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Nós, as vítimas

por henrique pereira dos santos, em 26.11.22

"A única coisa que existe abundantemente é a esperança que alguns têm, de um dia poderem ir-se embora daqui.

As ruas estão vazias; o rosto das pessoas reflecte desânimo; os poucos comerciantes que resistem (e mal) estão â porta das suas lojas onde ninguém entra, porque esperam pela feira quinzenal onde talvez comprem mais barato.
O comércio é quase inexistente, sobrevivem algumas floristas, farmácias, uns cafés e uns supermercados, umas lojas dos chineses, o cinema está fechado há uns anos... E pensar que, desde sempre, esta foi uma das terras mais promissoras, prósperas e dinâmicas da região! A partir de inícios da década de 90 tem sido uma sangria de gente, um êxodo para a cidade e... entrou-se num processo de torpor, declínio, abandono, de falta de dinamismo.
E tem (como não podia deixar de ser) o maior "símbolo" e que melhor define e resume o panorama: tem a "sua" Feira Medieval, para fintar esta ruína!

A população estudantil também diminuiu vertiginosamente. Escusado será dizer que as antigas creches e Escolas Primárias, espalhadas por todas as aldeias, foram fechadas nestes últimos anos. Agora tudo se concentra em apenas dois estabelecimentos de ensino para todo o concelho: um deles acolhe as crianças de todas as freguesias, desde os 3 aos 11 anos, ou seja, desde a "Pré" até ao 6º ano. Depois, estes estudantes seguem para o único estabelecimento de ensino Secundário, do 7º ao 12º ano. Sublinhe-se que as aldeias são dispersas em todas as direcções e ficam a 18-20 Km ou mais, de distância, com sucessivas paragens por todos os lugarejos ao longo do percurso por estradas difícilimas. Diariamente o horário das escolas é das 8h:30 até âs 17h o que significa que as crianças _mesmo as de mais tenra idade_ vindas dessas aldeias recônditas, têm de madrugar imenso para apanharem as "carreiras", as mesmas que, a abarrotar de gente (para poupar nos transportes) as hão-de levar de regresso a casa, já de noite. Sendo uma população essencialmente rural, não se pense que os pais têm disponibilidade de tempo para levar os filhos à escola!!!

Por aqui se vêem as assimetrias do nosso país e a situação de desvantagem destes estudantes num mundo altamente competitivo, pois crescem com imensas lacunas em várias vertentes do seu desenvolvimento e socialização: não têm qualquer possibilidade de complementarem a sua formação e educação através de uma actividade extra-curricular, como por ex., frequentarem uma escola de música, um desporto, um Instituto para aperfeiçoamento de uma língua estrangeira, etc. E já nem falo da ausência de lazer ou de actividades culturais."

A citação deste longo comentário ao meu post anterior, sobre o que significam os resultados dos censos de 2011, é exemplar, de bem escrito, de bem estruturado, de bem elucidativo, e também do ponto de vista de parte das "vítimas" da nossa sociedade.

O pressuposto é o de que é a falta de gente que cria o cenário descrito, o meu pressuposto é o de que é o cenário descrito que acaba na falta de gente. Sabendo, os que têm um ou outro ponto de vista, que as duas coisas interagem e se potenciam.

Cometendo o pecado da auto-citação, reproduzo aqui os parágrafos finais do meu último livro, "Das pedras, pão".

"... aos primeiros sinais de que estes processos têm um efeito limitado no tempo porque não suportam gente suficiente para justificar a manutenção artificial dos serviços públicos, quase todas as autarquias de pequena e média dimensão olham para o turismo como a tábua da sua salvação.
Pela primeira vez, em muitos anos, dão-se conta de que o território envolvente seria mais atractivo se não estivesse socialmente em ruínas.
O turismo pode beneficiar de alguns aspectos decorrentes do abandono agrícola, o problema é que o abandono também destrói o ambiente social que assegurava o controlo social do território, evitando que o visitante não o sinta como hostil.
A crise do imobiliário, mas sobretudo a constante diminuição de pessoas com raízes suficientemente fundas nas regiões para garantir o fluxo de recursos gerados externamente, vai obrigar estes centros urbanos a olhar de novo para os recursos a partir dos quais se pode gerar riqueza.
Até lá é bem possível que as políticas públicas continuem a ser o que hoje são: políticas que partem do princípio de é possível a gestão de territórios, sem criação da riqueza que liberta os meios para essa gestão".

Há comunidades que estão mortas, estão apenas à espera de ser notificadas disso, são aquelas em que apenas há vítimas, aquelas em que apenas há pessoas que acham que os outros lhes devem alguma coisa e não lhes pagam, aquelas para quem serão sempre os poderes públicos e o Estado que as abandonaram.

Estas comunidades têm dezenas de delegados nas elites, eu lembro-me de haver uma Unidade de Missão para a Valorização do Interior, cheia de ideias, que fez um Plano Nacional para a Coesão Territorial, depois substituído por um Programa para a Valorização do Interior, com 164 medidas, se não me engano, que incluía coisas muito relevantes como envolver o Teatro Nacional D. Maria II no aumento da oferta teatral no interior.

O que estas comunidades aparentemente não sabem, é que não vale a pena esperar pela salvação que virá de fora.

O que aparentemente não sabem é que podem contratar um professor de música, de Alemão ou de outra coisa qualquer para, ocasionalmente, passar o tempo que for contratado na comunidade para resolver o problema dos alunos que querem completar a sua formação.

O que aparentemente não sabem que não é estando à porta que se captam clientes que não passam, é organizando a oferta que traga os clientes à porta, seja porque há um workshop de aguarela, seja porque há uma prova de queijo, seja porque na loja toca o tal professor de música às terceiras terças-feiras de cada mês, às sete da tarde, seja porque a loja cria conteúdos que partilha no youtube, etc., etc., etc..

Depois há as outras comunidades, as que em vez se verem a si mesmas como vítimas da incúria, desprezo, desleixo e abandono dos que deviam cuidar delas, sabem que só o que fizerem por si, pensando na comunidade em que estão, reforçando o que têm de único ou mais diferente ou pelo menos aquilo em que a comunidade se reconhece como comunidade, podem enganar o destino e sobreviver.

Essas, de maneira geral, não querem saber de feiras medievais em que lhes caberá o papel de figurantes, e preferem escolher o que lhes dá gosto fazer, achando que o que fizerem com gosto provavelmente também interessará a outros que estão fartos de ver as mesmas feiras medievais em todo o lado, mas se não interessar a mais ninguém, ainda assim é tempo e empenho bem empregado, porque é em primeiro lugar para cada um dos vizinhos que se faz isto ou aquilo (até pode ser um só chá aberto a quem vier por bem, todos os segundos Domingos de cada mês, a rodar de casa em casa ou num espaço comum sub-aproveitado que por lá haja).

Nada disto me impede de defender que se o país quer gerir os fogos, deve pagar cem euros por hectare a cada pessoa que mantenha a sua propriedade com combustíveis finos abaixo de 50 cm de altura, não defendo isto por achar que temos de dar uma esmola aos coitadinhos do interior, defendo-o porque acho a melhor solução para nós, como país, a melhor solução para quem paga ter uma gestão de fogos socialmente serena.

E isso até pode gerar economia que traz gente e que ajuda as comunidades que se quiserem ajudar a si mesmas.

Mas não resolve um único dos problemas das comunidades que estão mortas, à esperem de serem notificadas desses facto, e entretêem o seu tempo a queixar-se de como são mal tratadas pelo mundo.

Hoje tenho poucas dúvidas de que a facilidade na captação de recursos externos, em especial das autarquias, mas também dos outros agentes sociais, feriu de morte muitas comunidades que se meteram no vício do dinheiro fácil, do qual é muito difícil sair sem dor.

Rui Ramos a citar Eça no dia do seu aniversário

por João Távora, em 25.11.22

(...) "Um dia, Eça de Queiroz revelou como resolvia o problema de produzir uma coluna de jornal quando não era possível “arrancar uma só ideia útil do crânio, do peito ou do ventre”. Para essas terríveis esterilidades, havia um recurso: agarrar “ferozmente” na pena e dar, “meio louco”, “uma tunda desesperada no bei de Tunes”. O bei era o governador otomano do que é hoje a Tunísia. Do outro lado do Mediterrâneo, diante de uma Europa liberal e progressiva, o bei presidia a um poder decrépito e corrupto, que protegia a pirataria e mantinha a escravatura. À falta de assunto, era a salvação do colunista: como podia a Europa tolerar aquele atentado à civilização? Os leitores indignavam-se sempre. O jornalismo perdeu este grande recurso em 1881, quando a França ocupou e começou a “civilizar” Tunes.

Está o Qatar a ser a nossa Tunes, o tema a que desesperadamente nos agarramos quando a inspiração não atende o telemóvel? No entanto, não parecem faltar assuntos. Em Portugal, temos a primeira diminuição da população depois de 1970. Por toda a Europa, a inflação mais alta desde há 30 anos ou a guerra na Ucrânia. Talvez afinal não faltem assuntos, e estejamos apenas a precisar de um interlúdio ligeiro, em que fazemos de conta que só o Qatar não nos deixa dormir.

Estou a dizer que o Qatar é a Suíça? Não. Estou a dizer que se querem que o Mundial de futebol seja em países iguais à Suíça, façam-no sempre na Suíça ou quando muito na Suécia." (...)

A ler a crónica de Rui Ramos na integra aqui no Observador

Nós

por henrique pereira dos santos, em 25.11.22

Foram publicados os dados definitivos dos censos de 2021.

Por município, a comparação entre a população residente em 2011 e 2021 é a seguinte:

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Quanto mais carregado é o azul, maior é a diminuição de população, quanto mais carregado é o sépia, maior é o aumento.

Estranhamente, em vez de discutirmos por que razão Odemira é o concelho que mais cresce em população, pelo menos fora de áreas urbanas, o habitual é dizer-se que o modelo económico em que assenta este resultado é uma desgraça ambiental, social e económica (pelo menos no longo prazo), razão pela qual deveríamos substituí-lo por outro, mais próximo do que se passa em outros concelhos com muito boa imprensa, mas muito má imagem nos Censos 2021.

Não, não se pense que são uns matarruanos ignorantes que colocam a discussão no pé em que está, são mesmo as elites, repare-se no que diz a elite dos nossos demógrafos e sociólogos, que está na academia e tem acesso a jornais:

"é preciso começarmos a repensar os nossos pressupostos de sociedade, que não estão adaptados a estas novas realidades [do envelhecimento acentuado que os censos demonstram]", Maria João Valente Rosa.

"O problema [do desequilíbrio territorial na distribuição da população residente, que se tem acentuado] até surge no discurso político, "mas os subsídios ficam aquém do que se espera e o carácter estrutural das políticas que estão pensadas também fica aquém", diz", Jorge Malheiros.

"Devíamos estar a preparar-nos em termos de infraestruturas e serviços para este momento em que vamos ser todos mais velhos: os hospitais têm de estar preparados para os picos de gripe que vão levar muito mais gente às urgências, por exemplo; dentro da formação médica e de enfermagem, temos de começar a investir nas especialidades geriátricas, temos de pensar a estruturação dos cuidados continuados; de pensar se os lares que temos hoje são aqueles em que vamos querer estar", Pedro Góis.

Perante uma diminuição de um pouco mais de 200 mil habitantes em dez anos, que só tem paralelo, nos tempos recentes, na diminuição de mais de 300 mil habitantes entre 1960 e 1970, a que se soma um acentuado envelhecimento - a população cresce acima dos 44 anos, ou seja a diminuição da população até aos 44 anos é maior que os 2,1% da média global - o que apraz dizer é que os subsídios são curtos, que os lares têm de ser melhores, que temos é de aumentar o número de geriatras, que a sociedade não está preparada para tantos velhos e coisas que tais.

Como se perante o desastre económico e social da última década que os censos evidenciam, o mais sensato fosse admitir que o Estado é que nos vai redimir e vai ser essa população crescentemente mais velha, e menor nas idades produtivas, que terá capacidade para sustentar um Estado que garanta que vamos todos envelhecer felizes.

Na década de sessenta, em que a população do país diminui um pouco mais de 300 mil habitantes, emigraram qualquer coisa como um milhão ou, mais provavelmente, perto de um milhão e meio de pessoas, o que quer dizer que a economia e a sociedade tiveram dinamismo suficiente para gerar um crescimento populacional de cerca de 700 mil a um milhão de pessoas, que compensaram grande parte da emigração.

Acresce que essa emigração foi dos agentes económicos menos competitivos e integrados em fileiras económicas em perda, como as que se relacionavam com a agricultura de subsistência, e o crescimento foi nos sectores económicos mais dinâmicos, o que se traduziu num fortíssimo aumento do PIB e, mais ainda, do PIB per capita, com uma generalizada melhoria das condições de vida da população.

Nada disso se passa actualmente, o que se passa é que a diminuição de 200 mil habitantes se faz com perda de pessoas integradas em sectores mais dinâmicos, de perda de pessoas mais qualificadas e num quadro de evidente estagnação social.

É um mito a ideia de que quem emigra são os mais qualificados. Como na generalidade dos movimentos migratórios, os mais pobres e com menos perspectivas são a maioria da emigração, a diferença, para a emigração da década de sessenta, é que a emigração actual também inclui gente mais qualificada, ainda que continue a ser uma minoria dos emigrantes.

Outra diferença relevante é que a compensação da emigração era feita a partir da sociedade que existia no anos 60, com um contributo relativamente pequeno da imigração, e hoje grande parte da compensação da emigração é feita com imigrantes, inevitavelmente pessoas com baixas qualificações e que se empregam em sectores de menor valor acrescentado (mesmo quando têm qualificações para dar um contributo maior à nossa economia), na sua maioria, exactamente porque são os que estão disponíveis para vir para Portugal, por estarem em condições piores nos seus países de origem.

E perante este quadro o que fazem as elites?

Discutem futebol, falam do valor estratégico da TAP, atacam os neo-liberais e, do alto do seu privilégio, malham nas estufas de Odemira (e em geral na agricultura intensiva), por serem social e ambientalmente insustentáveis, embora não tenham grandes exemplos no país para dizer como se poderia fazer melhor, para além de garantirem maiorias absolutas a quem tem governado durante quase todo o tempo que os censos retratam cruamente.

Pessoalmente, é-me igual ao litro, estou profissional e socialmente mais morto que vivo, e não tenho grandes ambições que me levem a precisar de muito dinheiro - gosto mais de poder gastar muito dinheiro que de contar os tostões, mas não é uma questão central para mim - só que me chateia que os meus companheiros de elite vivam em bolhas sociais tão estanques, que nem percebam o que os censos realmente dizem sobre nós.

Em minha defesa...

por João Távora, em 24.11.22

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Como prova de que sou um bom português (não gosto muito do termo "cidadão", que me lembro logo da guilhotina francesa) começo por fazer um aviso prévio: por minha vontade não existiriam autocracias nem ditaduras, regimes que por principio deploro, todos os países do mundo seriam culturalmente tolerantes e democráticos, lastimo o preconceito racial e a exploração do homem pelo homem, nomeadamente imigrantes, a desigualdade de género, o tráfico humano, detesto a estigmatização e repressão dos homossexuais, e por último sou visceralmente contra a corrupção. A par disto tudo, refira-se que compreendo a importância da diversidade cultural e religiosa no planeta apesar de conceder que tudo seria mais fácil se toda a gente se regesse pelos meus sofisticados princípios judaico-cristãos, mas isso levar-nos-ia a reflexões demasiado complexas para este post. Também não tenho a culpa que Marcelo Rebelo de Sousa não prescinda duma ida ao Qatar para se promover a si na zona mista do estádio – a instituição que representa por estes dias está nas lonas (alguma vez não esteve?), não promove nada nem ninguém – e que não tenha optado por ficar a ver o jogo da selecção sossegado no Palácio de Belém.
 
Dito isto, assumo que tenho seguido o campeonato do Mundo no Qatar com curiosidade e sem qualquer remorso. Estando o certame a ser organizado há doze anos naquele exótico destino agora é tarde para o seu cancelamento ou outras impertinências, que a boa educação e a diplomacia têm regras. Mais, acho que a vulgarização do aproveitamento político de grandes eventos desportivos por certas causas é uma caixa de pandora, que um dia acaba mal: vai chegar o dia em que os torneios só serão possíveis entre paróquias, quanto mais entre nações. Muitos boicotes ao longo da história têm sido realizados entre países e culturas desavindas, mas por princípio esse não me parece um bom caminho. Claro que hoje ninguém sabe o que é o Espírito Olímpico, muito menos quem foi Pierre de Coubertin. E se algum leitor depois deste último parágrafo tiver dúvidas de que, apesar de tudo, eu sou bonzinho, que volte ao início do texto. E não me venham chatear com moralismos.

Discurso de ódio

por henrique pereira dos santos, em 24.11.22

Raramente me meto nas parvoíces sobre o discurso de ódio (vi uma coisa qualquer um dia destes em que alguém dizia que não é pelo facto de te sentires ofendido que passas a ter razão, é mais ou menos o que penso sobre o assunto), quer porque acho que assuntos sérios não ganham nada em ser tratados de forma pouco séria, quer porque ainda não percebi como e quem decide o que é discurso de ódio.

Hoje, ao ler Cristina Roldão no Público, lá aparece a missa do costume sobre o assunto do costume das suas crónicas (contratam uma mulher mulata para dar diversidade à opinião do jornal, com base na conversa do lugar da fala, mas depois, neste caso, ela usa a oportunidade para fazer a mesma crónica todas as semanas, sem a menor diversidade) e, a páginas tantas, na sua longa arenga contra o discurso de ódio, defende que o comandante da polícia devia ser afastado por não ligar ao avanço da extrema direita na polícia e, pelo contrário, deveriam ser apoiados e promovidos agentes como Manuel Morais, um antirracista vítima da injustiça de ter sido suspenso durante dez dias por ter dito que André Ventura era uma aberração.

A publicação de Manuel Morais que deu origem a esta pena (depois suspensa por Eduardo Cabrita) é esta que reproduzo abaixo.

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Gustavo Sampaio no Polígrafo, Valentina Marcelino no Diário de Notícias, Joana Gorjão Henriques no Público, enfim os do costume e provavelmente outros noutros lados, insistem na tese da defesa de Manuel Morais de que nesta publicação Manuel Morais não defende a decapitação de André Ventura.

Independentemente das interpretações criativas do que está escrito, relacionando o texto com a decapitação de estátuas que estava a ocorrer nos EUA na altura do post e portanto interpretando a sua parte final como mero simbolismo sobre estátuas e ideias (a leitura correcta é a de que este post defende a decapitação das ideias racistas, não a decapitação dos racistas, dizem eles), eu diria que uma pessoa mediana como eu, sem a capacidade interpretativa dos citados Gustavo Sampaio, Valentina Marcelino, Joana Gorjão Henriques e Cristina Roldão, não tem dúvidas de que é um bom exemplo daquilo a que se chama discurso de ódio, só que, no caso, é o ódio do bem, portanto precisa de contexto para ser interpretado como deve ser.

E é aqui que bate o ponto: eu acho que Manuel Morais deve ter todo o direito de escrever o que entender, incluindo o que escreveu, por mais críptico que seja, por mais odioso que seja, porque não há qualquer ligação material entre o discurso e as acções, todos nós sabemos que Manuel Morais não estava a ser literal no sentido em que não pretendia decapitar André Ventura se o encontrasse na rua.

São as acções é que devem ser sancionadas socialmente, não os discursos, sejam eles de ódio ou de outra coisa qualquer, na medida em que a um discurso concreto não corresponder a uma acção concreta.

Desperdício alimentar

por henrique pereira dos santos, em 23.11.22

Por pura coincidência, em poucos dias, dois amigos diferentes falaram-me do desperdício alimentar como um dos graves problemas ambientais que temos de gerir, em especial por causa das emissões de gases que lhe está associada.

Eu acho que é um problema social relevante, ambiental mas não só, e tenho escrito aqui e ali sobre o assunto.

Só que é um problema muito difícil de ir resolvendo.

Por um lado depende essencialmente das opções dentro de cada família, já que a maior parte do desperdício alimentar ocorre em casa, por outro é um sector produtivo com muitos produtos de vida curta e conservação difícil e, por fim, há componentes difíceis de aproveitar, como os caroços, cascas, espinhas, ossos e por aí adiante. Ou melhor, nos países desenvolvidos, isto é, com sistemas eficientes de produção, armazenamento, transporte e comercialização, a maior parte do desperdício é na casa dos consumidores, nos países menos desenvolvidos a coisa não é bem assim e uma boa parte, provavelmente a maior parte, do desperdício ocorre entre a produção e a comercialização.

Lembrei-me deste assunto e destes meus amigos hoje de manhã, quando estava numa conferência em que se ouvia muito dizer que a ciência isto, a ciência aquilo, como se a ciência fosse uma coisa monolítica e oracular.

Como um destes amigos até me mandou três artigos científicos sobre o assunto, ou melhor, dois artigos científicos e o capítulo do relatório do IPCC sobre segurança alimentar, acho que consigo demonstrar que por uma coisa ser escrita por cientistas, estar num artigo científico revisto por pares e publicado numa revista científica, não quer dizer que seja ciência.

"The results obtained show quantitatively that reductions in food losses in developed regions decrease the number of undernourished people in developing regions by up to 63 million, leading to decreases in the harvested area, water utilization, and greenhouse gas emissions associated with food production".

Por que razão digo eu que isto não é ciência, se é escrito por cientistas, num artigo científico, revisto por pares e publicado numa revista científica?

Porque os problemas da distribuição alimentar são problemas de sociedade, isto é, sociais, políticos e económicos, e dizer que o que não se desperdiça na Suécia alimenta alguém na Somália é simplesmente absurdo.

Dito de outra maneira, se compro duas alfaces, deixando apodrecer uma no frigorífico, e depois altero o meu comportamento evitando o desperdício da segunda alface, isso não significa que a alface poupada passe a estar disponível na Eritreia.

Para que isso acontecesse, seria preciso que o sistema de produção de alimentos incorporasse a minha poupança, reconfigurasse a produção, transporte, armazenamento e comercialização para reduzir a entrega de alimentos na Suécia ou em Portugal, para aumentar a entrega na Somália e Eritreia, a preços comportáveis para os somalis e eritreus, partindo do pressuposto, não demonstrado, que no processo se tinha passado a produzir, armazenar, transportar e comercializar alimentos em que os consumidores somalis e eritreus estavam interessados.

Há muitas razões, e boas razões, para não desperdiçar alimentos - acho até que é uma das boas razões para que as escolas tenham uma disciplina curricular de cozinha - mas tenho as maiores dúvidas de que a maneira mais eficiente de o fazer não seja deixar de subsidiar toda e qualquer produção de alimentos, deixar os preços subir e estar atento ao apoio social necessário aos que ficassem para trás.

Pretender que é aumentando a consciência da urgência climática que alguém vai deixar de se esquecer de umas peras até que estejam imprestáveis, e que na verdade custaram muito pouco a quem as comprou, é esperar da humanidade aquilo que ela não pode dar.

Q.E.D.

por henrique pereira dos santos, em 22.11.22

Quando vi anunciar uma reportagem bombástica "Quando o ódio veste farda", não liguei muito porque suspeitei que uma reportagem com esse nome, actualmente, não passasse de um panfleto.

Quando um ou dois dias depois vi que o Público tinha também uma peça sobre o mesmo assunto e vi o nome de Paulo Pena como um dos autores, desliguei totalmente do assunto, há jornalistas cuja assinatura me poupa o tempo de ler o que escrevem.

Agora, Nuno Gonçalo Poças confirma integralmente que eu tinha razão para não dar importância a esses trabalhos jornalísticos: "No segundo episódio, por exemplo, aborda-se o fim da experiência do policiamento de proximidade no bairro da Cova da Moura, em 2005, sem um contexto e uma explicação, como se tivesse sido uma simples vontade de uma polícia pejada de racistas. Convém, pois, relembrar o que sucedeu em 2005: os polícias recusaram continuar a patrulha de proximidade depois de três agentes terem sido assassinados no bairro, com recurso a arsenal de guerra, um dos quais com mais de 20 tiros no corpo, 6 dos quais na própria face. Há por ali, de facto, não uma intenção jornalística de mostrar uma realidade, mas de deixar clara uma perspectiva política".

Eu não entendo, mas não entendo mesmo, como é possível a generalidade dos jornalistas, com honrosas excepções, claro, sentir-se confortável com um jornalismo que sabem, bem melhor que eu, que não tem o mínimo dos mínimos de respeito pelos factos e pelas regras da profissão.

Conferência das partes

por henrique pereira dos santos, em 21.11.22

Acabou a 27ª CoP da Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas.

É raro escrever ou falar de alterações climáticas porque não tenho nada de útil que mesmo remotamente possa acrescentar alguma coisa ao debate sobre o assunto, por me faltar competência na matéria.

O objectivo dessa convenção é tão claro quanto possível numa convenção internacional que se pretende que abranja praticamente todos os países do mundo: "O objectivo final desta Convenção e de quaisquer instrumentos legais que a Conferência das Partes possa vir a adoptar é o de conseguir, de acordo com as disposições relevantes da Convenção, a estabilização das concentrações na atmosfera de gases com efeito de estufa a um nível que evite uma interferência antropogénica perigosa com o sistema climático. Tal nível deveria ser atingido durante um espaço de tempo suficiente para permitir a adaptação natural dos ecossistemas às alterações climáticas, para garantir que a produção de alimentos não seja ameaçada e para permitir que o desenvolvimento económico prossiga de uma forma sustentável".

O que me interessa realçar é a tónica na necessidade de ponderar quer o efeito das actividades humanas nos sistemas naturais, quer o efeito das medidas a adoptar no desenvolvimento económico.

E é exactamente porque essa ponderação nunca será científica, que não faz sentido discutir a questão das alterações climáticas partindo do pressuposto de que a ciência diz isto ou aquilo (não, não diz, a ciência diz muita coisa diferente, se alguém quiser ler um bocadinho sobre a famosa aposta entre dois académicos - Julian Simon e Paul Ehlrich - que dizia respeito ao futuro, rapidamente percebe como a ciência é diversa) e, muito menos, que a perspectiva científica (independentemente da dificuldade em definir qual é a perspectiva da ciência) é a que garante a adopção das melhores opções para a sociedade.

Esta discussão, aqui sintetizada a propósito do crescimento populacional (que nos anos sessenta também motivava um alargado suporte científico que garantia que era praticamente inevitável um catástrofe humanitária e ambiental no espaço de uma ou duas décadas) é uma discussão já velha, pelo menos desde que Malthus escreveu os seus ensaios sobre população, no século XVIII: "The economist Julian Simon argued in 1980 that overpopulation is not a problem as such and that humanity will adapt to changing conditions. Simon argued that eventually human creativity will improve living standards, and that most resources were replaceable. Simon stated that over hundreds of years, the prices of virtually all commodities had decreased significantly and persistently. Ehrlich termed Simon the proponent of a "space-age cargo cult" of economists convinced that human creativity and ingenuity would create substitutes for scarce resources and reasserted the idea that population growth was outstripping the Earth's supplies of food, fresh water and minerals".

Até agora, Malthus, e todas as variações da sua ideia de que o crescimento é finito porque estamos num mundo finito (hoje a ideia é vendida com o slogan "Não há planeta B"), tem perdido a discussão, mas convém não perder de vista que para Malthus ter razão basta ter razão uma vez, mesmo que falhe todas as previsões anteriores, e para os que se opõem à ideia de um limite a partir do qual não há capacidade de adaptação, é preciso ter sempre razão, bastando falhar uma vez para perder a discussão.

Só que a nossa vida não consiste numa discussão académica sobre quem vai ter ou não razão num prazo futuro que desconhecemos qual seja, a nossa vida faz-se todos os dias, sem termos nenhuma certeza sobre o que vai ser o futuro.

E é por isso que não tenho a menor intenção de contribuir para dar credibilidade a afirmações catastrofistas sobre auto-estradas para o Inferno e outros soundbytes que tais, o que me interessa é saber qual é a decisão mais sensata, em cada momento, para cumprir o tal objectivo de ponderar, devidamente, os riscos ambientais, sociais e económicos de cada decisão, que eu tenho de tomar.

Incluindo os riscos de prescindir da liberdade de cada um fazer essa avaliação, e agir de acordo com ela, procurando garantir que não há poder externo que condicione essa liberdade, para além dos estritos limites que em cada momento as comunidades acharem adequado.

Felizmente, para todos nós, o que a sociedade faz para lidar com o problema das alterações climáticas é muito mais, muito mais diverso, do que o que resulta destas reuniões crescentemente alienadas da realidade que são as CoP desta e doutras convenções: têm a sua utilidade, claro, mas nada de essencial para a vida da humanidade resulta das discussões que ali ocorrem, pelo menos nada que seja mais relevante que as decisões de cada um de nós, no nosso dia a dia.

Qatar 2022

por João Távora, em 20.11.22

O futebol é importante nas nossas vidas, porque entre outras coisas, ajuda a juntar pessoas de diferentes sensibilidades, nacionalidades, origens culturais. Juntar é sempre melhor do que dividir. A "pátria" de cada um terá sempre diferentes nuances e cumplicidades: familiares, políticas, históricas e estéticas - porque é que haveremos de estar sempre a querer afirmar a nossa originalidade "pessoal"? Essa experiência de unidade (na bancada de um estádio) é fascinante, mesmo com a reserva de quem não prescinde da racionalidade a olhar o mundo - não há perigo de diluição.
Pobres de espírito são aqueles que, de bicos de pés, na sua mediocridade, se acham superiores a tudo isto.
Aos mais renitentes, aconselha-se a que durante o campeonato do mundo de futebol, em vez de se sentarem em frente à televisão a remoer, leiam livros, muitos livros. Desse modo, no fim, nos entenderemos melhor certamente.

Domingo de Cristo Rei

por João Távora, em 20.11.22

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo, os chefes dos judeus zombavam de Jesus, dizendo: «Salvou os outros: salve-Se a Si mesmo, se é o Messias de Deus, o Eleito». Também os soldados troçavam d’Ele; aproximando-se para Lhe oferecerem vinagre, diziam: «Se és o Rei dos judeus, salva-Te a Ti mesmo». Por cima d’Ele havia um letreiro: «Este é o Rei dos judeus». Entretanto, um dos malfeitores que tinham sido crucificados insultava-O, dizendo: «Não és Tu o Messias? Salva-Te a Ti mesmo e a nós também». Mas o outro, tomando a palavra, repreendeu-o: «Não temes a Deus, tu que sofres o mesmo suplício? Quanto a nós, fez-se justiça, pois recebemos o castigo das nossas más acções. Mas Ele nada praticou de condenável». E acrescentou: «Jesus, lembra-Te de Mim, quando vieres com a tua realeza». Jesus respondeu-lhe: «Em verdade te digo: Hoje estarás comigo no Paraíso».

alavra da salvação.

O regresso do filho

por henrique pereira dos santos, em 20.11.22

Frank Zappa tem três discos de solos de guitarra de que me lembrei ontem: Shut Up 'n Play Yer Guitar, Shut Up 'n Play Yer Guitar some more e Return of the son of Shut Up 'n Play Yer Guitar.

Lembrei-me desta sequência depois de ver as notícias de que António Costa foi ontem a vários congressos do PS (esqueçamos a provável pegada de carbono e os excessos de velocidade necessários para que esta agenda seja exequível) falar.

Uma nota prévia sobre o facto de entre hoje e ontem António Costa andar de reunião em reunião do partido, é muito conveniente para os dois: por um lado Costa mostra que ninguém o pode substituir em lado nenhum, neste momento, por outro o partido fica preparado para dizer que nem o conhece, se a coisa der para o torto, como fez com José Sócrates.

A razão pela qual me lembrei destes discos de Frank Zappa é porque têm uma tradução directa para a vida do Partido Socialista: cala-te e defende o teu partido, cala-te e defende o teu partido um bocadinho mais e o regresso do filho de cala-te e defende o teu partido.

Num contexto em que assuntos sérios afectam o governo, poder-se-ia esperar que António Costa estivesse a fazer um esforço de mobilização do partido para estar vigilante em relação a comportamentos inaceitáveis ou mesmo ilegais que a prazo possam minar o apoio ao partido.

Mas não.

Costa sabe que há um videirinho a fazer negócios duvidosos que a justiça investiga e mesmo assim chama-o para o seu lado? O problema não é a complacência para com esse comportamento, o problema é que os adversários do PS não se conformam com a maioria absoluta.

Costa reconhece que ligou a um regulador para tentar influenciar a sua actuação? O problema não é o abuso evidente dessa actuação, o problema é que os adversários do PS não se conformam com a confiança que os portugueses depositaram no PS.

Poderia continuar a descrever casos e casinhos, mas não vale a pena, para Costa nada disso tem a menor importância, o que é relevante é a cabala montada contra o PS e é isso que é preciso dizer a cada um dos militantes: não se deixem impressionar por umas ilegalidadezitas ou por manifestações de ausência de sentido de Estado ou pelo enfraquecimento das instituições, isso não interessa nada e nem vale a pena discutir essas questões, o relevante é repetir incessantemente que há uma cabala contra o PS e todas essas notícias não passam disso mesmo, de manifestações dessa cabala.

Para qualquer observador independente, é evidente que o PS é vítima de uma orquestração a que uma imprensa hostil dá guarida, orquestração essa tem origem no facto dos adversários do PS não conseguirem digerir a maioria absoluta do PS.

Agora deixem o povo ver a bola…

por João Távora, em 18.11.22

Qatar.jpg

O que é que mudou desde a Cimeira do Clima ocorrida no Qatar em 2012, sob os auspícios das Nações Unidas?

Ao menos o Mundial de Futebol tem a virtude de ter ajudado, mesmo que tardiamente, o jornalismo em geral e muitos virtuosos comentadores em particular, a descobrir que o Qatar não é uma democracia liberal, antes pelo contrário. Um escândalo de que ninguém suspeitava...

E o que se pretende agora, além da exibição de virtudes piedosas, com a ostracização daquele regime autoritário com uma cultura anacrónica, que nos últumos anos vem preparando com tanto empenho o Mundial perante o silêncio cúmplice de (quase) toda a gente?  

Calores e omissões reveladores

por José Mendonça da Cruz, em 17.11.22

Admiro a expressão facial e gestual excitada e o tom acalorado com que pivôs de telejornais e comentadores atacam a Polícia portuguesa na generalidade, e nos previnem contra os terrores «da extrema-direita» com base numa dezena de tweets ou mensagens de grunhos.

Admiro o tom entusiasmado e a expressão facial e gestual calorosa com que pivôs de telejornais e comentadores defendem o entusiasmo «dos jovens» e nos recomendam o pânico ambientalista com base  numa dezena de patetas industriados pela extrema-esquerda (embora desconheçam a expressão).

Admiro os excessos das comemorações Saramaguistas em curso. Já quanto à indignação e o rasgar de vestes a propósito de uma censura tonta de Sousa Lara, admiro-a tanto tanto como admiro a omissão dos vergonhosos saneamentos cometidos por Saramago no Diário de Notícias.

Admiro, portanto, a forma como pivôs, comentadores e jornalistas proclamam e confirmam que não são sérios, nem fiáveis, nem profissionais recomendáveis.

Descendo à cidade

por João-Afonso Machado, em 17.11.22

O programa de vacinas Casa Aberta, anunciado como está, parece uma maravilha. É entrar, apanhar a 4ª dose num braço e a da gripe do outro. Zás! - e vir de regresso cheio de acautelada saúde.

Não é assim. O Casa Aberta não vai além das 100 doses diárias, afora as pessoas que tenham marcações mediante as sms's recebidas dos competentes serviços.

E não é assim, e assim não será até 24 de Novembro, devido às greves dos enfermeiros e dos funcionários públicos. Ante o desconhecimento dos muitos que se deslocaram esta manhã ao Quartel de Transmissões no Porto e bateram com o nariz na porta. Como foi o meu caso.

É claro, não perdi o ensejo de dizer, aos seguranças e a quem quis ouvir, as necessárias verdades sobre a República. E sobre esta democracia. E sobre o Governo de Costa que já vive apenas uma realidade que é só sua.

É um mundo atarantado onde o talvez único ministro decente, o da Economia, se vê desrespeitado e incomodado por um bando de meninos rabinos, de súbito preocupados com o clima (decerto privados por ora de praia) e saturados de noites de cerveja em copos de plástico até ser dia, com umas naifadas à mistura. Meninos rabinos que se colam ao chão e para isso usam produtos altamente tóxicos e poluentes...

E Costa nada diz. Nem manda calar o Pedro Nuno. Nem vai além de promessas e mais promessas, como não explica nem aplica a massa europeia que já não sabemos onde está.

O que realizou o Governo em concreto? Qual a sua obra na Saúde, no Ensino, na Justiça? O que está para além dos projectos anunciados com pompa, às catadupas, o modo ideal de os portugueses não fixarem nenhum e o Governo se aguentar no regabofe?

Feitas as contas, fiz 70 quilómetros para uma vacina que não tomei. Paguei portagens e, claro, gastei combustivel; ou melhor - paguei taxas e impostos para manter o Costa Pança.

Descer à cidade é o que dá. Ah!  - se eu visse a víbora e o Costa não teria mesmo qualquer hesitação. Calcava-o e tornava a calcar, pelo sim pelo não.

Não os tratem com condescendência

por henrique pereira dos santos, em 16.11.22

José Teixeira: "a importante questão das "alterações climáticas" é apropriada para alimentar uma agenda contestatária abrangente, a que alguns querem chamar "ideológica" mas que não o é, sendo apenas uma atrapalhada e atrevida mescla de itens de "agit-prop" da agenda esquerdalha (agora dita "woke" à falta de termo português para tal monsto), sob a evidente "mão visível" do BE. Isso poderia nada mais ser do que um pouco irritante, ou mesmo só risível, se a questão climática não fosse verdadeiramente relevante. E em assim sendo esta cacofonia, este "radicalismo pequeno-burguês de fachada ecológica" - como diria Álvaro Cunhal - aliena as necessárias, reflexões e verdadeiras acções face ao processo climático. Digo-o diante das patéticas acções de pirataria artística, agora encetadas, como deste "confusionismo": apenas obstam às coalizões sociais nos esforços ecológicos. ".

Fernanda Câncio: "Espero também que, ao contrário de tanta gente que insulta e menoriza os "jovens climáticos", como os apelidam nas notícias, seja capaz desse ato derrisório de autocrueldade que é ver-se do outro lado. O lado da injustiça, dos que deviam agir e não agem, o lado do poder e do deixa andar, dos que fecham os olhos e arranjam desculpas, dizem "ah mas é muito complicado, isso não é como vocês pensam, não se carrega num botão e já está, como seria depois?". O lado dos que desistiram de salvar o mundo, e se limitam a gerir. Recursos, empresas, países; o hábito. Porque é assim que esses jovens o vêem, nos vêem. E têm toda a razão".

A lucidez de Fernanda Câncio na interpretação do que vê à sua volta é lendária mas, neste caso, não tem razão nenhuma neste "E têm toda a razão".

Não tem razão nenhuma pelas razões que José Teixeira elenca acima: ninguém está a tentar salvar o mundo - o mundo não precisa de ser salvo - e, muito menos, gerir, recursos, empresas, países, é menos relevante e digno que querer mudar o mundo.

1) Primeiro que tudo talvez seja útil deixar de tratar esta raparigada e rapaziada (andava há tempos infindos à procura de uma oportunidade para ser tão politicamente correcto) como se fossem criancinhas do jardim escola, este pessoal é mais que crescido para ler, pensar, decidir e agir, e a sua falta de idade, uma coisa que passará com o tempo, não os exime de responsabilidades e muito menos lhes confere qualquer superioridade moral: dizem ou fazem asneiras, devem ser avaliados por isso, como qualquer outra pessoa, dizem e fazem coisas certas, devem ser avaliados por isso, como qualquer outra pessoa, não há nenhum estatuto aplicável aos jovens que lhes permita fazer parvoíces sem que tenhamos o direito a ter a opinião de que são parvoíces. E não, não é de esperar que, por terem pouca idade, desatem a colar-se ao hall da entrada das casas para que são convidados, eles sabem perfeitamente que é uma parvoíce, apenas acham que sendo parvos conseguem chamar mais a atenção para o que acham que os outros devem ouvir;

2) Em segundo lugar seria útil deixar de dizer que os jovens isto e os jovens aquilo, a partir do que este grupinho de 50 ou 100 pessoas, alguns não tão jovens que até já podem votar, diz, faz ou pensa, porque a esmagadora maioria dos jovens não está para aturar estas cegadas, como se tem visto pela evidente incapacidade de mobilização que caracteriza esta cega-rega;

3) Em terceiro lugar era o que mais faltava que agora se aceitassem argumentos idadistas para delimitar o que se pode ou não dizer destas parvoíces, estabelecendo uma relação de causa/ efeito entre dizer que há muita parvoíce nestas acções e ser velho;

4) Por último, seria sensato deixar de fazer comparações idiotas entre as intervenções da polícia democrática no cumprimento estrito da lei, com as intervenções da polícia da ditadura, apenas porque ocorrem no mesmo tipo de espaços. Comparar bastonadas indiscriminadas numa carga de polícia sobre uma multidão, com eventuais fissuras na pele provocadas pela falta de cuidado da polícia quando descola pessoas que voluntariamente se colaram a qualquer coisa, é uma tolice.

O argumento de que os outros deviam agir e não agem é um argumento de pura ignorância: a verdade é que há alguns países em que o PIB continua a crescer, mas as emissões começaram a diminuir (para não complicar nem falo das políticas de adaptação, dei só um exemplo de mitigação), o que quer dizer que se age, sim, que se tem feito alguma coisa, sim.

É insuficiente?

Até pode ser, mas como todos os países em que isso acontece são países capitalistas ocidentais, é incompreensível que o argumento central desta gente seja a incompatibilidade entre o modelo capitalista de produção e a acção climática consequente, em vez de argumentarem que o que é preciso é reforçar os mecanismos de mercado e capitalistas que têm estado a dar resultados, por exemplo, deslocando a taxação sobre factores de produção - capital e trabalho - para o consumo.

Embora eu os perceba, é muito mais fácil ter os jornalistas a dizer que é preciso acabar com os fósseis no governo que a aceitar a ideia de que o IVA deveria subir, e o IRS e IRC descer.

O que me parece confirmar que esta boa gente sabe mais de marketing que de alterações climáticas.

Quem foi, quem foi?

por José Mendonça da Cruz, em 15.11.22

«Todas as armas são letais, todas as armas não devem ser usadas», ouvi eu. Quem seria, pensei eu, o tonto que proferiu solenemente tal platitude no meio da guerra da Ucrânia?

Quem seria ?, perguntei eu. Disseram-me que foi um senhor muito agradecido por os pés de microfone lhe darem uma oportunidade de disfarçar de umas acusações graves que o afligem. Mais me disseram que o português deficientemente assimilado da frase é característico do referido senhor. Que é mesmo «expectável» (ou seja, previsível) e até «emblemático» (ou seja, característico).

Ah, então está bem, concluí eu. 

Despedimentos: um bem social

por Jose Miguel Roque Martins, em 15.11.22

Nada é mais impopular do que  despedimentos. Não devia ser assim: os despedimentos são um imperativo do bem social.

Hoje, na rádio observador, lá fui agredido por um jornalista, que lembrou a perversidade dos multimilionários das novas tecnologias de informação (Musk, Zuckerberg e Bezzos ) que, confrontados com a queda de resultados, desataram a despedir dezenas de milhar de trabalhadores, com a agravante que ao mesmo tempo, um deles prometeu doar uma quantidade milionária da sua fortuna a instituições de benemerência e culturais.

Não se pode negar que para o despedido, a situação é no mínimo desagradável, podendo atingir o dramático: não há nada pior do que o desemprego. Mas um trabalhador que deixou de contribuir positivamente para a sua empresa, já está, no mínimo, em subemprego, no máximo passou a ser um desempregado que continua a receber o seu salário, mas não contribui na plenitude das suas capacidades para a criação de riqueza da sociedade.

A solução preconizada pelo comentador, a manutenção do posto de trabalho à espera de melhores anos, em termos sociais representa um enorme desperdício, pelo menos em economias livres, como nos EUA.

Dos milhares de trabalhadores despedidos nos episódios descritos, dentro de pouco tempo, a grande maioria estará a fazer outra coisa, acrescentando valor real àsociedade, contribuindo para a sua prosperidade, ao invés de receber um subsidio de emprego da sua empresa, contribuindo pouco ou nada para a criação de riqueza de todos. Não despedir, não é só receber um subsidio de desemprego por parte das empresas (um erro) em vez de receber um subsidio por parte do Estado: é manter, até melhores dias, o estatuto dos redundantes enquanto contribuinte não efectivos para o bem comum, uma condenação ao desemprego perene, mascarado pela ilusão de uma contribuição que não existe ou é muito menos real do que colectivamente assumida. 

Despedir, é pois, um ato de racionalidade que protege os interesses legítimos da empresa, dos seus accionistas mas também um incentivo à prosperidade geral de uma sociedade, que permita mitigar o sofrimento dos excluídos de forma generosa. Despedir pode ser um enorme inconveniente para os visados, mas é um bem social de inegável valor. 

Porque somos quase todos empregados por conta de outrem, é natural que a realidade não pareça aceitável, porque poderemos ser nós a ficar redundantes. É uma opção mas,  enquanto assim for, enquanto quisermos emprego e não trabalho, não poderemos ser um país rico, em que muitos estejam muito bem e os mais desfavorecidos possam estar menos mal. 

Fim ao fóssil

por henrique pereira dos santos, em 15.11.22

Eu não tenho nada contra a possibilidade de um dia se deixar de usar energias fósseis.

Isso é completamente diferente de achar que é possível, sem imensa dor e sem prejudicar os mais pobres e frágeis, deixar de as usar num curtíssimo espaço de tempo, antes que se consiga perceber que fontes de energia alternativas se pretendem usar.

Eu sei, eu sei, o argumento é que basta poupar, usar menos, ser mais frugal, defender energicamente a austeridade energética.

Aliás, para quem queira conhecer a argumentação a partir de fontes primárias, tem aqui um video, bastante primário, sobre o assunto, em que um rapaz simpático nos explica que claro que podemos viver sem combustíveis fósseis porque, como espécie, já vivemos 299 800 anos sem eles, e se nos últimos 200 anos os usamos, é porque "eles" ganham com isso, e mais ninguém.

O que ele diz é, com certeza, muito sólido, basta ver que o video é produzido com os nossos impostos e ninguém iria desperdiçar os nossos impostos em histórias da carochinha contadas por pessoas que não sabem grande coisa sobre os assuntos de que falam.

Portanto, até 2030, acabamos com uso de energias fósseis e, com isso, encontramos uma alternativa energética que nos permita continuar a usar a síntese de Haber-Bosch, a descoberta humana que, singularmente, mais vidas salvou.

É essa reacção química, fortemente consumidora de energia, que está na base da existência de fertilizantes azotados, que são responsáveis directos pela alimentação de 35% da população mundial, para além de serem responsáveis pelo baixo custo dos alimentos de toda a população mundial.

E ainda me permitem estar aqui a escrever num computador em vez de estar a cavar batatas (não me macem com esta figura de retórica, sei perfeitamente que nesta altura do ano não se cavam batatas).

João Camargo tem toda a razão, durante uns valentes milhares de anos não usámos da forma como usamos as energias fósseis (ele não sabe que o carvão é usado há muito mais anos que nos últimos duzentos, ninguém é perfeito, mas é verdade que a escala do seu uso é nova, nos últimos 200 anos), era um tempo de elevada mortalidade infantil, um tempo em que morriam mulheres em barda em partos, um tempo em que a esmagadora maioria da população mundial passava fome, pelo menos em algumas épocas do anos ou sempre que as colheitas eram más, por causa das secas, das inundações, das pragas e todas essas coisas que agora se explica que têm origem no consumo de energias fósseis, um tempo de elevadíssimas desigualdades sociais, em que o estatuto das mulheres era claramente inferior, em que a escravatura era aceite em quase todo o mundo, etc., etc., etc..

Se estão mesmo, mesmo preocupados com o facto do uso dos combustíveis fósseis vos roubar o futuro, a minha sugestão é que garantam um bocadinho de terra, de preferência no fundo de um vale, com pelo menos uma pouca de água no Verão, e comecem a aprender a produzir os vossos alimentos, enquanto o uso de combustíveis fósseis vos permite garantir que não passam fome até aprenderem os rudimentos da actividade.

É que se por um acaso lunar, alguém resolver tomar as medidas radicais que preconizam, como, mitigadamente, tentaram fazer no Sri Lanka com a abolição da produção agrícola assente em fertilidade industrial, garanto que a probabilidade de terem três refeições por dia, ao preço da chuva, como agora acontece, é praticamente residual e ter um bocadinho de chão é ainda mais necessário que no caso de ninguém vos dar ouvidos, como temem (e eu, ardentemente, espero).

Alienação

por henrique pereira dos santos, em 14.11.22

Carmo Afonso ministra a sua habitual dose de alienação na última página do Público, descrevendo uma realidade privada, sem qualquer ligação com a realidade real.

Isso é o normal, o que já não é normal é que perante um artigo completamente absurdo (embora seja o que é de esperar de Carmo Afonso), o Público faça uma chamada de primeira página para um artigo de opinião indigente e, de caminho, subscreva a tese, delirante, de que o Qatar é um país liberal e um modelo de liberalismo sobre o qual a Iniciativa Liberal se deveria pronunciar, isso é muito mais divertido.

Nos índices de liberdade económica o Qatar está no primeiro terço, é verdade, mas abaixo de Portugal (em 160 países, Portugal anda pelos trinta e poucos e o Qatar pelo quarenta e qualquer coisa), no grupo dos países moderadamente livres.

Esta posição decorre do facto de haver factores em que o Qatar apresenta posições mais positivas (do ponto de vista de quem faz estes índices, claro) do lado da fiscalidade (que há quem confunda com liberalismo, basta ter a noção de que os países escandinavos, tipicamente com elevadas cargas fiscais, estão sempre nos lugares à volta do dez para se perceber como essa percepção é errada), mas bastante menos positivos em coisas essenciais para os liberais, como a liberdade de comércio, a liberdade do trabalho e, muito mais sensível para um liberal, o respeito pela lei e a independência do sistema judicial (não há grande originalidade nesta errada percepção de liberalismo, Fukuyama, se bem percebi a citação que um dia destes dele fez Pedro Bingre do Amaral, também cita a Somália como exemplo de aplicação do liberalismo, esquecendo o princípio central do respeito por uma lei igual para todos, como pedra basilar de sociedades e comunidades liberais).

Resumindo, que Carmo Afonso escreva disparates constantemente, é normal e é com ela, é para isso que foi contratada com certeza, mas que quem fechou a primeira página do Público resolva destacar, concordando, com o monumental disparate de considerar que existe um "triunfo do liberalismo no mundial da vergonha" é caso para se ficar envergonhado com a qualidade do jornal que se compra.

A nacional conferência revivalista

por João-Afonso Machado, em 13.11.22

Foi uma manhã toda de entrevistas e discursos. De análise política e de um auditório pintado de vermelho garrido onde se agitavam muitas bandeiras comicieiras. Deviam estar lá quase todos e oradores não se cansaram de invocar a grande participação nesta extraordinária autodenominada «Conferência Nacional». Afinal não se tratava de um decisivo congresso, conquanto a encenação lembrasse esses inesquecíveis do PCUS e, mesmo sem lá estar, sentia-se a presença de Lenine invectivando as massas - os soldados e os marinheiros, os operários e os camponeses. Não faltando, de resto, a alusão às conclusões do 21º, as quais peço desculpa por não recordar.

Era o solene momento da tomada de posse de Paulo Raimundo, o novo secretário-geral do PCP. O sucessor do já mais idoso e adoentado Jerónimo de Sousa que as câmaras televisivas não esqueceram no seu lugar entre os notáveis comunistas.

A plateia prossegue a sua frenética agitação de estandartes, repleta de bolcheviques à antiga - boina na cabeça, barba de revolucionário e lunetas de intelectual - muitos deles ainda jovens e sonhadores com o proletariado de todo o mundo unido.

A voz de Paulo Raimundo procura transmitir esse elan renovador. O PCP é imortal... A caminhada para a sociedade socialista imparável também. Os proletários é que foram banidos da terminologia comunista que insiste em batalhar pelos «direitos dos trabalhadores e do povo». Deixando fugir boca fora, de vez em quando, os «explorados e oprimidos».

João Ferreira e João Oliveira acederam à entrevista da locutora de serviço. Evidentemente, os seus postos na luta não os afastam do Parlamento Europeu e da nossa AR. Para Paulo Raimundo os sindicatos e a agitação na rua. E todos lhe agradecemos a turbação possível (e impossível...) do Governo de Costa com quem, num passado recente, acamaradou no processo revolucionário.

O PCP reafirma-se um partido de classe. As bandeiras vermelhas são como ventoínhas no pavilhão repleto. (Ocorre-me a imagem de uma assembleia geral de boavisteiros caturras, destilando raivinhas ao arquirrival, o poderoso F. C. do Porto.) - Venceremos!, venceremos!

Gozou merecidamente um longo momento de palco, o PCP. Passaram já muitos anos e todos esquecemos os boicotes e a arrogância, a legitimidade revolucionária e a ameaça de uma ditadura do proletariado. Os perigos são agora outros, provêm de outras bandas e mais melifluamente. Eu gostei de assistir à grande «Conferência Nacional», foi uma bela manhã revivalista.


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