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Lá no sertão

por João-Afonso Machado, em 31.10.22

Lula ganhou as eleições e o Brasil perdeu. Fique bem claro, se a vitória eleitoral de Bolsonaro, pela mesma margem de 1%, tivesse ocorrido, o desfecho seria o mesmo. O grande País está dividido em dois, o que, na América do Sul, é péssimo prenúncio. Foi criado um conflito dos mais complicados.

Espantosamente, digladiaram-se o pior e o pior. De um lado, um personagem cuja cara diz tudo - que é o zero além de medíocre actor de uma novela de córonel: arrogante, de péssima oratória e nenhuma sensibilidade política. Do outro, um sindicalista a vir por aí acima tresandando a corrupção. (Ante a satisfação do nosso Sócrates.)

De um lado a demagogia da autoridade e da ordem - que não são nada disso; do outro, a também demagogia dos salários mais altos e do inexistente conhecimento do que sejam a economia e - sobre o sobretudo - as finanças brasileiras.

Num País imenso, a proeza de Lula foi gerada no exterior, em Portugal particularmente (vergonhosa a campanha pró dos media...) e pela Europa fora. Esses os apoios que lhe garantiram 2 milhões de votos (em mais de 156 milhões) de vantagem. Os tais que o asseguram na administração do Brasil, o país mais rico do mundo e o mais hilariante desde o fim do Império. E o Império caiu porque o Imperador quis abolir a escravatura e os córonel não. Questões comezinhas de mão-de-obra barata... O resto é carnaval e o eterno  gerúndio - Tá vendo?

Se vai haver guerra civil no Brasil, como já se prenúncia? Creio que não. Apenas o mais rico País do mundo continuará a viver na favela. Sem solução à vista de lava-jacto - sempre indo lavando-jactando...

 

O país-filho

por José Mendonça da Cruz, em 31.10.22

O Brasil teve um presidente da República que mereceria o estatuto de estadista em qualquer país do Mundo: Fernando Henrique Cardoso (ainda que a falta de memória o levasse a recomendar o voto PT). Depois, vieram os dois mandatos de Lula da Silva, o mandato da inefável Rousseff, o gangue do Partido dos Trabalhadores e a corrupção em grande escala, a sorver empresas públicas e programas de infratestruturas. Mas, anos depois, metade dos brasileiros decidiu eleger il capo da coisa, tal como aqui, no país-pai, em 2009 ainda reelegemos com 39% dos votos um homem sem qualidades.

Eleito Lula, ontem, os nossos «jornalistas» poderiam agora escrever aquilo que sempre escrevem quando aqui ou algures é eleito um candidato ou uma força alheios às suas simpatias: que foram as regiões mais atrasadas e incultas do país a dar-lhe a maioria; que foram as grandes urbes e as regiões mais progressivas a apostar no adversário. Mas não vão escrever nada disso, não por não ser a evidência, mas porque iria contra os seus enviesamentos.

Bolsonaro, é desbocado, por vezes tonto, e muitas vezes não vislumbrou nem sequer aquilo que  mais lhe convinha. Mas é revelador que, por entre as graçolas ou apontamentos que os telejornais descobriam todas as semanas, nunca tenha sido notícia qualquer aspecto da evolução política, económica e social do país. E é revelador que muitas vezes Bolsonaro tenha sido considerado um «perigo para a democracia», que é, como sabemos, o epíteto que a esquerda atira a quem quer que não seja de esquerda.

De maneira que os brasileiros lá ficaram outra vez com Lula. O qual derramará «bolsas vida», e «bolsas casa», e «bolsas electrodomésticos» e «bolsas carro» e «bolsas apatia» sobre o atraso e a iliteracia que o elegeu. Parece que Costa e Marcelo se precipitaram a felicitá-lo, e fizeram bem. Estão à altura.

O custo de gerir paisagens

por henrique pereira dos santos, em 30.10.22

Ontem fui à feira de gastronomia (detesto esta palavra) a convite das Carnes da Montanha, uma empresa que abate e comercializa carne de raças autóctones selecionadas, para falar sobre a produção animal de montanha e a paisagem (era mais ou menos isto).

Fomos conversando enquanto Rodrigo Castelo e a filha Mimi (de oito anos) iam preparando uns bifes picados com carne de animais jarmelistas, uma raça que neste momento terá um efectivo registado de menos de 200 animais, tanto quanto foi dito (não verifiquei a informação).

Aproveitei essas circunstâncias para, pela enésima vez, defender que a cozinha deveria ser uma disciplina lectiva obrigatória desde a primeira classe, para que os miúdos aprendam, fazendo, que há mais vida para além dos hamburgueres, que a roda dos alimentos não é um desenho, que as paisagens que vêem são geridas pelo que escolhem comer e que o pão não é todo igual.

E aproveitei também para comprar umas costelas mendinhas barrosãs que cozinhei como se fosse vitela de Lafões, e logo verei que tal ficou.

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Vejo, com demasiada frequência, chamar vitela à Lafões a uma espécie de jardineira em que uns cubos de carne são estufados. Não tenho nada contra a carne estufada, bem pelo contrário, mas a vitela de Lafões é assada, em pedaços, não de alcatra ou outros corte mais nobres (nada contra, com certeza), mas normalmente era feita com aba fina, aba grossa e outras partes com osso. Na sua forma mais tradicional, a que era feita nas festas de aldeia mais recentes (os meus primos dizem que em casa da minha avó, mesmo na festa da aldeia, muitas vezes comia-se ovelha e não vitela, mas isso foi mudando com o tempo, à medida em que as pessoas foram tendo possibilidades de comer carne de vaca aqui e ali), a carne era posta em pedaços numa assadeira, com bastante cebola e batatas, ia para o forno (juntamente também ia o arroz, numas vasilhas de barro que parecem uns capéus invertidos que tivessem sido amassados nos lados, nem sei como se chama aquilo), dava tempo para ir tudo à missa. Algures pelo meio, já despachada a missa, como a cebola e a carne criavam bastante molho (daí, penso, a confusão com a carne estufada), despejava-se grande parte do molho por cima do arroz e ao fim de umas duas horas e meia de forno, mais coisa menos coisa, estava a carne e o arroz prontos.

Não era, no entanto, sobre cozinha que queria escrever, até por não saber grande coisa do assunto (o Duarte Calvão, aqui neste blog, é que tem esse pelouro) mas sim sobre a ideia de promover a carne das raças autóctones, porque me parece haver um equívoco que não ajuda.

Uma marca, qualquer marca, só é útil se conseguir transmitir um conjunto de valores consistentes associados ao produto ou serviço no qual se põe a marca.

Se uma marca é usada em produtos ou serviços completamente diferentes, a marca torna-se inútil, no sentido em que não dá informação útil ao potencial consumidor.

Carnes da Montanha é, seguramente, um bom nome e pode ser uma marca forte. Mas se mantiver o seu foco no facto da carne ser de raças autóctones, aceitando que debaixo do chapéu da marca, se tratem da mesma forma modelos de produção completamente distintos, corre o risco de perder muito potencial (note-se, não sei se é isso que se passa actualmente, estou a falar em tese e não falei sobre isto com os responsáveis pela marca).

O principal problema prende-se com a utilização ou não de pastoreio (isto é, se uma percentagem muito relevante da alimentação do animal é resultante de pastoreio ou não), já que quer as características da carne, quer os seus efeitos ambientais e de gestão da paisagem e da biodiversidade, são muito distintos, em função do modelo de produção, mesmo usando a mesma raça.

Por mim, se eu gerisse a marca (sim, eu sei a história do general que disse a Alexandre Magno que se fosse Alexandre Magno faria isto e aquilo, respondendo-lhe Alexandre Magno que se fosses Alexandre Magno farias o que Alexandre Magno faz), procuraria deixar claro, na gestão da marca, quando a carne comercializada provinha de animais em regime extensivo, em regime estabulado ou em regime extensivo com acabamento, provavelmente diferenciando também no preço as três situações (ou, pelo menos, a carne de animais provenientes de modos predominantemente pastoris e as dos animais predominantemente estabulados).

Ao manter sob o mesmo chapéu as diferentes situações e os diferentes modos de produção, o resultado é nivelar pelo que tem menos valor - raças autóctones produzidas predominantemente em estábulos.

E, a sensação que tenho, como mero consumidor potencial (nem pensem que me seria possível ser um consumidor deste tipo de carnes no dia a dia, mas seria um potencial consumidor aqui e ali, posso não ter dinheiro para pagar a diferenciação todos os dias, mas sei reconhecer o valor dessa diferenciação), é que o valor potencial está muito mais na produção de carne que gere paisagens, fogos, biodiversidade, usando como instrumento raças autóctones, que na raça em si.

E, já agora, que é muito mais fácil mercantilizar o valor da gestão da paisagem através da informação quando se produz recorrendo preferencialmente ao pastoreio, que aceitando que no chapéu das raças autóctones estejam, sem diferenciação clara para o consumidor, modelos de produção assentes predominantemente na estabulação.

Em qualquer caso estamos a falar de produções para nichos relativamente limitados, é certo, mas, pertencendo ao nicho dos 2% a 3% que aceita pagar mais por alimentos mais sustentáveis, parece-me que esse nicho é mais sensível à conservação do lobo, à gestão dos fogos e à qualidade da paisagem, que à diferença entre diferentes raças de animais.

Domingo

por João Távora, em 30.10.22

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo, Jesus entrou em Jericó e começou a atravessar a cidade. Vivia ali um homem rico chamado Zaqueu, que era chefe de publicanos. Procurava ver quem era Jesus, mas, devido à multidão, não podia vê-l’O, porque era de pequena estatura. Então correu mais à frente e subiu a um sicómoro, para ver Jesus, que havia de passar por ali. Quando Jesus chegou ao local, olhou para cima e disse-lhe: «Zaqueu, desce depressa, que Eu hoje devo ficar em tua casa». Ele desceu rapidamente e recebeu Jesus com alegria. Ao verem isto, todos murmuravam, dizendo: «Foi hospedar-Se em casa dum pecador». Entretanto, Zaqueu apresentou-se ao Senhor, dizendo: «Senhor, vou dar aos pobres metade dos meus bens e, se causei qualquer prejuízo a alguém, restituirei quatro vezes mais». Disse-lhe Jesus: «Hoje entrou a salvação nesta casa, porque Zaqueu também é filho de Abraão. Com efeito, o Filho do homem veio procurar e salvar o que estava perdido».

Palavra da salvação.

Ir além da troika

por henrique pereira dos santos, em 29.10.22

A mentira mais frequente, mais insidiosa, mas também mais sólida, sobre Passos Coelho, é a de que Passos Coelho queira ainda mais austeridade que a troika.

Esta mentira, largamente difundida pela imprensa, e largamente usada pelas pessoas que, não tendo votado Passos Coelho, se consideram enganados por ele durante a campanha eleitoral - ou seja, pessoas que votariam Passos Coelho mas afinal não votaram nele porque foram enganadas durante a campanha eleitoral - baseia-se numa frase que, com variações, Passos Coelho usou umas quantas vezes, com significados muito claros quando se põe a frase no contexto em que foi dita.

Em nenhum caso a interpretação dominante da frase - a de que Passos Coelho estaria a defender uma maior austeridade que a defendida pela troika e expressa no memorando assinado e negociado pelo Partido Socialista - é admissível.

A primeira vez que Passos Coelho falou em ir para além da troika foi ainda antes das eleições - na tal campanha em que dizem que prometeu o leite e o mel, para depois roubar as pessoas sem piedade - quando apresentou o seu programa, dizendo que iria cumprir integralmente o memorando, contando com a possibilidade de aqui e ali poder negociar ajustamentos das medidas acordadas com os credores, mas que o programa ia para além da troika, no sentido em que o programa não era apenas executar o memorando. No fundo, disse o mesmo que Jorge Sampaio quando este lembrou, ainda antes, que havia vida para além do orçamento.

É claríssimo o que estava a dizer Passos Coelho: cumpriremos as obrigações com que o país está comprometido para que os credores nos emprestem dinheiro, mas o nosso programa político não se restringe a isso e queremos fazer reformas que consideramos necessárias ao país.

Não estou a discutir se o programa era bom ou mau, estou apenas a constatar que o significado do além da troika era um, e a generalidade da imprensa (e a oposição, incluindo o partido que tinha metido Portugal na alhada da dependência excessiva dos mercados financeiros) resolveu pegar na letra das frases e fazer a interpretação que entendeu, mesmo sabendo perfeitamente que estava a dar curso ao velho ditado "com a verdade me enganas tu".

Das outras vezes que Passos Coelho falou em ir para além da troika foi mais ou menos sempre no mesmo contexto: quando a generalidade da opinião publicada falava em espiral recessiva e na inevitabilidade do segundo resgate, mais tarde, verificando-se que não havia segundo resgate, em reestruturação da dívida para a tornar sustentável, Passos Coelho garantia o cumprimento das metas negociadas com os credores pelo Partido Socialista (e depois, à medida da sua execução, com adaptações já negociadas por Passos Coelho) iria ser alcançada e, talvez, mesmo se conseguisse ir além dessas metas.

Qualquer pessoa percebe que conseguir ir além dos resultados pretendidos, necessários e benéficos para o país e para as pessoas, é muito diferente de querer ir além da medicação e tratamentos dolorosos necessários para atingir esses resultados.

A ninguém passa pela cabeça não ficar satisfeito porque um tratamento difícil e doloroso, cheio de efeitos secundários negativos, está a correr melhor que o esperado e o doente está a melhorar mais que o previsto.

Pois foi exactamente essa a opção da opinião publicada (grande parte da imprensa publica opinião disfarçada de informação, portanto opinião publicada inclui as notícias), pretender que o médico que constatava as melhorias do doente, admitindo que a terapia até poderia dar resultados melhor que os esperados, estava era a defender que se deveria carregar na terapia com o objectivo de aumentar o sofrimento do doente e aumentar os efeitos secundários da terapia.

Em relação a Passos Coelho, ainda hoje o lema se mantém, quer por parte da imprensa, quer por parte do Partido Socialista que nos levou ao hospital: "com a verdade me enganas tu".

Passos Coelho falou várias vezes em ir além da troika, é verdade, mas em nenhuma dessas vezes ele disse o que dizem que disse, isto é, em nenhuma dessas vezes ele defendeu um programa de maior austeridade quando falou em ir além da troika.

Claro que escrever isto é inútil, nem um dos que foram enganados por Passos Coelho na campanha eleitoral, e portanto não votaram nele, irá alguma vez admitir que está a esquecer o contexto das afirmações, para lhe ser possível citar um frase verdadeira como demonstração de que Passos Coelho disse o que na verdade nunca disse.

Maseratis, Porsches e democratas assim

por João-Afonso Machado, em 28.10.22

O Sr. Américo Santos e o seu filho Pedro Nuno, ministro do actual Governo da República. Tema da minha última leitura da Visão, espero que não esquecendo alguma página importante e por isso não incorrendo em faltas de gravidade.

S. João da Madeira. Mais uma história de self made men. Até aqui tudo certo. A já proverbial atitude do ministro, sem outras demonstrações, está antecipadamente explicada. Por isso, depois do fim, o princípio:

Américo Santos, nascido pobre e com o curso profissional por completar. Homem de esquerda, mais da esquerda do que o filho. Vestindo-se caramente, ao volante do seu Maserati, pára para almoçar, o povo tira a barretina. - Aqui todos me conhecem, sou uma figura popular... - É o que ele diz. Depois a história: as suas indústrias, os apoios que recebeu da famigerada Europa, o sucesso, os seus gostos e desgostos com a evolução da política partidária.

Pelo meio, o ateísmo filosoficamente construído sobre os caixões dos camaradas da Guerra Colonial que foi somando. Os bastantes, que os das demais guerras no mundo já do seu tempo não tinham chegado...

Muita prosa, o Maserati excepcionalmente sem pressa de acelerar. E um pormenor a final: mas as empresas do Sr. Américo Santos pautam-se, ou não, pelo deprimente e humilhante salário mínimo nacional? E de que mais regalias beneficiam os seus trabalhadores?

Alguém de boa vontade complete, esclareça estas interrogações. Só para o o Sr. Américo Santos não se desnivelar de Rui Nabeiro ou - aqui na minha terra - do social-democrata Armindo Costa que, além do mais, criou um infantário para a miudagem das operárias das suas fábricas. Absolutamente gratuito, é claro.

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Talvez por coincidência, enquanto o António Costa e o PS, ao estilo mais populista e demagógico, aliados com a extrema-esquerda tomam de assalto os destinos de Portugal acabado de sair de um doloroso resgate financeiro, quando desesperançados pensávamos que tínhamos batido no fundo, o pior estava para vir: emerge André Ventura, com um discurso revolucionário e demagógico, ao pior estilo do PCP e do Bloco de Esquerda, a fracturar uma direita já de si exaurida. Não é preciso recordar o descaminho que acelerou desde então, mas que se reflecte bem no desaparecimento do CDS e na conquista da maioria absoluta pelos socialistas a que estamos condenados para a eternidade, como que um castigo divino. O PS ocupou o centro político, ocupou o regime e o Estado com que se confunde, enquanto o país empobrece continuamente atolado num destino medíocre, com um macaquinho de realejo como Chefe de Estado.

Aqui chegados temos o partido Chega a misturar o discurso anticapitalista e assistencialista da esquerda radical com o nacionalismo populista "anti-política", reclamando a continuação de apoios governamentais de 125,00 (e a vigilância do povo para que não o gaste em álcool e drogas) e a taxação dos “lucros excessivos” dos privados oportunistas, que têm de ser vigiados de perto pela Autoridade Tributária, de modos a que continuemos garantidamente e igualitariamente todos muito pobres e dependentes de subsídios – os tempos de carência que aí vêm convidam à narrativa. O mesmo André Ventura que se junta aos comunistas a afrontar a gestão da Câmara Municipal de Lisboa – um oásis da direita civilizada em Portugal - exigindo os cartazes de propaganda política de volta à Praça Marquês de Pombal - monumento que a bem dizer não faz falta nenhuma. Enquanto isso a Iniciativa Liberal afunda-se numa guerra interna, o PSD faz pela vida no seu canto do hemiciclo a encaixar as ordinarices do Primeiro-Ministro. E ninguém se lembra de exigir uma taxa pelos lucros excessivos da Autoridade Tributária. Perante este trágico panorama em que é que havemos nós de gastar os 125,00 €?

Fotografia CML -  Curiosa imagem da Praça Marquês de Pombal nos anos 70. Facilitava-se nos cartazes, no estacionamento e na venda ambulante de atoalhados. 

Memória

por henrique pereira dos santos, em 28.10.22

A propósito da quantidade de gente que garante, a pés juntos, que o primeiro ministro inglês, por ser rico e casado com uma mulher imensamente rica, executará necessariamente uma política que ignora os mais pobres, talvez valha a pena lembrar que essa ideia não é nova e foi posta em prática há cerca de cem anos:

"We are not fighting against single individuals. We are exterminating the bourgeoisie as a class. Do not look in the file of incriminating evidence to see whether or not the accused rose up against the Soviets with arms or words. Ask him instead to which class he belongs, what is his background, his education, his profession. These are the questions that will determine the fate of the accused. That is the meaning and essence of the Red Terror".

Duvido que muitos dos que persistem em ver o mundo a preto e branco queiram de facto viver num regime que tem o poder de impor uma visão a preto e branco do mundo.

Através da violência, inevitavelmente.

Sem maneiras

por henrique pereira dos santos, em 27.10.22

Ontem vi alguma coisa do debate do Orçamento.

É certo que não fiz o que fazia muitas vezes com Passos Coelho, que era confirmar o que via na imprensa com a transmissão integral dos debates parlamentares, portanto sei perfeitamente que o que vi e li sobre o assunto se aproxima mais do que os jornalistas pensam que da realidade mas, para este efeito, é irrelevante.

Pela enésima vez, confirmei a falta de maneiras de António Costa.

Se eu tivesse tendência para fazer leituras woke, diria mesmo que a forma como fala com Catarina Martins confirma a evidente misogenia que caracterizava a forma como falava com Assunção Cristas, mas eu não tenho essa tendência e o que verifico é a completa falta de maneiras e de nível como responde a quem o confronta, que é o normal que os deputados façam no parlamento.

Nem discuto as parvoíces de pretender que subir os juros dos bancos centrais quando a inflação sobe é uma opção política errada e, pior, neoliberal, de quem gosta mesmo da austeridade, ou a sanha contra os lucros, como se o Estado fosse mais eficiente que as empresas a criar oportunidades para as pessoas (vale a pena ler a carta que alguns estafetas fazem publicar no Público de hoje, pedindo ao Governo que desista de defender os seus direitos, como pretende, porque sabem perfeitamente o que aconteceu em Espanha aos estafetas com o facto dos governos pretenderem saber melhor que os estafetas o que é melhor para eles).

O post é mesmo sobre a forma e sobre uma dúvida que me atormenta (relativamente):

Como raio é possível que se tenha criado a mentira de que Passos disse aos portugueses para não serem piegas por causa da austeridade, o que pretendia ir além da troika (duas mentiras que imensa gente repete, completamente convencida de que Passos disse mesmo isto), ao mesmo tempo que António Costa exibe a sua evidente falta de maneiras, sem que tal tenha qualquer censura social relevante, por parte da imprensa?

O que se passa, "meninos" da rádio, TV, disco e da cassete pirata?

Nepotismo

por henrique pereira dos santos, em 25.10.22

Este post é um caso literal de nepotismo, porque é um dos meus sobrinhos que é o editor executivo, ou lá como se chama, da revista Crítica XXI.

Só vi o grafismo (estou de acordo com uma crítica que vi por aí de que se trata de um grafismo "velho") e li, num lanche de família em que encontrei um exemplar por ali espalhado, um artigo que pretende aproximar-se da recensão que Fernando Pessoa faria do Ulysses, de James Joyce.

A razão principal para eu ter olhado para o índice e ter escolhido ler esta recensão é o facto de eu achar que Ulysses é o livro mais chato que já li, o que me define como um evidente troglodita intelectual (a leitura ao menos fez-me bem ao ego, pareceu-me ler que Virgínia Woolf também teria achado o livro chatíssimo).

O que queria não era tanto escrever sobre o conteúdo da revista (podem assinar aqui a revista, que é trimestral e, assinando, traz consigo um livro em cada número), até por ainda não ter lido mais que o que disse acima, mas sobre dois outros aspectos.

Por um lado, parece-me relevante que a intelectualidade que não se reconhece na esquerda e no mundo woke, largamente dominante no mundo intelectual, se tenha disposto a vir a terreiro disputar a predominância intelectual da esquerda no mundo das ideias e da literatura. Veremos se tem algum sucesso nessa guerra que parecia perdida há muito.

E por outro lado, acho muito interessante o facto do primeiro número da revista ter esgotado (na verdade, acabaram por fazer mais exemplares, para satisfazer a procura, por isso a assinatura continua a valer para o primeiro número, suponho).

À crítica que vi ao grafismo "antiquado" estava também associada uma afirmação de que se tratava, manifestamente, de um projecto de nicho.

A mim também me parece um projecto de nicho, com claras motivações de guerra ideológica num campo difícil para a direita, como é o mundo da intelectualidade e da arte, mas isso não significa que eu esteja convencido de que é uma opção errada ou falhada, bem pelo contrário.

Aproveitei o tal lanche familiar para tentar perceber melhor como é o modelo de negócio da revista e o que ouvi faz sentido para mim.

Sim, o aspecto gráfico é o que é, mas o pressuposto central é o de que há uma estrutura pequeníssima, barata, que produz uma revista totalmente a preto e branco (acho que nem tem imagens, mas não tenho a certeza absoluta, o facto é que mesmo que tenha, um leitor distanciado e que a folheia, como eu fiz, não se lembra de uma única imagem), completamente focada na qualidade dos que lá escrevem e na natureza dos assuntos e ideias.

O facto do primeiro número ter esgotado e, aparentemente, não ter dado prejuízo parece demonstrar um velho princípio do comércio: uma boa venda começa numa boa compra.

Neste caso, aparentemente, a boa compra consiste num produto muito barato na produção, com uma qualidade do conteúdo que permita uma venda barata, que alarga o nicho disposto a pagar 50 euros por quatro revistas e quatro livros, num ano.

Por mim, a bem da diversidade intelectual no país, só posso ficar satisfeito que alguém se tenha disposto a fazer isto: confesso que já estou farto de carnavais cheios de cor, luz e barulho, que se limitam a repetir incessantemente mantras politicamente correctos.

São, em parte, as mesmas pessoas que fizeram o Observador, com princípios semelhantes, do que resulta um jornal com boa opinião, mas com uma redacção igual às outras, infelizmente.

The times they are a-changin', aparentemente, o pêndulo do domínio cultural pode estar a fazer o movimento reverso do que existiu nas últimas décadas.

Que país promissor este...

por José Mendonça da Cruz, em 24.10.22

...onde o facto de uma grande empresa nacional ter um aumento de 86% de lucros em relação aos tempos da pandemia é motivo de indignação e escândalo.

Um acordo sem gás

por José Mendonça da Cruz, em 24.10.22

Não sei se os nossos media já deram ao acordo França/Espanha/Portugal sobre gasodutos, assinado por Costa, alguma das suas classificações reverentes do costume (histórico? icónico? mítico? emblemático? resiliente?). Sei, porém, que se abstiveram de explicá-lo.

Se bem compreendo, esse acordo pode ser resumido assim: a Espanha recebe gás através de Barcelona; a Espanha fornece gás a França por via marítima até Marselha; e a França distribui pela Europa. Portugal vai fazer, em data não anunciada, um gasoduto até Espanha, a custo ignorado e com financiamentos desconhecidos, para transportar um produto que ainda não existe (o hidrogénio verde, cuja investigação, de êxito incerto,  nunca custará menos de dezenas de milhares de milhões de euros).

É normal que se pense que estamos perante mais uma manobra de propaganda socialista, ou, então, de mais uma daquelas paixões tão características do PS, e tão caracteristicamente ruinosas. Talvez a grosseria usada por Costa para (não) responder às críticas de Paulo Rangel confirme isso mesmo. (Embora os adeptos de Costa possam dizer que a grosseria de Costa é tão habitual que já não significa nada.)

A esquerda queria que a Inglaterra fosse como a esquerda queria

por José Mendonça da Cruz, em 24.10.22

É tal o peso de canga socialista e ignorância sobre os nossos telejornais e sobre os correspondentes que enviam a Londres que telejornais e correspondentes afirmam que o governo conservador devia demitir-se e ir para eleições gerais. Com comovente candura apresentam até como justificação o facto de trabalhistas e liberais defenderem isso mesmo.

Telejornais portugueses e respectivos correspondentes em Londres gostariam, portanto, que o Partido Conservador, que tem uma maioria absoluta desde 2019, desistisse na altura em que as sondagens lhe dão números muito baixos, assim colocando os trabalhistas no governo. Esta é a canga socialista que pesa sobre os nossos telejornais e respectivos correspondentes.

A ignorância está em não saberem como funcionam as respeitabilíssimas instituições inglesas, e em ignorarem, nomeadamente, que o Primeiro ou Primeira Ministro/a inglês/a não conta, como cá, com ministros que são apenas da sua confiança; antes, em Inglaterra o/a PM  tem como membros do governo membros do Parlamento eleitos por circunscrições importantes. O que não só faz deles bem mais que ajudantes do Primeiro-Ministro, como lhes confere um estatuto de peças autónomas do governo, que podem trocar de lugar com o chefe do mesmo governo, se o partido eleito para governar assim entender.

Podiam-se lembrar, ao menos, de Thatcher e John Major. Mas, lá está, a ignorância pesa. 

Adriano Moreira era um ícone de várias gerações

por Maria Teixeira Alves, em 23.10.22

O país reage à morte de Adriano Moreira, o homem que “durante 100 anos foi  tudo ou quase tudo”. - Atualidade - SAPO 24

Toda a vida ouvi falar de Adriano Moreira. Em Cascais, na minha adolescência, era o "filho do polícia" que tinha casado bem e tinha mérito. Na sociedade dominada ainda pelos preconceitos sociais, havia uma tolerância, que raiava a quase admiração pelo político que nos anos 80 tinha sido presidente do CDS.

Mais tarde e já no meio cosmopolita de Lisboa e do jornalismo (que se tornou a minha vida) era um senhor da política. Um homem de direita que atravessou o Estado Novo e soube adaptar-se aos novos tempos e às novas ideologias. 

Luís Montenegro, líder do PSD, espelhou bem o que era Adriano Moreira, histórico militante e dirigente do CDS  "para a sociedade portuguesa contemporânea Adriano Moreira foi um ‘grand seigneur’ da academia e da política portuguesa. Deixa-nos um legado riquíssimo de pensamento sobre valores e princípios sociais”.

Dúvida houvesse e bastaria ver a forma tolerante como lidou com o facto de ter uma filha que tem bandeiras políticas diametralmente opostas aos valores que sempre preconizou. 

Como bem descreve Isabel Patrício no Jornal Económico:

Nascido a 6 de setembro de 1922, em Grijó, Macedo de Cavaleiros, Adriano Moreira teve um percurso dividido entre dois regimes. Nos anos 60 do século passado, foi ministro do Ultramar do Estado Novo. Já em democracia, entre 1986 e 1988, foi presidente do CDS-PP, além de ter sido deputado à Assembleia da República em 1980, vice-presidente da Assembleia da República entre 1991 e 1995, e conselheiro do Estado, eleito pelo Parlamento, entre 2015 e 2019.

Em maior detalhe, Adriano Moreira concluiu o curso de Direito na Faculdade de Direito de Lisboa em 1944, tendo começado a sua carreira como jurista no Arquivo Geral do Registo Criminal e Policial. Mais tarde, juntou-se a Teófilo Carvalho dos Santos, com quem ajudou à defesa da família do general José Marques Godinho. Por causa disso, Adriano Moreira acabaria preso, no Aljube, onde é companheiro de cela de Mário Soares, preso também por motivos políticos.

Com o passar dos anos, aproximar-se-ia, no entanto, do Estado Novo, com o estudo das teses lusotropicalistas, e acabaria por ser, primeiro, subsecretário de Estado da Administração Ultramarina, em 1959, e, depois, ministro do Ultramar entre 1961 e 1963, período que coincidiu com o início da Guerra Colonial em Angola.  Aliás, foi nesse cargo que assinou uma portaria que criaria o campo de concentração do Tarrafal, em Cabo Verde.

Após o 25 de Abril, aderiu ao CDS-PP, que chegou a presidir. Foi deputado, vice-presidente da Assembleia da República e conselheiro do Estado.

A par da vida política, foi professor, mas também ensaísta. Recebeu várias condecorações, como a grande-oficial da Ordem do Infante D. Henrique, cavaleiro grã-cruz da Ordem de África.

No mês passado, completou 100 anos, altura em que o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, sublinhou que Adriano Moreira tinha entrado para a História de Portugal “ao unir o nosso passado e ao futuro”.

Domingo

por João Távora, em 23.10.22

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo, Jesus disse a seguinte parábola para alguns que se consideravam justos e desprezavam os outros: «Dois homens subiram ao templo para orar; um era fariseu e o outro publicano. O fariseu, de pé, orava assim: ‘Meu Deus, dou-Vos graças por não ser como os outros homens, que são ladrões, injustos e adúlteros, nem como este publicano. Jejuo duas vezes por semana e pago o dízimo de todos os meus rendimentos’. O publicano ficou a distância e nem sequer se atrevia a erguer os olhos ao Céu; mas batia no peito e dizia: ‘Meu Deus, tende compaixão de mim, que sou pecador’. Eu vos digo que este desceu justificado para sua casa e o outro não. Porque todo aquele que se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado».

Palavra da salvação.

Cansaço

por henrique pereira dos santos, em 22.10.22

"foram muitos os comentadores que se apressaram a gritar em alto e bom som que as medidas fiscais não resultaram, quando o que falhou teve pouco a ver com impostos. Bem pelo contrário, o que Liz Truss fez foi prometer um aumento de despesa pública significativo, através de uma garantia de fixação do preço de energia aos britânicos por dois anos, o que resultaria num pesado aumento do défice e da dívida pública, que, segundo o Deutsche Bank, se estimava em 200 mil milhões de libras. A medida que mais foi falada na imprensa, o corte da taxa máxima de IRS de 45% para 40% para rendimentos superiores a 150.000 libras representava apenas 1% do custo que os mercados estimavam para o pacote energético. Para quem tem grande dificuldade em entender grande números, a dívida pública total portuguesa contraída ao longo de décadas de défices acumulados, é da mesma ordem de grandeza que os mercados estimavam para o pacote de Liz Truss em apenas dois anos."

João Caetano Dias, hoje, no Observador, explicando de forma simples a estupidez de considerar que foi o liberalismo de Truss que deu origem aos problemas do governo britânico.

Esta explicação, mais complicada ou mais simples, tem vindo a ser dada por várias pessoas.

No entanto, a quantidade de pessoas que se estão nas tintas para os factos e insistem na tese de que o chumbo do orçamento de Truss pelos mercados demonstra que as políticas de redução de impostos não funcionam, continua a ser imensa.

A ideia de que os mercados são tão violentamente contra as descidas de impostos que se revoltam, da forma como o fizeram em relação a Truss, é divertidíssima em si mesma, mas ver retintos estatistas a defendê-la com unhas e dentes é ainda muitíssimo mais divertido, independentemente da evidente tolice.

E, no entanto, a quantidade de pessoas que a leva a sério tudo isto é extraordinária e bem reveladora do nível de crendice que assola o debate público sobre o governo do país.

Não admira que, com este nível de obscurantismo, seja fácil um bom ilusionista ter maiorias absolutas.

Negações

por henrique pereira dos santos, em 21.10.22

Um destes dias, estava eu (bem irritado, nunca mais aprendo a tratar suavemente as maiores alarvidades) a perorar na rádio Observador e disse que morria hoje muito menos gente de desastres naturais que há 50 ou cem anos (verificar os números aqui).

Poder-se-ia interpretar este meu dizer como sendo a negação do que dizem os cientistas (e são uma esmagadora maioria) sobre alterações climáticas que trarão mais fenómenos meteorológicos extremos.

Mas essa seria uma interpretação profundamente errada: não sabendo eu de clima o suficiente para ter opinião própria, naturalmente sigo a opinião esmagadora maioria das pessoas que sabem do assunto e, até ter razões para pensar que estão errados, não me ponho a inventar.

Onde eu me afasto de muitos desses cientistas é numa matéria que não é científica: uma boa parte destes cientistas raciocinam numa base malthusiana, isto é, olham para as tendências de hoje e projectam-nas para o futuro, assumindo que o mundo do futuro é igual ao de hoje.

É um erro clássico do movimento ambientalista.

Na verdade, hoje morre muito menos gente em desastres naturais, mesmo que haja mais desastres naturais, porque há modificações muito importantes em três aspectos: 1) na produção de informação; 2) na tecnologia (o principal erro apontado a Malthus, que não previu, nem podia prever, o impacto dos motores a vapor e de explosão); 3) no enquadramento institucional (para ser moderninho, deveria escrever "na governança" mas em português, este sufixo ança é aumentantivo, como em festança, e eu não gostaria de ter uma governança, mas um governinho melhor).

Concretizando.

1) O facto das nossas previsões meteorológicas serem muito melhores, ou seja, serem feitas com maior antecedência e mais seguras, permite o desenvolvimento de sistemas de alerta que salvam milhares de pessoas. Só isso pode representar milhares de vidas em furacões, cheias, tsunamis, etc., mesmo que em secas (a maioria de mortes de desastres naturais resultam de inundações ou secas) seja menos evidente. Ou seja, mais e melhor informação dá resultados diferentes com as mesmas circunstâncias naturais;

2) Hoje temos muito mais tecnologia que nos permite defender melhor dos elementos naturais, seja nas infraestruturas, seja nas casas, seja na contenção do risco de deslizamentos, etc., etc., etc.. Ou seja, mais e melhor tecnologia dá resultados muito diferentes, com as mesmas circunstâncias naturais;

3) Por último, quer no planeamento, quer nos modelos de decisão, quer nos sistemas de socorro, quer na cooperação internacional (especialmente importante no caso das secas, porque permite levar alimentos, e por vezes água, a zonas em que de outra maneira as pessoas morreriam) há diferenças muito grandes em relação ao passado. Ou seja, mais e melhor cooperação e processo de decisão dá resultados muito diferentes, com as mesmas circunstâncias naturais.

A grande discussão sobre como lidar com as alterações climáticas, com a perda de biodiversidade, com a destruição do solo, com a poluição global, etc., não se prende com o que podemos fazer para diminuir as tendências em que em cada momento consideramos negativas (nesse domínio também se faz muito, claro, uma lata de coca-cola usava qualquer coisa como 40gr de alumínio primário há uns anos e hoje usa 12, uma boa parte do qual, reciclado), mas com a melhor forma de nos organizarmos para responder ao que é inerente ao futuro: incerteza, incerteza e incerteza.

E a resposta assentará no que tem dado provas: mais informação, melhor tecnologia e organização social mais eficiente.

É por isso que não entendo quem dá importância a Greta Thundberg: não trouxe nada de relevante do ponto de vista da informação, é contra grande parte do desenvolvimento tecnológico e o que propõe, do ponto de vista da organização social, é um desastre.

E a responsabilidade não é dela, é normal que esse seja o contributo de uma adolescente, a responsabilidade é de quem acha que o radicalismo adolescente tem alguma hipótese de dar melhor resultado que "honesto estudo com longa experiência misturado", como recomendava Camões.

(Ler em português:) Imagine

por José Mendonça da Cruz, em 21.10.22

Em vez das sinistras alucinações de Lennon, eu imagino, mais pedestremente e com alusões a rankings, um lema BBBA, ou seja, Bring Back Boris Already.

Depois, imagino Boris reaclamado, e, no momento da tomada de posse, inspirado por um dos livros que escreveu, uma biografia, a proclamar com o seu ar truculento: «Before we were so rudely interrupted...»

O Observador bipolar

por José Mendonça da Cruz, em 21.10.22

O Observador tem o melhor conjunto de colunistas de todos os media portugueses, muitos deles notáveis a todos os títulos.

A redacção do mesmo Observador continua, porém, a cultivar a agenda ideal das madrassas socialistas. O Observador corre a entrevistar Mariana Mortágua e Lula. Publica artigos sucessivos de ataque a Carlos Moedas e à presidência da Câmara de Lisboa. Assume e entusiasma-se com os ataques à Igreja Católica. Refastela-se na espuma dos dias e evita a análise séria das questões políticas e económicas.

Que pretende o Observador? Atrair a esquerda e o centro para o esclarecimento dos seus colunistas com a astúcia de um noticiário à maneira do Público? Ou é mesmo desnorte?

Presidente do Governo

por José Mendonça da Cruz, em 19.10.22

A Galp informou que está preocupada com a subida dos preços do gás e as possíveis falhas nos fornecimentos nigerianos. Mas que ninguém se preocupe: Marcelo, o presidente, já veio informar que o governo não está preocupado, e o governo é que sabe do interesse nacional.

Sim, mas e as preocupações da Galp?! Ora, insinua Marcelo, a Galp é só uma empresa, uma dessas coisas nefastas que só tem interesses inconfessáveis e a ganância do odioso lucro.

Sim, mas o ministro da Economia diz que há motivo de preocupação pelas mesmas razões exactamente... Ignoremos. Mesmo que Marcelo não se pronuncie sobre isso, Costa Silva só tinha dois trunfos -- a amizade de Costa e o curriculum inigualável que as Sics e as TVi s e as CNNs inventam para todo o membro de um governo socialista --, e já não tem nenhum deles.

Que ninguém tema nada, portanto, ao contrário, portanto, de todos os restantes países do Mundo. Não devemos invejar ninguém a propósito de coisa nenhuma, nem sequer a Espanha por ter um Presidente do Governo. Nós também temos, e melhor : há Costa, que chefia o governo, e Marcelo, o presidente que é dele.

Nota 1: logo a seguir a Sic noticia que o Mecanismo de Ajuste na Electricidade está a trazer aos consumidores aumentos de 40% na factura da electricidade.

Nota 2 : logo a seguir a Sic recorda que há meses o presidente da Endesa (a que só faltou na altura que governantes e media chamassem nomes) explicara que isto mesmo ia acontecer.


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