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Jornalismo, diz-se

por henrique pereira dos santos, em 31.08.22

Hoje o Público tem duas páginas de opinião da jornalista Rita Ferreira (editora de sociedade no Público), que desenvolve a ideia do título "Quando o hospital fez tudo o que devia, a ministra caiu".

Sobre a substância desse artigo de opinião não vou dizer mais do que referir que fiquei com a sensação de ter sido escrito pela assessora de imprensa de Marta Temido.

O que me interessou foi isto: "Com a grávida estabilizada, procedeu à transferência para um hospital com vaga na neonatologia. As vagas não são infinitas. Nem no Santa Maria, nem em qualquer hospital privado - onde, já agora, refira-se, esta grávida nunca poderia ter tido o seu bebé, visto que não fazem partos com gestações abaixo das 32 semanas porque os bebés acabariam transferidos para os hospitais públicos -, nem em nenhum país do mundo".

Rita Ferreira tem toda a razão: em cuidados muito diferenciados, como são os da neonatologia de grandes prematuros, as vagas em cada sítio são limitadas, é evidentemente preciso geri-las em rede.

Naturalmente, quantos mais pontos de acesso à rede houver, mais eficiente pode ser essa gestão.

Até aqui, absolutamente de acordo e não tenho nada a dizer sobre o facto de Santa Maria apenas ter duas vagas, que estavam ocupadas por gémeos.

O meu problema está na forma como Rita Ferreira mete os privados ao barulho, a martelo, em especial por causa desta frase: "visto de que não fazem partos com gestações abaixo das 32 semanas porque os bebés acabariam transferidos para os hospitais públicos".

Como sei pouco sobre o assunto, fui ver o que era isto.

E o que vi deixou-me estupefacto, não só pelo que vi, como pela distância que vai do que vi ao que a jornalista descreve.

Não há muitas outras maneiras de dizer isto: a jornalista mente quando diz que os privados não fazem partos com gestações inferiores a 32 semanas porque os bebés acabariam transferidos para hospitais públicos.

Em Agosto de 2010, o governo proibiu os privados de fazer partos com gestações inferiores a 32 semanas, estes é que são os factos.

Sabendo que as vagas são sempre finitas, e que uma rede forte é uma rede com muitos pontos de ligação, o Estado resolveu amputar a rede proibindo que os privados dessem algum contributo para a rede.

É verdade que o Governo argumentou que isso era para evitar que bebés com três dias fossem transferidos para hospitais estatais, porque isso era desumano, mas eu não encontrei quaisquer números sobre o assunto, nem a proibição de partos com gestações inferiores a 32 semanas era a única forma de evitar essas transferências, no caso de existirem (como existem transferências de grávidas a precisar de vaga na neonatologia).

Logo na altura os privados protestaram, mas doze anos passados, a situação é a mesma: os privados não fazem partos com gestação inferior a 32 semanas por imposição do Estado, não porque não tivessem capacidade para o fazer e, desta forma, contribuir para a rede geral de apoio a estas situações.

Só que, para a jornalista, que resolveu meter os privados ao barulho nesta história sem qualquer justificação, parece estar fora de causa deixar que os factos influenciem as suas ideias.

Se for preciso sugerir que os privados são incapazes de lidar com situações médicas complicadas (coitados dos países em que a generalidade da prestação de cuidados de saúde é feita por privados, guardando-se o Estado para assegurar o acesso universal, sem pretender ser o prestador universal) e, mais que isso, sugerir que a opção de amputar a rede de cuidados diferenciados do contributo dos privados não é uma opção estritamente ideológica, mas uma opção razoável de defesa do Serviço Nacional de Saúde, pois venha de lá a sugestão, e apague-se do espaço público tudo o que possa contrariar essa ideia, mesmo que para isso seja preciso torcer um bom bocado os factos verificáveis.

Uma duchesse, por favor favor

por João Távora, em 31.08.22

Uma boa notícia é que a escritora e jornalista Ana Cristina Leonardo retornou à blogosfera com regularidade na sua antiga pastelaria. Filosoficamente nos meus antípodas, com uma indisfarçável veia, por assim dizer, anticlerical ou ateísta, é desconcertante e irreverente. A Ana Cristina Leonardo é uma agitadora de consciências leal, de quem não é difícil gostar do estilo e concordar muitas vezes com o seu desapaixonado pessimismo antropológico. A ligação já aí está na barra lateral, que bem percisa de uma limpeza, pois a maioria daqueles blogs já faleceram. 

SNS?! Tanto faz!

por José Mendonça da Cruz, em 30.08.22

A ministra da Saúde demitiu-se alegadamente de sua vontade por considerar que «já não tem condições» para tutelar a política de Saúde que António Costa, ela, o Bloco de Esquerda e o Partido Comunista defenderam, propuseram, implementaram e apoiaram e que tão bons resultados tem dado.

O governo de António Costa, a ministra da Saúde e a Directora-Geral de Saúde recomendaram aos portugueses que não estivessem doentes em Agosto por não haver maneira de os socorrer. Grávidas e bebés correm risco de vida ou morrem porque as maternidades públicas não podem atendê-las. Serviços de Urgência fecham regularmente nos dias que entendem (Serviços de Urgências fecham regularmente) em resultado da política que António Costa e Marta Temido, o Bloco de Esquerda e o PCP defenderam, propuseram, implementaram e apoiaram.

O governo de António Costa e a ministra Temido, com o incentivo e o aplauso do Bloco de Esquerda e do PCP, «nacionalizaram» os hospitais que funcionavam em regime de PPP. Disfarçaram a manobra ideológica propondo aos privados condições inaceitáveis. Hoje, todos os hospitais que funcionavam em regime de PPP são, graças a Costa, Temido, Bloco e PCP, mais caros para os contribuintes e piores para os utentes (quando funcionam).

O governo de António Costa e a ministra Temido, o Bloco de Esquerda e o PCP têm um tal ódio «ao privado» que não hesitaram em violar a lei e impedir que (ao contrário do que está estabelecido) recorram a hospitais privados os doentes cujo prazo de atendimento no público foi largamente excedido.

António Costa diz que a substituição da ministra não será rápida e que a política se manterá a mesma. Com Costa, evidentemente, a política será sempre a mesma. Sendo a política a mesma, decerto que PCP e Bloco vão gostar e calar-se. De qualquer maneira não se compreende de que se queixavam ou o que queriam, visto o que temos ser o que quiseram, e é o que quiseram que tem os resultados que tem. Os resultados devem-se a eles e a Costa.

Sendo a política a mesma, além disso, o substituto de Temido tanto faz (e não apenas por definição): pode ser Lacerda Sales, que decerto não envergonhará Temido com a sua competência; ou o candidato recusado pelos eleitores do Porto, para satisfazer o gosto que Costa tem de impor aos portugueses aqueles que eles acham que não prestam; ou outro qualquer, homem ou mulher, sobre quem a Sic decerto e rapidamente descobrirá curricula magníficos, grandes competências e feitos inesquecíveis (coisa que no domingo o Dr. Marques Mendes confirmará).

Quem pode queixar-se são as vítimas de problemas de saúde súbitos, as famílias dos que morreram precocemente por falta de vigilância ou atendimento, as mães de bebés mortos, as grávidas que passam momentos de desamparo e pânico. Talvez Costa pense em dar-lhes algum «apoio do Estado»: fartura de propaganda e «jornalismo» amigo, e mais 1 ou 2 euros por mês.

 

Avante Carneirada

por João Távora, em 30.08.22

Só com uma oposição temerosa e o conluio duma imprensa fraca e acrítica é que prevalece o mito de que Marta Temido foi uma heroína na gestão da pandemia. Acontece que nessa matéria fomos um dos piores países do mundo com mais infectados e com mais mortos com Covid19. Lembram-se do ranking diário propagandeado nas rádio e TVs que a este respeito diabolizavam Trump, Bolsonaro e os suecos enquanto incensavam a "resiliência" de Marta Temido, das máscaras e dos confinamentos?
Continuem com a mascarada que o caminho da nossa desgraça é sempre em frente, com maioria absoluta. Avante carneirada, continuem com a mascarada que a "democracia" angolana é que não presta.

Um mínimo de brio profissional

por henrique pereira dos santos, em 30.08.22

Compro todos os dias, de manhã, o Público em papel (o que não quer dizer que o leia logo, posso lê-lo vários dias depois, um exercício que todos os jornalistas deveriam fazer periodicamente para aferirem da real importância do que escrevem, meia dúzia de dias depois de o terem feito).

Li agora uma notícia sobre a recuperação da serra da Estrela e resolvi quebrar a minha resolução de mais ou menos me reformar da discussão pública sobre fogos.

Primeiro estranhei por que razão o Público apresentava uma distribuição de percentagem de áreas ardidas por concelho, falando nos mais de 50% ardidos do concelho de Manteigas, acrescentando depois uma série de freguesias de outros concelhos, incluindo duas do concelho de ... Manteigas.

Fui verificar, é uma transcrição da resolução de conselho de ministros sobre a qual é feita a notícia e, pelos vistos, o Público acha normal transcrever enganos sem fazer notar que são um enganos.

Estranhei ainda mais 12% de área ardida "improdutiva", que se soma a áreas urbanas (pelos vistos só eu é que estranho 9% de área urbana ardida numa região de baixíssima densidade urbana e em que praticamente não arderam casas), áreas de povoamentos florestais, matos e pastagens, áreas agrícolas, mas o Público deve achar normal 12% de área ardida improdutiva que não é nem matos, nem pastagem.

E por achar isto tudo estranho, somei as percentagens e só dava 90% da área ardida.

Fui à resolução de conselho de ministros tentar perceber o mistério.

Desta vez o Público tinha achado demais que 10% de área ardida fossem águas interiores e, portanto, em vez de sinalizar essa estranheza, retira esses 10% da área ardida e pronto, fica uma notícia só sobre 90% da área ardida (note-se que 10% da área ardida são dois mil e duzentos hectares, que a resolução de conselho de ministros diz que são águas interiores ardidas, informação sobre a qual o Público passa como cão por vinha vindimada).

Até aqui é apenas a falta de brio profissional, quer da administração pública que produz resoluções de conselho de ministros com este rigor, quer dos jornalistas que a reproduzem sem maior sentido crítico que omitirem 10% da área ardida de águas interiores.

O que verdadeiramente me chateia é a conversa sobre o turismo e os fogos (nem falo dos restantes cinco eixos de intervenção porque estou cansado de conversa para boi dormir).

O turismo, em Portugal, para lá do Sol e Praia, é uma actividade dependente, em grande medida, da qualidade da paisagem envolvente.

No entanto, o Turismo, globalmente enquanto sector, e de maneira geral os seus operadores, não sabem, nem querem saber, como podem contribuir para a gestão da paisagem que lhes interessa, quer nas actividades de filantropia que levam a cabo, quer na operação do seu negócio, nomeadamente no padrão de consumo da restauração.

Mesmo operadores de turismo em que os custos dos produtos no custo final da refeição são bastante limitados, como acontece nas gamas de mais alta cozinha, resistem ferozmente a pagar mais pelos produtos cuja produção é responsável pela gestão da paisagem de que dependem.

O mesmo se pode dizer dos autarcas.

Fui, com muito gosto, um ano ao Imaginature (obrigado Luís Afonso pelo convite), fui muitíssimo bem tratado, mas num festival que tem como um dos objectivos a promoção da paisagem de Manteigas, nada remete para a gestão da paisagem, no que diz respeito à afectação dos recursos.

Eu acho óptimo que tenham produzido bons materiais de comunicação, tenho ali a caneca que me deram e de que gosto, mas continuo a achar que dar um queijo da serra é mais útil para a gestão do fogo que dar uma caneca, embora reconheça que o queijo há muito teria desaparecido e a caneca ali continua a fazer publicidade a Manteigas.

Tal como ter queijo da serra nas ementas das escolas do concelho, tal como dar aos miúdos da escola carne proveniente dos rebanhos que gerem a paisagem, tal como levar os miúdos a passar dois ou três dias no meio dos rebanhos dentro do seu programa escolar, etc., etc., etc..

Ou ter programas de transporte a pedido, em vez de andar a fazer baloiços, miradouros e passadiços, que não compete aos poderes públicos fazer: os operadores de turismo que infraestruturem o território para a sua actividade, que é uma actividade lucrativa e competitiva, ao contrário das actividades que gerem a paisagem das quais os operadores de turismo vivem (se houvesse dúvidas de que vivem dessas paisagens, bastaria ouvir os operadores turísticos queixarem-se dos prejuízos dos incêndios para perder quaisquer dúvidas sobre isso).

Alguma vez os operadores se puseram de acordo para entregar 1% das receitas das suas actividades para o pagamento dos serviços de gestão de paisagem que outros operadores, de outras fileiras económicas, lhes prestam à borla?

Como disse no princípio, estou a ver se me reformo desta discussão pública sobre fogos, mas ver o dinheiro público ser desviado para o sector do turismo, deixando de fora o pagamento da gestão da paisagem, indigna-me tanto, mas tanto, e há tanto tempo (já em 2017 protestei quando se fez o mesmo), que achei justificada esta interrupção na interrupção que gostaria de fazer da minha participação na discussão sobre o assunto.

Capital natural ... e o outro

por henrique pereira dos santos, em 29.08.22

Qualquer pessoa que procure razões razoáveis (passe o relativo pleonasmo) para ter filhos acaba num beco sem saída: quem tem filhos, tem cadilhos, que os não tem, cadilhos tem.

Isso não me impede de verificar que tendo vários filhos (não muitos, é certo), uma das vantagens é alargar o que consigo ver à minha volta, porque fazem o que entendem e isso obriga-me a fazer ou ver coisas que de outra forma me passariam ao lado.

Quando chegamos aos netos, uma das coisas que me acontecem é ir parar a sítios de férias a que nunca iria parar por minha iniciativa, e que vão sendo diferentes consoante as circunstâncias, que incluem as circunstâncias das pessoas que decidem da minha vida.

Este ano já estive em vários sítios e portanto acabo por ter uma amostra estatisticamente relevante para os meus padrões.

O que concluo é que, fazendo a olho uma análise de sustentabilidade dos diferentes sítios por onde estive, há uma correlação directa (a análise é a olho) entre sustentabilidade e preço, sendo claro que o sítio com melhores indicadores de sustentabilidade é dos mais caros, elitistas e exclusivos (para os meus padrões de cliente básico que ali está à pendura, note-se).

Mobilidade automóvel muito restrita - os carros não chegam às casas -, vegetação autóctone quase 100% (faltaria um programa de erradicação de invasoras, mesmo que não sejam um problema de primeira magnitude no sítio), uso de água nos espaços exteriores muitíssimo limitada, ausência de relvados e outros grandes consumidores de água e químicos, separação de lixos muito fácil, informação sobre biodiversidade q.b. (poderia ser melhor, será com certeza no dia em que se perceber que falar de habitats psamófilos não é comunicação, é ruído), taxa de ocupação do espaço face ao espaço natural (e por natural entenda-se mesmo natural, não uma substituição por um mostruário) bastante baixa, aparente bom isolamento térmico das casas e uso de energias renováveis, etc..

Em todos os sítios em que estive, parece-me evidente que há uma grande margem de progresso no sentido de ser possível prestar serviços semelhantes, com custos ambientais bastante mais baixos (com excepção do que referi acima, em que já é difícil reduzir padrões de consumo de espaço, energia, água e o resto, sem prejuízo do serviço que os clientes esperam ter), sendo tanto maior a margem de progresso, quanto mais democratizado e proletário (esqueçamos o exagero) é o sítio.

Só que fazê-lo implica conhecimento, gestão e capital, tudo coisas bastante caras, ou seja, implica afunilar o acesso social ao bem que as pessoas procuram.

Por exemplo, eu sei que boa parte das pessoas que defendem o uso de plantas autóctones em espaços exteriores argumentam que isso torna a manutenção mais barata, mas na verdade esquecem-se do investimento em conhecimento que é necessário. Por exemplo, saber que espécies usar, para obter os efeitos pretendidos e garantir a proveniência do material vegetal a usar, o que implica a colheita de semente local, a sua reprodução para posterior utilização, tudo operações caras. Para além da qualidade de projecto que garanta a qualidade global do espaço, a partir de circunstâncias que têm de combinar a expectativas dos utilizadores e o que realmente se consegue garantir - e da necessidade de desenhar soluções de projecto que sejam compatíveis com esses uso. Ou, outro exemplo, o desenho de caminhos que diminuam a probabilidade de pisoteio indesejado em formações vegetais que, por não serem intensamente regadas, fertilizadas e geridas quimicamente, não aguentam pisoteios intensos.

Embora a minha percepção da alimentação que é disponibilizada seja muito escassa - eu raramente gasto dinheiro em alimentação fora de casa - o que me pareceu é que mesmo nos sítios mais sofisticados, a sustentabilidade pára à porta da restauração.

Eu acho uns pezinhos de coentrada óptimos para um fim de praia, a acompanhar uma cerveja ou um copo de vinho (não me venham com purismos, pode ser vinho branco fresco, vai muito bem com um bocado de bom pão a que se junta os pezinhos dessossados), e há maneiras de os apresentar de forma a evitar os preconceitos associados ao chispe (coisa que aprendi com o António Alexandre, foi assim que mandei às urtigas os meus preconceitos sobre pézinhos e afins). Mas é muito mais fácil encontrar um bar de praia que sirva qualquer coisa de camarão produzido no outro lado do mundo (frequentemente, os clientes estão convencidos de que a frescura do peixe e do marisco se mede pela distância à praia) ou um hamburguer que nos garantem só ter alcatra (que desperdício de carne nobre, o bife raspado ou picado foi inventado exactamente porque é possível fazê-lo muito bom, com carne de terceira).

Resumindo, a sustentabilidade parece ser muito cara, sobretudo em três coisas em que Portugal tem alguma escassez: conhecimento (apesar de tudo, que menos me preocupa nesta matéria, há bastante, apesar de tudo), gestão (aqui sim, temos problemas muito sérios) e capital (que escuso de comentar).

E tem, provavelmente, um risco de clivagem social relevante.

Está escrito o meu contributo para os posts de férias em que Agosto é fértil.

Domingo

por João Távora, em 28.08.22

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo, Jesus entrou, num sábado, em casa de um dos principais fariseus para tomar uma refeição. Todos O observavam. Ao notar como os convidados escolhiam os primeiros lugares, Jesus disse-lhes esta parábola: «Quando fores convidado para um banquete nupcial, não tomes o primeiro lugar. Pode acontecer que tenha sido convidado alguém mais importante do que tu; então, aquele que vos convidou a ambos, terá que te dizer: ‘Dá o lugar a este’; e ficarás depois envergonhado, se tiveres de ocupar o último lugar. Por isso, quando fores convidado, vai sentar-te no último lugar; e quando vier aquele que te convidou, dirá: ‘Amigo, sobe mais para cima’; ficarás então honrado aos olhos dos outros convidados. Quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado». Jesus disse ainda a quem O tinha convidado: «Quando ofereceres um almoço ou um jantar, não convides os teus amigos nem os teus irmãos, nem os teus parentes nem os teus vizinhos ricos, não seja que eles por sua vez te convidem e assim serás retribuído. Mas quando ofereceres um banquete, convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos; e serás feliz por eles não terem com que retribuir-te: ser-te-á retribuído na ressurreição dos justos.

Palavra da salvação.

De coração aberto

por João Távora, em 25.08.22

DPedro.jpg

Bolsonaro e Lula são lamentáveis excrescências democráticas e modernas de que ninguém civilizado em Portugal ou no Brasil verdadeiramente gosta de assumir "paternidade" histórica.
Bem esteve o presidente da Câmara Municipal do Porto Rui Moreira ontem em directo do Brasil na SIC a "desinfectar" essa aparente ferida, dando ecos da cerimónia da entrega por si ao Chefe de Estado brasileiro do coração do imperador D. Pedto I daquela grande e desconcertante nação inventada pelos portugueses - a única bem sucedida monarquia da América Latina. Este foi cedido pela edilidade no âmbito da relação entre dois estados soberanos e irmãos, não por especial favor a nenhum dos candidatos presidenciais. Pena que não tenha havido espaço na entrevista para a contextualização da pertença ao Porto da relíquia - são mais os brasileiros em romagem à Igreja da Lapa que os portuenses, que mal conhecem a história da sua Cidade Invicta na Guerra Civil entre liberais e tradicionalistas.
Já o estranho culto a um órgão humano conservado em formol numa espécie de cálice, é uma modernice idolatra. Os mais antigos só se ajoelhavam a Deus, nunca aos seus iguais. A história não é só progresso...

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Coisas tontas que dão pano para mangas

por João Távora, em 24.08.22

Ainda a propósito dos preparos da D. Georginapor estes dias, cai o Carmo e a Trindade porque Ronaldo quer ir viver para a Quinta da Marinha com a D. Dolores, a mulher e toda a ruidosa trupe, numa casa ostensiva que por lá está a constituir arrogantemente, paredes meias com o Club House dos Oitavos, a desinquietar a boa ordem das boas gentes deste condomínio de Cascais que não se conformam com a afronta. Consta que Ronaldo pondera a insolência de comprar o Club House, mas eu se fosse a ele pensava instalar-se noutras paragens: a riqueza por assim dizer pornográfica conquistada por si aos pontapés na bola não cabe na nossa mediocridade herdada.

Aos mais sensíveis convém lembrar que já nos anos 20 constituiu algum escândalo nas boas famílias de Cascais a chegada de Mary Cohen E. Santo à selecta Parada, "demasiado espalhafatosa e arrogante", ao que consta.

Georgina.jpg

No outro dia vim aqui defender a honra de Sanna Marin, a laica e incauta primeira-ministra da Finlândia apanhada num vídeo indiscreto e condenada na "praça pública" por dançar desavergonhadamente numa festa qualquer. Desta vez é a fotografia de Georgina, a modelo e mulher de Cristiano Ronaldo, a rezar na basílica em Fátima, ao que consta acompanhada por seguranças e uma equipa de reportagem,  que está a chocar os fariseus e as alcoviteiras que pululam nas redes sociais - o Facebook não censura a imbecilidade.
 
Mesmo reconhecendo que Fátima é toda uma história de exibição de fé popular, que quanto a mim por vezes roça o paganismo, não deixa de ser um lugar de igreja, de acolhimento, a quem procura e reconhece pertença a Cristo e sua Mãe. Pelas amostras recolhidas, o puritanismo não é um exclusivo dos anticlericais, é também comum entre os mais devotos cristãos. Pela minha parte estou convencido que o caminho proposto por Jesus é de civilização social e libertação pessoal. Ou seja, como cristão prefiro mil vezes que as personalidades públicas frequentem o santuário do que o evitem. E depois, só Deus sabe verdadeiramente as razões profundas da mulher ali estar.

Querem mesmo participar no apedrejamento?

Funcionários públicos

por henrique pereira dos santos, em 23.08.22

Numa conversa, aliás interessante, sobre administração pública, aparece, como habitualmente, a frase "o funcionário não interessa nada, esse faz o que lhe mandam" para defender medidas estruturais para limitar a corrupção e aumentar a transparência.

Devo dizer que esta frase me põe fora de mim, por duas razões essenciais: 1) pelo significa de desresponsabilização concreta da pessoa que, por acção ou omissão, não cumpre a lei no exercício de funções públicas; 2) pelo que significa de viés sobre a administração pública, esquecendo que (para citar uma das minhas irmãs), a negligência e o desleixo provocam muito mais danos que a maldade.

Como se chegou a uma administração pública que está cheia de gente razoável e séria, alguns muitíssimos bons e, com essa base de recursos humanos, produz resultados miseráveis?

É a pergunta que mais vezes me faço a mim próprio, quando tento saber o que se poderia fazer melhor, na administração pública.

Sem estudos, sem relatórios de consultoras, sem essas coisas todas, tendo hoje para dar uma resposta relativamente simples a esta pergunta: porque o país, a sociedade, tendem a olhar e a decidir sobre a administração pública como se fosse uma mera organização igual às outras, considerando que as técnicas e métodos de gestão empresarial são aplicáveis, com pequenas adaptações, à administração pública.

Esta visão, que junta os liberais mais radicais e os membros do governo mais esquerdistas, passando pelo jornalismo e meios empresariais que lidam com o Estado, é responsável por dezenas de decisões que partem do princípio que citei no princípio: a responsabilidade do funcionário é nenhuma, porque o funcionário faz o que lhe mandam.

No caso dos liberais mais radicais, o seu desprezo pelo Estado e pela função social do Estado estende-se, por esta via, aos funcionários que, notoriamente, desprezam, considerando-os uns inúteis que não fazem nada.

Ora a verdade é que as obrigações de um trabalhador de uma organização privada para com o seu empregador não se podem confundir com as obrigações do funcionário público, começando pelo facto das organizações privadas, mesmo aquelas cuja dimensão as leva a assemelhar-se a estados, terem um dono concreto e definido, que é directamente responsável pelas decisões da organização (mesmo que através de administrações profissionais poderosas), e as organizações públicas terem um dono abstracto: as pessoas comuns que dificilmente participam em quaisquer decisões concretas da administração pública (com a excepção dos níveis mais baixos dessa administração, em que pode haver uma grande proximidade entre quem decide e quem é o dono).

Repare-se neste artigo da lei geral do trabalho em funções públicas:

"Artigo 177.º Exclusão da responsabilidade disciplinar 1 - É excluída a responsabilidade disciplinar do trabalhador que atue no cumprimento de ordens ou instruções emanadas de legítimo superior hierárquico e em matéria de serviço, quando previamente delas tenha reclamado ou exigido a sua transmissão ou confirmação por escrito. 2 - Considerando ilegal a ordem ou instrução recebidas, o trabalhador faz expressamente menção desse facto ao reclamar ou ao pedir a sua transmissão ou confirmação por escrito.".

Ao contrário da frase que motiva este post ("o trabalhador não interessa, porque só faz o que lhe mandam") a lei é tão clara, que apenas se debruça sobre a responsabilidade disciplinar por incumprimento de ordens ou instruções, para isentar o trabalhador de responsabilidade disciplinar quando elas existam (e delas o trabalhador não tenha reclamado, nomeadamente referindo a sua ilegalidade), parecendo-me evidente que, para o legislador, na ausência de instruções específicas, o trabalhador não faz o que lhe mandam, o trabalhador cumpre a lei, é essa a sua obrigação central e primeira.

Se alguém pede um documento administrativo - todos são públicos, com a excepção dos que a lei prevê que não sejam - a um funcionário e o funcionário não garante o acesso a esse documento, essa é uma responsabilidade individual e funcional do trabalhador, que escolhe não cumprir a lei (escusa-se de argumentar que tem de pedir autorizações a quem quer que seja, o código do procedimento administrativo é claríssimo "Artigo 59.º Dever de celeridade O responsável pela direção do procedimento e os outros órgãos intervenientes na respetiva tramitação devem providenciar por um andamento rápido e eficaz, quer recusando e evitando tudo o que for impertinente e dilatório, quer ordenando e promovendo tudo o que seja necessário a um seguimento diligente e à tomada de uma decisão dentro de prazo razoável.").

Se alguém emite um parecer que não cumpre a estrutura essencial de um parecer - descrição dos factos, descrição da legislação aplicável aos factos, parecer daí resultante - e, por essa razão não cumpre a lei - ou porque contraria o disposto na lei, ou porque invoca razões não previstas na lei - esse alguém é responsável por essa opção.

Claro que há uma responsabilidade dos seus dirigentes em aceitar, quanto mais não seja por omissão (a lei defende os dirigentes isentando-os de responsabilidades se seguirem o que está escrito nos pareceres, ao contrário do que acontece se resolverem contrariar os pareceres, razão pela qual os dirigentes preferem pedir, informal e ilegalmente, aos técnicos que escrevam um parecer diferente, a despachar em sentido contrário ao do parecer), mas antes dessa responsabilidade do dirigente, está a responsabilidade do funcionário que escolheu ignorar (o mais frequente) ou contrariar a lei.

O que me parece ser o problema central da administração pública é este intrincado de desresponsabilização (para o funcionário é irrelevante se mais tarde alguém demonstra que a sua acção ou omissão foi ilegal, para o dirigente o mais seguro é dizer amén aos pareceres, sem discutir a sua legalidade, até porque também para ele é irrelevante se a sua unidade orgânica cumpre ou não a lei) que tem origem no equívoco sobre a responsabilidade base do funcionário público.

São muito raros os dirigentes de topo e os dirigentes políticos, e os consultores de gestão e de reformas, que todos os dias de manhã repetem, ao espelho, o que deveria ser uma máxima posta em cima de cada porta existente na administração pública:

"O funcionário deve lealdade aos seus dirigentes, mas fidelidade só deve à lei".

E deve ser responsabilizado por cada uma das vezes que, por acção ou omissão, não cumpre a lei, mesmo que a pretexto de saber a opinião (irrelevante) do seu superior hierárquico sobre a aplicação da lei.

A religião do eucalipto

por henrique pereira dos santos, em 22.08.22

"Enquanto andarmos a falar de fogos e combustíveis e necessidades de gestão com utopias de rendimento e não pensarmos na questão da água e da erosão e da criação de solo, promovendo uma floresta de baixa exigência, continuamos nisto. Sempre com putativos lucros privados e "nacionalização" dos custos e dos prejuízos, directos e difusos, como gostam os apóstolos do profeta Friedman ..

...

"nacionalizados"são os custos e prejuízos, os custos de combate a incêndios, por exemplo.

...

na equação os putativos, prometidos, lucros são privados e, nessa equação, não entram os custos e riscos gerais. Não entram os custos com o combate a incêndios, não entram os custos com a diminuição da recarga de aquíferos, etc, etc. Esses são suportados pela sociedade. O ponto é que não há sustentabilidade sem inserir essas questões na equação e sem regulamentar devidamente. Pagando, por exemplo, a quem implemente uma floresta com menores riscos e mais capaz de promover a recarga de aquíferos, a formação de solo, a manutenção de humidade. Uma floresta que não seja tão exigente em manutenção e vigilância, o que até diminui os custos de exploração.
Ou então não, e continuamos a fazer mais do mesmo à espera que os resultados sejam diferentes ...

...

O neo-liberalismo econômico é muito lindo porque tem sempre a sociedade através do estado a limpar os estragos que faz ... A área máxima de monocultura de eucalipto sustentável, a meu ver, é bem menor do que aquela que existe."

As citações são comentários a um post fofinho sobre eucaliptos e a necessidade de equilibrar todos os interesses em presença.

Não são de uma pessoa que nunca ouviu falar do assunto, são de uma pessoa com décadas de experiência em conservação da natureza, e anos de dirigente da administração pública nesse domínio.

O que me interessa aqui não é a constatação da quantidade de afirmações sem qualquer base factual ou científica, o que me interessa aqui é a repetição da ideia de que fazer gestão com retorno é inegavelmente uma utopia, mas enunciar amanhãs que cantam, pagando a quem faz o que se pretende, sem explicar como se lá chega, com que instrumentos, não é uma utopia, é uma evidência.

Já agora, com que gestão ou ausência dela, se chega onde se quer? E por que razão se critica a situação actual, como filha do liberalismo económico, quando se está a falar de um sector pesadamente regulamentado como um todo e, sobretudo, pesadamente regulamentado no que diz respeito à produção de eucalipto?

Ninguém consegue explicar como este discurso mágico penetra tão fácil e profundamente nas elites do país, apesar das evidências que o contrariam, sistematicamente atiradas para o caixote do lixo pela mais difundidas das teorias de conspiração: "os interesses económicos controlam isto tudo, eles é que nos têm na mão, apesar dos governantes serem escolhidos por nós".

Domingo

por João Távora, em 21.08.22

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo, Jesus dirigia-Se para Jerusalém e ensinava nas cidades e aldeias por onde passava. Alguém Lhe perguntou: «Senhor, são poucos os que se salvam?». Ele respondeu: «Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, porque Eu vos digo que muitos tentarão entrar sem o conseguir. Uma vez que o dono da casa se levante e feche a porta, vós ficareis fora e batereis à porta, dizendo: ‘Abre-nos, senhor’; mas ele responder-vos-á: ‘Não sei donde sois’. Então começareis a dizer: ‘Comemos e bebemos contigo e tu ensinaste nas nossas praças’. Mas ele responderá: ‘Repito que não sei donde sois. Afastai-vos de mim, todos os que praticais a iniquidade’. Aí haverá choro e ranger de dentes, quando virdes no reino de Deus Abraão, Isaac e Jacob e todos os Profetas, e vós a serdes postos fora. Hão-de vir do Oriente e do Ocidente, do Norte e do Sul, e sentar-se-ão à mesa no reino de Deus. Há últimos que serão dos primeiros e primeiros que serão dos últimos».

Palavra da salvação.

Comentário: Jesus diz-nos que todos os homens são chamados à salvação e a viverem com Deus; mas que este desígnio de Deus tem de ser acolhido por cada um, que terá, por isso, de se esforçar por passar pela porta estreita, não vá, por negligência, ficar de fora da sala do banquete do reino de Deus.

Epílogo

por henrique pereira dos santos, em 20.08.22

"Dias difíceis. Homens e máquinas numa labuta permanente na defesa da Floresta. Os incêndios na Serra da Estrela, em particular o violento reacendimento de segunda-feira, atingiu a propriedade da FlorestGal em Famalicão da Serra.
Conseguimos preservar a maioria do capital natural, com a colaboração exemplar da AFOCELCA e da Junta de Freguesia de Famalicão da Serra que se mantêm empenhados, atentos e vigilantes, no combate, na ação de rescaldo e na prevenção de eventuais reacendimentos. Três etapas críticas na gestão dos fogos.
Já estamos a trabalhar, de forma integrada, nas ações de recuperação e gestão florestal essenciais para garantir o futuro. O melhor combate aos fogos é uma gestão florestal, #resiliente, #sustentável e com #valor. Agora, como sempre #CuidamosdaFloresta"

Recebi este post da Florestgal.

Fiquei com a sensação de que não tarda muito a empresa será extinta: dizem que a Afocelca foi fundamental, não falam em bombeiros, protecção civil, autarquias, teatro de operações, falta de acessos, variações do vento, número de operacionais, viaturas, meios aéreos e ainda têm o desplante de falar com ênfase de rescaldos, depois de terem cometido o pecado de atribuir o problema a um reacendimento e não a fogo posto.

Nas actuais circunstâncias, não me parece haver futuro para quem tem discursos destes sobre este assunto.

Bons costumes

por João Távora, em 19.08.22

Quando o Estado armado em religião laica se apropria da moral pública com a pretensão de criar cidadãos virtuosos, é natural que a coisa faça ricochete. Pelo caminho não mais iremos ter paz e ser livres, transformados em policias dos costumes dos outros. Quando o lugar privilegiado do Absoluto era dentro duma Igreja, sobrava muito mais sentido de humor. Abriram uma caixa de pandora, é o que é. Não foi por certo para isto que se fez o Maio de 68.

Screenshot_20220819-200616_Observador.jpg

Na véspera da terceira vaga

por João-Afonso Machado, em 19.08.22

Foi hoje oficialmente declarada a terceira vaga de calor do ano, pelo que, tudo a postos, só resta placidamente aguardar os seus efeitos.

Excluamos o correrio às praias e as janelas fechadas, longe do litoral, salvaguardando o bem estar das pessoas. Vamos logo ao "covid" da maré, os incêndios.

Temos-los por certos e pré-anunciados. (Uma vez mais, e sempre, desculpe-me o amigo e colega de blog, o Henrique Pereira dos Santos...)

Temos-los anunciados, pois. Não falo de reacendimentos, tão frequentes e tão "compreensíveis", mas de novas tragédias, já auguradas e supostamente - o paradoxo! - prevenidas.

Arderão - é uma fatalidade! - mais uns milhares de hectares de floresta a roubar ao território nacional. Como se miríades de óculos perdidos e vidros de garrafas esquecidos ao sol inflamassem o folhedo. Se não isto, outras bizarrias quaisquer ou a atávica propensão lusa para a negligência! Que a culpa é da ventania... E a obra dos incendiários (este ano detidos em dobro do transacto), proeza de meia dúzia de tontinhos...

É aqui que a porca torce o rabo. Sem dúvida, as condições naturais estão criadas. Já só falta a mão humana e intencional para o grande momento televisivo. O ano promete...

Este nosso ardido País apenas pode defender-se de dois modos: o primeiro, consistente numa prevenção eficaz, para a qual decerto não dispõe de meios; o segundo, estudando o perfil do incendiário, assunto demorado, complicado e tardio, longe das omnipresentes comissões governamentais, de custos abundantes e dossiers guardados nas gavetas.

Haverá ainda uma terceira opção - deitar o Portugal urbanizado abaixo e recomeçar tudo - só para protecção das gentes e do seu património. O mais será sempre paisagem negra.

Andorinhas e Primaveras

por henrique pereira dos santos, em 19.08.22

Manuel Malva, que fundou e preside a uma associação de conservação da natureza, fez um post no seu facebook e que reproduzo no fim (sendo o post e as fotografias públicas, suponho que estou dentro dos limites do respeito pelos outros e as fotografias reproduzo-as no correr do meu texto por me parecer mais claro).

O post tem sido reproduzido com entusiasmo, como uma demonstração de que ser a espécie A ou B altera alguma coisa de relevante num incêndio, tese que abundantemente tenho procurado refutar.

O post é especialmente bem feito, as fotografias são óptimas e as alegações muito convincentes, embora na linha clássica de argumentação de que não é preciso de olhar para os cálculos de Copérnico, de tal maneira é evidente que é o Sol que anda à volta da Terra, só não vê quem não quer.

E é exactamente por essas características que acho que vale a pena olhar para esse post com interesse e atenção.

A tese base é a de que os castanheiros pararam o fogo na serra da Estrela, e a demonstração é esta fotografia, por exemplo

1.jpg

Por entre os muitos comentários dando vivas à demonstração de que os fogos se resolvem plantando espécies diferentes, há um ou outro comentário de gente com mais experiência em métodos científicos de interpretação da realidade, como Carlos Aguiar, que fazem perguntas relevantes: "Qual a orientação da encosta retratada nas fotos?".

Se houvesse dúvidas sobre a relevância da pergunta, outra fotografia responde a essa dúvida.

2.jpg

De repente, não temos apenas um factor - o tipo de vegetação - mas um segundo factor, a topografia.

De resto, classicamente, é sempre difícil saber se é o tipo de vegetação que cria determinado ambiente, ou se é o ambiente existente que gera um determinado tipo de vegetação, mas deixemos essa variação do problema do ovo e da galinha.

Paulo Fernandes, cauteloso, introduz complexidade e conhecimento na interpretação: "O efeito topográfico é muito óbvio, via exposição (afetando humidade do combustível) e sentido do declive (propagação do fogo a favor versus contra, incluindo maior abrigo do vento). É muito difícil separar estes efeitos dos da vegetação. Num estudo incluindo numerosas situações deste tipo que fizemos há uns anos o efeito da mudança do tipos de vegetação contribuiu para metade do efeito, a outra metade deveu-se a factores topográficos, relacionados com a propagação do fogo, e relacionados com a estrutura da vegetação. E nesse estudo apenas selecionámos situações onde o castanho/preto deu lugar ao verde, ignorando as transições de tipo de floresta em que a severidade do fogo não se alterou. Não esqueçamos que em Portugal os castinçais são o tipo de floresta mais selecionado pelo fogo, ou seja, aquela que mais arde proporcionalmente ao que existe para arder. ... Já agora deixo aqui as áreas ardidas por folhosa autóctone neste incêndio na sua 1ª fase (14700 ha): Azinheira - 103 ha Carvalho - 2025 ha Castanheiro - 748 ha ... Eucalipto 99 ha, pinhal bravo 8595 ha, outros pinheiros + outras resinosas 1066 ha, vidoeiros e outras folhosas 865 ha.".

Resumindo até aqui, a afirmação peremptória de que foram os castinçais (e outras folhosas) a parar o fogo é uma afirmação exagerada, podem ter contribuído, sim, mas dificilmente se lhe pode atribuir esse efeito, por si só (e esse efeito, provavelmente, teria limitações ainda maiores se o fogo tivesse uma intensidade suficiente para ser um fogo de copas, o que manifestamente não é o caso, como se pode ver pela cor das copas na área ardida, não estão calcinadas, estão castanhas).

Até aqui estive a limitar a interpretação que é possível fazer do que se vê das fotografias, a partir daqui vou assumir que sim, que as coisas são exactamente como descritas e interpretadas por Manuel Malva, e explicar por que razão o modelo ideológico de interpretação que foi feito tem um efeito contraproducente na gestão sensata do fogo em Portugal, reforçando os mitos associados ao pensamento mágico, afastando as políticas públicas da racionalidade que poderia resultar do conhecimento científico e técnico existente.

O que se pretende dizer, com o post, é que basta substituir pinheiros e eucaliptos por folhosas autóctones, e o problema dos fogos resolve-se.

Independentemente da discussão do início do post sobre a validade dessa ideia, ainda que seja verdadeira, é preciso explicar como se passa da situação actual para uma situação de matas maduras de folhosas.

Há muitas e boas razões para que as políticas públicas e a filantropia apoiem a expansão da área de matas maduras de folhosas, eu próprio tenho, na medida do que posso e me parece razoável, contribuir para isso, incluindo ser co-fundador de uma associação de conservação da natureza focada nesse objectivo.

Mas de entre essas razões, a questão do fogo é das mais frágeis, quer porque para um povoamento maduro ter efeito relevante sobre os fogos é preciso que tenha maturidade suficiente para que o ensombramento influencie o sub-coberto, quer porque essa maturidade se adquire com tempo, tempo esse que será, forçosamente, muito aumentado pelo facto de entretanto ocorrerem vários fogos.

Ou seja, não é a opção por plantar esta ou aquela espécie que deveria ser relevante para as políticas públicas (e para as opções de gestão assentes na filantropia), mas sim o modelo de gestão para obter os resultados que se pretendem, conhecendo o padrão de fogo prevalecente e os seus efeitos.

E para a definição desse modelo de gestão é fundamental definir os meios necessários, em que prazos e quais as origens de recursos que se podem mobilizar para executar essa gestão, ao longo dos mais de trinta anos (sendo muito, muito optimista e fazendo uma gestão especialmente eficaz) necessários para que as matas de folhosas tenham o mínimo de maturidade que se pretende (não discutindo a extensão desse tipo de matas que tornariam relevante para a gestão do fogo em Portugal e a sua exequibilidade sem um modelo económico associado que garanta a sustentabilidade da gestão).

Ao desviar as atenções das necessidades de gestão, quer da necessidade da sua sustentabilidade, quer do seu foco na gestão dos combustíveis finos, para uma solução mágica - plantar as espécies certas - o que se faz é influenciar as políticas públicas no sentido de cometer os erros que têm estado a ser cometidos, por exemplo, com os planos de transformação da paisagem e reforçar a ideia de que a economia é um problema para a gestão dos fogos, e não um dos instrumentos a que podemos deitar a mão para uma gestão sensata, socialmente aceitável, do fogo.

E, na verdade, como me lembrou a leitura recente de umas partes do relatório acerca da arborização geral do paiz, de 1868, este viés cognitivo das elites sobre os processos de gestão da paisagem, tem um longo historial que nos deveria levar a ser mais cautelosos ao olhar para processos complexos que compreendemos mal.

O país tem pago muito caro a ansiedade que nos leva a acreditar que o Sol anda à volta da Terra e que só não vê quem não quer, o que significa que se não estamos no paraíso, é porque "eles não querem".

Texto de Manuel Malva:

"Serra da Estrela: os castanheiros no caminho do fogo
Na envolvente de Manteigas, de entre as várias dezenas de hectares de castinçal (e outras caducifólias) que estiveram na rota do fogo, as perdas verificam-se diminutas, num incêndio que teve uma evolução impetuosa e que pouco poupou à sua passagem. Na verdade, o fogo entrou em grande parte do perímetro dos bosques de folhosas (castanheiros, faias, bétulas, carvalhos), mas as chamas rapidamente diminuíram de intensidade, fenómeno promovido pela capacidade que estes povoamentos têm de controlar de forma natural o crescimento de matos, bem como por promoverem um ambiente mais húmido e fresco no seu interior, pouco propício à inflamabilidade. Desta forma, fomentam frequentemente uma abrupta diminuição da intensidade das chamas ou mesmo a sua própria extinção, numa distância que por vezes se revela surpreendentemente curta.
O que seria deste incêndio se tivesse encontrado uma área muito mais representativa de caducifólias ao longo do seu percurso, nomeadamente nas encostas expostas a norte, sobranceiras a Verdelhos, por onde as chamas desceram ao vale do Zêzere? Provavelmente não se teria propagado à face oposta da encosta, momento a partir do qual começou a assumir proporções incontroláveis.
Se é verdade que esta não é uma solução única nem tampouco extensível a todo o país, também é verdade que poderia estar a produzir resultados muito relevantes numa porção considerável do território, onde as condições edafoclimáticas permitem explorar as potencialidades dos bosques de caducifólias enquanto retardadores da progressão do fogo. Importa pois aliar este fator a vários outros que já têm vindo a ser apresentados publicamente em diversas ocasiões, que não só tornem possível um ordenamento da propriedade e da paisagem, como que permitam criar descontinuidades na vegetação de forma responsável e sustentável, nomeadamente através da promoção do pastoreio e do incentivo da prática agroflorestal.
Que possamos, através destas imagens (que qualquer um pode comprovar visitando a bonita envolvente de Manteigas), absorver alguns ensinamentos que a natureza coloca ao nosso dispor, os quais, para alguns, não serão uma novidade, mas que, lamentavelmente, continuam a ser completamente ignorados pelos decisores na hora de implementar uma gestão da paisagem natural mais sensata, consciente e com visão de futuro. E urge fazê-lo, porque do que é possível perspetivar apenas se vislumbra um irremediável agudizar deste ciclo vicioso, o qual a minha geração vai inevitavelmente receber em mãos: um país pronto a arder descontroladamente todos os Verões."

Bons planos

por henrique pereira dos santos, em 18.08.22

Aurora Carapinha, primeiro minha colega, depois minha professora, fez um comentário sobre a serra da Estrela que transcrevo parcialmente:

"Estrela, a serra, que arde.
Tudo estava lá: a serra ,a sua orografia, a seca severa, as alterações climáticas,o abandono rural. Tudo estava lá.
O que é que lá não estava?
Não estava lá um conjunto de medidas que estão definidas em vários estudos , que foram desenvolvidos ao longo de vários anos ,sobre gestão florestal, abandono rural, alterações climáticas mas que não são implementadas e são guardadas em gavetas dos vários ministérios porque parece que basta fazer os estudos ( fazendo lembrar Umberto Eco quando afirmava que se confundia tirar fotocópias de um livro com ler o livro) .
A Estrela arde ... e já falam novamente em produzir mais estudos ( não sei se haverá tanta gaveta para tanto estudo) .
Haverá , talvez, estudos em falta ,mas talvez fosse bom começarmos a implementar as medidas dos vários estudos que se têm desenvolvido ao longo de muitos e muitos anos. Haja vontade política para as implementar.
Não as implementar isso sim é negligência."

Por coincidência, Franciso Rego (com quem fiz um ou outro trabalho e que conheço pessoalmente há anos), na mesma altura, a propósito da intenção de avaliação do fogo da Estrela (e, já agora, de todos os maiores), diz em entrevistas esta semana que há um conjunto de coisas propostas pela comissão a que presidiu, que não foram aplicadas por isto ou aquilo, sendo o problema a falta de vontade em aplicar o proposto.

Os dois, e não são os únicos, repetem um velho mito: temos planos muito bons para gerir a paisagem, mas alguém, por razões obscuras, não os quer aplicar, do que resultam os péssimos resultados que são relevantes na altura (podem ser os fogos, podem ser as cheias, pode ser a qualidade estética, pode ser a expansão das monoculturas, o despovoamento, a perda de solo, enfim, o que se escolher na altura como péssimo, resulta do facto de alguém não aplicar os excelentes planos e propostas que existem).

Sempre que ouço este argumento lembro-me de duas pessoas: Ilídio de Araújo e Carl Steinitz.

O primeiro, porque há muitos anos escreveu que o mais relevante de um plano é o que sobraria se no dia da sua apresentação um mafarrico qualquer queimasse todos os seus elementos materiais.

O segundo porque passou o tempo todo das aulas que tive com ele para o meu doutoramento a afirmar que "a boa tese é aquela que está acabada".

Eu tendo a dizer que aos planos se aplica o mesmo critério de avaliação: o bom plano é o que é aplicado, a generalidade dos que não são aplicados não sofrem nenhuma perseguição, são simplesmente maus porque são inaplicáveis.

O plano serve a gestão, se a gestão não aplica o plano é, frequentemente, porque quem fez o plano achou que a sua missão era definir a gestão e não servir os propósitos da gestão.

Para não sair dos fogos e das soluções que têm andado na berra, posso dar o exemplo de uma proposta de plano (ainda em fases preliminares, não acredito que as suas propostas finais sejam essas, mas serão outras influenciadas por estas ideias) que pretendia transformar a paisagem de um concelho reduzindo a área de pinheiro e eucalipto de mais de 70% da área do concelho para menos de 10%, sem explicar como, com que pessoas, com que recursos, servido porque economia, dando resposta a que aspirações de vida das pessoas e com base na ideia mágica de que, fazendo isto, ficava resolvido o problema dos fogos.

É verdade que a generalidade dos planos e das propostas que existem não chegam a este extremo de desfasamento em relação à realidade, mas o seu distanciamento em relação ao quotidiano concreto, das pessoas concretas, a que a gestão tem de dar respostas concretas, é mais que suficiente para o seu destino habitual: a gaveta.

Não se pense que isto resulta de haver algumas pessoas que vivem nas nuvens, mesmo estratégias longamente trabalhadas por centenas de pessoas, por vezes aprovadas por unanimidade ou esmagadora maioria na Assembleia da República, como a estratégia para as florestas, da conservação da natureza, a lei de bases do ambiente, têm o mesmo destino: não há governo (e parlamento, e sociedade) que consiga executar o que lá está previsto (como a estratégia nacional de defesa da floresta contra incêndios, para dar outro exemplo dentro do mesmo tema base).

Porque as pessoas são más, porque há interesses obscuros, porque o povo é ignaro?

Não, claro que não, é simplesmente porque em todo o processo (o tal que Ilídio de Araújo considerava realmente relevante, mais que as peças materiais dos planos), as pessoas concretas, as suas vidas, o seu quotidiano, o que fazem para ter pão na mesa e as suas aspirações, foram subvalorizadas e, por isso, resultaram em planos que não são úteis para ninguém.

O estado do Estado

por henrique pereira dos santos, em 17.08.22

IMG_20220817_194258.jpg

Fotografia, propositadamente má para dificultar a identificação das pessoas, da entrada de um serviço público que abrirá treze horas depois.

Cobardia e irresponsabilidade

por henrique pereira dos santos, em 17.08.22

Eu sei que classificar declarações de alguém como sintoma de cobardia e irresponsabilidade é bastante agressivo.

Sei também que fazê-lo a propósito de umas declarações de um militar em funções, é ainda mais agressivo para esse militar.

Ainda assim, acho que vale a pena fazê-lo porque estou farto de paninhos quentes nesta matéria, entre outras razões, porque esses paninhos quentes têm consequências muito graves para vida de muita gente.

"Sei que a GNR e a Polícia Judiciária têm desenvolvido um conjunto de medidas de incremento nas suas áreas de investigação, de forma que haja um detetar e, se possível, apanhar as pessoas que ao longo destes dias têm estado a meter fogo ... A única coisa que a nós nos espanta é três reativações simultâneas, ao mesmo tempo, e com uma violência muito grande, num incêndio que há dois dias estava como dominado. Deixa-nos expectantes, relativamente àquilo que possa ser o resultado dessas investigações".

O Senhor Presidente da Autoridade Nacional de Emergência e Protecção Civil, pelos vistos, não se inibe de afirmar, preto no branco, que pela serra da Estrela andam uns incendiários a jogar às escondidas com um dispositivo de mais de mil e quinhentas pessoas para pôr fogo onde ele já existe.

Mais grave que isto, só a quantidade de jornalistas que ouvem isto e não perguntam como raio e com que objectivo uns incendiários tão sofisticados que se conseguem furtar a um dispositivo de mais de mil e quinhentos homens, andam a "meter fogo" naqueles locais.

Pessoas sensatas e sem responsabilidades no assunto dizem coisas que é impossível o Senhor Presidente da Autoridade Nacional de Emergência e Protecção Civil não saber: " numa área ardida com esta extensão, aparecerem dois, três ou mais pontos quentes ativos depois de um aumento da intensidade do vento é mais do que normal. Levantar suspeições deste género quando às 8h da manhã já o SEVIRIS registava dois pontos quentes, que foram aumentando em número e no valor da potência radiativa medida ... Uma hora antes da "oficialização" da reativação (depois das 17h), já havia medições acima dos 800 MW".

Pessoas conhecedoras e sem responsabilidades no assunto dizem coisas que é impossível o Senhor Presidente da Autoridade Nacional de Emergência e Protecção Civil não saber: "Felizmente que existe o IPMA (entre outras fontes) para esclarecer as dúvidas do cidadão preocupado e eventualmente contaminado por teorias conspiratórias. As primeiras reativações do novo fôlego do incêndio da serra da Estrela, e que já terá acrescentado mais de 8000 ha à contabilidade anterior (este texto foi publicado por volta das cinco da manhã do dia 16 de Agostoe motiva quase de imediato um comentário irónico: "O super herói dos incendiários consegue passar despercebido em todo o dispositivo montado neste incêndio e meter 3 ignições junto ao queimado, dois no Vale da Amoreira e outro a sul de Videmonte." ), deram-se de manhã cedo (a norte) e à hora do almoço (Vale de Amoreiras). As horas reais terão sido mais cedo, já que um certo limiar de energia tem que ser alcançado para serem detectáveis pelo satélite".

Pessoas sem responsabilidades no assunto, contam histórias (que, evidentemente, não tenho maneira de validar e portanto reproduzo a partir da minha intuição de que, no essencial, retratam bem a situação, mas com a ressalva de que não tenho maneira de verificar cada facto referido) que é possível que o Senhor Presidente da Autoridade Nacional de Emergência e Protecção Civil não saiba, mas cuja responsabilidade de não saber é sua (um militar, brigadeiro general, que se esquece de que quando se perde uma guerra, a responsabilidade é sempre dos generais, nunca dos soldados, é um militar que eu não gostaria de ter como meu comandante): "... eu estive lá. ... Exatamente no setor onde ocorreram as reativações, mas durante as operações de rescaldo e consolidação efetuadas na véspera. E o que vi foi que a validação dos processos não estava a ser efetuada de forma rigorosa. Os segmentos de criação de linhas de segurança efetuados por pessoal apeado não estavam ser executados de acordo com os protocolos de rescaldo estatuídos. Pior, o Comandante de Setor "correu" dali para fora quem "de amarelo" procedia a essas operações, de acordo com as regras, como se de "virus se tratasse". ... As rendições das equipas e brigadas em vigilância não estavam a ser feitas nos segmentos do setor à sua guarda NOS LOCAIS, com passagem de informação de pontos sensíveis ... dando CONSISTÊNCIA E CONTINUIDADE aos trabalhos. Assim, quem estava no terreno saiu e quem chegou começou tudo de novo ... Sobre o facto de ser "estranho" se terem verificado TRÊS reativações em simultâneo, nada de especial se verifica. Durante todo o tempo em que estive na Serra, em rescaldos, patrulhamento e vigilância, fiz monitorização meteorológica em tempo real, digital, e percebi, que sucessivamente, a evolução dos principais fatores no sentido do agravamento determinava mais que uma reativação, mais que duas e mais que três, em pontos distantes, e com exposições muito diferentes, a norte, a este, oeste ou sul, e em altitudes diversas, (até aos 1220 metros) quer nos limites dos trabalhos executados por máquinas de rastos, quer no interface queimado/verde, como dentro da área queimada em ILHAS. Parece-me óbvio que os fatores meteorológicos que espevitaram as lacunas na consolidação, ao ponto de reativar o incêndio, nunca se verificariam num único local já que se fizeram sentir na globalidade da área atingida ...".

O que está em causa não é pendurar num pelourinho este ou aquele responsável por decisões, eventualmente erradas e tomadas sob pressão, o que está em causa é que o responsável máximo pelo nosso sistema de protecção civil, perante uma situação que manifestamente correu mal - e há razões para correr mal que estão fora da nossa capacidade de controlo, como as alterações de condições meteorológicas - prefere inventar teorias de conspiração em vez de partir da hipótese mais plausível e razoável, só porque esta última tem componentes que poderão responsabilizar a organização que comanda: os eventuais erros na consolidação e rescaldo do incêndio, ou os eventuais procedimentos que, podendo não ser classificados como erros, têm uma larga margem de progressão que permita fazer melhor na vez seguinte.

A palermice de sacar das suspeições de fogo posto nas reactivações do incêndio é isso mesmo, uma palermice, quando dita por quase todos os portugueses.

Dita pelo Senhor Presidente da Autoridade Nacional de Emergência e Protecção Civil, não é uma palermice, é cobardia e irresponsabilidade.


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