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Recordar Eça

por Daniel Santos Sousa, em 16.08.23

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Na efeméride de hoje assinala-se a morte de Eça de Queirós. Mais do que o analista da sociedade foi o cultor primoroso do verbo, o perfeccionista da palavra, o esteta da língua. Eça esteve para Portugal como Flaubert esteve para a França. Mais do que um Zola, que ambicionou ser, todavia, não alcançando a monumentalidade: enquanto o autor da coletânea genealógica dos “Rougon-Macquart” escrevia de rajada e acumulava lombadas na ânsia de perscrutar ao ínfimo detalhe a psicologia e natureza da sociedade burguesa, como outrora Balzac também o fizera; Eça, por sua vez, trabalhava como um pintor no seu estúdio a analisar as cores, as formulações, os traços e medidas necessários para que a obra alcançasse a pureza e a sublimidade, mesmo sabendo que a perfeição é inalcançável para os comuns mortais.

Independentemente daquele primeiro Eça, absorto no positivismo, o relativista que tudo descredibilizou, há um outro Eça consagrado e realizado que novamente encontrou um sentido à sua escrita. E não tivesse morrido naquele ano (com 54 anos), tivesse assistido à pérfida transformação que se seguiria, talvez, como Ramalho em "Carta de um Velho a um Novo", tivesse finalmente consumado a transição para um patriotismo sereno, lúcido e congruente e que, na realização dos princípios, novamente reencontrasse o fio condutor do destino português.

Contrariamente ao Eça que abjurou a religião em "O Crime do Padre Amaro" e delapidou a sociedade romântica e burguesa penetrando nos vícios venéreos e psicoses, "O Primo Basílio" e "Os Maias", outro Eça emergiu. O patriota que procurou reencontrar o destino e fim do espírito português ("A Ilustre Casa de Ramires") e, ao cosmopolita internacional, que tudo vilipendiava, agora o homem reconciliado com a terra e com a província ("A Cidade e as Serras"), que nem deixou de escrever um livro sobre a vida dos Santos, sepultando um jacobino anacrónico que anunciava já a morte das certezas absolutas do cientismo de oitocentos.

Era também a evolução de uma geração. Uma evolução não apenas constatada na geração "velha", mas vivificada também na geração "nova", que cresceu entre o ultimatum e a República. Esses que seriam os "Filhos de Ramires" sentiriam no seu âmago uma igual transição - nasceu ali o Integralismo Lusitano.

Mas de resto, Eça não deixou de ser um filho do seu tempo, para o qual emprestou talento e audácia. Foi um revolucionário na arte ao mesmo tempo que conseguiu ser um esteta primoroso. Um grande artista não é aquele que petrifica no seu tempo, mas sim aquele que consegue alcançar uma elevação completa do esprito e ultrapassar a modorra da mortalidade. Assim foi Eça.

A caridade da família Azevedo

por henrique pereira dos santos, em 16.08.23

Como é do domínio público, o Público existe pela vontade e é sustentado pela caridade da família Azevedo.

Não me lembro de ter visto Bordalo II, os jornalistas do Público ou muitos dos que descobriram agora o conceito de custo de oportunidade aplicado aos recursos de terceiros, protestar contra o facto da caridade da família Azevedo estar a ser aplicada em gente da classe média/ alta, como são os jornalistas do Público, quando há tanto miserável sem mesa e sem tecto.

Um bom exemplo é o facto da caridade da família Azevedo servir para pagar os escritos de uma das pessoas mais brilhantes que Fernanda Câncio conhece, de que deixo aqui um pequeno exemplo: "Antes de André Ventura, não era costume vermos políticos e partidos políticos a mentir e a difundir notícias falsas. Há aqui uma novidade".

E, no entanto, há tanta gente sem mesa e sem tecto.

Aljubarrota

por Daniel Santos Sousa, em 15.08.23

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"A nossa existência encher-se-á dum sabor de virtude e de heroísmo, por onde há-de regressar à nossa terra o património esquecido da sua glória e da sua grandeza. Só assim seremos dignos da pátria que nos foi transmitida como um bem de família e que, como um bem de família, é preciso defender e conservar!"

António Sardinha, in "Na feira dos mitos"

(imagem: Voto de D. João I a Nossa Senhora da Oliveira na Batalha de Aljubarrota.)

 

 

 

"Não, os ecossistemas não recuperam todos após fogo"

por henrique pereira dos santos, em 15.08.23

Com o título deste post, Jorge Capelo escreveu um artigo para o Público, o que é muito raro e é de saudar.

Conheço bem o Jorge e aconselho vivamente que se leia o que escreve.

Conheci-o pessoalmente, já tinha ouvido falar bastante dele, numa situação estranha quando eu era vice-presidente do ICN.

Tínhamos chumbado um empreendimento turístico num processo de Avaliação de Impacte Ambiental, em grande parte por causa da presença de um habitat incompatível com o projecto.

Houve uma reclamação do promotor, apoiada pela Direcção-Geral de Turismo e num extenso parecer de um distinto académico e fitossociólogo que garantia que o habitat não existia na área do projecto.

Imediatamente disse que a divergência era fácil de resolver, íamos todos para o campo, ICN, DGT e promotor, levassem o consultor deles que o ICN lá estaria para verificar se a reclamação era justa.

Eu nem sabia que em grande parte a identificação do habitat tinha sido feita por técnicos externos, no caso, Jorge Capelo, de maneira que nem sabia quem ia da parte técnica do ICN e fomos todos para o campo (se fosse um insecto, uma ave, um mamífero, este método de resolver divergências era mais difícil de aplicar, mas os habitats não andam a saltitar de um lado para outro).

Lá se encontrou o habitat, o consultor do promotor explicou que quando foi visitar a área não o tinham levado por aquela estrada, e assunto ficou resolvido, não sem que o Jorge, que não me conhecia, tivesse deixado claro que agradecia que nunca mais o colocassem naquela posição, em que esteve visivelmente incomodado, mas com o rigor e a segurança que o caracterizam em fitossociologia.

O Jorge é das duas ou três pessoas a quem recorro quando tenho dúvidas sobre um ou outro aspecto da vegetação potencial natural em Portugal, sendo outra das duas ou três pessoas um grande compincha profissional, e penso que amigo pessoal do Jorge, o Carlos Aguiar, de que falarei também neste post.

Os dois estarão com certeza na lista dos dez melhores botânicos de Portugal que qualquer pessoa minimamente informada faça e se eles dizem que uma coisa é assim, na área deles, eu passo a considerar que é assim, mesmo que tenha dúvidas de interpretação.

Por causa deste artigo, o Jorge e eu trocámos uma série de mensagens, porque não me parecia que o Jorge estivesse a olhar para o assunto de uma forma compatível com a história das nossas paisagens, achei o artigo especulativo, o Jorge acho que era uma interpretação baseada em factos demonstráveis, portanto parecia-lhe que qualificar o que escrevia como especulação era injusto.

Diz o Jorge que há o risco dos carvalhais do Sudoeste de Portugal, de carvalho-de-monchique, carvalho-cerquinho e carrasco-arbóreo desaparecem por causa de fogos como o que houve em São Teotónio, substituídos por carvalhais mais mediterrânicos, com maior dominância do sobreiro (o que me ri com a preocupação do Jorge em ver tudo reconduzido a matas de sobreiros e charivari que por aí vai no movimento ambientalista por causa de uns cortes de sobreiros, não tendo a menor dúvida de que o Jorge tem mais razão que o resto do povo, como de costume).

O próprio Jorge, num comentário posterior numa discussão sobre o artigo, resolveu resumir os seus argumentos, muito bem resumido: "Os carvalhais do SW com plantas laurifólias são relíquias climáticas pré-mediterrânicas, funcionalmente pouco adaptadas ao fogo, os processos sucessionais atuais sugerem fortemente que o com o agravar, ou persistir, do regime de fogo, são gradualmente substituídas por vegetação mediterrânica mais adaptada ao regime de fogo.(ex. sobreiros). Podemos estar a assistir ao desaparecimento dos últimos. Por protegidos que tenham estado, com as condições atuais da paisagem contemporânea hipertrofiada de biomassa e clima adverso favorável a regimes de fogo severos, nada faz pensar que tais ecossistemas antigos se possam restabelecer plenamente. Não é isso que vejo ao reconstruir as sucessões por observação comparativa no terreno.O regresso ao estado inicial em tais comunidades de plantas não é plausível. Há sempre histerese que se traduz por empobrecimento estrutural, funcional e até perda de espécies. Tudo o que vemos, são florestas secundárias e versões empobrecidas por 5 mil anos de fogo. Como exceção, as relíquias são isso mesmo.
Tal como alego no artigo (Q.E.D. pelo que tenho falado hoje e que já sabia) - existe na comunidade de especialistas do fogo a convicção enviesada, parece-me, de que o restauro dos ecossistemas após o fogo é pleno e universal. É verdade para muitos casos de ecossistemas mediterrânicos. Mas eu alego que há alguns casos em que isso não se aplica e que neles a inevitabilidade do fogo deixa menos esperança na sua recuperação.
(P.S. nem os urzais que ardem há milénios, sob regimes de fogo intenso resistem, por vezes, muitos transform-se em prados de gramíneas sobre solos erodidos), quanto mais carvalhais com Prunus lusitanica, Ilex, Myrica faya, Rhododendron e azevinhos).".

Como o post vai longo, e ainda vai ficar mais longo, vamos então aos pontos da discussão em que acho que o Jorge tem uma visão pouco razoável da história dos sistemas naturais, o que o leva a falar do fogo sem destacar a principal questão que levanta, embora lateralmente, e que vale a pena discutir seriamente: a alteração do padrão de fogo.

"existe na comunidade de especialistas do fogo a convicção enviesada, parece-me, de que o restauro dos ecossistemas após o fogo é pleno e universal".

Não sei de que comunidade fala o Jorge, eu seguramente não faço parte de qualquer comunidade de especialistas do fogo, mas falo muito com gente que, essa sim, é especialista em fogos. Não conheço um único que subscreva a tese de que o restauro de ecossistemas é sempre pleno e universal.

Lembro-me de que quando tinha um cargo dirigente no ICN, não me lembro qual, com tutela sobre a gestão do fogo (nessa altura ainda as florestas e a conservação era sectores administrativos diferentes), perante a necessidade de afectar meios à gestão do fogo, por razões de conservação, se procurar agrupar os habitats protegidos com base numa matriz de duas entradas. Não me lembro dos nomes, mas de um lado avaliava-se a a relevância de conservação do habitat e por outro avaliava-se a probabilidade de recuperação pós-fogo, isto é, se ardendo, era de esperar uma recuperação rápida e "plena" (para usar o termo do Jorge) ou, pelo contrário, se a recuperação era muito complicada (por exemplo, lembro-me dos zimbrais do vale do Douro, habitats razoavelmente raros, que não serão dos que mais ardem, mas que se arderem podem significar a perda do habitat, pelo menos a nível local).

A ideia era criar zonas em que não valia a pena (ou era mesmo contraproducente, do ponto de vista de conservação) gastar recursos no combate ao fogo (por exemplo, os prados de calcáreos com orquídeas são prioritários do ponto de vista de conservação, mas precisam e beneficiam de perturbações periódicas como o fogo, para não evoluírem para habitats mais vulgares), e zonas em que se deveriam adoptar políticas de supressão do fogo, como nos referidos zimbrais.

Nada disto teve continuidade, como é vulgar na administração pública, mas exemplifica a ideia de que, ao contrário do sugerido pelo Jorge, há distinções relevantes de risco associado ao fogo em quem olha para o fogo como um elemento natural com que é preciso contar, considerando que o fogo não é uma probabilidade, mas uma certeza.

Carlos Aguiar (um dos meus orientadores de doutoramento), tem vindo repetidamente a chamar a atenção para uma questão diferente.

Penso que a primeira vez que o li ou ouvi a este propósito foi sobre os cervunais da serra da Estrela.

Os cervunais são um habitat associado ao pastoreio e ao fogo, e há séculos que convivem com o fogo.

Mas o fogo pastoril (muito frequente, menos intenso, em mosaico e tipicamente no Outono/ Primavera) é muito diferente do fogo do abandono, menos frequente, mas mais intenso, mais contínuo e tipicamente no Verão. A consequência é que a matéria orgânica do solo, que não é afectada (mais rigorosamente, a ser afectada, é-o positivamente) pelo primeiro padrão de fogo, é afectada pelo segundo padrão de fogo.

Carlos Aguiar tem excelentes videos e textos no site do Life Maronesa em que explica e mostra os efeitos desta alteração do padrão de fogo em habitats de montanha, como refere o Jorge Capelo, quando dá o exemplo dos urzais.

Este aspecto, o dos diferentes efeitos de diferentes padrões de fogo, é realmente uma discussão que é preciso fazer, não estou convencido com os argumentos do Jorge sobre o risco de afectação dos valores que refere - essencialmente porque há cinco mil anos, pelo menos, que tudo o que está na nossa paisagem convive com fogo e pastoreio, e há muitos mais anos que convive com fogo - mas tenho poucas dúvidas sobre a necessidade da discussão sobre os efeitos da alteração do padrão de fogo que tem vindo a ocorrer, em simultâneo com a recuperação dos sistemas naturais.

Mais que isso, na dúvida, em relação a sistemas naturais reliquiais como os que refere Jorge Capelo, parece-me sensata a adopção de uma política de supressão do fogo, pontual, dirigida especificamente a esses valores naturais, até que tenhamos mais informação.

A questão de fundo, é que as abordagens do Jorge e minha têm implicações de gestão substancialmente diferentes: o Jorge fala dos riscos do fogo em abstracto, em falo dos riscos da alteração do padrão de fogo, o Jorge não conclui, mas sugere, que se deveria evitar a presença do fogo nestes sistemas, eu admito que até se pode pensar nessa hipótese, mas que isso implica mais fogo nos sistemas envolventes, e não menos.

Resumindo, a questão não é o fogo, a questão é o modelo de gestão que nos permite escolher o padrão de fogo adequado a cada parte do território, sabendo que o fogo é um elemento natural inevitável e essencial à evolução dos sistemas.

Mesmo que o Jorge tivesse inteiramente razão em tudo o que diz, qualquer política assente na ideia de que é possível evitar sempre o fogo num determinado sítio, seria uma política condenada ao fracasso, mais tarde ou mais cedo.

Um comentário final para fazer notar que li algures que um povoamento relevante de carvalhos de monchique na área do fogo de São Teotónio não chegou a ser afectado. É natural que assim seja, os habitats reliquiais que convivem mal com o fogo, de maneira geral, estão confinados a localizações desfavoráveis ao fogo. Geralmente estão em posições fisiográficas que lhes permitem ter uma humidade relevante e não estar expostos aos ventos que dominantemente conduzem os fogos, quando o combustível é abundante e contínuo.

O risco, provavelmente, é bastante pequeno, mas estando nós a falar de pequenas manchas de valores naturais reliquiais, seria bom que nos puséssemos de acordo sobre os melhores modelos de gestão para conviver com o fogo, diminuindo o risco para estas manchas reliquiais.

Dos portugueses sem peso no Portugal mais pesado

por João-Afonso Machado, em 14.08.23

E pronto, está aí a polémica do costume. Iam lá algumas centenas de intelectos urbanos deixar que o a ponte pedonal do Trancão usasse o nome do Senhor Cardeal Patriarca?! Do nosso Chefe da Igreja Católica Romana?! Não - Saúde e Fraternidade!!! - seja outra a designação, nem que seja nenhuma (porque nenhuma é apresentada em alternativa)! Um milhão e meio de fieis presentes na vigília e na missa seguinte serão um milhão e meio de alucinados. E os mais que assistiram devotamente pela televisão nem dignos são da estatística do muito usual share.

É o momento demonstrativo da ditadura em que vivemos neste afogo ideológico. Uma ditadura esperta que nos deixa - tanto quanto - falar mas depois decide por si. Através da sua ético-possidoneira. Com todo o fel em que se proclama de mel.

E melosa invoca razões humanitárias. Melosa enfelga a Igreja, os seus fieis, a identidade dos portugueses. Se falo numa petição que numericamente só vale 0,1% dos participantes no lado mais visivel das JMJ? Antes fosse...

Eu falo de meia-dúzia de próceres do jacobinismo sempre presente e falo ainda - e principalmente - de centena e meia de deputados que decidirão a final, escorados num espúrio poder do voto um tempinho depois dos abraços ao Papa e da contabilização dos ganhos financeiros com a sua vinda a Portugal. A modos da mais farisaica passagem bíblica.

Remato com esta verdade: a ponte que melhor simboliza a III República é a de Castelo de Paiva. A tal que ruiu em 4 de Março de 2001, com mais de 60 almas indo na morte Douro abaixo. Bem fez, preventivamente, o então Ministro dos Assuntos Internos, Jorge Coelho, em demitir-se. Qualquer Ministro do Interior na II República de Salazar, à cautela, não procederia de modo diferente.

O problema da tecnocracia

por henrique pereira dos santos, em 14.08.23

"Um incêndio, qualquer que seja a sua natureza, é um fenómeno físico-químico que envolve combustão, libertação de energia, transferência de calor e convecção. Trata-se, por isso, de fenómeno do foro científico que deve ser tratado com o rigor que as ciências exigem. Assim sendo, no que se refere a incêndios florestais, não me venham falar em algo que não é mensurável, tal como "estrutura de materiais" e "forest structure". E, por favor, não me falem numa quantidade de "5 mil metros cúbicos por hectare" pretendendo com isso, presumo eu, porque esse é o aspecto relevante, referir-se a uma carga térmica (energia) cuja unidade do SI é o Joule. Ademais, as unidades de volume têm mais aplicabilidade em fluidos, não se destinando geralmente à quantificação de sólidos, a menos que quem escreve "5 mil metros cúbicos por hectare", referindo-se a bio-massa por unidade de área, compre batatas ao litro ou se trate de madeireiros, que compram madeira ao m3. Como o HPS não será madeireiro e não comprará batatas ao litro, talvez devesse respeitar um mínimo de rigor em assuntos que são do foro científico. E por falar em ideias vagas, vou aqui fazer umas contas rápidas para se ficar com uma ideia do que significará ter -se 5000 m3 de bio-massa por hectare em termos de carga térmica. 1 ha = 10000 m2 5000 m3/ha = 0,5 m3/m2, o que equivale a ter-se uma manta de bio-massa com 0,5 m de espessura média no terreno, admitindo que "1 m3 é mesmo um metro cúbico" e não outra coisa qualquer de que não faço a mínima ideia do que se trate; admitamos um poder calorífico inferior médio da bio-massa = 14 MJ/kg; admitamos uma massa específica da bio-massa = 90 kg/m3, um valor que julgo caracterizará razoavelmente bio-massa lenhosa com baixo teor de humidade ("The bulk density of fresh bi omass is in the ranges of 80-100 kg m 3 in agricultural residues and 150-200 kg m 3 in woody biomass [9]."); logo carga térmica/m2 = 0,5 m3/m2 x 90 kg/m3 x 14 MJ/kg = 630 MJ/m2 carga térmica/ha = 6 300 000 MJ/ha Convertam-se agora estes valores para os equivalentes em litros de gasóleo 1 kWh = 3,6 MJ 1 m3 = 1000 l poder calorífico inferior gasóleo = 10 150 kWh/m3 = 36 540 MJ/m3 = 36,5 MJ/l logo carga térmica/m2 = 630 MJ/m2 = 17,2 l de gasóleo/m2 carga térmica/ha = 6 300 000 MJ/ha = 172 414 l de gasóleo/ha Conclusões: - a hipótese "1 m3 é mesmo um metro cúbico" é falsa, devendo ser os tais 5000 metros cúbicos extraordinariamente porosos e ficando por saber que massa (kg) ou energia (J) representam; - impossível converter "5000 m3 de biomassa por hectare" numa carga térmica de valor razoável e ninguém saberá com rigor o que isso representa em Joules; - resultado previsível de ideias vagas, tão vagas que se fica sem saber, ou se sabem, do que estã o a falar. PS - Ainda não li, mas pretendo ler o artigo que mencionou e tenciono voltar aqui para tecer comentários."

Este longo comentário pretende demonstrar que quem faz uma proposta de pagar 100 por hectare de três em três anos a quem mantiver os seus terrenos com menos de 50 cm de altura da vegetação herbácea e arbustiva não faz a menor ideia do que está a dizer (a quantidade de especialistas instantâneos em gestão do fogo é uma das maiores dificuldades para a definição de políticas públicas que permitam a gestão sensata do fogo).

Comecemos pelo princípio, um fogo é uma reacção química que liberta energia a partir da degradação das cadeias químicas de um combustível, precisando da existência de um comburente, geralmente oxigénio e de uma ignição (isto é, uma quantidade de energia inicial tal que inicie a combustão, que se autoalimenta enquanto houver combustível e comburente, isto é, enquanto a energia libertada na reacção for suficiente para inflamar o combustível disponível, questão que depende do tempo de residência da chama e da dimensão e secura dos combustíveis disponíveis).

Isto é do domínio das ciências exactas.

Mas os fogos florestais não são isto, são processos muito mais complexos, envolvendo as pessoas e a sua vida quotidiana e, por essa via, são processos sociais.

O que está em causa é saber que padrão de fogo se pretende (uma opção social), padrão esse caracterizado pela frequência, intensidade e continuidade do fogo, e de que forma é possível gerir os combustíveis disponíveis para obter o resultado, insisto, social, que se pretende.

Daí que as contas apresentadas pelo simpático comentador sejam completamente inúteis, porque pressupõem uma densidade e estrutura do combustível que não tem qualquer relação com o que existe na natureza.

Há quem tenha feito as contas, há quem tenha estudado o comportamento do fogo em situação real e por isso há quem saiba duas coisas fundamentais: 1) o que comanda a frente de fogo são os materiais que têm até 6mm de diâmetro (quem quiser estudar o assunto pode começar por compreender que um fogo florestal é chama em movimento, com um tempo de residência relativamente curto, pelo que tem dificuldade em transmitir a chama para combustíveis de maior calibre porque não produz, por tempo suficiente, energia que permita a inflamabilidade de materias de maior calibre); 2) a quantidade e estrutura, isto é, a forma como se organizam no espaço estes combustíveis finos é determinante na facilidade de propagação do fogo (por isso nas savanas os fogos são muito rápidos, mas acabam depressa porque o combustível é de muito pequeno calibre e organiza-se no espaço com muita porosidade, questão que o comentador intuiu, correctamente, e nos solos da tundra o fogo pode durar meses sem nunca produzir chamas relevantes, porque existe muita matéria orgânica, mas numa organização no espaço com tal densidade que o fogo é controlado pela disponibilidade do comburente).

Daí que quem estudou o assunto, fez medições em situação real, etc., saiba que quando a altura da vegetação herbácea e arbustiva (sim, é uma estrutura espacial de combustíveis muito porosa, por isso permite que o fogo seja controlado pelo combustível, practicamente sem restrições do comburente, tanto mais que os fogos mais relevantes ocorrem em situações meteorológicas de elevada secura, o que reduz a quantidade de energia necessária para inflamar os tais combustíveis finos, e com ventos fortes, que favorecem a oxigenação e aumentam a intensidade da reacção química que está a ocorrer) ultrapassa os 50 cm num terreno, a quantidade e estrutura de combustíveis torna a gestão do fogo muito difícil, quando ocorre em situações meteorológicas extremas.

Claro que estes 50 cm são simplesmente uma aproximação socialmente gerível, claro que dependendo das formações vegetais em causa pode ser excessivo ou não representar risco de maior, mas voltamos ao que é dito no princípio, o mundo não é um laboratório de condições controladas, o mundo é o que é e as políticas públicas que pretendam ter profundidade social têm de ser geríveis e compreensíveis para as pessoas comuns.

O que está em causa é mesmo ter uma política que leve as pessoas a gerir combustíveis finos, que seja comportável para os impostos dos contribuintes e que seja gerível para o Estado e as entidades de controlo.

Para isso, discutir o sexo dos anjos só atrapalha.

A guerra nas ruas

por João Távora, em 14.08.23

Pouco tempo depois do meu pai morrer, há quase 30 anos, a família recebeu em casa uma acta assinada da assembleia municipal em que se aprovava, por unanimidade, a atribuição a ele de um nome de rua - falou-se que seria na zona oriental então em crescimento. Evidentemente tal nunca se veio a concretizar. Bom é fingirmos que a toponímia de Lisboa não reflecte uma batalha política controlada pela esquerda radical. Aqui chegados, os nomes das ruas, praças e avenidas da nossa cidade não reflectem o valor dos protagonistas da nossa vida pública, reflectem a ideologia dominante promovida por uma escassa minoria.

Entretanto assinemos esta petição

PS: Entretanto o Patriarcado de Lisboa emitiu o seguinte comunicado, que  um Senhor que é Senhor não aceita uma luta na lama:

O Patriarcado de Lisboa informa que D. Manuel Clemente pediu para não se efetivar a atribuição do seu nome à ponte ciclopedonal sobre o rio Trancão. Agradece a atenção da Câmara Municipal de Lisboa, mas não quer, de modo algum, que a atribuição seja causa de divisão, ou que alguém se sinta ofendido. A Jornada Mundial da Juventude, quis ser, muito pelo contrário, uma ocasião de reencontro de todos, em favor de uma sociedade mais justa e solidária.

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Domingo

por João Távora, em 13.08.23

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo S. Mateus

Depois de ter saciado a fome à multidão, Jesus obrigou os discípulos a subir para o barco e a esperá-l’O na outra margem, enquanto Ele despedia a multidão. Logo que a despediu, subiu a um monte, para orar a sós. Ao cair da tarde, estava ali sozinho. O barco ia já no meio do mar, açoitado pelas ondas, pois o vento era contrário. Na quarta vigília da noite, Jesus foi ter com eles, caminhando sobre o mar. Os discípulos, vendo-O a caminhar sobre o mar, assustaram-se, pensando que fosse um fantasma. E gritaram cheios de medo. Mas logo Jesus lhes dirigiu a palavra, dizendo: «Tende confiança. Sou Eu. Não temais». Respondeu-Lhe Pedro: «Se és Tu, Senhor, manda-me ir ter contigo sobre as águas». «Vem!» – disse Jesus. Então, Pedro desceu do barco e caminhou sobre as águas, para ir ter com Jesus. Mas, sentindo a violência do vento e começando a afundar-se, gritou: «Salva-me, Senhor!». Jesus estendeu-lhe logo a mão e segurou-o. Depois disse-lhe: «Homem de pouca fé, porque duvidaste?». Logo que subiram para o barco, o vento amainou. Então, os que estavam no barco prostraram-se diante de Jesus, e disseram-Lhe: «Tu és verdadeiramente o Filho de Deus».

Palavra da salvação.

Destino da Portugalidade: António Quadros e Miguel Torga

por Daniel Santos Sousa, em 12.08.23

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A admiração de Miguel Torga por António Quadros foi profunda, diria mesmo mútua, correspondia à sinceridade de dois homens que, em dimensões diferentes da vida e da política, compartilhavam a mesma visão desse Portugal antigo, misterioso, profundo. A pátria era uma súmula de séculos e o universo lusíada intemporal e universal. Pois que acima da política estava Portugal e a originalidade de ambos residia nesse mesmo entendimento traduzido como missão criativa. Em 1987, a propósito da publicação do livro de Quadros "Portugal, Razão e Mistério", Torga escreve ao amigo:


"Foi uma bela empresa a que meteu ombros, esta de procurar, e conseguir, abrir-nos os olhos para a evidência de um Portugal oculto, que todos, sem darmos conta, trazemos na memória e na imaginação. Cá fico, com água na boca, à espera do terceiro volume da série."

Cabeças totalitárias

por henrique pereira dos santos, em 11.08.23

"Fosse a religião, e nomeadamente a católica, uma pura escolha privada, uma prática individual ou mesmo colectiva, mas sem incidência na polis, muito deste debate não seria necessário".

Quem assim escreve é Luísa Semedo, uma senhora que todas as semanas escreve mais ou menos a mesma crónica, embora com palavras diferentes, no Público.

Qual é então o problema de Luisa Semedo?

"Se não nos ocuparmos da religião, ela ocupa-se de nós. E exemplos disso é que não falta no mundo, basta olhar para os EUA ou a Itália e para os retrocessos a que estamos a assistir em matérias de direitos das mulheres e das pessoas LGBTI+".

Para Luísa Semedo (está muito longe de ser a única, há milhares de pessoas que não se consideram jacobinos adversários da liberdade religiosa, apenas consideram que a religião deve ser livre, mas invisível e inócua na sociedade) as pessoas não são todas iguais: as que pensam como ela devem exprimir-se como entenderem e usarem os mecanismos sociais que entenderem para influenciar as comunidades em que vivem, mas as que pensam de maneira diferente, com uma base religiosa, não, a essas deve aplicar-se a famosa política do "don´t ask, don´t tell".

E é por isso que acha inadmissíveis políticas determinadas pelo voto das pessoas erradas nos EUA e em Itália.

Mas como tem vergonha de dizer que acha inadmissível que as pessoas votem de forma errada, arranja uma desculpa que lhe parece mais aceitável: o problema não é as pessoas pensarem de forma diferente da sua, o problema é que essas pessoas não têm a capacidade intelectual de Luísa Semedo, portanto como são fraquinhas da cabeça votam influenciadas pela dimensão colectiva e social da religião, o que manifestamente é inaceitável.

Ou seja, as políticas dos EUA e da Itália não são determinadas pelo voto livre das pessoas comuns, mas por aquilo que Luísa Semedo avalia como sendo uma influência religiosa ilegítima.

O ideal era reconduzi-los todos a umas catacumbas: religiosos, até poderia ser, agora que o que as pessoas pensam acabar a influenciar políticas públicas, isso é que só com autorização de quem define o que é ou não admissível no espaço público.

O movimento ambientalista e os sobreiros

por henrique pereira dos santos, em 10.08.23

O sobreiro é uma árvore protegida há muitos anos, essencialmente por causa da relevância económica da cortiça, mas essa protecção tem evoluído no sentido de ser justificada por razões ambientais (muito mal definidas, diga-se de passagem, confundindo a protecção de habitats e formações arbóreas com a protecção de cada árvore).

O resultado concreto é uma legislação de protecção do sobreiro e da azinheira que não tem pés nem cabeça, conduzindo a resultados perversos (poucos proprietários querem hoje plantar sobreiros porque plantar sobreiros deixou de ser uma opção de gestão da propriedade para passar a ser uma transferência de direitos de propriedade do proprietário para o Estado e o funcionário público concreto que passa a emitir pareceres sobre tudo e mais alguma coisa).

Ainda assim, não há qualquer sinal de diminuição do sobreiro e da azinheira que justifique qualquer preocupação com estas espécies.

Mas o mito persiste e um bom exemplo é um artigo de Jorge Paiva no Público de ontem.

Jorge Paiva tem para o movimento ambientalista um estatuto semelhante ao de Ribeiro Telles na minha profissão: a sua importância histórica é tão grande, que deixou de ser possível admitir que ninguém é perfeito e qualquer pessoa diz e escreve coisas erradas (umas erradas quando são escritas, outras que no momento em que foram escritas até poderiam não estar erradas, mas hoje estão seguramente erradas).

O artigo de ontem de Jorge Paiva começa com uma coisa sem pés nem cabeça, em que Jorge Paiva insiste, mesmo depois de lhe demonstrarem que o que diz, nesta matéria, é um absurdo, a ideia de que a deflorestação em Portugal tem uma forte ligação com as Descobertas.

Jorge Paiva ignora as paupérrimas condições de transporte no país, ignora os vários estaleiros existentes, quer no Brasil, quer em Goa, ignora a documentada e relevante importação de madeira e outros factos históricos perfeitamente estabelecidos, incluindo o que já hoje se sabe sobre a evolução da paisagem e afirma peremptoriamente que nos séculos XVI e XVII foram construídas cerca de duas mil naus, ou seja, foram usados 8 milhões de carvalhos.

Oito milhões de carvalhos, em dois séculos, são qualquer coisa como 40 mil carvalhos ano.

Tendo Portugal nove milhões de hectares, admitindo que um terço seria florestado (um absurdo, essa é a proporção actual mas no fim do século XIX seria apenas um décimo do país), temos três milhões de hectares de povoamentos florestais, dos quais se tirariam 40 mil carvalhos por ano, ou seja, perto de um carvalho por cada cem hectares.

Argumentar que retirar anualmente um carvalho por cada cem hectares de povoamento (mesmo que fosse um carvalho por hectare) levou a uma deflorestação "particularmente intensa" de Portugal, é delirante.

Não contente com esse arranque do artigo, Jorge Paiva prossegue, traçando um quadro negro da conservação do sobreiro em Portugal e argumentando que a legislação, e sua aplicação, deveria ser reforçada, falando em decisões recentes que autorizaram o corte respectivamente de 700 sobreiros e 1800 sobreiros (esquecendo-se de dizer que estes arranques de sobreiros foram condicionados a plantações de mais do dobro de árvores).

Fala em 35 mil sobreiros arrancadas por razões de interesse público, em dez anos (volto a repetir, com obrigações de plantação de mais do dobro, uma regra sem grande interesse, mas enfim), como se 35 mil sobreiros tivessem a menor relevância nos cerca de 700 mil hectares de sobreiro que existem no país, com densidades variáveis mas, considerando uma densidade média de 80 árvores por hectare, seriam 56 milhões de sobreiros (na verdade, são muito, muito mais e em crescendo). O tal drama das 35 mil árvores representam menos de 0,07% das árvores existentes no país de uma espécie com tendência crescente.

Se o país continuar com esta mania de ter vacas sagradas a determinar o sentido de políticas públicas erradas, contraproducentes (a conservação do sobreiro depende muito mais do seu interesse para o prorietário que de legislação irracional que leva os proprietários a evitar plantações da espécie e a liquidar qualquer sobreirinho que nasça, com medo das consequências legais a prazo, a razão pela qual há cada vez mais sobreiro, neste momento, é porque há cada vez mais abandono, e ver nascer sobreiros em áreas abandonadas, em todo o país, é do mais trivial que há) e absurdas, dificilmente deixar de ser este sítio triste de onde se vão embora pessoas que até gostariam de ficar, mas não com o custo que isso representa para a sua vida quotidiana.

Asneiras todos dizemos, com certeza, mas eu dizer asneiras não tem nenhuma relevância, já Jorge Paiva escrever asneiras desta dimensão é um problema sério, porque influencia um grande número de seguidores para quem a sua palavra pesa mais que a realidade.

É pena.

Recebestes de graça, dai de graça

por João Távora, em 10.08.23

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Missa de Envio, designação que eu não conhecia, significa uma “cerimónia dedicada ao envio de discípulos para propagação da mensagem de Deus e do Evangelho para suas paróquias, comunidades e famílias”. A Missa de Envio da JMJ 2023 na qual tive o privilégio de participar ocorreu nos 90 hectares do Parque Tejo repletos de crentes de todo o mundo, não sei de um milhão ou milhão e meio, julgo que a precisão dos números, impossível de apurar, seja um assunto de pouca importância. Mas compreendo que após uma semana de assombrosa transfiguração do meu País, perante os protestos mais ou menos envergonhados da elite anticlerical que domina o discurso mediático em voga, o "caso" em destaque (!) no Observador possa render uns cliques da clientela mais ressabiada. Certo é que a Jornada terminava assim, com o envio de centenas de milhares de jovens revigorados na inspiração e na Fé para as suas pátrias, para redistribuírem esperança, um horizonte de salvação às suas gentes. Percebe-se o incómodo.

Desconfio que também por cá, nestas terras que já foram de Santa Maria, um renovado fôlego perdurará nas almas daqueles que dão vida às nossas comunidades cristãs. Apesar disso, a transmissão da cultura católica permanecerá entre nós um desafio hercúleo, mesmo que por momentos tenha sido opinião quase unânime de que ela é um elemento de civilizador. Como escrevia há dias o historiador Rui Ramos, os católicos “são hoje geralmente delicados e tolerantes”, são como visitas “numa casa que não é deles.” De facto, a invasão de Lisboa por quase dois milhões de pacíficos jovens durante aqueles dias foi uma lição de civilidade e um luminoso banho de alegria e festa. A demonstração daquilo que uma pessoa pode ser de melhor, quando imbuída do legado cristão. Nesse sentido foi impressionante o empenho de milhares e milhares de voluntários no acolhimento aos peregrinos, na organização de centenas de eventos culturais que se multiplicaram pelas paróquias no país inteiro, no encaminhamento, no controlo das entradas e saídas, nas acreditações, nos alojamentos, na alimentação, etc., etc. Por uns dias a cidade laica humanizou-se, converteu-se.

Quem é que imaginava que um acontecimento desta dimensão seria realizável nesta Lisboa tão laicizada e descrente? Seria possível empreender esta missão sem os auspícios dum governo de esquerda, que no seu próprio interesse acalmou as vozes de protesto das suas hostes jacobinas, franja que anseia concorrer com a Igreja, pois o Estado que preconiza é uma religião única e absoluta? Tenho dúvidas. A demonstração de força benigna e de actualidade do legado cristão que irradiou de Lisboa para todo o país, não me ilude quanto às tremendas dificuldades de afirmação da Igreja Católica no mundo ocidental niilista e centralista.

Confesso que estranhei a surpresa dos jornalistas e de alguma opinião publicada com o apelo do Papa Francisco a uma Igreja aberta a todos, todos, mesmo todos. Como a desejou Jesus Cristo que se rodeava de prostitutas, cobradores de impostos, aleijados ou leprosos. Que todos somos convidados à dignidade da filiação divina, que Deus conhece cada um até ao ínfimo cabelo. Para que, entrando na porta larga da Igreja, se faça um caminho, por vezes desafiante e estreito (não tenhais medo!), para a Liberdade. O mais difícil não é entrar na Igreja, é o caminho exigente da Salvação.

Se Jesus Cristo afirmou que “Onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estarei eu no meio deles.” (Mt 18, 20) imaginem a força da Sua presença na semana passada aqui em Portugal. Um enorme consolo, que perdurará em forma de memória por muito tempo, que temos de agradecer em primeiro lugar aos peregrinos que acorreram a esta Jornada e nos deixaram tão valioso legado. “Por onde forem, preguem esta mensagem: O Reino dos céus está próximo. Curem os enfermos, ressuscitem os mortos, purifiquem os leprosos, expulsem os demónios. Recebestes de graça, dai de graça” (Mt 10, 7-8)

jmj.jpgP.S.: Aproveito para assinalar a nomeação pelo Vaticano do novo Patriarca de Lisboa, D. Rui Valério. O antigo bispo das Forças Armadas, de perfil discreto e com apenas 59 anos, com as orações dos católicos da sua diocese terá tempo de se afirmar no exigente cargo – assim Deus o queira.

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Ah, o futuro já não é o que era...

por José Mendonça da Cruz, em 09.08.23

Foi-se embora o Papa, foram-se embora os milhares de jovens, foram-se embora os sorrisos largos, límpidos e generosos, foi-se embora «a alegria missionária» e eu caio num modo nostálgico, atacam-me saudades sortidas.

Tenho saudades dos tempos em que os fogos ardiam em vez de lavrar, lavram em Odemira, lavram em Proença-a-Nova, lavram em Vila do Conde, e lavram em Ourém, lavram florestas, casas e carros. Eu estranho que lavrem em vez de arder. Na insegurança da dúvida consulto o Priberam que nos diz o que é lavrar, e fico abalado, invade-me um sentimento de admiração apavorada.

Priberam lavra.jpg

É que ignoro como o fogo consegue: um fogo que trabalha o arado, que orna de lavores e cultiva, que entalha e borda e cinzela, que aplaina e explora e corrói, que até escreve e exara e, no fim, ainda toma incremento… Um fogo assim é um monstro. É por o fogo lavrar confusamente, em vez de arder como devia, – e não certamente por incompetência danosa e falta de um mínimo de organização de administração, de prevenção e de intervenção – que os bombeiros se desorientam, como explicava sem querer uma menina na RTP : dizia ela que até foram pedir «a um popular» (uma pessoa) que indicasse onde haviam de reabastecer-se de água. E que «o popular» (a pessoa) lá foi. Os fogos que em vez de arder lavram são terríveis.

fogo.jpg

Isto, a crer no Priberam, evidentemente, e a dúvida é legítima. É que no significado n.8 de «lavrar» o Priberam inscreve «ir-se alastrando», e no n.11 «alastrar-se». Para o Priberam como para os redactores ignorantes, portanto, as coisas também «alastram-se» em vez de simplesmente alastrarem. É assim como dizer que alguém que foi urinar urinou-se. Sim, talvez afinal os fogos não façam todas as coisas que o Priberam promete.

Tenho saudades dos tempos de diversidade em que havia carências, engarrafamentos, greves, desastres, limitações, penúria, pobreza, proibições, incompetência, tudo coisas definidas, tudo coisas identificáveis, tudo coisas com consequências. Hoje, os protagonistas da política e dos media decidiram que tudo deve ficar comprimido numa dessas novas palavras do léxico pusilânime, uma palavra inerte e complacente: constrangimento. O pobre não tem fome, tem um constrangimento. Uma obra mal feita e a destempo, uma proibição estúpida não causam engarrafamentos, causam constrangimentos. A inflação não aumenta os preços, constrange as pessoas.

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Os 98 dias de greve que a CP já fez nos primeiros 220 dias de 2023 não são um abuso, são um constrangimento, e os comboios velhos, sujos e parados não estão velhos, nem sujos, nem parados, estão constrangidos – o que, para os portadores de cartão de «utente» (no entanto impedidos de sê-lo) é um constrangimento.

Tenho saudades do cumprimento de contratos. Saudades em termos jurídicos, de quando as coisas eram o que eram. Repentinamente, passo a ouvir na generalidade dos órgãos de informação (passe a liberdade poética), da boca de repórteres, comentadores e inquiridos, que agora as gentes «cumprem com os contratos». Interrogo-me sobre as consequências da súbita passagem da clareza à obtusidade, da extrema dificuldade de cumprir «com» os contratos que antes se cumpriam, apenas. Que fazer? Prendo o contrato na axila e vou «com» ele cumprir? Mas o quê e onde? Eis, talvez, a razão por que, em 2022, mais de 6.000 contratos de crédito à habitação tiveram que ser renegociados, o motivo por que foram reestruturados mais de 4,2 mil milhões de euros em créditos à habitação incumpridos. Atiro o meu veredicto: foram as confusões semânticas que conduziram a estes constrangimentos!

Não gosto nem espero gostar de contornar esse mar, esses oceanos, essa imensidão de rotundas – seja com ou sem «intervenções» ou estatuária –espalhadas por estradas, ruas, desvios, aldeias, atalhos, vilas, variantes e cidades do país. Imagino, no entanto, os constrangimentos daqueles que pretendem ainda «controlá-las». Quando o resto do mundo civilizado contorna serenamente as rotundas, nós controlamos rotundas num esforço hercúleo.

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E, evidentemente, ninguém aguenta controlar diariamente 2516 rotundas (é somar o número daquelas com que as várias autarquias adornaram os respetivos territórios). É um controlo esgotante, é uma diligência assombrosa, é coisa para toda a gente chegar esgotada ao trabalho. O que explicará a persistente e vertiginosa queda da produtividade. Vale 72,1%, somos os antepenúltimos da Europa. É o que dá passar o dia a controlar 2516 rotundas.

Sinto saudades das estações do ano. Tenho saudades de reconhecer na pele a sensação da estação e do dia, em vez de esperar sentado frente à televisão que um senhor ou uma senhora, de farda e faixa, me digam a que côr exata do catálogo corresponde aquela data, e se devo ou não realmente ir de t-shirt e shorts para o aguaceiro, de sobretudo e cachecol para a canícula.

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Gostava das estações do ano com maiúscula. Gostava mais do esfriar do falecido Outono do que do aviso-amarelo. Durante o arcaico Inverno preferia ficar encharcado a sentir-me submergido em avisos-laranja. Gostava mais do alento da defunta Primavera do que dos primeiros cartões encarnados por causa de eventuais fogos que lavram.

E no Verão de alegre memória ia à praia, em vez de ver cartões-encarnados e ouvir que a partir de agora estava autorizado a usar roupa leve. Aqui entre nós, que não nos ouvem nem domadores nem vigilantes, nestes últimos dias sentiram o quê, realmente: um calor de ananases ou um aviso-vermelho?

Foi-se a JMJ, foi-se a alegria missionária e o Papa, veio a nostalgia. Mas estamos na tal de silly season, não é? Porque não haveria de dar-me a mim para escrever silly-coisas? Assalta-me, porém, uma dúvida final: será realmente silly a season ou será afinal silly o ano inteiro?! Não sei nem quero saber, «de momento» sinto-me desculpado e nostálgico.

"Nós não queremos que arda uma única árvore"

por henrique pereira dos santos, em 08.08.23

António Nunes, economista com uma longa carreira na alta burocracia do Estado, é o representante dos patrões dos bombeiros, dito de outra maneira, é o Presidente da Liga dos Bombeiros de Portugal.

Apesar da sua formação em economia, António Nunes assegura que "temos vindo a dizer que nós também temos que olhar para a floresta do ponto de vista ambiental, em primeiro lugar, do ponto de vista ambiental, e não do ponto de vista económico da rentabilidade da , e por isso precisamos que os nossos bombeiros tenham capacidade para actuar de imediato, assim que há uma ignição, para que não haja áreas ardidas".

Sempre que vou começar a irritar-me por ouvir o representante dos patrões dos bombeiros dizer barbaridades destas (o que inclui a citação que dá título ao post) lembro-me de onde reencontrei um antigo professor de história do ensino secundário, que conheci como autarca há muitos anos e que deve saber tanto de fogos como eu sei de lagares de azeite: era o director da escola nacional de bombeiros que a Liga dos Bombeiros de Portugal gere com o dinheiro dos contribuintes.

E o mundo recompõem-se e volta a fazer sentido.

O balanço...

por João-Afonso Machado, em 08.08.23

O Papa Francisco veio a Lisboa renovar o ideal da Paz entre os muitíssimos de muitíssimos povos que o receberam e inundaram a cidade. E lembrar a todos que a Paz se alcança pela Fé - uma Fé («sem medo») também agora encarada como a convergência dos espíritos para o que há de universal em todos, a convicção.

Assim o Papa inaugurava o novo mundo da aceitação, do diálogo e da essencialidade do respeito pelas diferenças. Uma lição que creio perdurará no coração dos mais novos e nos obriga, a nós os mais velhos, a pensar, a reflectir e, se calhar, a bater contritramente com a mão no peito - até que ponto não teremos exagerado na confusão das normas morais e consuetudinárias?

Em tudo, a teologia andou mais arredada no discurso do que é habitual em visitas papais. O desafio de Sua Santidade foi para a alegria e a festa - as quais, insisto, se estenderam pela Capital durante toda a sua estadia.

Nada ficará como antes. A Fé, a Eternidade, tudo deixou de ser apenas conceitos, esperanças, argumentos ou consolos. Há um planeta para salvar ambientalmente, há vidas para serem vividas em humildade e tolerância, curiosas e apelativas umas em relação às outras. O Céu deve principiar já cá em baixo, neste outrora «vale de lágrimas» transformadas numa corrente de felicidade partihada.

O Papa veio e já partiu. Mas não se duvide, ficou como um tempo novo da Igreja Católica que dá a mão a todos quantos sintam a plenitude da liberdade - a sua e a os demais, sem entrechoques. E apontou a distância enorme da Coreia do Sul, onde daqui a quatro anos (neste novo mundo tão igual na sua multiplicidade de costumes) decorrerá o próximo momento para reforçar a graça da Fé.

Fogos

por henrique pereira dos santos, em 07.08.23

Na sexta feira, mais ou menos às nove da manhã (embora eu só tenha visto muito mais tarde, ao princípio da noite), recebi uma mensagem "Chegou o vento Leste...".

Fui rever as previsões por alto e comentei qualquer coisa sobre o facto de não ser no país todo, não parecer ser muito forte e não me ter parecido que fosse muito constante.

Avisadamente, responderam-me que o facto é que estava a ocorrer um grande fogo em Castelo Branco (distrito, era o fogo de Proença-a-Nova).

Concordei que provavelmente iria haver complicações pontuais, mas ainda não me parecia que viesse a haver uma situação incontrolável como as que acontecem quando se verificam situações meteorológicas extremas, durante alguns dias.

E a conversa prosseguiu brevemente, concordando os dois que não tendo havido mudanças estruturais no território, o que seria de esperar era resultados semelhantes aos dos anos anteriores (com melhorias na protecção das pessoas).

Dessa Sexta para agora verifica-se o que se poderia esperar: situações complicadas aqui e ali, mas ainda sem atingirem o ponto que atingirão quando as tais circunstâncias meteorológicas, de maneira geral associadas ao vento Leste, mas que no caso de Outubro de 2017 até foram com outro vento, se agravarem e durarem dois ou três dias, pelo menos.

E isto são dois leigos a conversar, olhando para o boletim meteorológico, concluindo que a situação tenderia a ser isto.

Porque o combate é inútil, ineficaz, incompetente e mais não sei o quê?

Não tanto, pode ser isso tudo, às vezes até é (por exemplo, a taxa de reacendimentos em Portugal é pornográfica e devia ser objecto de investigação e responsabilização séria dos comandantes de operações que permitam que ocorram reacendimentos, mesmo sabendo que haverá sempre alguns, o que se passa em Portugal nessa matéria é indecoroso), mas essa não é a questão central, a questão central é que continuamos com rodriguinhos sobre a gestão dos combustíveis finos, com planos, programas, estratégias, e o diabo a quatro, tendo como resultado a progressiva acumulação de combustíveis finos arderão, violentamente, quando as condições meteorológicas forem as adequadas.

Portanto, sobre fogos, não me resta mais nada que repetir-me: a sociedade tem de pagar a gestão de combustíveis finos, pelo menos parcialmente, aos proprietários, tudo o resto é secundário.

Como corolário: sim, vai arder a sério sempre que as condições meteorológicas forem favoráveis a isso, tenhamos nós os meios de combate que tivermos, as penas para incendiários, os planos de ordenamento, os apoios aos gabinetes técnicos florestais, a coordenação institucional, as espécies florestais, etc., etc., etc. que quisermos.

Hélène Carrère d’Encausse (1929-2023)

por Daniel Santos Sousa, em 06.08.23

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Faleceu Hélène Carrère d’Encausse, a primeira mulher à frente da Academia Francesa e também historiadora de mérito. A obra de investigação da autora, se já celebrada, tornar-se-ia paradigmática com o fim da URSS (declínio que soube interpretar na obra “L'Empire éclaté”,1978). 

A independência de espírito e a elegância linguística elevam-na para além dos ideólogos. Afinal, entre as academias ocidentais sem dúvida a França continuou a produzir a melhor historiografia em relação à Rússia. Hélène d'Encausse, Marc Ferro ou Michell Heller, souberam interpretar o misterioso mundo dos Urais com a firmeza do rigor.

Verdadeiro espírito enciclopédico, como a melhor aristocracia intelectual do tempo das Luzes, no sangue podia reafirmar o legado europeu. Raízes que na súmula genealógica podia ligar à Alemanha, Itália, Áustria, também georgiana pelo lado paterno e russa pelo lado materno, descendente dos condes Orlov. Assim a Rússia não terá sido apenas uma curiosidade intelectual, ou um dos vários interesses académicos, mas também uma devolução às origens, um retorno ao tempo perdido. A sua obra continuará a ser fundamental e motivo de referência.

 

Da fé

por henrique pereira dos santos, em 05.08.23

Tenho muito amigos que tratam qualquer manifestação de fé religiosa como crendice medieval (boa parte deles não sabe nada sobre a idade média, mas enfim, esqueçamos essa parte).

Alguns dos mais acérrimos inimigos da fé religiosa demonstram uma fé inabalável na ciência, na razão e na capacidade humana de compreender o mundo (e é exactamente por isso que são inimigos jurados de qualquer outro tipo de fé, o sectarismo, como a história demonstra, é uma coisa muito transversal).

Vários desses meus amigos sentem-se os herdeiros dos grandes homens da ciência que se impuseram à crendice religiosa através da razão e do estudo.

Vamos a factos.

Durante milhões de anos (sim, milhões, porque vai longa a evolução da nossa espécie), os homens e todas as outras espécies que antecederam a que agora é a nossa, acreditavam firmemente que era o Sol que andava à volta da Terra.

O consenso científico sobre isso era esmagador, a evidência empírica igualmente esmagadora, e com base nessa ideia aparentemente indiscutível fizeram-se prodígios inacreditáveis de engenho e conhecimento, desde calendários a cartas de marear.

Não estou, por isso, a falar de livros como a bíblia, a epopeia de Gilgamesh ou qualquer outra base mais ou menos lendária de religiões, estou a falar de factos: toda a gente pensava ser absolutamente inquestionável que o Sol andava à volta da terra, com base nisso fizeram-se avanços práticos extraordinários e, no entanto, a realidade era o que era e afinal era outra.

Num determinado momento, homens religiosos (por exemplo, quer Galileu, quer Copérnico eram homens religiosos), questionaram o conhecimento geral e indiscutível, e demonstraram que, contra toda a evidência empírica acessível às pessoas comuns, era a Terra que andava à volta do Sol.

Apesar desta evidência histórica (longe de ser a única, evidentemente), os meus amigos que se reclamam da absoluta racionalidade e do mais alto conhecimento, não admitem sequer que o seu enorme conhecimento, a sua base racional, possa estar errada nos seus fundamentos, como estava quando toda a gente construía conhecimento sobre o pressuposto, errado, de que era o Sol que andava à volta da Terra.

No fundo, eles não são os herdeiros dos que alargaram o nosso conhecimento a partir das suas dúvidas, no fundo eles são os herdeiros dos que ridicularizaram as novas hipóteses, radicalmente diferentes do esmagador consenso científico da altura.

Eu sei o que me vão responder, que não posso comparar o método científico actual, à prova de bala, com os métodos científicos medievais.

Talvez me tenha enganado, talvez seja mesmo de fazer notar que a maioria deles não sabem nada da idade média, e estão convencidos de que o que sabemos hoje descreve rigorosamente (ainda que não totalmente, mas lá chegaremos) a realidade.

São homens de uma fé inabalável.

Cá por coisas...

por João Távora, em 04.08.23

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Um Távora como eu não poderia deixar de notar a ironia de, passados mais de 260 anos, se terem reunido em Lisboa 500.000 catolicos, sob liderança dum Jesuita, perante o Marquês de Pombal... de costas voltadas.

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O mistério da JMJ

por João Távora, em 04.08.23

Vivemos numa época em que muita coisa está trocada. Os crentes são hoje geralmente delicados e tolerantes. Parecem visitas numa casa que não é deles. Para ver soberba e intolerância, é preciso ir para junto dos descrentes. Aí, há muita gente que se porta como se fosse dona de tudo. É aí que estão hoje os que não compreendem nem estão dispostos a aceitar nada. Percebe-se porquê. Para os crentes, a providência divina é um mistério: as coisas nem sempre têm de acontecer conforme esperam. O tipo de descrente de que falo, pelo contrário, julga que sabe o sentido da história: não está preparado para surpresas. Foi por isso que a JMJ o indignou tanto: nada, para ele, faz sentido.

Não, não foi a colaboração do Estado num evento da Igreja Católica que escandalizou os acólitos da descrença arrogante. É verdade que questionaram essa colaboração, e até se puseram, muito neo-liberalmente, a discutir orçamentos. Mas o problema não foi esse. O problema foi que a multidão era grande, e que a gente era muito nova. Os descrentes não contavam com isso. Desde pequenos, ensinaram-lhes que o cristianismo era um resquício da Idade Média, prestes a acabar. Logo, nenhum evento cristão deveria atrair mais do que umas poucas de velhas camponesas de regiões remotas. Mas eis que centenas de milhares de jovens, com um ar muito contemporâneo, ocupam o centro de Lisboa para ouvir missa e ver o Papa. Não é possível. Não vem no guião. Não pode estar a acontecer.

Pobres descrentes arrogantes. De facto, são eles o resquício de um tempo velho que talvez esteja a acabar. Esse tempo era o da superstição do progresso. Os seus profetas, no século XIX, acreditaram que a ciência moderna ia substituir as religiões tradicionais. O que fizeram foi atribuir às teorias e hipóteses científicas a mesma certeza dogmática das antigas revelações divinas. Não deram origem a boa ciência, mas inspiraram ideologias pretensamente “científicas”, e que em nome da “ciência” reprimiram, prenderam e massacraram. A intolerância ideológica do século XX, com os seus meios industriais de morte, foi mais sanguinária do que qualquer intolerância religiosa do passado.

A verdade é que religiões como o cristianismo não traduziam simplesmente a ignorância de tempos antigos. As religiões eram, para os fiéis, formas de saber viver e sobretudo de saber morrer, sistemas de cerimónias e rituais destinados a fazer grupos e indivíduos transcender as suas existências. Era isso que as religiões eram, e é isso que as religiões são, porque nada de facto as substituiu nesse sentido, a não ser ideologias e superstições. Se os descrentes percebessem isso, não estariam tão espantados com a JMJ, e talvez se habituassem à ideia de que as religiões tradicionais não são atavismos nem retrocessos, mas tão parte do mundo de hoje e de amanhã como a ciência e a tecnologia.

Durante muito tempo, os Estados apropriaram-se das religiões para legitimar a sujeição aos governos e a aceitação das hierarquias. Foram os Estados que transformaram o cristianismo em opressão. As Inquisições ibéricas do século XVI, de que ainda se culpa a Igreja Católica, funcionaram de facto como instrumentos do Estado para obter uma homogeneidade confessional que o Estado julgou indispensável a fim de assentar a ordem política. Isso acabou na Europa entre os séculos XIX e XX, e quando acabou, as sociedades tornaram-se plurais, mas o cristianismo não desapareceu. Deixou de ser imposto a todos, mas passou a ser escolhido por muitos, como fé e “identidade”. As igrejas, finalmente autónomas em relação ao Estado, puderam reconstituir-se como congregações livres. Foi essa liberdade que passou por Lisboa.

Rui Ramos a ler no Observador



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