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Jornalistas e Pantomineiros

por José Mendonça da Cruz, em 27.02.23

Uma senhora jornalista

Há no Observador, hoje (ou agora), um artigo admirável de Rita Pereira Carvalho, que não conheço pessoalmente, mas constato ser uma jornalista exemplar. Exemplar no sentido de que esta reportagem sua, sendo o oposto da abundante tralha que enche jornais e televisões, pode servir de lição. O texto é implacável, mas nunca cede ao rodriguinho ou à adjetivação, e essa contenção deixa que os factos narrados carreguem toda a sua brutalidade; é longo e informativo, mas, além de ser escrito em português, tem os cuidados técnicos que prendem e conduzem o leitor ao longo do relato; é um texto comovente e moral, mas nunca tenta vender agendas ou ideologias. É animador que o Observador lhe tenha dado o devido destaque. É desanimador que, com maior destaque, haja um artigo sobre uma tal Mariana Mortágua, e sobre as intrigas despiciendas de um agrupamento extremista despiciendo com representação despicienda do eleitorado.

 

Uma senhora jornalista e um senhor jornalista

Há nas televisões dois repórteres de guerra admiráveis: Cândida Pinto, na RTP, e Sérgio Furtado, na CNN/Portugal. Ela e ele são corajosos, enfrentam situações de risco para nos informar sobre a guerra na Ucrânia. Estão nos locais onde é perigoso estar, falam com soldados e civis para que vejamos a situação. Não usam discursos florais, nem recorrem a metáforas cretinas, falam português claro e deixam que os factos nos façam pensar e concluir o que entendamos. É animador ver dois jornalistas assim a reportar sobre o que é provavelmente o acontecimento mais importante do século. É desanimador que as televisões não reconheçam a nobreza deste jornalismo, e não abdiquem de vez do «jornalismo» artificialmente comovido e com obscenas pretensões poéticas.

 

E o resto

É uma ofensa ao jornalismo, é uma ofensa a mim espectador, que as televisões se sirvam do aniversário da guerra na Ucrânia (assim transformada em «efeméride») para, em vez de reportagem de verdadeiros repórteres, dedicarem os telejornais a «especiais» a cargo de «estrelas» e candidaturas a «estrela». A CNN/TVi, que tem na Ucrânia Sérgio Furtado, enviou, porém, José Alberto Carvalho e João Póvoa Marinheiro. José Alberto Carvalho foi a Kiev relembrar que nos tempos da União Soviética os dirigentes puseram em exibição os restos mortais calcinados de um astronauta, e proclamaram-no herói; o que, diz em voz funda JAC, lembra a JAC o que Putin faz com os mortos russos -- estão a ver? Também voou para Kiev Marinheiro, que é bem apessoado, articulado e fala bem. É bem apessoado e carrega a sorte com o desfile de blusões elegantes (nada desses incómodos coletes à prova de bala a dizer PRESS) e gorros de marca com a etiqueta virada para a câmara (nada desses capacetes esquisitos, que aliás não são precisos onde ele está); é articulado, ou seja, articula o que diz com boca, cara, olhos, sobrolho e testa; e fala bem -- aliás, é capaz de falar dez minutos sem dizer nada, ou recitando comunicados a que teria mais rápido acesso em Lisboa.

De maneira que é isto, que, sendo pouco e penoso, tem, ainda assim, duas vantagens: primeira, sempre é melhor do que aquela voz off que num telejornal qualquer, falando sobre uma povoação acabada de arrasar pelas bombas russas, dizia que «é como uma estação de caminho de ferro quando o comboio partiu, é como um fim de festa»; e a segunda vantagem é que esses apontamentos das «estrelas» de arribação acabam por funcionar, a contrario sensu, como elogio dos repórteres a sério.

Desmontar as causas dá muito trabalho.

por Miguel A. Baptista, em 26.02.23
Penso que é a totalidade das empresas em bolsa que tem as suas holdings sedeadas nos Países Baixos. Quando a Jerónimo Martins, e afins, apresentam resultados chove sempre um chorrilho de críticas. Penso que, mais do que criticar, seria interessante procurar compreender as causas por que o fazem. Por exemplo, se calhar não estão dispostas a ter que lidar com um sistema de justiça que poderá demorar dezenas de anos a resolver um litígio de uma centena de milhão de euros. A competitividade fiscal também será importante, mas para isso até há soluções.

Se se considerar que a existência de casas devolutas é um problema, seria interessante procurar entender porque ocorre. Se calhar os senhorios sentem-se desprotegidos quando acontecem situações de má-fé em que o inquilino não paga e causa danos à habitação.
 
Criticar empresas que se sediam no estrangeiro, ou proprietários que optam por não colocar as suas casas no mercado, é relativamente fácil, e provoca alívio. Mas em nada resolve os nossos problemas.

Ver quais são as causas que estão por detrás destas ineficiências e procurar desmontá-las é o caminho. No entanto, para um socialista tal implica enfrentar interesses instalados e, acima de tudo, dá "muita trabalheira". É mais fácil deixar tudo como está e arranjar uns bodes expiatórios contra os quais o povo possa destilar o seu ódio.

Domingo

por João Távora, em 26.02.23

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo, Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto, a fim de ser tentado pelo Diabo. Jejuou quarenta dias e quarenta noites e, por fim, teve fome. O tentador aproximou-se e disse-lhe: «Se és Filho de Deus, diz a estas pedras que se transformem em pães». Jesus respondeu-lhe: «Está escrito: ‘Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus’». Então o Diabo conduziu-O à cidade santa, levou-O ao pináculo do templo e disse-Lhe: «Se és Filho de Deus, lança-Te daqui abaixo, pois está escrito: ‘Deus mandará aos seus Anjos que te recebam nas suas mãos, para que não tropeces em alguma pedra’». Respondeu-lhe Jesus: «Também está escrito: ‘Não tentarás o Senhor teu Deus’». De novo o Diabo O levou consigo a um monte muito alto, mostrou-Lhe todos os reinos do mundo e a sua glória, e disse-Lhe: «Tudo isto Te darei, se, prostrado, me adorares». Respondeu-lhe Jesus: «Vai-te, Satanás, porque está escrito: ‘Adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele prestarás culto’». Então o Diabo deixou-O e aproximaram-se os Anjos e serviram-n'O.

Palavra da salvação.

Há trinta anos quem começava a vida ou vinha para Lisboa olhava para o centro da cidade velha com nojo, queria uma casa moderna na periferia, com boas vias, arejada e com um shopping não muito longe para ir passear de carro ao fim de semana. Agora, que o centro da cidade se tornou uma miragem até para os mais privilegiados, os seus filhos acham-se com direito a conquistar esse espaço antes desprezado. É uma espécie de luta de classes com a mecânica dum pêndulo, bem explicada pelo António Variações: "Esta insatisfação, Não consigo compreender, Sempre esta sensação, Que estou a perder.(...) Porque até aqui eu só, Estou bem aonde eu não estou, Porque eu só quero ir, Aonde eu não vou, Porque eu só estou bem, Aonde eu não estou, Porque eu só quero ir, Aonde eu não vou, Porque eu só estou bem, Aonde não estou."

Expliquem lá isto ao António Costa. O resto é um problema de transportes.

O estalinismo, herdeiro do finado sovietismo

por João-Afonso Machado, em 25.02.23

Quando deparamos com a edição de ontem do L'Humanité, que foi o porta-voz do defunto Partido Comunista francês, evocando na capa "Une anée en enfer" causado pela "agression russe" sempre desfrutamos um momento de esperança, brevíssimo embora. E vamos percebendo algumas coisas importantes.

Desde logo, a bizarria portuguesa traduzida eleitoralmente em meia duzia de parlamentares que, na sua cegueira, ainda vai atirando palavrosos mísseis, culpas atómicas aos EUA e à NATO. Outras avis raras roufenharão por aí sem que não se reconheça o mérito folclórico (apenas) que lhes assiste. Ou um aliviante intervalo no discurso dos direitos dos trabalhadores, essa cegarrega.

Depois a voz uníssona do mundo civilizado em torno daquilo que é óbvio. Somente - uma voz que poderia ter força para se impor... e não tem. É essa voz, de um lado, e, do outro, o olhar cerrado e determinado do expansionismo russo.

Neste passo se entende, enfim, em que consistiu e consiste o estalinismo, o grande sobrevivente da derrocada do império soviético. O estalinismo - uma ideologia baseada apenas na força das armas e no terror que elas impõem, hoje tendo por seguidores os agentes do KGB de ontem. Como se percebe, bem vivo e actuante. E sedentos das regalias com que sempre se banquetearam.

Finalmente, a comprovação da garra usurpadora e tentacular do estalinismo, no presente putinista: a heróica resistência ucraniana à perpetrada invasão. Quer através da oposição pelas armas ao longo de um ano, quer pelos esforços diplomáticos desenvolvidos para se integrar no mundo livre. A Ucrânia, depois de décadas calcada como uma reles entre outras muitas repúblicas soviéticas, é, na realidade, uma grande nação. Ou seja: um território, um povo, uma cultura com identidade própria. O estalinismo de hoje não conseguirá tornar a subjugá-la. Mas os tempos que se avizinham continuarão a ser de ansiedade, medo e sofrimento.

Um grito d’ alma

por João Távora, em 24.02.23

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Mesmo dando de barato que a redacção do Observador não tem em boa conta o meio católico em geral e os católicos em particular, este artigo do jornalista João Francisco Gomes, o editor de assuntos da Igreja, deixou-me perplexo. Não disfarça, com julgamentos explícitos ou nas entrelinhas, a condenação de quem tenha assumido uma visão crítica ao relatório da Comissão Independente (CI), adjectivados como conservadores (uma desqualificação, não um elogio, entenda-se) sugerindo que são inspirados por uma força malévola para descredibilizar o documento. Mas, permitam-me que pergunte: não é próprio de um bom jornalista pôr em causa um documento desta importância e complexidade, ou será o relatório da CI um Dogma de Fé? Ninguém estranha a unanimidade reafirmada por todos os poderes instalados, incluindo os jornais de referência que deveriam ser o esteio do pluralismo numa democracia desenvolvida?

Ao contrário do João Francisco Gomes eu compreendo muito bem que, aqueles que são católicos de corpo e alma (cujo catolicismo não é um mero emblema, uma cultura, mas uma vivência de fé em comunidade) se revoltem, não só contra os judas seus pares que pelo hediondo pecado de traição conspurcam a Santa Igreja Católica, mas contra aqueles que a pretendem condenar, num estranho julgamento sumário, de dezenas de sacerdotes e leigos sem direito à presunção de inocência. E não, Sr. Jornalista, não se verificou “um ataque cerrado” ao relatório, antes pelo contrário, como demonstra o seu artigo: foram muito poucas as vozes livres que se atreveram a exercer um mínimo de contraditório que o documento, não sendo sagrado, merece. Também compreendo que João Francisco Gomes se admire com estas “opiniões individuais, que contrastam com o posicionamento oficial dos bispos portugueses”. Acontece que a Igreja, ao contrário das redacções dos “jornais de referência” e da do Observador em particular, é mesmo plural - nela convivem diferentes sensibilidades e opiniões. Pela minha parte, que por vezes erradamente, por deformação profissional me preocupo demasiadamente com a imagem (das pessoas, empresas ou instituições), defendi que o momento do indigesto confronto com o relatório, não fosse apropriado à critica pública pelos católicos das suas manifestas fragilidades. Isto porque acreditei que tal debate se transformaria numa luta na lama com resultado predeterminado pela turba revoltada (leia-se comunicação social). Porque para tal desfecho indecoroso para nós católicos, como referia a citada Mafalda Miranda Barbosa, bastava "um só caso de pedofilia ou de abuso sexual mesmo de maiores levado a cabo por um sacerdote é motivo de escândalo, devendo ser tratado de forma exemplar pela justiça dos homens e no seio da Igreja, tal o mal que por meio de um só caso se provoca nas almas". Acreditei que o passar do tempo, - enquanto os organismos da Igreja apuram métodos e procedimentos que melhor os permitam prevenir o infiltrar de tarados que com o seu pecado traem a nossa Igreja - passada a emotividade do choque dos relatos, tenderá a aclarar a verdade e a iluminar a santidade da sua obra no meio dos mais simples e carenciados de redenção, pão e sentido existencial.

Graças a Deus possuo a liberdade, de por exemplo, duvidar que a hierarquia da Igreja deva suspender os mais de cem padres no activo suspeitos, segundo Pedro Strecht, apesar de maioritariamente denunciados por anónimos sem que tenham tido direito à defesa da sua honra e a uma culpa formada. Que devam ser acompanhados enquanto se apurar a verdade dos factos não me restam dúvidas, mas menos duvidas tenho de que os direitos humanos também se aplicam a um Padre, qualquer um, que por estes tempos sofre com o estigma instalado. Como me dizia há dias um vizinho meu que é psiquiatra reformado e com simpatias pelo BE, "a padralhada meteu-se com os psiquiatras, agora levam na tromba". 

Viciados em escândalos evitamos olhar para os factos num modo critico e exigente que é como o deve fazer quem pretende verdadeiramente enfrentar os problemas. De facto, de onde viria maior escândalo do que a descoberta de que, também dentro duma instituição histórica como a Igreja Católica, aconteceram crimes hediondos como o da pedofilia? O escândalo não resolve mas proporciona muitos cliques, popularidade e audiências, emoções ao rubro. Escândalos que se consomem com voracidade nas redes sociais, distraem as pessoas, na ilusão de que a perversidade e a corrupção é problema dos outros. Ajudam-nas a sentirem-se melhores. Os escândalos alimentam sempre os credíveis “impecáveis”, afinal meros “fariseus” como os apelida o Pe. Pedro Quintela na homilia do Domingo 19 de Fevereiro passado, citada pelo João Francisco Gomes que, na indisfarçável ânsia de a condenar não parece ter-lhe captado a irreverência, profundidade e alcance - um grito de alma. O coração aberto às razões dos outros é virtude dos mais nobres.

Aí nessa poderosa e controversa homilia, refere o Pe. Pedro Quintela um ângulo não despiciente da questão: “esse «poder sem face» tem conseguido colar a Igreja, o seu clero e as suas práticas, rituais e instituições a uma cambada de tarados e de lugares sinistros. Ora o que o poder pretende é que da identificação da Igreja com tais horrores, decorra a insignificância, a impotência, e o desprezo por qualquer coisa que a Igreja tenha a dizer sobre o Homem e a organização da sua vida em sociedade: aborto, eutanásia, fantasmas sobre o que é ser homem ou mulher, família tradicional, novas configurações da mesma nascidas da perda do centro, tudo isso deixa de poder dialogar com o pensamento católico, a quem não se deixa de colar a pequeníssima parte como expressiva de um todo sistémico. E eis que aí estão de novo à solta velhos ressentimentos anticlericais a pedir que se esmague a «infame»: a Igreja”. Dito isto, não se interrogou o jornalista sobre os propósitos do esquisito inquérito efectuado pela C.I. aos bispos e consagrados(as) sobre as suas origens sociológicas, perfis psicológicos e consequentes comentários às indumentárias usados e modos de estar a fazer lembrar os velhos interrogatórios “científicos”? A mim fez-me lembrar métodos hediondos, quando não a escola da Antropologia Criminal, fundada por Cesare Lombroso (1835 / 1909) adoptada em Portugal pelos republicanos na criminalização dos jesuítas após o 5 de Outubro de 1910. Encolhemo-nos, rebaixamo-nos na consciência do nosso pecado, e em pouco tempo os “impecáveis e bem vistos” dançam sobre os nossos ossos.

Estarei a ser injusto ao centrar este meu texto na crítica a um artigo (e a uma linha editorial que deploro) do João Francisco Gomes, que sendo editor nas questões ligadas à Igreja não demonstra a mais pequena sensibilidade para com o tema. Mas não posso deixar de referir aqui a infeliz crónica do João Miguel Tavares, jornalista que admiro, genericamente pelo seu profissionalismo e capacidade de análise de temas complexos, em que, na critica a um artigo do Pe. Gonçalo Portocarrero de Almada no Observador, cuja opinião me pareceu bastante equilibrada (não temos de concordar em tudo), usou de recursos estilísticos ofensivos que me pareceram inapropriados duma pessoa da sua craveira intelectual, para mais reclamando-se católico.

Mal de nós quando nos surpreendermos com vozes que permanecem independentes e livres no nosso espaço público – é feio atiçar-lhes a turba. Mal de nós quando não nos inquietamos por uma interpretação unívoca de um determinado acontecimento ou a ela cedemos por comodismo ou ambições pessoais – é franquear as portas à estupidificação, e de caminho às mais cobardes tiranias das multidões. Por isso não desisto da minha Igreja a que pertenço com alegria. E, sobre aquilo em que acreditamos ser importante para as nossas vidas e dos nossos filhos, não nos calaremos.

Um tal nojo ao 25 de abril...

por José Mendonça da Cruz, em 24.02.23

Parece que Santos Silva, o presidente da AR que alguns socialistas creem «um príncipe», pretende ou pretendeu convidar Lula da Silva, um corrupto, para discursar no Parlamento na sessão do 25 de abril. Ora, eu tenho algumas críticas ao processo iniciado na data, algumas até fortes, mas não me ocorreria, e parece-me até injusto, cuspir nela tão descaradamente.

Os mercados não são o paraíso

por henrique pereira dos santos, em 23.02.23

Eu bem queria evitar falar das medidas do governo sobre habitação porque sei que aquilo corrresponde ao que é costume em António Costa: muita parra e pouca uva.

Mas como aparentemente se continua a olhar para o conjunto de medidas anunciadas pelo governo como se fosse uma coisa para levar a sério, vamos lá então escrever sobre isso, começando com um boneco:

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Legenda: número de habitações em função da data de construção

O boneco existe em vários sítios, mas eu fui buscá-lo a uma newsletter do Observador que José Manuel Fernandes faz regularmente.

Nesse texto há um conjunto de informações sobre o mercado habitacional, algumas coerentes com o que escrevi recentemente sobre rendas da habitação em Portugal.

Não tinha a menor intenção de perder tempo com patetices com as que escreve Carmo Afonso sobre o assunto, nem com a extraordinária interpretação do problema feita por David Pontes, que assina um editorial do Público com uma esdrúxula concepção do que é a intervenção do Estado no mercado da habitação.

Constatando que o Estado só tem 2% das casas em Portugal, conclui que o problema é o mercado não funcionar porque deve achar que o Estado não tem responsabilidade nenhuma no condicionamento das rendas, no licenciamento da habitação, nas exigências na construção, nos custos de transação, na fiscalidade, etc., concluindo ainda que o problema não são as propostas do governo mas o tom das críticas da oposição (Manuel Carvalho subscreve hoje esta tese de que o problema do país não é o governo ser mau, é a oposição ser pior, o que justifica que o Público se concentre na escrutínio do que faz a oposição, em vez de escrutinar o que faz o governo).

É assim, por exemplo, que o Público publica, sucessivamente, entrevistas com responsáveis governamentais sobre o assunto, sendo a entrevista de hoje com a Senhora Ministra da Habitação (uma aparelhista filha de um notável do PS de Caminha, que nunca teve actividade profissional fora da esfera do governo e do partido) especialmente deprimente, quer na candura com que explica que não faz ideia da realidade sobre a qual está a tomar decisões, quer na descrição de palimpsestos de regras sobre o sector que também não deve fazer a mínima ideia de como funcionam na prática nem dos seus efeitos secundários.

Há por aqui, no Corta-fitas, um comentador que quando questionado sobre quais os exemplos de resolução do problema da habitação foi conseguido pelo Estado, resolve dizer que como há problemas onde existem mercados funcionais, não vale a pena discutir o papel do Estado e do mercado na resolução do problema.

Os mercados não são o paraíso na terra.

Em primeiro lugar, não existem mercados perfeitos a não ser nos livros de economia e gestão, em segundo lugar, não se pode pedir aos mercados aquilo que eles não podem dar.

Os mercados são um mero mecanismo de cooperação entre as pessoas que decidem usar um acordo de preço para resolver interesses divergentes sobre alguma coisa em que ambas têm interesse e não se pode pedir aos mercados que sejam mais que isto e resolvam todos os problemas da humanidade.

Nalgumas coisas em que preço não é o instrumento mais adequado para garantir a cooperação entre as pessoas, como na segurança ou na defesa, na medida em que um ladrão não tem o menor interesse em cooperar com a sua vítima, mas em impor-lhe a sua vontade pela força, o Estado é imprescindível.

Pelo mesmo tipo de razões, o Estado é útil na regulação dos mercados, quer na definição de regras gerais e abstractas a que todos ficam obrigados para limitar o poder dos mais fortes, quer na aplicação dessas regras e no sancionamento dos que as violam (por exemplo, impedindo ou limitando os monopólios que conferem a um, ou poucos, agentes uma posição dominante, obrigando a transparência de informação que limite as assimetrias de informação entre comprador e vendedor, etc.).

E é aqui que volto ao Público, agora para um artigo de Helena Roseta, que é bem exemplificativo de como funciona uma cabeça estatista num sector como este.

Helena Roseta, ao contrário da Ministra, não chegou aqui ontem sem curriculum digno desse nome, e por isso é muito mais cautelosa que a Ministra, dizendo explicitamente: "Temos em Portugal um mau hábito que é preciso combater - anuncia-se muito, legisla-se mal e avalia-se pouco. A informação real sobre os resultados dos vários programas públicos na área da habitação é escassa ou inexistente. Há programas com muito sucesso que foram descontinuados sem se perceber porquê, outros sem qualquer resultado que continuam a figurar" (ler a entrevista da Senhora Ministra da Habitação para confirmar, acrescento eu, mas fazendo notar que os jornalistas que fazem a entrevista falam de programas completamente falhados como se fossem a coisa mais normal do mundo e sem perguntar à Senhora Ministra por que razão toma como referências, para as novas medidas a adoptar, programas públicos que não funcionam).

Note-se que Helena Roseta diz que Portugal atravessa uma grave crise de habitação num momento em que há mais casas que famílias, por contraponto ao que acontecia há 50 anos, em que havia mais famílias que casas.

Há muitos sem-abrigo, pergunto eu? Sim, há mais do que deveria, mas é um problema bem mais relacionado com a saúde mental que com a falta de habitação.

Há milhares de casas clandestinas, como já houve em tempos? Não tenho essa ideia.

Há barracas em toda a periferia de Lisboa e ilhas no Porto, como havia há uns anos? Há mais do que deveria, estamos de acordo (sobretudo nos municípios governados por câmaras do PC durante muito tempo), mas fez-se um longo caminho e hoje há muito menos barracas que as que havia.

Em que consiste então essa grave crise de habitação?

No facto de ser impossível a classe média ter uma casa onde quer, pelo preço que quer (como diria a Senhora Ministra da Habitação há tempos (Setembro de 2022, não numa roda de amigos depois de uns copos, mas numa audição na Assembleia da República) "“toda a gente tem o direito a viver nas zonas mais caras de Lisboa e do país” e que “isso faz-se também com respostas públicas”. “Cabe ao Estado dar essa resposta”").

Helena Roseta diz, com acerto "nunca a política de habitação dispôs em Portugal de recursos públicos tão elevados". E acrescenta mais à frente: "Sabemos que o Estado não pode fazer tudo".

Sendo tudo isto verdade, por que razão escolhe Helena Roseta esquecer o boneco que está no princípio deste post, uma escolha consciente do seu artigo de opinião: "deixando de lado as múltiplas razões que explicam como foi possível chegar aqui"?

Porque se não fizer essa opção, teria de admitir que na raiz do problema está a queda do investimento privado em habitação, que não é compensado pelo aumento do investimento público porque o Estado não tem recursos suficientes para isso, que resulta tanto de regras anti-mercado, como da quebra permanente de confiança que o Estado promove.

E isto não é uma questão da Senhora Ministra da Habitação a quem, digo eu, António Costa se terá limitado a pedir o impossível, como é o seu costume, responsabilizando-a por pôr vacas a voar.

António Costa reverteu a privatização dos transportes públicos e da TAP, porque lhe era politicamente conveniente, e responsabilizará a esquerda do seu partido e a esquerda à esquerda do seu partido quando as coisas correrem mal, defendendo a privatização da TAP com a mesma bonomia e irresponsabilidade com que defendeu a reversão da privatização já feita.

António Costa liquidou os mecanismos de cooperação com os privados na educação, porque lhe era politicamente conveniente, e responsabilizará a esquerda do seu partido e a esquerda à esquerda do seu partido pelo crescimento das inscrições no ensino privado e consequente aumento do fosso social entre os que podem pagar e os outros.

António Costa liquidou as PPP da saúde, porque lhe era politicamente conveniente, e responsabilizará a esquerda do seu partido e a esquerda à esquerda do seu partido o que se passa no SNS, com a mesmo bonomia e irresponsabilidade com que defenderá, quando lhe for conveniente, a cooperação com os privados.

E prepara-se como reforçar a política de destruição do sector da habitação, com os costumados embrulhos de boas intenções e pormenores equívocos, provocando um ainda maior problema no investimento no sector que aquele que já é visível no boneco acima.

Helena Roseta conhece, evidentemente, o CRUARB, Comissariado para Renovação da Área da Ribeira-Barredo, cujos primórdios assentam em estudos dos anos 60 e que existiu entre 1974 e 2003.

Durante anos a fio o Estado despejou dinheiro neste projecto, em que foram ganhos inúmeros prémios de arquitectura e etc., mas que na verdade nunca conseguiu resultados muito relevantes na renovação urbana da sua área de intervenção, em especial nas casas das pessoas (no espaço público houve resultados mais interessantes).

Depois, os privados, com base nas alterações das regras das rendas e do alojamento local, recuperaram, em muito menos tempo, muitos mais edifícios e casas na zona histórica do Porto, com as Cassandras do costume a falar de gentrificação, como se a ruína e as casas indignas em que viviam os pobres que não conseguiam fugir da miséria fosse uma situação preferível.

Lembrar estes pequenos factos, lembrar que as barracas foram eliminadas ou reduzidas através da cooperação entre o Estados e os privados, com o Estado a cobrir custos sociais que não cabe aos privados cobrir, está para lá da capacidade de aceitação da realidade da esquerda que predomina nas redacções e na intelectualidade dominante no espaço público.

E, por isso, o autêntico emaranhado de coisas em forma de assim que António Costa inventou para retomar iniciativa política, mesmo que à custa da erosão da confiança dos investidores no Estado e consequente agravamento futuro do problema da habitação, continua a ser discutido como se fosse uma coisa séria, proposto por uma pessoa séria.

Notícias

por henrique pereira dos santos, em 20.02.23

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Fui buscar o boneco acima a uma publicação de um colega meu do Algarve, que perguntava ironicamente onde é que já se tinha visto floração de amendoeiras no Inverno.

Que o Público não tenha ninguém com sensibilidade suficiente para ter ouvido falar da auto-fecundação das amendoeiras (e, por isso, da relativamente baixa importância dos polinizadores nesta cultura, pelo menos nalgumas variedades), acho normal, eu só soube disso porque Carlos Aguiar fez um comentário nesse sentido na dita publicação.

Que uma estagiária leia qualquer coisa sobre o assunto e não tenha capacidade crítica suficiente para se aperceber imediatamente que é melhor verificar os factos e ver quando é a época normal da floração das amendoeiras, posso perceber, é caindo que se aprende a andar de bicicleta.

Que no processo de produção da notícia, e mesmo depois da sua publicação, ninguém com responsabilidade no jornal se aperceba de que não há notícia nenhuma no facto de começar a floração das amendoeiras em Fevereiro, isso sim, já acho preocupante (noutra publicação, nos dias de frio que houve aqui a atrasado, uma pessoa de Mirandela perguntava em que país vivia a ou o jornalista que tinha feito uma notícia com o facto da roupa que tinha ficado na rua a secar, de um dia para o outro, ter congelado na corda).

Neste caso trata-se apenas de um lapso divertido, mas este desfasamento entre a realidade do mundo rural e os produtores de informação é muito mais sério do que se poderia pensar, influenciando políticas erradas de gestão de fogos, de gestão florestal, de gestão de conservação e por aí fora, o que tentarei exemplificar com outro exemplo recente, também vindo do Público.

Ontem, na primeira página, numa chamada com algum destaque, escrevia-se "Lobos Doze ministros europeus contra  redução de estatuto de protecção".

Quando vi esta chamada, disse para os meus botões: o jornalista, ou o editor, ou o jornalista e o editor, não perceberam que a notícia é serem só doze os que assinaram a carta que pretende contestar uma resolução do parlamento europeu sobre grandes carnívoros: há uns anos atrás esta resolução provavelmente nunca existiria, e praticamente todos os ministros europeus assinariam imediatamente a sua contestação, no caso, improvável, de alguém se atrever a propor uma medida neste sentido.

Afinal o que se passa?

O que se passa é com as alterações tecnológicas que nos permitem hoje criar fertilidade em fábricas, produzir muito mais trabalho com menos gente, escolher as caracteríticas de plantas e animais para obter melhores resultados, com a melhoria dos circuitos de armazenamento e comercialização (com destaque para a generalização do frio), com melhores modelos de gestão, precisamos hoje de muito menos terra para alimentar (e produzir fibras) muito mais gente.

Com isso, na velha Europa - a situação não é a mesma noutras paragens -, há uma recuperação brutal dos sistemas naturais e, com isso, o regresso dos grandes animais, que incluem predadores de topo como o lobo ou omnívoros oportunistas como o urso.

Todos os dados que existem apontam nesse sentido, de que há um conjunto de espécies que estiveram muito ameaçadas mas que hoje aumentam a taxas mais altas ou mais baixas mas, para se ter uma ideia, os ursos, na Península Ibérica, cresciam até há pouco tempo a uma taxa de 10% ao ano (digo cresciam, e não crescem, por precaução, não fui ver os últimos números). Isto quer dizer que a população de ursos duplica a cada 7 ou 8 anos, ou que triplica em 11 ou 12 anos.

Isto deveria ser motivo de regozijo dos conservacionistas, só que isto implica reconhecer que essas espécies não estão ameaçadas, ou seja, que o seu estatuto de ameaça deveria ir tendendo para não ameaçado, progressivamente, a cada revisão desse estatuto.

Ora é isso que pede a tal resolução do Parlamento Europeu, só que isso choca de frente com a convicção de que o estatuto legal de protecção das espécies é uma coisa muito importante para a sua dinâmica, um dogma de fé transversal a praticamente todo o movimento conservacionista e, consequentemente, às redacções dos jornais.

Daí a notícia do Público, que não discute os fundamentos do problema, não escrutina factos, ouve apenas uma pessoa, dirigente de uma organização directamente interessada em dramatizar as ameaças às espécies em causa, porque dessa dramatização depende o financiamento, em grande parte, da organização.

O que está em causa não é produzir informação, é combate político.

Se é assim numa matéria aparentemente tão pouco política, imagine-se o que isto quer dizer em matérias mais claramente políticas, como a habitação.

Um dia destes vi uma jornalista perguntar a um convidado como era possível que se admitisse que se poderia resolver a crise da habitação sem intervenção do Estado.

E considera-se a pergunta normal porque ninguém devolve a pergunta à jornalista: onde está a demonstração real de que a intervenção do Estado produz melhores resultados na disponibilidade de habitação que o mercado? Que exemplos existem de intervenções do Estado com bons resultados, no longo prazo, sobretudo intervenções do Estado que contrariam o mercado (que é diferente de políticas de incentivo para que o mercado funcione mais assim ou mais assado).

E assim não saímos da cepa torta.

Domingo

por João Távora, em 19.02.23

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Ouvistes que foi dito aos antigos: ‘Olho por olho e dente por dente’. Eu, porém, digo-vos: Não resistais ao homem mau. Mas se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a esquerda. Se alguém quiser levar-te ao tribunal, para ficar com a tua túnica, deixa-lhe também o manto. Se alguém te obrigar a acompanhá-lo durante uma milha, acompanha-o durante duas. Dá a quem te pedir e não voltes as costas a quem te pede emprestado. Ouvistes que foi dito: ‘Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo’. Eu, porém, digo-vos: Amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem, para serdes filhos do vosso Pai que está nos Céus; pois Ele faz nascer o sol sobre bons e maus e chover sobre justos e injustos. Se amardes aqueles que vos amam, que recompensa tereis? Não fazem a mesma coisa os publicanos? E se saudardes apenas os vossos irmãos, que fazeis de extraordinário? Não o fazem também os pagãos? Portanto, sede perfeitos, como o vosso Pai celeste é perfeito».

Palavra da salvação.

O caso Dreyfus

por Daniel Santos Sousa, em 18.02.23

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O caso Dreyfus permanece como um dos momentos mais intensos da história política, reunindo uma rede de intrigas e conspirações de gabinete que incendiaram a França da Belle Époque. Rapidamente: um oficial judeu é acusado de estar a espiar para a Alemanha. Acusado e condenado vai para o desterro. Entretanto surgem provas da sua inocência, sem que o exército ou a justiça o reconhecessem. O caso extrapolou fileiras, num tempo em que o antissemitismo estava na ordem do dia. Entre intrigas e escândalos a opinião pública radicaliza-se. Ali vibra a desconfiança sobre os judeus, mas também o ódio à Alemanha, está viva a humilhação de 1870 que (entre outras causas) servirá de mote à guerra de 1914. As intrigas entre oficiais e os conluios políticos criam uma teia laboriosa onde Deyfus passa a servir de "bode expiatório".

Mas o escândalo vai muito além do enredo de Polanski, neste filme interessante mas apenas um capítulo de um todo muito mais vasto e complexo que é a génese de todas as calamidades. Ali ensaiaram-se as alianças e as ideias que dariam fruto no pós-Primeira Guerra Mundial. Se de um lado estava Zola, com a denúncia à corrupção do sistema e apelando à inocência de Dreyfus, do outro estava Maurras, a denunciar "les ennemis de l'intérieur". Constituíam-se as barricadas de dreyfusards e anti-dreyfusards. Destas fileiras nasceria, respectivamente, a Liga dos Direitos do Homem, inspirada por Zola; e a Liga da Pátria Francesa, onde o verbo de Maurras alcançaria a fama. De um lado estavam republicanos, socialistas, intelectuais de esquerda, do outro a aliança improvável entre republicanos patriotas, nacionalistas jacobinos, católicos e monárquicos, bonapartistas, conservadores, de Gauthier de Clagny, a Lemaître, passando por Barrés, Vaugeois, Maurras. Mas, longe de ser apenas um efémero número de inconformados, a Liga reunia o escol da sociedade francesa e a nata mais consistente da intelectualidade, ali estavam: o geógrafo Marcel Dubois e o poeta François Coppée, mas também: Léon Daudet, Albert Sorel, Júlio Verne, assim como os pintores Edgar Degas e Pierre-Auguste Renoir. Entretanto, fruto das divisões internas e de mundivisões dissonantes, a Liga entra em colapso. Das suas cinzas nascerá a Action Française, que passará a dominar o espaço político da direita à extrema-direita até ao final da II Guerra Mundial.
Para todos os efeitos o filme merece atenção e recomendo vivamente.

O empresário sem cabeça

por henrique pereira dos santos, em 18.02.23

Por causa da sessão em que falei no meu último Post, José Miguel Cardoso Pereira mandou-me um slide de uma apresentação de há tempos, que transcrevo.

"6º Inventário Nacional (2015)

- o volume de madeira em crescimento (i.e. de árvores vivas) de pinheiro-bravo apresenta uma diminuição de 15 Mm3 em relação ao IFN anterior (2005, acrescentou eu), cifrando-se em 2015 no 67 Mm3

- o volume de madeira em crescimento de eucalipto mantém-se constante desde o IFN5 (43Mm3, apesar do aumento da área de cerca de 59 mil ha

- Ou seja, a disponibilidade de madeira de pinheiro-bravo está em diminuição e a de eucalipto não acompanha o aumento de área. (e as fábricas processam m3, não processam ha...)

Nota: estes números não reflectem as áreas queimadas entre 2016 e 2021, que foram cerca de 830 000 hectares de área total, dos quais ca 490 000 ha de povoamentos florestais"

Como é clarinho, clarinho, área de povoamento florestal não quer dizer metros cúbicos de matéria prima protencial, a área pode aumentar, como no caso do eucalipto, e os metros cúbicos ficarem na mesma.

O Estado, e nós como sociedade, olhamos para a produção florestal de uma forma que qualquer empresário consideraria estranhíssima, qualquer consultora assinalaria como um absurdo, se estivéssemos a falar de outra área de actividade económica: não distinguimos activos florestais de passivos florestais.

Tomemos o exemplo do eucalipto para ilustrar.

O país tem cerca de 850 mil hectares de eucalipto, mais coisa, menos coisa.

Desses 850 mil hectares, uns 200 mil são activos económicos, os outros 650 mil são passivos económicos.

Ou melhor, tal como uma sucata é um activo económico, também esses 650 mil hectares de eucalipto são um activo, na medida em que há uns sucateiros que vão lá andando à cata de qualquer coisa que se aproveite, compram ao preço de sucata, preparam para que seja aceitável como matéria prima à porta da fábrica, e vendem o que conseguem aproveitar ao preço de matéria prima, exactamente como faz qualquer sucateiro.

O que não faz sentido é a siderurgia que exista no país considerar uma mina de ferro (ou um fornecedor internacional de ferro) no mesmo plano de uma sucata, quando faz o seu plano de negócio e avalia as disponibilidades de matéria prima em qualidade, preço e segurança de abastecimento.

E não faz sentido porque alimentar siderurgias a partir de sucatas é um processo largamente ineficiente (a razão pela qual existe um negócio de sucata é porque os bens que entram na sucata tiveram outra vida económica e a sucata é uma melhor alternativa que o lixo, a originalidade do sector florestal é empenhar-se em produzir sucatas, sem o uso económico anterior do bem).

Esta é, actualmente, a forma como as entidades de tutela, os economistas, as consultoras olham para o sector florestal, discutindo acaloradamente hectares de povoamentos florestais em vez de discutir disponibilidades de metros cúbicos (eu sei, eu sei, dizem sempre qualquer coisa sobre produtividade e a necessidade de aumentar a produtividade, mas depois, na prática, empenham-se em "sinking investments" de passivos florestais porque não os distinguem de activos florestais).

No caso do Estado, por pressão da sociedade, a situação é ainda mais absurda porque a regulamentação se empenha, activamente, em limitar os activos florestais e em aumentar os passivos florestais, criando uma regulamentação kafkiana quer no que diz respeito à livre produção de espécies florestais, quer no que diz respeito à limitação de técnicas de gestão dos activos que existem, como no fogo controlado, no pastoreio, nos desbastes, nas podas, na forma de explorar a resina, etc., etc., etc..

Resumindo, gerimos o sector sem distinguir o que são activos do que são passivos, insistimos que os proprietários são uns broncos que não querem ganhar dinheiro expandindo os passivos florestais e, no fim, espantamo-nos porque o sector nunca consegue produzir o que dizemos que é o seu potencial, para além de produzir muito mais externalidades negativas do que estamos dispostos a aceitar.

Adenda: qualquer pessoa que leia uma alegoria à discussão actual sobre habitação está desculpada. No caso do sector florestal, os arrendamentos coercivos são já uma realidade legal. Felizmente, como irá acontecer na habitação, acho que a legislação nunca foi aplicada, quer porque habitualmente a realidade se impõe à legislação, mesmo que seja por ínvios caminhos, quer porque há um problema de ordem prática: ninguém percebe muito bem como se consegue arrendar coercivamente uma coisa não vivendo nós num regime autoritário.

Os socialistas tinham uma paixão pela aviação. Abraçando a TAP aos beijos e murmúrios de «Ah, estratégica», gastaram 3 mil milhões de dinheiro dos contribuintes. A paixão foi consumada: destruiram a TAP e preparam-se para destruir o hub de Lisboa entregando as cartas à Iberia madrilena. Os portugueses que viajam assistem, enquanto compram bilhetes para uma low-cost que, ao contrário da TAP, cumpra os contratos e os transporte. 

Os socialistas tinham uma paixão pela saúde, tão acesa que a queriam toda nas suas mãos. O hospital de Braga, gerido por privados, era um dos melhores do país; agora, em mãos socialistas, é um dos piores, e custa mais caro. O hospital de Loures gerido por privados era um dos melhores do país; agora, em mãos socialistas, é um dos piores, e custa mais caro. O hospital de Vila Franca de Xira era um dos melhores da região quando gerido por privados; agora, em mãos socialistas, é um dos piores, e custa mais caro. A paixão está consumada: o SNS está destruído. Os portugueses, munidos de seguros de saúde, acorrem em massa aos serviços de saúde privados.

Os socialistas tinham uma paixão pela educação, tão acesa que não queriam privados metidos no assunto. A paixão foi consumada. Os professores revoltam-se e não ensinam, e os alunos, não acompanhados nem avaliados, chegam ao fim dos cursos com o mesmo grau de ignorância com que começaram. Os portugueses com um módico de bom senso e uma carteira média esgotam todas as vagas do ensino privado para 2024.

Os socialistas têm agora uma paixão pela habitação. Amam tanto os seus edifícios públicos devolutos que nem sabem quantos são, nem onde os têm. Amam  tanto fazer programas grandiosos que os fazem de mês a mês, todos sem resultados. Sabem é que os privados têm andares e prédios (a oferta) e os alugam e vendem (a procura). Os socialistas não gostam. Ao livre funcionamento de oferta e procura chamam especulação, e, então, apossam-se. Começaram a consumar a paixão, anunciando uma lista de medidas que paralisará o alojamento local, aniquilará o investimento, afugentará qualquer eventual investidor no imobiliário e cravará mais um prego na construção civil. Os portugueses sem casas interrogam-se sobre que mistério fará que Salazar, os alucinados do PREC, e os socialistas convirjam nas mesmas medidas para a habitação que lhes matam a esperança de as vir a ter. 

Dois mil anos

por João Távora, em 17.02.23

(...) A Igreja Católica, em Portugal, continua a ter importância e a exigir-se dela uma perfeição que não se espera de mais nenhuma instituição. A própria discussão provocada pelo inquérito sugere isso. Daí que as visões laicistas de uma iminente ruína da Igreja pareçam algo exageradas. Não foi aliás esta a primeira vez que alguém, do alto de um púlpito jacobino, aproveitou um escândalo eclesiástico para declarar liquidadas a tradição apostólica, a autoridade do papa ou o celibato do clero. Os então chamados “livres pensadores” passaram o século XIX a anunciar o fim da Igreja. Uns esperaram abolir o catolicismo em duas ou três gerações; outros confiaram em que, no mínimo, haveriam de casar os padres. Para isso, usaram a propaganda, mas também a força, quando por acaso tiveram poder. No século XIX, não acreditaram que a Igreja sobrevivesse à ciência e à democracia; no século XX, ao Estado social e aos novos costumes. Acontece que a Igreja sobreviveu, mesmo sem poder político, mesmo sem coação social, e mesmo sem ser sempre servida pelos melhores e mais exemplares, como se viu agora.

Para os crentes, será um sinal da providência divina. Quem não tem fé, poderá talvez pensar em outras causas. Por exemplo, no fracasso abjecto das alternativas “científicas” à religião revelada, como as ideologias totalitárias do século XX, ou na farsa pueril das opções “espiritualistas”, como os movimentos de tipo “New Age”. As tradições religiosas, mesmo em plena modernidade, continuaram a corresponder, melhor do que quaisquer substitutos, a necessidades e inclinações fundamentais. Românticos e modernistas, por mais ateus ou agnósticos, permaneceram sensíveis ao mistério e à estética do cristianismo. A tradição das igrejas cristãs deu a sua expressão mais intensa a duas ideias aparentemente contraditórias: a ideia de que o poder humano é limitado, e a ideia de que, apesar disso, a redenção é possível. Para os crentes, Deus é a solução. Para muitos não-crentes, importa manter a questão nos termos simultaneamente exactos da tragédia e da esperança, e na nossa cultura ocidental é a tradição cristã que melhor o consegue. É por isso (e não por simples inércia social), que nem a ciência, nem o Estado laico nem os escândalos eclesiásticos cancelaram em Portugal a Igreja Católica, e é por isso que ainda hoje, com a prática religiosa em retrocesso, a Igreja inspira tanta discussão. Daí que, sem diminuir nem relativizar o inquérito, seja provável que a Igreja continue por aqui no próximo século, com a sua tradição, o seu papa, o seu clero e, claro, os seus devotados inimigos.

Rui Ramos  no Observador. A ler o artigo completo Aqui

Um país deprimente

por henrique pereira dos santos, em 17.02.23

Não, não vou escrever sobre os anúncios do governo sobre habitação, todos conhecemos a técnica habitual que António Costa usa para reganhar iniciativa política, que consiste em pegar num tema com grande potencial populista, anunciar mundos e fundos, juntar-lhe uns milhões que ninguém sabe como se calculam e explicar que vai tudo ainda ser discutido, mas que o governo está empenhado em resolver isto aquilo com medidas que são mais ou menos assim, a adoptar num calendário fluido, suficientemente longo para que entretanto haja outro assunto sobre o qual o governo vai ter um intervenção histórica e sem precedentes.

Vou mesmo escrever sobre uma sessão para que me convidaram ontem e cujo programa era este.

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Comecemos pelo princípio: o ministro da economia chega com meia hora de atraso para uma sessão que deveria durar duas horas, e começa a sua intervenção sem o menor pedido de desculpas (fui verificar na gravação, não acreditei que a minha memória dos factos estivesse certa).

Poder-se-ia dizer que é uma questão de pormenor, mas não é, é mesmo uma concepção de poder cesarista, em que um ministro, por ser temporariamente ministro, se acha no direito de ter uma assembleia qualificada (e que fosse desqualificada, só falo na qualificação por causa do preço hora de trabalho de cada uma das pessoas que ali estão), cheia de altos quadros e dirigentes da administração pública, de académicos no topo da carreira, de altos comandos militares, de membros dos conselhos de admnistração de empresas e mesmo de pobres homens da Póvoa, como eu, meia hora à sua espera (uns milhares de euros deitados ao lixo) e nem sequer tem a percepção do transtorno e da destruição de valor que causa, ao ponto de pedir desculpa pelo atraso.

Francamente, não só não considero isto uma questão de pormenor (uma pessoa que não sabe gerir o seu tempo pessoal acha-se qualificada para gerir um país), como é mesmo uma característica deprimente do país e do exercício do poder (lembro-me bem de uma reunião cheia de ministros e administradores dos maiores grupos económicos do país, em que eu por acaso estava, no gabinete do então primeiro ministro António Guterres, em que a meio da reunião Belmiro de Azevedo se levanta, dizendo que tinha um comboio para apanhar e que não era responsabilidade dele o atraso do senhor ministro da agricultura que tinha atrasado o começo da reunião em mais de uma hora, ou coisa do género, e ele tinha o compromisso, com a mulher, de estar em casa às oito da noite. O que me deprime é que no país seriam muito poucos os que fariam o que vi Belmiro de Azevedo fazer nesse dia).

Depois deste começo, a reunião segue com uma intervenção indescritível do senhor ministro da economia, que desfia uma série de lugares comuns embrulhados na linguagem da moda (a internet do território e tolices semelhantes), sem o menor pudor de dar como exemplo de investimento no interior o investimento da Riopele (uma empresa textil do vale do Ave, localizada em Famalicão, esse concelho longínquo do interior) e, o mais deprimente, demonstrando não ter percebido nada do problema de gestão florestal e do território com que o país está confrontado.

Segue-se então o que me tinha levado à sessão, a apresentação do estudo, feito pro bono (como alguém comentava em surdina, a diferença entre o sexo pago e o sexo não pago é que este último é muito mais caro), pela BCG.

O problema não é da BCG, um dos meus sobrinhos penso que trabalhou lá, uma das minhas filhas trabalhou na McKinsey, portanto tenho uma ideia relativamente próxima de como funciona o mundo das consultoras, às quais se aplica a fórmula geral dos computadores: shit in, shit out.

O problema é ter a percepção de que a BCG fez o melhor que sabia - é natural que a vantagem competitiva de uma BCG não seja a sua competência em gestão florestal - e trabalhou com a informação que lhe foi transmitida pelos parceiros, que incluem seguramente as entidades que no Estado têm responsabilidade e tutela da gestão florestal e do território.

Não sei que parceiros foram envolvidos e de que maneira os proprietários e gestores florestais foram ouvidos (na mesa redonda que se seguiu estava um gestor industrial, um académico que estuda o mundo rural há anos, tendo sido ministro da agricultura de Vasco Gonçalves, um académico da economia que há muito estuda a fileira florestal sem nunca ter percebido que a ausência de gestão não reage a estímulos fiscais, e uma académica, dirigente de organizações ambientais e política ligada ao PS, mas nenhum proprietário ou gestor florestal que dependa da floresta para pagar as suas contas no fim do mês.

O resultado é mais um estudo, com mais 50 medidas a adoptar para resolver um problema que está mais que identificado há anos: gerir combustíveis finos custa mais dinheiro que o que se retira da actividade da produção florestal, em grande parte do território.

Toda a gente parecia convencida que havia um grande problema de diminuição da área florestal em Portugal, sem que eu perceba porquê: grande parte da área florestal que temos é lixo, autêntica sucata florestal, que é um passivo, e não um activo, ao contrário do que foi sempre dito pela BCG e pelos restantes participantes.

Esperei para saber se para o público haveria oportunidade para perguntar porque raio perder floresta, isto é, reduzir a sucata florestal que é um passivo, era um problema assim tão grande, e para fazer a minha sugestão inspirada na famosa frase do paredão inacabado e com obras paradas, de Alqueva "Paguem a gestão de combustíveis aos proprietários que tenham menos de 50 cm de mato nos seus terrenos, porra!, esqueçam o resto das medidas".

Apercebi-me que não estava previsto que o público falasse (parece que depois, quando a sessão que tinha começado meia hora mais tarde, que deveria acabar pelas cinco, e que às cinco e um quarto ainda estava em jogos florais entre os convidados, afinal ainda se abriu aos comentários do público, lá pelas cinco e meia, mas eu já tinha desistido) e fui-me embora, antes do fim.

E é isto o meu país, deprimente, profundamente deprimente.

"A redacção de O Liberal (Partido Progressista), tendo sido insultada pelo sr dr. Eduardo Souza, director do Diário da Tarde (Partido Regenerador), entendeu dever desforçar-se. Havia quatro campos à escolha: - o tribunal judicial; - o tribunal d' honra; - o duello ; - o desaggravo pessoal. O tribunal judicial foi logo posto de parte - era ridículo. O tribunal d' honra era impossível com o sr dr Eduardo de Souza que é um desqualificado. O duello, pelos mesmos motivos, egualmente impossível: um duello, que em Lisboa tem muito de ridiculo, no Porto era decididamente ultra-cómico, e com o Sr. Eduardo de Souza humilhante. Restava-nos o desforço pessoal. Tirámos à sorte e a sorte designou o redactor Alexandre de Albuquerque. Partiu para o Porto com o firme proposito de cumprir briosanmente o que lhe mandava a sua honra profissional e pessoal
Os factos deram-se taes como os contou o nosso correspondente, em seu telegramma de hontem, que de novo transcrevemos: "Porto, 6 - 1 e 17 da tarde, O Liberal galhardamente desaffrontado. Às 10 horas e meia chegou dr Eduardo de Souza à porta da redacção do Diário da Tarde. O dr. Alexandre d'Albuquerque não o conheceu por causa das barbas e da gordura. O dr Souza prevenido pelo aviso de O Liberal, conhecendo o dr Albuquerque, fugiu para as escadas, denunciando-se. O dr Alexandre d'Albuquerque, completamente desarmado, correu sobre o dr Eduardo de Souza, que se achava armado de bengala, e derrubou-o a murro, saltando sobre elle e soccando-o fortemente, pretendendo o dr Souza arranha-lo, mas sem o conseguir. Accudiu o povo, segurando o dr Albuquerque, o que o dr Souza aproveitou para lhe jogar duas bengaladas que lhe fizeram uma ligeira escoriação na testa. O dr Albuquerque, soltando-se, derrubou outra vez o dr Souza, soccando-o e calcando-o aos pés, sovando-o fortemente. O dr Souza retirou-se para a redacção do Diário da Tarde. Povo felicitou o dr. Albuquerque."

In Vultos e Perfis - "Alexandre Albuquerque", por Gonçalo Sampaio e Mello

A mais pérfida

por henrique pereira dos santos, em 15.02.23

O título deste post parte desta frase que li por aí: "como se constata, poucas organizações são mais esmeradamente pérfidas q a icar".

Esta frase entronca numa linha de pensamento que também li por aí: "um universo de proibições, que transforma quase todas as práticas sexuais em transgressões capitais, não elimina instintos sexuais e consegue, isso sim, instituir a perversidade".

Apesar da inquietação que sinto por ver gente qualificada, incluindo gente treinada no direito, a aceitar e promover a ideia de que existe culpa colectiva - dizer que há criminalidade em comunidades ciganas e concluir pela culpa dos ciganos ou da cultura cigana é exactamente o mesmo que verificar que existe criminalidade na igreja ou entre o grupo social dos padres e concluir pela culpa da igreja, num caso, ou pela culpa dos padres, no outro - não quero fazer um post sobre essa regressão civilizacional.

A primeira frase ainda se pode atribuir à cegueira normal do sectarismo, a segunda frase é extraordinária de ignorância sobre a natureza humana e sobre os problemas associados ao abuso e crimes sexuais.

O facto de estas frases serem correntes na actual discussão à volta dos abusos sexuais na igreja católica, sem que suscitem, de maneira geral, reacções minimamente informadas sobre o problema, parece-me muito triste.

E parece-me triste pelo que revela de alienação em relação ao problema sério do abuso sexual, impedindo-nos de procurar soluções melhores para a protecção das vítimas potenciais e para a paz de espírito das vítimas passadas.

Não vou pôr aqui ligações para os estudos que existem, são muitos e não apenas centrados na igreja católica.

O que me interessa é fazer notar que quase todos os estudos comparativos que conheço, com a excepção de um estudo para a austrália, não identificam a situação da igreja católica como especialmente diferente de quaisquer outras organizações que lidam com crianças e jovens.

Bem sei que os estes estudos que li são ocidentais e sobre o ocidente, portanto sei muito pouco do que se passa nos mosteiros budistas, nas madrassas islâmicas, nas organizações de juventude de partidos de regimes totalitários (e outros, mas não gostaria de sair de situações bem caracterizadas de organizações de poder que lidam com crianças e jovens).

Li também que em Inglaterra já vão no 15º relatório sobre este assunto (não confirmei a informação, mas lembro-me de ter visto que havia relatórios dirigidos a diferentes tipos de organizações que lidam com crianças e jovens, incluindo as igrejas católica e anglicana, claro, mas também outras organizações relacionadas com desporto, escuteiros, etc.), numa demonstração de que é levada a sério a ideia de que a natureza humana é muito mais complexa do que deixam entender as duas frases que cito no princípio do post.

É o reconhecimento dessa natureza humana que permite às organizações adoptar práticas que permitam limitar os efeitos da perversidade, para citar a segunda frase lá de cima (a ideia de que a perversidade se resolve com educação é bem o exemplo de uma ideia completamente estúpida que, apesar disso, se mantém viva pela tranquilidade de espírito que dá aos que a subscrevem, evitando-se o desconforto de sabermos que todos nós somos da mesma massa e não conseguimos saber até onde iremos, no bem e no mal, dependendo das circunstâncias).

Quando procurava saber se a igreja católica é das organizações mais esmeradamente pérfidas que existem (limitando a minha procura de informação aos abusos sexuais), li um estudo feito com base em entrevistas a predadores presos por crimes sexuais. O que me impressionou (cito de memória e a minha memória é muito má) foi o tempo que habitualmente medeava entre os primeiros zunzuns e a prisão, qualquer coisa como 16 anos.

O padrão era mais ou menos semelhante em todos os casos, independentemente da pessoa concreta e das organizações pelas quais tinha passado.

Os predadores sexuais escolhem as suas vítimas, boa parte das vezes pela sua fragilidade e dependência. Quase sempre existe uma relação de proximidade (um parente, um amigo, um professor, um treinador, um confidente, um chefe de grupo, um padre, alguém que providencia orientação espiritual, qualquer coisa desse tipo) e prolongada no tempo, que cria relação de confiança, não apenas entre predador e vítima, mas entre predador e colegas e outras pessoas próximas dos dois.

Numa primeira fase as pessoas à volta desvalorizam os sinais (eu devo ter percebido mal), depois reconhecem alguns sinais, mas desvalorizam o seu significado (isto não é adequado, mas foi um deslize), depois não conseguem acreditar que aquele tipo (a esmagadora maioria dos predadores sexuais são homens) com quem bebem café, jogam à bola, discutem política ou pintura, seja verdadeiramente um predador, é só alguém que tem uma relação menos comum com alguém e quando a organização finalmente se convence de que o assunto é mais sério, de maneira geral considera o que se passou como um mau passo, e não como um traço de carácter, procurando por um lado redimir o predador e, por outro, proteger a organização de eventuais danos reputacionais.

Reconhecer que este é o problema é o primeiro passo para as organizações olharem para os seus procedimentos e abandonar uma certa flexibilidade em relação aos primeiros sinais e, por outro, reforçarem os mecanismos de apoio às vítimas que, frequentemente, só se reconhecem como vítimas muito mais tarde. E abandonarem definitivamente o medo tóxico dos danos reputacionais para a organização.

O que a igreja católica fez, deste ponto de vista, ao criar uma comissão para se olhar ao espelho, é notável.

Basta pensar nos resultados que seriam de esperar se o Estado resolvesse, com a mesma comissão, os mesmos membros, os mesmos métodos, olhar para os últimos setenta anos das suas instituições de acolhimento de menores, se os escuteiros fizessem o mesmo, se as federações desportivas fizessem o mesmo, se o sistema de ensino fizesse o mesmo (será mesmo verdade que nunca se ouviram comentários sobre o colégio militar, só para dar um exemplo).

O que estou a fazer não é desvalorizar o que se passou na igreja católica - que os católicos esperem da sua igreja que ela seja perfeita na caridade, não me espanta, que os não católicos exijam da igreja padrões morais mais elevados que os das outras organizações, só posso considerar como uma extraordinária vitória da igreja católica, mas à qual eu sou imune, eu espero que a igreja católica se comporte como qualquer outra organização humana - é apenas a dizer que se nos focarmos nas vítimas passadas e nas potenciais vítimas do futuro, é pouco, muito poucochinho, clamar contra a igreja católica pelo que fez, em vez de olhar para as portas que abriu em relação a um problema grave e transversal com que temos de conviver.

De preferência, melhor que no passado e com mais atenção às vítimas potenciais e reais.

A vergonha

por João Távora, em 14.02.23

Há umas semanas, ouvi de passagem o Papa Francisco adjectivar o sentimento de “vergonha” como belo. Desde então que tinha vontade de escrever sobre a vergonha, possivelmente o mais nobre sentimento humano. Não, esta crónica não tem que ver com a divulgação do relatório sobre o abuso de menores dentro da Igreja, que naturalmente me envergonha como católico, nem com a chamada “vergonha alheia”, que pelo facto de ser projectada para fora da jurisdição individual, de pouco serve aos visados – não os constrói. Nada se cura de fora para dentro a não ser uma perna partida.

A vergonha de que falava o Papa Francisco é aquele sentimento embaraçoso que nos assalta quando cometemos um erro (ou quando o recordamos tempos depois), e é tão mais opressivo quanto tivermos consciência desse mesmo erro. Essa consciência é potenciada pelo olhar dos outros. Por exemplo, é uma grande vergonha um escritor publicar um flagrante erro ortográfico, ou um pai ser apanhado a fazer batota na disputa de um jogo com um filho que a detecta. A dimensão da vergonha tem que ver com a medida em que o acto denuncia uma fragilidade que não se gostaria de ver revelada, quantas vezes desconhecida ou negada pelo infractor. Dado que todos temos as nossas fragilidades, é normal que de tempos a tempos sejamos traídos por uma ou outra. Por isso é que o sentimento de vergonha revela acima de tudo um desejo de perfeição. Esse desejo de perfeição é a nossa medida de humanidade. O embaraço com uma vergonha não nos faz mais imperfeitos, antes significa um passo no nosso crescimento como pessoas. Pessoas exigentes, inconformadas com o papel que assumem na família, no trabalho, na comunidade. Daí que quando observarem alguém a corar de vergonha por alguma falha flagrante, use-se a caridade que merece uma pessoa no seu processo de humanização. Só se envergonha verdadeiramente quem é inconformado com a sua precária condição. A falta de noção dessa imperfeição (pecado) é a fonte dos maiores problemas que enfrentamos em sociedade. E só se resolve de dentro para fora, a partir de cada um, algo incompreensível numa cultura viciada no escândalo e de dedo em riste. E claro, a vergonha faz-nos muita falta.

Afinal talvez esta crónica tenha algo que ver com os pecados de membros da Igreja Católica ora denunciados.

Imigração

por henrique pereira dos santos, em 13.02.23

Ana Sá Lopes, depois de na semana passada ter deitado a toalha ao chão reconhecendo que os factos que lhe dizem directamente respeito influenciaram as suas ideias sobre a gestão que o Estado faz do sistema de saúde, volta agora (no Público de Domingo) à sua posição habitual de evitar que os factos influenciem as suas ideias.

Por outro lado, Helena Matos, com o seu habitual bom senso e sentido da realidade, demonstra neste artigo que não é por falta de factos verificáveis que não se vê o que se passa com a imigração, é mesmo "uma escolha que se faz", a de evitar que os factos possam influenciar o que se pensa e escreve.

Comecemos por factos para depois olharmos para a maneira como se resolve olhar para eles, não para tentar entender a realidade, e actuar sobre ela, mas para evitar que eles influenciem o que queremos ver.

De acordo com Ana Sá Lopes, Luís Montenegro terá dito: "Temos de arriscar, procurar pelo mundo as comunidades que possam interagir connosco, que se possam integrar melhor na nossa identidade, e que possam entrar, por via do mercado de trabalho e também por via da formação, para integrarem no mercado de trabalho mais tarde".

Pessoalmente discordo desta maneira de pôr o problema da imigração, porque não me parece que o Estado seja muito competente na procura de trabalhadores de que precisamos, mas conseguiria ter uma discussão racional sobre imigração com base neste parágrafo.

E conseguia ter essa discussão racional partindo do pressuposto de que Montenegro está de boa fé e que o parágrafo acima reconhece que precisamos de mais imigração em Portugal e que essa imigração se deve fazer por via do mercado de trabalho e da integração social dos imigrantes.

Implicitamente, reconhece que a imigração pode trazer problemas sociais sérios, quando a sua integração social é difícil e existem barreiras reais entre as comunidades organizadas em guetos mais ou menos definidos e a generalidade da sociedade, reconhecimento que, se precisasse de mais demonstração factual, bastaria dar um salto a França ou à Suécia (dou o exemplo da Suécia para evitar já a conversa da islamofobia), mas a verdade é que existe uma longa demonstração histórica deste problema, não é nada de novo.

De resto, a restrição à entrada de migrantes é a norma pelo mundo fora, qualquer que seja o regime político que vigora no país (quando duas das minhas filhas, em períodos diferentes, foram fazer voluntariado para a ilha de Moçambique, por seis meses, tiveram de sair e voltar a entrar no país, porque não podiam estar mais de dois meses no país com vistos de turista, e Moçambique era um país de muito pouca imigração porque é um país muito pobre, isto é, com poucas oportunidades de trabalho).

Pois bem, Ana Sá Lopes prefere - "é uma escolha que se faz" - não ouvir o que diz Montenegro para poder malhar na eventual aliança com o Chega, e desata a disparar ao lado "Estamos a falar de brancos? Morenos? Falantes da língua portuguesa? Europeus? Naturais dos países que durante séculos colonizámos [um parênstises para realçar aqui uma falácia histórica muito difundida, a colonização africana portuguesa não é de séculos, é de um século, no máximo, século e meio, até ao fim do século XIX a colonização portuguesa em África limitava-se a um estreito rosário de entrepostos comerciais miseráveis ao longo do litoral]? Pessoas com aspecto meio mouro como quase todos nós? Pessoas que não professem a religião muçulmana [Ana Sá Lopes nem reparou que a esmagadora maioria dos imigrantes associados às condições de vida que motivam toda esta conversa não provêem de países culturalmente muçulmanos, talvez com alguma excepção do Paquistão, pelo contrário, vêm da Índia, do Nepal e de outros países dessa região do mundo]?"

Note-se que Ana Sá Lopes tem perfeita consciência de que não foi disso, ou pelo menos não foi evidentemente disso, que falou Montenegro, e por isso pede encarecidamente "Era muito importante que Luís Montenegro esclarecesse do que estava a falar".

Não admira esta alienação da realidade que incendeia o chão comum, queimando a racionalidade da discussão que precisamos de fazer sobre imigração, porque Ana Sá Lopes só deu pelas condições de trabalho e de vida dos trabalhadores rurais sazonais por causa da Covid em Odemira e do incêndio na Mouraria - como se houvesse alguma falta de notícias sobre redes de tráfico humano, condições de vida precárias, etc., associadas ao problema dos trabalhadores agrícolas sazonais ou aos estafetas urbanos -, tal como só deu pelos relatórios do tribunal de contas, e outros, sobre as PPP da saúde quando chocou com a realidade ao ser utilizadora frequente dos hospitais (provavelmente também precisará das manifestações de professores para pôr a hipótese de que o aumento da frequência do ensino privado é um sintoma fortíssimo de degradação da escola estatal, porque não quer atirar a toalha ao chão também na defesa de uma escola estatal disfuncional e crescentemente falhada como factor de integração social).

Ana Sá Lopes é só um exemplo - e um bom exemplo porque é uma pessoa séria, tem apenas a agenda das suas convicções, não é preciso invocar ligações estranhas a poderes e grupos socias para explicar a cegueira voluntária a que se entrega - do que se passa nas redacções dos jornais, que estão infestadas de gente que, aparentemente, acha que as regras da profissão - não citar anónimos, por exemplo, a não ser em casos absolutamente excepcionais de risco de vida para a fonte, procurar o contraditório de forma permanente e alargada, relatar factos verificáveis sem os misturar com opiniões, confrontar as declarações de agentes interessados com dados verificáveis, etc. - existem sobretudo para que o jornalista se defenda de si próprio e dos seus preconceitos, uma coisa intrinsecamente difícil para qualquer pessoa.

Passar o tempo a fazer interpretações possíveis, mas não plausíveis, sobre o que os outros dizem, não serve para nada a não ser para matar o chão comum de que precisamos para ter políticas públicas racionais.

E precisamos de discutir racionalmente a política de imigração, sabendo que é uma matéria em que a demagogia e os apelos emocionais têm carta de alforria.

Adenda: todos os dias, faça sol ou faça chuva, passo, por volta das sete da manhã, por uma bicha de pelo menos umas quarenta pessoas (o número vai variando) à porta de um serviço público que abre às nove da manhã. São quase todos estrangeiros à procura resolver os seus processos de nacionalização. Quem precisa da Covid ou do incêndio da Mouraria para perceber o inferno que o Estado criou para a gestão da imigração e afins, é mesmo porque sem esses acontecimentos dramáticos não quer ver o que o quotidiano lhe mostra

Domingo

por João Távora, em 12.02.23

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim revogar, mas completar. Em verdade vos digo: Antes que passem o céu e a terra, não passará da Lei a mais pequena letra ou o mais pequeno sinal, sem que tudo se cumpra. Portanto, se alguém transgredir um só destes mandamentos, por mais pequenos que sejam, e ensinar assim aos homens, será o menor no reino dos Céus. Mas aquele que os praticar e ensinar será grande no reino dos Céus. Porque Eu vos digo: Se a vossa justiça não superar a dos escribas e fariseus, não entrareis no reino dos Céus. Ouvistes que foi dito aos antigos: ‘Não matarás; quem matar será submetido a julgamento’. Eu, porém, digo-vos: Todo aquele que se irar contra o seu irmão será submetido a julgamento. Quem chamar imbecil a seu irmão será submetido ao Sinédrio, e quem lhe chamar louco será submetido à geena de fogo. Portanto, se fores apresentar a tua oferta ao altar e ali te recordares que o teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa lá a tua oferta diante do altar, vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão e vem depois apresentar a tua oferta. Reconcilia-te com o teu adversário, enquanto vais com ele a caminho, não seja caso que te entregue ao juiz, o juiz ao guarda, e sejas metido na prisão. Em verdade te digo: Não sairás de lá, enquanto não pagares o último centavo. Ouvistes que foi dito: ‘Não cometerás adultério’. Eu, porém, digo-vos: Todo aquele que olhar para uma mulher com maus desejos já cometeu adultério com ela no seu coração. Se o teu olho direito é para ti ocasião de pecado, arranca-o e lança-o para longe de ti, pois é melhor perder-se um só dos teus olhos do que todo o corpo ser lançado na geena. E se a tua mão direita é para ti ocasião de pecado, corta-a e lança-a para longe de ti, porque é melhor que se perca um só dos teus membros, do que todo o corpo ser lançado na geena. Também foi dito: ‘Quem repudiar sua mulher dê-lhe certidão de repúdio’. Eu, porém, digo-vos: Todo aquele que repudiar sua mulher, salvo em caso de união ilegítima, expõe-na ao adultério. E quem se casar com uma repudiada comete adultério. Ouvistes ainda que foi dito aos antigos: ‘Não faltarás ao que tiveres jurado, mas cumprirás diante do Senhor o que juraste’. Eu, porém, digo-vos que não jureis em caso algum: nem pelo Céu, que é o trono de Deus; nem pela terra, que é o escabelo dos seus pés; nem por Jerusalém, que é a cidade do grande Rei. Também não jures pela tua cabeça, porque não podes fazer branco ou preto um só cabelo. A vossa linguagem deve ser: ‘Sim, sim; não, não’. O que passa disto vem do Maligno».

Palavra da salvação.


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