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Excreções suíças e lusas

por José Mendonça da Cruz, em 30.06.23

Informou-nos a Lusa na passada quarta-feira que uns investigadores da Universidade de Genebra e do Instituto Federal de Tecnologia de Zurique chegaram à conclusão de que a vida nasceu da ureia. Os investigadores podem, agora, a título de corolário,compor um Genesis muito deles: em vez de «das cinzas às cinzas, do pó ao pó», escriturar «do xixi ao xixi, do cocó ao cocó». E depois guardem-no só para eles.

Emparcelamento e interesse privado

por henrique pereira dos santos, em 30.06.23

No meu post anterior escrevi sobre a dissonância entre os objectivos do Estado (ordenar) e os objectivos dos privados (enriquecer) em matéria de emparcelamento.

Eu sei qual é o comentário habitual sobre isto: a ganância dos privados e o seu foco nos lucros não garantem a conservação de valores para os quais o mercado não estabelece um preço.

Uma das empresas da celulose, a ALTRI, pela primeira vez, comprou terrenos (cerca de cem hectares) estritamente com objectivos de conservação.

Não há novidade nenhuma no facto das empresas de celulose gerirem terrenos com objectivos de conservação, as plantações que gerem, seja em propriedade sua, seja em arrendamentos, estão todas certificadas, por razões de mercado, e para essa certificação é necessário que pelo menos 10% das áreas geridas sejam dedicadas à conservação (áreas de alto valor de conservação, na designação equívoca usada pelas entidades certificadoras, se não me engano, não é a minha área e não vou verificar esses pormenores).

As próprias empresas de celulose - a fileira do eucalipto, até há muito pouco tempo, era a única verticalizada, em que as empresas desenvolviam actividade desde a produção florestal até à pasta, ou mesmo o papel, nas fileiras do pinho e do sobreiro, a indústria não desenvolvia actividade relevante na produção florestal -, penso que também por razões reputacionais, ou sobretudo por razões reputacionais, isso não sei e não quero fazer processos de intenções, vão para além desses 10% e gerem áreas relevantes de conservação, e em expansão.

A ALTRI, de que estou a falar, gere mais de 10 mil hectares de áreas de conservação, tendo aumentado em 500 hectares as áreas de conservação, este ano.

Estas áreas, de maneira geral, eram áreas integradas nos seus sistemas de produção de eucalipto, resultando de áreas com menor interesse para a produção, ou com restrições legais, dentro de propriedades compradas e arrendadas para satisfazer os objectivos de produção florestal da empresa.

O que é novo é que, pela primeira vez, a empresa comprou terrenos sem qualquer interesse para a produção de eucalipto, estritamente para os gerir com objectivos de conservação, para atingir as metas a que a empresa se obrigou a si própria em matéria de conservação da biodiversidade.

Pessoalmente, acho que haveria um ganho social maior se estas empresas se dedicassem a comprar eucaliptais que não têm interesse nenhum para a produção de eucalipto e os reconvertessem em áreas de conservação (a Montis está a fazer isso, mas a uma escala e com recursos que não têm qualquer comparação com aqueles a que podem aceder uma Navigator, uma Altri, uma SONAE ou uma Amorim), independentemente de achar muito bem este novo passo de comprar terrenos estritamente com objectivos de conservação.

E é aqui que entra a falta de juízo do Estado.

O Estado português, a reboque de uma opinião pública que adapta o famoso "a culpa é do Passos", para "a culpa é do eucalipto" para explicar todos os problemas da gestão florestal, resolveu escrever na lei que não pode haver novos povoamentos de eucalipto.

A base técnica e científica para essa opção não existe, pelo contrário, essa ideia contraria os resultados de 30 ou 40 anos de investigação sobre os impactos ambientais do eucalipto, mas acontece que sobre o eucalipto é impossível ter uma discussão cartesiana, trata-se uma matéria do domínio da fé, para a generalidade das pessoas.

Quais são os efeitos práticos desta opção?

A proliferação de plantações ilegais (aparentemente os defensores da lei seca aplicada ao eucalipto não conhecem os efeitos, documentados, dos efeitos da lei seca original) e a irracionalidade, ou pelo menos sub-optimização social, das acções dos agentes económicos.

Retomo aqui a minha observação de que poderia ser interessante ter a indústria a financiar a reconversão de eucaliptais caducos, sem interesse, de baixa produtividade, etc..

Num cenário de impossibilidade legal de novos povoamentos de eucalipto, a indústria terá muito dificuldade em empenhar-se na redução da área de eucaliptal, mesmo que associada a aumentos da produtividade da área restante, porque o que é racional é não ceder na área que existe de eucalipto, usando as áreas em que o eucalipto não tem interesse, nem para a indústria, como moeda de troca para a plantação de outras áreas mais interessantes para a produção.

Como esse processo de transferência de eucaliptos mal localizados para áreas mais produtivas, apesar de previsto na lei, passou a ser uma decisão administrativa, isto é, depende de um processo burocrático que, na prática, bloqueia a solução, continuamos a manter sucata florestal que não interessa ninguém e poderia ser reconvertida.

Alguns proprietários que se ofendem com uma certa generalização que faço da expressão "sucata florestal", depois acabam a queixar-se de que têm umas cinco parcelas de eucalipto, que até preferiam e podiam transformar numa mancha de eucalipto única, mais eficiente e rentável, mas não o podem fazer (e acrescentam que, evidentemente, sobreiro é que não plantam porque plantar sobreiros é alienar a propriedade, para cortar um ramo tem de pedir licença, com a actual legislação) porque não os deixam plantar novas áreas de eucalipto, mesmo que reduzindo a área de eucaliptal noutro lado.

Talvez fosse tempo de nos deixarmos de regras parvas e de começar a fazer a avaliação concreta da legislação que vamos fazendo: o resultado de uma lei não depende das intenções dos legisladores, mas da forma como as pessoas reagem às regras estabelecidas, que é uma coisa muito difícil de prever, só a avaliação posterior dos efeitos das leis é que nos permitem ir aperfeiçoando progressivamente as regras para que dêm o resultado que se pretende.

Compreensão

por José Mendonça da Cruz, em 29.06.23

Pronto, a senhora Christine Lagarde, o FMI em geral, e, já agora, a Reserva Federal americana, não percebem nada de inflação. Quem percebe de inflação (e moeda) é Costa, que acha que a inflação se deve ao aumento dos lucros que deriva da inflação. «O privado», topam?!

Logo, as redações da televisão, unânimes, passaram a achar que a inflação se deve ao aumento dos lucros. Podem Manuela Ferreira Leite ou Vitor Bento tentar explicar umas coisas propriamente de finanças e economia, mas em vão: a culpa é dos lucros.

E os liberais da Il, e o PSD de Montenegro, que dizem? Que isto da taxa de juros aumentar é uma coisa horrível, que devia ser de outra maneira. Liberais e PSD dizem isto!!!

E do quantitative easing, nada?

E das inundações das economias por dinheiro barato a propósito de pandemias e crise e guerras, nada?

E dos problemas singulares de Portugal e da sua dívida pública que sobe em flecha com os gastos e esmolas e boys de Costa, agora pior com o aumento dos juros, nada?

E das arrecadações fiscais recorde (não, não é desses lucros que Costa fala) devidas à inflação, nada?

Há oposição nesta choldra? Alguém pensa, alguém quer saber?

 

"Emparcelar para ordenar"

por henrique pereira dos santos, em 29.06.23

Estive ontem numa coisa simpática organizada pela Navigator e o Expresso.

Inevitavelmente lá vem a ideia de que a estrutura da propriedade precisa de ser alterada para ordenar a floresta, ordenamento esse que se entende que é a questão fundamental.

A mim parece-me que estas ideias correspondem a dissonância cognitiva relevante: não só o maior valor acrescentado bruto florestal provém das regiões do minifúndio, como o problema não é o facto da estrutura da propriedade ser o que é, o problema é faltar-lhe flexibilidade para se ir adaptando às necessidades da sociedade.

O Estado é muito claro no que pretende: emparcelar, isto é, juntar parcelas, para ordenar.

O proprietário está-se nas tintas para o ordenamento (mais ou menos) e quando emparcela, emparcela para ter ganhos de eficiência na sua actividade.

Por que razão então temos um problema com terrenos abandonados e, ao mesmo tempo, um problema de falta de dinamismo na transacção da propriedade?

Porque o investimento em emparcelamente, frequentemente, não gera ganhos de competitividade que compensem o investimento.

Se o Estado, em vez de querer obrigar os privados a fazer uma paisagem que siga os cânones definidos seja por quem for, resolvesse perceber o problema dos privados, provavelmente, em vez de estar a gastar dinheiro a tentar emparcelar para ordenar, estaria a tentar fazer duas coisas: 1) sair da frente dos processos de emparcelamento, diminuindo ou eliminado os custos de contexto associados ao emparcelamento, quer no trabalhão que dão, quer nos custos associados (por exemplo, eliminar todos os custos, assumindo o Estado os que houver com notários e afins) em todas as transações de terrenos não urbanos nem agrícolas abaixo de dez mil euros. Há um grupo de trabalho que produziu um bom relatório, com coisas úteis para diminuir estes custos de contexto, mas trata-se de tomar aspirinas para controlar sintomas, sem afectar a origem do problema; 2) criar economia que dê valor aos terrenos, levando os proprietários activos a ter recursos que paguem o suficiente para vencer a inércia dos proprietários ausentes e, mesmo assim, ter algum rendimento.

Dizia ontem, e bem, Oliveira Baptista, que o Estado deve reconhecer e perceber a lógica económica dos pequenos proprietários, e alinhar os incentivos das políticas públicas de modo a fazer coincidir o interesse público (por exemplo, ordenar a paisagem), com o interesse privado (criar riqueza, "make a living", é uma expressão de que gosto para este efeito, arranjar um modo de vida, em português, que me parece menos expressivo), se quer que as políticas públicas dêem resultado.

Talvez fosse boa ideia o Estado mudar o programa e começar a pensar em chamar-lhe: "Emparcelar para enriquecer", se quiser ter algum resultado.

Inteligência Artificial

por João Távora, em 29.06.23

Já tínhamos as próteses, os aparelhos auditivos, os óculos há muito que se democratizaram. Mas será quando a Inteligência Artificial se aprimorar que iremos alcançar o último reduto da igualdade. A inteligência finalmente ao alcance de todos.

Corporações

por henrique pereira dos santos, em 26.06.23

Sou anti-corporativista desde que nasci, como se costuma dizer.

Aliás, na altura em que era tesoureiro da Associação Portuguesa dos Arquitectos Paisagistas, promovemos uma alteração de estatutos e eu tinha convencido o resto dos orgãos sociais de que não fazia sentido manter como condição de acesso à profissão a obtenção de uma licenciatura, abrindo a possibilidade de se considerar como arquitecto paisagista alguém que os pares reconhecessem como tendo curriculum para isso.

Uma das razões que convenceram alguns dos meus renitentes colegas é que a APAP reconhecia os títulos de arquitecto paisagista de outras associações europeias, e algumas delas, incluindo a poderosa associação inglesa (ou britânica, não sei, estou afastado desse mundo há muito tempo), reconheciam sem problema o título de arquitecto paisgista a partir da prática profissional, sem exigir um diploma.

Para se ter uma ideia do ridículo, toda a primeira geração de paisagistas, e seguintes até ao 25 de Abril, tinham no máximo, feito um curso livre com o Professor Cadeira Cabral, portanto título académico nem existia. Se isso não bastasse um dos principais ateliers do país, o de Gonçalo Ribeiro Telles, era gerido, na prática, por um dos filhos do professor Caldeira Cabral, Francisco, que nunca tirou o curso de arquitectura paisagista, embora saiba mais de jardins que 90% dos paisagistas encartadas academicamente.

Mas Portugal tem um feroz tradição corporativa e anti-liberal, de maneira que acabei a ser o único, na Assembleia Geral, a votar a favor dessa norma.

A presidente de então, com razão, entendeu que não fazia sentido votar a favor de uma norma tão esmagadoramente contestada, e absteve-se, quanto a mim, bem. Os outros votaram todos contra a norma, o que nunca impediu ninguém que ir pedir batatinhas ao atelier de Ribeiro Telles, a partir de certa altura inteiramente nas mãos de quem impediram, até hoje, de usar, formalmente, o título de arquitecto paisagista).

Lembrei-me disto a propósito do charivari sobre o pagamento obrigatório do trabalho dos estagiários.

Sou contra ordenados mínimos e, coerentemente, sou contra a determinação, por parte do Estado, do estabelecimento de ordenados mínimos, seja de trabalhadores, seja de estagiários.

Mas também sou contra o Estado impor um desequilíbrio a favor dos patrões que torne os trabalhadores completamente indefesos face aos abusos, que é o que acontece quando o Estado, reconhecendo através da academia a competência para o exercício de uma profissão, depois aceita que as corporações instaladas possam impedir livremente esse exercício.

A coisa é tão ridícula que para ser médico num hospital eu posso estar-me nas tintas para a ordem dos médicos, mas para exercer clínica livremente tenho de estar inscrito nessa associação de interesses instalados, da mesma forma que posso ser juiz, mas não posso ser advogado, vá-se lá perceber as razões.

Ou seja, a coligação dos interesses instalados e do Estado criaram uma situação de desprotecção tal dos estagiários que há dezenas ou centenas disponíveis para trabalhar de borla, sete anos de pastor a servir Labão, para ver se qualquer dia conseguem viver do trabalho que lhes permita desposar Raquel.

A obrigação do pagamento justo do trabalho não é uma questão de regras, ou melhor, até pode ser, mas antes disso é uma questão moral, e estou estupefacto com a quantidade de gente completamente imoral que esta discussão veio pôr a nú.

eDucar

por João Távora, em 26.06.23

Duque.png

Gosto muito de etimologia, perceber a origem e componentes de cada palavra, como se essa descoberta me aproximasse da verdade e do sentido mais profundo das coisas. Por exemplo, recentemente descobri que na palavra Educar, se esconde o termo Duque. É com eDucação, nos aproximamos da idealização do Duque: a soberania, vocábulo que na sua origem grega “Douka” significa "Chefe", e na origem latina “Duce” significa "aquele que comanda".
 
Restam algumas dúvidas da importância da educação?

Paternalismo racista

por henrique pereira dos santos, em 25.06.23

Quando apareceu no jornal, passei à frente porque com o tema que era, já sabia do que a casa gastava.

Apesar disso, reparei que aparecia Henrique Leitão, por quem tenho imensa consideração.

Depois fui começando a ver comentários, no sentido que seria de esperar, que o que a SIC chamava Grande Reportagem, Pretérito Imperfeito, era o que seria de esperar, uma peça fortemente woke, condicionada pelas opções da jornalista Amélia Moura Ramos (não conheço, não tenho opinião, limitei-me a ver que a reportagem é dela).

Fui ver, parecia-me estranho que Henrique Leitão alinhasse no wokismo de que eu estaria à espera e os comentários confirmavam (há mais pessoas na reportagem que não alinham no wokismo, mas na peça aparecem sempre diminuídas, quer no tempo de antena, quer no que é escolhido do que dizem, ao contrário da presença do wokismo puro e puro).

Sendo as coisas o que são, confirmei que a peça não vale o tempo gasto a vê-la - não gosto de propaganda contrabandeada, não gosto de agendas escondidas disfarçadas de jornalismo - e não lhe dedicaria um post, não fosse um pequeno bocado inacreditável.

A propósito da recuperação da praça do império e dos famosos brazões em calçada, aparece uma dirigente de uma associação racista, a DJASS (racista porque baseia a sua actividade em critérios de raça) a contrapôr o depoimento de um calceteiro nascido em Cabo Verde, que os executou.

A entrevista com o calceteiro, incluindo a sua envolvente de festa e intimidade, é das partes mais interessantes da tal reportagem, e o senhor é de grande franqueza, que me parece bastante genuína, mas isso não chega para que a senhora presidente da DJASS não apareça a dizer que o senhor foi usado, manipulado, etc., sem que ninguém lhe pergunta quem se julga que é para qualificar assim pessoas que não conhece.

Poderia ser só o paternalismo de Vanusa Lima, que entende que o conteúdo racista dos Maias tem de ser cuidadosamente exposto pelos professores aos alunos (ela vai ao ponto de especificar aos alunos afro-descendentes, um ideia discriminatória que pressupõe que interiorizar ideias racistas só é um problema no caso de alunos afro-descendentes, ou que os alunos afro-descendentes são incapazes de filtrar o que lhes é ensinado, o que é ainda pior) para evitar que os alunos interiorizem preconceitos, como se todos os alunos fossem uns totós incapazes de processar a informação que recebem e incapazes de perceber que Eça de Queiroz escrevia na segunda metada do Século XIX.

Não, é mesmo uma opção da peça jornalística, a de dar voz e presença a patetices promovidas por associações racistas, e outros wokes.

Se houvesse dúvidas, está lá a jornalista para as desfazer, ao perguntar, com um paternalismo infinito, ao calceteiro dos brazões, se tinha consciência do que estava a fazer.

Claro, senhora jornalista, com certeza que quem não encaixa nos seus preconceitos só pode ser mesmo porque é incapaz de atingir o seu grau de consciência da sociedade em que vive.

Domingo

por João Távora, em 25.06.23

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo, disse Jesus aos seus apóstolos: «Não tenhais medo dos homens, pois nada há encoberto que não venha a descobrir-se, nada há oculto que não venha a conhecer-se. O que vos digo às escuras, dizei-o à luz do dia; e o que escutais ao ouvido proclamai-o sobre os telhados. Não temais os que matam o corpo, mas não podem matar a alma. Temei antes Aquele que pode lançar na geena a alma e o corpo. Não se vendem dois passarinhos por uma moeda? E nem um deles cairá por terra sem consentimento do vosso Pai. Até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados. Portanto, não temais: valeis muito mais do que todos os passarinhos. A todo aquele que se tiver declarado por Mim diante dos homens, também Eu Me declararei por ele diante do meu Pai que está nos Céus. Mas àquele que Me negar diante dos homens, também Eu o negarei diante do meu Pai que está nos Céus».

Palavra da salvação.

Sobre o what aboutismo marxista

por João Távora, em 22.06.23

Se as televisões fossem alertadas a tempo de acorrerem a transmitir a tragédia dum barco furtivo repleto de migrantes a afundar-se (o que caracteriza o tráfico humano - esse sim um crime hediondo com demasiados adeptos no ocidente - é ser escondido, oculto, facto que dificulta o socorro nos casos de naufrágios), alguém acredita que os canais de notícias não nos ofereceriam um drama em directo para gáudio milhões de espectadores? E que desse modo surgiriam todos os meios civis e militares para um virtuoso resgate em directo? É difícil perceber porquê o caso do submarino, cuja expedição foi pública e propagandeada é diferente?

Quanto ao mais, considero uma virtuosa qualidade humana as pessoas ambicionarem superar-se, correr riscos, ir à Lua, subir aos cume dos Himalaias, ou às profundezas duma gruta. Às vezes corre mal, mas tiram-se ilações, corrigem-se procedimentos e aprumam-se tecnologias. O Homem em geral e o Ocidente em particular desenvolveu-se assim. Saímos das cavernas. Deixemo-nos de moralismos de pacotilha.

Mitos

por henrique pereira dos santos, em 21.06.23

Esta peça do jornal "Mensagem", de Lisboa, é bastante interessante e vale a leitura.

Mas isso não significa que seja rigorosa, bem pelo contrário, liga-se mais aos mitos que à realidade e é muito interessante ler essa peça a partir desse ponto de vista.

Não falo das pequenas dúvidas sobre histórias orais que circulam há décadas, como a que diz respeito ao chumbo do exame de condução de Ribeiro Telles, que a jornalista conta desta forma: "Era um observador tão atento da natureza que, no seu primeiro exame de condução, falhou um sinal vermelho porque ficou a admirar as bonitas buganvílias no caminho".

A história, tal como me foi contada há muitos anos, era semelhante na ideia, mas diferente nos pormenores: ao chegar ao Rato, vindo da Alexandre Herculano, o examinador, com aquela manha frequente neste tipo de funcionários, diz a Ribeiro Telles virar para a direita, para subir a São Filipe de Néry (estamos a falar de uma Lisboa com muito poucos carros, hoje nenhum examinador faria isso, evidentemente, dado o risco real de provocar um acidente), que tinha apenas trânsito descendente.

Ribeiro Telles, com a sua lendária distracção, vira de facto para a São Filipe de Néry, em que entra em contra-mão, e o examinador pergunta-lhe se não viu uma coisa encarnada no princípio da rua, referindo-se ao sinal de trânsito proibido. E é aí que Ribeiro Telles, com o seu também lendário entusiasmo, pensa ter descoberto uma alma gémea no examinador, manifestando-lhe o seu contentamento por também o examinador ter reparado naquela buganvília.

Chumbou, naturalmente, e nunca mais tirou a carta.

Se foi de uma maneira ou de outra é bastante irrelevante e essas pequenas discrepânceas da história oral são normais, inevitáveis e nunca me fariam escrever um post.

Já a tese da peça, que o título proclama, de que o projecto da Avenida da Liberdade de Caldeira Cabral e Ribeiro Telles correspondia a transformar a Avenida da Liberdade num jardim, fazendo uma ponte para as actuais discussões sobre o espaço dedicado aos peões e aos carros na cidade, não faz o menor sentido, como aliás reconhece a peça, de raspão, ao deixar bem claro que esse projecto aumentava a área da avenida da Liberdade dedicada ao trânsito automóvel.

Nessa altura não havia nenhuma discussão sobre "libertar espaço para os peões", havia sim, discussões acesas sobre a melhor forma de tratar o espaço público, optimizando o seu valor social, era uma discussão entre conservadores que olhavam para os jardins ainda com o olhos do século XIX, princípios do século XX, e um pequeno grupo de técnicos que olhava para os jardins a partir da escola prussiana, e depois alemã, da arte dos jardins, temperada com o modernismo da carta de Atenas.

É natural que assim fosse, nos anos 50 a discussão não era entre entregar mais espaço aos carros ou aos peões, esse problema não existia, nem Ribeiro Telles era, como às vezes se pretende fazer crer, um visionário do futuro que adivinhava problemas que ainda não existiam, bem pelo contrário, uma das suas grandes qualidades era ser um homem com os pés bem assentes na terra e muito pragmático (a história da aprovação da legislação da Reserva Ecológica Nacional, conhecida há anos, é descrita nesta peça de uma forma deliciosa e bastante rigorosa, que caracteriza muito bem o pragmatismo (e a lucidez) de Ribeiro Telles: "“Oh pai, conseguiu!”, disse-lhe o filho Francisco. O pai respondeu-lhe: “Oh filho, eles nem sabiam o que estavam a aprovar”)."

O projecto da avenida da Liberdade, de Ribeiro Telles e Caldeira Cabral, desenvolve um estudo anterior coordenado por Caldeira Cabral, e é um dos vários episódios de tensão entre o modelo tradicional do jardim formal francês e o modelo orgânico que hoje se associa aos grandes parques ingleses, que chega a Portugal essencialmente pela escola alemã: um modelo de intervenção orgânico e que procura tirar partido das características naturais dos sítios, modelando a natureza, em vez de se impôr a ela.

Caldeira Cabral, ele próprio, tinha sentido na pele as dificuldades em impor a nova forma de olhar para o espaço público na guerra, que em grande parte ganhou, mas com custos profissionais e pessoais futuros muito elevados, no primeiro grande projecto em que se envolve depois de chegar da Alemanha, o Estádio Nacional, que consegue deslocar do fundo do vale onde estava previsto, para a encosta.

Viana Barreto descreve bem as dificuldades em impor a sua solução para a envolvente da Torre de Belém, por volta de 1953, em detrimento de uma alameda clássica cheia de estatuária de navegadores portugueses como tinha previsto Cotinelli Telmo.

Este tipo de tensão nunca deixou de existir e manifesta-se ainda hoje, nomeadamente nas opções sobre a utilização de vegetação, em que o uso de plantas autóctones e bem adptadas é contestado pelas populações porque o resultado final não é o que consideram um jardim (recentemente a minha mulher lembrou-me a situação do arranjo da envolvente da igreja de Mira D'Aire, que projectou há bastantes anos, em que alguns canteiros foram semeados com nabos, por alguém, como forma de protesto pelo uso de mato nos canteiros do jardim).

Ainda hoje, em soluções como as do canal de drenagem do novo jardim da Praça de Espanha, que é revestido com vegetação mais ou menos espontânea, não gerida, nem regada, há quem veja jardins mal cuidados e desleixo, uma situação que está longe de ser pontual.

Há uma forte tendência para a diminuição da intensidade de gestão dos jardins, porque há muito mais área de jardins, porque há questões de sustentabilidade ligadas à gestão da água, dos fertilizantes, de combustíveis fósseis, de conservação dos polinizadores, sendo hoje frequentes as opções que implicam o não corte, ou o retardamento do corte, de áreas de herbáceas que boa parte do público tende a considerar que deveriam ser relvados.

As reclamações pelo desleixo e incúria na gestão de espaços verdes, resultantes destas opções, são constantes. Duarte Mata tem insistido na opção de deixar claro que não se trata de abandono ou incúria, mas de uma opção de não gestão, seja pela colocação de placas informativas, seja pelo corte e manutenção de uma faixa junto aos caminhos, que contrasta com a área menos gerida, como forma de comunicação com o público, o que parece bastante sensato.

O projecto da avenida da Liberdade e as suas vicissitudes, começou a ser executado, por fases, havendo fotografias muito interessantes das duas soluções lado a lado, a antiga e a moderna.

Aconselho a leitura do livro "Espaço Público de Lisboa", de Teresa Bettencourt da Câmara, a quem se interessar pela a forma como esta nova forma de projectar o espaço público se foi impondo, até ser hoje claramente dominante.

Acontece que três anos passados sobre a execução parcial do projecto da avenida, a contestação à solução acabou por levar a melhor e a situação foi revertida.

A destruição de um projecto já construído foi um duríssimo golpe, quer para Caldeira Cabral, quer para Ribeiro Telles, que era funcionário da Câmara Municipal de Lisboa, fazendo com que Ribeiro Telles batesse com a porta e se fosse embora da Câmara.

Com um resultado inesperado e muito positivo: por essa altura, Viana Barreto tinha ganho o concurso para a sede da Fundação Calouste Gulbenkian e precisava de avançar com o projecto em prazos muito curtos, trazendo Ribeiro Telles para a equipa, na única situação em que Viana Barreto e Ribeiro Telles fazem um projecto conjunto, com os resultados que todos conhecemos.

Para mim, que conheci os dois e conheço razoavelmente o trabalho dos dois, é uma pena que não tenham trabalhado mais em conjunto, embora perceba a dificuldade, dadas as diferenças de métodos de trabalho e de abordagem do espaço dos dois, apesar da sólida base conceptual comum, fortemente partilhada, e a amizade de toda a vida (e, já agora, as diferenças de personalidade, embora qualquer dos dois fosse um espírito livre que lhes permitia, aos dois, lidar com a diferença de opiniões de forma muito aberta).

Do que também tenho pena é da sistemática utilização de Ribeiro Telles para caucionar as opiniões de terceiros: se alguém quer transformar a Avenida da Liberdade num jardim, que o faça e o defenda por sua conta, escusa de procurar arrimo num projecto em que o espaço dos peões correspondia a uma ruptura com o modelo dominante de jardim na altura, mas que diminuía o espaço para os peões (o espaço poderia ser melhor e servir melhor os peões, mas dedicava-lhes menos área que na solução que existia e que voltou a existir depois).

Ribeiro Telles merece ser estudado e homenageado pelo que fez e disse, mas não merece o sistemático abuso do seu nome (que ele sempre permitiu, diga-se de passagem, mas esse é um direito dele, a nós cabe-nos respeitar o que ele foi, e não o que cada um de nós gostaria que ele tivesse sido).

É uma boa pergunta

por henrique pereira dos santos, em 20.06.23

"Ter centros de investigação com 70/80% de precários (como é normal até nos centros de maior excelência que teoricamente teriam as melhores condições financeiras, como o centro onde trabalho) é problemático pela própria ciência: como fazer escolhas estratégicas de longo prazo se não podemos saber que recursos humanos teremos daqui a poucos anos?", Simone Tulumello, neste artigo do Observador.

A pergunta é muito interessante.

Para o autor parece ser apenas retórica, dado ser evidente que só se podem fazer escolhas estratégicas depois de saber com que recursos se conta, mas para mim é interessante exactamente porque o autor dá como óbvio o que para mim não é nada óbvio (demonstrando, mais uma vez, que o óbvio é uma coisa muito subjectiva).

Imaginemos que não estamos a falar de ciência, mas de sabonetes: como pode uma empresa de sabonetes fazer escolhas estratégicas se não sabe qual o valor de vendas que vai ter daqui a poucos anos?

Posta a pergunta assim, parece-me evidente para mim (repito-me, o óbvio é uma coisa muito subjectiva) que a principal escolha estratégica a fazer é concentrar-se nas vendas, visto ser a partir daí que se conseguem obter os recursos para tudo o resto.

Ora, aparentemente, considera-se que a produção científica é substancialmente diferente da produção de sabonetes, em primeiro lugar porque o seu financiamento não depende das vendas, mas do financiamento público (para mim é evidente, ver acima a nota sobre o óbvio, que continuam a ser vendas, a diferença é apenas o facto de serem vendas a clientes especiais cujas decisões não decorrem do benefício directo para os decisores, em teoria, no caso do sistema científico fortemente endogâmico e assente no escrutínio cruzado entre pares, na prática a teoria pode ser outra).

Para quem, como eu, admite que produção é produção, seja do for (nisso sou um bocado marxista), a resposta à pergunta formulada no princípio deste texto parece-me evidente: as escolhas estratégicas devem concentrar-se no que permite garantir os recursos que fazem falta, sabendo que o financiamento público é como a decisão de compra de um sabonete: varia com milhares de factores que actuam sobre milhares de pessoas.

O que não faz sentido, para mim (ver nota sobre o óbvio acima) é pretender que primeiro se definem os recursos existentes no longo prazo, e depois se fazem escolhas estratégicas compatíveis com esses recursos.

Uma quinta no Douro e a CP

por Miguel A. Baptista, em 19.06.23

Imaginem que tinham uma boa disponibilidade económica, e uma quinta no Douro da qual gostavam. Já vos devem ter pedido que imaginassem coisas piores. 

Como gostam da quinta, entregam, todos os anos, ao feitor, 85.300€ para que ele mantenha tudo impecável. É bastante dinheiro, mas como gostam da quinta é esse o valor que entenderam ser razoável para o efeito. Este ano o feitor até fez um bom trabalho na gestão da coisa, o ano foi bom para o vinho e para o azeite, e chegou ao final do ano sobrando-lhe 8.000€. 

Será que é razoável dizer que a quinta do Douro dá lucro? 

Pois bem, o que acontece com a CP é, mais ou menos, o que acontece com a quinta no Douro, mas com os valores multiplicados por mil. O Estado atribuiu uma indemnização compensatória de 85,3 milhões de euros à empresa e esta termina o ano com 8 milhões de euros de lucro. 

Eu até penso que este modelo, da existência de um montante pré-definido de indemnização compensatória, é globalmente bom, e permite maior racionalidade de gestão. No entanto, ouvir pessoas como o ex-ministro Pedro Nuno Santos falar como se a CP fosse uma empresa muito lucrativa é profundamente enganador. 

Áquele ábraço ó sê Môrinho...

por João-Afonso Machado, em 19.06.23

Já não vale a pena dizer nada. Costa, caladinho como um rato, lá desviou um Falcon do Estado para uma paradinha na Hungria. Parece que gosta muito de futebol e a final entre o Sevilha e a Roma dizia muito aos portugueses, tinha o alto significado do que é um socialista a mexer nos bolsos dos contribuintes.

Marcelo defendeu-o. - Que ele, Costa, lhe comunicara previamente o desvio do avião, não para a sua Ásia mas para Budapeste, aproveitando, era só um abração a Mourinho. Íntimos... Estas defesas marcelistas, no entanto, estou em crer não prenunciam nada de bom para Costa. Sobre isso veremos em devido tempo...

Não, o importante é que Costa nem se mexeu ou falou. Tal a sua soberba, a bunda monumental que já não cabe no cadeirão paçal da capa da Visão. Daqui ninguém me tira - exemplifica e concretiza ele, sorrindo, todos os dias.

E o mais importante ainda: o 1º Ministro Viktor Orbán não se diga que é xenófobo - sentou-se ao lado de Costa, algo que eu jamais faria; e não fez caso do muito mal que a Esquerda tem proclamado sobre a "extrema-direita" húngara, o próprio anfitreão. E Costa, de tudo capaz, lá se esqueceu da ética-republicana - só para esse gand'ábraço ó sê Môrinho.

Realeza do Congo

por Daniel Santos Sousa, em 17.06.23

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Príncipe Magamba-Congo, também designado como Mtware (Duque) de Matamba (hoje correspondente à região de Malanje, Angola) e a sua corte, provavelmente em 1896, ou em 1911 na cerimónia de coroação de Manuel III do Congo, com a bandeira de Portugal por detrás. Duas monarquias em respeito e em igualdade.

Depois, com a República, o reino do Congo seria convertido em "protectorado", perdendo a importância adquirida enquanto potência da região do Zaire. Interessante que o último rei de Portugal foi D. Manuel II e o último rei do Congo foi D. Manuel III.

"Um legado de cinzas: seis anos de Pedrogão Grande"

por henrique pereira dos santos, em 17.06.23

O título deste post é o título de uma crónica de João Camargo que está no site do Expresso (não faço ideia se está no papel).

Habitualmente não ligo ao que escreve ou diz João Camargo mas tropecei nesta crónica e fiz um comentário que era a mera constatação de um facto "E mesmo assim este rapaz não teve tempo para estudar nada sobre o assunto da crónica".

Alguém fez notar que isso não era um argumento (concordei, expliquei que estava a constatar um facto) e resolvi então fazer este post, argumentando.

Comecemos pelo título: seis anos depois de Pedrogão, não há legado de cinzas nenhum, o que há é um desenvolvimento da vegetação, beneficiando do aumento da luz disponível por eliminação da vegetação de maior porte e da fertilização das cinzas.

Continuemos pela apresentação do autor, que se apresenta como investigador em alterações climáticas, sem explicar que o tema da sua investigação não são as alterações climáticas, mas sim "Adaptação às Alterações Climáticas, nova metanarrativa para a Humanidade?", um bocado como se eu estudasse a forma como as pessoas reagem à doença e me apresentasse como especialista em doenças. Explicado pelo próprio em que consiste verdadeiramente o que lhe interessa e preocupa: "Não é uma grande conspiração: a metanarrativa capitalista é uma jaula para as mentes e é na “segurança” dessas jaulas que capitalistas e anticapitalistas caminham para a ruína".

Entremos no texto propriamente dito, esquecendo as partes introdutórias.

"O que está nesses territórios? É tentar adivinhar (se for território florestal a probabilidade de ser eucalipto é elevada)."

Há dois grandes disparates neste bocadinho. O primeiro é a sugestão de que o país não sabe qual é a ocupação do solo que existe, o segundo é achar que ocupando o eucalipto 10% da área do país, cerca de um terço da área de povoamentos florestais (os povoamentos florestais são cerca de metade da área florestal, a outra metade é matos e o terço de que estou a falar é um terço da metade, dos dois terços de área florestal do país), há uma probabilidade grande de que a ocupação florestal que se encontra em qualquer lado, seja eucalipto. Há de facto áreas do país onde isso é verdade, são as áreas de maior produtividade do eucalipto, mas há áreas muito maiores em que encontrar eucaliptos nas áreas florestais é uma probabilidade marginal.

É porque não sabe isto que João Camargo escreve disparates destes?

Não, ele sabe disto perfeitamente, mas como na verdade se está nas tintas para o problema dos fogos e das suas consequências, e a sua preocupação é atacar os capitalistas que ganham dinheiro com a fileira do eucalipto, o que lhe interessa é usar os fogos como instrumento comunicacional para falar de eucaliptos como sintoma de disfunção capitalista.

João Camargo está fartinho de conhecer este estudo de Paulo Fernandes, Nuno Guiomar e Carlos Rossa, que é coerente com toda a investigação feita entre a relação do eucalipto com o fogo (praticamente não existe, seguramente não é relevante), mas descarta-o.

Porque tem investigação que o contraria?

Não, porque é fácil descartar um estudo dizendo que as suas conclusões são feitas à medida dos poderosos interesses da indústria, mesmo que em momento algum se consiga identificar qualquer indício de manipulação da investigação por qualquer destas pessoas (não conheço Carlos Rossa, conheço os outros dois, que regularmente são acusados de estar vendidos aos interesses, mas sem que alguma vez alguém tivesse demonstrado, ou sequer apresentado indícios, que permitam essa afirmação).

"O país com maior área de eucaliptal relativo do mundo. ... Terá alguma influência no facto de Portugal ser o país que mais arde no Mediterrâneo? Alguns especialistas juram a pés juntos que não".

Não, não são alguns especialistas, são todos os especialistas que estudam o assunto, todos eles sabem que hoje (amanhã não sabemos) o que é aceite cientificamente sobre o assunto é que o fogo é um filho do seu contexto, contexto esse que, no noss caso, é favorável ao fogo, ao eucalipto e ao sobreiro (só para dar outro exemplo, no caso, de uma espécie em que temos mesmo a maior área de ocupação do mundo, mesmo em termos absolutos).

Claro que nada disto interessa a João Camargo, tanto que nem tenta fundamentar as dúvidas que tem sobre o que dizem os especialistas na matéria, o que lhe interessa é sempre o mesmo: destruir o capitalismo.

"Para não haver dúvidas sobre o absoluto ultraje que é a ação política e mediática das celuloses, a sua confederação, a CELPA (que entretanto mudou de nome para BIOND) aproveitou uma área aprovada para plantar medronheiros e foi plantar 90 hectares de eucaliptos em… Pedrógão Grande."

E para fazer andar a sua agenda anti-capitalista, João Camargo não tem o menor pudor de mentir com quantos dentes tem na boca, como neste caso, que passo a descrever factualmente para que se possa avaliar.

Após os fogos de 2017, a então Celpa (hoje Biond) e as empresas de celulose desenharam a levaram a cabo vários projectos que pretendiam melhorar a gestão de algumas áreas ardidas.

Porque são a Santa Casa da Misericórdia e são muito boazinhas?

Não, porque têm um problema de abastecimento das suas fábricas, que é agravado pelos entraves administrativos à exploração de eucalipto, e com medo que os proprietários abandonassem a exploração de eucalipto, dispuseram-se a financiar projectos, infraestruturas e plantações em áreas que, antes dos fogos, eram eucalipto (aquelas em que estes projectos são passíveis de ser aporovadas).

Para isso juntaram um monte de proprietários, que aderiram voluntariamente ao projecto e se comprometeram, nas suas parcelas a fazer isto e aquilo (os projectos, sendo maioriamente eucalipto, têm uma percentagem relevante de áreas de conservação ou outras ocupações que não eucalipto).

Num desses projectos, em Pedrogão, com cerca de 100 hectares (não sei ao certo e não fui procurar), houve dois proprietários que se comprometeram a fazer uma coisa e fizeram outra.

Esta situação foi denunciada publicamente (antes de ser transmitida aos gestores dos projectos), a denúncia foi verificada e de facto em quatro hectares (não sei os pormenores, na altura pedi informação para perceber bem o que se tinha passado), ou coisa do género, onde os proprietários se tinham comprometido a fazer medronho (tinha chegado a haver plantação, acho eu), arrancaram tudo e plantaram eucalipto, à revelia dos gestores do projecto (o projecto é apoiado pelas celuloses, tem umas partes relevantes que são financiadas pelas celuloses, mas o responsável formal pelo projecto é uma associação florestal, tanto quanto sei).

Verificado o incumprimento, foi feita uma análise profunda da execução de todo o projecto (que não detectou outras discrepânceas tão relevantes), e foi resposta a situação, de acordo com o projecto aprovado.

João Camargo conhece este processo profundamente, até porque a denúncia foi feita pelo seu compincha nestas matérias, Paulo Pimenta de Castro, e portanto sabe que está a mentir com quantos dentes tem na boca ao dizer que foram aprovados 90 hectares para medronho e as celuloses puseram lá eucaliptos.

Mas mente desta maneira para poder fazer frases destas: "Não é difícil imaginá-los a planearem uma plantação de eucaliptais em cima das pessoas que morreram nos incêndios. Uma vergonha para nós, enquanto sociedade. As celuloses não têm, nunca tiveram e nunca terão qualquer vergonha."

Tal como não tem o menor pudor em dizer tudo e o seu contrário, desde que sirva a sua agenda anti-capitalista: "a seca e a escassez de água fazem com que haja cada vez mais mortalidade de árvores e menos espécies que aguentem ... No entanto, sabemos que se é para ter um território viável, ... precisamos de operar ... a nível da paisagem, plantando as árvores que ardem menos e as que podem aguentar um território mais seco e mais quente".

A quantidade de asneiras, mentiras e afins que se encontram nos textos de João Camargo sobre assuntos de que sei alguma coisa leva-me sempre a perguntar: a explicação para ter tanto tempo de antena é apenas por ser genro de Louçã?

A minha resposta é cada vez mais que não, não chega, pode ajudar, claro, mas a questão é que João Camargo é especialista em perceber que mitos dominam nas redacções dos jornais, e escreve de maneira suficientemente esquiva para que redacções que, como é natural, não são especialistas neste ou naquele assunto, achem fantástico este arrazoado, pelo simples facto de confirmar os mitos com que essas redacções de jornais se sentem confortáveis.

Coisas espantosas

por henrique pereira dos santos, em 16.06.23

Por acaso, mas mesmo um acaso, dei por mim a ler uma coisa qualquer que falava de Viana Barreto e que rapidamente percebi que tinha sido escrita por mim: era a reprodução integral de um capítulo de um livro que escrevi, com a referência da origem no fim.

Por mim, é para o lado que durmo melhor, o que eu quero é que leiam o que escrevo e, na verdade, tenho todo o gosto em receber direitos de autor (ou outra coisa qualquer), mas não ligo assim tanto ao dinheiro.

Tive curiosidade em perceber o contexto em que aparecia integralmente um capítulo de um livro meu no Instituto Camões.

Está aqui.

Afinal são três capítulos integrais do tal livro, que um Instituto Público trata como os seus recursos didácticos/ técnicas de comunicação/ geografia, num centro virtual, sem a menor sombra de estar preocupado com a lei e com os direitos de autor (já nem falo da cortesia, que isso é coisa que está muito desvalorizada).

Que faça bom proveito aos poucos que lerem o que escrevi por esta via (o livro até já nem se vende, portanto é igual ao litro, tanto mais que não estou a ver ninguém interessado, nem eu, em fazer uma segunda edição), mas como demonstração do que é o bem comum para a actividade concreta do Estado, acho que não está mal: o que é meu, é meu, o que é teu, é nosso.

Obrigado por terem gostado, digo-o sem a menor ironia, fiquei mesmo contente, independentemente da bizarria dos métodos deste instituto público.

Como se define racismo?

por henrique pereira dos santos, em 16.06.23

Nestes dias, a propósito da alegação de racismo nuns cartazes, feita por António Costa, ouvi muita gente, muito diferente, a argumentar que quem define o que é racismo é a vítima, se alguém de uma minoria étnica (vou passar por cima da piada de considerar António Costa como pertencendo a uma minoria étnica) diz que alguma coisa é racismo, só nos resta aceitar que é racismo.

Traduzindo o argumento, se eu for mulato, e não gostar do preço das maçãs, posso alegar que é racismo, aos outros não cabe verificar se o merceeiro me fez um preço diferente por ser mulato (isso sim, seria racismo) ou se o preço foi igualmente alto para todos, porque é a vítima que define se sente a acção como racista.

A legislação portuguesa, na verdade, tanto quanto vi, não define racismo, visto que se dirige à discriminação, é a discriminação em função da raça, nacionalidade, etnia, etc., que pretende ser sancionada.

Tanto quanto vi, também não define raça, o que se compreende, visto não haver qualquer definição minimamente consistente de raça e ser hoje consensual que não existem raças de humanos.

Nacionalidade é fácil de definir, mas raça ou etnia é bem mais difícil, o que nos coloca numa situação estranha de considerarmos crime a discriminação racial (em algumas circunstâncias, noutras é uma contra-ordenação), que a generalidade das pessoas entende como sendo o racismo um crime (ou pelo menos uma contra-ordenação, depende das circunstâncias) ao mesmo tempo que entendemos que é a vítima que define se há, ou não, racismo, apesar de serem os tribunais que definem se há ou não crime (os as autoridades administrativas sobre se há ou não contra-ordenação), condição básica de um estado de direito.

Continuai por este caminho, parece-me que tem um enorme potencial.

Aliás, potencial é curto, é já uma realidade, o que não faltaram foram críticas ao estado de direito a propósito de um julgamento em que Mário Machado acusava Mamadou Ba de difamação, com alguma gente a escrever no jornais que era absurdo que os tribunais julgassem a questão porque era pôr os tribunais a legitimar o racismo, julgando o anti-racismo.

Dessa vez foram só os profissionais do racismo que vieram dizer que era absurdo que houvesse sequer esse julgamento, mas desta vez, na acusação de racismo feita por António Costa, foi muito mais gente, de um espectro muito mais alargado, que veio defender que se alguém considera o preço das maçãs como um acto racista contra si, não há nada a discutir, é racismo, porque é a vítima que pertence a uma minoria étnica (não se deixem distrair com a piada de achar que António Costa é um membro de uma minoria étnica discriminada, a piada é velha, já foi usada com a Kamala Harris) que tem o direito a dizer se é racismo ou não, os outros, comem e calam.

Porcos e racistas

por João Távora, em 15.06.23

D Carlos.jpg

Oravamolaver: avaliar, julgar, privilegiar, condenar uma pessoa pela cor da sua pele ou etnia é racismo. Uma caricatura de um primeiro-ministro (rei ou clérigo), seja qual for a sua cor de pele, com um focinho de porco, é simplesmente mau gosto.

Hesitei muito a partilhar esta caricatura do rei Dom Carlos - um Chefe de Estado que admiro particularmente. Porque ao acontrário do que acontece com os republicanos, a maioria tornada socialista nos nossos dias, esta caricatura mexe com a minha sensibilidade - sou um institucionalista e um conservador. Certo é que há 120 anos a imprensa era mais livre do que a nossa, disso não tenham dúvidas.

Mensagem, um livro como desígnio

por Daniel Santos Sousa, em 15.06.23

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A imagem é um dactiloscrito do livro "Mensagem", emendado e corrigido pela mão do próprio autor preocupado em aperfeiçoar a dimensão simbólica do projecto literário. Aqui podemos acompanhar o raciocínio do poeta e entender os mecanismos da criação. Como parece perceptível, o título da obra era para ser "Portugal", entretanto o autor terá sido advertido a mudar, acreditando estar o nome suficientemente vulgarizado para não dignificar a grandeza do livro. Embora mal não ficasse o título, a originalidade do poeta era suprema. Para Pessoa tudo tem um sentido. Tudo tem uma lógica própria. Um raciocínio. E por detrás da racionalidade um elemento enigmático que serve de desafio ao leitor. O título é uma composição laboriosa muito mais simbólica do que aparenta, uma espécie de elemento críptico que recebe o leitor na demanda do projecto épico. "Mensagem" é, na verdade, um anagrama, uma adaptação do verso de Virigilio, da "Eneida": Mens agitat molem. Significa isto que a mente controla a matéria. A palavra tem o mesmo número de letras da palavra "Portugal" (e volto a dizer que em Pessoa nada é escolhido ao acaso), uma palavra de 8 letras, número esse ligado aos templários (a cruz templária tem 8 pontas). Todos os elementos na poesia de Pessoa são preciosos e simbólicos. Até um mero título consegue falar por quase todo o livro. É Portugal perdido e reencontrado, uma missão para o século do aspirante a "super Camões". Uma nova vocação para um povo perdido nas intempéries da história.

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