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O que aconteceu à canção francesa?

por João Távora, em 31.07.22

Nos meus tempos de juventude, o gosto musical era moldado pela música que os nossos pais ou tios ouviam no gira-discos, mas principalmente pela música que passava nas estações de FM em programas mais ou menos comerciais ou elitistas. Certo é que, aqui chegados, a música popular francesa desapareceu quase completamente do espaço público português. É verdade que ao invés temos mais e muito variada oferta nacional e a música popular brasileira continua a dar cartas, mas é estranho que a canção francesa se tenha eclipsado. Os novos modos de consumo não justificam tudo.

Domingo

por João Távora, em 31.07.22

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo, alguém, do meio da multidão, disse a Jesus: «Mestre, diz a meu irmão que reparta a herança comigo». Jesus respondeu-lhe: «Amigo, quem Me fez juiz ou árbitro das vossas partilhas?». Depois disse aos presentes: «Vede bem, guardai-vos de toda a avareza: a vida de uma pessoa não depende da abundância dos seus bens». E disse-lhes esta parábola: «O campo dum homem rico tinha produzido excelente colheita. Ele pensou consigo: ‘Que hei-de fazer, pois não tenho onde guardar a minha colheita? Vou fazer assim: Deitarei abaixo os meus celeiros para construir outros maiores, onde guardarei todo o meu trigo e os meus bens. Então poderei dizer a mim mesmo: Minha alma, tens muitos bens em depósito para longos anos. Descansa, come, bebe, regala-te’. Mas Deus respondeu-lhe: ‘Insensato! Esta noite terás de entregar a tua alma. O que preparaste, para quem será?’. Assim acontece a quem acumula para si, em vez de se tornar rico aos olhos de Deus».

Palavra da salvação.

Comentário: Jesus não olha para o mundo e a vida com a amargura do sábio de Israel (primeira leitura). Mas, através de uma meditação austera, faz-nos compreender que não é no espírito de ganância, pelo qual todos, ricos e pobres, somos tantas vezes levados, que está o verdadeiro sentido da vida, mas em cada um “se tornar rico aos olhos de Deus.”

Insiste, insiste

por henrique pereira dos santos, em 30.07.22

Na sequência do meu post anterior, gostaria de reproduzir duas fotografias de Marco Ribeiro, que fui buscar a uma publicação do Paulo Fernandes.

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As duas fotografias correspondem a dois pinhais ardidos por estes dias, no mesmo fogo, o de Vila Pouca de Aguiar.

Para quem está menos habituado a estas imagens (e eu percebo pouco disso, mas à força de tanto ouvir, sempre consigo ver um bocadinho mais do que via há uns anos), repare-se bem nas copas dos pinheiros num e noutro caso e, já agora, na medida do possível, no solo.

No primeiro vemos uma afectação relevante da copa dos pinheiros - não estão totalmente consumidas, mas estão castanhas quando não consumidas - no segundo vemos uma afectação relativamente marginal das copas, que estão evidentemente verdes.

Isto significa que a severidade do fogo (o efeito do fogo sobre a vegetação e o solo) foi muito diferente nestes dois locais, como provavelmente terá sido diferente a intensidade (a quantidade de energia libertada, que naturalmente condiciona a severidade, em combinação com as características da vegetação e solo existentes).

Qual é a diferença fundamental entre estes dois pinhais?

O de baixo tinha sido tratado com fogo controlado há algum tempo (em Fevereiro de 2020), porque é um pinhal gerido, com intervenções técnicas qualificadas.

Em duas imagens, uma ilustração expressiva do que se quer dizer quando se diz que falta gestão ao nosso mundo rural para podermos ganhar controlo sobre o fogo.

Com um dispositivo de combate mais atento e mais empenhado no combate ao fogo florestal, provalmente as oportunidades criadas pela gestão que se referiu acima até teria permitido que tivesse ardido bastante menos, mas esse é outro assunto.

Um caso prático

por henrique pereira dos santos, em 30.07.22

Tenho insistido - e eu sou muito insistente, é verdade - que o mais urgente e prioritário - e as duas coisas podem ser muito divergentes, é verdade - na gestão do fogo, é injectar economia no sistema.

Esta ideia nem é minha, nem levanta grandes objecções, tirando uns maníacos das políticas musculadas, que preferem injectar polícia no sistema, a ideia é largamente aceite.

As divergências acentuam-se quando se tenta passar à prática a ideia, sendo a maior fractura entre os que dizem que a exploração florestal - em sentido lato, inclui a exploração de matos e pastagens pobres - é intrínsecamente rentável, e o problema está nas condições externas - sobretudo a dimensão da propriedade e o risco de fogo - e os que dizem, de forma minoritária, que a exploração florestal é muito pouco atractiva como actividade económica, em grande parte do território.

Por pouco atractiva não se pretende dizer que a pastorícia não é rentável, provavelmente é, em grande parte do território, o que se pretende dizer é que o rendimento que se consegue tirar não paga o esforço das pessoas envolvidas, pelo menos face às alternativas que as pessoas têm para governar a sua vida e o que consideram justo.

Os primeiros tendem a defender políticas à escala da paisagem para gerir o fogo - uma rede de faixas de gestão de comsbutível para criar grandes compartimentos de paisagem que impeçam os fogos de lavrar livremente por extensões imensas - e políticas que visam alterar a estrutura da propriedade - alteração do regime sucessório, cadastro, sistemas de gestão agregada, como ZIFs e afins, etc., para além de subida na escala de valor dos produtos que resultam da actividade.

Os segundos tendem a pôr a tónica no pagamento público dos serviços de ecossistema (praticamente todos defendem isso, trata-se apenas de uma hierarquização diferente das políticas).

Eu estou no segundo grupo e sou dos mais radicais na matéria: grande parte dos problemas identificados e que limitam a competitividade no sector, incluindo o risco de fogo e a questão da propriedade e o acesso à terra, parecem-me sintomas da falta de valor da terra, em resultado da falta de competitividade das actividades que a têm como factor de produção essencial.

Por isso tenho defendido o pagamento directo, sem complicações, aos proprietários e gestores, de um valor a definir - 100 euros por hectare de três em três anos, é o meu ponto de partida -, sempre que os terrenos tenham menos de 50 cm de altura de combustíveis finos.

Francisco Oliveira Miguel sugeriu a simplificação das minhas propostas anteriores, que propunham candidaturas e verificação de resultados pelo Estado, com base na inclusão das organizações de produtores como intermediários na auditoria e processamento de pagamentos após verificação das condições de pagamento, eliminando candidaturas e avaliações: sempre que o proprietário ou gestor acha que está em condições de receber o dinheiro faz um pedido de pagamento à organização de produtores mais próxima, esta verifica que as condições estão cumpridas e paga, tendo o Estado como origem do pagamento e garante de todo o processo.

Ontem, ao ver Marco Ribeiro no jornal da noite, da SIC, a dizer que tinha perdido 15 mil bicas de resina no fogo de Vila Pouca de Aguiar, perguntei-lhe se a empresa aguentava as perdas (não há seguros que aceitem cobrir estes riscos).

Conheço o Marco há já algum tempo, quando trabalhava com António Salgueiro em fogos controlados, tenho acompanhado o que tem vindo a fazer desde que António Salgueiro teve de parar o trabalho da GIFF, a empresa de gestão integrada de fogos florestais que geria, e o Marco criou a Raízes In, que trabalha nos mesmos sectores: gestão integrada de fogos florestais, incluindo uma componente expressiva de produção de resina, um negócio manifestamente no limite da viabilidade comercial, mesmo nas melhores zonas resineiras do país.

Quer António Salgueiro, quer Marco Ribeiro deram um apoio fantástico à Montis nos fogos controlados que foram feitos, e foi durante a realização desses fogos que mais aprendi com eles (eles queimavam, eu fazia perguntas sobre o que ia vendo).

Por tudo isto, dei por mim a avaliar mentalmente os efeitos dos diferentes tipos de medidas propostas para a gestão do fogo, num caso como o do Marco Ribeiro.

Todas as medidas relacionadas com cadastro, regime sucessório, acesso à terra e afins, e as medidas de criação de faixas de combustíveis, mesmo que tenham os resultados esperados, demorariam muito a ter qualquer efeito que a empresa do Marco pudesse sentir, numa altura em que um fogo coloca a actividade resineira da empresa no limite da falência (digo eu, o Marco diz que tem apoio à contratação de dois resineiros, tem algumas prestações de serviços relacionadas com a manutenção de faixas de gestão de combustível, portanto se a produção e os preços não forem um desastre, acha que se aguenta).

Mas o pagamento de 100 euros por hectare gerido pela empresa, onde é feita gestão de combustíveis, tinha um efeito imediato e efeitos de médio e longo prazo que dariam perspectivas muito diferentes à empresa.

É certo que há uma parte relevante dos investimentos e gestão que deve ter sido feita com apoios comunitários e, portanto, seria preciso acautelar os duplos pagamentos, mas também é certo que a Raízes In viu negada a aprovação de projectos de gestão de combustíveis, não sei se próprios, se como prestador de serviços, com base em regras a que falta sensatez.

O exemplo mais evidente, para mim, é a restrição, feita frequentemente pelos serviços de conservação da natureza, à forma como se faz a gestão de combustíveis, impondo que em algumas áreas apenas possa ser feita por meios moto-manuais, em vez de apenas impôr uma restrição de não afectação da camada superficial do solo. Parece uma minudência quase irrelevante, toda a gente concorda com a necessidade de garantir a conservação do solo, mas a diferença entre uma e outra formulação é que na primeira o fogo controlado e o pastoreio são técnicas excluídas, apesar dos efeitos se conservação do solo serem os mesmos e o seu custo ser um quinto a um décimo da limpeza moto-manual. E essa pode ser a diferença entre ser possível gerir de forma sustentada uma área, ou deixá-la ao abandono.

Com este exemplo, talvez excessivamente técnico, apenas quis realçar que não há soluções simples para a gestão sustentada do fogo, mas o que verdadeiramente me interessa é tentar perceber o efeito de médio e longo prazo (o imediato já vimos) de uma medida como a que tenho defendido.

Se o rendimento da actividade for reforçado nos termos que tenho defendido, com base no interesse colectivo de gestão de combustíveis, o que acontece à empresa do Marco é ganhar solidez e margem para absorver os choques provocados pelos fogos, ou seja, diminui o risco associado ao fogo - já não contando com a diminuição de risco global pelo aumento de área gerida - e ganha capacidade para expandir a actividade para áreas que hoje não consegue gerir por não serem rentáveis, aumentando a área de combustíveis gerida.

Com isso temos mais emprego, mais produção, mais gestão e, consequentemente, uma gestão mais sensata do fogo.

É certo que estes resultados se obtêm com base em dinheiro dos contribuintes.

Assim sendo, e verificando-se que os mercados actuando livremente - eu sei que podem ser melhorados, diminuindo os custos de transação da terra, diminuindo as taxas e impostos relacionados com estas actividades, tornando mais eficientes os mercados, nomeadamente através do aumento de informação aos consumidores sobre os efeitos das suas opções de consumo, da melhoria dos canais de comercialização e da orientação das políticas de compras do Estado para a inclusão de factores de decisão relacionados com a gestão de combustíveis, etc. - não conseguem dar resposta à necessidade social de gestão do fogo, o que resta discutir, na definição de políticas públicas, é a eficiência de cada euro dos contribuintes gasto na gestão do problema.

Sem ser economista, sem saber fazer bem as contas, a minha intuição é a de que as propostas que tenho vindo a defender não só têm efeitos imediatos, ao contrário da resolução da magna questão da propriedade, como são muito mais eficientes na obtenção de resultados: o aumento de área com gestão de combustíveis finos por cada euro gasto dificilmente é maior com qualquer das outras propostas de políticas públicas em discussão.

Resta a questão do efeito diferenciado desse aumento quando é estrategicamente localizado no território ou quando é atomisado como é forçoso que aconteça com as propostas que defendo, mas tenho as maiores dúvidas de que o efeito da localização estratégica da intervenção ultrapasse o efeito de aumento global da área gerida, sobretudo com um dispositivo de combate que não está treinado para aproveitar as oportunidades que a gestão cria e que desistiu do combate florestal para se concentrar na protecção de casas.

Paisagens e pessoas

por henrique pereira dos santos, em 28.07.22

O título deste post resulta da conversa que o José Miguel Cardoso Pereira e eu tivemos um dias destas na RTP3, de que gostei bastante e me pareceu muito interessante (ver aqui, a partir do minuto 49).

Mas acho que surgiu espontaneamente a partir da memória deste blog, que em tempos frequentava para ler os posts do Carlos Aguiar (hoje o blog parece-me mais centrado nas plantas que nas relações entre as plantas e as pessoas).

E também devo ter sido influenciado pelas minhas leituras recentes do que escreveu o Professor Francisco Caldeira Cabral (pediram-me uma coisa que não vou fazer sobre os 80 anos do ensino de arquitectura paisagista, mas desse pedido ficou-me uma vontade difusa de escrever um ensaio sobre o Professor, cujo o título, em princípio, será "Caldeira Cabral e a síntese da amónia"), e Ilídio de Araújo (por causa do livro que Fernando Pessoa e José Carlos Marques fizeram sair, com base no que o próprio Ilídio de Araújo preparou com o que me parece ser o seu testamento intelectual, em que trabalhou praticamente até ao dia em que morreu).

A conversa com o Zé Miguel pareceu-me muito interessante por espelhar uma fractura intelectual (o Zé Miguel diria, como disse na conversa, que não concorda comigo na dimensão dessa fractura, admitindo sequer que estaria de acordo na existência dessa fractura) clássica na discussão sobre paisagens e os processos que lhe são inerentes (como o fogo, neste caso, mas todos os outros): o ponto de vista construído a partir das paisagens que servem as pessoas versus o ponto de vista construído a partir das pessoas que gerem paisagens.

Por estranho que possa parecer, o "partido" da paisagem como referencial foi tomado pelo Zé Miguel, que é florestal, e o "partido" das pessoas como referencial foi tomado  por mim, que sou paisagista. Mato já os comentários sobre a artificialidade desta fractura dizendo que os dois sabemos muito bem que há uma ampla sobreposição entre os dois pontos de vista.

É menos estranho que o "partido" das pessoas seja tomado por paisagistas, conhecendo a história e os fundamentos filosóficos que estão na base da arquitectura paisagista, incluindo a existência dessa fractura dentro da profissão, com um grupo em que Caldeira Cabral e Ilídio de Araújo se incluem, mais perto da ideia do homem como referencial das paisagens que se constroem, e outro grupo, em que se inclui Ribeiro Telles, por exemplo, com alguma têndencia para escrever sobre paisagens em si, com pessoas, bem entendido, mas com menos atenção ao que fazem e ao que precisam essas pessoas para que as paisagens sejam estruturadas assim ou assado.

Volto a frisar, todos eles têm o homem como centro, estão por isso muito distantes das correntes filosóficas ecocêntricas da "deep ecology", trata-se apenas de uma questão de grau que me parece que é muito claro na conversa que o Zé Miguel e eu tivemos.

O Zé Miguel classifica a sua abordagem como tecnocrática, parte do estudo dos "hábitos do fogo" (grande expressão do Zé Miguel) para identificar territórios com características diferentes e, a partir daí, defende políticas diferenciadas em função dos territórios.

Eu classifiquei a minha abordagem como mais social, centrada nas pessoas que existem - actual e potencialmente - para identificar as razões pelas quais actividades socialmente úteis não acontecem e, a partir daí, defender políticas que pretendem potenciar a actividade das pessoas que é socialmente útil e que os mercados não remuneram convenientemente.

Os dois reconhecemos a importância dos dois pontos de vista, e na verdade este post é apenas para constatar que ficou mais claro para mim o risco "conceptual" (hoje deu-me para a intelectualice) das políticas centradas na paisagem (bem sei, bem sei, onde escrevi paisagem neste post, a esmagadora maioria das pessoas que trabalham no assunto escreveriam território): o risco de estarmos a desenhar políticas para fantasmas, para ausentes, políticas desenhadas sem se saber quem as vai executar.

Há anos, Miguel Freitas, então Secretário de Estado das Florestas, resolveu (e bem) desenhar um programa de apoio à pastorícia enquanto instrumento de gestão do fogo. Depois de ter lançado um primeiro concurso sobre o assunto, pediu-me para ir conversar com o seu gabinete por saber que há muito tempo que eu vinha a falar da pastorícia como instrumento de gestão do fogo.

O tal primeiro concurso - penso que teria tido poucos candidatos, e era por isso que o Miguel, que eu conhecia de termos sido colegas na Universidade, queria ouvir a minha opinião - tinha sido desenhado para que a pastorícia apoiasse a gestão das faixas de gestão de combustível e o meu primeiro comentário foi exactamente no sentido de lembrar que havendo tão poucos pastores, e não havendo falta de terra para os rebanhos, era um bocado ingénuo pensar que os pastores iriam pôr os seus rebanhos a pastar nas faixas de combustível, isto é, onde o Estado queria que pusessem, em vez de os pôr a pastar onde era mais conveniente para o pastor (fossem quais fossem as razões do pastor para achar mais conveniente).

Continuo convencido, e é cada vez mais claro para mim, que estando o mundo rural depauperado de capacidade de intervenção e empresarial, não haverá políticas de sucesso que não partam das necessidades dos poucos agentes que gerem paisagens, estejam eles onde estiverem.

Continuar a olhar para paisagens é bom, perceber as necessidades de gestão da paisagem é bom, mas desenhar políticas de gestão da paisagem sem identificação clara de quem são as pessoas que realmente estruturam e gerem as paisagens e, por isso, são os destinatários dessas políticas, parece-me ser a persistência num erro que só a falta de avaliação de resultados das políticas do passado pode explicar.

Apropriação cultural

por João Távora, em 27.07.22

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O 40º festival Womad criado em 1982 por Peter Gabriel decorre a partir de amanhã até Domingo como habitualmente em Charlton Park, em Wiltshire. Com o objectivo de promover a pluriculturalidade e a tolerância entre culturas através da linguagem universal que a música e a dança comportam, este festival será para muitos um chocante exercicio de apropriação cultural, a ser cancelado. De facto, existe um movimento universal promovido por homens de boa vontade que preza a paz e o diálogo entre culturas, que resulta em colaboração interétnica ou interracial. Na música isso chama-se fusão. Esperamos que a cultura woke, cujo único objectivo é acicatar as rupturas e salientar as fracturas entre os indivíduos e povos seja combatida com pragmatismo – a batalha contra o racismo e outras formas de preconceito tem muitos séculos e heróis e há-de continuar a existir enquanto houver humanidade – o “Imagine” de Lennon só é possível eliminando da equação o factor humano, as pessoas, e pela  mesma razão as pessoas e as comunidades estão condenadas a pedir desculpa umas às outras pelos erros que incorrem dada sua natureza.  A alimentar este delírio colectivo temos o outro lado da moeda, expresso no identitarismo étnico dos nacionalistas de direita, bem expresso nas recentes declarações de Viktor Orbán, Primeiro-ministro da Hungria, dizendo que “a mistura de raças destrói as nações”. Estão bem uns para os outros, incapazes duma cultura de perdão. Interessante é verificar, numa ronda pelos seminários e paróquias de Portugal, numa altura de crise de vocações, o número de jovens padres oriundos dos mais diversos países de língua portuguesa a serem formados ou a exercerem a sua vocação apostólica em tantas igrejas.  “Não há judeu nem grego, escravo ou livre, homem ou mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus” (Gálatas 3)
É assim a vida desde Adão e Eva, e assim continuará a ser, o confronto entre dois movimentos antagónicos, o da ruptura e o da unidade – o mal e o bem, o feio e o belo, o erro e o perdão. Eu pelo meu lado sei bem onde me posicionar, de que lado está a harmonia, ou “a vontade de Deus”.
Que pena tenho eu de não poder estar este fim de semana em Wiltshire. Em compensação irei ouvir Peter Gabriel, um dos exemplos mais geniais de fusão musical.

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Manifestantes negros na avenida Paulista
no passado mês de Novembro, na defesa do ultranacionalismo étnico,
ou "racismo cientifico".

O Estado e as ignições

por henrique pereira dos santos, em 26.07.22

No meu post anterior, fundamentei as minhas discordâncias sobre a importância das questões de propriedade para a definição de políticas públicas de gestão do fogo (voltarei ao assunto, há um relatório preliminar sobre o problema que merece atenção).

Neste post gostaria de falar na forma como o Estado, este ano, quis responder ao risco previsto com a diminuição das ignições.

Sobre outras questões relacionadas com ignições, sugiro que se vejam os posts que podem ser encontrados aqui.

Este ano, o risco meteorológico identificado era estratosférico e, bem, o Governo resolveu agir por antecipação, ao contrário do que tinha acontecido em muitos anos anteriores (2017, quer em Junho, quer em Outubro, é um bom exemplo da atitude anterior de agir depois do problema, mas também de como é arriscado confiar excessivamente em previsões meteorológicas: boa parte das ignições em Outubro de 2017 resultaram de queimas que confiaram na previsão de chuva associada ao Ofélia, mas esta previsão não se verificou, ficando apenas o vento fortíssimo, que transformou milhares de ignições num problema muito sério de gestão do fogo).

A doutrina em que assenta o que foi feito é a de que, identificado um risco daquele nível, com dias de antecedência, a única coisa a fazer seria reduzir ignições para evitar a dispersão de meios, o que permitiria atacar os fogos nascentes o mais cedo possível.

Apesar do meu imenso respeito por quem mais veementemente ouvi defender esta doutrina como a única opção naquele momento, e de reconhecer que quer António Salgueiro - com quem aprendi mais que muito do que vou sabendo sobre gestão de fogo e fogos de gestão -, quer Tiago Oliveira, sabem muito mais que eu do assunto, não partilho dos seus pontos de vista sobre esta doutrina.

Não porque não lhe reconheça racionalidade - para além de perceber a diferença de perspectiva de quem tem de tomar decisões nos cornos do toiro face a quem dá opiniões aqui sentado, como eu - mas porque a acho inexequível: a percentagem de ignições que dão origem a grandes fogos é tão pequena em relação ao número total de ignições que, em condições extremas, não é possível controlar os grandes fogos na origem.

A realidade veio dar-lhes parcialmente (pelo menos) razão, a situação não correu nada mal face ao risco previsto, o que nos leva a uma de duas hipóteses: 1) de repente ficámos muito bons na gestão de fogo (há evidentemente melhorias, que serão especialmente visíveis em situações menos extremas); 2) o risco previsto desvaloriza o papel do vento e amplia o papel de outros factores, havendo algum desfasamento face à realidade.

Não sei discutir a segunda hipótese, mas tenho a intuição de que foi a relativa benignidade do vento que nos permitiu passar quase tranquilamente pela situação (a que se soma o facto das zonas mais perigosas do país terem ardido há cinco anos, e portanto apresentarem, ainda, um baixo risco estrutural, mesmo quando o risco meteorológico é extremo). Volto a frisar que estou a pisar areias movediças face ao que sei sobre estas matérias, é portanto uma intuição que não sei fundamentar.

Fechada esta longa introdução, vejamos como reagiu o governo confrontado com os riscos identificados e a doutrina que descrevi acima.

Tal como na epidemia (o paralelismo foi explicitamente referido por António Costa), transferiu a responsabilidade pelos resultados para os comportamentos individuais e tomou decisões maximalistas de restrição de liberdades individuais, proibindo a circulação nos espaços florestais, com o objectivo de reduzir a zero, se possível (as pessoas envolvidas sabem que o zero é impossível, mas entendem que qualquer redução é, em si, virtuosa), as ignições.

Se isso teve algum efeito relevante na redução de ignições, não sabemos (tal como não sabemos que efeito tem andar de máscara em transportes públicos), nem é possível saber, mas o facto é que a opinião pública apoia fortemente esta transacção de liberdade pela sensação de segurança, corresponda ela a segurança real ou não.

Ou seja, politicamente não há como perder com esta opção, para o governo de turno (e as oposições deixam-se estar quietas para não serem confrontadas com o delicado problema da percepção pública de insegurança).

Por causa destas decisões, casamentos que eram em Monsanto - um espaço florestal gerido, com um quartel de bombeiros no interior que, no máximo, leva seis minutos a chegar ao local do fogo - foram transferidos para outro lado (ou em Sintra ou em muitos outros espaços florestais), actividades de turismo ecológico e sensibilização ambiental foram canceladas, infraestruturas que criam riqueza em zonas economicamente deprimidas encerraram, os produtores florestais do Oeste ficaram impossibilitados de ir gerir os seus povoamentos, apesar de condições de risco muito baixas no litoral Oeste, o Parque Bensaúde, um jardim urbano em Lisboa que até hortas tem e é mais pequeno que o jardim da Estrela foi encerrado, etc., etc., etc..

Logo que se anunciou esta restrição brutal às liberdades individuais, nomeadamente à liberdade de deslocação, protestei e a resposta que me deram foi exemplar: "são cinco dias para passar esta fase terrível, não é nada por aí além".

Claro que não foram cinco dias, porque às restrições de liberdades se aplica o que é verdade para o fogo e para a guerra: até podemos saber como começa, mas nunca sabemos como e quando acaba.

Independentemente de ninguém ter feito contas ao impacto real desta decisão, nunca poderemos saber o que ela significa na erosão da confiança das pessoas que investem e trabalham no mundo rural, e portanto não podemos saber em que medida o aumento administrativo do risco para as actividades realizadas no mundo rural tem um retorno negativo na economia de regiões inteiras que precisam de economia para poder gerir o problema dos fogos.

Dir-se-á que era uma medida necessária.

Pois bem, o que vi, admito que esteja mal informado, é que a maior alocação de meios foi para resolver problemas causados por reacendimentos, uma responsabilidade directa do sistema de protecção a que, aparentemente, o Estado não dá a devida atenção, já que a taxa de reacendimentos em Portugal é muito elevada.

Não sei o suficiente sobre gestão de fogos florestais para dar, ou não, razão a um amigo - esse sim, sabe do assunto por "honesto estudo com longa experiência misturada" - que me dizia que reacendimentos como os de Alvaiázere deveriam dar origem a processo disciplinar, mas sei o suficiente para já ter visto imagens incompreensíveis de rescaldos feitos a água, com manutenção de combustível entre a área ardida e a linha de ancoragem sem combustível e outras coisas que tais.

O que isto significa é que o mesmo Estado que trata negligentemente uma reconhecida fonte de ignições e dispersão de meios como os reacendimentos - entre outras razões porque não separa as funções de protecção civil das de combate ao fogo florestal, nem investe na especialização dos operacionais de combate ao fogo florestal, profissionalizando-os e capacitando-os, inclusivamente no uso generalizado de fogo de gestão em combate e rescaldo - atira a responsabilidade da gestão de ignições para as pessoas comuns e adopta regras claramente maximalistas e de restrição de liberdades individuais, como forma de lidar com as urgências que a inversão de prioridades cria.

Talvez um maior esforço de equilíbrio entre liberdade e segurança nos permitisse encontrar soluções socialmente mais úteis que as que foram adpotadas para a gestão das ignições, à custa das liberdades individuais, e com apoio generalizado da sociedade.

Os incêndios e a propriedade

por henrique pereira dos santos, em 25.07.22

"A maneira como têm sido enfrentados pelos sectores responsáveis do Ministério de Agricultura e Pescas os problemas dos fogos florestais ... convence-nos de que o País está a ser governado efectivamente por bandos de contabilistas ou econometristas da "macroeconomia", completamente ignorantes da Economia Política (como arte integradora de todas as microeconomias de um país - que mostram desconhecer por completo)". Ilídio de Araújo, em 2005, do livro "Arquitectura Paisagista ou "A organização do espaço" nas paisagens", página 71.

Como em qualquer grupo profissional, há variações relevantes de pontos de vista, e na minha profissão de arquitecto paisagista, mesmo no primeiro grupo de profissionais, conhecidos pela sua coesão, há variações muito relevantes de discurso e, em especial, do discurso público.

Note-se que Ilídio de Araújo põe a tónica nos sistemas agrícolas e florestais como condicionantes da estruturação das paisagens (di-lo explicitamente no parágrafo que antecede este, no livro), no que representa uma visão diametralmente oposta à de muitos outros paisagistas que pretendem condicionar os sistemas agrícolas e florestais como forma de estruturar paisagens.

Parece-me um bom ponto de partida para escrever sobre o cada vez mais presente problema da estruturação fundiária como condição prévia à gestão do fogo, problema sobre o qual tenho uma posição mais que ultra-minoritária, na medida em que mesmo nas pessoas cujas opiniões sigo habitualmente em matéria de fogos, verifico que há divergência neste ponto (o outro é o das ignições, sobre as quais talvez venha a fazer um post).

Este ano constatei que a discussão sobre fogos continua a sua melhoria, são já raros os discursos trogloditas sobre incendiários (é verdade que este ano as coisas correram melhor que o esperado, em parte porque se exagerou no esperado, desvalorizando a relativa amenidade do vento, parece-me) e são muitos e variados os discursos mais estruturados sobre fogos e gestão da paisagem.

Estou tentado a dizer que o discurso da valorização da gestão florestal foi este ano mais forte, mais audível e mais consensual que em anos anteriores, o que acho muito bom.

O problema é a forma como estamos, mais uma vez, a desviar a discussão para sintomas, esquecendo a doença.

Um bom exemplo é o facto de do excelente artigo de Luís Aguiar-Conraria no Expresso desta semana - fica-me mal dizer isto, eu sei, porque o artigo tem umas referências muito simpáticas ao que tenho escrito - o Expresso ter escolhido destacar "O rastreamento das propriedades rurais e legislação que facilite partilhas de heranças indivisas é crucial". Sim, isso está escrito no artigo, mas é um parágrafo final de reforço da ideia de olhar para a economia associada à gestão do fogo, em que Luis Aguiar-Conraria diz que para haver valor económico é preciso que os direitos de propriedade estejam bem definidos, está muito longe de ser o essencial do artigo.

Da mesma forma, há dias, o Público destacava da entrevista de Tiago Oliveira a sua insistência na necessidade de alterar o direito sucessório.

E António Costa quando resolveu falar da questão da valorização da gestão florestal, imediatamente se meteu pelo atalho do registo de propriedades e afins.

Não vale a pena citar pela enésima vez o presidente de junta que diz que quando quer saber de quem é um terreno põe uma placa a dizer vende-se, com o seu número de telefone, e diz que nunca passou mais de uma semana que não recebesse um telefonema a perguntar a que propósito estava a vender um terreno que não era dele.

Vamos admitir que há de facto um problema de competitividade do sector ligado à dimensão da propriedade.

A ser assim, o normal seria ter as propriedades bem geridas, desde que tivessem a dimensão adequada.

Não é o que se verifica, em que há milhares de médias e grandes propriedades não geridas ou geridas com muito baixa intensidade, numa lógica mais extractiva que de verdadeira gestão.

Acresce que a maior parte do Valor Acrescentado Bruto Florestal do país vem das zonas de minifundio. Não porque exista qualquer relação entre pequena propriedade e maior rentabilidade, mas apenas porque existe uma relação estreita entre produtividade e dimensão média das propriedades.

Ainda que estes dois argumentos não sejam verdadeiros, o facto é que mexer no direito sucessório ou entrar em processos de reestruturação fundiária, como condição prévia de competitividade da gestão, ainda que esteja certo - eu acho que não está, independentemente de haver alguns modelos rentáveis que só são viáveis em propriedades com alguma dimensão, mas também com outras características que são condição sine qua non para esses modelos serm exequíveis e competitivos - vai demorar tempos infindos a dar qualquer resultado na gestão dos combustíveis finos.

No fundo, pretende-se que seja o Estado a impulsionar um processo de agregação da propriedade quando as pessoas não estão interessadas no assunto. É exactamente o mesmo tipo de equívoco que fez com que o Estado andasse anos em programas de reabilitação dos centros históricos das cidades, e o problema se tenha alterado muitíssimo assim que o alojamento local passou a ser uma actividade com interesse para os proprietários.

O facto de não haver um mercado de terreno digno desse nome para as terras marginais, ao ponto de haver muitas terras de que os donos não conhecem os limites, prende-se com o problema da criação de valor: se não há criação de valor que pague a gestão e remunere o trabalho e o capital, não há interesse em transações de propriedade - o que é agravado pelos custos de transação que o Estado impõe nestas transações e de que poderia prescindir de imediato, sem grandes efeitos negativos.

Por tudo isto, vou insistir: precisamos de pagar já a gestão de combustíveis finos, sem estar à espera do grandes programas de reestruturação fundiária que, tarde ou cedo, serão anunciados.

Felizmente já houve quem fizesse sugestões para tornar mais simples ainda esse pagamento, envolvendo as organizações de produtores florestais e, quando tiver tempo, vou actualizar as propostas que tenho feito nesse sentido.

Como diria Ilídio de Araújo, são as condicionantes destes sistemas que estruturam paisagens, não é o condicionamento destes sistemas que estrutura paisagens.

O Taunus verde eléctrico

por João Távora, em 25.07.22

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Bem lançado, o Taunus verde eléctrico percorre veloz as tábuas polidas e enceradas do longo e escuro corredor. Na sua peugada chego eu em corrida e aterro de rabo à sua frente para um imaginário grande plano do bólide furtivo. Com o predilecto Lótus Europa em punho, reproduzo um peão bem calculado para, imitando o som duma travagem “à americana”, bloquear o seu caminho. De cara junto ao chão penetro com o olhar dentro da reluzente miniatura Matchbox, qual zoom que aponta ao seu volante, tablier e assentos monocromáticos. Com a imaginação fértil, visualizo o transtornado vilão ali sentado que prepara uma reacção à audaz artimanha de que foi alvo. Então, saco do pequeno carro da polícia que trago no bolso dos calções, encenando a sua chegada ao local da acção. Precipita-se assim o final da contenda e a vitória do “bom e valente herói”, que afinal sou eu próprio congeminado ali ao volante do potente Lótus. É tempo de interromper a brincadeira pois está na hora de ir à cozinha comer uma carcaça com manteiga, ou quem sabe, uma gemada a transbordar de açúcar.

Ainda hoje me extasio na montra daquela loja de modelismo e brinquedos caros nas Amoreiras, com aqueles espantosos modelos à escala quase reais, com conta-rotações no tablier, pedais metalizados, espelhos retrovisores e limpa pára-brisas. E como eram deslumbrantes as locomotivas e carruagens Marklim, aviões telecomandados e pistas Scalextric que na minha infância me detinham intermináveis horas de puro transe, com a cara colada às vitrinas da Quermesse Paris, ali aos Restauradores.

Esses desejos nunca se cumpriram, pois lá em casa as prioridades eram outras. Os brinquedos mais parecidos que tive, foram imitações fabricadas no oriente e que acabavam invariavelmente esventradas no fundo do caixote das tralhas inutilizadas.

Isso dificilmente sucedia com os meus coloridos e variados carrinhos Matchbox, brinquedos difíceis de escangalhar. Era com os meus automóveis preferidos que eu passava tardes infindáveis estendido no chão da sala a brincar. Com as figuras geométricas do tapete turco, imaginava avenidas e travessas, auto-estradas e caminhos, cenários urbanos ou bucólicos para as intermináveis aventuras que inventava inspirado no último episódio dos Vingadores, do Fugitivo ou noutra série qualquer. E ao fim da tarde, lá na Praceta, armado com o modelo favorito, juntava-me à rapaziada para umas disputadas corridas desenhadas a giz no alcatrão.

Mais do que a bola e a bicicleta que me conquistariam mais tarde, elejo os meus carritos Matchbox como o brinquedo preferido da minha infância. Nada na vida me dava mais prazer que escolher e brincar com um carro novo, que seria o meu eleito até à chegada do seguinte, oferecido à vinda da missa pela minha avó, ou numa tarde de compras com a minha mãe. Com 12$50 elas sabiam que me podiam fazer absolutamente feliz... por muito tempo.

Texto reeditado e recuperado daqui

Domingo

por João Távora, em 24.07.22

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo, estava Jesus em oração em certo lugar. Ao terminar, disse-Lhe um dos discípulos: «Senhor, ensina-nos a orar, como João Baptista ensinou também os seus discípulos». Disse-lhes Jesus: «Quando orardes, dizei: ‘Pai, santificado seja o vosso nome; venha o vosso reino; dai-nos em cada dia o pão da nossa subsistência; perdoai-nos os nossos pecados, porque também nós perdoamos a todo aquele que nos ofende; e não nos deixeis cair em tentação’». Disse-lhes ainda: «Se algum de vós tiver um amigo, poderá ter de ir a sua casa à meia-noite, para lhe dizer: ‘Amigo, empresta-me três pães, porque chegou de viagem um dos meus amigos e não tenho nada para lhe dar’. Ele poderá responder lá de dentro: ‘Não me incomodes; a porta está fechada, eu e os meus filhos estamos deitados e não posso levantar-me para te dar os pães’. Eu vos digo: Se ele não se levantar por ser amigo, ao menos, por causa da sua insistência, levantar-se-á para lhe dar tudo aquilo de que precisa. Também vos digo: Pedi e dar-se-vos-á; procurai e encontrareis; batei à porta e abrir-se-vos-á. Porque quem pede recebe; quem procura encontra e a quem bate à porta, abrir-se-á. Se um de vós for pai e um filho lhe pedir peixe, em vez de peixe dar-lhe-á uma serpente? E se lhe pedir um ovo, dar-lhe-á um escorpião? Se vós, que sois maus, sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o Pai do Céu dará o Espírito Santo àqueles que Lho pedem!».

Palavra da salvação.

Comentário: Jesus dá vários ensinamentos aos discípulos sobre a oração: ensina-lhes o “Pai-Nosso”, que é o modelo de toda a oração; convida-os a implorar de Deus, com persistência, o auxílio para as suas necessidades; exorta-os a dirigirem-se ao Pai com toda a confiança.

Acreditar

por João Távora, em 22.07.22

“Muitas pessoas tomam antidepressivos porque foram levadas a acreditar que a sua depressão tem uma causa bioquímica, mas esta nova pesquisa sugere que essa crença não é baseada em evidências”, disse a principal autora do estudo, Joanna Moncrieff, professora de psiquiatria na University College London e psiquiatra na North East London NHS Foundation Trust. 

“Acho que podemos dizer com segurança que, após uma grande quantidade de estudos conduzidos ao longo de várias décadas, não há evidências convincentes de que a depressão seja causada por alterações dos níveis de serotonina, particularmente por níveis mais baixos ou atividade reduzida da mesma”, explicou a profissional de saúde ao jornal britânico. “Milhares de pessoas sofrem dos efeitos colaterais dos antidepressivos, incluindo os graves efeitos de abstinência que podem ocorrer quando tentam parar de os tomar, mas as taxas de prescrição continuam a aumentar”, observou a docente universitária.

“Acreditamos que essa situação tenha sido impulsionada, em parte, pela falsa crença de que a depressão se deve a um desequilíbrio químico. Já é hora de informar o público de que essa crença não é fundamentada na ciência”, declarou." 

A ler o artigo completo aqui

A Sic recomenda-se

por José Mendonça da Cruz, em 21.07.22

Recomendo vivamente a «reportagem» que a Sic anunciou e deu hoje sobre «os pais de Famalicão» e o caso da disciplina de intoxicação chamada «Cidadania».

A «reportagem» ou «entrevista» não era uma coisa nem outra. Era apenas uma armadilha, uma peça ao melhor estilo do que a Sic faz no «género» vómito, com uma entrevistadora militante de géneros e novilíngua, confundindo inquirição com inquisição, e alguns interlúdios de ativismo tóxico destinados a humilhar, mais do que contrariar os anunciados «pais de Famalicão».

Vale a pena ver. No género desinformação canalha é difícil encontrar melhor.

P.S. (salvo seja) Este é um post bastante pedestre e básico. Na escala da decência está, porém, vários graus acima da reles manha da Sic.

Porque seria?

por João Távora, em 20.07.22

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A silvicultura está em Portugal, no último lugar. Os camponeses um têm horror pronunciadíssimo pelas árvores, e não só as não plantam, mas aproveitam todas as ocasiões para arrancar as que existem.

In Portugal de Relance de Maria Rattazzi, publicado em 1879. Na carta décima terceira, em que se aborda a agricultura e a silvicultura nas diversas regiões de Portugal.

No expresso deste fim de semana, há dois artigos de opinião que espelham bem a polarização da sociedade portuguesa relativamente a um dos mais importantes bloqueios da sociedade e economia Portuguesa: a regulamentação das actividades Humanas. Desta vez, o tema são os Uber. Ricardo Reis, ( pode ler aqui) um prestigiado economista, defende e preocupa-se com a concorrência, a criação de valor para a sociedade, para o consumidor, para a sociedade. Daniel Oliveira, ( pode ler aqui) um paladino do Estatismo e dos incumbentes ( neste caso os taxistas tradicionais), que são assaltados pelo capitalismo selvagem e desregulado que, não importa se trazem bem para o bem estar social concreto e real, porque introduzem a “selvajaria” no mercado, uma liberdade para prejuízo dos instalados.

Daniel Oliveira é um escritor notável, capaz de envolver os leitores fazendo-os sentir  a sua verdade excêntrica como razoável. Tão razoável, como acusar, com aparência de legitimidade,  a Uber de aproveitar mediaticamente a violência física exercida por taxistas aos seus  condutores, como um pecado francamente mais capital do que a violência original, por parte dos “agredidos” ( afinal os taxistas), eles sim, com legitimas razões de legitima defesa, mesmo com recurso aos punhos. Note-se que, aos taxistas, nunca foi negado o direito de abraçarem as plataformas das quais se defendem tão virilmente.

Ricardo Reis, parece-me, tem toda a razão e as rendas ilegítimas criadas pelo arcaico sistema administrativo de atribuição de licenças administrativas, mais uma fonte de criação de rendas ilegítimas e corrupção, não merece qualquer defesa. Sobretudo quando se prova que o serviço entregue ao mercado é mais barato, mais eficiente e mais abundante. A regulamentação, quando não é necessária, é uma das grandes razões para o nosso atraso. Regulamentação sim, mas para corrigir as falhas do mercado, não para as criar e eternizar.

No final, neste braço de ferro, ganhará claramente a grande maioria, que defende os direitos adquiridos e a regulamentação omnisciente do Estado, criando os monstros que exploram toda a sociedade e explicam a história do nosso permanente atraso.  

Também neste fim de semana, no Observador, se pode ler um artigo sobre o caso Famalicão, outra causa fracturante, de autoria de José Meireles Graça, que se contrapõe a um texto de Luís Aguiar Conraria, ( autor que também muito estimo, com pontuais excepções),  centrando a questão onde ela deve ser discutida: a defesa dos direitos, liberdades e garantias dos Indivíduos salvaguardadas na Constituição e, já agora, também na carta Universal dos Direitos do Homem. O estabelecimento de uma religião obrigatória do Estado, mesmo que defendida por vultos como Rousseau ( um dos mais importantes pais espirituais  de muitos dos equívocos actuais), não é simplesmente aceitável, legitima nem juridicamente válida.

Também eu, tenho uma divida de gratidão aos pais de Famalicão que prestam um enorme serviço cívico em época de grande perigo para os direitos constitucionais, como temos visto recentemente com os episódios do Covid, dos Incêndios e de tantos, quase constantes, atropelos aos direitos fundamentais.

Tudo somado, nada de novo, não fosse agora existir, mesmo que tímida e minoritariamente , quem defenda e discuta claramente posições opostas aos dos fortes preconceitos e confusões  saídos da revolução e de uma tradição ancestral de Estado uber alles.  Na verdade, a “esquerda”, neste momento, está no lado errado da História e da liberdade.  A todos os opositores, o meu muito obrigado.

PS: Os direitos constitucionais sempre foram um empecilho para as maiorias da Sociedade. Por isso mesmo foram criados, impedindo tiranizar minorias pelas maiorias. 

Nos insuspeitos EUA, vemos a mesma contestação a direitos constitucionais, seja porque não consagram o que se pretende ( como no caso do Aborto) mesmo que remetendo para uma escolha democrática, seja porque não é conveniente, como no atropelo dos direitos de quem representa um incomodo para o ambiente ( ou outra qualquer causa que não mereça o consenso da maioria. 

 

Fundão e Odemira

por henrique pereira dos santos, em 17.07.22

No Sábado à noite, no Expresso da Meia Noite, na SIC, quando fiz uma tentativa de usar o argumento (que correu mal do ponto de vista de comunicação) de que quando temos economia temos problemas e soluções, e quando não temos economia, ficamos só com os problemas, dei o exemplo de Odemira.

O que pretendia era dar o exemplo de Odemira e do Alojamento Local (de que não cheguei a falar) como exemplos em que actividades lucrativas tinham contrariado tendências persistentes que frequentemente se diz que só poderiam ser contrariadas pela intervenção directa do Estado (longos anos andou o Estado com programas de recuperação dos bairros históricos para o alojamento local resolver num instante grande parte do problema).

Estupidamente, da minha parte, não percebi que isso rapidamente seria afogado na demagogia do costume, sobre as crianças que não podem ir à escola (nem sei a que dizia respeito essa conversa das crianças que não podem ir à escola) e em contra-exemplos da treta, como contrapor o bom exemplo do Fundão ao mau exemplo de Odemira.

Ir buscar o bom exemplo do Fundão para contrapor ao mau exemplo de Odemira é extraordinário porque os modelos de negócio são semelhantes: produtos de elevada diferenciação que são potenciados por gestão intensiva do território, com grandes introduções de energia (como na preparação do terreno dos cerejais), com diminuição da diversidade (utilização de muito poucas espécies e técnicas de controlo das espécies que possam diminuir a produção final), utilização de mão de obra pouco qualificada proveniente de localizações longínquas e, na medida do possível, regadio.

O resultado final no Fundão é a diminuição de população em cerca de 2500 pessoas na última década, estando o número de habitantes ao nível de meados do século XIX, e em Odemira (por isso usei o exemplo), estamos perante um dos poucos, e o único não urbano (se não me engano, não fui verificar agora se há mais um ou dois mas tenho ideia que não), em que a população na última década cresceu.

Cresceu apenas porque os efeitos das alterações tecnológicas, de gestão e de mercados dos produtos base das duas economias criam mais valor no caso de Odemira que no caso do Fundão, e portanto atingiram dimensão suficiente para contrariar as tendências profundas de perda de valor da generalidade das actividades de produção agrícola, florestal e pecuária, ao contrário do que acontece no Fundão, em que essa dimensão apenas permitiu atenuar as tendências profundas de perda de valor global das actividades que gerem território.

O extraordinário não é que a discussão tenha tomado o rumo que lhe imprimiu a demagogia (já tenho idade suficiente para ter aprendido a antecipar este tipo de situações, mas sou socialmente muito incompetente), o extraordinário é a facilidade com que a mera racionalidade pode ser retirada de uma discussão com base na mera omissão de dados concretos e na invocação de argumentos de elevado conteúdo emocional, sem nenhum valor para o que está em discussão, como a conversa fantasiosa das crianças que não podem ir à escola.

Que isto seja permanentemente feito pelas elites mais qualificadas do país para evitar que os factos influenciem as suas ideias, parece-me uma das boas razões para continuarmos a desenhar políticas públicas que partem do princípio de que há acções de longo prazo que podem ser sustentáveis sem uma econimia que gere os recursos para as financiar.

Domingo

por João Távora, em 17.07.22

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo, Jesus entrou em certa povoação e uma mulher chamada Marta recebeu-O em sua casa. Ela tinha uma irmã chamada Maria, que, sentada aos pés de Jesus, ouvia a sua palavra. Entretanto, Marta atarefava-se com muito serviço. Interveio então e disse: «Senhor, não Te importas que minha irmã me deixe sozinha a servir? Diz-lhe que venha ajudar-me». O Senhor respondeu-lhe: «Marta, Marta, andas inquieta e preocupada com muitas coisas, quando uma só é necessária. Maria escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada».

Palavra da salvação.

Comentário: O que Abraão ouviu da boca do estranho peregrino que passava à sua porta, escuta-o agora Marta da boca do próprio Filho de Deus, hóspede na casa das duas irmãs. O Senhor é o mesmo, e as suas repetidas visitas aos homens testemunham que Ele é Aquele que é chamado Fiel, cuja aliança com os homens é eterna, e da qual o testemunho máximo é a Encarnação redentora de seu próprio Filho, Jesus Cristo, nosso Salvador.

Coisas estranhas

por João Távora, em 15.07.22

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Há poucas coisas mais difíceis hoje em dia na minha casa que ver em família uma série de televisão em streaming. Acontece que há sempre alguém à hora combinada que não pode estar presente na sala por causa de programas inadiáveis, sempre interessantíssimos, que justificam o resto da comunidade ficar solidariamente em suspenso à espera duma oportunidade consensual. Acontece que os episódios estarão lá indefinidamente ocultos, mas disponíveis, toda a gente sabe; por isso adia-se mais uma vez. Mais valiam os meus tempos de juventude: naquele serão de 5a feira, quem não estava, que estivesse. O drama só avançava um episódio por semana mas não dependia de apetites individuais.

Vem isto a propósito de “Stranger Things”, uma série escrita e dirigida pelos irmãos Duffer, cujos episódios vêm sendo estreados na Netflix deste 2016 tendo recentemente a IV temporada sido disponibilizada. Essencialmente destinada a adolescentes, com o protagonismo principal de um grupo de jovens, “Stranger Things” no entanto apresenta iconografia e referências destinadas a atrair as gerações mais velhas – uma coisa esperta.  A trama, passa-se em meados dos anos oitenta numa pequena cidade do Estado de Indiana, remetendo todo o ambiente, o guarda-roupa, cenografia, até as cores carregadas do vídeo, para essa época. Para isso também contribui a banda sonora, senhores – eles sabem brincar com a nostalgia. A intriga desenvolve-se à volta de um obscuro mundo inverso e subterrâneo onde um mora um terrível monstro que os governos da União Soviética e dos EU envolvidos em experiências cientificas tentam esconder, tem tudo para reunir a família inteira, onde ela ainda possa resistir nesses moldes. Entretenimento puro.

Ora, foi nesta série, que me foi aconselhada há uns meses pela minha filha, que aconteceu o fenómeno que aqui quero relevar: trinta e sete anos depois (!) de tocar pela primeira vez numa estação de FM, a canção “Running up that hill”, de Kate Bush ressurge e alcança o primeiro lugar das tabelas de streaming mundiais, como hino de uma nova geração – ainda não chegámos a esse episódio, por cá ainda estamos no início da III temporada. Parece que miudagem se converteu à musa da minha juventude. Deste modo Kate Bush vem batendo várias marcas inéditas, não só a de despertar a curiosidade da minha filha para uma música que me apaixonou em tempos longínquos e que eu pensava perdida para a miudagem, como estabelece o recorde do mais longo período de tempo que um tema demorou a alcançar o primeiro lugar nas tabelas de singles oficiais – 37 anos. Uma coisa verdadeiramente estranha que tenho esperança de entender quando chegar ao dito episódio. Porque será que, entre tantas canções dos anos oitenta incluídas na banda sonora da série, é com “Running up that hill” que acontece este fenómeno? A minha resposta, certamente simplista, é que a canção, incluída no álbum “Hounds of Love” de 1985, é, como sempre suspeitei, um grande tema – o disco é quase todo genial, aliás.

Alguém comentava há dias no Twitter que, por conta da canção (como todas as suas canções) lhe pertencer integralmente em autoria e direitos, este fenómeno lhe está a render cerca de 250.000 libras por semana. Kate Bush afirmou numa raríssima entrevista à BBC dada há umas semanas, estar muito espantada com o prodígio da sua recente popularidade. Com sessenta e três anos, retirada na sua casa de campo com um grande piano, confidenciou-nos não usar telemóveis espertos, o que é uma desnecessária prova da sua forte personalidade, e que para seu sossego, não frequenta redes sociais - e imagino que também não oiça música pelo telemóvel.

Talvez os mais desatentos não saibam que Kate Bush publicou em 2013 o seu último álbum, “50 Words for Snow”, uma autêntica pérola, que estou em crer terá passado ao lado da malta nova. O que eu vos posso garantir é que a cantora e compositora Kate Bush merece todo este renovado sucesso tardio. E nem sonham a sorte que têm se se dispuserem a descobrir a sua extraordinária obra. Integralmente feminina.

Ainda bem que acontecem coisas estranhas. Com sorte verei a série até ao fim em boa companhia, que há diversões que só fazem sentido dessa forma.

 

Imbecis há muitos

por henrique pereira dos santos, em 15.07.22

Luís Lavoura chamou-me a atenção para este post, no Aventar.

O post acaba assim:

"Na eventualidade de ser necessário evacuar aquela gente toda, por deflagrar um incêndio de largas dimensões, seria Pedrógão Grande all over again. Ou pior ainda. Mas há malta que, em nome de um egoísmo imbecil travestido de liberdade, vê na decisão um grande atropelo às suas liberdades fundamentais. A penetração do trumpismo em Portugal, para lá do partido dos fachos, é cada vez mais preocupante."

Esta ideia, com mais polimento, apareceu-me ontem nuns comentários a este post meu, de há dias, no Facebook de alguém que o tinha partilhado, exactamente porque queria expressar a sua discordância com o post.

"Eu pessoalmente prescindo sem qualquer problema de alguma da minha liberdade em nome de um bem maior que é a segurança coletiva... Neste caso do Festival, e eu conheço bem a zona, acho bastante avisado o que se fez, aquilo tem uma estrada estreita de duas vias e não tem qualquer escapatória para evacuação no caso de um incêndio... Aliás, o Estado seria sempre criticado, se deixasse fazer era porque cedia aos interesses económicos, que estava capturado, etc., se não cedeu é porque restringe as liberdades... Já para não falar se acontecesse alguma coisa e morressem pessoas...".

O mais curioso destas duas alegações é que têm uma base factual absolutamente falsa, a de que o festival tenha sido objecto de qualquer decisão por parte do Governo.

Não foi assim, o governo não tomou qualquer decisão sobre o festival e, muito menos, com base nos argumentos de segurança invocados, o governo limitou-se a tomar a decisão que consiste em limitar a liberdade de circulação de toda a gente, em espaços florestais, o que, por tabela, afecta todas as actividades em espaços florestais como é o caso desse festival.

O objectivo desta decisão é diminuir o número de ignições.

Para se ter uma noção, o Parque Bensaúde, um jardim na malha urbana de Lisboa, mais pequeno que o Jardim da Estrela, que até tem hortas no seu interior, fechou porque está em regime florestal parcial. Apesar de, como me dizia o amigo que me falou deste caso, se poder desafiar qualquer pessoa a tentar provocar um fogo, de propósito, nesse parque, apostando singelo contra dobrado em como não conseguia.

A evidente desproporção entre o objectivo da medida e a compressão das liberdades individuais, admitindo que a medida sequer tem fundamento, isto é, que está perfeitamente determinado que a redução do número de ignições que eventualmente resulte da medida tem algum efeito na gestão do fogo, é de tal maneira que eu fico espantado com as reacções.

Quando fiz notar que andar a discutir a evacuação do festival (não era isto que estava em causa, mas adiante) para o interior, quando a praia do Meco está ao lado, é simplesmente absurdo, disseram-me para olhar para o google maps para ver como a praia do Meco está a oito quilómetros do sítio do festival.

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O ridículo de argumentar com os oito quilómetros deste trajecto, quando há uma lagoa e uma várzea ao lago e praias a menos de metade da distância, demonstra bem como a paranóia securitária associada ao risco zero é um instrumento de erosão das liberdades individuais que nos deve preocupar.

Faz-me lembrar a quantidade de pessoas que se rebelam contra a família Mesquita Guimarães, porque os pais pensam mal, porque as regras são para cumprir, etc., esquecendo-se do dia em que o Ministro da Educação for do Chega, altura em que boa parte destas pessoas redescobrirão Henry David Thoreau, a desobediência civil e, até, a "beleza de matar fascistas", a propósito do seu direito a educar os filhos e à ilegitimidade do Estado para impôr programas que os ofendem.

Para mim, quem argumenta com as dificuldades de acesso a um festival - bem menores que as que existiram no festival de Woodstock, já agora - como fundamento para apoiar a decisão do governo limitar liberdades individuais, procurando um risco zero associado ao fogo, sem notar que qualquer evacuação nessas circunstâncias se faria para sítios seguros que estão a um passo do festival, no lado contrário das tais estradas manhosas, não é com certeza um imbecil, é apenas alguém a quem a paranóia securitária fez perder qualquer vestígio de bom senso.

Começamos sempre numa coisa em que parece fazer sentido aceitar tolerância zero em nome de valores mais altos, perdemos o hábito de discutir a razoabilidade de cada decisão do Estado e corremos o risco de, qualquer dia, acordar apenas com a tolerância zero, seja para o que for.

Os subsídios, todos os dias a baralhar.

por Jose Miguel Roque Martins, em 13.07.22

Não há nada mais popular em Portugal do que subsídios. Todos gostam de os receber, ignorando as distorções brutais que implicam na transferência ( normalmente indesejada ou injusta) de rendimentos entre grupos,  na menor produção de riqueza e no mais ineficiente uso dos recursos disponíveis em termos de bem estar geral ( e pessoal).

Hoje li duas noticias sobre subsídios, como acontece todos os dias.

A primeira, num jornal desportivo, que ilustrava a razoabilidade dos subsídios destinados a atrair emigrantes. No caso, a transferência de Trincão do Barcelona para o Sporting, beneficiando as partes de uma taxação mais baixa porque Trincão retornou a Portugal. Muitos até clamam por uma taxação especial no futebol, já que uma menor taxação noutros países, permitem-lhes ser mais competitivos em termos do que verdadeiramente importa, os salários líquidos dos jogadores. Sou a favor de menos impostos, mas para isso a despesa publica não pode continuar a subir. No entretanto, parece-me, temos que ter o futebol que podemos, tal como acontece com todos os outros sectores da sociedade.

A segunda noticia refere a provisão de cerca de 8 milhões para tratamentos de fertilidade de casais, o que é certamente um propósito mais nobre do que o Futebol.  Tecnicamente a iniciativa não é um subsidio, mas em termos práticos é um subsidio: apenas os contemplados dos milhares de candidatos, poderão aceder ao tratamento que não passa a ser uma cobertura universal do SNS. Todos sabemos que apenas os cidadãos mais informados, normalmente com maiores rendimentos, acabarão por beneficiar desta medida. Alguns melhor do que nenhuns é positivo, mas não se tenham ilusões, é um subsidio regressivo que beneficia as classes menos desfavorecidas. Dá-se uma no cravo e outra na ferradura, aumentando a já total opacidade do sistema distributivo Português.

Ir dando pequenas benesses a grupos legítimos ou menos legítimos de pressão, pode retirar algum vapor da caldeira de contestação.Apenas com o prejuízo de sermos um País mais justo e desenvolvido.

Portugal sem fogos, uma ideia criminosa

por henrique pereira dos santos, em 13.07.22

João Távora pediu-me que reproduzisse um texto que escrevi em 2016 (note-se, antes dos fogos de 2017), com o título acima. Já ontem, António Costa (o jornalista do ECO, não o outro) fez um tweet ligando para um outro texto que escrevi em 2017 (Eucaliptocratas, diz ele). E eu tenho estado com vontade de reproduzir um outro que fiz (Antes cabras que aviões).

A lógica do João é a de que não sabe se toda a gente tem acesso ao artigo original que o João acha que vale a pena lembrar agora.

Aqui vai o texto, lembrando que entretanto o slogan "Portugal sem fogos depende de todos" já foi abandonado, um bom indício de que as coisas mudam, lentamente, mas mudam. Embora nalgumas cabeças o slogan continue bem vivo, começam a ser minoritárias entre quem toma decisões nesta matéria.

A versão que publico aqui é a que está nos arquivos do meu computador (e eu sou muito desorganizado), pode ter discrepâncias em relação à versão que foi publicada no Observador, nomeadamente a correcção do erro de português que me envergonha de cada vez que leio o texto (os meus amigos ambientalistas anti-eucalipto radicais, que acham que o fogo beneficia a indústria do eucalipto, passam a vida a reproduzir este texto como demonstração da minha submissão aos interesses do fogo e do eucalipto. Não é que sejam todos estúpidos, admito que alguns nunca tenham lido mais que título).

"“Portugal sem fogos”, uma ideia criminosa
“Portugal sem fogos depende de todos” é um dos mais perniciosos slogans de uma política pública.
Há a convicção generalizada de que como os fogos não são de geração espontânea e como não têm origem em causas naturais deixaremos de ter fogos em Portugal, ou pelo menos situações dramáticas, por vezes trágicas, associadas aos fogos resolvendo o problema da negligência e do fogo posto.
Será útil, para ganhar distância e podermos falar de fogos racionalmente, olhar para a dramática situação dos fogos vivida há pouco tempo nos Estados Unidos. A situação atingiu uma gravidade suficiente para levar Obama a declarar o estado de emergência no estado de Washington e a Austrália e a Nova Zelândia a mandar bombeiros para ajudar os EUA.
O que esta situação demonstra é que em condições meteorológicas extremas arde em qualquer parte, desde que haja combustível. As explicações habituais sobre o número de ignições, sobre a incompetência portuguesa em matéria de ordenamento florestal, sobre as espécies autóctones e todas essas explicações habituais deixam de fazer sentido numa situação como a dos Estados Unidos. E, no entanto, a situação saiu completamente de controlo, tendo inclusivamente levado à morte de alguns bombeiros.
É verdade que Portugal é dos sítios em que mais arde no mundo, o que muita gente não entende por achar que nas zonas de clima mais seco e quente deveria arder mais. Esta convicção resulta da confusão habitual entre clima e meteorologia.
O que verdadeiramente determina a posição especial de Portugal nas estatísticas de fogo é uma combinação de clima ameno, na transição entre o Mediterrâneo e o Atlântico, que é responsável por uma das mais elevadas produtividades primárias da Europa - isto é, os matos crescem muito - com fenómenos meteorológicos extremos, de maneira geral associados a períodos de vento Leste ou Nordeste, muito quente e seco (ou frio e seco no Inverno, situação que também provoca dias de muitos fogos e bastante área ardida, como já aconteceu em Novembro, por exemplo).
Esta combinação é a mesma que faz da Galiza a área onde se concentram mais de 50% dos fogos de Espanha, apesar de estar longe de ser a zona mais quente e seca de Espanha.
E em todo o mundo desenvolvido a evolução da produção agrícola e pecuária tem favorecido a acumulação dos matos que antes eram usados para aquecimento, para estrume e para a pastorícia.
Aqui chegados, compreendendo que cada êxito no combate a um fogo é mais um passo para o desastre futuro, ao favorecer a acumulação de combustível, talvez fosse tempo de abandonarmos completamente a ideia peregrina (por errada e por impossível) de um Portugal sem fogos.
A opção não está entre ter fogos ou não ter fogos, a opção é ter fogo selvagem e incontrolado, totalmente dependente de condições meteorológicas extremas que não controlamos, ou termos fogos que são um instrumento de gestão de combustível que nos permita gerir a situação da forma socialmente mais útil possível.
Há anos que nos EUA a política dos serviços florestais se alterou radicalmente e à política de supressão do fogo seguiu-se uma política de gestão do fogo, bem resumida num comentário informal de Paulo Fernandes sobre o assunto, feito já há alguns anos num blog: “A designada política do "deixa arder" era oficialmente designada como "prescribed natural fire" e, mais recentemente, "wildland fire use". Consiste em deixar arder os incêndios, geralmente de origem natural, desde que não ameacem bens/ infraestruturas e desde que ardam em condições que satisfaçam os objectivos de gestão do território. Para ter uma ideia da importância deste "deixa arder" nos EUA diga-se que é superior à área de fogo controlado, que por sua vez é a principal actividade do Forest Service. Poderia esta política ser adoptada, aliás adaptada, para a Europa? Não tenho a menor dúvida de que sim. Aliás, ela já é involuntariamente praticada em Portugal (nas épocas do ano em que a prontidão do dispositivo de combate é menor)”.
Esta opção, por si só não chega para resolver o problema, com este Verão tem demonstrado nos EUA.
Aliás vale a pena realçar que finalmente a pastorícia foi reconhecida em Portugal como uma operação de gestão de combustíveis nos instrumentos de apoio ao mundo rural, no PDR 2020.
Mas seria um passo na direcção certa abandonar de vez a ideia de um Portugal sem fogos, de supressão de todos os fogos em quaisquer circunstâncias, na fase mais precoce possível.
Há anos que esta é a doutrina dominante, mas dois dias de vento Leste fraco deram uma pálida imagem do que será a catástrofe a que nos conduzirá esta opção quando voltar a haver, como em 2003, dez a quinze dias de vento Leste forte a muito forte.
O facto de haver muitos anos em que essas condições se verificam muito raramente não nos deveria fazer esquecer que podem acontecer em qualquer ano.
E nessas condições meteorológicas, com o combustível acumulado que temos hoje nas nossas paisagens, a probabilidade de escapar de uma tragédia é baixíssima."


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