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Parece evidente que o congelamento de rendas não é a solução do problema da falta de casas para arrendar: inúmeros estudos assim o demonstram, mesmo nos louvados exemplos de Berlin e outras cidades de primeira linha ( a falta de senso não tem fronteiras) . No caso Português, com uma longa perseguição do senhorio desde a Republica, passando pelo Estado Novo e continuando no regime de Abril, os estudos não deveriam ser necessarios para que se entendesse que expliar senhorios não dá bons resultados e que é provavelmente a maior causa do actual problema de falta de casas para arrendar ( infelizmente há muitos outros neste jardim á beira mar plantado).
Não é do prisma pratico que pretendo falar : mesmo que seja um paliativo para os arrendatarios instalados ( com casa) ou que até não torna-se o actual problema pior, o congelamento de rendas é vergonhoso.
Que Estado de direito não aplica leis aprovadas e não revogadas, apenas suspendendo os direitos consignados por lei? Que Estado de direito vê o seu 1º ministro, aparecer na televisão a dizer ter que se fazer uma ponderação entre a Lei e a protecção dos interesses dos inquilinos? Que estado de direito, discrimina de forma tão clara os cidadãos, elegendo uns como beneficiário e outros como espoliados, independentemente dos seus rendimentos? A resposta é simples: nenhum.
É apenas mais um exemplo de que Portugal não é um estado de direito, é uma democracia mercantilista pouco inteligente. Fazer política social, faz todo o sentido. Com fundos do Estado e não expropriando cidadãos independentemente dos seus rendimentos, eleitos apenas por uma circunstância partilhada: ser proprietario de um imovel arrendado. Considerando a situação de rendimentos dos mais desfavorecidos e não os “direitos” de interesses corporativos de agrupamentos de cidadãos heterodoxos, apenas partilhando um interesse comum: pagar menos.
A acumulação de distorções sem critério, explicam que estejamos mais longe dos niveis de bem estar médio da CE e a ser ultrapassados por todos os países , com as poucas exepções daqueles que, tal como nós, apenas estão a interessados em manter pobreza endemica, para poderemos ser os pedintes da Europa, uma distinção que me escapa como positiva.

Dos mais destacados diplomatas que honraram Portugal, Franco Nogueira encima o Panteão dos Grandes. Com ele encerra-se o ciclo histórico que demarcou aquela elite conscienciosa do conceito de soberania e de independência nacional.
Educado no patriotismo republicano, onde efervescia a defesa das colónias como conditio sine qua non da manutenção da soberania portuguesa, não deixou de ser um filho do seu tempo. Não era desfasado o entendimento, quando o próprio Afonso Costa, da esquerda democrática, proferia nos anos 30 que "Portugal não é um país pequeno", máxima que se repercutiria em sentido contrário ao desejado pelo autor, mas que caracteriza a política nacional no período de entre as duas Repúblicas.
A evolução do seu pensamento é determinante e coerente e não perde as premissas fundamentais. Onde alguns apresentam "paradoxos" ou "dúvidas" no percurso do Embaixador, pois diga-se que não existem, isso seria não compreender o pensamento mais amplo e profundo de um patriota português. Independentemente da forma de regime e das paixões ideológicas, Franco Nogueira posiciona-se acima das abstracções, interessado na realpolitik e na geopolítica atlântica com Portugal à cabeça, mesmo que isso signifique desafiar as grandes potências. É um patriota realista e um estratega da soberania nacional.
Nele não deixo de encontrar reflectida a silhueta de um homólogo, o 2.º Visconde de Santarém, também Ministro dos Negócios Estrangeiros, mas este ao serviço de D. Miguel. Há um mesmo percurso na dedicação justa à causa nacional e ao serviço do Estado. Também uma mesma sina fatal de viver do lado dos vencidos, percorrendo um tempo de dúvidas e revoluções. Ambos exilados e ambos dedicados ao estudo em defesa da pátria, sempre levantando o bom nome de Portugal, ainda que a pátria os não merecesse (assim trata os filhos mais ilustres).
Franco Nogueira pertenceu à última grande geração dos diplomatas que lutaram pela independência e soberania desta terra.
Não queremos outra liberdade senão a liberdade portuguesa.
Mas também não queremos outro Portugal senão o Portugal dos homens livres. E é ao procurar a práxis desta teoria que aclamamos o rei.
Henrique Barrilaro Ruas, 1971

No próximo dia 7 de Outubro terá lugar na Basílica do Palácio Real de Mafra, pelas 15:00 horas, o primeiro casamento na Família Real Portuguesa em mais de 25 anos, o feliz enlace de S.A. a Infanta Dona Maria Francisca com Duarte de Sousa Araújo Martins. À maneira das ancestrais bodas reais que pautaram os 800 anos da monarquia portuguesa, esta grande solenidade significará o retorno da noiva à sua ancestral casa de família, monumento erigido pelo seu 7º avô, Dom João V. A essa celebração comparecerão numerosos convidados, entre os quais personalidades de destaque da vida social e política nacional e internacional, incluindo membros de famílias reais estrangeiras. Os célebres carrilhões assinalarão sonora e vibrantemente o início e o término desta grande festa portuguesa, que extravasará as fronteiras do Concelho de Mafra e do Distrito de Lisboa para Portugal inteiro.
Este casamento, que contará com ampla cobertura mediática e transmissão televisiva, sucede a três enlaces reais portugueses ocorridos em república, com a diferença que não se realizará no exílio, e muito menos na clandestinidade. Os monárquicos amam a Liberdade. Lembremos que o rei Dom Manuel II casou-se a 4 de Setembro de 1913 com a Princesa Augusta Vitória de Hohenzollern-Sigmaringen no Sul da actual Alemanha, banido da sua pátria pelos revolucionários republicanos três anos antes – como sabemos morreu tragicamente vinte anos depois, exilado em Londres, sem geração. Trinta anos mais tarde, em 1942, é a vez de Dom Duarte Nuno, neto do rei Dom Miguel, ainda impedido pelas leis do Estado português de entrar em Portugal, celebrar o seu matrimónio com SA Dona Maria Francisca, Princesa de Orléans e Bragança, bisneta do Imperador Dom Pedro II do Brasil, a 15 de Outubro, na Catedral de Petrópolis, no Rio de Janeiro. Ainda condenada ao exílio pátrio, a nova família instalar-se-ia na Suíça até 1952, quase dois anos após a revogação da Lei do Banimento. Por causa das ambiguidades do Estado Novo, não foram tempos fáceis os da acomodação da Família Real em território nacional, questão que exigiu aos monárquicos da época grande empenho na procura de uma solução condigna para a sua querida Família Real finalmente de retorno à Mãe Pátria, um desejo antigo de Dom Duarte Nuno. Definitivamente o governo da república não se sentia confortável com a fixação de residência dos Duques de Bragança em Lisboa, tendo Suas Altezas por isso vivido os primeiros anos na freguesia do Canidelo, em Vila Nova de Gaia, antes de se instalarem 5 anos depois em São Silvestre do Campo, nos arredores de Coimbra, numa parte dum antigo mosteiro de São Marcos, por muitos anos local de festiva peregrinação, pelos muitos dedicados monárquicos, a cada dia 1 de Dezembro. Entretanto os tempos mudaram, e ainda há muita gente que se lembra com comoção e carinho, do casamento de Dom Duarte Pio, actual Chefe da Casa Real Portuguesa, com Dona Isabel, nos Jerónimos, que levou a Belém uma colorida e participada festa, no qual fizeram questão de tomar parte entre tantos distintos convidados, imaginem só, o então presidente da república Mário Soares e o primeiro-ministro Aníbal Cavaco Silva. Os monárquicos acima de tudo amam a “Liberdade Portuguesa”.
Por todos estes motivos e mais alguns queremos que a festa do casamento da Infanta Dona Maria Francisca com Duarte de Sousa Araújo Martins em Mafra, a decorrer no Terreiro Dom João V engalanado com as cores e a heráldica que simbolizaram durante séculos esta Nação improvável, seja motivo de adesão de todos os Portugueses. Pela minha parte, empenhado com a Real Associação de Lisboa na organização das actividades no exterior da Basílica, convido todos quantos ali se queiram juntar, na tarde do próximo dia 7. Para os mais curiosos existirão dois ecrãs gigantes com transmissão do interior da Basílica, e para ajudar à festividade, serão distribuídas centenas de bandeiras e contaremos com a actuação de mais de 500 elementos de doze Grupos Folclóricos representando várias regiões do país.
Este, que será o primeiro casamento dos nossos infantes, Afonso, Maria Francisca e Dinis, é desde já promessa da continuidade desta Instituição, valioso activo identitário da nossa sempre periclitante Pátria, mesmo em república. Por isso reclamamos o reconhecimento e abraçamos a Casa Real Portuguesa. Muitos empedernidos republicanos, cem anos depois da revolução, reconhecem a importância desta tradição como factor de comunhão Nacional. Quanto ao mais, sei por experiência própria como os portugueses, nas ruas das nossas cidades, vilas e aldeias, reconhecem com simpatia, a sua querida Família Real.
*Do título de uma antologia de textos de Barrilaro Ruas
Texto publicado originalmente no Observador.
Na imagem: a heráldica dos noivos desenhada por Luís Camilo Alves, ilustrador oficial do Instituto da Nobreza Portuguesa.
Bárbara Reis não costuma escrever sobre matérias ambientais ou florestais, mas neste Sábado escreveu um artigo com o título "Abate de sobreiros em Sines é chocante? Nem por isso", fazendo questão de dizer que estava rodeada de belas árvores milenares (por aqui se vê porque raramente escreve sobre estas matérias) quando leu muita coisa sobre o assunto.
Começa por citar muita gente, resumindo-se essa parte do artigo nestas citações: "O problema está identificado: um “bosque”, uma “floresta” de sobreiros “adultos”, “saudáveis” e a produzir cortiça, vai ser abatido e, com ele, destruído um “ecossistema local”." ... "Pequeno senão: falei com a Zero–Associação Sistema Terrestre Sustentável, cujo presidente é o engenheiro do Ambiente Francisco Ferreira, e, num minuto, percebi que tudo isto que acabo de escrever é falso. Leu bem: é falso.".
Depois de explicar que falou com mais não sei quantas pessoas (provavelmente não sabe que este tipo de projectos têm toda a documentação pública e acessível, embora jornalista uma vida inteira, e directora de jornais durante anos, não lhe terá ocorrido ir buscar informação a fontes primárias de informação, escolheu sempre ouvir pessoas que escolheu, por razões que só Bárbara Reis poderá explicar), acaba o artigo a concluir "Matar uma árvore saudável dói. Matar 200 dói ainda mais. Mas o debate e o activismo poluído também".
Grande parte das citações que faz na primeira parte do artigo são de orgãos de comunicação social ou de afirmações a que orgãos de comunicação social deram visibilidade, sem a mínima verificação factual, mas Bárbara Reis não acha necessário assinalar este facto e fazer notar o que isso significa de 1) falta de qualidade do jornalismo; 2) facilidade de manipulação da imprensa.
Mais que isso, neste caso, Bárbara Reis faz exactamente o mesmo que fizeram os seus colegas: em vez de verificar informação em fontes primárias disponíveis, escolhe uma pessoa em que confia, no caso Francisco Ferreira, presidente de uma associação ambientalista que o Senhor Ministro nomeou para um grupo de trabalho que criou para responder ao alarme público causado pelas aldrabices de outros ambientalistas.
E foi neste ponto que de repente me lembrei de um parágrafo, quase no princípio do artigo, a que não tinha dado nenhuma importância: "Quem é que, no seu perfeito juízo, fica indiferente perante isto? Impossível conter a indignação. Vamos para a rua protestar. Ainda por cima, os alvos são bons para dar golpes: o Governo (este ou outro qualquer) e a EDP (que fechou o ano com 871 milhões de euros de lucro).".
Bingo!
Bárbara Reis não está a escrever sobre questões ambientais, florestais ou de paisagem, Bárbara Reis, consciente ou inconscientemente, está a escrever sobre ataques injustos ao Governo e à sua política de energias renováveis e descarbonificação.
E a Zero, que em Abril era contra uma central solar no Alentejo por ser numa área importante de conservação (a Zero, e a generalidade do movimento ambientalista, protesta com a agricultura intensiva, mas protesta igualmente com usos alternativas de áreas fora dos perímetros de rega, exactamente porque, dizem eles, estarem fora dos perímetros de rega as protege da expansão da agricultura intensiva), ou que em 2019 lamentava o abate de sobreiros e azinheiras por causa de um campo de golfe, apenas para dar dois exemplos, aparece agora a defender que é preciso ver bem isso, talvez o Governo não esteja a fazer asneira.
É evidentemente uma coincidência que o Senhor Ministro do Ambiente faça um despacho, justificado, entre outras tretas, pelo facto de "as recentes decisões de declarar de imprescindível utilidade pública determinados empreendimentos geraram na opinião pública contestação e dúvidas sobre os procedimentos observados nos projetos de compensação, importa avaliar a respetiva adequação.", como se o problema da pós-avaliação de projectos autorizados não fosse um problema transversal há muito identificado, e decida fazer um grupo de trabalho (what else?) para o qual nomeia a Zero que, de entre as várias ONGs de ambiente que existem em Portugal, é das poucas que não gere um metro quadrado de terra, se não me engano, para ver com o ICNF como se diminui a contestação às decisões do Governo, em matéria de gestão da paisagem.
Mas afinal quem continua a dar palco e uma aparência de representatividade social à parte do movimento ambientalista que passa o tempo todo a inventar parvoíces e a deturpar os factos?
Os jornalistas, senhores, os jornalistas que há muito perderam a noção de que a sua função central é verificar, verificar, verificar, e não ser caixa de ressonância de pessoas que consideram fantásticas.
Sobre isso, Bárbara Reis tem uma posição cristalina, tão cristalina que é absolutamente transparente e ninguém a consegue ver.
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
Naquele tempo, Pedro aproximou-se de Jesus e perguntou-Lhe: «Se meu irmão me ofender, quantas vezes deverei perdoar-lhe? Até sete vezes?». Jesus respondeu: «Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete. Na verdade, o reino de Deus pode comparar-se a um rei que quis ajustar contas com os seus servos. Logo de começo, apresentaram-lhe um homem que devia dez mil talentos. Não tendo com que pagar, o senhor mandou que fosse vendido, com a mulher, os filhos e tudo quanto possuía, para assim pagar a dívida. Então o servo prostrou-se a seus pés, dizendo: ‘Senhor, concede-me um prazo e tudo te pagarei’. Cheio de compaixão, o senhor daquele servo deu-lhe a liberdade e perdoou-lhe a dívida. Ao sair, o servo encontrou um dos seus companheiros que lhe devia cem denários. Segurando-o, começou a apertar-lhe o pescoço, dizendo: ‘Paga o que me deves’. Então o companheiro caiu a seus pés e suplicou-lhe, dizendo: ‘Concede-me um prazo e pagar-te-ei’. Ele, porém, não consentiu e mandou-o prender, até que pagasse tudo quanto devia. Testemunhas desta cena, os seus companheiros ficaram muito tristes e foram contar ao senhor tudo o que havia sucedido. Então, o senhor mandou-o chamar e disse: ‘Servo mau, perdoei-te tudo o que me devias, porque mo pediste. Não devias, também tu, compadecer-te do teu companheiro, como eu tive compaixão de ti?’. E o senhor, indignado, entregou-o aos verdugos, até que pagasse tudo o que lhe devia. Assim procederá convosco meu Pai celeste, se cada um de vós não perdoar a seu irmão de todo o coração».
Palavra da salvação.
A partir de um comentário ao meu post anterior, que agradeço, cheguei a esta entrevista a Fausto Bordalo Dias.
Aos 26 minutos e 54 segundos, Fausto diz: "Quando uma independência não concorre para a felicidade dos povos, alguma coisa está errada".
Na sequência, Fátima Campos Ferreira pergunta explicitamente: "Acha que a sociedade colonial foi mais protectora das populações?".
Toda a entrevista é bastante interessante, desde que se consiga ultrapassar a entrevistadora, que gosta mais de palavras que da substância das coisas (penso ser por isso que fala duas vezes no "mar da palha" a propósito do se vê da Torre de Belém, demonstrando não saber onde é o Mar da Palha e porque se chama assim, um belo nome, nisso estamos de acordo) mas o que me pareceu o mais interessante da entrevista foi mesmo a pausa, seguida de um suspiro de Fausto, antes de responder a esta pergunta.
A resposta é surpreendente, vinda de quem vem.
O próprio Fausto sinaliza o insólito da resposta pela tal pausa, pelo tal suspiro e pela forma sincopada como diz: "eles viveram mais felizes antes da independência do que vivem agora. Eu sei que isto desagrada a muita gente, mas é a verdade".
Quase se poderia aplicar a este bocado da entrevista uma frase muito interessante de Jaime Nogueira Pinto, no seu artigo de hoje no Observador "Não podemos confundir os esforços para melhorar este mundo, comandados pela ética e pelo humanismo, cristão ou agnóstico, com a hipócrita ou estúpida ignorância da realidade".
Não tenho a pretensão de dizer que Fausto está certo no que diz, não sei medir a felicidade dos povos, mas parece-me hoje inquestionável o que está implícito na primeira parte da resposta que citei: há alguma coisa profundamente errada na forma como, de maneira geral, a indepedência das colónias (e não apenas das colónias portuguesas) concorreu tão pouco para a felicidade dos povos, das pessoas comuns que vivem nessas terras.
Não estou a dizer que poderia ter sido de outra maneira, isso não sei, o que sei é que, frequentemente, a independência dos países correu muito mal para muita gente.
Claro que é preciso ter em atenção que África é a região do mundo que mais cresce em população (quer Moçambique, quer Angola, têm hoje, pelo menos, três a quatro vezes mais gente que a que tinham na altura da independência, apesar das guerras, da fome e das doenças, e é mais ou menos assim em quase toda a África) e que os problemas a resolver são grandes e complexos, mas talvez fosse boa ideia começar por desfazer mitos para se poder olhar a realidade de frente, para a mudar eficazmente.
Sérgio Godinho, no mesmo disco que citei no meu post anterior, tem outra música, "Independência", que remete para erros históricos ("já chega quinhentos anos", diz ele, ignorando que a colonização do interior de África só existe verdadeiramente a partir da segunda metade do Século XIX, por exemplo, Gungunhana é derrotado apenas em 1895, ficando Marracuene, onde se dá uma das grandes derrotas de Gungunhana, a menos de trinta quilómetros, em linha recta, da então Lourenço Marques e Chaimite, onde é preso, a cerca de 150 quilómetros, o que ilustra bem a fragilidade da colonização Europeia de África para além da estreita faixa litoral onde se localizavam os principais entrepostos comerciais) e que, o que me parece bem mais relevante, começa com "Quem diz que sim, quem diz que não, quem diz que sim, quem diz que não, são os movimentos de libertação".
E é este o problema, a ideia de que perguntar às pessoas, dar o poder às pessoas através de mecanismos abertos e escrutináveis, é um frivolidade e um luxo porque se definiu, à cabeça, quem representa o povo: inevitavelmente, quem tem as armas na mão.
A quantidade de patetices que leio sobre o que eram as sociedades coloniais, com sistemáticas referências a um estatuto do indigenato que essencialmente existia no papel, mas com pouca expressão real, e sistemáticas referências a um estatuto privilegiado de cada um dos brancos que por lá andavam, confundindo os privilégios das companhias majestáticas - que existiam - com a vida comum de comerciantes, agricultores, criadores de gado, caçadores e funcionários coloniais que por lá andavam, umas vezes menos duras, outras vezes bem duras, não tem conta e tem livre curso na literatura, incluindo na literatura académica sobre essa realidade.
E é por isso que acho especialmente interessante a longa pausa e o suspiro de Fausto: o mundo é muito maior e mais diverso do que muita gente pensa, e a vida das pessoas comuns, nessa altura, não é necessariamente coincidente com o retrato que serviu de mote à ideia de que "quem diz que sim, quem diz que não, são os movimentos de libertação", sem que nos perguntássemos de onde vinha a legitimidade desse poder, para além das armas.
E, no entanto, essa pergunta deve ser feita sempre e em qualquer lado: qual é a fonte de legitimidade deste poder em concreto?
Sem uma resposta clara a esta pergunta, será difícil definir a melhor forma de contribuir para a felicidade dos povos, de que fala Fausto na entrevista.

Bocage está para o século XVIII como Antero está para o século XIX e Pessoa para o século XX. A obra é a súmula do tempo que soube encarnar, o perfeito espírito daquele "galante século XVIII". Um mundo de salões literários, da cultura de Corte, da paixão subtil, a época pós-Pombal, onde efervescem as grandes questões jurídicas e onde despontam as grandes discussões filosóficas.
Como um mito permanece indecifrável. Um boémio, um libertino, também o ateu e, mais tarde, o reconvertido, o arrependido ferido de angústias. A sua morte encerra uma era, marcada pelo culto da cultura clássica, do espírito erudito, da paixão aristocrática, já no pronúncio do fim dos doces anos do "reinado mariano". Não se conformando com o conforto sofreu as vicissitudes de uma vida desregrada e livre. Também a rivalidade com José Agostinho de Macedo não deixa de ser sintomática dos caracteres: são duas mundividências que se conflituam.
Dele sobra o anedotário, o complexo mistério que ensombra as figuras mais carismáticas. Cultivou a lírica erudita com o gosto popular, a cultura aristocrática com a grosseria do vulgo. Há que dizê-lo: Bocage revolucionou as letras lusas antes da revolução política assolar as estruturas do Antigo Regime, fazendo a lírica descer dos olimpos grandiloquentes do classicismo para as realidades quotidianas, arrancando a poesia do conforto dos salões para o mundo burguês. Ególatra eruptivo e angustiado, procurando engrandecer a palavra pelo universalismo das ideias, quase ascende ao épico. Polarizado entre a Razão e o Sentimento, antecipa a estética romântica, contudo ainda moldado e estruturado pelo neoclassicismo.
Talvez nenhum outro poeta tenha surtido tanta influência nele como Camões. Aliás, os poetas da Arcádia e os cultores do neoclassicismo conferiam a Camões uma nova vitalidade e reivindicavam na tragédia e génio do vate a plena e suprema inspiração. Mas Bocage foi mais longe, reclamando uma identificação plena. A vida errante do vate quinhentista encontrava na mesma errância bocagiana um entendimento: "Camões, grande Camões, quão semelhante/ Acho teu fado ao meu, quando os cotejo!"
No leito de morte suspira o arrependimento, um último Soneto: "Já Bocage não sou". É o Bocage anti-Bocage, a negação da vida errante, a descoberta de uma nova luz, um Bocage que grita: "Oh! Se me creste, gente ímpia,/ Rasga meus versos, crê na eternidade!". É o último fôlego de um homem sofrido. Morreu no alvorar de um tempo novo, quando os ventos da revolução sopravam e Portugal se preparava para, em breve, enfrentar um novo ciclo histórico.
A inflação é um flagelo que traz uma enorme perturbação a todos os agentes económicos, promovendo uma menor eficiência no sistema de informação dos mercados, os preços. Inflação alta, ineficiência económica ( maior desperdício) e muitos agentes que saem prejudicados, embora em diferentes medidas.
Sendo difícil perceber quem e em que grau, cada um é prejudicado ou beneficiado, é consensual que, quem mais beneficia da inflação são os devedores: a sua divida é nominal, mas rapidamente passa a valer, em termos reais, menos. É evidente que o serviço da divida aumenta e provoca constrangimentos financeiros a devedores, nomeadamente aqueles que pagam a prestação da compra da sua casa.
O ministro das finanças, estuda “alisar” o esforço financeiro no presente, para depois, quando os juros baixarem ( previsivelmente daqui a uns anos) manterem-se as prestações e recuperarem os valores que foram empurrados para o futuro. Sendo uma medida que será escolhida livremente ( e contando com a genuína aprovação da Banca) é uma boa medida. O problema é que, paralelamente, mesmo que de forma não significativa, preparam-se bonificações de juros a pagar por parte do estado.
BONIFICAÇÃO DO ESTADO REFORÇADA
Outra das medidas de apoio às famílias com crédito à habitação é o reforço dos apoios para quem tem taxas de esforço demasiado elevadas. Tal como já foi anunciado pelo Governo, a ideia é alargar o montante do apoio (que pode ir até €720 anuais), estender o prazo e facilitar o acesso (por exemplo, atribui-lo a quem paga taxas acima de 3% independentemente da taxa contratada inicialmente). O objetivo é fazer chegar a ajuda a mais famílias, em particular numa altura em que as taxas de juro continuam a subir.
Expresso
Ou seja, os contribuintes, mesmo os mais penalizados pela inflação, vão ser chamados a pagar por quem dela mais beneficia, sejam ricos ou pobres.
É só mais uma pequena distorção absurda introduzida pela vontade de manter um Estado Pai, com boas intenções mas muito ineficiente. E de boas intenções está o inferno ( e Portugal) cheio.
Mais ou menos toda a gente (ou seja, os rapazes do meu tempo) conhece a "Liberdade", uma música óptima de Sérgio Godinho de que aqui deixo uma versão muito boa, para quem não conheça.
Lembrei-me desta música quando me passou pelos olhos uma reportagem (agora chamam reportagens a umas peças televisivas em que os jornalistas em vez de investigarem factos, ouvem pessoas acriticamente) em que alguém dizia que a habitação não era uma mercadoria, era um direito fundamental.
A paz é um assunto diferente dos outros, não é uma coisa que dependa da livre troca de bens ou serviços, é uma coisa que apenas depende de nós na precária medida em que nos preparemos para a guerra, como comunidade.
Mas em relação aos outros bens e serviços, o que a música de Sergio Godinho sugere é que a liberdade é dependente da existência desses bens e serviços, uma ideia com uma longa tradição e alguma verdade: ninguém é verdadeiramente livre com fome.
O resto da letra da música (e, já agora, o contexto em que apareceu, no calor do PREC, num disco adequadamente chamado "À queima roupa"), não deixa grande margem para interpretações: a ideia é a de que a liberdade é um bem subordinado à prévia satisfação dos "direitos básicos", para usar a terminologia do senhor que acha que a habitação não é uma mercadoria porque é um direito fundamental.
Há muitas experiências práticas de sociedades que, em determinado momento, consideraram que o pão não era uma mercadoria, mas um direito fundamental, e portanto acharam que a maneira de assegurar esse direito fundamental era retirar o pão da lista das mercadorias, substituindo a livre troca de bens e serviços entre indivíduos (ou seja, o mercado), pela apropriação colectiva dos meios de produção, como instrumento para dar acesso ao pão a toda a gente.
Em todas, rigorosamente todas, essas experiências, as pessoas não ficaram mais livres depois de acederem à paz, ao pão, habitação, saúde e educação, pelo contrário, as pessoas ficaram bem menos livres, incluindo menos livres de procurarem acordos entre si que lhes permitissem o acesso a esses bens e serviços e, de caminho, essa falta de liberdade na procura de acordos de troca que lhes permitissem aceder a esses bens e serviços, conduziu a duas consequências não desejadas: 1) a frequente escassez do acesso a esses bens e serviços; 2) a desigualdade social no acesso a esses bens e serviços.
Ao contrário do que sugere Sérgio Godinho nesta música (não sei o que pensa hoje), não é o acesso à paz, ao pão, habitação, saúde e educação que materializa a liberdade, é a liberdade, como condição prévia, incluindo a liberdade de troca de bens e serviços, que materializa o acesso a esses bens.
É verdade que nas sociedades mais próximas desta opção também existem restrições económicas ao acesso a estes bens e serviços, mas por grupos sociais menores e menos generalizados que nas outras experiências, e também existe desigualdade social no acesso a esses bens e serviços.
Há uma diferença nessa desigualdade social: nas primeiras sociedades essa desigualdade é imposta pela força pelo grupo dominante, o que implica sólidos aparelhos repressivos de protecção dos que acedem ao poder, nas segundas sociedades essa desigualdade é imposta pelas diferenças de acesso a recursos materiais, dispensado os pesados mecanismos repressivos e de restrição de liberdades.
Liberdades essas que são a chave, não para o acesso aos direitos fundamentais, mas para a oportunidade e possibilidade de decidir da minha vida de modo a optimizar o meu acesso aos direitos fundamentais.
Os resultados são conhecidos e sistematicamente os mesmos quando a opção é uma e outra: o acesso aos direitos fundamentais é incomparavelmente mais justo e eficiente quando os bens e serviços que os materializam são tratados como aquilo que são, mercadorias.

No capítulo da "Histoire des Idées Politiques" dedicado a Portugal, os autores identificam a "referência Salazar", explicando que "o elogio de Salazar é tradicional em certos meios da direita francesa e os livros à glória de Salazar não têm conta". Certamente nenhum outro país dedicou tanta atenção e admiração ao Chefe português como a França. Para todos os efeitos, as claques políticas da direita francesa não se diferenciavam da portuguesa, desde os monárquicos tradicionalistas, aos conservadores desencantados, aos nacionalistas autoritários.
Os maurrasianos jamais esmoreceram no entusiasmo ao regime que parecia concretizar as premissas do velho mestre da Action Française. Nem deixou o próprio Maurras de encontrar virtudes, tal como encontrara em Pétain. Mas Salazar era diferente. Era a alternativa eficaz e coerente ao demo-liberalismo, no fundo uma articulação possível do constitucionalismo e do sistema representativo com as tendências autoritárias, encontrando ali justificação filosófica a um conservadorismo de base católica e anti-liberal. Regime que Jacques Bainville descreveu como uma "ditadura de professores", formulação lapidar dada a especificidade social do escol do regime composto sobretudo por professores universitários.
Serão maurrasianos os mais fascinados, desde Massis, que entrevista várias vezes Salazar ("Aux noms de ces bienfaiteurs, je tiens à ajouter celui du Dr. Salazar car c'est au Portugal, c'est à la très noble nation à laquelle M. Salazar a donné sa personne (...)"); a Ploncard d'Assac, que dedicará uma biografia ao Chefe do regime português. No pós-guerra, a direita gaulista tecia rasgados elogios ao Professor de Coimbra. O próprio de Gaulle não escondia tão pouco a admiração. Paradoxo que levava a extrema-esquerda francesa a estabelecer um paralelo entre os dois. Para a oposição, o gaulismo mais não era do que um salazarismo adaptada a estruturas liberais, aliás muitas vezes salientando a "deriva salazarista" do general de Gaulle (comparação implícita também feita por Helmut Schmidt).
A admiração da direita francesa por Salazar encontrou talvez a mais elevada representação com Christine Garnier. O livro "Vacances avec Salazar" revela-se mais do que um testemunho, ali construía uma imagem de compaixão, de humanização, de revelação do homem por detrás do poder.
Nem seria inusitado referir, como Miguel Ayuso, relativamente aos regimes ibéricos, que estes realizavam uma formulação da "democracia-cristã autoritária". Era a aplicação da doutrina dos "Papas sociais" enquanto alternativa quer ao socialismo quer ao capitalismo: sistema constitucional autoritário, congregador, hierárquico, corporativo, católico, harmonizador e patriótico. Aliás, na senda do que referira também o insuspeito Oliveira Marques, quando caracterizava o Estado Novo como uma terceira via entre os regimes socialista do leste e os regimes demo-liberais do ocidente.
Especificamente, no pós-Concílio Vaticano II, também um baluarte da resistência contra a mudança perpetrada no seio da própria Igreja (como João Medina não deixou de referir). Homens como Léon de Poncins não esmorecem nos aplausos ao Chefe português. Afinal era o espírito resiliente do conservadorismo autoritário num mundo em acelerada mudança; e um último reduto da resistência católica tradicional num mundo católico também em mutação. Era a coerência dos princípios que entusiasmava os críticos do demo-liberalismo.
O salazarismo não encontrava fronteiras e, talvez, entre os maiores admiradores, tenham estado exactamente os intelectuais da direita francesa.
Noutro lado, fiz um comentário ligeiro sobre esta notícia do Observador (na verdade, da Lusa, eu li no Observador mas pelo menos no Diário de Notícias está igual) em que se fala do facto de uma equipa que mistura arqueólogos, associações políticas neo racistas, a Câmara Municipal e uma associação de defesa do património, ter descoberto a pólvora: vestígios materiais da existência de escravos numa aldeia de Alcácer do Sal, entre o Torrão e a aluvião de Alcácer e Grândola.
Limitei-me a fazer um comentário irónico sobre o contrabando de ideologia a partir das cátedras universitárias, uma prática que sempre existiu.
O que é novo é que esse contrabando era considerado um grave erro académico, e hoje é considerado uma necessidade fundamental da boa ciência, desde que seja a ideologia certa.
Se dúvidas houvesse, bastaria ler um longo ensaio (e chato) do arqueólogo principal do projecto, numa altura em que se preocupava muito com o neo-colonialismo mas, aparentemente, ainda não tinha aderido ao neo racismo que justifica o que agora anda a fazer em Alcácer do Sal (à procura do paralelismo entre o importante porto de comércio de escravos de Cacheu e uma aldeia perdida do vale do Sado onde também foram usados escravos).
O ensaio é longo e chato (a ainda por cima cita Boaventura Sousa Santos mais a conversa do epistemicídio), sempre à volta do mesmo, de maneira que para ficar com uma ideia transcrevo já o parágrafo inicial, que o resto afina pelo mesmo diapasão: "Enquanto disciplina, a arqueologia é um produto da modernidade ocidental e de relações de colonialidade contemporâneas. Neste texto discuto brevemente a arqueologia no contexto da descolonização do saber e da sociedade. De seguida, exponho quatro problemas centrais com que devemos lidar, seguidos de propostas de discussão ou exemplos de experiências descolonizadoras. O projeto descolonial está longe de ser uma mera abstração. Pelo contrário, é uma oportunidade para imaginarmos um mundo com justiça social".
O salto que vai deste ensaio para a notícia, e que me chamou a atenção para o trabalho deste arqueólogo, corresponde ao salto lógico a partir daqui: defender com unhas e dentes o mito de que escravidão e racismo estão intrinsecamente ligados, e a partir daí passar para o mantra do neo racistas: há uma história de escravidão que diferencia grupos sociais pela cor da pele (mesmo que sendo todos iguais, há uns grupos mais iguais que outros, como acontece sempre nestas opções que separam bons de maus a partir de um pecado original) e a cor da pele define a identidade das pessoas, não havendo espaço para os indivíduos serem o que são, sem primeiro discutir a cor da sua pele.
Haver quem ache que há alguma coisa de científico nesta base ideológica não deixa de me surpreender.
Agora que, segundo insistem e alertam os telejornais, está «mau tempo», eu vou aguardando para saber se essas más chuvas que caracterizam o «mau tempo» acaso terão aliviado a seca extrema em que o país estava ou ainda está, devido ao excesso de «bom tempo». E, já agora, gostava de saber se o «mau tempo» aliviou em alguma medida o estado das reservas de água nas barragens, que, devido ao «bom tempo», tinha atingido níveis alarmantes. Eu sei que é muito mais importante saber se uma cave em Algés ou uma rua no Porto ficaram com muita água «derivado» ao «mau tempo», mas aguardo informação sobre as colheitas e as pastagens (essas coisas despiciendas que nos dão comida e bebida) para saber se foram prejudicadas ou beneficiadas, e quais e com que consequências. E -- alheio e inconsciente como sou à importância de um aviso laranja «derivado» ao «mau tempo», o qual pode impor o extremo incómodo de guarda-chuvas -- aguardo para saber, ainda, se o risco sério de racionamento do consumo de água potável foi remediado ou não por essa coisa horrorosa do «mau tempo».
Eu julgo que, hoje em dia, seria considerado «mau jornalismo» da parte dos telejornais darem estas notícias que eu aguardo. Mas, obtuso como sou, parece-me que é mais o contrário.
É muito frequente ouvir "não entro em polémicas" a propósito de uma opinião que tenha escrito ou dito, nomeadamente na área da conservação e da gestão da paisagem, que são áreas nas quais tenho alguma competência técnica.
Não sei como é fora de Portugal, mas a mim parece-me que esta resposta frequente é mais uma declinação do famoso "o respeitinho é muito bonito" (por vezes, a observação é mais sofisticada e diz-se que não se pode deitar fora o bebé com a água do banho) que nos faz achar que porque o interlocutor é primo da cunhada da filha do senhor da mercearia, não devemos discutir o que diz ou faz.
Daqui resulta um ambiente social em que se aprende pouco e se evolui devagar, ao misturar-se a necessária contenção e boa educação de respeitar a pessoa que está à nossa frente e a desnecessária contenção e ausência de crítica de opiniões concretas dessa pessoa.
Na área da conservação, é quase um sacrilégio alguém dizer que é inacreditável que uma associação como a Liga para a Protecção da Natureza, ao fim de 75 anos, apenas tenha uns poucos milhares de hectares seus para dedicar à conservação e, pior, na esmagadora maioria dessas terras, a informação sobre objectivos, trabalho feito, acções programadas e resultados seja sistematicamente desvalorizada, não sendo fácil a qualquer pessoa saber o que se passa nessas terras.
A Rewilding Portugal, ao fim de meia dúzia de anos é dona e gere uma área de conservação da mesma ordem de grandeza, a Associação Transumância e Natureza ao fim de 23 anos é dona e gere talvez um terço da área da LPN, a Milvoz, em menos de dez anos comprou umas dezenas de hectares, a Montis ao fim de dez anos tem menos de 20 hectares seus e gere uns 300, portanto é perfeitamente legítimo perguntar por que razão as associações de conservação mais antigas e mais clássicas de Portugal (frequentemente, também as mais ricas) nunca se interessaram por gerir directamente terra, preferindo concentrar-se em tentar impor modelos de gestão a terceiros, frequentemente pela via da influência sobre o Estado.
Cada uma das associações que citei no parágrafo anterior tem objectivos diferentes e modelos de gestão diferentes, embora tenham todas objectivos de conservação da natureza a atingir pela gestão directa de terras.
É por isso inevitável que tenham divergências, que adoptem técnicas de gestão diferentes, ou mesmo que definam objectivos concretos diferentes: a Rewilding Portugal quer renaturalizar o vale do rio Côa e compra terrenos com esse objectivo, a Milvoz quer conservar terrenos com elevado valor de conservação na região em volta de Coimbra, a ATN quer renaturalizar as propriedades que foi comprando de modo a fazer um núcleo extenso e concentrado de elevado valor de conservação, a Montis compra ou gere terrenos em qualquer lado, preferencialmente terrenos sem interesse nenhum, mesmo do ponto de vista de conservação, procurando criar valor através da gestão, e poderia ir acrescentando outras organizações, como a Fundação Terra Agora, que passou a ter umas centenas largas de terra para gerir, há não muito tempo.
Se a Montis (a que estou mais ligado, de uma maneira ou de outra já tive contactos e, às vezes, bem mais que isso, com todas as organizações que citei) procura fomentar a discussão das suas opções (por exemplo, publicando relatórios como este sobre a reconversão de eucaliptais em duas das suas propriedades), na maior parte das organizações, o escrutínio, a discussão de resultados, a mera observação crítica de algumas das opções, é considerado polémica estéril e indesejável.
E isto é verdade neste meio que conheço bem, mas é extensível a grande parte da sociedade, em Portugal.
O resultado prático é que temos muita diversidade, o que é bom, mas progredimos muito mais devagar do que seria possível porque dessa diversidade não resulta uma discussão franca e alargada de opções e resultados, mas uma defesa corporativa de cada uma das organizações, do seu modelo e das pessoas que o executam (a persistência, por anos e anos, das dificuldades e entraves que o ICNF levanta ao uso extenso de fogo controlado em povoamentos florestais, por exemplo, só é explicável desta forma, tal como a persistência de outras políticas públicas de gestão do fogo que manifestamente não atingem os resultados esperados).
E, com isso, aprendemos todos muito menos do que poderíamos tendo em conta a diversidade de experiências que temos.
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Se o teu irmão te ofender, vai ter com ele e repreende-o a sós. Se te escutar, terás ganho o teu irmão. Se não te escutar, toma contigo mais uma ou duas pessoas, para que toda a questão fique resolvida pela palavra de duas ou três testemunhas. Mas se ele não lhes der ouvidos, comunica o caso à Igreja; e se também não der ouvidos à Igreja, considera-o como um pagão ou um publicano. Em verdade vos digo: Tudo o que ligardes na terra será ligado no Céu; e tudo o que desligardes na terra será desligado no Céu. Digo-vos ainda: Se dois de vós se unirem na terra para pedirem qualquer coisa, ser-lhes-á concedida por meu Pai que está nos Céus. Na verdade, onde estão dois ou três reunidos em meu nome, Eu estou no meio deles».
Palavra da salvação.
Um enorme tédio, e às vezes fastio, é o sentimento que nos assalta ao ver os telejornais nestes primeiros dias de Setembro, à falta de investigação um desafio à imaginação dos jornalistas que “editam a nossa democracia” como diz Miguel Poiares Maduro hoje no Expresso. Que saudades tenho do mês Agosto marcado no seu início pela intensidade da JMJ e, mais tarde, quando o alheamento à realidade naqueles mornos fins de tarde era voluntário. Não se passa nada, até o campeonato de futebol (nos relvados, não o dos comentadores) foi interrompido por duas semanas, para dar lugar aos jogos da Selecção, que sendo um enfado, simboliza materializa a mítica ideia de União Nacional. A mítica identidade nacional. Principalmente assiste-se ao desespero dos telejornais e comentadores de serviço fazerem render especulações sobre putativos-proto-candidatos a candidatos a presidente da república, um assunto por demais entediante e sobreavaliado. Ou sobre as frases ribombantes e promessas saídas das Academias ou Universidades de Verão que marcam a nossa infeliz “reentrada”. Não podíamos ter ficado em Agosto?
Nada, mas mesmo nada, se aproveita dos “editores da democracia” que nos inspire alguma esperança numa saída do profundo buraco em que o país, ligado à máquina, está atolado – nada funciona: nem os hospitais, nem as escolas, nem os transportes, nem os serviços públicos. Desistentes também, os jornalistas que têm de fazer pela vida, ainda tentaram fazer render os silêncios e murmúrios saídos de um inútil Conselho de Estado. O que me sobra destes desinteressantes tempos de interregno não sei bem de quê, é a certeza de que não há esperança, não há saída à vista desta mediocridade de regime. E o que mais temos a fazer, aqueles que puderem, é dedicar os tempos livres aos amigos, à música, à leitura, e a muita oração e súplica.

No próximo dia 7 de Outubro, terá lugar na Basílica Palácio de Mafra, pelas 15:00 horas, o primeiro casamento na Família Real Portuguesa em mais de 25 anos, o feliz enlace de S.A. a Infanta Dona Maria Francisca com Duarte de Sousa Araújo Martins. À maneira das ancestrais bodas reais que pautaram os 800 anos da monarquia portuguesa, esta grande solenidade reunirá naquele monumento erigido por Dom João V, múltiplos convidados, contando com personalidades de destaque da vida social e política dos quatro cantos do mundo, incluindo membros de famílias reais estrangeiras.
Este acontecimento merece ser festejado e a Real Associação de Lisboa, com o seu Núcleo do Oeste, está a preparar uma grande festa popular no Terreiro fronteiro à Basílica, aberto a todos quantos se queiram associar a este memorável acontecimento, a que não faltarão as acolhedoras gentes da vila de Mafra e de outros concelhos da região. O casamento, com transmissão televisiva, poderá ser seguido através de dois ecrãs gigantes instalados na praça, onde decorrerá um colorido programa de animação popular com a participação de ranchos folclóricos e outros grupos das diferentes regiões do país, sem esquecer o repicar dos carrilhões.
Nesse sentido convidamo-lo a vir a Mafra testemunhar com os seus familiares, no exterior da Basílica, este momento histórico, que queremos prestigie nacional e internacionalmente a Casa Real Portuguesa.
"Uma das medidas que gostaríamos de ver reduzidas em grande parte é a frequência de ignições neste território ... temos já alguns indicadores a nível local que nos permitem afirmar com alguma segurança que estamos a fazer as coisas bem. Uma das propriedades que nós comprámos há cerca de três anos, tinha até à data, nos últimos vinte anos, uma frequência de fogo que consumia toda a propriedade e o seus entorno a uma média de 2,7 anos, e desde que começámos a colaborar com alguns vizinhos, tanto na gestão de combustíveis com grandes herbívoros, como na vigilância ... com equipas de detecção e ataque rápido e um conjunto muito alargado de voluntários e embaixadores nas comunidades que nos permitem ter uma rede muito extensa de vigilância, não houve um incêndio desde então, o que quer dizer que pelo menos já superámos aquela frequência ... quer dizer que ... há soluções, até para problemas tão complexos como é o caso da frequência e intensidade do fogo nesses territórios rurais."
Pedro Prata, Rewilding Portugal, por volta da uma hora e cinco minutos neste programa da rádio Observador sobre o regresso do lobo.
Quando ouvi isto, comecei a procurar mais informação e a razão é simples: uma frequência de fogo de 2,5 anos é o mínimo em Portugal, evidentemente em áreas de fogo pastoril, mas dificilmente ocorre em grandes áreas.
No vale do Côa há alguns "hotspots" de fogo, dizem-me, com retornos à volta de 3,5, podendo haver pequenas áreas, localmente, com retornos menores.
A diferença entre 2,7 ou 3,5 anos de retorno do fogo parece pequena, mas é muito grande, é a diferença entre arder frequentemente com intervalos de dois anos ou arder com intervalor de três anos, o que está relacionado com a velocidade a que crescem as plantas e se acumulam combustíveis, sendo quase impossível, sobretudo em grandes extensões, que existam combustíveis acumulados disponíveis que permitam a progressão do fogo, ao fim de dois anos.
Por isso as pessoas com quem falei sobre esta taxa de retorno são bastante peremptórias a afirmar que é possível, mas em pequenos retalhos. Por exemplo: "em solo provavelmente rochoso onde cresce pouco mais que Agrostis e Festucas - prados secos que o fogo basicamente só chamusca as folhas exteriores, e logo que chova aquilo fica igual... coisa pequenina... Talvez nem 1 hectare".

Este boneco permite verificar que a informação objectiva é que na área em causa, o ponto com menor retorno do fogo é no outro lado do rio Côa, a propriedade em causa estará do lado esquerdo do rio, na imagem e, nesse ponto, o retorno anda perto dos cinco anos.
Vamos admitir, que há uma confusão entre a taxa de afectação da propriedade por ignições (há ignições na propriedade de dois em dois anos, ou de três em três anos) e a frequência com que arde totalmente a propriedade, tanto mais que é certo que o último fogo foi em 2017, um grande fogo de oito mil hectares que varreu toda a propriedade, porque esta discussão não é o mais relevante.
O mais relevante é a ideia de que reduzir ignições é uma questão fundamental para a gestão do fogo, e que esse será um caminho para se atingir um padrão de fogo natural, no pressuposto de que os grandes herbívoros, em densidade conveniente, fazem a gestão de combustíveis.
Repor padrão de fogo natural - com pressupostos não demonstrados de que as ignições naturais ocorrem sobretudo com as trovoadas, e portanto o fogo natural não ocorrerá no Verão - é pois a estratégia da Rewilding Portugal, sendo a supressão do fogo, através da supressão das ignições, o modelo de gestão da transição escolhido, tanto quanto percebo, em paralelo com o aumento da densidade de grandes herbívoros.
Quando se faz notar que referir ao mesmo tempo a redução de frequência e intensidade dos fogos é um contrassenso, de acordo com os ecólogos do fogo, a resposta é sobretudo ideológica: são ecólogos fascinados com o fogo, não são ecólogos do fogo, o que parece indiciar uma recusa da informação científica que se conhece, quando choca com os nossos preconceitos.
Pessoalmente tenho muitas dúvidas sobre estas opções, em grande medida porque se está a trabalhar em função de um modelo idealizado de natureza, esquecendo componentes importantes - por exemplo, mesmo que se introduzam herbívoros numa determinada localização, não vejo como se possa refazer o sistema de migrações de grandes grupos de herbívoros, que existia no passado, fundamental para garantir maiores densidades por períodos anuais menores e mais intermitentes - e não a partir de questões concretas de gestão do que existe.
Do ponto de vista colectivo, a minha opinião é completamente irrelevante, o que é relevante é haver vários grupos de pessoas a testar modelos de gestão diferentes, partindo de pressupostos diferentes, uns com mais fé no génio humano que permite usar o conhecimento para apoiar os processos naturais, outros com mais fé na força da natureza e nas vantagens de prescindir dos erros do génio humano nas opções de gestão.
Daqui a trinta, quarenta anos, estaremos em muito melhores condições que hoje para fazer opções de gestão da paisagem e do património natural, porque os diferentes modelos nos permitirão (aos que cá andarem, não aos que cá andam hoje) compreender melhor os resultados reais das nossas fantasias quando aplicadas ao concreto.
A diferença que vai da utilidade colectiva do que estas pessoas fazem, cometendo erros, sujeitando-se ao escrutínio, para a utilidade do que fazem as Gretas e Camargos deste mundo, é abissal.

Hoje assinala-se o nascimento de Camilo Pessanha, nome maior do simbolismo, ao lado de António Nobre, Eugénio de Castro, Alberto Osório de Castro. Ficou imortalizado pelo único livro de versos, "Clepsidra", síntese dramática do "eu", como se se apresentasse inacabado e sempre pronto para despontar nos dramas de cada nova geração (o sentimento de Pessanha é universal e intemporal).
Foi o grande inovador da linguagem poética, depois de Cesário e antes de Pessoa. As imagens poéticas desfilam enquanto elementos oníricos que elevam a própria densidade do verso. Os recursos de linguagem procuram interpretar o desmoronamento do sujeito poético; e, a síntaxe psicológica, traduz cada elemento que lhe assombra a alma.
Na palavra poética coincidem sons, aromas, sensações. Aqui, a poesia polariza-se nos extremos entre a sensualidade da paixão e as simples vivências sensoriais. Como Antero, mergulha na abstracção ontológica e na dúvida metafísica. E, como Nobre, chora sobre o paraíso perdido, as miragens da infância, os territórios insondáveis do passado, a ansiedase face ao futuro, como lembram os mais sublimes versos escritos na língua portuguesa: "Tenho sonhos cruéis; n'alma doente/ Sinto um vago receio prematuro./ Vou a medo na aresta do futuro,/ Embebido em saudades do presente..."
Pessanha mergulha no pessimismo do ser e desbrava as profundezas mais obscuras da alma humana (como Baudelaire, Verlaine...). Mas aí está a grande poesia, o confronto total entre as oposições íntimas que desafiam o verso. O poema é sempre um duelo entre o sentimento e a linguagem, neste prisma constitui-se o estilo e, na superação do conflito interno entre poeta e poema, eleva-se a grande arte.
No festival de Veneza, perguntaram a Woody Allen a sua opinião sobre a cena do Rubiales.
Woody Allen respondeu o que entendeu, basicamente que ele não viu nada de especial, mas que se foi inapropriado ou demasiado agressivo, há que dizer-lhe claramente que não volte a repetir e peça desculpa, embora lhe pareça excessivo que uma pessoa perca o seu trabalho e seja penalizado da maneira como está a ser o senhor Rubiales por causa do que se passou.
Quando o jornalista (do El País) insiste que a questão central é a rapariga não ter dado consentimento e ele ter uma posição de poder sobre ela, Woody Allen responde que sim, que isso é certo, mas que foi uma coisa pública, à vista de toda a gente, a rapariga não estava em perigo num gabinete à porta fechada. Claro que ela tem todo o direito a deixar claro que não queria o que aconteceu e ele tem o dever de pedir desculpas e garantir que não volta a acontecer. E feito isso, é seguir em frente.
Os promotores da moderna lapidação de mulheres adúlteras levantaram-se imediatamente, começando por perguntar por que raio é que é exactamente a Woody Allen que o jornalista faz a pergunta (noutra entrevista é-lhe perguntado qualquer coisa sobre o seu próprio comportamento e ele responde que trabalhou com centenas de actrizes e não há uma única queixa sobre ele, um pormenor desvalorizado por quem entende que os comportamentos dos abusadores se manifestam pontualmente e não em padrões consistentes ao longo do tempo, com certeza).
A pergunta é feita a Woody Allen porque é uma pergunta sempre ganhadora para os militantes da lapidação de mulheres adúlteras: se ele responde de forma politicamente correcta, é mais um escalpe que pode ser exibido, vejam que até o Woody Allen ataca o porco do Rubiales; se ele responde como respondeu, vejam como os únicos que defendem Rubiales são os abusadores como ele.
Que nisto se perca a noção de que ninguém está a defender Rubiales, mas a discutir a melhor maneira de uma sociedade decente lidar com situações socialmente condenáveis, e que se perca a noção de que Woody Allen foi absolvido nos processos judiciais contra ele e, como diz, tirando as acusações no contexto de uma separação traumática e litigiosa, não existem outras acusações de ninguém, é irrelevante para a beataria woke.
A linha de separação fundamental é entre as pessoas que ambicionam criar um homem novo, sempre decente e moralmente impoluto, através da lapidação de mulheres adúlteras, se preciso for, e os que, reconhecendo a natureza humana tal como ela é (o que estiver sem pecado que atire a primeira pedra) se limitam a querer sociedades mais decentes, com melhores mecanismos de resolução de dilemas morais e de relação entre pessoas necessariamente imperfeitas.
A civilização é um fino verniz, que estala à menor perturbação, e o que a distingue da barbárie é a capacidade da sociedade para interiorizar que é muito pior condenar um inocente que deixar impune um criminoso.
E agir de acordo com isso, de forma sistemática, mesmo quando há uma multidão a querer lapidar a mulher adúltera.
Eis mais um exemplo de uma imagem que vale mil palavras.

A imagem é do noticiário das 20 da Sic, hoje. Mostra o Primeiro-Ministro, que falava com o Presidente da República, a virar-se, a meter a manápula à frente do Chefe de Estado, e a dirigir-se e dirigi-lo para o que lhe interessava mais. E o que lhe interessava mais do que falar com o PR, era, na ocasião, a insignificância Mariana Vieira da Silva, que, ao que parece, acabara de chegar.
Marcelo não só obedece à manápula, como segue o dono dela, para cumprimentar também a insignificância.
E eu, espectador desta reveladora e triste cena, vejo-me saudoso de Mário Soares, que não teve medo nem contemplações na sua luta contra uma maioria absoluta -- que, no entanto, e ao contrário desta, tinha competência, e escrúpulos, e um programa, e deu progresso e riqueza ao país.
A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.
Anjos só no céu. O imobiliário rege-se pelas leis ...
Perdoe-me mas tem pouco ou nada a ver com "sociali...
Haver habitação digna a que todos têm direito segu...
Caro De cela.e.selaO Socialismo falhou, parcialmen...
Caro HPSMas é evidente que o "Preço" é instituído ...