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Contradições 1 - Viva Christine!

por José Mendonça da Cruz, em 06.09.23

Eu sei que a indemnização que, segundo julgo, a ex-CEO da Tap vai receber do Estado português será paga também por mim.

Mas, que fazer? Depois de ver a Tap assaltada pela avidez socialista, depois de ver expulso um dos mais prolíficos e competentes empresários da aviação civil, depois de ver contratada, em aflição, uma modesta diretora de uma companhia aérea francesa que já faliu (apresentada com a fanfarra que os socialistas usam nas aflições, e os media ecoam vergadamente), depois da perda criminosa de valor provocada pelo governo Costa -- depois de tudo isto, eu torço por Christine e aplaudo o processo que instaurou ao Estado português (que de momento não é estado, é o PS), pela forma miserável como fez dela bode expiatório da guerrilha de incompetências socialistas.

Espero e torço pelo melhor, ou seja, o pior para o Estado socialista. Por uma vez pagarei com gosto, porque há corretivos que merecem o custo.

Com o rabo de fora

por José Mendonça da Cruz, em 06.09.23

Quando em vez de analisarem a crise profunda na habitação, a crise profunda na saúde, a crise profunda na economia, a crise profunda nos transportes, a crise profunda nos serviços públicos... quando em vez de abordarem esses temas principais os comentadores, as notícias e as vozes-off dos telejornais preferirem falar de uma «guerra política entre PR e PM», estão a dizer-nos que quem fala, comenta ou «noticia» é apenas um servente do governo.

Não é não

por henrique pereira dos santos, em 06.09.23

Há muitas maneiras de dizer não, a escolhida por alguns obstetras do Hospital de Santa Maria consistiu em ir embora.

A história é conhecida, há umas alterações na maternidade do Hospital de Santa Maria, há oposição e críticas públicas de parte dos médicos trabalhavam nesse serviço, incluindo as suas chefias, a administração do hospital decide demitir as chefias e manter as alterações, determinando que as equipas do serviço têm de se conformar com as suas decisões de gestão e há seis médicos que, passado algum tempo, pedem rescisão de contratos e vão à sua vida.

Nada disto é extraordinário, é o normal nas organizações e nas pessoas, os médicos vão para onde entenderem, a administração contrata novos médicos para substituir os que saem, ou adopta modelos de gestão mais eficientes em que são precisos menos médicos e a vida continua.

O problema é que não há muitos médicos para contratar (é extraordinária a bovinidade da comunicação social na divulgação dos números de lançamento de concursos para contratação que o governo vai fazendo, apesar de saber que o número de candidatos fica muito aquém das vagas disponíveis e que o número final de contratações fica ainda aquém dos candidatos aprovados) e os modelos de gestão do sistema de saúde parecem ter problemas de eficiência.

O senhor que agora parece que manda no SNS (não, não é o ministro, o outro) diz que vai fazer a maior reforma do SNS em 44 anos, mas não só já sou velho suficiente para ter visto centenas de reformas históricas, na opinião dos seus autores, que não passaram de fogo de vista ou, pior, foram mesmo executadas e deram asneira, como tenho dúvidas de que a reforma que vai ser feita, que consiste em baralhar e dar de novo, seja mais relevante que a que permitiu fazer PPP na saúde, cujos resultados toda a gente conhece.

E as minhas dúvidas prendem-se exactamente com o que disse acima: o SNS tem um problema no uso eficiente dos recursos (como praticamente toda a administração pública em Portugal) - o que talvez se resolva com reformas como considerar que as PPP, ou outro mecanismo de integração da gestão privada e de estímulo da melhoria da gestão pública que se queira inventar, são uma solução que deu bons resultados e deveria ser aprofundada - mas tem também um problema base de contratação de pessoas.

O senhor do SNS diz que esse é um problema transversal em todo o mundo, o que é verdade (parece que nos EUA o problema é menor porque pagam muito melhor aos profissionais de saúde que o resto do mundo), mas não é toda a verdade: é facílimo encontrar enfermeiros portugueses no Reino Unido, mas não é fácil encontrar enfermeiros ingleses em Portugal.

O que me interessa aqui é que, ao nível de cada pessoa, se as pessoas não se sentem bem (ou porque são mal pagas, ou porque as condições de trabalho são frustrantes, ou porque não estão para aturar chefias a quem não reconhecem autoridade para ocupar o lugar, ou porque não estão para aturar os efeitos de decisões de gestão que não compreendem, seja pelo que for), mudam-se, se tiverem alternativa.

O efeito de progressiva degradação das condições de trabalho e de vida, incluindo de representação política e qualidade institucional, que se tem vindo a verificar em Portugal, e que tem como principal problema fechar horizontes de futuro às pessoas (as pessoas mudam mais pelo que vêem do seu futuro que pelas condições concretas em que vivem hoje), tem dois efeitos negativos: muitos dos que podem, vão para outro lado, muitos dos que ficam, desistem de tentar contribuir para o futuro colectivo.

Incompetência é aprovar um programa Mais Habitação, porque se pode, não ponderando devidamente os efeitos que o processo de imposição do programa tem nas decisões individuais das pessoas comuns.

Cinismo político é voluntariamente escolher ministros incompetentes para que não se apercebam de que não são ministros de coisa nenhuma, mas apenas a guarda pretoriana de um indivíduo sem escrúpulos.

Cada quê no seu galho?

por José Mendonça da Cruz, em 05.09.23

«Cada macaco no seu galho», diz a velha frase. Eis como Costa vê a política nacional hoje: «Cada um no seu galho», recomenda ele: nuns galhos, os que falam, comentam, ou criticam; noutro, ele, a quem «compete fazer».

Que faz Costa, então?

Faz subir o número de funcionários acima dos máximos em que estava aquando do socorro da Troïka, com rapaziada amiga e imprestável a entrar para fazer nada, aos 3 e 4 por mês em vários serviços públicos.

Faz que esses mesmos serviços públicos façam do verbo «servir» uma farsa.

Faz subir estratosfericamente a dívida total de Estado, empresas e famílias.

Faz esbanjar inultilmente o Plano de Resiliência e Recuperação, faz que não se recupere nada e se fique exatamente como antes.

Faz o caos na saúde, com um rodopio de ministros que sorriem muito bem ou repetem que «estamos a trabalhar», enquanto se formam filas às 4 da manhã em busca de uma senha que permita ser-se atendido; faz morrer «utentes» que os centros de saúde e os hospitais não foram a tempo de atender; fez cair no caos e nos gastos excessivos os hospitais que foram os melhores do país, dos quais Costa fez os piores.

Faz «virar a página da austeridade» enquanto faz subir os impostos bem para além do que acusava o governo de Passos (o governo que resgatou o país de mais uma bancarrota socialista); faz progedir o ordenado mínimo até fazer dele o ordenado médio.

Faz do país o mais rápido caminhante para o título de país mais pobre da UE.

Faz dos transportes públicos uma piada sinistra, um suplício para os «utentes» quando o conseguem ser.

Faz o caos na educação, e faz tentativas para o remediar com o facilitismo que o vai hipotecar ainda mais.

Faz «reversões» desastrosas, como a da Tap nacionalizada por ser «estratégica», e vai fazer que seja privatizada após a fazer destruir.

Faz zero no investimento público e faz fugir o investimento privado.

Faz para a habitação o mesmo tipo de planos alucinados que fez para a saúde e que cavam o fosso da situação.

Faz sair do país os que que forem competentes ou preparados, fazendo-lhes um ambiente hostil a que viram costas de bom grado.

Faz rir a Comissão Europeia (e a nós corar de vergonha) ao pedir que «a Óropa» remedeie aquilo que ele destruiu. Que trave os que já não toleram o que ele «faz»; que faça as casas que os seus ministros anunciaram aos milhares e das quais não fizeram nem 3 em 100, e que as faça sem as empresas portuguesas que ele fez por desencorajar.

Faz de quem o classifica de «mais talentoso político da sua geração» um tonto ou um vendido, ou, então, um medroso que teme dizer «o mais pernicioso político da sua geração».

Não contente com tanto feito, esforça-se agora por fazer que as relações institucionais e o discurso público caiam no mesmo nível rasca do que faz na «governação» do país. Faz silêncio no Conselho de Estado que não pôde encher de fiéis, e faz comentários à saída -- comentários que os criados na comunicação social divulgam deliciados: «Cada um no seu galho», sentencia ele, para logo fazer uma parábola pateta sobre futebol. Cada macaco no seu galho, diz um deles.

A floresta do futuro

por henrique pereira dos santos, em 05.09.23

Ontem perdi algum tempo a procurar informação sobre os resultados do protesto pela floresta do futuro.

A razão pela qual perdi algum tempo é que embora seja fácil e abundante a informação sobre a convocatória deste protesto, as notícias sobre o que se passou durante o protesto são quase inexistentes.

A razão pela qual me interessava ter informação fiável da adesão a este protesto é que a convocatória, amplamente divulgada, era subscrita por várias organizações (incluindo um partido que apelava à participação, o PAN) e pessoas conhecidas do meio ambientalista, e o texto era bastante radical, quer na análise da situação e propostas para mudar o futuro, quer na ignorância militante sobre o assunto em que se pretendia intervir.

Ao contrário de mim, que estava interessado em avaliar o enraizamento social do modelo leninista de intervenção ambiental (uma vanguarda esclarecida que se sente ungida do dever de criar a felicidade para todos, pela força se necessário, enquanto as pessoas comuns não percebem qual é a linha justa que as pode conduzir à felicidade), uma das organizadoras da marcha de Lisboa queixava-se, não da falta de participantes, mas da falta da RTP, demonstrando que a preocupação central é ocupar a comunicação, para impor uma visão do mundo, não é compreender as razões pelas quais as pessoas gerem as suas vidas como gerem.

Embora a proposta de cartaz que está na ligação acima refira marchas em Lisboa, Porto, Coimbra, Odemira, Arganil, Vila Nova de Poiares, Oliveira do Hospital e Proença a Nova, tenho ideia de que não houve marchas em Arganil, Oliveira do Hospital e Proença a Nova, havendo, por outro lado, uma marcha na Sertã.

Do que vi de fotografias e vídeos, as marchas terão tido participações diferentes, como é natural, andando pelas vinte pessoas nas menos concorridas e pelas cem pessoas nas mais concorridas (enfim, se em vez de cem, forem duzentas, apesar de ser um aumento do simples para o dobro, não altera nada de essencial).

Claro que não se pode avaliar o enraizamento social (e muito menos a justeza) de uma ideia pelos números de pessoas que se juntam numa marcha mas, ainda assim, não é irrelevante verificar que logo após a comoção de sempre com os fogos (apesar de um ano especialmente benigno, por falta de comparência do vento, quando estava seco, e por falta de comparência da secura, quando estava vento), umas marchas largamente publicitadas não consigam juntar mais de cem ou duzentas pessoas, mesmo em Lisboa ou Porto.

Em parte esta dificuldade de mobilização das pessoas é transversal, e não vou andar aqui a fazer sociologia barata para tentar explicar as razões para isso, mas um nível tão baixo de mobilização, que contrasta com o favor mediático de que gozam as ideias que estão na base desta convocatória, não deixa de ser intrigante.

Factos e mitos sobre florestas em Portugal

por henrique pereira dos santos, em 03.09.23

Um dia destes fiz um post simples, básico, diria eu:

"Informação gratuita:
Mais de metade da área de povoamento florestal de Portugal é composta por eucaliptal e pinhal.
E já é mais ou menos assim pelo menos desde os anos 30 do século passado.".

O que está aqui escrito é conhecido e mais que conhecido, o "mais ou menos" prende-se com pequenas variações de percentagem que pontualmente podem diminuir a percentagem destas duas espécies para quarenta e muitos por cento do total dos povoamentos, e com as dificuldades das estimativas de área de povoamento florestal na primeira metade do século XX, antes da fotografia aérea.

Em traços largos, é um facto que a soma de pinheiro e eucalipto representa, há um século, sensivelmente metade da área dos povoamentos florestais em Portugal.

Note-se que na outra metade os montados, que é um tipo de povoamento de árvores dispersas, têm um peso enorme, podendo, pontualmente, ter ultrapassado a área de pinheiro.

Estranhamente para mim, este post, uma mera informação corrente, conhecida e largamente inútil, por si só, motivou uma série de comentários heterogéneos, uns porque eu não citava as fontes da informação, outros porque eu estava a branquear a expansão do eucalipto, outros porque era uma provocação inaceitável e, num desses comentários, aparece o gráfico abaixo que, de acordo com o autor do comentário, desmentia cabalmente o que eu tinha escrito.

evolução-historica-da-área-de-floresta_edit-

Independentemente do gráfico confirmar o que eu tinha escrito, a verdade é que tem muita outra informação, para quem se disponha a interpretar o gráfico com base em conhecimento existente.

Comecemos por fazer notar o tracejado antes de 1900 e realçar que até 1956 (e mesmo assim, embora a estimativa de 1956 já seja uma estimativa moderna, do Serviço de Reconhecimento e Ordenamento Agrário), as estimativas são relativamente pouco rigorosas, é o melhor que se arranja, a traço grosso estarão certas, mas não se lhes pode pedir um rigor que elas não poderiam ter na época.

Um primeiro mito, sobre a tragédia do desaparecimento do montado, fica um bocadinho chamuscado quando se verifica que, mesmo com alguma perda nas últimas décadas, temos uns milhares de hectares a mais que os que havia no princípio do século (aí pelos menos uns trezentos mil hectares a mais, um aumento de mais de 50%).

Outro mito que sai um bocadinho combalido é o de que a campanha do trigo ter destruído milhares de hectares de montado, sendo evidente que há um aumento acentuado do montado que é contemporâneo da campanha do trigo do Estado Novo (e, se se souber que a verdadeira campanha de arroteamento de terras para cereal não é a campanha do trigo do Estado Novo, em rigor, da Ditadura Nacional, perfilhada pelo Estado Novo, mas sim a Lei da Fome, de Elvino de Brito, que é de 1899, com mais segurança se aceita que a expansão da produção de cereal é favorável ao montado).

Seria preciso ter mais alguma informação para identificar as causas do relativo declínio, apesar de alguma estabilidade, do montado a partir da década de sessenta (a primeira legislação de protecção do sobreiro é de meados dos anos 50, mas é excessivo pretender que influenciou esta dinâmica), para saber se esse declínio é em todo o montado, ou sobretudo no montado de azinheira, que é a minha hipótese, relacionada com a peste suína africana e a perda de valor económico do montado de azinho provocada pela proibição do porco de montanheira.

Consistente com esta diminuição (em qualquer caso, verificável nos dados da evolução dos povoamentos de azinheira, que perdeu entre 100 mil a 200 mil hectares desde meados dos anos 50 até hoje, sendo responsável por mais de 50% da perda do montado que se verifica no gráfico), vê-se o primeiro aumento da área de eucalipto, ainda muito marginal. Esta correlação tem evidências contingentes na gestão de algumas grandes propriedades do Alentejo e Beira interior, cujos proprietários resolveram reconvertar o azinhal para eucalipto, por falta de alternativa quando o porco de montanheira é proibido, de maneira geral com resultados muito pobres porque as exigências ecológicas do eucalipto não coincidem com o óptimo da azinheira, do que resultaram eucaliptais de baixíssimas produtividades.

O que é claramente visível no gráfico é que há uma subida acentuada da área de pinhal até aos anos 30 do século XX, mais coisa menos coisa, e depois uma subida continuada, mas relativamente suave, até aos anos 70 do século XX, seguido de uma queda brusca (desde os anos 70 do século XX até hoje, o pinhal reduziu a sua área de distribuição para mais ou menos metade da que existia no pico da sua expansão).

O abandono rural tinha começado em meados dos anos 50, o que significa uma progressiva diminuição da intensidade de gestão, em especial das terras mais marginais, e em meados dos anos 70. Por essa razão, vinte anos depois, o padrão de fogo tinha-se alterado profundamente, pondo em causa a viabilidade de muita área de pinhal e aumentando o risco de investimento em pinhal. Esta circunstância é potenciada pela perda de valor relativo dos produtos do pinhal, incluindo, posteriormente, uma queda brusca do valor da resina, com a entrada da China, e depois do Brasil, no mercado das resinas naturais.

É dessa altura a expansão rápida do eucalipto, substituindo pinhal - entre outras razões, o eucaliptal de produção está muito mais adaptado ao ciclo de fogo actual - expansão essa que é potenciada por uma política de Estado, materializada por empresas públicas de celulose, nos anos 80 do século XX, a época de expansão mais rápida da área de eucalipto (bem visível no gráfico).

O mito dos eucaliptais ou pinhais que substituem carvalhais também fica reduzido a cinzas com estes dados, tal como o mito da importância da composição florestal no padrão de fogo, visto que pelo menos desde os anos trinta do século XX que a composição florestal é basicamente a mesma (com a troca de pinhal por eucaliptal em metade da área de pinhal dos anos 70, o que do ponto de vista do fogo é irrelevante), e o padrão de fogo evoluiu da forma que conhecemos.

E, já agora, é com o padrão de fogo actual, a partir dos anos 80 do século XX, que se verifica uma evidente expansão da área de carvalhais, soutos e etc., desfazendo o mito de que as nossas matas naturais (que são uma percentagem ínfima dos povoamentos florestais em Portugal), têm estado a ser destruídos pelos incêndios.

Não porque os carvalhais beneficiem dos incêndios, mas sim porque as forças modeladoras da paisagem, em especial a gestão da vegetação miúda (pastagens, arbustos, e coisas que tais) que alimenta os fogos são as mesmas forças modeladoras que alimentam a expansão dos sistemas naturais: menos gestão, mais vegetação natural, fogos mais intensos, extensos e contínuos.

Apesar de tudo isto, há uns académicos e decisores na administração pública profundamente empenhados em torrar dinheiro dos contribuintes numa transformação da paisagem que, dizem eles, vai resolver o problema da gestão do fogo, através da alteração da composição dos povoamentos florestais.

E pronto, como um simples gráfico, com um bocadinho mais de informação, é tão útil para desfazer mitos que nos levam a adoptar políticas ineficientes.

Ou melhor, seria, se não houvesse tanta gente que jamais deixará que os factos influenciem as suas ideias.

Luís XIV: A construção de um mito

por Daniel Santos Sousa, em 02.09.23

luis-xiv-absolutismo.jpg

Luís XIV morre a 1 de Setembro de 1715. Embora nunca tenha proferido a máxima que o celebrizou, ainda assim esta sintetiza todo um pensamento político: "O Estado sou eu". Ao contrário do conhecido aforismo o monarca terá suspirado no leito de morte “Je m'en vais, mais l'État demeurera toujours.”

Este é um reinado dinâmico que abre portas para a transformação política e social. Ao lado de teorizadores do direito divino como Bossuet, surgem os teóricos do laicismo e do individualismo (Montesquieu).

Numa França amordaçada pelas guerras da religião consegue com habilidade subjugar a nobreza e, não hesitando em explorar esse sucesso, logra disciplinar e subordinar aquele grupo através de um minucioso cerimonial que concretizará a hegemonia da coroa. A mesma nobreza que, prisioneira da redoma dourada de Versalhes, tornar-se-á refém desse esplendor, no fundo a sua própria decadência. Mas é dessa redoma que saem os ministros e os embaixadores do Rei Sol, e, um fenómeno curioso: a importância da mobilidade. Na alta burguesia, a 'noblesse de robe', começa a ascender socialmente, recebendo cargos no governo e aproximando-se da velha nobreza. São dois mundo em conflito: um medieval e feudal, do qual a hegemonia régia se liberta, e outro na dianteira do estado moderno, que os tratadistas procurarão identificar (Maquiavel, Hobbes).

Esta é uma sociedade estratificada, fundada numa correspondência de funções e de direitos, de serviços e de privilégios (Mattei). Assim era em toda a Europa: um Estado constituído por ordens e corpos. Desde o ano 1000 até 1789 esta é a realidade dos povos, a sua destruição progressiva (em França até mesmo abrupta) abrirá caminho à barbárie. O poder é garantido pelos sucessos militares, nos seus canhões inscrevia a máxima "ultima ratio regis", no fundo a visão de um homem talhado para a consumação da política interna e para a procura de vitórias no exterior.

Mas o "poder absoluto", que será tão glosado pela revolução de '89 para demonizar a monarquia, nunca significou poder ilimitado. Há aqui mais de folclore e ficção jacobina do que outra coisa qualquer. Talvez por leitura de Bossuet que teorizava a origem divina do poder a ideia tenha servido toda a propaganda "anti-monarquia".

Bossuet jamais legitimou qualquer absolutismo arbitrário. Exprime sim os limites do poder do monarca à luz da doutrina tradicional. São visões diferentes do absolutismo e todas elas deturpadas pelas revoluções liberais. Jouvenel já o demonstrara ao referir que a monarquia absoluta estava nos antípodas do regime despótico, mesmo nessas monarquias acreditava-se que não era o rei mas a lei quem mandava (Jaime Balmes) e podia mesmo no século XX ironizar um pensador como K.von Leddihn ao afirmar que se Luís XIV visse o poder que o Congresso dos USA ou o Parlamento de França tem para aprovar leis morreria de inveja.

No século XIX e XX aliás, ironicamente, os estados liberais (e os seus sucedâneos demo-liberais) seriam muito mais centralizadores (i.e., mais absolutistas) do que alguma vez fora o Estado do chamado "Antigo Regime".

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