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O tempo e o dinheiro dos jornalistas

por henrique pereira dos santos, em 03.08.23

Ainda a propósito das afirmações de Tiago Oliveira, absolutamente factuais, de que as Associações de Bombeiros são financiadas como uma fórmula que acaba a dar um peso enorme à área ardida e número de ocorrências (se alguém tiver dúvidas é ler a explicação de Joaquim Sande Silva, José Miguel Pereira e Paulo Fernandes que o Público publica hoje), isto é, existe um incentivo negativo para a resolver o problema, alguém comentava num post meu anterior sobre o assunto que era preciso que o jornalismo tivesse dinheiro e tempo para avaliar o que é dito no espaço público.

Em primeiro lugar, essa é a função do jornalismo, se abdica dela por falta de dinheiro e tempo, mais vale que os jornalistas se dediquem à pesca.

Mas mesmo que isso fosse justificação para não cumprir a sua função, se aparece um camarada de Olhão, a dizer que alguém com um curriculum sério de gestão do fogo não percebe os problemas do interior, não contestando nenhum facto e desviando a conversa, não é preciso nem tempo nem dinheiro para perceber quem sabe do que fala e quem fala sem saber o que diz.

É muito difícil mudar alguma coisa no país a partir do momento que tudo tem o mesmo valor para os jornalistas, eu dizer que a terra é redonda ou é plana é igual para o jornalismo e perante o espanto de se dar a mesma importância a quem diz que a terra é redonda ou plana, argumentar que os jornalistas não têm, tempo, dinheiro ou conhecimento para avaliar quem está certo, acho uma coisa extraordinária.

Mas sendo extraordinária, é o habitual na gestão do fogo, como se demonstra pelo importância que durante anos se deu a um bombeiro cuja principal contribuição para a gestão sensata do fogo deve ter sido a imorredoira afirmação de que o facto é que nunca nenhum fogo ficou por apagar, o que demonstrava a excelência do combate ao fogo feito pelos bombeiros.

O Tibunal de Contas constatar que há um incentivo negativo no financiamento das associações de bombeiros não é nenhum julgamento moral sobre os bombeiros, é verificar que financiar bombeiros através de uma fórmula em que a área ardida e o número de ocorrências pesam substancialmente nesse financiamento parece uma coisa tonta que é preciso corrigir.

Pedir a demissão de um responsável que se limitou a dizer isto, alto e bom som, aos deputados que nos representam, para ver se conseguimos sistemas melhores de convivência com o fogo, não é, com certeza, má fé, mas é seguramente falta de juízo e estudo do assunto.

E seria bom que os jornalistas percebessem bem que dizer que a terra é plana ou redonda não tem o mesmo valor, sendo evidente que, no caso dos fogos, já era tempo de dar menos importância aos terraplanistas.

Leão Ramos Ascensão e o Integralismo Lusitano

por Daniel Santos Sousa, em 02.08.23

 

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Depois de muitos anos desaparecido das livrarias (a primeira edição data de 1943)  voltou a ser publicado o livro de Leão Ramos Ascensão (1903-1980)  "O Integralismo Lusitano", pela editora Contra-Corrente. Em boa hora foi-me pedido para escrever o prefácio, onde procurei contextualizar a obra não apenas enquanto importante crónica política, mas também enquanto manifesto de combate. O autor não será hoje muito conhecido, afinal foi o mais jovem do movimento encabeçado por António Sardinha e que teve na dianteira as penas arrojadas de Hipólito Raposo, Luís de Almeida Braga, Pequito Rebelo e Alberto Monsaraz. Militante monárquico e historiador pertenceu a uma geração rebelada que jamais admitiu a "decadência portuguesa" (tese já antecipada pela Geração de 70 e que ganha na historiografia integralista uma nova ênfase).  Nos anos conturbados da Primeira República o Integralismo procurou superar dicotomias ideológicas e sintetizar um pensamento inspirado pela tradição portuguesa. Assim, a constituir o movimento, encontramos ora monárquicos desiludidos com a monarquia da Carta, ora republicanos desencantados com a República. Entre as especificidades que o demarcam doutros movimentos contra-revolucionários europeus, ou a matriz cultural e política que o define, vale a pena ler o livro de Ramos Ascensão para compreender as particularidades e características do integralismo num século XX que se radicalizava com as novas vanguardas políticas. Não obstante, este é, afinal, um capítulo, de uma história mais vasta do movimento monárquico português que entrecruza os caminhos e encruzilhadas da contra-revolução. Leão Ramos Ascensão foi assim um cronista de mérito cuja pena ajudou a imortalizar a memória daqueles anos de combate. Um livro a não perder.

 

Igreja

por João Távora, em 02.08.23

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Para aqueles que por ignorância ou má-fé se afirmam incondicionais fãs do Papa Francisco mas que deploram a Igreja Católica em geral e a portuguesa em particular, convém avisar que Francisco é a cabeça da Igreja global, sucessor de São Pedro. Não terão certamente reparado esses anticlericais que esta tarde, o Papa celebrou a oração das Vésperas no Mosteiro dos Jerónimos, justamente dedicada ao clero português, que diariamente leva a luz de Jesus Cristo, em palavras e acções, às mais recônditas comunidades e paróquias nacionais.

Obrigado querida Igreja, obrigado querido Papa.

Sorrisos inteiros e limpos

por José Mendonça da Cruz, em 02.08.23

Vêm de toda a parte e estão por toda a parte. E sorriem, isto sim, sorrisos inteiros e limpos. E alegres. Não vieram odiar ninguém, não vieram pedir nada, não trazem raiva para partir coisas, trazem a alegria de estar em comunidade, de estar presentes. Cruzarmo-nos com a frescura e contentamento dos milhares de jovens chegados para as Jornadas Mundais da Juventude, reconhecer a ausência de ressentimento ou ganância, ver-lhes o entusiasmo porque estão aqui, ou porque «vi o Papa!», é uma coisa que anima, serena e alimenta. Que bem compreendo a raiva que se acoita nos comentários televisivos, para de lá atirar lama.

Numa das suas numerosas demonstrações de grandeza intelectual e humana, o escritor Julian Barnes, ateu e homem bom, suspirava um dia: «A fúria do ateu ressuscitado, isso sim, seria um espetáculo digno de ser visto!» A fúria dos nossos ateus, consideravelmente mais raivosos, dos nossos anticlericais ressabiados, vaza-se nos comentários das tvs e do Público. A gente compreende-os e desculpa-os. Já esquecer será mais difícil.

E sim, além de inteiros e limpos, os sorrisos são iniciais, também, porque estes milhares de jovens não se ficam por aqui.

Nunca no meio deles

por henrique pereira dos santos, em 02.08.23

É extraordinário o azedume que por aí anda por haver uma organização que junta milhares de pessoas, sem que haja, até agora, um carro incendiado, uma montra partida, barricadas por todo o lado e essas coisas de que frequentemente se alimentam as notícias.

O clericalismo é um defeito das igrejas mais estruturadas, semelhante ao problema da endogamia das universidades, o fechamento dos partidos ao exterior ou a defesa da lógica interna das empresas contra o bem comum, mas isso não torna o anticlericalismo, interno ou externo às igrejas, numa virtude por si só.

O azedume das elites que há séculos falam do alto da sua superioridade moral e intelectual e que associam obscurantismo à religião, ao mundo rural ou, mais genericamente, à simplicidade da adesão a uma ideia ou um conjunto de ideias, bem visível por estes dias, corresponde à enésima declinação de um velho princípio da esquerda revolucionária: sempre, sempre ao lado do povo, mas nunca por nunca no meio deles.

"Católico (mas pouco)"

por henrique pereira dos santos, em 01.08.23

Não tencionava escrever sobre as jornadas mundiais da juventude, fosse sob que ponto de vista fosse.

Mas ao ler a capa do Público, que qualifica Portugal como país "católico (mas pouco)", achei curioso e resolvi escrever este post, depois da epifania que se seguiu à leitura do jornal.

Fui ver qual era a razão para o Público escrever na capa esta revelação.

Sem estranheza, era um peça de Natália Faria, uma anticlericalista militante que escreve no Público sobre a Igreja Católica (estive para escrever que escrevia sobre religião, mas não a associo às questões religiosas fora do paroquial anticlericalismo militante que existe em Portugal, sobretudo entre as elites, há mais de trezentos anos, embora se achem sempre moderníssimos).

Toda a peça se baseia em declarações de uma senhora Teresa Toldy, que apresento de seguida:

"Teresa Maria Leal de Assunção Martinho Toldy é doutorada em Teologia (área da Teologia Feminista) pela Philosophisch-Theologische Hochschule Sankt Georgen (Frankfurt/Alemanha), Mestre em Teologia (ramo de Teologia Sistemática) pela Universidade Católica Portuguesa, Licenciada em Teologia pela Universidade Católica Portuguesa. Pós-doutorada pelo Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra. Professora Catedrática da Universidade Fernando Pessoa (Porto), onde ensina Ética. Investigadora do CES integrada na Linha Temática "Democracia, justiça e direitos humanos". Co-coordenadora do Grupo de Trabalho POLICREDOS, juntamente com Júlia Garraio e Luciane Lucas Santos, bem como do grupo de trabalho GPS, juntamente com Ana Cristina Santos e Madalena Duarte. Vice-Presidente da Associação Portuguesa de Estudos sobre as Mulheres, entre 2009 e 2014. Membro do Conselho Editorial da coleção e da revista da ESWTR (Studies in Religion), associação à qual pertence. Domínios de Especialização: Religião; Estudos feministas. Outros domínios: Cidadania. Com várias publicações na área da religião, género e estudos feministas".

Pois bem, no essencial, embora 80% da população portuguesa se declare católica nos censos (para minha surpresa, pensei que hoje fossem menos as pessoas a declarar-se católicas), na verdade, de acordo com o Público, não são nada católicos.

Lapidarmente (diz Natália Faria, que se declara jornalista, mas faltam-me estudos para me meter nessa discussão), Teresa Toldy explica que perguntados sobre a relação entre o pagamento de impostos e a sua filiação católica, a esmagadora maioria dos que se dizem católicos não sabem responder, portanto, são católicos que nem conhecem a doutrina social da Igreja, portanto não são católicos a sério.

Coitados do Santo Agostinho ou se São Tomás de Aquino, que nunca puderam ser católicos porque nessa altura ainda se estava muito longe de haver uma doutrina social da Igreja.

Toda a gente sabe que a parte substancial dos dez mandamentos é sobre a Autoridade Tributária, o que quer dizer que o facto de uma pessoa se declarar católica sem conhecer a doutrina social da Igreja só quer dizer que, afinal, não é nada católica.

Lá ser um homem, ter um cromossoma Y e outro X, mas declarar-se mulher, sim senhor, não há discussão possível sobre isso, agora uma pessoa declarar-se católico é que nem pensar, é preciso passar pelo crivo de Teresa Toldy e, consequentemente, pelo crivo do Público.

Não é católico quem quer, era o que mais faltava, católicos, católicos, em Portugal, são uma quase inexpressiva minoria com que nem vale a pena contar, diz o Público e, se calhar, diz muito bem.

Jacobinos com o rabo de fora

por José Mendonça da Cruz, em 01.08.23

Missa no Parque Eduardo VII: enquanto jovens de vários países leem mensagens nas diversas línguas presentes, a Sic tem Azeredo Lopes a comentar em cima das mensagens e dos cânticos (sim, Azeredo Lopes, não perguntem!); a Tvi e a CNN têm comentadores a comentar em cima das mensagens e dos cânticos; a RTP tem comentadores a comentar em cima das mensagens e dos cânticos. Impecável, a CMtv traduz em simultâneo as mensagens, mediante transcrições que estavam disponíveis e de que se muniu, e depois transmite a missa, porque está a transmitir a JMJ e agora é a missa. A Sic dá o boletim meteorológico e anúncios proclamando que transmite a JMJ muito bem.

[O que, sendo previsível, no entanto dá vontade de dizer: «Eh pá, sejam homenzinhos,  sejam jornalistas. Vejam as coisas assim: quando dão futebol não cortam o som para pôr um comentador a dizer que o futebol é a perdição das massas, o futebol fomenta a violência, o futebol é o ópio do povo, não atalham com comentadores que odeiam futebol a dizer como o futebol devia ser para ser como eles gostam, não, pois não?! Vá lá, sejam crescidinhos, usem o outro neurónio!»]

O revolucionário urbano

por João-Afonso Machado, em 01.08.23

Reza Tsagathi - eis um nome para mim desconhecido até à leitura do jornal de ontem. Afinal parece ser um influente personagem dirigente de uma organização fiscalizadora dos severos costumes islamitas no Irão. Nesse Irão tão à frente no número das condenações à morte cá no planeta - condenações essas, aliás, executadas muito simplesmente pendurando os supliciados pelo pescoço numa corda atada ao braço de uma grua. Em público, o cadáver deixado uns tempos assim em banho-maria, à vista e para exemplo de todos.

Pois, parece, Reza Tsagathi foi descoberto num imbróglio de escândalos sexuais em que ele seria o mentor e os demais - ignoro se criancinhas, se homossexuais. Tenho para mim que nem por isso o seu poder ou a sua influência saíram abalados com a novidade...

... E hoje procurei avidamente na Imprensa, nos blogs, qualquer comentário, uma palavra-de-ordem, um protesto dos nossos heróicos defensores lusos dos direitos das minorias e dos explorados. Nada!!! Um silêncio absoluto! Esses ilustres contestatários de latrina estão demasiadamente ocupados com a JMJ.

É que o Papa vem aí, ameaçando os direitos do agnosticismo e do ateísmo.

Porque, bem vistas as coisas, a religião - leia-se: o catolicismo - nunca deixou de ser o «ópio do povo». Há que lhe soltar os cães! E a pena capital, a poligamia, a burka, somente aspectos pitorescos de um universo que, por não ser o ocidental, - o burguês, o capitalista - não merece nos detenhamos nele. Assim "pensa" e procede o revolucionário urbano.

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