionalmente prescindiu do Estado e se baseou em unidades sociais com pequenas populações, que ocupavam relativamente pequenos territórios, basicamente tribais, não tenha corrido bem. O pecado original começou nas fronteiras definidas por potencias coloniais que, de uma forma geral, não correspondiam a unidades sociais reconhecidas pelos próprios, mas a própria “transcendência” das noções de povo, de nação, de Estado, de comunidade alargada, têm provavelmente uma responsabilidade mais elevada nos problemas a que se assistem. 

O certo é que, com pequenas excepções, nem despontaram democracias, desenvolvimento económico interessante ou até de Estados fortes e plenos. Israel  (e a namibia) é o maior contra-exemplo de um destino  , para já menos promissor destas regiões para onde os Ocidentais exportaram conceitos alienígenas para outras regiões. As descolonizações, o fim dos mandatos, pelo menos como ocorreram, talvez tenham sido o pior do Imperialismo Europeu (e Americano).

Junto 3 mapas que procuram ilustrar sucessivamente o rendimento, a força (qualidade) do Estado e democracias plenas, de 3 fontes e que parecem validar a “tese” apresentada.

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Contra touradas

por henrique pereira dos santos, em 28.10.23

Há muitos anos, a minha prima direita e madrinha, de quem eu gostava muito, pediu-me para fazer um parecer, do ponto de vista de conservação da natureza, sobre uma mini-hídrica a que se opunha uma colega e amiga (eram as duas professoras primárias em aldeias não muito distantes) que era presidente de junta de uma freguesia vizinha da sua.

Nesssa altura eu não estaria no ICN, portanto não havia qualquer conflito de interesses, e aceitei fazer esse trabalho pro bono (não só era a minha madrinha que me pedia, como eu era, e sou, um grande fã de Isabel Silvestre, a tal presidente de junta de freguesia que toda a gente conhece das cantorias), levei comigo uma ou duas pessoas que sabiam de questões específicas que me pareciam ser as mais relevantes, e fizemos uma avaliação do troço de rio relevante, produzindo um relatório que não terá agradado especialmente a quem se opunha à mini-hídrica.

No essencial, o relatório diria que o rio era muito interessante (e ainda é), como a generalidade dos rios de montanha naquelas circunstâncias, tinha valores de conservação interessantes, a mini-hídrica afectaria um dos troços do rio, artificializando-o, mas nada de essencial, do ponto de vista de conservação ficava em causa.

Pessoalmente preferia o rio sem a mini-hídrica mas, do ponto de vista de conservação, a decisão de a fazer, ou não, era livre, no sentido em que não havia nada de suficientemente relevante, do ponto de vista de conservação, que permitisse contestar juridica e administrativamente a decisão, havendo vantagens e desvantagens sociais associadas a qualquer das decisões.

Já estive envolvido em dezenas de processos deste tipo, em que toda a gente está de acordo, em tese, com uma ideia, mas depois há grupos sociais concretos à volta de cada projecto que lutam contra a materialização dessa ideia, de cada vez que há um projecto definido para a materializar (acontece muito nas energias renováveis, por exemplo, como se pode ver no recente caso do abate de sobreiros em Morgavel).

Lembrei-me desta história antiga quando vi, nestes últimos dias, umas notícias sobre o facto do Fundo Ambiental, aparentemente, ir financiar a compra, por uma autarquia, de um terreno de que um grupo de gente gosta para ver aves, razão pela qual não o queria ver ocupado por uma grande superfície comercial, no concelho de Lagoa.

Em vez de pedirem um parecer técnico, como Isabel Silvestre, ou de se juntarem num crowdfunding para comprar o terreno, partiram rapidamente para a contestação social da decisão camarária de aprovar a grande superfície no terreno, empolando a importância do sítio para a conservação da natureza.

Não conheço o processo em particular, não conheço o sítio, mas olhando para as fotografias, aquilo parece-me uma extracção de barro abandonada ou, na descrição de quem conhece melhor o assunto (a quem perguntei se realmente a área tinha mesmo interesse de conservação relevante) "O local fica na bacia sedimentar da lagoa miocenica que dá o nome à localidade. Entre a construção das vias e das zonas comerciais envolventes, ficou ali um buraco cheio de entulho. Como o freático está logo ali forma uma depressão que originou uma pequena zona húmida".

Como é frequente quando existem actores sociais relevantes (no caso, uma comunidade estrangeira relevante e uns movimentos ambientais que estão sempre contra qualquer alteração de paisagem, com forte ligação a uma imprensa militante), rapidamente se descobrem valores naturais de que ninguém suspeitava.

No caso, parece que aquilo que era inicialmente um zona interessante de observação de aves (como acontece a qualquer zona húmida naquela região, mesmo à ilharga da sede do concelho de Lagoa e retalhada por estradas e construções de todo o lado), passou a ser o paraíso de uma plantinha (Damasonium bourgaei) que está classificada no recente livro vermelho das plantas como em perigo.

Está classificada como em perigo porque se considerou que só existe em dois locais, só que este é um terceiro local, em que a planta abunda, e em vez de se concluir que, se calhar, a plantinha não está nada em perigo porque existem mais localizações  e com uma população abundante (e, provavelmente, mais haveria se se olhasse mais para o chão e menos para as aves ou os ecráns), conclui-se que é fundamental para a conservação da espécie salvaguardar uma população que antes não se conhecia e que existe num sítio em que foram artificialmente criadas condições favoráveis à sua presença.

Até aqui, são as touradas do costume com que as ONGs se vão entretendo, sem qualquer visão estratégica estruturada sobre políticas de conservação.

Como entretanto a Câmara se dispôs a resolver o assunto, mas o promotor da grande superfície, legitimamente, só altera as suas opções através da venda do terreno a preços de mercado, e a Câmara diz que é muito dinheiro, formou-se uma coligação entre autarquia e ONGs para ir sacar dinheiro ao saco azul do Ministério do Ambiente, o Fundo Ambiental.

Como aquilo é gerido discricionariamente pelo Ministro, é fácil, se o Ministro quiser (e normalmente quer quando avalia como relevante os custos políticos de dizer que não), o Fundo paga.

Ninguém, nem ONGs, nem Câmara, nem Ministro ou Fundo Ambiental perde um minuto a discutir custos de oportunidade, o mesmo Ministro e Fundo Ambiental que raramente dedicam dinheiro a financiar conservação da natureza pela sociedade (gastam algum a financiar o Estado, através do ICNF, mas financiar o Estado e financiar a biodiversidade são dois conjuntos cuja intersecção não será um conjunto vazio, mas é seguramente um conjunto mínimo), de repente saca facilmente de uns milhares para ajudar uma autarquia a comprar um terreno que valorizou com a autorização de uma operação urbanística contestada por grupos sociais com poder mediático.

A probabilidade desses milhares de euros que vão ser alagados para branquear a falta de políticas de conservação resultarem em alguma coisa de útil para a conservação, é mínima.

A probabilidade de haver dezenas de outro usos alternativos para esse dinheiro com maior retorno de conservação, é estratosférica.

E é por ser contra estas touradas, que resultam de um péssimo desenho institucional na alocação dos recursos para a conservação da natureza, que resolvi escrever este post.

O que se passa?

por Jose Miguel Roque Martins, em 27.10.23

O governo anunciou que iria permitir que a actualização das rendas se fizesse de acordo com a lei ( e o justo), o que é surpreendente e maioritariamente impopular.

Ao mesmo tempo, continua a insistir no agravamento sem precedentes do IUC, para carros anteriores a 2007, um imposto que penaliza os mais pobres e é claramente impopular.

O que se passa?

 

Vingança e Defesa, Historia e Presente, Responsabilidade.

por Jose Miguel Roque Martins, em 26.10.23

Vingança é punir com o único objectivo de retaliar um agravo ofensa (ou pior). A situação em Israel tem levado muitos comentadores no espaço publico ou nas redes sociais, a criticar a guerra de vingança de Israel.

Enquanto isso, imaginemos qualquer pais que tenha sido alvo de uma invasão temporária por parte de uma organização terrorista. Pode não retaliar, por incapacidade ou, apesar de ter meios, nada fazer por opção, por grandeza moral, desejo de expiação ou outro qualquer motivo.

É exactamente não retaliar que propõe demasiados defensores da causa palestiniana, ligando a resposta de Israel a uma vingança gratuita, onde muitos inocentes irão sofrer a morte e muitos mais, pelo menos, graves prejuízos. Não é vingança responder com força, desde que o sentimento que presida á acção  tenha outra intenção, como por exemplo, autodefesa. Alguns Israelitas desejarão vingança, mas um estado democrático como Israel não age por impulso e sem razões, quando a sua sobrevivencia está em jogo. Não parece que Israel, depois da acção que sofreu e dos bombardeamentos que continua a sofrer, precise de justificar o que é evidente: tem que se defender. O primeiro pensamento que me ocorreu, como a reacção certa por Israel, seria o de erguer um muro intransponível: exactamente o que já tinha sido feito restando, mesmo assim, os rockets e os túneis. Tenho a sorte de nada ter que decidir sobre uma reacção adequada, já que não parecessem existir boas alternativas, mas quem calçar sapatos israelitas, tem que considerar que se tem que fazer alguma coisa.

Outros, lembram que a resposta do Hamas não nasce do nada, que há razões históricas para a explicar. O que nada acrescenta, nem á questão de facto (alguém responder a uma agressão) nem justifica o que quer que seja: todos podem reivindicar agravos passados, ninguém pode cometer barbáries para o justificar.

Todos lamentam as vitimas inocentes  palestinianas ( embora alguns não consideram as Israelitas), embora considere que o Hamas, não só contava com elas mas as consideravam um sucedâneo indispensável ao seu sinistro plano. Pode perceber-se que, com muito menos forças, o Hamas se esconda entre a população. O que leva a perceber que os Israelitas não poderão deixar de fazer vitimas civis e inocentes para confrontar o Hamas. O verdadeiro responsável pela situação que se vive hoje é incontestavelmente do Hamas, não a história, não os diabólicos sionistas, não os custos de contexto, não o mundo Ocidental nem o imperialismo americano.

Sobre as vítimas

por henrique pereira dos santos, em 26.10.23

É mais ou menos consensual a ideia de que dizer, no actual contexto, que um acto terrorista não surgiu do nada, é manifestamente desadequado e só pode ser intrepretado como foi, quer pelos que criticaram a afirmação, como Israel, quer pelos que estão de acordo com a afirmação, no contexto em que foi feita, como o Irão.

Há, no entanto, outra ideia, que também está presente nesse discurso, que merece atenção, a ideia de que por mais atroz que tenha sido o ataque do Hamas, nada, nem isso, justifica uma punição colectiva dos palestinianos.

E merece atenção porque, à partida, muita gente subscreve a ideia de que não faz sentido haver punições colectivas atribuindo a grupos sociais maiores o que na verdade é da responsabilidade de pessoas concretas ou de organizações concretas.

Tinha começado por escrever que toda a gente subscreve a ideia da ilegitimidade da culpa colectiva, mas alterei por me ter lembrado das intensas campanhas dos neo-racistas, pretendendo imputar ao homem branco actual a responsabilidade por actos praticados por outros homens brancos há dezenas de anos atrás. E lembrei-me das desculpas variadas que agora é moda responsáveis políticos ocidentais apresentarem pela história dos seus povos (essa moda diz respeito a apenas alguns assuntos, nunca vi ninguém questionar o secretário-geral do partido comunista português sobre se tenciona apresentar desculpas aos descendentes das vítimas dos comunismo).

Voltando à punição do povo palestiniano, vale a pena discutir o que verdadeiramente está implíticito nessa ideia.

Comecemos pelo que é evidente e claro: a maioria das vítimas do conflito na Palestina são as pessoas comuns que, ou nos territórios palestinianos, ou nos países que os receberam como refugiados, estão limitados, quando não mesmo impedidos, de fazer escolhas, de ter a vida que decidirem ter.

O segundo ponto de partida é que em situações como a actual, o número de vítimas é maior e as provações que sofrem bem mais intensas, não faz o menor sentido negar a emergência humanitária que resulta do ataque do Hamas, seguido da resposta de Israel.

Questão diferente, e muito relevante, é a de saber se Israel está a responder militarmente a uma ameaça, tendo danos humanitários colaterais, ou se está a punir colectivamente os palestinianos, como pretende Guterres e muita gente com ele.

Dito que outra forma, os danos reais e observáveis sobre civis e as principais vítimas existem, mas não é indiferente serem o resultado pretendido por Israel ou serem um dano colateral de uma estratégia de defesa de Israel.

Bem sei que para quem morre, é irrelevante saber se a bala lhe era dirigida ou se lhe entrou na cabeça por engano, mas para os outros, para nós quase todos, essa distinção é fundamental e está bem caracterizada no processo judicial: não é indiferente, na aplicação da pena, eu matar o meu vizinho porque não gosto dele ou porque caiu da escadas abaixo por ter tropeçado em mim.

Ora, tanto quanto me parece, não há nada, absolutamente nada, na actuação de Israel, que permita pensar que o objectivo de Israel é punir os palestinianos colectivamente, e não neutralizar o Hamas (independentemente de haver sempre israelitas que quererão erradicar os árabes do mundo).

Dir-se-á que aconselhar as pessoas a dirigir-se para o Sul de Gaza, onde as condições de sobrevivência são precárias, é desumano.

Eu acho que desumano é o apelo do Hamas para que as pessoas não saiam de onde estão.

Dir-se-á que bombardear objectivos militares na zona Sul de Gaza é desumano.

Eu acho que desumano é o Hamas manter a sua estrutura militar embebida em contextos civis.

Dir-se-á que privar Gaza de alimentos, água, energia e medicamentos é desumano.

Eu diria que desumano é o Hamas manter a operacionalidade da sua estrutura militar parasitando a ajuda internacional às vítimas.

E poderia continuar por aqui fora, que na verdade estaria sempre a fazer a mesma pergunta: para além da cristianíssima atitude de dar a outra face, o que pode Israel fazer perante uma força militar que faz da sua população escudo para a sua actividade, quer para proteger essa estrutura militar, quer para poder usar qualquer acidente contra Israel, como fez no caso do hospital, fará com certeza nos inúmeros erros no lançamento de rockets (serão já centenas os rockets palestinianos que caíram na faixa de Gaza por engano, o do hospital foi o mais grave e mais mediatizado, mas há centenas de outros, provavelmente sem consequências na maioria, mas cujos efeitos serão sempre, sempre atribuídos aos bombardeamentos israelitas)?

Pode, na opinião das agências da ONU no terreno, e pelos vistos na opinião do seu secretário-geral, estabelecer um cessar-fogo para proteger as principais vítimas, mesmo que isso signifique o reforço, reorganização e reabastecimento do Hamas (que a ONU continua a recusar classificar como um grupo terrorista).

Compreendo que sendo essa a alternativa, Israel não esteja interessado nela, não porque queira punir colectivamente os palestinianos, mas porque não vê como possa combater eficazmente o Hamas sem ter danos colaterais em vítimas inocentes (cuja dimensão não sabemos, os números que existem, mesmo os veiculados pelas Nações Unidas, têm como única fonte o Hamas, o mesmo que disse o que disse sobre o erro do bombardeamento do hospital, que rapidamente foi adoptado pelas agências da ONU como uma descrição factual do que tinha acontecido, até que as enormes incongruências da história tornassem impossível subscrever a propaganda do Hamas).

E, mais ainda, compreendo os israelitas que se mandam ao ar com todo este charivari sobre a actuação de Israel (que, com certeza, terá erros, abusos, etc.) que é simultâneo com o silêncio sobre a inacreditável política de financiamento, apoio, organização e armamente do terrorismo seguido pelo Estado iraniano.

Sim, as pessoas comuns da Palestina são as principais vítimas disto tudo, mas, neste momento, o principal agressor é o Irão, não é Israel.

Não somos um bom ecossistema para criar riqueza

por Miguel A. Baptista, em 25.10.23

De acordo com a Forbes, segundo os dados publicados hoje, os cinco mais ricos de Portugal não são "pessoas", são "famílias". Tal não acontecerá em quase nenhum lugar do mundo. 

Se formos à lista da Forbes internacional verificamos que os catorze lugares cimeiros estão ocupados por pessoas que "criaram" riqueza inovando. A lista é liderada por Elon Musk que todos sabemos o que fez em prol da mobilidade elétrica. Em Espanha sabemos o que fez Amancio Ortega, da Zara em prol da democratização da moda, e em França sabemos como Bernard Arnault criou o maior conglomerado de produtos de luxo. 

Em Portugal, quem lidera a lista não se caracteriza por ter criado algo de especial, mas por ter herdado algo de especial. Obviamente eu não quero atacar, ou culpabilizar, quem herdou. Até porque muitos dos que herdaram terão tido o mérito de gerir bem a herança e, eventualmente, até a ter multiplicado. 

O que eu digo é que Portugal é um ecossistema extremamente adverso à criação de riqueza. O facto de não haver por cá "big ideas" capazes de criar riqueza substancial deveria levar a interrogar-nos. O facto de não haver empresas novas a entrar em bolsa, ou o nosso índice bolsista já não se chamar PSI20, por não existirem por cá vinte empresas cotadas com liquidez e dimensão, deveria fazer acender um conjunto de luzes encarnadas. 

Ao contrário do que nos vendem, em termos de empreendedorismo, criação de riqueza e ambiente de negócios em geral, Portugal não é um ecossistema vibrante. Antes pelo contrário, por cá cultiva-se a mediocridade, a pequenez e a inveja. 

E o que é preocupante é que não fazemos nada para nos corrigir, gostamos de ser assim. 

O genocídio do povo palestiniano

por henrique pereira dos santos, em 25.10.23

Farto de ouvir gente, que deveria ser responsável, falar no genocídio ("Genocídio é o extermínio deliberado de um povo - normalmente definido por diferenças étnicas, nacionais, raciais, religiosas e, por vezes, sociopolíticas (ver: engenharia social) - no total ou em parte.") do povo palestiniano, resolvi ir aqui e fazer um boneco com os dados (escolhi as estimativas da ONU)

palest.jpg

Mais grossa e a cor de laranja está a linha da evolução da população dos territórios palestinianos, ligada à escala da esquerda, em milhares de pessoas.

A amarelo está a evolução da esperança média de vida nesses territórios, e a cinzento a taxa de mortalidade, ligadas à escala da direita, em anos (x10, por razões que desconheço o boneco está ligeiramente cortado no lado direito, escondendo os zeros que estão no boneco original), no caso da esperança média de vida, em permilagem, no caso da taxa de mortalidade.

TAP: boas noticias, más noticias

por Jose Miguel Roque Martins, em 25.10.23

A TAP registou um resultado positivo histórico nos primeiros meses de 2023 de mais de 200 milhões de Euros.

Tudo leva a acreditar que o plano de recuperação e a sua implementação estão a ser um êxito. É por isso importante privatizar a TAP o quanto antes e agora, a melhor preço.

Há exemplos de gestão de sucesso no universo publico, como a CGD sob a actual liderança, depois da injecção de 4 mil milhões de Euros. Acontece, mas a norma é a bons períodos sucederem péssimos desempenhos que tornam a gestão publica esmagadoramente negativa: é a história recorrente em Portugal e em todos os Países. Há explicações teóricas que explicam este fenómeno, mas, mais importante, há um histórico consolidado que não engana. Não importa. Tomar a nuvem por Juno, o circunstancial pelo geral  é especialidade da turba de demagogos que apenas procuram justificar as suas convicções.  

Com tão boas notícias, receio más notícias. Só uma alergia á TAP que o Sr Costa deveria sentir, nos pode salvar.

Preço e valor

por henrique pereira dos santos, em 25.10.23

Os meus últimos posts sobre o mundo rural geraram dois comentários a que achei que valia a pena dar atenção.

O primeiro diz respeito a uma afirmação minha sobre os preços baixos dos alimentos e fibras produzidas, que considero uma imposição dos consumidores urbanos, dando origem a um mercado europeu (mas não só) de produtos alimentares e fibras altamente condicionado por decisões administrativas, relacionadas quer com regulamentação sobre a forma de produzir, quer com condicionamentos de preço fortes e continuados.

O mercado muito iliberal, resumindo.

Insurgia-se o comentador dizendo que não era verdade, exemplificando com o azeite que, na sua opinião, está muito caro.

Vamos saltar por cima do valor conjuntural dessa afirmação (um mau ano de produção não chega para caracterizar um sector) e reparar na definição de "caro" usada pelo comentador: uma coisa cara é uma coisa que tem um preço acima do que podemos pagar com o nosso ordenado.

Esta afirmação é muito interessante porque enfatiza um facto: um preço é alto ou baixo em função das circunstâncias de cada potencial consumidor.

Fiz notar que essa não era a definição de caro ou barato para o produtor, para o produtor uma produção está barata quando remunera mal (ou não remunera) a sua produção.

O preço é o mecanismo que as sociedades inventaram para fazer o encontro entra o valor que cada comprador atribui a um bem ou serviço e o valor que o seu vendedor lhe atribui e parece ser, ainda hoje, o mais eficiente mecanismo de produção de informação que as sociedades têm para fazer uma alocação eficiente de recursos.

O comentador foi mais longe na ilustração da ideia: até era dono de olivais, mas não apanhava a azeitona porque o tempo não dava para tudo, numa demonstração de que o preço do azeite está baixo para produtores que não optimizam a eficiência da produção, mesmo que, enquanto consumidores, achem o preço do azeite muito alto.

Note-se que a pessoa em causa é dona de olivais que não vende - com certeza porque o preço pago pelos potenciais compradores não chega para equivaler o valor que o vendedor atribui aos olivais, que pode não ter como base nenhuma racionalidade económica, se excluirmos da racionalidade económica os valores emocionais - mas cuja produção não aproveita porque o valor do seu tempo não é compatível com o produto que resultaria do tempo que era consumido nessa tarefa.

Do ponto de vista social, o que estamos a fazer é esmagar o preço no consumidor para o azeite corrente, ao mesmo tempo que o deixamos livre para azeites de nicho.

Os produtores reagem a estes estímulos, racionalmente, de três formas distintas:

1) Investem o mais que podem na eficiência da produção para que o custo da produção seja compatível com os preços artificialmente baixos que a regulamentação e os apoios agrícolas potenciam;

2) Optam por produções de nicho, isto é, concorrem pela diferenciação e não pelo preço, o que os obriga a ser excelentes vendedores, mesmo antes de serem produtores eficientes;

3) Abandonam a gestão, ou dedicam-se a uma gestão de lazer e paz de espírito, com consequências sociais negativas quanto à eficiência da produção de azeitona e azeite, à gestão do fogo, à criação de emprego, etc. mas provavelmente positivas quanto à conservação da biodiversidade, ao bem estar do produtor e à velocidade de regeneração do solo, por exemplo.

E isto leva-me ao segundo comentário, o de um agricultor biológico que achou que eu o estava a acusar de ser uma moda urbana, dizendo que "O autor do artigo aponta e bem que as remunerações são baixas mas depois acusa-me de por fazer isso já sou um "nicho urbano da moda"".

Confesso que fiquei bastante espantado com esta leitura do que eu tinha escrito mas, pensando bem, é bem possível que resulte de uma das características que mais frequentemente tenho encontrado nos produtores de alimentos e fibras, quer nos que trabalham para concorrer no mercado com base no preço, quer nos que trabalham para concorrer no mercado com base na diferenciação: a sensação de estarem permanentemente sitiados por circunstâncias adversas de que têm de se defender permanentemente.

Absolutamente nada nos meus textos permite ler acusações a produtores que escolhem produzir assim ou assado (pelo menos eu não consigo ler isso no que escrevo), a definição de preço é a que resulta do encontro entre vendedores e compradores, e os dois podem ter ficado insatisfeitos com a transação, mas a definição de valor é feita por cada um de nós em cada momento, portanto não me passaria pela cabeça acusar ou criticar alguém pela definição de valor que se escolheu para base da sua vida e da sua actividade profissional.

O que sinto é que é relativamente raro encontrar um produtor com uma atitude de orgulho e auto-confiança no que faz, que seja feliz a dizer que faço isto porque gosto e me sinto útil, e sou tão bom naquilo que faço que consigo ter um retorno - económico e não económico - catita, mais que suficiente para ter uma vida boa, portanto, não vale a pena queixar-me das circunstâncias.

É difícil ser produtor de alimentos e fibras, é frequente uma certa atitude de vítima das circunstâncias porque há muito de verdade nesse estatuto de vítima, sobretudo quando o ideal seria ter Sol na eira e chuva no nabal, ideal que corresponde a uma utopia.

Se se confundir essa utopia com a realidade possível, é natural que se acabe a protestar com todas as circunstâncias adversas que, dia após dia, impedem a materialização dessa utopia.

No fundo talvez seja o mesmo tipo de confusão entre preço e valor que todos nós estamos sempre a fazer, quer queiramos, quer não.

Socialismo e choldra na saúde

por José Mendonça da Cruz, em 24.10.23

Há caos na saúde? Os doentes sabem que sim. O director executivo do SNS confirma que sim. O governo acha que não. Os crentes na imortalidade do corpo humano devem, portanto, votar socialista.

O primeiro-ministro António Costa vislumbra dois problemas: o que resulta da ignorância dos «utentes» (por assim dizer) que, apenas por não disporem nem de médico de família, nem de centros de saúde operacionais, se precipitam irresponsavelmente para as urgências quando se sentem mal; e o que resulta de a realidade ultrapassar os anúncios das maravilhas que o governo se propõe fazer, ou seja, a propaganda. Os crentes do masoquismo e da propaganda devem, portanto, votar socialista.

O director executivo do SNS, Fernando Araújo, que esperou um ano pelos estatutos, acordou para dizer que em termos de saúde pública e SNS «Novembro vai ser dramático. Não tenho dúvida». O novo organismo da nova organização socialista para a saúde põe o primeiro tijolo da sua obra: uma confissão de impotência. E como impotente remédio garante que a irresponsabilidade dos «utentes» (por assim dizer) será atalhada. Não será atendido nas urgências quem não esteja «referenciado» pelo SNS24 ou por um médico, ou seja, só serão atendidas as urgências prévia e devidamente analisadas. Os crentes nas virtudes da bandalheira devem, portanto, votar em mais tijolos de parte da nova organização socialista para a saúde.

Preocupante? O governo pensa que não. Hoje, numa reunião sobre saúde, em que o ministro esteve ausente, foi à secretária de Estado que (segundo a Sic, numa daquelas suas frases que balança entre a reverência e a ironia)  «coube mostrar que o governo está menos assustado do que o CEO para a saúde». Como é que a tal secretária mostrou? Assim (sic): «Temos a expectativa de que vamos conseguir como sempre organizar da melhor forma possível e abrir aquilo que for possível em termos de cuidados para responder às necessidade e de acompanhar...» (discurso cortado). Os crentes em que o governo consegue «como sempre», só «o que for possível», mas «da melhor forma possível» devem votar nas «possibilidades» e nas «expectativas».

Entretanto, Marcelo critica dois dos diplomas do governo para a saúde, relembra as críticas dos médicos e depois promulga. Os crentes que votaram Marcelo já não precisam de votar mais em Marcelo,

Se não queres pagar IUC, compra um elétrico

por Jose Miguel Roque Martins, em 24.10.23

A rabula “Se não têm pão, comprem brioches” foi finalmente ultrapassada neste maravilhoso novo mundo dos automóveis eléctricos e realistas politicos brilhantes. Os estúpidos dos pobrezinhos, têm que perceber de uma vez por todas, que não podem fazer birra, não comprar carros eléctricos, andar em carros velhos, poluir á brava e não sofrerem as consequências. Os burros, como eu, julgavam que atacar os contribuintes mais frágeis, mas que por milagre ainda têm uma carripana, seria impopular, mas devem estar enganados. Costa e Medina ou têm um plano, ou perderam completamente a noção ou então já estão por tudo e deixaram-se de fazer cálculos.

Só um país de mansos os pode salvar. Aos outros, não parece haver salvação possível.

 

 

 

A propósito do momento

por henrique pereira dos santos, em 24.10.23

Ao ler um artigo sobre a guerra na Palestina, lembrei-me desta música de Frank Zappa:

Em 1979, quando o disco foi lançado (o disco mais vendido de Zappa, que os puristas fanáticos de Zappa desdenham), já havia guerra na Palestina.

Esta música foi, naturalmente, criticada por organizações judias (outras músicas deste disco foram inclusivamente proibidas nas rádios americanas, como o fabuloso Bobby Brown), e Zappa negou-se a pedir desculpas pelo que quer que seja, apesar da letra evidentemente ofensiva, como geralmente são os textos que retratam estereótipos.

E pronto, o assunto morreu, depois de umas discussões (veja-se este vídeo de um debate em que Zappa, lucidamente, traça uma linha divisória clara entre palavras e actos, que hoje pareceria uma argumentação de alguém caído de Marte), não tendo eu ideia de que grandes campanhas para cancelar Zappa (sempre foi bastante contestado, mas isso é o normal de quem decide viver na margem).

Por vezes pergunto-me se não decidimos ir por atalhos, quando achámos que a realidade se alterava por mudarmos a linguagem, por contraposição à ideia clássica de que a linguagem retrata a realidade, não a define.

É que, aparentemente, a única realidade que muda quando se define o que se pode e não pode dizer é a que diz respeito à liberdade de expressão.

É pena que só a rotura traga soluções.

por Jose Miguel Roque Martins, em 24.10.23

O mais elementar bom senso exigia-o. A OCDE e a Comissão Europeia pediam-no. O PS, finalmente, depois de décadas perdidas, finalmente parece querer impô-lo: que não sejam os médicos a definir as vagas em medicina. Os médicos reagem e o ministro da saúde desculpa-se.

Tenho vários amigos médicos. Nenhum assume a falta de médicos, os problemas são outros, entre os quais a impossibilidade de formar mais médicos de qualidade (?). Certo é que as pessoas comuns não têm acesso a médicos nem estes parecem estar a descansar.

É mais um episódio na luta por rendas excessivas que todos os grupos socioprofissionais tentam e quase todos conseguem. Neste caso pelos médicos, que durante décadas até fizeram serviço publico. 

O “equilíbrio”, durante anos, foi conseguido: o SNS fazia de contas que pagava aos médicos que, com consultórios, iam buscar em “horas extraordinárias” o que não ganhavam. Com a saúde privada, os seguros e as convenções, os médicos já não  podem abdicar de um salário condigno, o Estado não pode subsidiar-se nos privados (que pagavam consultas avultadas), mas não está preparado para pagar ordenados de mercado, numa disputa por poucos profissionais.

Finalmente um pouco de racionalidade: que tal deixar o mercado, daqui a uma década, regular-se um pouco? Só um pouco?

É pena que só a rotura traga soluções.

Da invisibilidade do mundo rural

por henrique pereira dos santos, em 23.10.23

No último post que escrevi falava no mundo rural.

Na verdade, utilizar o conceito de mundo rural é entrar num mundo de enganos.

No post anterior falei apenas dos enganos que dizem respeito à diferença entre o mundo rural concreto e o mundo rural idealizado pela esmagadora maioria das pessoas.

Agora gostaria mesmo de falar da ideia de mundo rural, como oposição ao mundo urbano.

Os tecnocratas, avisadamente, vão escolhendo usar jargão técnico - territórios de baixa densidade - para fugir ao caos de significados que a expressão "mundo rural" desencadeia.

A ideia de urbano e rural tem uma base histórica relativamente simples: havia os que produziam alimentos e fibras, espalhados pelo mundo em função do potencial produtivo das paisagens, e havia os que viviam de uso posterior desses alimentos e fibras, prestando serviços de segurança, justiça, comércio e troca de informação, concentrando-se em aglomerações de pessoas que potenciavam as trocas sociais de que viviam.

Uns tinham uma cultura rural associada à produção de alimentos e fibras, de maneira geral vincadamente local e regional, outros tinham uma cultura urbana, associada a relações sociais mais complexas e diversas, de maneira geral mais cosmopolitas.

O mundo que criou estas diferenças de cultura desapareceu, e onde facilmente havia 60% ou 70% da população dedicada a actividades produtivas autónomas no sector primário, há hoje menos de 5%, como em Portugal.

Para usar um exemplo onde essas contas são relativamente fáceis de fazer, na fileira do eucalipto, nas empresas mais eficientes a produzir rolaria de eucalipto - as empresas de celulose - há verticalização económica de tal forma que estas empresas que produzem rolaria de eucalipto produzem também pasta e, a maior delas, em Portugal, produz ainda papel.

O essencial para que queria chamar a atenção é que por cada unidade de valor produzida na exploração florestal, há umas nove unidades de valor na sua transformação em pasta e outras nove unidades de valor na produção de papel, o que quer dizer que, para o accionista, a produção florestal só interessa na medida em que garante o abastecimento das fábricas, visto que, no conjunto da empresa, o que se ganha na produção florestal são trocos, quando comparado com o que se ganha na transformação industrial.

E isso é verdade para quase toda a produção actual de alimentos e fibras.

O que ganha o produtor de leite em relação ao café que vende meias de leite, ao supermercado que vende pacotes de leite, ao industrial que produz manteiga, queijo e natas, ao restaurante que vende sericaia, etc., é mínimo.

Não admira por isso que uma das principais fontes financeiras desses "territórios de baixa densidade" seja a Segurança Social, e não a produção autónoma de riqueza.

E se, por qualquer razão, o preço dos alimentos sobe qualquer coisa, logo o Estado alinha com os consumidores (esmagadoramente urbanos) contra os produtores, para que seja impossível ficar milionário a produzir leite: a sociedade considera normal a venda de software para as máquinas de ordenha com margens alargadas, mas imoral a venda de alimentos com margens confortáveis para os produtores, com excepção dos produtos de nicho.

O resultado é muito claro nos programas das televisões que enchem os horários de Domingo à tarde, aqueles em que equipas de produção viajam de terra em terra, a mostrar exotismos, peças de museu, corruptelas de etnografia e restaurantes de fine dinning que resconstroem tradições: mesmo no país mais "rural", as culturas urbanas são esmagadoramente dominantes.

Os que hoje produzem e vivem da produção primária só têm espaço na comunicação de massas se produzirem para nichos urbanos da moda, ou se forem o alvo de indignações várias: contra a produção intensiva de milho, contra o regadio, contra o olival intensivo, contra a produção de leite, contra a amêndoa regada, contra o abacate, contra o eucalipto, contra tudo o que seja verdadeira criação de riqueza através da produção primária em larga escala.

Para a esmagadora maioria de nós, o olival tradicional é fantástico e tem estado a ser substituído por olival intensivo por causa da ganância dos produtores agrícolas, não porque nós exigimos preços baixos que só são possíveis com formas de produção muito eficientes.

A inacreditável confusão sobre um corte de madeira na serra da Lousã oferece uma visão condensada do assunto.

Uma empresa madeireira está a cortar madeira e uma empresa de turismo não está de acordo. Há um litígio entre as duas por questões de propriedade (um problema velho como o mundo, sempre muito presente no mundo rural clássico, só ultrapassado, em importância, pelos litígios decorrentes do uso da água).

Inevitavelmente, a câmara da Lousã alinha imediatamente pelo turismo contra o corte de árvores - note-se, não é o corte de uma mata reliquial como a Margaraça, é mesmo o corte de pinheiros que foram plantados ao fim de uns anos, numa operação perfeitamente banal de produção de madeira - o que se compreende facilmente: os eleitores do munícípio da Lousã não vivem, na sua maioria, da produção primária, têm vidas completamente urbanas nas quais a oposição ao corte das árvores é um valor muito mais presente que a a actividade florestal produtora de  riqueza que, evidentemente, implica cortes de árvores periodicamente.

De resto, estes eleitores acreditam muito mais no turismo como fonte de riqueza que na produção primária.

A empresa de turismo, que se apresenta como uma empresa de regeneração de paisagens, ligada à permacultura e outras fantasias new age, sabe que uma disputa sobre a propriedade da madeira não interessa a ninguém, de maneira que usa ideias românticas de conservação da natureza, restauro de paisagem, e pseudo-ciência de gestão de recursos naturais para chegar ao espaço mediático e arregimentar apoios (e, já agora, notoriedade para o seu negócio).

Jornalistas, associações de defesa do ambiente, personalidades, etc., todos eles com vidas e culturas urbanas (como a minha), mordem rapidamente o isco e desatam a repetir inanidades sobre figuras de protecção dos recursos, da directiva Habitats à Reserva Ecológica Nacional, mais os malefícios dos cortes rasos, e a erosão, e as cheias e o diabo a quatro, tudo matérias sem qualquer relação relevante com o que está em causa: a opção pela produção primária e a criação de riqueza através na normal exploração florestal, em detrimento da opção por vender camas turísticas à boleia da ideia de regeneração da paisagem.

O mundo rural, aquele que vive da produção primária, é hoje ultra-minoritário, mesmo dentro dos concelhos a que chamamos rurais.

E a verdade é que esse mundo, o mundo da produção primária, não tem representação política nem voz socialmente audível, apesar de ser representado por muitas organizações, tão urbanas como o resto de nós, que centram a sua actividade na maximização da fatia de apoios públicos a que podem aceder, legitimamente, não representando uma forma de vida que hoje é socialmente invísivel, excepto como saco de pancada.

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O último Imperador austro-húngaro permanece enquanto símbolo remanescente da ordem tradicional na Europa, aquela ainda resistente à revolução francesa e sucumbida com a grande guerra, "o suicídio da Europa civilizada", como lapidarmente referira o Santo Padre Bento XV, apóstolo da paz, a quem o Imperador Carlos dedicava especial atenção. Como rei católico servia lealmente o juramento e sentia o pesado peso da coroa de Santo Estêvão como missão apostólica para com o império ameaçado. A monarquia é um dever sagrado destinado a prover a salvaguarda do povo. Essa vocação podia ser comprovada nas atitudes para com os mais humildes, no amor ao próximo e no sacrifício para com os desfavorecidos, a missão de Cristo era no Imperador o corolário de todas as virtudes. Aliás era casado com a Princesa Zita de Bourbon, neta do nosso rei D.Miguel por via materna (a mãe era a Infanta D. Maria Antónia de Bragança).

Na dianteira dos acontecimentos, tudo fez para impedir que a grande hecatombe se prologasse, chegando a desenvolver conversações com o rei dos belgas (Alberto I) para alcançar uma proposta de paz com os aliados. Sabia que a salvaguarda da civilização europeia dependia da resistência do império, o delicado equilíbrio criado por Matternich aquando do Congresso de Viena e mantida por Bismarck, estava prestes a desabar, levando consigo a Áustria-Hungria e fazendo sucumbir os velhos tronos.

Dentro do seu pragmatismo concebia uma confederação de estados para acalmar os ânimos nacionalistas entre os povos do império. A visão do imperador Carlos era motivada pelas doutrinas sociais da Igreja. Influenciado por Leão XIII foi um monarca reformista que no império criou o primeiro ministério para assuntos sociais. Ardoroso pacifista e reconciliado aos prisioneiros políticos deu-lhes amnistia. O mesmo confessou: «Todo o meu empenho é sempre, em todas as coisas, conhecer o mais claramente possível e seguir a vontade de Deus, e isto da forma perfeita».

Não apenas devoto ao povo, mas também à família, inculcando nos filhos o mesmo sentido de responsabilidade, enfatizando neles a formação cristã e o amor ao próximo. Fundamentos tão necessários para reflectir, num tempo dominado pelo materialismo liberal, pela decadência na moral, pela dissolução dos vínculos antigos e na ameaça à antiga instituição da família.

O resultado final, logo com o desfecho da guerra, foi o afastamento do imperador. Acabou exilado. Da Suíça, partiu para Espanha e depois acabou em Portugal, na Madeira. Mas nunca desanimado, ao monarca bem podia aplicar as belas palavras do Salmo “O Senhor é o meu pastor, nada me faltará”, enquadrando tão bem o espírito coerente e integro daquele devoto, nada lhe faltou, mesmo nas alturas de maior miséria, mesmo nos momentos mais tenebrosos. Tal como o Apóstolo das Gentes, depois de uma vida grandiosa de luta e entusiasmo, bem poderia proferir: "Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé. Resta-me agora receber a coroa da justiça, que o Senhor, justo Juiz, me dará naquele dia, e não somente a mim, mas a todos aqueles que aguardam com amor a sua aparição.”

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