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Na Assembleia da República António Costa critica, empolgado, Ventura, porque segundo Costa, ao satirizar a oferta à Ucrânia de seis helicópteros Kamov (um dos negócios ruinosos de que Costa foi autor e protagonista) que não funcionam, gracejou com a situação dos ucranianos. Ignora Costa que não é Ventura que graceja, mas ele próprio, Costa, que oferece generosamente àquele país seis helicópetros avariados. Mais diz Costa que a oferta responde a um pedido expresso da Ucrânia. Quem conseguir imaginar a Ucrânia a pedir a Portugal especificamente seis helicópteros imprestáveis, sobre os quais teria pesquisado, pode acreditar em Costa.
Na mesma AR, o ministro da ruína da TAP, que com Costa reverteu a privatização da empresa, e conseguiu destruir milhares de milhões de euros de valor, critica Montenegro e o PSD por não dizer o que fariam com a TAP. Mal vislumbra a extraordinária criatura a evidência da resposta: o que o PSD tinha feito, e nada do que o PS fez depois.
Agora que a destruição de valor e a irresponsabilidade de tudo o que Costa, Santos, o PS, o PCP e o BE fizeram com a TAP são clamorosas, o PS adopta um dos seus métodos preferidos: espadanar lama para todo o lado. E, agora, Santos revela que a TAP comprou, sob a gestão de Fernando Pinto, 52 aviões em negócio sobre o qual tem «suspeitas». A notícia tem, evidentemente, devido destaque na Sic do irmão de Costa, que lhe chama exclusiva, embora ela tenha sido revelada publicamente por Santos. José Gomes Ferreira, o pobre, comenta acaloradamente engolindo isco, anzol, linha, bóia e chumbada.
E segue a farsa.
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É grande a aflição que sinto a propósito da progressiva e acelerada perda de influência da Igreja Católica no espaço público do Ocidente, particularmente em Portugal que é o meu País. Julgo aliás que a terrível crise que actualmente abala a Igreja portuguesa e envergonha os cristãos, pouco tem que ver com a decadência a que me refiro – a Igreja sempre juntou pecadores, uns heróis outros traidores, e nem Jesus Cristo no seu tempo, com doze apóstolos, escapou a essa fatalidade. Quando a nossa alma sangra de dor perante a insistente exposição pública, ao vivo e a cores, dos mais obscuros pecados de uns quantos elementos da Igreja, não podemos ceder a tomar a nuvem por Juno, menosprezando o papel dos seus santos e heróis anónimos, no consolo e socorro de gerações, na evangelização de milhões de almas desamparadas na expectativa dum sentido superior para a sua história. Se os outros não querem saber dessa história luminosa, nós os católicos temos por dever de procurar consolo nela. Só com profunda desonestidade intelectual ou má-fé poderemos ignorar os verdadeiros imitadores de Cristo nossos antepassados que ao longo de dois mil anos nos transmitiram a importância redentora desta pertença. Por ironia do destino, o Ocidente “liberal e próspero”, que eu não trocava por nenhuma outra cultura e que ameaça degenerar para uma fórmula autodestrutiva de extremo-individualismo, é obra da revolucionária mensagem de Cristo: o livre arbítrio, a sacralidade da pessoa humana única e irrepetível, e a caridade (ou Amor e o Perdão que são sinónimos).
Ainda nos iremos arrepender de, em pouco mais de 200 anos, termos metódica e progressivamente desbaratado uma Igreja que se confunde com as nossas raízes históricas, e que hoje constitui em Portugal um dos últimos redutos que, com a sua rede capilar territorial, ainda faz frente ao estatismo, o Estado todo-poderoso que engoliu praticamente tudo e toda a gente na sua dependência e controlo. Com todos os seus erros defeitos, a Igreja é a última resistência ao Leviatã. Amantes da liberdade, cuidado com aquilo que desejais.
Como é que este Ocidente “bem-sucedido” prescinde do legado da Fé cristã? Hoje a mensagem não passa à refeição em família, muito menos no TikTok ou no Instagram. A questão fundamental que me aflige, é a de se é possível recolocar a Fé cristã no centro da existência de pessoas “satisfeitas”. Porque sendo testemunhos uns para os outros é mais fácil a conversão em comunidades. É mais fácil resistir. Não preciso olhar mais longe do que para a minha família, nuclear ou alargada, para perceber como hoje em dia a conversão é tarefa duma exigência quase sobre-humana, porque os milagres não acontecem todos os dias.
Como referia Rui Ramos recentemente num dos programas “E o resto é história” da Rádio Observador que semanalmente realiza com João Miguel Tavares a propósito daquilo que seria o “Serviço Nacional de Saúde” antes do prodigioso século XX, antigamente as pessoas, mais que ter um médico ou um hospital (onde os tratamentos eram pouco menos que rústicas e inúteis mezinhas) preocupavam-se com a salvação da alma: a prioridade era a construção duma Igreja, uma capela ou um oratório para suplicar ou dar graças. Os hospitais existiam para acolher os mais desprotegidos e assisti-los no padecimento da doença e da miséria física (a saúde era uma função importante do Estado – como refere Rui Ramos no citado programa, o Hospital de Todos os Santos em 1750 tinha 750 doentes internados e todos os concelhos do país dispunham de “Médicos de partido” municipais para “ministrar socorro clínico aos indigentes”). Mas sendo a morte e da dor tão implacavelmente presente no dia-a-dia, o mais importante era garantir a salvação da alma, a reconciliação com o divino – o perdão, o consolo. Hoje escondemos a morte, mas no século XVIII isso não era possível. É fácil verificá-lo pelos arquivos das paróquias ou de famílias a frequência com que as senhoras (de qualquer condição) morriam a dar à luz, e a impressionante mortalidade infantil, quando era comum numa família de cinco filhos chegarem apenas um ou dois à idade adulta. A esperança média de vida em Portugal, em 1920 – já no século XX - seria de apenas 35,6 anos. A vida das pessoas era uma roleta russa. Tudo isto, a par com uma existência quotidiana mais austera no que refere a distracções, convidava certamente as pessoas a uma procura espiritual e vida religiosa, que as juntasse através das celebrações e rituais, e no fim as reconfortasse através de um sentido superior da existência. Tempos de trevas que impeliam as pessoas a procurar uma luz.
Hoje os tempos são diferentes, melhores evidentemente: a par do progresso da medicina e da ciência, a vida é relativamente previsível e a dor física quase sempre evitável para toda a gente. Ao mesmo tempo o milagre económico no hemisfério norte democratizou o consumo. Está à mão de semear de todos nós, mesmo para aqueles sem grandes recursos, uma infindável panóplia de opções de entretenimento e de satisfações sensoriais. Os sentimentos, como a tristeza, a angústia, ou ansiedades resolvem-se com comprimidos ou num Centro Comercial.
Deste modo com a água do banho deitou-se pela janela também o bebé. A vida espiritual, como a poesia ou a literatura, em vez de se democratizarem como a gastronomia ou higiene do corpo tornaram-se supérfluas inconveniências. As Igrejas estão cada vez mais vazias porque o drama humano se transformou matéria de erudição, capricho duma minoria inquieta e inconformada com o tamanho duma vida que afinal cabe num algoritmo, que não é nada comparado com um grão de estrela do outro lado da galáxia.
Como aqueles que me conhecem sabem bem, sou católico praticante, porque essa procura constitui um alicerce existencial muito importante para a minha liberdade e inteireza como individuo, coisa que nem sempre me aconteceu na vida. Não sou cristão por patriotismo ou militância, sou dos de Cristo por opção, e a minha Fé uma graça que persigo com persistência. E porque esta pertença me salva tantas vezes a cada dia, gostava que os outros ao meu lado ou depois de mim, a conhecessem, a experimentassem. Voltará a acontecer no futuro certamente através duma Igreja diferente da que hoje ameaça sucumbir à perversidade humana, de dentro e de fora dela. Minoritária, será certamente mais sábia, mais resistente, santa e ciente do legado que guarda desde São Pedro.
Entretanto, preparemo-nos para o pior – a malta ainda irá dançar, beber e fumar dentro das nossas igrejas.
Publiicado também aqui no Observador
Tenho um amigo, bastante discreto, de maneira geral, mas a que vale a pena dar atenção de cada vez que faz um comentário, porque é muitíssimo rigoroso.
Por coincidência, mandou-me ontem um mail que me serve que nem uma luva para o post de hoje.
Comecemos por notar que houve dois ou três comentadores aqui do Corta-Fitas a falar da falta de rigor das previsões de Vítor Gaspar, um clássico da esquerda que não quer reconhecer o que Passos Coelho fez, nem a forma miserável como o Partido Socialista tem usado a mais despudorada mentira, para contar histórias da carochinha sobre as responsabilidades dos diferentes partidos.
Claro que para falar da falta de rigor dos orçamentos do tempo de Passos é preciso esquecer a comparação com o rigor das previsões de terceiros: 1) uma famosa primeira página do Público, em Outubro de 2012, previa uma queda do PIB até 5,3% em 2013 (foi de 0,92%); 2) praticamente um ano depois o mesmo Público afirmava que Bruxelas considerava um segundo resgate como "largamente inevitável"; 3) o Partido Socialista, no início de 2012, afirmava a pés juntos que o país estava numa espiral recessiva indiscutível; 4) um ano depois continuava com a mesma lenga-lenga; 5) e o Bloco de Esquerda, com a queda para o teatro que tem, falava em austeridade perpétua, etc., etc., etc..
E é aqui que a chamada de atenção deste meu amigo para este artigo do JN (na verdade, a mesma informação está por todo o lado, é feita a partir da Lusa) é muito útil porque escuso de ser eu a responder a estes comentadores, deixando esse trabalho a Costa, o rigoroso.
"É muito importante nestes tempos nós conseguirmos preservar a credibilidade internacional do nosso país e conseguirmos preservar a estabilidade financeira do nosso país"
"Costa, que é o primeiro-ministro em exercício desde 2015, explicou à plateia que o ouvia no cine-teatro Capitólio que "Portugal tem uma dívida grande" e no momento atual, de aumento da inflação, "os bancos centrais aumentam significativamente as taxas de juro". Daí a necessidade de prosseguir uma política de redução da dívida pública reduzir os encargos do Estado".
""Estas medidas de apoio social que estamos a dar... Não teríamos condições de dar se estivéssemos a pagar as taxas de juro que pagávamos quando nós chegamos ao Governo", concluiu António Costa."
Agora, caros comentadores (e jornalistas que hoje acham muito importante estar a criticar Montenegro por umas afirmações menos felizes sobre o facto do PS estar travestido em furioso defensor das contas certa, em vez de se concentrarem na metamorfose de António Costa dos santos últimos dias), é só lerem o que escreveu Costa, não à luz da realidade de hoje, mas à luz da realidade do momento em que o Partido Socialista, incluindo António Costa, chamaram a troica, por não terem presente os sábios conselhos de António Costa dos santos últimos dias.
Nessa altura perceberão como António Costa, e o Partido Socialista, sempre souberam que Passos fez o que lhe era possível fazer, no gravíssimo contexto que lhe foi entregue pelo Governo do Partido Socialista, que Sócrates chefiava.
Mas se quiserem perceber mesmo bem quem é António Costa, façam o que o meu amigo rigoroso fez, mas que nenhum jornalista se entretém a fazer.
Comecem por ler este parágrafo final da peça do jornal: ""Estas medidas de apoio social que estamos a dar... Não teríamos condições de dar se estivéssemos a pagar as taxas de juro que pagávamos quando nós chegamos ao Governo", concluiu António Costa".
Depois vão aqui, ver quais eram as taxas de juro em Novembro de 2015, quando Costa chega ao poder, e quais são as de Outubro de 2022.
2,30% quando Costa chegou ao poder, 3,35% nesta altura.
Agora voltem a ler o tal parágrafo: ""Estas medidas de apoio social que estamos a dar... Não teríamos condições de dar se estivéssemos a pagar as taxas de juro que pagávamos quando nós chegamos ao Governo", concluiu António Costa".
Claro que nada disto tem muita importância, é verdade que Costa governou com uma situação muito favorável no que diz respeito a taxas de juro, por comparação com Passos, e é verdade que grande parte da distribuição que Costa fez (e que poderia ter sido usada para amortizar dívida que hoje nos permitiria estar muito mais bem preparados para o que aí vem, como diz António Costa dos santos últimos dias, ao contrário do que dizia o António Costa habitual) só foi possível por causa da folga que as baixas taxas de juro lhe deram.
Costa, o eternamente rigoroso, jamais perderia a oportunidade de dizer mais uma mentireta para reforçar a grande mentira sobre as responsabilidades do Partido Socialista e de Passos Coelho na triste rampa descendente em que vivemos: é mais forte que ele a volúpia de saber que pode dizer impunemente estas coisas e rir-se da quantidade de idiotas que nas redacções dos jornais continuam a tomar o que diz Costa pelo valor facial das suas palavras, em vez de, sistematicamente, verificarem cada afirmação de Costa que seja verificável.
Eu não acredito vá para a frente. Mas que se fala, isso fala - de um projecto de lei do PS em que nas escolas, a partir de certa idade, os alunos masculinos poderão optar por usar um nome feminino ou roupa de meninas, assim como utilizar os sanitários destas. E vice-versa.
Nem me apetece dissertar sobre o tema que abrange crianças de idade inferior a 16 anos. Por duas razões: porque, no que escrevo, passo ao lado da Moral e porque seria - é - pura perda de tempo.
Digo apenas que, tivesse eu 15 anos, embarcaria no programa: mantinha o João (quantas meninas Joões não conhecemos?) e as calças (como a maioria delas) mas daria preferência às casas-de-banho das pequenas. A não ser que estas começassem a dirigir-se às da rapaziada. Tudo visando rigorosamente o contrário do que o mundo jacobino-esquerdista intenta. Para bom entendedor, meia palavra basta - quem, nessa idade, não continuará a gostar de espreitar pelo buraco da fechadura?
A não ser que já esteja tudo aberto. Mas não será cedo demais?
Acho um extraordinário contra-senso que pessoas que se consideram liberais não percam uma oportunidade para atacar a Igreja Católica, um dos últimos redutos nacionais que, com a sua rede capilar territorial ainda faz frente ao estatismo, o Estado todo-poderoso que engoliu praticamente tudo e toda a gente na sua dependência e controlo. Com todos os seus erros defeitos, a Igreja é a última resistência ao Leviatã, cuidado com aquilo que desejam.
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Para assinalar o Dia Internacional da Erradicação da Pobreza, a Câmara de Lisboa, em parceria com uma associação, tinha intenção de organizar qualquer coisa que incluía uma caminhada e um almoço, onde pretendia que participassem pessoas em situação de pobreza (parece que a coisa se faz desde 2002, mas este ano teria algumas alterações).
Não conheço os pormenores da coisa porque não me interessou ir saber mais depois de ver argumentos de alguns presidentes de junta de freguesia da esquerda, completamente idiotas, aproveitando para criticar a baixa de IRS decidida em Lisboa ("“A pobreza não se combate com ‘marchas e piqueniques’ mas sim com medidas concretas. Se o Presidente Moedas em vez de se associar à insólita ‘marcha dos pobrezinhos’ dedicasse os cerca de 8 milhões de euros que a Câmara decidiu não receber do IRS – o que dará uma média de devolução a cada lisboeta de 12 euros por ano – a ajudar diretamente os mais desfavorecidos, esses 8 milhões de euros dariam para 750 000 refeições durante todo o ano, o que corresponderia a 2050 refeições diárias. Isso sim, seria uma forma eficaz de combater a pobreza…”).
O que me chamou a atenção foram vários dos meus amigos das esquerdas que pertencem, como eu, desde sempre, às classes dominantes, a bater palmas ao cancelamento da coisa e a fazer aquilo que, desde sempre, fizeram: decidir o que é bom para os deserdados da vida, sem terem a mínima preocupação em saber a sua opinião.
É para mim impressionante que na pouca cobertura que vi desta polemicazinha não tenha reparado em ninguém verdadeiramente interessado em saber o que pensavam sobre o assunto os principais interessados, como é habitual acontecer nas elites portuguesas, especializadas na arbitragem de elegâncias, mas muito pouco atentas ao mundo fora da sua bolha social.
Suspeito que é desse traço das elites portuguesas que se consideram de esquerda, desde o tempo de Matusalém, que lhe vem o ódio que devotam a Cavaco, um homem que se esteve nas tintas para a sua arbitragem de elegâncias e, apesar disso, conseguiu o que estas elites tentam permanentemente, sem nunca conseguir: ser amado pelo povo.
E, na verdade, embora Passos Coelho não tenha tido um contexto que lhe permitisse ser amado pelo povo, de forma mais abrangente, é a suspeita de que, se aparecer uma boa oportunidade, será também isso que acontecerá a Passos Coelho, que faz com essa esquerda das classes dominantes se esforce tanto por o diminuir.
Não faço a menor ideia sobre se a tal coisa com caminhada e almoço era boa ou má, teria resultados ou não e etc., o que sei é que toda a discussão - como a discussão sobre o escândalo dos sistemas de saúde e educação duais que temos - exclui liminarmente os deserdados da vida a quem ela deveria, prioritariamente, dizer respeito.
Parece que saíram os números sobre pobreza em Portugal que não são muito animadores, quer em termos absolutos, quer na definição da tendência do que está a acontecer.
Por mim, não espero que seja desta vez que os árbitros das elegâncias consigam admitir que talvez fosse tempo de se deixarem de proclamações sobre terceiros, sobretudo quando, na verdade, ignoram o que é viver como vivem os 50% dos portugueses cujo salário (líquido) anda abaixo dos 900 euros, a que se juntam os muitos milhares que nem sequer têm salário.
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No sábado passado decorreu com enorme sucesso mais uma grande almoçarada anual do Corta-fitas, evento ao qual acorreram os escribas deste prestigiado blog generalista nacional: Duarte Calvão (o fundador remanescente), José Mendonça da Cruz, Henrique Pereira dos Santos, João Afonso Machado, Maria Teixeira Alves, Miguel Alçada Baptista, José Miguel Roque Martins e eu próprio demos prova de vida degustando uma belíssima Mão de Vaca com Grão e um memorável Bacalhau à Gomes de Sá, tudo bem regado com vinhos brancos e tintos como mandam as regras. À sobremesa disputaram a atenção dos palatos um Arroz-Doce bem reaccionário e uma Baba de Camelo de tendências progressistas, que se equilibraram um ao outro como era de esperar. Para selar a boa conversa houve ainda direito a uns robustos digestivos e charutos para os mais afoitos - à hora desta publicação o presidente Marcelo ainda não tinha comentado o evento. Estão a ver os dramas existenciais que o Vitor Cunha poupava se escrevesse num blog a sério?
Com a nem sempre amena cavaqueira tarde fora, diagnosticaram-se as mais obscuras e intrincadas idiossincrasias nacionais, facto que estimulou nalguns dos convivas o consumo de mais bebida. Nunca faltou gelo para esfriar as ideias, e deste modo estou convencido que ninguém foi para casa com veleidades de salvar a pátria, muito menos a economia. O que ninguém contava é que o Sporting fosse eliminado na primeira eliminatória da Taça de Portugal no dia seguinte…
Para o ano esperamos novo encontro, novas ideias e comezaina, que isto um dia não são dias e a alma dum blogue reside na boa e sã confraternização.
Andava há uns tempos para encontrar a forma adequada de apoiar entusiasticamente António Costa.
O artigo de hoje de Fernando Alexandre, no Observador, levou-me a essa forma.
"Assim, para 2023, com a taxa de crescimento do PIB a cair de 6,7% em 2022 para 1,3% em 2023, o Governo pretende prosseguir com o processo de consolidação orçamental e reduzir o défice orçamental de 1,9% para 0,9%. A dívida pública deverá cair para 111% do PIB, o valor mais baixo desde 2010. Se as projeções do FMI se confirmarem, em 2023, Portugal deverá cair para a 5ª posição no ranking dos países mais endividados da área do euro, a seguir à Grécia (170% do PIB), à Itália (147%), à França (113%) e à Espanha (112%) – ver Figura.
A enorme diminuição do peso da dívida no PIB em 2022 e 2023 não evita que, nas previsões do OE para 2023, a despesa com juros aumente 1,2 mil milhões de euros (isto é, mais 24% do que em 2022). Este primeiro impacto é suficiente para mostrar que, neste novo ciclo, as despesas com os juros da dívida voltam a ser uma forte restrição à capacidade de execução orçamental do Governo".
Tal como mudei de opinião sobre Passos Coelho quando, ao contrário das minhas expectativas, se mostrou firme no caminho de redução da dívida pública para níveis comportáveis, apesar das teorias absurdas sobre o seu governo (Miguel Alçada Baptista, ontem, no seu facebook fez uma descrição exemplar dessas teorias "Ao longo dos últimos anos alimentou-se uma narrativa, absolutamente de loucos, em que o culpado da nossa desgraça era Passos, o médico que tinha vindo socorrer o doente esfaqueado. O problema não estava no facínora, e nos seus cúmplices, que deixaram o doente exangue, mas sim no cirurgião que provocava dores ao suturar as feridas.
Cultivou-se uma lenda, absolutamente insana e adequada a dementes, que Passos era um sádico que, podendo dar boa vida aos portugueses, gostava era de os ver sofrer para assim ser insultado no seu Verão de Manta Rota"), também estou em vias de mudar a minha opinião sobre António Costa.
Aparentemente, António Costa dos santos últimos dias é um político que sabe bem que fora do mercado da dívida não há futuro político.
Por isso apresenta um orçamento de austeridade.
Pode vendê-lo como outra coisa, mas ele próprio se ri das suas aldrabices, um bom vendedor de feira sabe perfeitamente que o público não acredita nem um bocadinho no que lhe é dito, mas acaba a comprar qualquer coisinha por achar graça à lata do vendedor.
Ou seja, entre o preço político da austeridade e o preço político do desfavor dos credores, Costa parece que sabe muito bem onde está o risco maior.
E isso não é pouco, sendo inestimável para o país.
Claro que António Costa sabia disto tudo há muito tempo, mas como nem ele acreditou que alguma vez teria uma maioria absoluta que prolongasse o seu tempo como primeiro ministro, aproveitou todas as oportunidades para empurrar o problema da dívida com a barriga para ter margem para distribuir sonhos pelo eleitorado, esperando, naturalmente, que quem viesse depois resolvesse o problema.
Inesperadamente viu-se na situação de ser ele a ter mesmo de lidar com o problema e o relevante é que não hesitou: sendo obrigado a optar, optou por não ignorar a realidade.
Obrigado, António Costa.
Hoje ou ontem (nem sei, nem me interessa), terá sido dia mundial da alimentação.
Uma colega minha (sei, mas não interessa quem é, a questão não é a pessoa, é o modelo de pensamento) escreveu a propósito do assunto:
"O planeamento dos sistemas alimentares associado à adopção de dietas responsáveis é uma das combinações que maior impacto positivo poderá ter sobre a nossa saúde e a saúde do planeta.
Hoje é Dia Mundial da Alimentação e é importante lembrar que é fundamental fazer a transição alimentar com a articulação de diversas políticas setoriais e atores em múltiplas escalas".
Aparentemente:
1) Os sistemas alimentares não são meras reacções às opções individuais das pessoas comuns, devem ser planeados;
2) As opções de cada pessoa, a cada refeição, deve estar associado a dietas responsáveis, associadas ao planeamento dos sistemas alimentares;
3) A transição alimentar (o que quer que isso queira dizer), não resulta dos milhões de decisões de pessoas livres, mas é um imperativo abstracto a que as pessoas comuns, se forem responsáveis, devem aspirar;
4) Tudo isso deve ser feito em articulação com as políticas sectoriais, suponho que seja porque as políticas sectoriais é de que devem condicionar as opções das pessoas, em vez das políticas sectoriais serem desenhadas para dar resposta às necessidades que as pessoas sentem como tal;
5) As escalas devem ser as de música, de tal maneira este lero lero se aproxima disso mesmo: música.
O que gostaria de sublinhar é que isto é um mero exemplo, este lero lero woke está por todo lado, parece uma coisa pensada, sensata e promotora do bem comum, mas na prática é a eterna defesa da preponderância dos valores colectivos sobre as liberdades individuais.
Desde que sejam os autores do lero lero a definir o que são os valores colectivos, claro, se alguém definir como valor colectivo a defesa das liberdades individuais, e coisas que tais, naturalmente isso não são valores colectivos, são ideias estapafúrdias.
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
Naquele tempo, Jesus disse aos seus discípulos uma parábola sobre a necessidade de orar sempre sem desanimar: «Em certa cidade vivia um juiz que não temia a Deus nem respeitava os homens. Havia naquela cidade uma viúva que vinha ter com ele e lhe dizia: ‘Faz-me justiça contra o meu adversário’. Durante muito tempo ele não quis atendê-la. Mas depois disse consigo: ‘É certo que eu não temo a Deus nem respeito os homens; mas, porque esta viúva me importuna, vou fazer-lhe justiça, para que não venha incomodar-me indefinidamente’». E o Senhor acrescentou: «Escutai o que diz o juiz iníquo!... E Deus não havia de fazer justiça aos seus eleitos, que por Ele clamam dia e noite, e iria fazê-los esperar muito tempo? Eu vos digo que lhes fará justiça bem depressa. Mas quando voltar o Filho do homem, encontrará fé sobre a terra?».
Palavra da salvação.
Fernando Medina recomenda aos portugueses que «se agarrem à resiliência», e as tvs transmitem isto com ar sério. De política, de literacia e de jornalismo é o que temos.
"A inflação de prescrições, combinações e proibições avança em nome de finalidades nobres mas, quantas vezes, empapadas de cinismo. E assim vamos nós, comboiados por pastores bons e muito espertos, em direção a um mundo superiormente ordenado, no qual tudo o que não for obrigatório será proibido.
Sérgio Sousa Pinto hoje no Expresso
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O “absolutismo” de D. Miguel VS o “liberalismo” de D. Pedro: os anos da guerra civil “Liberais” e “miguelistas” (partidários do Infante D. Miguel) constituíam os pólos da divisão política que deu origem à guerra civil entre 1826 e 1834. Os miguelistas defendiam uma sociedade corporativa e hierárquica, com um rei “absoluto”. Pressupunham, no entanto, que o rei usaria os seus poderes apenas para defender a ordem existente, não para criar uma ordem nova. A ordem do mundo não era obra humana, mas da providência divina. Ao poder absoluto do rei correspondia assim uma ideia mínima sobre o alcance desse poder. Os miguelistas desconfiavam da “liberdade” no singular, mas prezavam as “liberdades” no plural: os direitos e as regalias que defendiam cada grupo e indivíduo contra os abusos do poder político.
Os liberais consideravam o poder discricionário do rei como “despótico”. No entanto, pretendiam criar um mundo novo, em que os homens fossem iguais entre si e obedecessem apenas às leis feitas por eles próprios. Para alcançar esse objectivo, estavam dispostos a estabelecer um tipo inédito de poder político, com uma amplitude e um alcance que nunca a autoridade tradicional do rei alguma vez tivera. Não chamavam despotismo a este regime, porque argumentavam que esse poder seria exercido por todos os cidadãos, e para suposto benefício colectivo. (...)
Excerto da newsletter de Rui Ramos "Perceber a História" dedicada às lutas liberais exclusiva para ssinantes (que pode ser subscrita aqui)
"Não estou interessada em exercícios comparativos".
Talvez esta tenha sido a forma mais civilizada que ouvi quando, a propósito dos abusos sexuais na Igreja Católica, tento conversar sobre o contexto social do problema.
A minha questão central é simples de enunciar: se o problema tem maior prevalência na Igreja Católica que noutras instituições similares - instituições que lidam com milhares de crianças e adolescentes -, como frequentemente se ouve dizer, então a Igreja Católica tem um grave problema para resolver; mas se a prevalência do problema na Igreja Católica é semelhante a outras organizações do mesmo tipo, como sugere a investigação sobre o abuso sexual de crianças, então quem tem um problema para resolver somos todos nós.
Foi ao pôr a questão nestes termos, ou em termos semelhantes, que me responderam, civilizadamente, como descrevi acima.
Habitualmente a resposta é mais agressiva e acusam-me de estar a relativizar o problema, porque um só caso já seria um caso a mais e uma tragédia.
Sim, é verdade, mas não é pelo facto de uma pessoa que morre de fome ser uma tragédia e ser um caso a mais do que devia, que deixamos de olhar para as estatísticas da fome, e por uma boa razão: para resolver problemas complexos, precisamos de ter mais informação, e não menos.
Infelizmente não parece haver uma grande vontade de discutir o problema na sociedade, e isso vê-se muito bem na imprensa.
Tomemos o exemplo do vendaval noticioso à volta do facto de D. José Ornelas, bispo de Leiria-Fátima, estar a ser investigado em dois inquéritos abertos pelo Ministério Público.
Confesso que há já algum tempo que me perguntava que raio de crime potencial teria dado origem aos inquéritos, visto que, aparentemente, os factos se passavam num país terceiro, com cidadãos de um quarto país.
Por esta extraordinária peça do Observador (vários dias depois da generalidade da imprensa e comentariado nacional se entreter a queimar em lume brando o bispo, por ter dois inquéritos abertos pelo Ministério Público, incluindo o Observador, que tem uma cobertura deste assunto abaixo de cão), fiquei a perceber melhor qual era a questão, mas continuei sem saber qual seria a ilegalidade potencial que motivava os inquéritos.
Perguntei para a geral e apareceram dois juristas a dizer-me que a norma legal em causa seria o artigo 367 do código penal "Quem, total ou parcialmente, impedir, frustrar ou iludir actividade probatória ou preventiva de autoridade competente, com intenção ou com consciência de evitar que outra pessoa, que praticou um crime, seja submetida a pena ou medida de segurança, é punido com pena de prisão até três anos ou com pena de multa.".
Quando perguntei em concreto o que poderia configurar esta tipificação do crime, responderam-me que "um padre encobrir a prática de um crime por outro." poderia configurar o crime descrito na norma que citei.
Fiz notar que para impedir, frustrar ou iludir actividade é preciso que actividade exista, ora se alguém encobriu um crime, pode ser cúmplice do criminoso, mas não pode ter impedido, frustrado ou iludido uma actividade que não existia.
Responderam-me que isso se apura no inquérito e que o Ministério Público é obrigado a abrir um inquérito, por mais disparatada que seja a denúncia, mesmo na ausência de qualquer facto concreto, nem que seja para o fechar cinco minutos depois de aberto.
Não sou jurista, não me vou pôr a discutir os contornos jurídicos que permitem ao Ministério Público tornar obrigatória a denúncia de crimes com o argumento de que a ausência de denúncia configura um favorecimento pessoal criminalmente tipificado no tal artigo 367.
Aqui chegados, conclui-se que a abertura de inquéritos não tem nenhum significado: o Ministério Público é sempre obrigado a abrir inquéritos, mesmo que, como é o caso, seja a quinta vez que o mesmo maluquinho faz denúncias de factos passados num país estrangeiro com cidadãos de um terceiro estado, sempre com o mesmo resultado (tudo arquivado), apenas porque percebeu que acrescentando às denúncias anteriores a denúncia abstracta de qualquer coisa ocorrida em Portugal, removeria as razões formais dos arquivamentos portugueses anteriores (os arquivamentos moçambicanos e italianos mantêm-se, claro).
E, no entanto, a imprensa em vez de me informar que a abertura de inquéritos é um procedimento automático, sem qualquer significado, resolve fazer um xarivari enorme com isso.
Há quem chame a isto jornalismo, eu acho que é só treta, a mesma treta que pretende afastar a discussão do contexto dos factos com o argumento de que saber as estatísticas da fome é relativizar o problema da fome.
O que resulta de termos uma imprensa muito mais interessada na sinalização de virtude que na produção de informação relevante.
A senhora que o PS foi desencantar para gerir a TAP diz que a TAP nunca deu lucro. A senhora que gere a TAP é, portanto, mentirosa além de medíocre. A TAP teve lucro operacional em 2017, antes de os socialistas lhe deitarem a mão.
Entendamo-nos: António Costa acredita em pouco ou nada além do seu interesse e ambição pessoal. Se as múmias do PC e os demagogos do Bloco queriam uma TAP «estratégica» para ajudarem Costa com os votos que não conseguira, Costa dava-lhes uma TAP «estratégica», ou seja, capaz de ficar fora das ajudas a fundo perdido que todas as grandes companhias aéreas privadas europeias receberam; capaz de despedir milhares de trabalhadores; capaz de reduzir a frota que já era de 102 aviões a meros 80; capaz de desprezar as ligações d`«o privado» Neeleman ao mercado norte-americano e brasileiro, com enorme vantagem para o hub de Lisboa; capaz de ser mais um modo de saque de 3 mil milhões de euros do bolso dos contribuintes.
Esta gente cuja ambição e apetite não conhece nem competência nem vergonha proclama agora as enormes vantagens de privatizar a TAP «estratégica», que nacionalizou com prejuízo para o país, e ao arrepio do Memorando de Entendimento que assinara meses antes com quem viera resgatar Portugal de mais uma bancarrota socialista.
Dispensam comentário as tristes figuras do «feroz» Pedro Nuno Santos, que citava os bons números d`«o privado» para defender a «sua» TAP, como se eles ainda fossem os mesmos, e que defende uma coisa e o contrário com os mesmos ademanes de «dinamismo», as mesmas desculpas de «bem público», e os mesmos resultados desastrosos.
Dispensam comentário as aflições que as múmias do PC e os demagogos do Bloco agora venham aventar sobre a ruína da TAP que promoveram e apoiaram.
Dispensam comentário (sobretudo porque nunca as ouviremos) as considerações que figuras patéticas como António Pedro Vasconcelos farão (fariam) agora do alto do seu intrigante conhecimento da aviação comercial.
Quem queira recordar os golpes que, contra os conselhos da Comissão Europeia, contra as advertências do Tribunal de Contas, e contra o interesse nacional, Costa e Nuno Santos cometeram a propósito da TAP, e recuperar alguma informação sobre o processo (que televisões e jornais nunca darão, porque festejaram antes a «TAP nossa», e preferem, agora, refugiar-se na discussão das «contradições» do governo, sem nunca tratarem da substância), recomendo sem modéstia o que escrevi em Julho de 2020, aqui.
Nota: entretanto, a ignorância e a estupidez continuam a ter direito de antena. Na CMTV, uma criatura com aflitiva deficiência de neurónios escreveu que aquilo que o líder do PSD considera um crime político e económico é a reprivatização da TAP. Coisa que o pivô do telejornal, mais preocupado com as poses e os passinhos atrás e à frente, leu convictamente.
Conheço Rui Gonçalves há muitos anos, não somos amigos próximos, mas aqui e ali vamos mantendo contacto.
São inúmeras as alturas em que estivemos em desacordo (bastará, para quem conheça a minha opinião sobre José Sócrates, dizer que foi seu chefe de gabinete logo no início da carreira governamental de Sócrates), mas isso nunca interferiu numa relação esporádica, mas cordial.
Ultimamente encontrei-o mais frequentemente, como presidente da Florestgal, uma empresa pública de gestão florestal criada na sequência dos incêndios de 2017, com a suposta missão de ensinar o padre nosso ao cura, isto é, o Estado iria demonstrar aos proprietários como se geriam matas e povoamentos florestais, qualquer coisa do género.
Penso que a 26 de Setembro, Rui Gonçalves escreveu um artigo de opinião no rescaldo (rescaldo intelectual, que quanto a rescaldos no terreno, é melhor nem falar) dos fogos da serra da Estrela, artigo esse que manifestamente não alinhava como o "vai ficar tudo bem" do governo, ou o "fez-se tudo o que era possível" do presidente da república, era com certeza um artigo discutível, mas tinha uma grande virtude: era bastante factual e todas as opiniões partiam de factos verificáveis.
Devo dizer que mal li o artigo comentei em privado que Rui Gonçalves devia estar a preparar a sua reforma antecipada, mas era uma ironia, eu não tenho grandes ilusões sobre a gestão de topo da administração pública e do governo mas, caramba, ainda tenho uns restinhos de confiança na decência das pessoas.
Puro engano: o sentido de Estado, a necessidade patológica de controlo do discurso público sobre a acção do governo, estão em níveis que, mesmo para mim, são surpreendentes.
Demitir um gestor que se limitou a expressar publicamente uma ideia bem fundamentada, sobre um sector que conhece bem, só porque é um bocado desalinhada em relação às fantasias que se pretendem vender?
Boa sorte, camaradas, a mexicanização do Estado vai de vento em popa, aparentemente o povo gosta porque vos dá maiorias absolutas, mas quando já perseguem os vossos que se limitam a ter um bocadinho de indepedência de espírito, o melhor é protegerem bem as costas, nunca sabe de onde virá a faca que um dia vos tirará do caminho.
Nesse dia, postos em sossego e sem poder, olhem bem para trás para ver se valeu a pena.
A mim parece-me triste chegar à conclusão de que andaram numa roda viva a criar poder para depois "partout, everywhere, em toda a parte, A vida égale, idêntica, the same, É sempre um esforço inútil, Um voo cego a nada".
O que sobrar em vidinha de conforto faltará em respeito por si próprio, e isso dá muito mau dormir, é chato.

Usei esta imagem, sobre uma situação que desconheço e sobre a qual não tenho, evidentemente, opinião, apenas porque me permite dizer o que quero sem perder tempo.
A possibilidade de denúncia é uma ferramenta, poderosíssima, quando bem usada.
A possibilidade de denúncia tem um histórico de mau uso que nos devia fazer tremer mal alguém fale na "obrigação legal de denúncia" ou mal se desvalorizem os mecanismos de controlo a que tem de estar sujeito o seu uso.
Quando voltei para o ICNF, depois de uns dez anos fora, e me perguntaram o que se poderia melhorar no desempenho da organização, uma das coisas que imediatamente sugeri (sugeri muito poucas, todas elas relacionadas como avaliação de desempenho da organização, em especial na sua relação com as pessoas comuns) foi a criação de um mail em que qualquer pessoa pudesse dirigir-se ao ICNF, queixando-se do que quer que entendesse, sobre a sua relação com o ICNF.
Para todos os efeitos, seria a criação de um canal fácil de comunicação quando a comunicação com a organização falha (todos nós desesperamos, mais tarde ou mais cedo, com a cultura de atraso ou falta de resposta que existe em Portugal, e não apenas na administração pública).
Não era um canal para os funcionários se queixarem da organização ou das suas chefias (sobre isso tenho algumas opiniões, mas todas irrelevantes), mas sim um canal de recurso para que as pessoas comuns pudessem dirigir-se ao Estado, com uma expectativa razoável de ter uma resposta que tinha falhado (naquele caso, da parte do Estado que aquela organização em concreto representa).
Nestas circunstâncias seria uma coisa simples de montar, simples de verificar e com um efeito potencial de melhoria de desempenho da organização que me parece relevante, desde que garantidas duas condições: 1) uma equipa dedicada cuja única função (ou, pelo menos, a prioritária) é responder aos mails, com base na capacidade de obter informação dentro do emaranhado da organização; 2) a dependência directa do conselho directivo e um mandato claro de obrigação de resposta por parte de todas as chefias.
Isso é muito diferente de um canal de denúncias de abuso ou assédio sexual como o que foi aberto da Faculdade de Letras, cujos resultados desconheço, mas, tanto quanto sei, rapidamente havia 10% dos professores denunciados, sem que, até hoje, saibamos a percentagem de denúncias que foram investigadas, de que forma, com que direitos de defesa dos acusados, etc..
Tal como não sabemos em que param a maioria das denúncias do me too e outras coisas que tais.
Mas também não se ouvem notícias sobre a relevância de vários canais mais formais de denúncia que existem no sistema judicial portuguesa, por exemplo, no que diz respeito à corrupção, mas existe para qualquer crime.
O que me interessa é apenas realçar isto: é verdade que em actividades que são por natureza muito secretas, envolvendo muito poucas pessoas (como tipicamente o assédio e abuso sexual), os mecanismos que permitem denúncias sem constragimentos são fundamentais. Quando o volume das notícias sobre o facto de alguém estar a ser investigado ultrapassa o razoável, sem que se perceba exactamente qual o crime potencialmente cometido, talvez esteja no momento de pensar um bocado sobre os limites dos mecanismos de denúncia, um instrumento largamente usado em todas as ditaduras, por razões que me parecem evidentes.
As democracias têm de se defender, têm de ter mecanismos de denúncia quando tudo o resto falha, mas os mecanismos de denúncia não substituem os sistemas judiciais, servem apenas como pontos de partida para que os sistemas de gestão das organizações e o sistema de justiça das sociedades, produzam melhores resultados, respeitando direitos fundamentais de cada pessoa.
É contra-intuitivo que um tipo que viola um filho, o maltrata durante anos, o mata com requintes de malvadez e crueldade, tenha direito a ser defendido, ao ponto de ser a sociedade a pagar-lhe o advogado, se preciso for.
Esse é, no entanto, o delicado e frágil verniz de civilização, que estala com a maior da facilidades, que nos separa dos selvagens, mesmo que seja, como é, muito pouco intuitivo e exija um esforço de racionalidade e reconhecimento da natureza humana que nem sempre é fácil.
O governo português prevê para 2023 uma taxa crescimento de 1,3% (depois do crescimento de 6% que sucedeu ao mergulho de 8%). Mas o FMI, essa colecção de tontos que teve que resgatar Portugal após outras governações socialistas e virtuosas, acha que o crescimento será praticamente metade: 0,7%.
Na dúvida, ainda bem que o Sr. Presidente da República veio defender as certezas do governo Costa, explicando que há muitas coisas que o FMI, instituição sem crédito, ignora, e que ele, Presidente, e Costa garantem.
Alemanha e Itália entrarão em recessão, os infelizes. É o que acontece quando nenhum desses países, nem qualquer outro país do Mundo, pode contar com este grau de distensão, sucesso e sabedoria. Aqui, os amanhãs cantam sempre. A menos, evidentemente, que não cantem.
Onde pode o Governo estar seguro da inteligente protecção e defesa nos casos politicamente mais difíceis? Na Sic.
Onde contam maçons e jacobinos com um pedestal de onde zurzam a Igreja e tudo o que cheire a cristianismo? Na Sic.
Onde podem os extremistas encontrar voz e preponderância, apesar da rejeição do eleitorado? Na Sic (desde que convenha ao PS de Costa).
Costa usa da característica insolência, aliás, da característica má educação contra o Presidente, que o criticou moderadamente a propósito disto ou daquilo? Os cães de fila da Sic ( que não escrutina porra nenhuma, com vossa licença) passam a escrutinar apertadamente cada dizer do Presidente e a identificar «desvios» a propósito disto ou daquilo.
A Igreja tem casos de assédio e transgressão sexual? A Sic esquece todos os casos de assédio e transgressão sexual que não digam respeito à Igreja Católica, e faz daquela inefável Comissão (a quem eu não confiaria o filho de um inimigo) abertura de telejornais.
Os extremistas do Bloco despedem gente sem indemnização, nem justa causa, decerto apenas por solidariedade e nobreza. Logo, quem convida a Sic para comentar o estado da Nação (desde que não fira o PS de Costa) ? As Mortáguas, a Catarina, o Francisco.
A Sic pratica informação séria, equilibrada, esclarecedora? Pimenta na língua!
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