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A melancólica degradação

por henrique pereira dos santos, em 10.03.23

O estado do Estado, em Portugal, é muito deprimente e sem qualquer esperança de que venha a melhorar, no curto prazo.

Uma Inspecção Geral de Finanças que aceita fazer uma auditoria à medida do que o Governo sobre a indemnização de Alexandra Reis em que não só não ouve a CEO da TAP, como depois se desculpa com a economia de meios, é inqualificável.

Uma ASAE que se dispõe a fazer fiscalizações à medida da operação de intoxicação da opinião pública desencadeada pelo governo sobre os preços dos bens alimentares, difundindo a ideia de que encontrou lucros brutos inaceitáveis no mercado retalhista, é inqualificável. Não só é inqualificável pôr-se ao serviço do governo - os serviços públicos servem as pessoas e a lei, não ser servem o governo - como é inqualificável aceitar que se difunda o equívoco voluntário de chamar lucros brutos a margens brutas de comercialização, para obter o efeito de comunicação desejado.

Uma segurança social, que aceita pôr-se ao serviço da campanha de contenção de danos do governo na gestão dos gravíssimos problemas decorrentes do governo não ter nenhuma política séria para a gestão dos aspectos sociais relacionados com a velhice, é inqualificável.

Um Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana que aceita não produzir informação séria sobre habitação que permita uma discussão sobre os efeitos potenciais das medidas sobre o sector que o governo pretende adoptar, é inqualificável.

Uma administração dos serviços de saúde que aceita calada a degradação dos serviços decorrentes das opções das 35 horas de trabalho e do fim das PPP (cara Graça Freitas, e que tal se a directora geral de saúde tivesse tido a coragem de falar sobre os efeitos destas medidas na saúde do país, em vez de discutir as intoxicações com bacalhau à braz?), é inqualificável.

E poderia continuar, direcção geral a direcção geral, incluindo naturalmente aquela em que trabalho e de cujo presidente sou amigo pessoal, a dar exemplos da profunda degradação dos serviços público em Portugal, que se transformaram em meros gabinetes governamentais, em vez de orgãos de administração com autonomia, assente em compromissos para com as pessoas e a lei, em vez de dependência estrita do governo de turno.

A degradação das instituições, e dentro destas, daquelas que estão mais profundamente no perímetro do Estado, será a principal herança futura daquele a quem muitos continuam a considerar o melhor político da sua geração e um génio político: António Costa.

A dimensão dessa degradação só é possível porque reflecte a degradação dos mecanismos de controlo e escrutínio em Portugal (em que país seria admissível que os ministros responsáveis por despedir a CEO da TAP em directo, pela televisão, viessem reconhecer, umas horas depois, que na verdade ainda vão tratar de a despedir, depois de cumprir os formalismos legais que não cumpriram antes e, mesmo assim, continuassem ministros?).

Já várias vezes tenho usado esta história que, para mim, nos define enquanto sociedade.

António Costa perdeu as eleições em 2015, mas formou governo aliando-se a outros partidos.

Nada haveria a dizer se, na campanha eleitoral, essa hipótese tivesse sido clara, discutida e escrutinada, e não apenas revelada depois das eleições.

Mas o relevante não é esta chico-espertice.

O relevante é que na última semana da campanha eleitoral, numa acção de campanha, Costa convida uma jornalista para ir com ele no carro, revela-lhe que é isso que fará depois das eleições, mas impõem à jornalista que não diga qual é a fonte dessa informação.

Dois dias antes das eleições, o mais influente semanário do país faz a sua manchete dizendo que essa vai ser a opção de António Costa se perder as eleições, mas mantém o anonimato da fonte (qualquer pessoa com dois dedos de testa percebe a diferença entre dizer que é António Costa que diz isso, ou deixar num limbo a origem da informação, que pode ser uma mera especulação do jornal).

O anonimato das fontes é um mecanismo que o jornalismo defende com unhas e dentes (e bem) para protecção das fontes que podem correr riscos revelando informação de interesse público (por exemplo, um mecanismo ilegal de tráfico de droga).

Não é, nem um jornalista digno desse nome deixaria que fosse, um mecanismo de tráfico de influências, como na história citada: a jornalista tem uma informação privilegiada que mais ninguém tem, que permite ao jornal fazer uma manchete bombástica, perfeitamente legítima se identificada a fonte, mas que é mera manipulação do jornal pela fonte, quando ela se mantém anónima.

Que toda a gente conheça esta história - há até um livro escrito por duas jornalistas que a contam ao pormenor, para explicar como Costa fez a geringonça em 54 dias - e que isso seja sistematicamente apresentado como uma demonstração da habilidade política de Costa e como uma actuação legítima por parte da jornalista e do jornal, é bem o retrato de uma sociedade em que os mecanismos de escrutínio do poder estão num estado de melancólica degradação tão fundo, mas tão fundo, que nem nos damos conta de como isso é deprimente e nos condena à mediocridade, por muitos anos.

Um supermercado socialista, já!

por José Mendonça da Cruz, em 09.03.23

A Sic anda ocupada a tentar provar que no sector com mais assanhada concorrência, e, consequentemente, melhores resultados para os consumidores, há «especulação» e privados cruéis que só querem o lucro. A Sic não apresenta provas, nem tem dados sobre a tal especulação, nem os procura. Toma como pressuposto que a subida de preços não tem a ver com a inflação em Portugal e a ausência de medidas do governo. Toma como pressuposto que a subida de preços não tem a ver com o preço dos adubos ou dos combustíveis, que, estes, devem 60% do custo ao governo. Não toma como pressuposto, evidentemente, nem o vírus, nem a guerra, que essas só servem para desculpar o desgoverno. E nem menciona os países que baixaram o IVA dos produtos alimentares, ao contrário do governo português que prefere sorver mais impostos. E tudo isto é normal, porque a Sic está apenas a dar fôlego a uma campanha do governo, com recurso ao braço armado da ASAE, que serve para muitas actividades. Assim -- disfarça o governo, e pretende a Sic -- a culpa é dos agentes privados de um sector onde a concorrência é mais acesa, «os privados» que só pensam no lucro.

Assim, hoje, a Sic decreta que há uma ideia de especulação «cada vez mais forte», o que é engraçado, porque a «ideia» nasceu no governo, foi plantada na cabecinha da Sic que a vem cultivando há dias, e só nela é que é «mais forte». (É um truque velho do mau jornalismo: «Há a ideia geral de que...», diz o jornalista aldrabão que pretende passar por realidade uma ideia sua sem fundamento.)

No próximo episódio, a Sic defenderá que os socialistas deviam fazer supermercados públicos, talvez com uma reversão tão boa como a do Hospital Beatriz Ângelo, talvez com uma nacionalização tão boa como a da TAP,  uns novos supermercados tão eficazes como os serviços públicos, tão capazes como os transportes, tão funcionais como a escola pública.

Carta aos putativos compradores da TAP

por José Mendonça da Cruz, em 09.03.23

Enquanto, a exemplo do governo socialista, o Sr. António Pedro Vasconcelos não propõe veementemente privatizar a TAP, depois de propor veementemente nacionalizar a TAP, publiquei hoje no Observador esta carta:

 

Cara British Airways, Iberia, Lufthansa et al. (aut nemo)

Tomando por boa, neste local de fantasia, a notícia de que estão interessados na compra de uma das companhias aéreas portuguesas deficitárias, vimos, a bem da lisura e bom sucesso da negociação, informar sobre quem vão ter do outro lado da mesa.

A TAP vai ser-vos vendida por um colectivo socialista encabeçado pelo primeiro-ministro António Costa. Terão do outro lado da mesa (ao menos por interposto escritório de advogados) a cabeça e os membros desse colectivo. Já não tereis que preocupar-vos com a directora-geral, Sr.ª Christine. A Sr.ª Christine que veio de uma pequena companhia aérea francesa entretanto falida – e embora anunciada por governo e media amigos como o nec plus ultra da aviação civil – foi despedida pelo colectivo socialista por não o ter compreendido bem. A Sr.ª Christine assinou por baixo dos ministros das Finanças (o actual) e o das Infraestruturas (o defunto, embora só provisoriamente) uma indemnização de meio milhão de euros a uma socialista que saltitava entre cargos em empresas públicas e governo. Fazia-o, portanto, e segundo cria, em sintonia com a ética e cultura vigentes. Por ingenuidade, escapou-lhe que, caso se soubesse e fosse motivo de escândalo, a responsabilidade seria exclusivamente sua.

 

À mesa, portanto:

O Sr. Costa é o líder da associação que assinou com FMI e EU um memorando de entendimento em que se comprometia a privatizar a TAP. O compromisso foi cumprido por um governo sério que se ocupou do interregno socialista. Mas o Sr. Costa, depois de perder as eleições, trouxe o colectivo socialista de volta ao poder com a ajuda do Partido Comunista (sim, ainda existe aqui, é o esqueleto do que havia nos vossos países há umas décadas) e de outros radicais de esquerda, muito vocais e que são uma espécie de Barbie dos jornais e televisões de Lisboa. E logo o Sr. Costa criticou veementemente o anterior governo por cumprir as obrigações que o seu colectivo assumira, e decidiu «reverter» o acto. O Sr. Costa e o seu colectivo nacionalizaram a TAP, diziam que «para a salvar», e agora têm urgência em privatizá-la, para salvar-se.

O Sr. Costa é, por isso, muito querido e celebrado pelos nossos media, com destaque para Sic, Tvi, Expresso, DN e Público, como uma pessoa muito hábil, o que corresponderá menos aos vossos «apt» ou «wise», e mais a uma mistura dos vossos «cunning» e «tricky». Consequentemente, se o negócio for um sucesso o Sr. Costa terá sido o autor e, ainda que o não tenham visto, terá estado presente nas reuniões todas. Se não for, o Sr. Costa não esteve, não foi informado, nem participou, e, aliás, não sabia de nada, como aconteceu com todos os governos em que participou.

 

Sentar-se-ão também perante vós (ao menos por interposto escritório de advogados), os ministros da tutela: o das Infraestruturas de agora, Sr. Galamba, e o ministro das Finanças, o Sr. Medina.

 

O Sr. Galamba sucede ao Sr. Santos, defunto (ministerial e provisoriamente, entenda-se), o qual antes alcançara a glória quando o Sr. Costa o fez ponta de lança para reduzir a TAP ao que eles chamam «estratégica», ou seja, com bons cargos para os seus e apoiada com dinheiro dos contribuintes. Visto ser, por enquanto, pretérito, poderia parecer fútil explicar-vos dolorosamente quem era o Sr. Santos, pessoa cuja incompetência só é ultrapassada pela presunção. Não vá dar-se, porém, que o Sr. Santos volte como chefe de Governo durante a vigência do vosso contrato, pois podemos sempre contar com o entusiasmo dos media amigos – com Sic, Tvi, Expresso, DN e Público à frente – e a sabedoria impenetrável do nosso povo (que já deu 39% ao Sr. Sócrates sendo já evidente quem era, e a maioria absoluta ao Sr. Costa, depois de ele destruir a saúde, a educação, a Justiça, a economia e os serviços públicos em geral)

O Sr. Galamba que sucedeu a Santos em meia pasta, distinguiu-se pelo apoio inabalável ao Sr. Sócrates, autor de uma bancarrota nacional, e acusado de corrupto e ladrão de dezenas de milhões de euros, mas decerto injustamente, pois que a nossa boa e célere justiça nunca o poderá demonstrar em bom tempo. O Sr. Galamba também vale pelo propósito inabalável de investir uns biliões da esmola europeia no fabrico de hidrogénio verde que não fabricamos e na sua venda à Europa que o não quer através de um gasoduto que o não transporta; e talvez possa valer ainda mais quando um dia prometa, como o seu antecessor fez e o colectivo socialista aprecia, o 17.º programa de renováveis e a 23.ª revolução da ferrovia; e também porque é malcriado e dinâmico.

 

O Sr. Medina, sentar-se-á também à mesa. É o ministro das Finanças, que os lisboetas não quiseram para presidente da Câmara, mas que o Sr. Costa sentou à mesa do orçamento dos amigos e compadres. Para o Sr. Medina, filho espiritual do Sr. Costa, vale o que se disse para este: tudo o que correr bem, foi ele; tudo o que correr mal, não foi ele, não tomou parte, não foi informado, e, aliás, não sabe nada.

 

Os advogados. Por fim, talvez todos os protagonistas acima estejam presentes in absentia, e em frente de vós vejam dois ou três bons advogados de um grande escritório. É melhor para o cumprimento dos contratos. Merece o esforço, porém, verificar de que escritório exatamente se trata, ainda que ele pertença a algum parente de uma grande figura do Estado socialista. É que também os contratos por eles negociados e redigidos podem ser revertidos, porque afinal não estavam mandatados, ou por não terem informado ninguém, ou devido ao desconhecimento de absolutamente todos os membros do coletivo socialista.

 

Para que haja sucesso basta, evidentemente, que a empresa seja vendida exatamente como o colectivo socialista agora pretende e anseia, ou seja, depressa, porque o caos criado é eleitoralmente ingrato. Assim, não deve preocupar-vos, caros putativos compradores, que acabem por pagar muito pouco. Os nossos media são muito patriotas, embora de preferência quando o governo é de esquerda, como é o caso. Celebraram e ainda celebram repetidamente, por exemplo, um crescimento do PIB de 6% como «histórico» e «recorde em democracia», depois de uma queda de 8,3% no ano anterior. Sobre a venda da TAP, portanto, os media, com Sic, Tvi, Expresso, DN e Público à frente, decerto explicarão que a venda da TAP nos poupou 2.999.999 euros, que é a diferença entre o euro que vós tereis dado por ela, e os 3 mil milhões que ainda tínhamos que pagar outra vez. Abster-se-ão de festejar como «histórico» o lucro, diz-se, de 30 milhões (sem levar a contas os 3 mil milhões lá vertidos, evidentemente), não só porque é responsabilidade da Sr.ª Christine – que desagradou ao governo que lhes agrada –, como por ser mentira, já que em 2017, no tempo do acionista privado depois expulso (com 55 milhões que levou a rir até ao banco) pelo Sr. Costa e seu colectivo socialista, dera um lucro de mais de 100 milhões. E que não vos preocupe, ainda, acabar, como provavelmente desejam, com o hub de Lisboa, tão promissor no tempo do outro privado, mas tão irrelevante para o colectivo socialista. Acresce que ninguém se rala com isso: o país é pobre, e os aviões são para os ricos.

Evidentemente, se o negócio se gorar, o Sr. Costa e os seus amigos nunca terão estado presentes, nunca terão sido informados nem sabido de alguma coisa, e decretarão um rigoroso inquérito para apurar todas as responsabilidades doa a quem doer. Por poder doer sobretudo a eles devem advertir sobre este ponto os motoristas que vos transportem e alguém que durante as reuniões vos sirva café ou pastéis de nata.

Uma tragédia

por João Távora, em 08.03.23

As estapafúrdias declarações de ontem do Bispo de Beja mostram como, além da azelhice a comunicar questões de foro político, a Igreja Católica tem um problema adicional a lidar com os crimes da pedofilia no seu seio: tem que ver com a cultura cristã do perdão e da misericórdia, a lidar com as misérias humanas mais obscuras promovendo a redenção e recomeço de cada pessoa. Uma confusão que jamais deveria acontecer - uma coisa é o perdão de Deus, outra diferente é a justiça terrena, o perdão dos homens, as regras da cidade. 

Eureka, compreenderam!

por José Mendonça da Cruz, em 07.03.23

O Sr. Mário Nogueira, professor, da Fenprof, quer que os alunos façam como ele faz há décadas e não vão à escola. Foi esse o apelo dele aos pais, não levem os vossos filhos à escola. Até que enfim que alguém explica ! Os professores não têm nada que dar aulas, nem as escolas são para ensinar. Os professores cairam no ciclo vicioso da profissão criminosamente maltratada, a que só adere quem não tem outros talentos, o que faz da profissão a mais maltratada. Os professores que não querem ser avaliados não têm nada que avaliar, e nem a escola socialista quer isso, ou ainda ia haver maus resultados em vez de números fantasiosos. Os professores não têm nada que ensinar, só têm que ir-se embora se forem eventuais, ou sentar-se à espera da antiguidade, se o não forem. E as crianças não têm nada que estar na escola. Têm as casas dos pais, dos avós, dum irmão mais velho, dos tios, e as creches, e os infantários, e os jardins e a rua. Até que enfim que alguém explica.

Uns passageiros do comboio de Sintra acharam que estavam apertados, puxaram o alarme e foram a pé para a estação. Até que enfim que perceberam. Os comboios não são para passageiros, são para os vinte sindicatos de maquinistas e seus consócios. Não são para transportar; para isso há carros e camionetas, motos e motoretas, biciletas e triciclos e trotinetas. Até que enfim que perceberam.

As ambulâncias fazem bicha e os «utentes» esperam horas para não serem atendidos nos hospitais públicos. Nunca mais percebem: os hospitais públicos não servem para atender doentes, nem as urgências são para estar abertas, porque as 35 horas são um direito inalienável, os médicos têm melhores sítios onde estar e as horas extrordinárias são caríssimas. Querem urgências?! Vão aos privados, que só pensam no lucro.

Há uma confusão terminológica compreensível, mas ainda assim confusão: a de que os serviços públicos servem para servir o público. Fazem filas às portas feitos tontos. Protestam por ignorância, porque aquilo para que servem os serviços públicos é para servir os funcionários públicos que lá trabalham. E assim é que deve ser, que o exemplo vem de cima, Costa e os seus estão lá para explicar isso mesmo: que o PM é para estar, não é para governar, aliás como o governo tenta explicar todos os dias.

A causa das notícias

por José Mendonça da Cruz, em 07.03.23

A Sic noticia que as urgências pediátricas do Hospital Beatriz Ângelo afinal vão abrir.

Já há médicos, então? Não.

Quando abre? Não se sabe, mas «em breve» diz o presidente socialista da C.M. de Loures.

Porque é notícia? Porque a Sic gosta de notícias agradáveis ao governo.

 

A Sic entrevista a ex-ministra da Saúde.

Por, com Costa, o PCP e o Bloco, ter destruído o SNS com as 35 horas de trabalho e o fim das PPPs responsáveis pelos melhores hospitais do país, e que estão hoje mais caros e em cacos? Não.

Para explicar porque deixou de ser ministra? Não.

Porque é notícia na Sic? Porque a Sic gosta de promover socialistas a possíveis presidentes de Câmara.

 

A Sic vai ter Pedro Nuno Santos a comentador contratado.

Por ter feito obra na Habitação, na Ferrovia, na TAP, nas Infraestruturas? Não. Prometeu 37 programas sobre as mais diversas coisas para várias décadas, mas não fez nada ou estragou o que havia.

Para explicar o funcionamento do Governo, os desentendimentos com Costa, a razão da saída? Não.

Por ser muito inteligente e ter enorme faro político? Comprovadamente, não.

Porque é comentador da Sic? Porque a Sic gosta de promover socialistas a futuros ministros e primeiros-ministros.

 

A tecnologia e as relações humanas

por Miguel A. Baptista, em 07.03.23

Estou convencido que a inteligência artificial irá, nos próximos 10 anos fazer uma revolução maior do que o aparecimento da internet. 

Tenho dificuldade em antever exactamente como e em que domínios. Temo que contribua, ainda mais, para a desumanização das pessoas. 

No Japão cada vez mais pessoas optam por não ter sexo. Há boa pornografia on-line e consegue-se comprar uma série de brinquedos. Manter um relacionamento com uma pessoa dá muito trabalho. Temos que estar disponíveis para ela e "alimentar a relação". As máquinas são pouco exigentes e nunca se decepcionam connosco. 

No outro dia estive a "conversar" com o ChatGPT. Ainda precisa de muito "fine-tuning" mas à velocidade a que estas coisas evoluem não demorará muito até que fique francamente bom. E se no Japão o sexo foi vencido pela tecnologia, não me admiraria muito que na conversação acontecesse algo semelhante. Até porque há muita a gente a pensar como Fernando Pessoa em carta ao seu amigo Francisco Cabral Metello: 

"Espero, ao menos, que a paisagem com que v. presentemente conversa lhe arranje um diálogo que o entretenha. Nem sempre acontece, não é verdade? Há árvores, pedras, flores, rios que são tão estúpidos que parecem gente." 

Porque se foge?

por Jose Miguel Roque Martins, em 07.03.23

Foi nos bancos de escola, há quase 40 anos, que ouvi, pela primeira vez, uma ideia que me pareceu radical: uma das formas de fugir de uma sociedade com a qual não se concorda e/ou não permite o desenvolvimento económico que se pretende , é emigrar. Simplesmente, as pessoas fogem ao castigo quando podem. E continuar a viver num País menos bom, pode ser um grande castigo.

Estudei o fenómeno migratório de Portugal, sobretudo para França, na década de 60, depois das grandes migrações para as antigas colónias. Observo a sede de emigração para os EUA, essa sociedade tão malquista na Europa. Defrontei-me, nos últimos anos, com o problema das migrações do Médio Oriente e África, sobretudo na forma tentada, e na emigração galopante de Portugueses para Europa. 

Já aqui falei no ciclo vicioso que se origina quando, os mais jovens e mais bem preparados emigram, , subtraindo o seu contributo para os que ficam: cada vez mais pobreza cada vez mais incapacidade de vender produtos de alto valor acrescentado e o acolhimento de imigrantes menos bem formados (e produtivos) do que aqueles que exportamos. Quem vai pagar as reformas?

Hoje li que, aqui ao lado, na Espanha também estatista, a Ferrovial pretende migrar a sua sede para a Holanda ( como já aconteceu com a Jerónimo Martins e muitas outras) , sendo a resposta do Governo Espanhol a esta intenção, típica de sociedades em perda e sem grandes argumentos: tentam impedir um contribuinte financeiro com recurso a leis que já nada impedem.

Pertencermos à CE não representa só estarmos no caminho das esmolas, também significa que as sociedades que não são competitivas tendem a ser cada vez mais pobres, dependentes, envelhecidas e precárias, porque perdem os seus habitantes. 

É este o motivo pelo qual, um dia, fatalmente os Portugueses estarão mais capazes de perceber que continuar a insistir em receitas que não dão resultado ( mais estado, mais direitos sem substancia, mais ineficiência) talvez não seja o caminho.

No entretanto, atraimos quem vem de infernos na terra e repelimos quem pode fugir para sociedades melhores. 

 

O fino verniz da civilização

por henrique pereira dos santos, em 07.03.23

"Quando pediu desculpa aos que sofreram abusos de padres, não teve sequer o cuidado de olhar para a câmara. Olhou para o papel".

Esta frase, que considero obscena, está num artigo que é um monumento de desonestidade, assinado por Bárbara Reis, no Público do dia 4 de Março.

Logo que a li, lembrei-me do senhor que a preparar a sua comunicação ao país sobre o facto de ir pedir ajuda aos credores internacionais, perguntava ao seu assessor de imagem se ficava melhor filmado da esquerda ou da direita.

Perante problemas imensos e complexos, o que une Bárbara Reis e José Sócrates são conselhos triviais de assessoria de imagem, aquilo que é a preocupação central de qualquer bom aldrabão.

A discussão sobre abusos sexuais de crianças e adolescentes - é a discussão que me interessa a mim, as questões da igreja deixo para a igreja resolver - é hoje uma discussão de que a racionalidade está bastante arredada.

Por eu perguntar, insistentemente, o que há de específico no que se sabe sobre o assunto dentro da igreja, uma questão central para perceber se o que é preciso é olhar para a igreja ou para a sociedade transversalmente, já me disseram que apenas queria desviar as atenções da igreja (a tese é subscrita também, em termos gerais, por Bárbara Reis: "Para fugir ao tema, "desvia", o verbo é da comissão: "E o abuso sexual na família?! Porque não se fala nisso?!". Hoje chamamos a isto "whataboutismo").

E, no entanto, pelo mundo fora, há quem faça exactamente o esforço de tentar perceber essa questão central, seja a comissão francesa, seja o trabalho dos australianos, seja o trabalho no Reino Unido (com relatórios específicos para diferentes organizações), seja nos EUA, seja em boa parte da investigação académica sobre o assunto.

Parece-me que Bárbara Reis (como grande parte das pessoas que leio e ouço) não esteja muito interessada em avaliar o problema de abuso sexual de menores com rigor e pelo artigo compreende-se.

Escreve Bárbara Reis "É estranho como milhares de pessoas pelas aldeias, vilas e cidades de Portugal sabiam, mas não os bispos". O que acho estranho é que, se era assim, a comissão independente tenha 512 testemunhos, e não milhares, mas enfim, essa é uma questão menor.

Mais relevante é a pergunta sobre quantas reportagens e investigações fez o Público sobre o assunto nos sete anos em que Bárbara Reis foi directora do Público, se tinha conhecimento dessas milhares de pessoas que sabiam. Ou será que, como ela diz dos bispos, andou a ocultar o assunto e nem mesmo com o processo da Casa Pia (onde, é bom lembrar, um governo tentou substituir um procurador geral da república, por todos os meios ao seu alcance, para poder controlar a investigação, apesar de sempre o ter desmentido) acordou para a extensão do problema do abuso sexual de menores?

Claro que o parágrafo anterior é pura demagogia minha, é apenas uma ilustração do tipo de argumentos usados nesta discussão e que, na verdade, procedem mais de processos de intenções que de análises racionais e fundamentadas de factos.

As mesmas coisas ditas por pessoas diferentes, geram reacções completamente opostas (pessoas que batem palmas às declarações de Dom Januário Torgal afirmando, peremptóriamente, que aqueles sobre os quais existem suspeitas fundamentadas devem ser imediatamente suspeitos acham as declarações de Dom José Ornelas no mesmo sentido inacreditáveis, apenas porque um põe a tónica no "imediatamente suspensas" e outro põe a tónica no "fundamentadas" a propósito de uma lista de nomes que é uma lista de nomes), numa boa demonstração de como a emoção se sobrepõe à racionalidade na discussão.

O que para mim é mais inquietante é a quantidade de pessoas, razoáveis, informadas, bem intencionadas, que acham normal suspender preventivamente uma pessoa, seja do for, com base numa referência que não foi devidamente investigada.

Não se trata de esperar por decisões finais de processos complexos, isso é outra coisa, mas da mera verificação sobre a solidez dos indícios associados a essa referência, coisa que é desvalorizada como "meros formalismos", como seja o formalismo de dar o direito de defesa aos acusados e o formalismo de avaliar a plausibilidade dos factos antes de qualquer decisão, mesmo que preventiva.

O fino verniz da civilização que nos separa da arbitrariedade do poder característico de sociedades pouco civilizadas está exactamente no respeito pelos formalismos essenciais, ou dito de forma mais palatável, só um processo justo ajuda a garantir a justiça das decisões.

O que é inquietante é a facilidade com que qualquer perturbação, qualquer comoção forte, faz tanta gente que, em tese, concorda com a imprescindibilidade dos formalismos e do processo justo para atingir a justiça, passa a defender que a gravidade e celeridade das decisões justifica o abandono do formalismo e das regras de um processo justo.

O verniz da civilização é realmente muito fino e estala ao menor abalo.

O "virar de página" dos socialistas

por João-Afonso Machado, em 07.03.23

«As sociedades secretas (...) foram também usadas pelo Estado para combater a oposição política. As suas redes controlavam os empregos e os recursos do Estado. Nas suas fileiras, extorsionistas e assassinos conviviam com a elite» (A Maçonaria, John Dickie).

Tudo corria bem, não fora a bisbilhotice da Imprensa. Afinal, uma alta responsável da TAP ia porta fora, não se percebe bem porquê mas carregando às costas meio milhão indemnizatório de euros.

Descoberta a marosca, foi necessário virar a página. Chamando a intervir a Inspecção-Geral das Finanças - o caso era grave, toda a gente percebeu que o Governo estava metido nele até às orelhas, e o Governo é sobretudo Costa e o seu ministro das Finanças.

Ontem soube-se do relatório da DGF. Os bodes expiatórios, "exonerados" com justa causa (!!!), foram a CEO e o Chairman da nossa Companhia Aérea. E houve conferência de imprensa onde Medina, o ministro das Finanças, se defendeu (e se traiu) repetindo não três, mas trinta vezes, «vamos virar a página». Os analistas, por maldade e para azar do Governo, insistem nas «responsabilidades políticas» deste. Isto é, no seu conhecimento e na sua conivência com o sucedido.

Este o modus operandi da sociedade maçónica que legisla e administra em Portugal. 

Em 2015 "viraram a página" da «austeridade». Vê-se o resultado: a TAP suportou a reversão da privatização, a Esquerda mais, assim acalmada, deu luz verde ao PS; sobreveio a maioria absoluta, a TAP (ou seja: o caos) tornou a inclinar-se para os privados. Com o nosso - dos contribuintes - dinheiro a circular caladinho entre todos estes dislates.

Sobrevirá ainda uma comissão parlamentar. Para quê? Quando muito lá irá abaixo mais um secretário de Estado ou outro. Mas num ministro das Finanças não se toca. E no Venerável Irmão Costa muito menos.

Herculano redimindo

por Daniel Santos Sousa, em 06.03.23

A posição política de Alexandre Herculano não deixa de parecer ecléctica, mas não é solitária. Há dois autores, que foram igualmente dois aristocratas católicos, com visões aproximadas: Alexis de Tocqueville e Lord Acton. No fundo, liberais que souberam analisar cuidadosamente o absurdo da modernidade, tropeçando por vezes nos erros comuns, mas sem se deixarem seduzir pelas ideias vagas dos ideólogos daquele tempo.

Tocqueville (que Herculano admirava), um liberal que compreendia a insuficiência dos contemporâneos apaixonados pela revolução, alertava para os perigos degenerativos dum regime democrático, como Guizot o fizera, depois repercutido por Herculano: "A democracia repugna às nações ocidentais da Europa educadas pelo catolicismo que, na pureza da sua índole, é o tipo da monarquia representativa" (escreveu em carta a Oliveira Martins).

Os liberais da primeira geração, Acton e Tocqueville, com a excepção de Herculano, eram aristocratas. E em comum tinham o catolicismo. Herculano não nasceu na elite, mas ascendeu por excelência.
No fundo, Herculano foi um homem de paradoxos.

Apesar das polémicas com a Igreja marcadas, por vezes, por posições anti-católicas, reconcilia-se com a fé: "Creio em ti (Cristianismo), porque a tua moral é sublime".

Um liberal céptico quanto à democracia: "diz-se e crê-se que as ideias democráticas progridem neste século pelas tendências para a igualdade. Nós ainda não podemos convencer-nos disso. Figuram-se-nos os que assim pensam como completamente iludidos."

É um homem moderno que depressa se reconcilia com a tradição: "O Evangelho é mais claro e preciso que os volumosos escritos de todos os moralistas filósofos desde Platão até Kant: a moral que não desce do céu nunca fertilizará a terra".

As palavras mais marcantes do velho Herculano são sintomáticas do pessimismo nacional: “isto dá vontade de a gente morrer".

É um erudito que depressa compreende como o liberalismo não se realiza, a não ser nos sonhos dos ideólogos, por isso exilou-se para Vale de Lobos, e exilado viveu sempre, no meio dos seus contemporâneos.

Domingo

por João Távora, em 05.03.23

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, seu irmão, e levou-os, em particular, a um alto monte e transfigurou-Se diante deles: o seu rosto ficou resplandecente como o sol e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz. E apareceram Moisés e Elias a falar com Ele. Pedro disse a Jesus: «Senhor, como é bom estarmos aqui! Se quiseres, farei aqui três tendas: uma para Ti, outra para Moisés e outra para Elias». Ainda ele falava, quando uma nuvem luminosa os cobriu com a sua sombra e da nuvem uma voz dizia: «Este é o meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência. Escutai-O». Ao ouvirem estas palavras, os discípulos caíram de rosto por terra e assustaram-se muito. Então Jesus aproximou-Se e, tocando-os, disse: «Levantai-vos e não temais». Erguendo os olhos, eles não viram mais ninguém, senão Jesus. Ao descerem do monte, Jesus deu-lhes esta ordem: «Não conteis a ninguém esta visão, até o Filho do homem ressuscitar dos mortos».

Palavra da salvação.

A Montis

por henrique pereira dos santos, em 04.03.23

Neste dia 23 de Março a Montis, uma associação de conservação de que sou um dos fundadores, fará oficialmente nove anos.

Como todos os agrupamentos de mais de uma pessoa (e mesmo sendo só um Pessoa), tem tido encontros e desencontros entre as pessoas que se vão cruzando na associação, mas tem cumprido o seu papel.

Nestes nove anos vai na quarta direcção (ou seja, os prazos estatutários são cumpridos), vai no terceiro presidente (nas duas primeiras fui eu, depois o Pedro Oliveira e actualmente Teresa Gamito), cumprindo as normas estatutárias que impedem a exercício de mais de dois mandados consecutivos no mesmo orgão social (o Pedro Oliveira fazia parte da segunda direcção da associação).

Desde o princípio que algumas coisas ficaram muito bem definidas - sem prejuízo de se saber que as associações são como as guerras, sabe-se como começam, não se sabe como acabam - entre elas a necessidade de ser uma associação de sócios e para os sócios, o que implica confiança e consequentemente transparência, a necessidade de focar a sua acção na gestão concreta de património natural, em detrimento de intervenção nas políticas, a necessidade de valorizar economicamente a biodiversidade (o que manifestamente tem sido o mais difícil) e a necessidade de garantir a independência financeira que assegura a independência.

Nove anos depois estou muito contente com os resultados até agora.

Pretendíamos em dez anos ter 750 sócios, para garantir 15 mil euros de quotas (na altura as quotas eram vinte euros anuais, hoje são 25, ainda assim dos mais bem aplicados 25 euros de entre os milhares que gasto todos os anos), por forma a pagar um secretariado mínimo que permitisse manter uma preocupação central que os estatutos também acolhem: nenhum membro eleito dos orgãos sociais pode ser, ao mesmo tempo, funcionário da associação. Em rigor, não pode receber dinheiro da associação que não seja ressarcimento de despesas efectivamente incorridas e pequenos pagamentos que anualmente não ultrapassem três ordenados mínimos (acho eu, não fui verificar os estatutos, é o limite que tenho de memória) que têm de ser reportados formalmente à Assembleia Geral.

Estamos longe, depois de um período de rápido crescimento dos sócios, estamos estagnados por volta dos 400, com muitas entradas e saídas (as saídas de sócios que não pagam as quotas são praticamente automáticas, portanto não temos extensas listas de sócios que não pagam quotas, como é habitual nas associações em Portugal), e este é, a par com as acções de valorização económica da biodiversidade, o maior falhanço destes nove anos, na minha opinião.

Quanto ao resto dos indicadores, estamos muito para lá do que pensámos inicialmente.

Gerimos por volta de 300 hectares de terras marginais, dos quais uns 16 ha são propriedade da Montis e os outros têm acordos de longo prazo, temos um orçamento anual bastante superior aos tais 15 mil euros (neste momento não sei bem qual é a dimensão do orçamento, mas é seguramente umas três vezes superior, diria eu sem olhar para os números que serão apresentados na próxima Assembleia Geral), temos dois funcionários e meio (já foram mais, quando gerimos um projecto maior, mas a associação não se financia primordialmente em projectos, seria relativamente simples, mas tem implicações negativas na orientação da associação, por a obrigar a executar o que os financiadores dos projectos querem, e não tanto o que os sócios querem) e, apesar da nossa má comunicação, conseguimos ir sendo vistos e reconhecidos.

E demonstrámos, entretanto, que o crowdsourcing, como agora se diz (que inclui o crowdfunding, o voluntariado e outros mecanismos de participação das pessoas comuns na vida das organizações) é viável em Portugal, e tem um enorme potencial, que o fogo e os pastoreio são instrumentos de gestão da biodiversidade viáveis, que a regeneração dos solos (neste caso, há um grande número de organizações que partem deste princípio, há anos, embora com opções diferentes na forma de lá chegar) é o fundamento da recuperação dos sistemas naturais e acho que contribuímos para que se olhasse para a gestão dos territórios marginais e abandonados com outros olhos.

Finalmente temos este ano a possibilidade de receber 0,5% do IRS de quem o queira indicar na sua declaração do IRS e estamos numa fase de consolidação, depois dos dois primeiros mandatos sempre a acelerar o crescimento, criando desequilíbrios relevantes que felizmente foram bem geridos pela direcção anterior, que entregou uma associação com as contas muito mais serenas que aquela que eu próprio deixei ao presidente seguinte.

O que verdadeiramente me deixa satisfeito é que conseguimos, até agora, ser uma associação dos sócios e pouco dependente do Estado, seja dos financiamentos do Estado central, seja do apoio das autarquias locais, que existem, felizmente, mas de forma equilibrada e sem pôr em causa a independência das opções de gestão que vão sendo feitas.

É pouco, eu sei, este deveria ser o padrão das organizações da sociedade civil, mas não o é, em Portugal, em que quase tudo gira à volta do Estado e dos seus meandros de decisão.

Provavelmente, para mim, esta associação é das coisas mais bem conseguidas em que estive envolvido na minha vida de gestor de património natural, que é o que realmente tem sido a minha vida profissional.

Não deixa de ser irónico que a coisa que mais satisfação profissional me dá tenha sido toda desenvolvida voluntariamente.

Da violência verbal

por João Távora, em 02.03.23

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Há já algum tempo que somos confrontados com notícias do cancelamento ou reedição de livros com termos que possam ferir susceptibilidades dos leitores incautos. Hoje no programa Contra-Corrente da Rádio Observador era esse o tema: soubemos que, para além de duas BDs do Tio Patinhas censuradas pela Disney por conta da “diversidade e inclusão”, as aventuras de 007 de Ian Fleming irão ser reeditadas para se eliminarem termos ofensivos, assim como se prepara uma nova edição da obra de literatura juvenil Roald Dahl (autor da "Fantástica Fábrica de Chocolate"), devidamente censurada de acordo com os cânones do politicamente correcto e não ofender os leitores sensíveis. Já nada nos deveria chocar.

Que o mundo em que vivemos neste lado do planeta cada vez mais se parece com um manicómio, não será novidade para ninguém, mas mesmo cansados de tanto espanto talvez continue a valer a pena espantarmo-nos. Por exemplo: já repararam como aquela moda dos filmes negros norte-americanos com diálogos cheios de vernáculo de teor sexual, ao pior estilo das prisões penitenciárias, extravasou as fronteiras e se vem alargando ao cinema e televisão mainstream? No meio desta onda puritana com tanta gente tão sensível e ninguém reclama das séries e filmes onde por estes dias a linguagem falada está ao nível mais rasteiro e agressivo, seja pela boca dum príncipe ou duma meretriz? Obviamente nada tenho contra o calão e também nada me chocam os mais duros palavrões, desde que no devido contexto - possuem propriedades libertadoras quando usados com parcimónia. Ora, as palavras têm significados; por mais que se vulgarizem os palavrões, eles possuem um significado, expressam uma acção, com um potencial de chamar a atenção pelo “escândalo”. Se essa terminologia, tremendamente agressiva for usada com insistência, o seu efeito semântico perde-se, a não ser que o fim pretendido seja a expressão de uma identidade grupal – “eu falo assim porque é assim que se fala no meu grupo, com quem eu me identifico e onde eu pertenço”. Será isso que acontece com os grupos de jovens adolescentes ou em certos meios portuenses: estou convencido que muitos tripeiros recorrem àquela terminologia sem lhe atribuir qualquer significado. No entanto convém não esquecer que as palavras comportam significados e que servem para nos entendermos uns aos outros, para o bem e para o mal. Gritar uma blasfémia quando espetamos o dedo pequeno do pé na ombreira da porta é a legítima expressão de um compreensível estado de espírito. Ora, se se repetir recorrentemente a blasfémia, que expressão se irá usar numa situação de choque ou de dor?

Preocupa-me que a agenda puritana e literalista de controlo da linguagem tenha origem nos mesmos que pretendem normalizar a obscenidade e o vernáculo. É um caminho de empobrecimento, um retrocesso ao mais básico da humanidade, onde deixa de ter importância o bem ou o mal, muito menos o feio e o belo, ou a complexidade trágica da humanidade. Ficam só sentimentos voláteis e sensações de circunstância.

Ao eliminar-se a sofisticação e a classe chegaremos finalmente à almejada sociedade sem classes. Deve ser isso.

A natureza e nós

por henrique pereira dos santos, em 02.03.23

O artigo para que liguei no meu post anterior é muito típico de uma visão ideológica (haverá alguma que não o seja?) da natureza e da relação do homem com a natureza que tem uma contradição insanável: pretende evitar o especismo, isto é, considerar todas as espécies ao mesmo nível moral, mas depois, rapidamente, desenvolve o assunto como se o homem não fosse, ele mesmo, uma espécie como as outras e estivesse fora da influência das leis da natureza (no fundo, como se o nosso cérebro não fosse um produto da evolução darwinista que nos deu a oponência do polegar).

O que define esse artigo é esta frase deliciosa: "Atravessam estradas e por vezes dão-se acidentes com vítimas mortais: os javalis quase sempre e, por vezes, pessoas.".

Para qualificar o texto como profundamente desonesto basta também reparar numa outra frase: "A sua alimentação é feita sobretudo de frutos, raízes, fungos e pequenos invertebrados que encontram na floresta natural, o seu habitat por excelência.".

Sendo o artigo escrito por três biólogos, não há como admitir a hipótese da ignorância de qualificar a floresta natural como o habitat por excelência das populações de javali em Portugal, dada a exiguidade desse tipo de habitat em Portugal e a mais que conhecida ocupação de habitats de matos e mosaico de matos e campos agrícolas por varas de javali.

Ou seja, é mesmo má-fé.

Acho normal que haja leitores do Corta-fitas a perguntar por que razão a defesa da introdução de linces ou a proibição da caça à raposa, isto é, favorecer predadores potenciais do javali, é uma patetice, visto que ninguém é obrigado a saber que os linces são fortemente dependentes da população de coelho sendo muito improvável que cacem javalis, mesmo que sejam crias, ou que a população de raposa (que mais facilmente pilham galinhas que se metem com javalis) é mais que abundante, não havendo nenhuma restrição relevante à dinâmica da espécie provocada pela caça (por isso as pessoas ideologicamente alinhadas com este texto de militantes do PAN, frequentemente, dizem, com razão, que não vale grandemente a pena fazer controlo de predadores em zonas de caça, eles voltam rapidamente a ocupar o espaço deixado vago pelos que foram mortos antes).

Os autores do texto sabem que existe essa ignorância e tentam explorá-la a favor da sua agenda política, o que é especialmente fácil na área da conservação da natureza, uma área em que a emoção se sobrepõe à razão, facilmente.

O mundo de Walt Disney, aliás mal interpretado porque Walt Disney nunca quis retratar o mundo animal, que aliás conhecia bem, mas sim fazer uma metáfora do mundo das pessoas através dos animais, é incomparavelmente mais bonito e satisfatório que o mundo difícil de compreender, amoral e cruel, que é o da natureza.

Recentemente eu próprio demonstrei a minha arrogância na interpretação da natureza com uma história que passo a contar.

Elsa Salzedas, que não conheço, publicou neste Domingo uma fotografia sua com o texto "O lugar da Quinta da Taberna. Hoje. E as marcas que perdurarão no tempo do grande incêndio. no Parque Natural da Estrela …"

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Olhei para a fotografia, li o texto de enquadramento a falar de marcas de incêndio que perduram, e duvidei da data da fotografia, razão pela qual perguntei se alguém poderia confirmar a data da fotografia.

Duvidei porque me parecia que a erva que se vê era muito pouca para o tempo que passou desde o fogo, e não via nenhuma rebentação no pé de alguns arbustos que ali estão, e isso não batia certo com a minha ideia da dinâmica dos sistemas.

Por um lado não olhei com suficiente atenção para o que está no canto inferior direito, em que se vê alguma erva, por outro desvalorizei o facto da fotografia não ter vistas alinhadas com vales e zonas de acumulação de solo e, por último, não me lembrei do efeito potencial da herbivoria em grandes fogos (já agora, José Manuel Fernandes, anteontem, neste programa em que participei, contava a história do cheiro a carne queimada depois de um incêndio. Um amigo caçador disse-me que lá na aldeia dele ouve frequentemente essa história, mas lhe parece muito pouco provável, não só porque ninguém mostra factos concretos, como fotografias ou videos, ele não encontra esqueletos, como, sobretudo, não acredita que a generalidade dos animais se deixem apanhar pelo fogo, porque se deslocam a velocidades muito maiores que a frente de fogo, o que ele via, sim, porque a área ardida era mesmo muito grande, era javalis e veados magríssimos nos meses seguintes).

Paulo Fernandes lá me chamou à terra, lembrou-me que ainda não passou a Primavera, que ainda se está no período de dormência das plantas (será maior a maiores altitudes, acrescento eu) e que teríamos de esperar por isso para avaliar a recuperação dos sistemas, dizendo, entretanto, que os americanos que andaram por aí a avaliar o fogo da Estrela estavam muito pouco preocupados, mesmo em zonas onde a severidade do fogo foi grande, sendo muito poucas as situações em que achavam que poderia haver vantagem em adoptar medidas de emergência pós-fogo, o resto vai recuperar sem problema.

E aqui está como os meus preconceitos sobre a evolução de sistemas, a falta de atenção aos pormenores e a vontade, ideológica, de estar sempre a contestar a ideia, errada, de que os efeitos dos fogos se prolongam muito no tempo, me levou a duvidar de factos que eram reais e estavam bem à frente do meu nariz.

A natureza não existe para que a estudemos, nós é que insistimos em estudá-la, dizia Jorge Palmeirim, com acerto, talvez ter isso mais presente nos evitasse muita discussão estéril sobre caça, eucaliptos, fogos, agricultura intensiva, arrendamento compulsivo de propriedades, obrigação legal de fazer isto e aquilo em matéria florestal, obrigação legal de não fazer aqueloutro também em matéria florestal, e por aí fora.

Acho que um dia destes escrevo um post sobre a oportunidade de ser caçador profissional de javalis em Portugal e como preferimos liquidar essa fonte de riqueza e emprego no mundo rural em benefício de contos de fadas sobre javalis que morrem inocentemente na estrada porque alguém os obriga a atravessá-las.

Indigência intelectual

por henrique pereira dos santos, em 01.03.23

pedro filipe soares.jpg

O boneco acima poderia ser comentado de muitas maneiras.

Por exemplo, pelo lapso de imigram (acontece a qualquer um, é sempre tentador fazer uma piada fácil, mas não acrescenta nada), por se considerar que quem ganha 2000 brutos por mês é rico, pela evidente demagogia de evitar a discussão da fiscalidade sobre o trabalho, desviando a conversa para outro lado, e provavelmente ainda mais.

A mim só me interessa comentar um aspecto, porque o comentário é feito por um deputado e não por mim ou qualquer outro borra-botas.

Carlos Guimarães Pinto fala em ordenados brutos de 2000 mil euros (correspondendo a 1 362 líquidos, diz ele) e Pedro Filipe Soares responde com uma notícia que, embora no título refira que apenas 3% dos jovens ganham acima de 1600 euros, facilmente se verifica que se refere a ordenados líquidos.

Se o nível da discussão é este entre deputados, se o desprezo pelos factos é este entre deputados, se a procura de dados verificáveis em que assentar uma discussão racional entre deputados é esta, como podemos esperar que o nível da discussão pública não seja intelectualmente indigente?

Seria bom que fosse um caso isolado, mas ainda ontem, no Contra-corrente do Observador em que estive, fiquei a saber que Luís Vicente (com uma longuíssima carreira que inclui ter sido dirigente de uma área protegida, não é propriamente um estagiário que cresceu a ver documentários sobre vida selvagem, a menos que haja outro Luís Vicente, biólogo), Liliana Vieira e Ana Pereira, em nome do PAN, acham que uma das soluções possíveis para a gestão das populações de javali passa por "proceder-se à proibição de caça dos potenciais predadores naturais como Saca-rabos e Raposas e eventualmente à reintrodução do Lince e do Lobo, conforme estudos científicos, e monitorização das espécies."

Defender a proibição da caça à raposa ou a introdução de linces como formas de controlo das populações de javalis está, intelectualmente, ao mesmo nível de responder com ordenados líquidos a argumentos que usam ordenados brutos, isto é, é de uma indigência intelectual confrangedora pela desonestidade e fé absoluta na ignorância dos outros.

E o mais inquietante é que provavelmente é eficaz.

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