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(...) Bento não ficará na história como um Papa banal, nem tão-pouco como o profeta das trevas que muitos teimavam ver representado nele. Há décadas que vinha avisando a Igreja para se preparar a viver em ambiente minoritário e liberta espiritualmente do imperativo categórico da "correcção" contemporânea. Sabia que a sua sobrevivência, nestes tempos levianos e superficiais de efeito fácil, depende muito da intransigência em manter-se um olhar céptico e realista para dentro da própria Igreja, para a "condição humana" da Igreja - homens e mulheres dela, e leigos, já que ninguém é obrigado a ser cristão, muito menos católico. Como escreveu em “A Luz do Mundo, «o Mal pertencerá sempre ao mistério da Igreja. Se olharmos para tudo o que os homens, e nomeadamente o clero, fizeram na Igreja, temos aí verdadeiramente uma prova de que Ele fundou a Igreja e a sustém. Se ela apenas dependesse dos homens, há muito que já teria perecido.»
 
Nunca cedeu ao populismo. A sua altiva timidez, o seu rigor teológico e filosófico, a sua fidelidade à razão eram incompatíveis com o "festim nu" de uma sociedade sem rumo à vista. Deus comanda a esperança contra toda a esperança, na expressão feliz de João Paulo II, mas Bento nunca alimentou ilusões ou ambiguidades em relação à natureza humana. Retirou-se do mundo quando sentiu que servia melhor a Igreja oculto dele. Não foi, como muitos tolos julgaram então, um sinal de fraqueza. Representou, antes, um sinal de uma força enorme. Ensinou-nos que “Deus ainda acende fogueiras na noite do mundo para convidar os homens a reconhecerem em Jesus o «sinal» da sua presença salvífica e libertadora”. Que "estamos a avançar para uma ditadura de relativismo que não reconhece nada como certo e que tem como objectivo central o próprio ego e os próprios desejos". Exigiu uma fé "mais madura" e um combate sem tréguas ao "radicalismo individual" que nos faz "ser criança andando ao sabor de ventos das várias correntes e das várias ideologias". Em suma, ensinou-nos que não foi em vão que Jesus “desceu para a noite de Getsémani, para a noite da Cruz, para a noite do túmulo. Ele desceu porque, no confronto com a morte, é mais forte; porque o seu amor leva o selo do amor de Deus que tem mais poder que as forças da destruição. É precisamente nessa saída, no caminho da Paixão, que está o acto da sua vitória; no mistério do Getsémani já está o mistério da alegria pascal. Ele é o mais forte, não há nenhum poder que possa resistir-Lhe e nenhum lugar onde Ele não esteja. Ele chama-nos a tentar a caminhada com Ele, porque onde houver fé e amor, aí estará Ele, aí estará a força da paz que supera o nada e a morte.”
 
Texto de João Gonçalves no Facebook
 
Bento XVI. 

Nova vaga de propaganda

por José Mendonça da Cruz, em 30.12.22

Ainda ecoam as evidências da rapacidade, desorganização e bandalheira socialista, e já as televisões acolhem vagas sucessivas de propaganda, transmitida com  muito enlevo e nenhum escrutínio. É a «descoberta» pela sempre caninamente fiel Sic de que talvez a compra de aviões pel ' «o privado», no tempo do PSD tenha contornos menos claros (não interessa que tenha sido desmentido, basta lançar a lama, «são todos iguais», topam?!) . É uma entrevista desenterrada de Costa com Balsemão -- com este sempre propício e calado; com Costa menos grosseiro e tendo deixado a carroça em casa. É a inflação que desce para mais de 9% (e as previsões governativas eram?...) É o crescimento (futuro, claro, aquele crescimento que é só dos anúncios) que Medina anuncia ser o mais alto dos últimos 35 anos.

No seio de um clima tão artifical mas esforçadamente amenizado, aguardo ansiosamente a chegada do novo ministro das Infraestruturas, a quem redacções televisivas e orgãos de reverência descobrirão curricula estratosféricos, e a quem o Dr. Marques Mendes reconhecerá extraordinários embora desconhecidos méritos. Após o que, todos em coro, celebrarão os inéditos programas do novíssimo ministro: uma revolução na ferrovia, e outra na habitação social. Sim, outra, a sexta ou sétima.

A Nata da Nata

por José Mendonça da Cruz, em 30.12.22

Na tomada de posse de Lula, eis o próprio Lula do Brasil, José Sócrates de Portugal, e Maduro da Venezuela... uma tribuna de luxo seleccionada pelos verdadeiramente deploráveis. Marcelo abrilhanta.

Os «atravessados» da TAP

por José Mendonça da Cruz, em 29.12.22

Convém recordar que, ao contrário do que diz Pedro Nuno Santos, que se «atravessou» pela TAP e a «salvou», o ministro e o primeiro-ministro não salvaram a companhia, condenaram-na, ao reverterem a privatização contra as advertências quer do Tribunal de Contas português, quer da Comissão Europeia.

Foram Costa e Santos que, com a sua decisão, impediram que a TAP fosse beneficiária de ajudas a fundo perdido, como outras companhias privadas europeias.

Foram Costa e Santos que destruiram a plataforma Europa/América que as relações e know-how dos accionistas privados estavam a construir e o aumento e modernização da frota.

Foram Costa e Santos que, depois de a empresa conseguir um lucro operacional, assumiram responsabilidade por 50% da responsabilidade por eventuais prejuízos -- assim convencendo os accionistas privados de que era boa altura para investir em novos aviões, com prejuízo eventual.

Foram Costa e Santos que fizeram da TAP uma pequena companhia aérea suportada com dinheiro dos contribuintes.

Foram Costa e Santos quem mentiu com todos os dentes quando o desastre da TAP começou a ficar evidente, ao citarem números de contribuição da empresa para a economia que eram falseados, porque não eram os deles, eram os do privado que expulsaram.

São Costa e Santos que, depois de «nacionalizarem» a  TAP a pretexto de ser «estratégica», a querem privatizar porque, dizem, é «estratégica».

São Costa e Santos os autores e responsáveis por uma das mais graves políticas de destruição de valor por parte de um governo.

Às vezes acerta-se, quase por acaso

por henrique pereira dos santos, em 29.12.22

"Quando Costa dá corda a Pedro Nuno Santos para se enforcar com a TAP, sabendo o custo que tem para as pessoas comuns a liquidação desse seu inimigo político, é a ideia de política que está em causa."

Isto está escrito neste post que fiz sobre a herança que António Costa deixará quando se for embora.

Mesmo com a minha aversão visceral a teorias de conspiração, não consigo deixar de pensar que Costa sabia perfeitamente o que estava a fazer quando entregou a TAP a Pedro Nuno Santos: sabia que ia estoirar um monte de dinheiro no processo, mas era uma questão de tempo até Pedro Nuno Santos ser atropelado pelos aviões.

Se, por um milagre, a coisa não seguisse como programado, Costa chamaria a si os louros do que corresse bem.

Eu não tenho nenhumas competências de análise política, mas tive a sorte de ler o Príncipe de Maquiavel muito tarde, na altura da ascensão de Sócrates, que conheci de perto por ser dirigente do Instituto de Conservação da Natureza quando Sócrates foi pela primeira vez para o governo (chamando-se a si próprio o Zé das Sobras porque Elisa Ferreira, a Ministra que teve de o aturar por imposição partidária, entregou o essencial das competências do ministério a Ricardo Magalhães ou reservou-as para si, deixando para Sócrates umas ninharias como a defesa do consumidor e coisas que tais), o que me permitiu, há muitos anos, escrever um post sobre Sócrates que ainda hoje acho bastante lúcido (na época ainda se estava longe de saber o que hoje se sabe sobre Sócrates).

Estou cada vez mais convencido de que o tal post sobre a herança de Costa, para que ligo acima, também tem a sua dose de verdade.

A Árvore de Natal

por Daniel Santos Sousa, em 29.12.22

 

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No século XIX, D. Fernando II, um príncipe da família alemã Saxe-Coburgo-Gotha, casado com a rainha D. Maria II, trouxe da Alemanha para Portugal a tradição da árvore de Natal. Na mesma época em que um seu primo (Príncipe Alberto de Saxe-Coburgo-Gotha) casado com a rainha Vitória, popularizava a árvore de Natal em Inglaterra. Ainda que uma antecessora dele, a rainha Carlota (também princesa alemã), casada com o rei Jorge III de Inglaterra tenha iniciado a tradição cerca de meio século antes.


A decoração artística da árvore deve-se à imaginação da família Schweizer, tornando-se recorrente entre a nobreza da Bavária, depois copiada pelas cortes europeias. Assim uma tradição aristocrática do centro da Europa passou a ser conhecida pelo restante continente europeu, depois pelo mundo, uma prática natalícia hoje tão recorrente.

Um equívoco sobre Alexandra Reis

por henrique pereira dos santos, em 28.12.22

Na história dos últimos dias sobre a até ontem Secretária de Estado do Tesouro parece-me haver uma excessiva atenção ao que fez ou deixou de fazer Alexandra Reis, e uma excessiva desatenção ao que fez ou deixou de fazer o outro lado.

Provavelmente a contratação de Alexandra Reis para chefe das compras da TAP até terá sido muito racional, o que se conhece de toda esta história é que Alexandra Reis parece ser uma negociadora temível e uma pessoa com um fortíssimo sentido de oportunidade para aproveitar as fragilidades dos negociadores do outro lado.

A ser assim, isto recomenda-a fortemente para chefe de compras, desde que seja possível garantir que estas qualidades são usadas a favor de quem a contrata - incluindo eventuais justos prémios por desempenhos acima da média - e não apenas a favor de si própria.

Não tenho por isso nada a dizer sobre Alexandra Reis, eu não funciono assim mas, aparentemente, limitou-se ao levar ao limite as oportunidades de ganhar dinheiro que encontrou. Não é a ela, enquanto trabalhadora da TAP, incluindo no Conselho de Administração, que lhe compete defender os interesses dos contribuintes.

Já a discussão sobre o que fez o outro lado nisto tudo parece-me bem mais útil, até porque na TAP está em causa dinheiro dos contribuintes, isto é, o dinheiro cujo uso é eticamente mais exigente por incluir, por pouco que seja, também dinheiro dos mais pobres e frágeis da sociedade (não me venham com a conversa de que os pobres não pagam impostos, por duas ordens de razões: 1) pagam sim, quando compram um quilo de batatas onde se inclui o IVA; 2) o dinheiro dos impostos, de uma maneira ou de outra, vai sempre ser pago pelos consumidores finais sob a forma maior custo de vida, afectando desproporcionalmente, em relação ao poder de compra, os mais pobres).

Ora o outro lado começou por votar nestes governantes, sabendo que defendiam o aumento do peso do Estado na TAP, o que concretizaram em 2016, revertendo parcialmente a privatização anterior.

Alexandra Reis e Stéphanie Silva, entram na TAP depois deste reforço, Alexandra Reis pela mão de David Pedrosa, Stéphanie Silva não sei em que contexto (o curriculum que vi não aponta para nenhuma relação anterior com a aviação, mas os juristas, por definição, são generalistas que têm a obrigação de estudar cada sector sobre o qual têm de aconselhar decisões).

Sei com quem é casada, sei de quem é filha (conhecem com certeza a famosa fotografia de um jogo de futebol com Sócrates e meia dúzia de amigos, no Brasil, na altura do auge de poder de Sócrates, e pai de Stéphanie está entre Sócrates e o amigo dilecto que lhe emprestava dinheiro) e isso chega-me para suspeitar da relação entre o aumento do peso do Estado na TAP e a sua entrada como directora jurídica da companhia. O que não diz nada sobre a sua provável competência (saiu da TAP para uma sociedade internacional de advogados líder em matérias de aviação, área na qual evidentemente foi colocada depois de quatro anos a desempenhar esta função na TAP).

O que está em causa não são estas duas senhoras, acredito que usaram o melhor do seus conhecimento, o melhor da sua rede de contactos e o melhor das suas capacidades (os três factores fundamentais na evolução de qualquer carreira profissional) para entregar aos seus patrões o que entenderam ser a sua obrigação, optimizando o retorno pessoal que entenderam ser-lhes devido.

O que está em causa é verificar, mais uma vez, que num país em que o peso do Estado na economia é o que é, a cultura institucional é a que permite e gera o que agora se sabe sobre a relação entre Alexandra Reis e a TAP, estando muito longe de ser um caso excepcional, excepto, provavelmente, no que diz respeito à capacidade negocial de Alexandra Reis, que, essa sim, me parece excepcional (isto é um elogio, não é uma ironia).

A maneira de limitar os efeitos negativos desta cultura institucional - que ainda por cima é hoje o maior cimento agregador do PS e, consequentemente, do Estado - não é demitindo as pessoas envolvidas, é limitando a aplicação do dinheiro do Estado ao que é mesmo indispensável que seja o Estado a fazer.

Discutir a ética de cada um dos envolvidos nesta história é uma boa maneira de desviar as atenções do que é essencial: discutir os modelos organizacionais e de gestão que limitem a possibilidade de os contribuintes terem de negociar com pessoas excepcionalmente competentes a defender os seus interesses, como parece ser o caso.

Eco, porta-voz e adido de Costa

por José Mendonça da Cruz, em 27.12.22

O Presidente da República explicou, hoje, como responde a quem proteste contra o caos na saúde, a mediocridade na educação, a lentidão da justiça, o caos dos serviços públicos, a rapacidade da malta socialista, as promessas por cumprir, a falta de progresso e a pobreza em Portugal.

Se for na cara dos críticos, o Presidente da República responde que «vamos ver vamos ver vamos ver vamos ver vamos ver vamos ver vamos ver vamos ver vamos ver vamos ver vamos ver vamos ver vamos ver vamos ver vamos ver vamos ver vamos ver...»

Se for pelas costas dos críticos, responde -- como Costa, como eco de Costa, como defensor de Costa, como adido de Costa -- que se trata de críticas partidarizadas.

Em baixa de popularidade, o Presidente da República faz tudo para ser merecedor ao menos dos votos do PS e de umas selfies com os do Rato.

"Coniventes com um crime"

por henrique pereira dos santos, em 26.12.22

A 16 de Dezembro, o Público trazia uma entrevista com Álvaro Vasconcelos, que não sei quem é nem o que fez na vida, vejo de vez em quando uns artigos assinados por si nos jornais, mas não tenho ideia de alguma vez algum desses artigos me tenha despertado interesse suficiente pelo autor.

Resumindo, é uma pessoa sobre quem não tenho a menor opinião prévia, tenho uma vaga ideia de ser um intelectual que é considerado que se dedica a questões estratégicas.

No entanto, este artigo de João Pedro Marques chamou-me a atenção para essa entrevista.

E chamou-me a atenção porque estranhei que um intelectual considerado dissesse mesmo que o Infante Dom Henrique era o primeiro comerciante de escravos.

Interessou-me ler a entrevista toda (apesar de ser feita por Joana Gorjão Henriques, uma militante disfarçada de jornalista, o que me interessavam eram as respostas, apesar da previsibilidade das perguntas), para perceber em que raio de contexto alguém diria tamanha idiotice.

É verdade que logo no início da entrevista fiquei esclarecido sobre a qualidade das tais respostas ao ver a mistura entre a ascensão actual da extrema-direita, o racismo, lusotropicalismo, o Chega, a escravatura e etc., o conjunto de lero-lero com que os intelectuais de esquerda pretendem ser reconhecidos pelos seus pares como anti-racistas.

E é logo aí, perante uma pergunta sobre o facto das memórias de Álvaro Vasconcelos (a entrevista tem como pretexto um livro de memórias que terá publicado recentemente, sobre coisas de há cinquenta anos, quando viveu na Beira, Moçambique) serem diferentes das de muitos que também viveram o mesmo tempo, no mesmo espaço, que Álvaro Vasconcelos comete e proeza de dizer que o Infante Dom Henrique foi o primeiro comerciante de escravos (além de outras tolices histórias do mesmo calibre e que o próprio contradiz na entrevista, começando por dizer que a narrativa colonial e racista do Estado Novo se baseia no lusotropicalismo, para à frente dizer "a retórica de Salazar, qeu dizia que os negros são de raça inferior". São duas afirmações igualmente falsas, mas manifestamente contraditórias entre si).

Há coisas completamente incompreensíveis para quem exija o mínimo dos mínimos de rigor factual e histórico, como afirmar "a denúncia dos abusos do sistema colonial, da ditadura, da forma como existia, não acontecia" na mesma entrevista em que afirma que D. Sebastião Soares de Resende, bispo da Beira entre 1944 até à sua morte em 1967, afirmou em 1944 que havia escravatura na Beira.

Não fui verificar a fidelidade desta citação, mas é irrelevante, visto ser um facto bem conhecido (e que desmente Álvaro Vasconcelos em toda a linha) o tumultuoso relacionamento deste bispo com o Estado Novo (e Salazar, em particular), exactamente porque durante os 22 anos em que foi Bispo da Beira (foi o primeiro bispo da Beira) não se ter cansado de criticar duramente as condições de vida das populações, em especial os abusos das grandes empresas agrícolas que, legal ou ilegalmente, tratavam indignamente os trabalhores que arregimentavam.

Um exemplo, bem no início do seu pontificado "a vida do indígena na palhota, em companhia da mulher e dos filhos, encontra-se permanentente ameaçada pelo temor e pela suspeita constantes da chegadade alguém a qualquer hora do ou da noite, para os arrebatar ao lar tão bruscamente que nem podem anunciar à família o seu destino, ou porque o ignoram ou porque nem tempo lhes resta para tanto" (Colonização portuguesa: sentido, objecto, factores, 1946).

Não vou negar histórias como as que usa para justificar afirmações como "As famílias [brancas] variavam e todas exerciam um poder colonial, todas eram agentes do poder colonial", como uma história de que nunca tinha ouvido falar em toda a minha vida (parte passada em África e com centenas de amigos que viveram em África):

"Um negro que partisse um prato em casa era mandado à esquadra levar palmatórias e ele ia por si próprio, com um bilhetinho, a dizer: "cinco, dez palmatórias"".

Nunca ouvi falar disto, mas não me passa pela cabeça dizer que Álvaro Vasconcelos é um mentiroso que inventou esta história, pode ser que acontecesse, eu não sei (toda a história me parece inverosímil, e nunca os mais violentos e brutais patrões, e existiam pessoas violentas e brutais que usavam a sua posição de poder, iriam mandar a polícia dar palmatórias aos seus criados em vez de lhes bater, diria eu, mas é apenas uma dedução lógica que faço, não tenho informação empírica para dizer que isso não acontecia), o que sei é que seguramente não era regra nem seria socialmente aceitável no mundo em que eu, e a minha bolha social, vivia.

Também não vou perder tempo com estupidezes sobre o facto dos mulatos serem essencialmente o resultado de violações de pretas por brancos (tenho a certeza de que Maria Helena Vilhena, que conheci porque foi minha colega no Parque Nacional da Peneda-Gerês, ficaria ofendida com o facto de alguém achar que a filha, Iva Cabral, que resultou do seu casamento com Amílcar Cabral, corresponderia à descrição feita por Álvaro Vasconcelos da origem da generalidade dos mulatos).

O que verdadeiramente me levou a este post é um truque retórica desta esquerda woke que agora pulula por aí.

"E quando se pergunta se não se lembram de como eram tratados os negros em Moçambique dizem que não era tanto assim.

Negam?

Negam, porque não negar é dizer que foram coniventes com um crime.

Acha que há um pacto de silêncio entre as pessoas que viveram e testemunharam as violências do colonialismo [eu avisei que de Joana Gorjão Henriques não se podem esperar perguntas que sejam diferentes desta indigência]

A ditadura fazia de falar um crime [ver acima o exemplo do bispo da Beira, para avaliar bem o que este tipo de proclamações acrescentam à compreensão do mundo]. E essa mentalidade de silenciar os crimes, aquilo que era inaceitável, manteve-se até hoje [para os pobres mortais, claro, a mim, que sou um génio, este tipo de coisas não se aplicam, claro]. Estas pessoas (os retornados) viveram o trauma da descolonização, de sair como saíram, de terem vindo como retornados e vivido em situações que não eram as melhores. Criaram um espírito de pessoas que também sofreram. Sofreram, não há dúvida, mas era boa altura para olharem para o sofrimento dos outros quando eles estavam lá e pensarem que podia ter sido diferente. Se a ditadura nunca se tivesse recusado a negociar com os movimentos de libertação, a descolonização poderia ter sido menos traumática.

Esse pacto de silêncio existe para evitar responsabilização? [eu avisei que de Joana Gorjão Henriques não se pode esperar mais que isto].

Uma parte das pessoas que hoje são vivas eram jovens e não querem responsabilizar os pais. Era evidente que usufruíam do sistema. Mas culpabilizar os pais... As pessoas têm pruridos em apontar o dedo."

Meu caro Álvaro de Vasconcelos, depois de admitir, logo no início da sua entrevista, que as suas memórias são diferentes das de outros, o que é natural, o camarada entretém-se a considerar-se o único com memórias legítimas.

Todos os outros (com excepção dos que disserem o mesmo que o camarada) são uns débeis mentais que se deixam manipular pela tradição salazarista de ocultar crimes e, para além disso (passemos por cima da contradição), dizerem coisas diferentes das suas para ocultar a sua conivência, e a dos seus pais, em crimes.

Mais, acha que muitos dos que foram expulsos da sua terra (qual é a terra de alguém que há duas, três, quatro gerações vive num sítio e nunca conheceu outro?) pelo simples facto de serem brancos, em vez de clamar por justiça anti-racista, deveriam fazer actos de contrição pelo crime de serem um minoria étnica dominante na sua terra, quando o vento da história passou o poder para ditaduras de grupos que fundaram o seu poder no facto de pertencerem à maioria étnica e terem a força do seu lado.

Eu não deveria responder a um racista tão racista que diz que o seu único colega de escola preto "era filho de um assimilado".

"Filho de um assimilado"?

E eu, que me limito a constatar que o meu chefe dos escuteiros, na zona mais burguesa e branca do que é hoje Maputo, a Polana, era preto, sem fazer qualquer juízo de valor sobre essa constatação, é que sou racista enquanto o camarada, que sente nencessidade de qualificar um antigo colega seu como "filho de um assimilado", é um modelo anti-racista?

Vá dar uma curva e, de caminho, mande também 50 euros anuais à missão em Moçambique das irmãs de S. João Baptista e de Maria Rainha que, com esses 50 euros, pagam a educação (que inclui muitas vezes alimentação, material escolar e roupa) a uma criança durante um ano inteiro, em Nampula, o que posso garantir-lhe que tem um efeito muito mais duradouro num deserdado da vida em Moçambique que continuar agora, 50 anos de regime pós-colonial depois, com a sua conversa de treta.

Faça alguma coisa de útil por alguém concreto, em vez de ficar aí sentado a fazer tiro ao alvo, numa demonstração da atitude célebre que Caetano Veloso descreveu há muitos anos: matar amanhã o velhote inimigo que morreu ontem.

Domingo de Natal

por João Távora, em 25.12.22

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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Genealogia de Jesus Cristo, Filho de David, Filho de Abraão: Abraão gerou Isaac; Isaac gerou Jacob; Jacob gerou Judá e seus irmãos. Judá gerou, de Tamar, Farés e Zara; Farés gerou Esrom; Esrom gerou Arão; Arão gerou Aminadab; Aminadab gerou Naasson; Naasson gerou Salmon; Salmon gerou, de Raab, Booz; Booz gerou, de Rute, Obed; Obed gerou Jessé; Jessé gerou o rei David. David, da mulher de Urias, gerou Salomão; Salomão gerou Roboão; Roboão gerou Abias; Abias gerou Asa; Asa gerou Josafat; Josafat gerou Jorão; Jorão gerou Ozias; Ozias gerou Joatão; Joatão gerou Acaz; Acaz gerou Ezequias; Ezequias gerou Manassés; Manassés gerou Amon; Amon gerou Josias; Josias gerou Jeconias e seus irmãos, ao tempo do desterro de Babilónia. Depois do desterro de Babilónia, Jeconias gerou Salatiel; Salatiel gerou Zorobabel; Zorobabel gerou Abiud; Abiud gerou Eliacim; Eliacim gerou Azor; Azor gerou Sadoc; Sadoc gerou Aquim; Aquim gerou Eliud; Eliud gerou Eleazar; Eleazar gerou Matã; Matã gerou Jacob; Jacob gerou José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, chamado Cristo. Assim, todas estas gerações são: de Abraão a David, catorze gerações; de David ao desterro de Babilónia, catorze gerações; do desterro de Babilónia até Cristo, catorze gerações. O nascimento de Jesus deu-se do seguinte modo: Maria, sua Mãe, noiva de José, antes de terem vivido em comum, encontrara-se grávida por virtude do Espírito Santo. Mas José, seu esposo, que era justo e não queria difamá-la, resolveu repudiá-la em segredo. Tinha ele assim pensado, quando lhe apareceu num sonho o Anjo do Senhor, que lhe disse: «José, filho de David, não temas receber Maria, tua esposa, pois o que nela se gerou é fruto do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho e tu pôr-Lhe-ás o nome de Jesus, porque Ele salvará o povo dos seus pecados». Tudo isto aconteceu para se cumprir o que o Senhor anunciara por meio do Profeta, que diz: «A Virgem conceberá e dará à luz um Filho, que será chamado ‘Emanuel’, que quer dizer ‘Deus connosco’». Quando despertou do sono, José fez como o Anjo do Senhor lhe ordenara e recebeu sua esposa.

Palavra da salvação.

 

Na imagem: O presépio mais antigo do mundo representado num sarcófago de 350 d.C. em Boville Ernica a 100 km de Roma

Natal, o mais importante legado

por João Távora, em 24.12.22

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Natividade na Maestà de Duccio, século XIII

O que é que se terá passado de tão espantoso há cerca de dois mil e vinte anos no Médio Oriente ali para os lados da Palestina, que nos continua a emocionar, que persistimos celebrar e chamar Natal? O nascimento de Jesus Cristo, que não foi apenas o princípio duma religião universal, mas, estou em crer, a inspiração para os maiores prodígios civilizacionais que se sucederam a seguir no Ocidente.

Hoje queria falar do Natal especialmente aos não crentes, àqueles que mesmo assim o celebram sob os mais variados rituais e pretextos. Aflige-me que, numa Europa cada vez mais laicizada, se vá perdendo a memória da razão inicial: o nascimento daquele menino que há mais de dois milénios interpela milhões de pessoas a n’Ele se reverem, amadas, livres e inteiras. A fortuna da privação, esplendor do humilde, a força do frágil, o poder da delicadeza, a gradeza do que se faz pequenino. Talvez porque nele somos convidados a participar na sacralidade daquela vida prometida, encorajados a usar a cabeça erguida, como bem-amados que afinal todos somos. Como Deus encarnado numa frágil Criança, que atraiu e fez pasmar os reis e pastores que se dispuseram a seguir a estrela à sua descoberta. Um verdadeiro prodígio que há dois mil anos continua a atrair a humanidade, mesmo que não o saiba. É na descoberta dessa singularidade que se vai edificar o Homem Novo, pelo livre-arbítrio potenciador duma dignidade imperiosa, até no assumir da sua fragilidade. É sob esse pilar que se edificou a civilização ocidental.

“Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz” disse Jesus já no final da sua caminhada terrena. As tréguas são o maior e democrático milagre que concede o Natal a todos os homens e mulheres de boa vontade, sejam crentes ou não crentes, como que um antídoto ao cinismo. Mas essa mensagem já estava no Presépio, no princípio duma nova era para a humanidade – que até fez mudar o calendário. Recado daquela primeira Sagrada Família que, longe da sua terra, na falta duma hospedaria, se fez ela própria casa, acolhimento e conforto.

Esta é uma mensagem irresistível a quem, apesar da vida dura e das cicatrizes acumuladas no coração, nele mantém uma pequena réstia brilho – é para esses que escrevo. É uma mensagem revolucionária aquela que nos traz o Menino Jesus: a do escravo finalmente liberto das prisões interiores e exteriores, senhor das suas escolhas e responsável pelas suas acções. É esta mensagem que está na base da civilização que recebi de legado – feita de pessoas capazes de se curarem e reconstruirem de dentro para fora.

O Natal é o prenúncio do Novo Mandamento: «Amarás o teu próximo como a ti mesmo». É pela adesão a esta revolução que o Natal interpela tanta gente – que mesmo sem saber, nesta quadra está a comemorar o Presépio de Belém. Quantos mais se conseguirem dar desprendidamente, mais todos recebem – é o desafiante paradoxo.  Ainda vai a tempo de montar um em sua casa. Afinal, o Presépio é o mais valioso património cultural do Ocidente.

Um Natal Feliz para os leitores do Corta-fitas

Artigo publicado originalmente no Observador

Tirar aos pobres, para dar aos ricos...

por henrique pereira dos santos, em 23.12.22

... e, para os meus muitos amigos ambientalistas, subsidiar a mobilidade baseada em energias fósseis.

Por razões que desconheço - com certeza de elevado interesse público - o governo resolveu que as portagens não deveriam subir o que resultaria dos contratos que o Estado celebrou.

Como acontece quando o Estado resolve evitar as consequências de contratos que livremente estabeleceu, como no caso da velhinha portagem da ponte 25 de Abril, o Estado renegoceia contratos em posição de fragilidade.

Desta vez o governo, como não queria que as portagens subissem 10%, permitiu uma subida de 4,9%, pressionou os concessionários a abdicarem de dois pontos percentuais da subida e impôs aos contribuintes o pagamento dos restantes três pontos percentuais da subida, tenham ou não carro, tenham ou não meios para se deslocarem nos sítios onde moram, tenham ou não recursos mais baixos que os da generalidade dos beneficiados, ao mesmo tempo que criava um incentivo negativo para o uso do automóvel face às alternativas.

Do ponto de vista moral, este acordo é vergonhoso, por pôr os mais pobres a contribuir para pessoas mais ricas que eles.

Do ponto de vista ambiental, é um absurdo.

Do ponto de vista político, é catita, o governo dá uns trocos que não são seus, e os jornalistas falam das medidas de combate à inflação, como se o Estado subsidiar preços fosse uma política de combate à inflação e o pessoal pensa que mais vale estes que sempre dão qualquer coisinha que os outros que são uns perigosos neo-liberais.

Parabéns à prima.

Interesse público

por henrique pereira dos santos, em 21.12.22

Esta semana a Rádio Renascença convidou-me para ir conversar sobre ordenamento do território com Joanaz de Melo e José Pedro Frazão, no programa "Da capa à contracapa", uma parceria com a Fundação Francisco Manuel dos Santos.

A primeira intervenção de Joanaz de Melo levou-me a pensar um bocadinho sobre a invocação do interesse público, em especial a sua invocação por contraponto aos interesses privados.

Na verdade acabei a fazer uma analogia em que nunca tinha pensado: tal como não existe dinheiro público, apenas dinheiro dos contribuintes, também não existe interesse público, apenas interesses privados (não tenho a certeza de estar totalmente de acordo com o disse, mas isso é frequente em mim).

Comecei pela velha ideia de que o interesse político é tão privado como o interesse económico, não existe qualquer diferença moral entre fazer uma acção para ganhar mais dinheiro ou para ganhar mais votos, as duas dizem respeito aos interesses privados dos beneficiários, e os dois criam, ao mesmo tempo, retorno público para terceiros.

O interesse público fundamental que o Estado deveria perseguir é a liberdade para cada um prosseguir o seu interesse privado.

O Estado não é omnipontente, logo, não vai resolver, por si, os problemas que a sociedade não consegue resolver, o Estado tende a perseguir os interesses de quem o domina, logo, razão tinha Lenine em defender que os interesses do proletariado obrigavam à ditadura do proletariado (onde não tinha razão era em considerar que os interesses do proletariado eram o que ele pensava sobre o assunto e não o que os proletários faziam no seu dia a dia para tratar da sua vida) e cada privado perseguir os seus interesses implica conflitualidade e cooperação, em diferentes proporções que resultam das diferentes circunstâncias em cada momento.

Sempre que o Estado pretende restringir a liberdade de cada um perseguir os seus interesses, por exemplo, com as actuais propostas de alteração da constituição para garantir o interesse público de gestão de uma epidemia, é preciso uma atenção redobrada para garantir essa restrição resulta de um interesse que verdadeiramente se sobrepõe ao interesse público de garantir a liberdade dos privados tratarem da sua vida.

Não basta a invocação de um interesse genérico e mal definido, é preciso garantir que há proporcionalidade entre restrição da liberdade de cada um perseguir o seu interesse e a forma como se gere a conflitualidade, para garantir que o maior número possível de pessoas vê a sua liberdade - e segurança - não afectada pela liberdade de terceiros.

A ideia de que o interesse público é definido pelo Estado é a ideia que nos levou a enterrar o dinheiro que enterrámos na TAP, que levou à aprovação de projectos ruinosos como a organização do Europeu de futebol, que levou à construção de auto-estradas sem tráfego que as justifique, etc., etc., etc..

No fundo, no fundo, trata-se da versão fofinha da ideia de que os problemas da humanidade se resolvem pela apropriação colectiva dos meios de produção e os resultados são os mesmos: os beneficiados são os que detêm o poder de decidir, em cada momento, onde se aplicam os recursos colectivos retirados a cada um, em cada momento.

Naturalmente, sempre é melhor usar os impostos e a restrição legal das liberdades de cada um, num sistema democrático, que aceitar que o instrumento para atingir o bem comum seja a força mas, na essência, a ideia base é igualmente errada.

Procura-se trabalhador

por henrique pereira dos santos, em 18.12.22

A Montis, uma associação de conservação da natureza a que estou ligado, resolveu informar o mundo que está à procura de quem queira trabalhar nela.

A Montis começou a nascer numas conversas entre quatro pessoas, João Cosme, Paulo Pereira, Nuno Gomes e eu, e neste percurso, ainda antes da formalização da associação, Nuno Gomes resolveu saltar do barco, porque querer uma associação diferente daquela que realmente foi feita (por exemplo, considerava uma estupidez andar a fazer processos de crowdfunding para comprar terrenos porque isso não funcionava, enquanto os outros entendiam que a associação deveria dar prioridade absoluta à ligação com as pessoas comuns, em vez da habitual procura de influência sobre quem tem o poder de distribuir dinheiro, o que implicava tentar pôr as pessoas a financiar o essencial da associação, incluindo a compra de terrenos).

Desde então, Nuno Gomes tem uma posição distante sobre a Montis, e resolveu dizer que o anúncio para que ligo acima (um anúncio bastante banal, aliás, que como é costume na Montis nem define o valor a pagar ao contratado por se considerar que isso depende de quem apareça) configurava trabalho escravo.

Jóni Vieira, que é técnico da Montis e está de saída (exactamente por isso é que queremos contratar outra pessoa), respondeu com um comentário que acho que ajudará quem tenha dúvidas sobre se vale a pena concorrer, com medo de que realmente a Montis seja uma organização sem respeito pelas pessoas (já agora, foi eleita uma nova direcção no dia 10 de Dezembro, que tomará posse em Janeiro, e dos seus orgãos sociais constam três antigos funcionários da Montis. Sabendo-se que na Montis há uma norma estatutária que impede a acumulação de cargos electivos com pagamentos, separando claramente funções profissionais do exercício de cargos electivos, acho que é um bom indicador de que nenhum destes funcionários deixou a Montis zangado com a associação).

"eu sou (ainda) técnico da MONTIS. Como vou sair dentro de pouco tempo tomo a liberdade de escrever o que vou escrever abaixo, sem falar com ninguém dentro da associação, nem técnicos, nem Direcção. Aliás já agora, e como prelúdio do que escrevo abaixo, nunca precisei de pedir a ninguém para fazer qualquer tipo de trabalho de comunicação dentro da MONTIS. Quando no início eu pedia para reverem antes de publicar diziam: está bem, mas deve é publicar. Se for mau aprende e depois faz melhor para a frente. Embora eu não esteja dentro dos assuntos da nova Direccao, julgo que este posto de trabalho seja para dar continuidade ao meu trabalho, porque eu estou de saída. Se não for exactamente para isso será para algo próximo, julgo eu. A minha passagem pela MONTIS foi tudo menos trabalho de escravo. Foi uma oportunidade de trabalho como poucas. Na MONTIS eu encontrei uma associação que procura além do óbvio, que não tem medo de fazer diferente, com as coisas boas e más que isso traz, certamente. A MONTIS deu ouvidos ao que eu tinha para dizer, parvoíces e disparates incluídos. Talvez tenha sido o emprego em que mais aprendi até hoje, e não foi só sobre gestão da natureza e da paisagem (trabalho há mais de 15 anos). Mas aprender à séria, com as mãos na massa. Não simplesmente a ouvir alguém mais elucidado do que eu a dizer-me como fazer as coisas. Aprender contando quantos carvalhos tinham rebentado depois do fogo. Aprender de tesoura na mão a podar carvalhos, e a regressar na primavera seguinte para avaliar resultados do que tinha sido feito. Aprender trabalhando com voluntários e sapadores, biólogos e técnicos de comunicação, conservacionistas e técnicos florestais, celuloses e ONG's de ambiente. Sempre me foi estimulado e valorizado o espírito crítico. Sim, julgo que acima aquilo que sempre me exigiram foi que fosse crítico (coisa pouco comum). Perdi a conta ao número de vezes que me perguntaram: O que acha? O que podemos fazer diferente? Como estão as coisas a evoluir? Como correu? Tenho as maiores dúvidas que algum dia encontre um emprego na área da conservação da natureza onde haja tanta liberdade para experimentar modelos/ técnicas/ abordagens sem seguir cegamente o que já se faz por este país fora nesta matéria. Se o meu trabalho na MONTIS fosse trabalho de escravo, eu já tinha saído há muito tempo. Dito isto, se os candidatos procuram um trabalho aborrecido, a fazer o mesmo de manhã à noite, que não obrigue a pensar como fazer melhor e de forma mais eficiente, das 9 às 5, sem questionar o que está a fazer ou porque o faz, é melhor irem procurar noutro sítio. Esta é a minha experiência dentro da MONTIS. Não sei como será daqui para a frente."

Resumindo, se alguém está à procura de um grande trabalho, com grandes meios, para fazer grandes coisas e brilhar, não concorra: a Montis é uma pequena associação, com poucos meios que espera gerir uns milhares largos de hectares daqui a cem anos.

Para já, o que temos para oferecer é um ordenado limitado mas minimamente justo, liberdade para pensar, experimentar, avaliar e aprender, muita chatice e frustração, muitas vezes, e uma posição de saída deste trabalho seguramente muito melhor que a da entrada (por isso a rotação de técnicos é maior do que seria desejável, porque não conseguimos, ainda, pagar de forma competitiva em relação a empregos cuja possibilidade de acesso é francamente aumentado pelo trabalho feito na Montis).

Mas também a satisfação de se ser tratado com respeito e de fazer conservação da natureza em concreto, em vez de dizer a outros o que deveriam fazer, umas vezes falhando, outras vezes vendo que o trabalho de há umas semanas, uns meses e uns anos valeu a pena e, dentro de cem anos, estaremos a gerir muito mais terra e a produzir muito mais biodiversidade, de forma financeiramente sustentada.

Domingo

por João Távora, em 18.12.22

Advento.jpg

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

O nascimento de Jesus deu-se do seguinte modo: Maria, sua Mãe, noiva de José, antes de terem vivido em comum, encontrara-se grávida por virtude do Espírito Santo. Mas José, seu esposo, que era justo e não queria difamá-la, resolveu repudiá-la em segredo. Tinha ele assim pensado, quando lhe apareceu num sonho o Anjo do Senhor, que lhe disse: «José, filho de David, não temas receber Maria, tua esposa, pois o que nela se gerou é fruto do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho e tu pôr-Lhe-ás o nome de Jesus, porque Ele salvará o povo dos seus pecados». Quando despertou do sono, José fez como lhe ordenara o Anjo do Senhor.

Palavra da salvação

Sidónio, a construção de um mito

por Daniel Santos Sousa, em 16.12.22

Pode ser uma imagem de 2 pessoas, pessoas em pé, ao ar livre e monumento

A 14 de Dezembro de 1918 Sidónio Pais é assassinado, consumando a decadência final anunciada desde o regicídio de 1908. Em seu redor construiu-se o mito. Foi o Presidente-Rei exaltado por Fernando Pessoa, o “nosso primeiro republicano sem barrete frígio”, como lembrou António Ferro. Paradoxo de um tempo conturbado, Sidónio reúne em torno de si as várias facções políticas desavindas. Nele revêem-se os republicanos autoritários na apoteose dos gritos ao Chefe, os monárquicos esperançosos na personalização do poder, os católicos cansados do anticlericalismo radical. Mas Sidónio liberta-se das amarras do tempo. Depois da sua morte continuará o culto e nele reconhecer-se-ão os fascistas e exaltadores do militarismo do novo século e os artistas do futurismo impulsionados pela estética radical que suplante o anacronismo burguês oitocentista. Para os conservadores um preservador da ordem, para os católicos um enviado dos céus e, na senda modernista, descobrem outros a renovação da tradição encarnada no cesarismo.

O registo ainda não fora definido, mas nas décadas seguintes encontraria paradeiro: a poesia da violência, a política elevada à estética, o mito suplantando a razão, o heroísmo elevado à virtude, a condução da massa informe a uma unidade de destino. Ainda que original entre nós, não constituía uma novidade na política europeia. No passado Napoleão III e Bismarck tinham dado o mote ao conjugar os desafios herdados pelas revoluções liberais com o remanescente da tradição, o “cesarismo plebiscitário” era a resposta à legitimidade da autoridade quando ameaçada pela violência das barricadas. Em suma, preconizava a "revolução desde cima" do hegelianismo, também estudada pela pena de Oliveira Martins. Faltava apenas encontrar o protagonista. Para Martins seria o rei D. Carlos, não tivesse o projecto da “Vida Nova” definhado com o desaparecimento do seu principal animador; e não tivesse o regicídio roubado a única força viva da monarquia. Numa reviravolta da história a “República Nova” de Sidónio retomaria o pojecto de uma revolução conduzida desde cima. Mas Sidónio está para além da tecnocracia, ou de uma teorização filosófica, a sua passagem fugaz eleva-o a mártir e símbolo da República.

Desde as profecias do sebastianismo, até ao culto miguelista, que não se conhecia uma tão grande devoção. Aos reis é fácil encarnar o mito, mas na República (e num regime ainda jovem em 1918) tal ainda parecia inconsequente. Sem dúvida que Sidónio contrastava com os demais Presidentes da Primeira República, na imagem que cultivou, no modelo, na linguagem. Mas foi a morte quem o tornou um ícone, em parte através da idealização jornalística de Reinaldo Ferreira (o famoso Repórter X)."Morro bem salvem a pátria" tornou-se uma espécie de grito derradeiro face à agonia do próprio regime. Na verdade Sidónio terá suspirado "não me apertem rapazes".

Homem de gesta guerreira que fardava junto às massas o seu idealismo, Sidónio inaugurava o século XX em Portugal. Maçon, republicano da tradição laica e jacobina, superou os facciosismos. O homem que muito antes antecipou Mussolini; e que marchou sobre Lisboa antes dos camisas negras entrarem em Roma. Verdadeiramente protótipo do revolucionário de topo, um César redentor da república, bem sintetizava a máxima de Oliveira Martins escritas décadas antes: "um sabre contendo um pensamento".

O catedrático-soldado, o político elevado a mártir, era a renovação da autoridade. Populista e cesarista, bonapartista e nacionalista, como não se conhecia na paisagem seca de uma política de caciques e de bufos, nele o presidente confundia-se com o rei, face ao trono vacante que deixara o país entregue ao caos. Um ano bastou - como se tivesse vivido a existência plena de um povo. Morreu em sentido paradoxal ao do Rei D. Carlos, um por tentar regenerar a monarquia, outro por procurar regenerar a república. No final de tudo, viveu como o século: perigosamente, velozmente.

 

Sou Queque

por José Mendonça da Cruz, em 15.12.22

Não votei, nem votarei na Iniciativa Liberal, porque não gosto do programa e da prática, mas respeito os que têm um ideário e uma estratégia para o país, em vez de monopolizarem inteligência e verve para a defesa do seu umbigo. Ora, visto que -- por assim serem -- parece que os da IL são queques, então eu sou queque também.

Queques é aquilo que os taberneiros chamam às pessoas educadas, que tendo berço ou não, dialogam e defendem as suas posições com utilização culta da língua e das maneiras. Para um taberneiro, por exemplo, não há nada de ofensivo em dizer que um lojista seu vizinho (também com a sua a clientela, talvez menos alcoolizada e mais esclarecida) dá guinchos; o taberneiro tem, por origem e percurso, um domínio muito limitado do léxico e uma tendência para o discurso floreado mas vão. «Guinchos» parece ao taberneiro praticamente um sinónimo de falar claro  (o taberneiro também chama a isso «falar caro»).

Os carroceiros consideram que os queques são efeminados. Os queques não gritam ao telemóvel, quando usam gravata têm-na direita, usam discursos de construção cultural e gramaticamente proba, e, em caso de necessidade, conseguem meter na ordem um taberneiro sem levantar a voz nem usar calão. Os carroceiros, perplexos, acham que isso não é de homem.

Os queques são incompreendidos por gatunos, rufias e medíocres. O queque condena o roubo e coloca a si próprio limites éticos que ficam muito a montante do roubo; o queque, é praticamente alérgico à ordinarice e à grosseria, e nunca espera nada de quem, tendo talentos, os utiliza exlusivamente para inchar a barriga.

Os queques têm ideias e programas, e, não conseguindo fazê-los vingar desde logo, continuam a trabalhar enquanto esperam. Não aguentam, nem se habituam, esperam -- embora reconheçam que se perde tempo precioso. O queque tem a certeza que, por mais hábil que seja o malabarista, o desconchavo das suas artes acaba por fazê-lo estampar-se.

Nós e eles

por João Távora, em 15.12.22

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Chamou-me a atenção no passado sábado (sim, continuo a ler o Expresso aos sábados) o artigo da Eugénia Galvão Teles que fazia referência aos resultados de um estudo de uma equipa de economistas sobre a importância do “Capital Social” (a rede de relações) feito através da análise das amizades de 72 milhões de americanos no Facebook publicado na revista “Nature”. Acredito que com gráficos coloridos e números minuciosos a evidência da relevância do meio que cada um frequenta para o seu sucesso ganhe outro brilho, no caso um “fundamento científico”. É sob esse mote que a autora reclama a legitimidade das famosas quotas no acesso ao ensino superior para as escolas dos bairros desfavorecidos. Ainda na área do ensino, que é supostamente o principal campo de batalha para a mobilidade social (não caí no erro de escrever luta de classes), a cronista bate-se na defesa dum ensino público interclassista, porque “os mais prejudicados com o desaparecimento dos mais ricos da escola pública são os mais desfavorecidos”. Nada mais verdadeiro: em termos práticos quer dizer que urge promover, portanto, a liberdade de escolha no ensino. Ao contrário, tudo o que a marca socialista nas nossas políticas tem feito nas últimas décadas em Portugal vai no sentido da consolidação dessa estratificação social, dividindo os mais pobres e os menos pobres entre escola publica e privada. É disso exemplo a extinção progressiva dos contratos de associação do Estado com as escolas privadas, que as tornava acessíveis aos mais desfavorecidos – uma bandeira do governo da geringonça.

Essa estratificação social tem-se vindo a agravar de tal forma que suspeito que para muita gente com menos de quarenta anos seja difícil de acreditar que eu, um autêntico “menino família”, no final dos anos sessenta tenha frequentado a 1ª e 2ª classe na Escola da Câmara n. 6 em Campo de Ourique (paredes meias com o Casal Ventoso) e a 3ª e 4ª classe na Escola n.º 68 da Rua da Bela Vista à Estrela. Isto pela altura da reforma do ministro Veiga Simão, quando há muito a primária era obrigatória e estava universalizada, se não em Portugal, pelo menos em Lisboa. Escusado será dizer que isso acontecia com bastante normalidade no meu meio social, solução vista nas grandes famílias como uma forma de nos preparar para a “vida real”. O bem que me fez e os amigos que ganhei.

Outra instituição de particular importância na “miscigenação” social que também não é muito querida dos poderes em voga é a Igreja Católica, que ao contrário de algumas caricaturas sempre foi um espaço interclassista e intercultural. Nas paróquias, toda a sorte de actividades, desde a catequese aos retiros espirituais, passando por peregrinações ou campos de férias, sempre me pareceram espaços profundamente interclassistas, duma mistura saudável de diferentes sensibilidades e vivências. Sendo também possivelmente do desconhecimento das actuais elites nas suas bolhas, nos dias de hoje, no nosso país, à frente de algumas comunidades paroquiais, podemos encontrar padres de diferentes etnias, africanas ou orientais, espelho de uma diversidade social e étnica que se estende aos fiéis que as frequentam. De resto, todos os grupos de interesses, mais ou menos formalmente associados, continuarão sempre a tudo fazer para subir a escadaria do poder, favorecendo relacionamentos endogâmicos. Por exemplo, não conheço grupo social mais estratificado e preconceituoso que o académico, mas será injusto não referir muitos outros, sejam de advogados ou economistas, que cuidadosos nas suas ligações pessoais se promovem mutuamente, na ânsia de reconhecimento ou promoção social – é da natureza humana.

O que me parece certo é que em Portugal é difícil encontrar pessoas descomplexadas e descomprometidas com os corredores do poder – somos pobres e mal-habituados. E o pior é que neste nosso mundo hedonista existem cada vez menos pessoas que percebam qual é o poder que realmente conta e verdadeiramente liberta. Esse problema não se resolve com enfáticas denúncias, decretos ou medidas ortopédicas. Só através da mudança do coração de cada um. Para explicar isto não são necessários gráficos e dados estatísticos, talvez baste perceber o verdadeiro sentido Natal.

Tenho pena que o artigo da Eugénia Galvão Teles, que é uma pessoa civilizada, não tenha ido por aí.

Costa, o esmoler

por João-Afonso Machado, em 14.12.22

Consta esta tarde virá a público uma nova medida governamental aprovada em Conselho de Ministros. Qual seja ela, uma nova prestação extraordinária de 240 euros destinada às famílias mais «vulneráveis». Cerca de um milhão delas...

Ignoram-se os parâmetros da selecção. E não se põe em causa que, para imensos, 240 euros acrescidos sejam uma dádiva indesprezível. Mas é também um marco a reter no barómetro eleitoral. Vale dizer, o nosso Costa descobriu algo mais a mantê-lo no poleiro.

Desde logo porque as Finanças Públicas tratarão, o mais subtilmente possível, de se reequilibrarem face a tal baixa. Decerto onerando o sector empresarial. Mas veremos como, sabido que é Costa dá com uma mão o que tira com a outra.

E depois a superficialidade da medida. Literalmente a sua superficialidade, num momento em que o País - mormente o País mais pobre - se afoga em águas pluviais.

Assim os 240 euros - surpresa natalícia - consolem quem tão mal vive. Mas a realidade persiste, de esmola em esmola até à fatal ausência de reformas estruturais.

Ou seja, até à próxima esmola. E a social-democracia em nada corresponde a esta política do PS de olhos postos apenas em hoje.

Sol na eira, chuva no nabal

por henrique pereira dos santos, em 13.12.22

Todos nós compreendemos facilmente o "Sol na eira e chuva no nabal", mesmo que não estejamos treinados em ter de gerir a necessidade de secar e debulhar a colheita dos cereais e ao mesmo tempo pôr o nabal na terra, actividades que coincidem no tempo, dando origem à necessidade do Sol para secar e debulhar e à da chuva para desenvolver o nabal.

Mas apenas um partido tomou como seu programa político essencial a reivindicação permanente de Sol na eira e chuva no nabal.

É o partido que no Verão é contra as barragens porque a água se evapora, mas no Inverno defende uma cidade esponja, assente em bacias de retenção da água da chuva, o inigualável Bloco de Esquerda.

Para mim, para quem a política consiste em encontrar soluções para secar e debulhar os cereais quando chove, ou viabilizar o nabal quando falta a chuva, o Bloco estará sempre, sempre no meu coração: sempre tive um enorme respeito por quem faz o que sei que nunca seria capaz de fazer.


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