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Literatura

por José Mendonça da Cruz, em 30.06.22

O Príncipe.Ter os amigos perto e os inimigos ainda mais perto. Agora o PM Costa tem ao lado, em vez de um (não tão) jovem lobo de voz grossa e alto querer, um cordeirinho cordato (e talvez sem espinha nem tomatinhos).

Fábulas. Há sapos e sapos para deglutir. Que saúde terá Santos depois de engolir o sapo Costa?

A Vida e o Destino. Pedro Nuno Santos ficou, talvez porque, como a maioria dos governantes socialistas, não tem para onde ir. Mas talvez pudesse gerir a empresa do pai...depois de nacionalizada, evidentemente, já que «o privado» e «a ganância do lucro» são coisas horríveis.

Constituição. O que governa um governo em que um ministro despacha despachos anulados no dia seguinte? Que ministra um ministro cujas decisões não se escrevem, e, caso sejam escritas são anuladas?

Portugal e o Futuro?  Portugal e o quem?!

 

Concepção e confusão

por João-Afonso Machado, em 30.06.22

A propósito da polémica decisão do Supremo Tribunal americano acerca da interrupção voluntária da gravidez, tenho lido e ouvido, ultimamente, um tipo de argumentação contestária para mim novidade e, afinal, demonstrativa do que é (o estado de espírito pró) realmente.

O fraseado e as imagens já só proclamam qualquer coisa como «a lei não manda no nosso corpo» (entenda-se, no das mulheres).

Aquando, porém, da discussão do tema em Portugal, os partidos e organizações similares centravam-se na questão, mais material, de condenar os nascituros a uma vida miserável, esfomeada, sem condições educacionais. Abortar - para fugirmos a eufemismos - era poupar uma criança à miséria e ao descalabro.

Dizia eu, então, - falamos agora mais sinceramente do egoísmo de uma mulher/mãe e da negação da sua vontade de o ser.

Como em tudo, manda o Direito Positivo, manda o legislador, manda a maioria ou a demagogia. Mas, ainda no seguimento dos iniciais argumentos (aliás, escritos e, por isso, irrebatíveis), muito se debateu acerca do momento considerado o do início da vida humana. Para aquém, o aborto seria lícito, para além já não.

É claro, depois fomos percebendo, o prazo limite fixou-se nas 8 semanas, depois nas 12... O ser humano cada vez nascia mais tarde. No maior dos desplantes, acrescente-se, tendo em conta a protecção que aos nascituros prevê o Código Civil, nesta matéria nunca alterado.

Do que sei do célebre aresto americano, a legislação sobre a interrupção voluntária da gravidez será atribuída à vontade deliberativa os diferentes estados da Federação, ou seja, a agitação social disseminar-se-á por 50 estrelinhas desses imensos EUA.

Por cá, não há ainda alterações quaisquer. Mas é óbvia a barulheira que descerá às ruas. De 8 para 12 semanas, o nosso PS, se farejar o voto, não hesitará em saltar de mais tantas para tantas. Não em nome do futuro dos nascituros e da sociedade (esses seriam os argumentos de Hitler, Mengele, Estaline ou Mao) mas, mais liberalmente, dos direitos da mulher. Estamos ditos.

Salvo num aspecto em que critico a Igreja Católica (da qual sou membro), mais as suas vigílias, velinhas e orações no escadório de S. Bento. Há que discutir a questão com base na Ciência e no Direito. Se a vida humana começa com a concepção, a morte de um nascituro constitui um facto ilícito; mas se a menina rica se excedeu com o namorado e tem dinheiro para abortar - no uso dos seus direitos de mulher - a senhora pobre, pobríssima, que assim age não atinge o mesmo grau de culpa. Decerto atinge nenhum. E um crime resulta sempre da valoração destes dois elementos: o objectivo (a ilicitude) e o subjectivo (a culpa).

Faça-se justiça!

Cavar trincheiras

por henrique pereira dos santos, em 29.06.22

Algures pelo fim dos anos 50, em Paris, uma mulher fica grávida.

O homem com quem tem uma relação amorosa intensa pressiona-a fortemente para faça um aborto, a mulher não quer abortar, e as tensões daí resultantes põem seriamente em risco a relação entre os dois, havendo uma séria possibilidade de que a mulher deixe o homem.

É por serem estas as circunstâncias que Jacques Brel diria mais tarde que "Ne me quitte pas" não era uma canção sobre o amor mas sobre a cobardia de um homem.

Quem ouça hoje as discussões sobre o enquadramento legal do aborto estranha a situação descrita.

O aborto sempre existiu e sempre existirá, independentemente do que diga a lei.

Durante muitos anos havia um largo consenso social na classificação do aborto como qualquer coisa negativa em si mesma, e os defensores da descriminalização do aborto centravam o grosso dos seus argumentos nos problemas sociais do aborto clandestino, socialmente muito desiguais, quase unanimemente reconhecidos pelos defensores de um ou de outro enquadramento legal.

A discussão parece hoje estar diferente e opõe duas morais irredutíveis e irreconciliáveis, o que torna tudo socialmente mais difícil.

De um lado, a moral que considera que a vida começa no momento da concepção e, consequentemente, um aborto é um homicídio que deve ser tratado como tal (estou a simplificar, não me macem com as complexidades na formulação deste ponto de vista, que eu sei que existem).

Do outro, a moral que considera que não há vida autónoma antes do nascimento e que, até lá, é tudo corpo da mulher, da sua inteira responsabilidade e em que mais ninguém tem de ter opiniões sobre o assunto (estou a simplificar, não me macem com as complexidades deste ponto de vista, que eu sei que existem).

Vou saltar por cima das situações limite - a miúda que é repetidamente violada pelo pai, o tio, o amigo lá de casa e acaba por engravidar - e dos cenários hipotéticos - quantos processos de paternidade podem ser perdidos por mulheres com o argumento de que o nascimento de uma criança é uma opção exclusiva da mulher, desde que engravida até que a criança nasça - para não sair do que me interessa: o que deve a sociedade fazer perante estas morais irredutíveis e irreconciliáveis e como deve ser o máximo consenso moral possível codificado na lei?

Para os defensores mais radicais - no sentido de ir à raíz - destas duas morais, a solução passa pela lei impôr a todos a sua moral, que consideram indiscutível (direitos humanos, dizem os dois lados, falando de direitos diferentes que se chocam nesta matéria).

Por mim, isto é cavar trincheiras, é fomentar sociedades mais polarizadas, como agora se diz e vou tentar argumentar que há caminho a fazer, se se partir do princípio de que a base pode não ser a moral de cada um tornada universal, mas o respeito pela moral do outro, por maior que sejam as diferenças.

Um mulher pobre, pouco qualificada, com características pessoais comuns, digamos, cabo-verdeana, foge da sua condição miserável, entrando ilegalmente em Portugal e sujeitando-se a todo o tipo de trabalhos que considera compatíveis com a sua dignidade e que lhe permitam resolver as suas necessidades.

Algures, num momento qualquer, engravida.

Não tem recursos, a família está longe, vai perder o seu trabalho e, eventualmente, o direito de residência e trabalho em Portugal, que conseguiu ao fim de alguns anos a fugir das autoridades, se decidir voltar para a sua terra e família, provavelmente para a miséria de que fugiu.

Não me interessa discutir qual é o seu dever moral face à gravidez, nem me interessa muito discutir a sua responsabilidade sobre a situação, o que me interessa é que, pesando tudo, a mulher decide fazer um aborto, independentemente do que esteja escrito na lei.

A pergunta que me interessa é se devemos, como sociedade, considerar criminosa esta mulher e, sobre as dificuldades que já tinha na vida, lançar o sistema penal sobre ela.

Mesmo que partilhasse a moral que considera que a vida começa no momento da concepção, mesmo que considerasse a responsabilidade da mulher na criação da situação em que se viu envolvida, penso que eu não conseguiria condenar uma mulher "em estado de necessidade", tal como aliás acontece em relação aos homicídios, em que o tribunal pesa todas as circunstâncias antes de definir uma pena e ainda existem indultos para casos excepcionais, para não falar da guerra, que aceitamos apesar de ser uma evidente violação do direito à vida para milhares de pessoas.

O mais que me vem à cabeça é o "vai, e não tornes a pecar" bíblico, por mais agnóstico que eu seja, como sou.

Eu sei que definir "estado de necessidade" será sempre difícil e complicado, podendo envolver uma publicitação de circunstâncias num assunto de evidente delicadeza, mas manter esta espécie de guerra civil embrionária entre duas morais - que não se manifestam apenas neste assunto, embora eu reconheça a singular complexidade moral que decorre da discussão de direitos de entidades autónomas, o feto e a mãe (vamos fingir que os pais não são para aqui chamados, aceitando como generalizada a sua cobardia nesta matéria, de que falei acima) - não me parece menos complicado e parece-me muito menos útil.

A mim, um radical de centro em muitas matérias, parece-me que quanto mais a lei se focar no problema social real que se pretende que a lei ajude a resolver, e menos nas morais antagónicas que lhes estão associadas, mais probabilidades temos de ter sociedades melhores para vivermos.

Não sou jurista, mas tenho a intuição de que a lei é, sobretudo, codificação de opções morais (e matemática, acrescentam juristas encartados).

No entanto, quanto mais moralmente enxuta for a lei, procurando os grandes consensos morais e o maior respeito possível pelas diferenças morais de cada um, menos trincheiras estaremos a cavar e mais espaço fica para o chão comum de que precisamos para ter comunidades em que nos reconhecemos.

Empresas a patrocinar abortos

por João Távora, em 28.06.22

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O artigo de hoje da Helena Garrido no Observador foi para mim como um pontapé na barriga. Talvez porque tenho em boa conta as suas opiniões em geral e sobre economia em particular, e esta seja favorável à banalização do mal na comunicação empresarial que é matéria do meu ofício – na sequência da decisão do Supremo Tribunal várias grandes empresas prometem patrocinar viagens das suas empregadas a outros estados para abortarem. Se sou capaz de entender os conflitos éticos e morais que comporta a opção do aborto, recuso-me a entendê-lo como um “direito humano”. Ao contrário um aborto é uma solução bárbara, que na maior parte das situações pode ser evitado por pessoas providas de vontade.
A questão é: não seria melhor para a reputação das empresas mencionadas no artigo, Disney, JP Morgan e Citi, Levi Strauss, Microsoft e a Apple, patrocinarem a boa utilização dos contraceptivos e uma vida sexual saudável entre os seus colaboradores? Não, porque isso não traz boa imprensa, e porque - suspeito - as consciências da maioria dos seus clientes não suportam enfrentar complexo conflito de valores que encerra uma gravidez acidental sem o resolver literalmente ao pontapé. Afinal tudo se resume a um umbigo. E à facturação, evidentemente. 

Ilídio de Araújo

por henrique pereira dos santos, em 28.06.22

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Ontem, ao fim do dia, ali no Palácio da Independência, fui à apresentação deste livro.

Cerca de 25 pessoas numa sala para a apresentação de um livro não é mau, mas apenas 15 paisagistas, praticamente todos pelo menos tão velhos como eu, na apresentação deste livro, a mim incomoda-me.

Ilídio de Araújo era um caso singular na arquitectura paisagista em Portugal, sob muitos aspectos.

Começando pelas suas origens: ao contrário da generalidade da primeira geração de arquitectos paisagistas - e, convenhamos, durante quase todo o tempo em que funcionou o curso livre de arquitectura paisagista, no ISA, totalmente assente no Professor Caldeira Cabral - que eram pessoas superiores, como Ilídio de Araújo também era, e vinham, quase invariavelmente, de boas famílias tradicionais, ao contrário de Ilídio de Araújo.

Como o próprio dizia, era filho de agricultores e o gosto pelas flores e pela vegetação vinha-lhe da mãe, não sendo indiferente o facto do seu contacto com a vegetação ter começado quando tinha a cara a menos de 40 cm do chão, o que, na sua opinião, lhe dava uma intimidade muito maior com esse mundo que a que alguma vez teria quem começasse a olhar para as plantas com os olhos a um metro e meio do chão.

Quando eu estava no curso, Ilídio de Araújo era uma espécie de mito longínquo, o único que estava lá para o Porto (na verdade, algum tempo depois, havia um segundo arquitecto paisagista, Manuel Ferreira, muito mais novo), num certo isolamento que sempre cultivou, e muito associado à história da arte dos jardins.

Explicou-me mais tarde que essa ideia resultava de um equívoco - o facto de por acaso o único livro que tinha publicado ser "Arte paisagista e arte dos jardins em Portugal" - que tinha resultado de um conjunto de circunstâncias fortuitas.

Ele próprio entendia que essa área da profissão que se lhe tinha colado não era, sequer, das que mais lhe interessavam e em que mais trabalhava. Isso não o impedia de ser o melhor nessa área, acrescento eu. Era, no entanto, uma fama injusta e que o diminuía, na sua própria opinião, mas era assim que olhávamos para ele, quando eu estudei no fim dos anos setenta, princípios dos anos 80.

Mais tarde, quando trabalhei com Ilídio de Araújo, percebi bem como era redutora a imagem que tinha criado dele durante o curso, sendo das pessoas com quem mais aprendi sobre paisagens, de uma maneira a  que provavelmente livro nenhum fará justiça: a capacidade para ler a paisagem, in situ - do Noroeste de Portugal, em especial, mas qualquer outra - era assombrosa.

Trabalhar com Ilídio de Araújo estava muito, muito longe de ser fácil, embora eu não tenha muita autoridade moral para fazer comentários sobre essa matéria. Nem mesmo o facto de o meu sogro ter sido seu colega no liceu de Braga e, mais tarde, em Agronomia, unindo-os pelo menos a condição de exilados minhotos em Lisboa, filhos de pequenos agricultores, facilitava a relação profissionalmente tensa e pessoalmente civilizadíssima.

A grande quantidade de interesses que tinha, a permanente curiosidade sobre tudo o que dizia respeito à paisagem, e a dúvida permanente que o levava a estar sempre a estudar pontos de vista diferentes sobre tudo, fazia com que muitos dos que trabalhavam com ele, em especial os jovens paisagistas que queriam estagiar com ele, desistissem, concluindo, acertadamente, que "o Ilídio não orienta, desorienta", como ainda recentemente ouvi.

Sempre lhe conheci um tom amargo sobre o rumo de evolução das paisagens.

Essa característica foi-se acentuando, sendo difícil convencê-lo a falar sobre paisagens, gestão de paisagens, ordenamento, em grande parte dos últimos anos da sua vida, embrenhado nas suas interpretações sobre a proto-história e a paisagem (sempre a paisagem, e sempre a procura de entender melhor o que via).

Não admira, por isso, que quando aceitou apresentar o meu primeiro livro no Porto, em que, ao arrepio do que já era a sua atitude geral de recusa de falar sobre paisagens, aproveitou para dar uma boa lição sobre paisagens, eu tenha optado por publicar grande parte desse texto neste post da Ambio.

Ilídio tinha o dom de dizer o que queria, da maneira como queria e, ao mesmo tempo, ser percebido por toda a gente, quer se concordasse ou não, com o que dizia:

"Naquele tempo eu andava pelas nossas paisagens à procura de problemas; hoje fujo deles como de perturbadores pesadelos ... só ... me fez quebrar o voto de não mais falar publicamente de «paisagens» num país cujos governantes confundem econometristas com economistas, desenhadores com urbanistas, idiotas com doutores. E para quem os problemas das paisagens são problemas de lana caprina que nada têm a ver com a produtividade final do nosso trabalho colectivo.

...
o progresso técnico, a explosão demográfica, o progresso humano e social, e a globalização mundial da economia, fizeram recair sobre a Administração Pública um volume imenso de tarefas de previsão e de coordenação, que eram imprevisíveis há 60 anos – quando a ambição máxima de desenvolvimento que se propunha para cada português não passava de uma cabana, uma horta e sete palmos de terra no cemitério paroquial (emprestados por quatro ou cinco anos). Hoje qualquer idiota doutorado em contas de mercearia e mestre escola incapaz de escrever um postal sem dar uma dúzia de facadas na ortografia da sua própria língua reclama do Estado o direito adquirido a uma infinidade de serviços mais ou menos gratuitos, e de um menu de mordomias e privilégios, acrescentado com vencimentos mensais de milhões de euros".

Tenho a certeza absoluta de ir chocar com muitas discordâncias, algumas repetidas das discordâncias de há quase quarenta anos, quando trabalhámos juntos, (frequentemente assentes na visão dirigista do mundo de Ilídio de Araújo por contraponto à minha visão mais liberal), no livro que comprei ontem e de que fui lendo uma coisa ou outra, mas também tenho a certeza de que não darei o meu tempo por perdido ao confrontar-me com essas discordâncias.

Do que tenho pena, e na realidade me espanta, é dos meus colegas mais novos acharem que ter a possibilidade de ler Ilídio de Araújo não valha uma ida ao Palácio da Independência, ainda para mais com a apresentação do livro por Alexandre Cancela de Abreu, ao ponto de não estar lá quase nenhum dos meus colegas mais novos.

Fazeis mal, camaradas, fazeis mal, não saber de onde se vem dificulta muito saber o que fazer no futuro, qualquer que ele venha a ser.

"A paz, o pão, habitação, saúde, educação"

por henrique pereira dos santos, em 27.06.22

O título deste post, de um refrão de Sérgio Godinho, é entendido por muitos dos meus amigos mais esquerdistas como sendo o que define as pessoas de esquerda, as que apoiam o acesso universal a estes bens, das pessoas que não são de esquerda, as que não se incomodam com as diferenças de acesso a estes bens.

Na verdade esta ideia é uma completa mistificação, mesmo que se lhe acrescente o que vem depois "só há liberdade a sério quando houver a paz, o pão, habitação, saúde, educação, quando pertencer ao povo o que o povo produzir", este programa é o programa mais transversal que existe na sociedade: salvo franjas marginais da sociedade, toda a gente está de acordo com ele.

No essencial, o que distingue a generalidade das propostas políticas não são as diferenças de objectivos - em especial objectivos tão genéricos como estes - mas as diferenças sobre a maneira de lá chegar.

Nestes cinco objectivos há duas notáveis convergências e três pontos de divergência muito relevantes no papel que o Estado deve desempenhar no caminho para obter estes bens.

Quanto à paz, quase toda a gente defende que é uma matéria mais bem tratada pela Estado que pelos privados, praticamente não havendo quem defenda a privatização da diplomacia, da segurança colectiva e afins.

Quanto ao pão, há mais gente que defenda a apropriação colectiva dos meios de produção, mas as experiências que foram feitas com base nesse princípio correram (correm, ainda há muito país no mundo que vive na ficção de que a existência de propriedade colectiva da terra, fora da esfera de influência da comunidade que directamente depende dela, produz menos fome que o respeito pela propriedade privada e o livre comércio de produtos alimentares), dizia, correram tão mal, mas tão mal, que hoje quase ninguém defende que ter um sistema de padarias do Estado sirva melhor as pessoas que o actual modelo privado, da terra à distribuição e venda, de produção e disponibilização de alimentos.

Quanto à educação e saúde, a discussão segue generalizada, e a experiência empírica portuguesa, de reforço da dualidade dos sistemas de educação e saúde é de tal maneira eloquente que, como agora, às vezes me falta a vontade para discutir o que me parece gritante. E eu estou do lado dos privilegiados, calculo que para os que estão na metade prejudicada, seja ainda mais gritante.

Um artiguinho no Público de um dia destes "Um bom negócio para os privados mas mau para o Estado", de Sónia Alves (Investigadora do Instituto de Ciências Sociais, who else?) fez-me querer fazer uns comentários sobre habitação e o seu acesso.

A habitação é um direito fundamental e é, ao mesmo tempo, um negócio altamente regulamentado pelo Estado, em nome de outros bens comuns como o ambiente, a protecção dos solos, a eficiência colectiva, a qualidade do espaço público, etc..

Reconhece-se o direito à habitação de qualquer pessoa, mas nega-se a qualquer pessoa o direito a materializar esse direito através da criação da sua própria habitação, uma actividade totalmente dependente da autorização do Estado, numa clara limitação do direito de propriedade.

É pois este o contexto em que Sónia Alves resolve falar de bom negócio para os privados mas mau para o Estado, a propósito da transferência da propriedade estatal de habitações para os respectivos utilizadores, uma opção de muitos governos, especialmente conhecida no caso do governo de Margaret Thatcher (cerca de um terço da população vivia em habitações sociais, antes da grande alienação de património habitacional feita a partir de Margaret Thatcher).

A pergunta que Sónia Alves formula é uma pergunta central (desta, ou de qualquer outra política pública): "Qual é a eficiência desta medida no médio e longo prazo"?

Sónia Alves parece muito preocupada com o facto das casas vendidas pelo Estado aos que as habitam acabarem no mercado de arrendamento ou de venda a preços especulativos. Como não se define o que são preços especulativos, vamos esquecer esse nariz de cera, e concentremo-nos na pergunta que interessa face a esta objecção: qual é o problema de o Estado se livrar de casas que não consegue gerir apropriadamente - é aí que reside o problema, milhares de casas tinham péssima manutenção, estavam em péssimo estado de conservação, eram um sorvedouro de dinheiro e não serviam os seus habitantes convenientemente, como acontece em Portugal e em quase todo o lado em que existe habitação social de promoção directa pelo Estado -, cobrando um valor que considera adequado, os compradores investirem nelas o seu esforço e capital e depois, as colocarem no mercado com mais-valias que os novos compradores e arrendadores consideram adequadas?

Ganharam os vendedores, isto é, pessoas comuns, ganharam os novos utilizadores, que passarem a ter acesso a um bem por um preço que acharam justo, e isso é um problema face a uma situação anterior em que ninguém tinha o seu problema resolvido?

Sónia Alves responde que como os valores dessa venda - de casas que, em grande parte, estavam em mau estado de conservação e eram mal geridas, não cumprindo a sua função de dar uma habitação condigna aos seus moradores - e o capital necessário para construir novas casas é muito diferente, o que impede a substituição do stock de casas do Estado o que aumenta o número de sem-abrigo nos municípios com necessidades de habitação mais acentuadas.

Vamos esquecer a discussão das razões da existência de sem-abrigo, para nos concentrarmos na pergunta base: por que razão não investe mais o Estado na construção de casas para quem não as pode pagar?

Quantas casas o Estado constroi e quantos sem abrigo existem (os números são tão desproporcionais que é completamente ridículo atribuir à venda de casas aos seus moradores a existência de sem-abrigo, que são muito menos que o stock de casas do Estado entretanto criado)? E em que medida o facto de ao mercado terem chegado as tais casas vendidas aos moradores pressionou os preços para baixo, por aumento da oferta?

Infelizmente números não é o forte do artigo, e não há respostas para estas perguntas, excepto para quem for ler o livro que é dado como referência no artigo, que demonstra como é ridículo o número de sem-abrigo face aos números de novas casas construídas todos os anos pelo Estado.

Como de costume neste tipo de argumentos há um axioma que não é discutido: é bom o Estado ter casas para garantir o direito à habitação dos mais pobres que não podem pagar os preços de mercado.

Este axioma segue o mesmo caminho intelectual da ideia de apropriação colectiva dos meios de produção: nunca se verificou na realidade, mas isso não é porque a ideia seja má em si, é apenas porque nunca foi bem aplicada.

E, enquanto reforçam o sistema para que um dia venha a funcionar bem, os mais pobres vivem como vivem, nas circunstâncias em que vivem, nas escolas que frequentam, recorrendo aos serviços de saúde a que recorrem, esperando, espero que ao menos sentados, os amanhãs que cantam.

O pão, felizmente, não lhes falta porque o sistema de terras do Estado, com alfaias do Estado, apoiado em armazéns do Estado, que fornecem padarias do Estado, o faz chegar à sua mesa.

Acho que me perdi na argumentação, não tenho a certeza de ser assim que o pão lhes tem vindo a chegar à mesa, mas agora isso também já não interessa nada, toda a gente sabe que o pão é uma coisa demasiado importante para ser um negócio nas mãos de privados que só pensam no lucro.

Domingo

por João Távora, em 26.06.22

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Aproximando-se os dias de Jesus ser levado deste mundo, Ele tomou a decisão de Se dirigir a Jerusalém e mandou mensageiros à sua frente. Estes puseram-se a caminho e entraram numa povoação de samaritanos, a fim de Lhe prepararem hospedagem. Mas aquela gente não O quis receber, porque ia a caminho de Jerusalém. Vendo isto, os discípulos Tiago e João disseram a Jesus: «Senhor, queres que mandemos descer fogo do céu que os destrua?». Mas Jesus voltou-Se e repreendeu-os. E seguiram para outra povoação. Pelo caminho, alguém disse a Jesus: «Seguir-Te-ei para onde quer que fores». Jesus respondeu-lhe: «As raposas têm as suas tocas e as aves do céu os seus ninhos; mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça». Depois disse a outro: «Segue-Me». Ele respondeu: «Senhor, deixa-me ir primeiro sepultar meu pai». Disse-lhe Jesus: «Deixa que os mortos sepultem os seus mortos; tu, vai anunciar o reino de Deus». Disse-Lhe ainda outro: «Seguir-Te-ei, Senhor; mas deixa-me ir primeiro despedir-me da minha família». Jesus respondeu-lhe: «Quem tiver lançado as mãos ao arado e olhar para trás não serve para o reino de Deus».

Palavra da salvação.

Comentário: Desde agora, o Evangelho apresenta Jesus a caminho da Paixão. Esta caminhada de Jesus é entendida, de maneira diversa, pelas várias pessoas que dela têm consciência ou que Jesus até convida a segui-l’O. Seja qual for a situação de cada um, só há uma atitude certa: seguir o Senhor, como fez Eliseu quando Elias o chamou, como fez S. Paulo e os outros Apóstolos, e todos aqueles, que, um dia chamados, souberam escutar a sua voz.

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O problema do bacalhau à Braz

por henrique pereira dos santos, em 25.06.22

Desta vez, Graça Freitas tem menos responsabilidades das que lhe atribuem no acessório, mas mantém intactas as responsabilidades que lhe cabem no essencial.

"Não sei se têm a noção que no Verão há muitas infecções tóxico-alimentares colectivas.Tradicionalmente em Portugal - eu vou dizer uma que é absolutamente verdadeira, quando nós investigamos - o grande responsável é o bacalhau à Braz. Aqueles grandes convívios, pic-nics, excursões, uma das coisas mais usadas é o bacalhau à Braz, que está pré feito desde manhã, e depois aquece-se, não chega a aquecer à temperatura suficiente e que leva ovos. E aqueles ovos são uma cultura das salmonelas do melhor que há. E portanto, grande parte - até é pouco estimulante para investigar e estudar - as toxinfecções alimentares, invariavelmente, são bacalhau à Braz e salmonelas".

É claro que Graça Freitas pelo meio fala em pic-nics, mas o que está a dizer é cristalino: naqueles grandes convívios, excursões e etc., não está propriamente a falar de pic-nics familiares e afins, note-se, por exemplo, que refere explicitamente o facto do dito bacalhau à Braz ser aquecido antes de servido, o que manifestamente não corresponde ao que chamamos pic-nics normalmente.

Ou seja, o destaque dado pela imprensa aos pic-nics é da responsabildiade da imprensa, não de Graça Freitas.

Já o resto da conversa, a apresentação de um plano "Juntos por um Verão seguro 2022" ser apresentado pela Directora Geral de Saúde, da forma como é feito, e com as características que tem, isso sim, é da sua responsabilidade.

A forma como a DGS nos trata a todos como se fôssemos todos tontos, a conversa infantil que inclui piadas e descrições sobre o bacalhau à Braz, em que se misturam pic-nics, grandes excursões e falta de interesse para os investigadores - senhora directora-geral, a sua Direcção Geral existe para resolver problemas das pessoas comuns, não para estimular investigadores e estudiosos - ao mesmo tempo que se omitem dados concretos (por que razão não diz taxativamente que x% das infecções toxico-alimentares correspondem a este tipo de situações, y% a outra coisa, z% a uma terceira?) é exactamente o modelo de comunicação que sempre foi usado durante a epidemia de Covid.

Muita opinião, muito argumento de autoridade, um tom muito maternal - confesso que me incomoda muito mais o tom untuoso com que se refere ao seu Secretário de Estado, ou até ao nosso Secretário de Estado, que esse seu tom maternal - para os meninos se portarem bem.

Informação concreta sobre os assuntos, dados e, sobretudo, sabendo que o uso de ovos mal cozinhados é um problema de primeira grandeza, que tipo de acções preventivas e fiscalizadoras a sua Direcção Geral vai fazer, isso é que já é mais difícil, não é?

E, já agora, para que raio é preciso um programa pomposo para este Verão, apresentado pela Senhora Directora Geral?

Isto não é a actividade normal da sua Direcção Geral? As acções específicas para o Verão não são actividade normal que um subordinado seu consegue desenhar, executar, acompanhar e comunicar, sem grande espalhafato, incluindo um balanço de acções específicas depois do Verão, com lições aprendidas para o ano seguinte e para a actividade futura da sua Direcção Geral?

Ou continua convencida de que o papel da sua Direcção Geral é levar as pessoas a ter os comportamentos que a sua Direcção Geral entende que são os ideais, em vez de se focar nos comportamentos da sua direcção geral para atingir os objectivos definidos com bases sólidas?

Claro que ter campanhas para que as pessos lavem as mãos, ou evitem ter ovos mal cozinhados ao calor demasiado tempo, até cabem na missão da sua Direcção Geral, mas não deixam de ser meras acções de suporte de estratégias claras, bem fundamentadas, para a defesa da saúde geral da população, em que o essencial continua a ser ter um sistema de saúde funcional em qualquer parte do país, estejam ou não as pessoas na sua área de residência, acções de fiscalização dos agentes económicos onde existe maior risco de saúde pública, como nos prestadores de serviços que servem bacalhau à Braz mal manuseado, e outras coisas que tais.

E deixe-se de piadas e conselhos maternais sobre o que os outros fazem, que isso não nos leva a lado nenhum, pessoalmente não tenho interesse nenhum em saber quanta água carrega na sua carteira para que eu passe a andar também com garrafas de água atrás, como lhe parece a si que seria a minha obrigação.

Faça o que tem a fazer como Directora Geral de Saúde e deixe lá o que faz a senhora Graça Freitas, que isso não é matéria de interesse público.

Jéssica

por João Távora, em 24.06.22

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A propósito do hediondo caso de tortura e assassinato de uma menina de 3 anos em Setúbal que a todos nos vem martirizando as consciências, Marcelo Rebelo de Sousa relevou o sinal de miséria moral que o caso evidencia e que nos deve fazer reflectir. Desta vez confesso que estou de acordo com o ângulo da perspectiva do comentador, que acedo a aprofundar. Se por estes dias se ouvem muitas vozes genuinamente indignadas com a falha do Estado e dos seus organismos, julgo que esse é o ponto menos relevante, independentemente de reformas e aperfeiçoamentos que eles mereçam. No meio do choque e incredulidade com os meandros da macabra história, julgo ser necessária a lucidez de aceitar que a maldade sempre existiu e existirá em potência e (ainda bem) que nos consegue surpreender desta maneira mais brutal – porque é contra-natura e antinatural, um acontecimento raro, portanto. E que a única forma que temos de precaver a ocorrência casos de crueldade indizível como estes é o estreitamento da malha social, através das instituições orgânicas que a compõem e estão em profunda crise, as comunidades num processo de atomização voraz e consequente desenraizamento humano. Colocar no lugar da família alargada, da comunidade de proximidade, da paróquia, ou de outros organismos intermédios, uma máquina de vigilância estatal que actue como um colossal polvo policial, é no meu entender um erro grave, não só porque a sua eficácia será sempre risível na gestão do conflito de valores que este tipo de matéria sempre gera, mas porque nada consegue substituir as relações de proximidade duma comunidade estruturada e com valores morais. O “policiamento” dos núcleos familiares problemáticos por entidades estatais é por natureza propensa ao erro e ao abuso, estou em crer. O que eu quero dizer é que temos sorte de não sermos mais vezes confrontados com outros casos chocantes de bestialidade humana como o de Jéssica, tendo em conta a solidão e miséria moral que grassa na sociedade que emerge da modernidade individualista e hedonista que construímos.

Deus receba a menina Jéssica no seu colo acolhedor, tenha piedade dos seus malfeitores e nos perdoe não a termos salvo.

Como contar

por José Mendonça da Cruz, em 23.06.22

Todos os cursos de jornalismo deveriam incluir (mas não incluem) esta pequena lição sobre como se relata um drama. Um dia, uma professora de liceu perguntou às meninas e meninos da sua turma mista se gostavam ou não de caça. Os meninos e as meninas manifestaram-se todos contra com grande ênfase e algazarra. «Então», disse a professora, «escrevam uma redacção sobre isso, explicando porque não gostam da caça. Amanhã lemos as melhores.»

Mas, no dia seguinte, afinal, a professora só leu uma redacção. Resumiu 29 das 30, que eram todas iguais. «Ah, a caça é muito má, os homens são cruéis, matam os animaizinhos inocentes só para se divertirem e ganharem dinheiro, não pensam nas ninhadas que ficam orfãs, não pensam na dor de um casal quando um deles é morto, querem é explorar a natureza, não têm respeito por nada, nem pelo sofrimento dos animais, nem pelo ambiente.» E assim por diante.

A professora leu, no entanto, a redacção de um dos meninos. Dizia assim: «O caçador apontou bem e disparou. A bala fez um som surdo quando atingiu o veado e levantou pó no pelo. As mãos do veado estremeceram, dobraram-se, ele tentou levantar-se, mas teve uma convulsão, e ajoelhou, e o peito e o focinho bateram no chão. Depois caiu a garupa. O veado tombou inteiro numa nuvem de poeira. O caçador saiu do esconderijo e aproximou-se. O veado arfava, o buraco que a bala fizera jorrava golfadas de sangue e da boca do animal saía uma aguadilha, uma mistura de baba e de sangue. Os olhos do veado estavam cheios de medo, o caçador viu-os, mas depois o veado resfolegou, vomitou mais sangue com baba, e deixou de respirar e os olhos, muito devagarinho, deixaram de olhar, e depois perderam o brilho, e depois ficaram baços.»

Quando a professora acabou de ler a redacção deste menino -- que não tinha dito para proibirem a caça, nem para matarem os caçadores, nem para ilegarizarem as espingardas, nem proclamara que os veados são a mais bela criação do mundo, nem jurara que a caça mata o ambiente e o ambiente nos vai matar a todos -- quando acabou de ler a redacção os meninos e as meninas choravam baba e ranho todos.

Ora, embora correndo o risco de, com considerações deste género, estar a educar alguns fanáticos de «causas», eu faço-as ainda assim. Porque julgo que os fanáticos de causas não aprendem nada, nem sequer o que seria eficaz para eles. Não, o meu propósito é mais modesto: é evitar que numa reportagem sobre uma cidade ucraniana deserta e devastada o jornalista comece por dizer que «é como o dia a seguir a uma festa» ou «como a estação quando o comboio já partiu». É que, como os dos meninos excitados, há textos armados em lintratura ou pô-é-zia que não são só vãos e indignos, são estúpidos.

Sonho numa noite de Verão

por João Távora, em 22.06.22

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Neste período difícil de absoluta inactividade futebolística de interesse, quando há que arregaçar as mangas da imaginação para especular algo de jeito que cative o leitor ávido de futebol, usam-se as peripécias mais manhosas para encher os chouriços que são as páginas de jornais desportivos e os painéis televisivos sobre bola. Das diárias notícias sobre promessas de contratações sonantes e vendas milagrosas há uma em especial que me consegue desviar a atenção dos meus afazeres: a promessa do retorno a Alvalade de Cristiano Ronaldo. Confesso-vos uma coisa: o meu maior sonho era ver o Sporting Campeão Nacional com Cristiano Ronaldo na equipa e Ruben Amorim aos comandos. Já pensaram bem o que seria? Uma época com o estádio cheio sempre a cantar.

Post publicado originalmente aqui

Propaganícias

por José Mendonça da Cruz, em 20.06.22

Revela na Sic, hoje, o primeiro-ministro que as pensões vão ter um aumento «histórico», em cumprimento de uma lei cujo autor não lhe ocorre. É para 2023.

Um membro do Governo diz, hoje, na Sic, que o Siresp vai entrar em funcionamento. Custa 75 milhões e mais 150 de aperfeiçoamentos. Estará em pleno em 2026.

Outro membro do Governo anuncia, hoje, na Sic, que o pagamento do abono de família vai passar a ser simples e automático. Em 2028, sem falta.

Devemos esperar para amanhã o hidrogénio verde para 2070, o TGV para 2080, o novo aeroporto para 2085, a perspetivação para o futuro da previsão da possibilidade de eventuais lucros na TAP?

2023?! 2026?! 2028?!

Serão propriamente notícias, ou uma barragem de propaganda veiculada pela informação do irmão do primeiro-ministro para distrair do caos no SEF e no SNS? Ou uma coisa e a outra serão sinónimos?

A responsabilidade do jornalismo nos próximos grandes fogos

por henrique pereira dos santos, em 20.06.22

A propósito do meu post anterior, tive uma conversa agradável e muito civilizada com uma jornalista que o leu, tanto mais que habitualmente escreve sobre gestão florestal e afins.

Essa conversa é o ponto de partida para o desenvolvimento de um assunto que já estava no meu post anterior: a responsabilidade do jornalismo nos fogos.

O padrão geral de fogos que temos, isto é, fogos relativamente pouco frequentes, extensos, contínuos e intensos, é um padrão de fogo que causa impactos diferentes do padrão de fogo que tínhamos até à segunda metade do século XX, isto é, fogos muito frequentes, em mosaico e de baixa intensidade. Note-se que sempre houve grandes fogos, em situações meteorológicas excepcionais, mas, provavelmente, não com a mesma extensão e com tempos de retorno de doze a quinze anos como temos hoje.

Se o padrão de fogo dominante nas últimas centenas de anos, até à segunda metade do século XX, tinha um efeito de depauperamento dos solos das terras marginais e simplificação dos sistemas naturais, o padrão de fogo actualmente dominante, embora mais favorável para a regeneração dos solos e a recuperação dos sistemas naturais, tem custos muito elevados em perdas económicas (directas e indirectas), destruição de infraestruturas e vidas humanas.

Na base da alteração deste padrão de fogo estão razões sociais e económicas que se traduzem numa gestão das terras marginais muitíssimo menos intensa (em largas áreas, puro abandono de gestão), o que permite a acumulação e continuidade de combustíveis finos (ervas, folhas, raminhos, cascas, manta morta, tudo coisas com menos de 6mm de diâmetro, que é o que permite a progressão das chamas na frente de fogo, ou com menos de 2,5 cm de diâmetro, que é o que permite a irradiação de energia que vai alimentando o incêndio, com a ajuda de alguns combustiveis de maior calibre).

E porque é a estrutura e quantidade dos combustíveis que define o comportamento do fogo - o fogo é um produto do seu contexto, controlar o contexto é controlar o fogo, perder o controlo do contexto é perder o controlo do fogo -, sobretudo nas condições meteorológicas extremas em que ocorrem os grandes fogos, é essencialmente irrelevante a discussão sobre as espécies que temos no nosso território, sobre ignições, sobre estrutura de propriedade, sobre aviões, meios de combate, corporações de bombeiros, etc..

O que está escrito acima não são opiniões minhas, são factos demonstráveis e verificáveis, havendo dezenas de artigos científicos que o fundamentam.

Pois bem, qual tem sido a opção dominante do jornalismo (gostaria de deixar claro que não quero fazer generalizações injustas, o que vou escrever diz respeito ao que é dominante na paisagem jornalística, não inclui as excepções e os imensos tons de cinzento que existem entre o branco e o preto)?

Falar de fogo posto, com base em testemunhos da treta, como se não houvesse um registo diário de ignições que permite perceber que todos os dias há ignições, mas só em cerca de 12 dias num ano é que dão origem a fogos relevantes. E, nesses dias, a discussão sobre a ignição concreta que deu origem a um fogo de milhares de hectares é irrelevante, porque se não fosse essa, era outra mais ao lado.

Fazer reportagens na frente de fogo, falando com bombeiros e populações, como se fosse a frente de fogo o sítio mais adequado para pensar racionalmente sobre a gestão do fogo.

Ouvir uma quantidade inacreditável de alucinados, a maior parte dos quais sem qualquer curriculum profissional relacionado com ecologia do fogo e com gestão de fogo, sobre a relação entre eucaliptos e fogos (existe consenso científico sobre o assunto, mas é o que está acima: a estrutura e quantidade de combustíveis é o que interessa, a espécie dominante interessa pouco para a discussão sobre a gestão do fogo).

Dar espaço e publicidade a teorias conspirativas várias sobre o preço da madeira - sim, há uma discussão séria a fazer sobre a eficiência e a transparência do mercado das madeiras e, dentro deste, da rolaria de eucalipto, em que a existência de um duopsónio nos deve levar a ter alguma cautela na avaliação da existência, ou não, de posições dominantes que se traduzam na manipulação dos mercados - em vez de discutir seriamente o assunto investigando os factos.

Fascinar-se, permanentemente, com planos, estratégias, decisões futuras que um dia vão resolver problemas como a atomização da propriedade - francamente, o problema da propriedade é só um sintoma da ausência do seu valor, não é por uma coisa sem valor mudar de dono que passa a ter valor -, a falta de ordenamento - muito gosta o jornalismo português de metafísica - e outros problemas intangíveis e sem qualquer utilidade prática.

E, mais que tudo, o julgamento moral permanente dos malandros do proprietários que, estúpidos, têm minas de diamantes nas suas mãos mas insistem em ficar mais pobres que ricos.

Meus caros jornalistas, o país, a manter-se o rumo actual, vai ter fogos trágicos ali por 2030, mais ano, menos ano, mas escusam de fugir da vossa responsabilidade: a forma como olham para o assunto, as pessoas que escolhem ouvir, a verificação de factos que fazem, a ideologia que contrabandeiam disfarçada de conhecimento técnico, é um dos principais problemas da gestão florestal do país.

E dessa responsabilidade não podem fugir, é vossa e só vossa.

O doce e fácil reino do blá blá blá

por henrique pereira dos santos, em 19.06.22

Como se pode verificar pelo video, não sou eu o autor do título deste post.

Vem isto a propósito de uma coisa extraordinária: uma verificação de factos do Público que pretende verificar se a afirmação "As áreas integradas de gestão da paisagem ainda não executaram uma nova gestão".

A coisa extraordinária começa com o PSD de Leiria: "O Governo procedeu à assinatura de protocolos, visando a criação de Áreas Integradas de Gestão da Paisagem que previssem a implementação de operações integradas de gestão da paisagem. ... Contudo, nada está feito, nada está implementado, excepto aquilo que já estava feito pelas ZIF".

O PSD de Leiria está de acordo com a política do governo de resolver o problema dos fogos através da criação de áreas integradas de gestão da paisagem (com diversos nomes, o mais persistente dos quais as tais ZIF, Zonas de Intervenção Florestal, é o que todos os governos têm vindo a fazer, com os resultados que se conhecem), só tem pena é que o governo não seja capaz de executar (eles dizem implementar, mas perdoai-lhes porque não sabem o que fazem) as políticas que definiu e com as quais, pelos vistos, o PSD Leiria concorda.

Uma oposição assim é o sonho de qualquer governo e essa é a primeira coisa extraordinária desta colunazinha do Público, o facto da oposição não ter políticas alternativas, apenas mágoa pelo facto do governo não cumprir as políticas por si definidas.

A segunda coisa extraordinária é a forma como o Público (H.P., é a assinatura, não sei quem seja, embora suspeite) resolve verificar se é como diz o PSD, ou não.

Foi ver quantas AIGP foram constituídas (70), dessas quantas têm entidade gestora (29) - a ou o jornalista aparentemente não estranha que haja áreas de gestão integrada, seja do que for, que não têm entidade gestora -  e, explica, compreensiva a jornalista, é preciso ter em atenção que depois de serem constituídas, depois de haver entidade gestora, ainda é preciso ir falar com os proprietários - a jornalista, aparentemente, não estranha que só depois de terem sido constituídas estas áreas e definidas as suas entidades gestoras é que seja preciso falar com os proprietários.

O melhor de tudo e mais extraordinário?

A jornalista não vê nada feito, diz que tudo indica que realmente não haja nada feito, mas não pode concluir se a frase é verdadeira ou não porque o governo não respondeu às suas perguntas e, claro, sem a fonte da verdade e da vida dizer se realmente andam a brincar aos papéis em vez de encarar os problemas de frente, não se pode concluir que andam a brincar aos papéis e não a encarar os problemas de frente.

Seria totalmente incompreensível que a jornalista fosse verificar os factos independentemente das respostas do governo, isso parece-me claro e evidente para qualquer pessoa de bom senso.

Por mim, podeis continuar, governo, oposição e jornalistas a brincar aos papéis e tenho a certeza que, a manter-se a trajectória actual que desembocará num ano de grandes fogos ali por volta de 2030 (grandes fogos pode haver em qualquer ano, actualmente, estou a falar de situações excepcionais de muitos grandes fogos e com centenas de milhar de hectares ardidos num só ano, destruição de infraestruturas e provável morte de algumas pessoas), logo se verá quem se deve responsabilizar - provavelmente os proprietários, os que têm sido sempre responsabilizados e tem corrido bem - agora governo, oposição, jornalismo, esses não, esses não terão responsabilidade nenhuma, esses andaram como o cão que havia em minha casa, quando eu era miúdo, a correr atrás da sua própria cauda de cada vez que ouvia o motor do carro do meu irmão que era o seu dono, isto é, cheios de actividade, mesmo que a acção seja pouca ou nenhuma.

Domingo

por João Távora, em 19.06.22

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Um dia, Jesus orava sozinho, estando com Ele apenas os discípulos. Então perguntou-lhes: «Quem dizem as multidões que Eu sou?». Eles responderam: «Uns, dizem que és João Baptista; outros, que és Elias; e outros, que és um dos antigos profetas que ressuscitou». Disse-lhes Jesus: «E vós, quem dizeis que Eu sou?». Pedro tomou a palavra e respondeu: «És o Messias de Deus». Ele, porém, proibiu-lhes severamente de o dizerem fosse a quem fosse e acrescentou: «O Filho do homem tem de sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos príncipes dos sacerdotes e pelos escribas; tem de ser morto e ressuscitar ao terceiro dia». Depois, dirigindo-Se a todos, disse: «Se alguém quiser vir comigo, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz todos os dias e siga-Me. Pois quem quiser salvar a sua vida, há-de perdê-la; mas quem perder a sua vida por minha causa, salvá-la-á».

Palavra da salvação.

Comentário: S. Pedro, em nome de todos, reconhece e proclama a fé fundamental da Igreja: Jesus de Nazaré, o Filho do homem, é o Messias de Deus, o profeta anunciado desde os tempos antigos, o Ungido pelo Espírito Santo, o Enviado de Deus. É Ele que vem dar a vida pela salvação dos homens. Ele é, como na profecia da primeira leitura, Aquele que os homens trespassaram, mas cujo Coração aberto na Cruz é fonte de graça. Para ser seu discípulo, não há outro caminho senão o que Ele mesmo traçou.

Conversas sobre Pedrogão

por henrique pereira dos santos, em 18.06.22

"Plantaram mais eucaliptos, e quando voltar a haver um incêndio enorme, e gente a morrer, a culpa vai ser da trovoada! Os tugas vão voltar a ser solidários, e a dar dinheiro para eles fazerem e refazerem as casas dos amigos... e está tudo bem!".

"Respondo-lhe a si porque tenho respeito pelo seu trabalho noutros campos que não este: não plantaram nada na maior parte dos sítios, homem, a percentagem de área com plantações é mínima, pegue num carro e vá lá ver em vez de repetir este tipo de disparates facilmente verificáveis".

"quem diz que plantaram foi um morador, citado hoje na capa de um jornal. Sei perfeitamente que não precisam de plantar nada, porque a seguir ao incêndio eles nascem “como cogumelos” (ou mais). Mas se não os plantaram, pelo menos que os cortassem...".

Isto é um excerto de uma conversa a propósito de um artigo de jornal, dos muitos que ontem se fizeram a propósito da passagem de cinco anos sobre o incêndio de Pedrogão.

Eu próprio, aliás, participei num programa de rádio que evocava essa data.

Não me interessa, neste post, discutir quer as circunstâncias desses grandes fogos, quer a evolução da nossa paisagem antes e depois desses fogos, até porque tendo escrito sobre isso um ensaio há pouco tempo, e podendo qualquer pessoa comprar o livro em que se publicará esse ensaio, considero-me dispensado de me repetir, desta vez.

O que me interessa, neste post, é esta paranóia colectiva sobre o eucalipto, que leva pessoas sensatas, razoáveis, medianamente informadas sobre o que se passa à sua volta, a dizer as coisas mais absurdas sobre o assunto.

Sobretudo interessa-me a frase final da conversa que transcrevi "Mas se não os plantaram, pelo menos que os cortassem...".

E interessa-me porque sintetiza uma alienação estratosférica, que não é apenas desta pessoa em concreto, mas de largas partes da sociedade.

Aparentemente, quem pensa e escreve coisas destas não tem em atenção que não há gestão da paisagem, não há possibilidade de fazer gestão em larga escala e ao longo do tempo, sem retorno que pague essa gestão.

Em primeiro lugar, se não existe gestão que faça a selecção de varas (é o que quer dizer a expressão equívoca " a seguir ao incêndio eles nascem “como cogumelos” (ou mais)", porque mesmo aceitando que talvez haja uma progressiva adaptação dos eucaliptos portugueses que faz aumentar a reprodução seminal, como recentemente me disseram, ainda assim o nascer como cogumelos dos eucaliptos após fogo não decorre da reprodução seminal, mas do rebentamento de toiça, esmagadoramente), que seria uma operação com retorno na produção de madeira que o mercado remunera (mal, mas remunera), como querem que haja gestão para fazer uma coisa que não tem qualquer retorno, como andar a cortar eucaliptos periodicamente (sim, porque cortar a rebentação após fogo não faz desaparecer os eucaliptos, apenas os faz rebentar de novo, se é para eliminar eucaliptais de forma eficaz, o que é preciso fazer é pulverizar a rebentação com glifosato)?

Pode admitir-se que, enfim, o conhecimento técnico sobre o assunto seja fraco e esta primeira questão associada à frase final da conversa seja apenas fruto de alguma falta de empenho no estudo do problema.

Mas há uma outra pergunta fundamental a que, aparentemente, não se atribui nenhuma importância.

Admita-se que sim, que era fácil, racional e útil, cortar todos os eucaliptos.

E daí? O que se esperaria obter com essa operação?

É que ao cortar todos os eucaliptos (vamos esquecer as questões técnicas) o resultado não seria passar a ter grandes carvalhais ou, ao menos, oportunidades para que se desenvolvessem grandes carvalhais, o resultado era apenas ter o mesmo abandono e a mesma falta de gestão, agora sem eucalitpos.

O que, do ponto de vista dos fogos, era completamente irrelevante.

Continuar a discutir a gestão dos fogos com guerras de alecrim e manjerona entre espécies (note-se que não é uma discussão de curiosos como eu, Francisco Castro Rego põe a discussão frequentemente nessa base, embora de forma muito mais sofisticada do que a maioria das pessoas, e há coordenadores de planos de transformação da paisagem que fazem propostas mirabolantes, a que o Estado dá cobertura, centradas nessa guerra de espécies. O país, enquanto tal, tem uma política florestal baseada nessa discussão bizantina) é um bom caminho para o desastre que se irá repetir, algures por 2030, mais ano, menos ano.

Enquanto andarmos a inventar problemas reais, para responder a problemas inexistentes, ou com pouca relevância para a gestão do fogo, o resultado final só pode ser aumentar os problemas que desembocarão no resultado que, neste momento, é o que poderemos esperar: a repetição de Pedrógão, algures entre dez e quinze anos depois do desastre anterior.

Nós temos um problema de gestão de combustíveis finos, esse problema resulta da falta de uma economia que remunere essa gestão e deveríamos estar concentrados ou em aumentar a eficiência dos mercados que possam remunerar essa gestão, ou em criar mercados de iniciativa pública nas circunstâncias em que não há mercados que estejam a remunerar essa gestão.

Todas as distrações que fujam deste programa não passam disso mesmo, de distracções, não alteram em nada a trajectória para o desastre quem continuamos a estar, apesar das melhorias pontuais na compreensão do fogo e da sua gestão que têm ocorrido na sociedade portuguesa (e, para ser rigoroso, em quase todo o mundo).

Paul McCartney 80

por João Távora, em 18.06.22

(...) As luminárias intelectuais da época não lhe recusavam o convívio. As suas canções eram interpretadas pela nata, de Sinatra a Ella, de Bing Crosby a Sarah Vaughan. McCartney era um símbolo sexual, da moda, da cultura e da contra-cultura. À escala da música popular, era igualmente um símbolo cimeiro de talento. Num determinado instante, que durou meia dúzia de anos, McCartney era o “maior”. E, sob a simpática ligeireza que afectava, ele sabia-o. E nem assim endoideceu. E isso, a ausência de loucura, é sobretudo o que o distingue dos parceiros de fama, quase todos menos famosos e quase todos um bocadinho avariados.

Ao contrário de Brian Wilson, o único contemporâneo seu concorrente em competência melódica, McCartney não se enfiou deprimido na cama por uma década ou duas. Ao contrário de Elvis, a única celebridade comparável, não se refugiou no peculiar conforto de Vegas e dos hambúrgueres. Ao contrário de inúmeros outros, não morreu de overdose, nem adoptou 17 esquimós, nem aderiu a um culto, nem apoiou terroristas, nem destruiu “suites” por desfastio. Ao contrário desse em que vocês estão a pensar, não se devotou a uma “artista” sem competências discerníveis e a clichés “contestatários” próprios da pré-adolescência. É verdade que, por pirraça, McCartney teimou em conceder à mulher um papel público que nada justificava. É verdade que se tornou vegetariano militante. É verdade que, para exibir com desfastio as credenciais do ofício, se viu preso no Japão por posse de marijuana. Insignificâncias, pois. Aos 80 anos completados hoje, 16 além dos 64 da lenda, crivado de homenagens e reverência, é possível dizer que McCartney foi um sujeito bastante “normal” para a vida anormalíssima que viveu. E demasiado normal depois que “morreu”. (...)

Alberto Gonçalves a ler na integra aqui

Luz numa espécie de ruína

por José Mendonça da Cruz, em 16.06.22

Eu tive um grande amigo, uma cabeça privilegiada, que um dia, há mais de 50 anos – exatamente quando o meu Mini passava sobre o Viaduto Duarte Pacheco para nos levar não sei onde –, me explicou que no fim do curso de Direito ia para Padre. Assombroso quando vindo de quem seria sem dúvida um líder político de combate, com carisma, competência e ideias, ou um temível advogado de barra (provavelmente não um diplomata). Acabou com brilho o curso, e foi para padre. Teve uma vida notável e no outro dia morreu.

Eu olho à volta, para a bagunça subdesenvolvida do aeroporto de Lisboa, para o caos intencional e ideologicamente provocado no Serviço Nacional de Saúde, para a demanda incansável de nivelamento por baixo na educação, ouço as vacuidades com que se tenta mascarar a disfuncionalidade do país – temperada de cobardia, venalidade e propaganda, quando não da grosseria mais rasca – e lembro-me dos tristes suspiros moribundos do coronel Kurz, em Apocalipse Now, sobre a enorme força moral de um grupo dos seus inimigos: «Se eu tivesse uma divisão de homens assim esta guerra acabaria muito depressa». Se nós tivéssemos um batalhão de homens como o Padre João Seabra, o meu querido amigo João, este país mudava muito depressa para muito melhor.

Conheço de ter estado atento, e de algumas vezes ter sido beneficiário – e alguns memoriais inteligentes e comovidos refrescaram-me a memória – da obra do Padre João Seabra, mas este não é um obituário sobre um amigo de infância, o meu querido amigo João. Foi uma obra Cardeal, a dele – e no entanto nunca foi a Bispo. Nunca se queixou.

Conheci de perto o Colégio de São Tomás, que a minha filha mais nova frequentou desde a primária até ao 12.º ano. O São Tomás era um colégio católico e um colégio de exigência. Perguntei certa vez porque tinha ela que escolher como disciplina suplementar o Latim ou o Alemão. Explicou-me, para meu consolo e satisfação, que além de obterem novos conhecimentos (o Latim, sobretudo, digo eu, é um ginásio mental) os alunos ganham em aprender concentração e esforço.

Tento informar-me nos media que por aí há sobre como vai a Educação socialista. Pedem-me para atravessar, primeiro, uma barragem de ignorância e iliteracia: aprendo que há porta-aviões chineses que conseguem sobrevoar Taiwan; sei pela célula bloquista do insuspeito Observador que «Guterres encostou Putin à parede»; constato com surpresa que há muitas coisas que dantes alastravam e agora «alastram-se»; e aumenta a minha admiração pela raça equina ao saber pela Sic que, no jubileu de Isabel II, às tantas «foram os cavalos a assumir o protagonismo». E tudo isto é normal, pois ouvi há semanas na mesma Sic que «as autoridades insistem na possibilidade de poder haver» não sei quê em Mariupol. A possibilidade de poder haver disparates – como o de a CNN/Portugal anunciar na Quinta Feira Santa que o «Papa dá início à Semana Santa» – alastra-se.

Consigo, por fim, saber que no Ensino socialista não há professores, não há avaliação, nem destes, nem dos alunos, não há mérito e que o que é preciso é toda a gente ser ignorante e feliz. Aprendo que há uma derradeira inovação progressista que consiste em acabar com a matemática, porque, dizem, a abstração é tenebrosa. Há filósofos modernos que veem na matemática a nova filosofia. O socialismo, não. O socialismo ambiciona que as crianças contem peras e moedas de cêntimo; dependam do Estado e sonhem com «apoios» dele; tenham umas noções sobre os ganhos da raspadinha e uns rudimentos de contabilidade, 1 mais 1, 2, 2 mais 2, 4, coisas práticas e modestas, rabos de bacalhau basta.

A exigência do Colégio fundado e dirigido pelo Padre João Seabra não educava, nem formava apenas quem podia pagar; também formava e educava pro bono. Foi abrindo a muitos, que não pagavam, as portas do elevador social. O Colégio era de uma associação privada, e custava dinheiro e esforço mantê-lo. «Desculpa que estou cheio de pressa, vou ali ver se angario um milhão», disse-me ele certa vez à porta «das Conchas». Por vontade dos socialistas fechavam o colégio e o elevador. Mas o Colégio ficou, a continuar um trabalho magnífico.

Em casa do meu querido amigo João Seabra, ainda com 13 anos, ainda não Padre, rezava-se o terço a seguir ao jantar e citava-se muito – ele e o pai – os Maias, o Fradique, as Cartas. Eram capazes de citar parágrafos inteiros. Por exemplo: «A melhor prosa, a mais perfeita, a mais lúcida, a mais lógica, a que tem sido a grande educadora literária e tem civilizado o mundo, é feita com meia dúzia de vocábulos que se podem contar pelos dedos.» Ficou- lhe um nobre respeito pela clareza do discurso e das posições, a que os surdos chamavam brutalidade, e os cegos snobeira. Na esperança de obter afirmações claras com que chocassem as audiências e retratassem uma igreja insensível, algumas televisões convidavam-no. Enganaram-se sempre.

Falou claro e foi influente na defesa da vida na campanha do primeiro referendo sobre o aborto. Ganhou a vida. Foi discreto e obediente, provavelmente com dor, quando a igreja optou pela pusilanimidade no segundo, praticamente abandonando o campo aos defensores dos direitos do corpo e de tudo o que tenha dentro. Faz falta a voz clara e culta do Padre João Seabra para chamar falta de qualidade à falta de qualidade e bandalheira à bandalheira.

O SNS foi levado ao caos por socialistas, e pelas múmias e extremistas cuja passagem Costa franqueou ao derrubar um «muro de Berlim» ao avesso. (Olhem-nos agora a clamar que não tiveram nada a ver com isso!) Morre gente com consultas marcadas para um ou dois anos demasiado tarde, morrem bebés, grávidas no instante decisivo batem com a cara na porta, vítimas de «doenças fatais» sofrem mortes precoces por falta de assistência, as listas de espera somam anos, as esperas na fila somam horas. Os turistas esperam horas no Aeroporto de Lisboa, perplexos com a desorganização e a indigência, e uma inspetora diz que «francamente não estávamos preparados para ter turistas em Junho», no país que sobrevive de turismo e empréstimos. Pedro Nuno Santos aproveita para dizer, como ministro das Infraestruturas de 2050, da Habitação social que não há, e da Ferrovelhovia, que é preciso um aeroporto novo. E como ministro da TAP – que com Costa, o PC e o BE fez pública e destruiu a pretexto de a salvar – diz que se isto continuar vai desviar aviões para outros lados. Sobe a dívida pública, sobem os juros da dívida, disparam os custos da energia, sobe em flecha a inflação, sobem os impostos, afunda o défice da balança comercial, e o país empobrece.

E nunca se fala em gestão. E é sempre culpa de um imprevisto. E nunca se fala em competência. E nunca se fala em bom aproveitamento de recursos escassos. E nunca se fala de organização do tempo. E nada de produtividade.E menos ainda de uma fé e um programa. E menos ainda em inteligência. Tudo coisas sem as quais o Padre João Seabra não teria feito metade do que fez na vida.

Que assuntos importantes «convocam», então, governo e maioria socialista? Estes? Não. Outros.

O primeiro-ministro quer que os salários subam magicamente 20%.

A ministra da Saúde – que não esperava que a política dos extremistas, das múmias, sua e de Costa tivesse as consequências inevitáveis – diz que vai fazer um plano de contingência. «Contingência» é a qualidade daquilo que é contingente, um acontecimento eventual. Em pleno caos no SNS a ministra vai planear (eventualmente) para a eventualidade do caos no SNS.

No aeroporto e no SEF também se vão fazer «planos de contingência» para a eventualidade improvável de aterrarem aviões trazendo pessoas dentro.

A ministra do trabalho – com um brilho de entusiasmo nos olhos e uma expressão alacre verdadeiramente assustadores – diz que o governo vai ser «pioneiro» a nível «mundial» da «semana dos 4 dias».

A ministra da Defesa diz que «estamos a perspetivar para o futuro a possibilidade de dar treino a tropas ucranianas», uma frase que bate em vacuidade a de um pobre repórter da Sic que anteontem, nesse persistente maravilhamento com Costa, imaginava Portugal a «servir de ponte entre a Inglaterra e a União Europeia».

E no Parlamento maioria e oposição debatem como melhor suicidar velhos e doentes.

Curioso! O Padre João Seabra (e o Papa João Paulo II, acrescento) teriam algumas coisas interessantes a dizer a esses cultores do «corpo digno» que tanta energia gastam em apressar a morte no princípio e no fim da vida.

A mente privilegiada do meu querido amigo João Seabra viveu anos incólume dentro de um corpo disfuncional, vítima de «doença incurável», humildemente, pacientemente, cristãmente, produtivamente. Irritei-me com ele só uma vez na vida, quando coincidimos por acaso numa praia e fui conversar com ele, já bastante debilitado. Depois, quando me levantei disse-me «Obrigado». «Obrigado?!», disse eu, «não deves estar bom da cabeça!»

Estou contente por ter dito aquilo.

Há poucos anos, na apresentação da sua biografia, João Seabra À Sua Maneira, o meu amigo João ralhou com os autores, em público e perante considerável  audiência, por não me incluirem na história. Eu não tinha lido o livro e pareceu-me aquilo escusado, como garanti aos autores, ainda que os lados menores que a gente tem rejubilassem vilmente com aquela prova de amizade. É que eu nunca fui companheiro do meu querido amigo João na militância monárquica ou política, e a minha vida deu muitas voltas bem distantes da fé forte que o animava. Éramos só grandes amigos, que é uma coisa que há.

Há poucos meses, o João deixou-me uma pérola escrita. Aconteceu que os confinamentos forçados por causa do virus; um terço de vez em quando e depois diariamente por discreta e amorosa pressão da minha mulher; e, durante esses terços diretamente de Fátima, a voz extraordinária e a tristeza infinita no rosto do Padre Quelhas; e as homilias redentoras do dominicano Frei Filipe, no computador e depois ao vivo – tudo isso me trouxe devagarinho de volta à Igreja. Julguei que o meu amigo João ia gostar de saber, e escrevi-lhe por SMS: «Talvez gostes de saber…» E concluía que ia comungar no domingo.

Respondeu-me o meu querido amigo Padre João Seabra, acabado de vir de Fátima, com «gratidão à Virgem Mãe que me concede esta graça enorme do teu reencontro com Jesus. Comove-me cada passo. Mostra a paciência de Deus».

E eu lembro-me que não sou digno.

"Abandonai toda a esperança"

por henrique pereira dos santos, em 15.06.22

Primeiro foi um pequeno sinal: numa pré-publicação de uma entrevista a Inês Ramires, Secretária de Estado da Administração Pública, ficava a saber-se que se estava com intenção de mexer nos processos de escolha de dirigentes na função pública.

Quando se queria perceber em que sentido, entrava de rompante o modelo de gestão surrealista que caracteriza este governo, verificando-se que o governo queria apenas resolver um problema inexistente, criando outro problema real: com este modelo de escolha individualizado não era possível fazer equipas consistentes.

Na Segunda-feira, as páginas 2 e 3 do Público tinham então a entrevista anunciada com a maluqueira que citei acima.

Diverti-me bastante com a entrevista, cheia do lero, lero habitual de quem acha que os outros são todos estúpidos e portanto basta dizer qualquer coisa que pareça um alinhamento lógico de palavras, para as pessoas fiquem satisfeitas.

Foi ao ler isto que resolvi ir ver o curriculum profissional desta senhora de que nunca tinha ouvido falar: "temos pela frente um trabalho árduo de repensar como é que entre a revisão da Tabela Remuneratória Única (TRU) e do Sistema Integrado de Avaliação de Desempenho da Administração Pública (SIADAP) conseguimos levar os trabalhadores a perceberem que podem ter uma carreira com perspectivas de progressão".

Vamos esquecer a lógica interna do que é dito (não se percebe como é que se vai repensar uma coisa que nunca foi pensada, e esses pormenores típicos de quem opta por martelar as palavras certas em frases sem grande sentido) e olhemos para a questão de fundo: a Senhora Secretária de Estado da Administração Pública acha que o fundamental é fazer os trabalhadores perceberem o que hoje não percebem, sobre a sua condição.

Daí a minha pergunta: quem é esta senhora, o que fez, de onde vem, para achar que o seu papel é fazer os funcionários perceberem o que não percebem sobre a sua carreira.

É uma Senhora que aos 25 anos (2005) anos acabou a sua licenciatura em direito, aos 32 anos (2012) concluiu o seu mestrado em direito público, e nos anos de Passos Coelho, entre 2011 e 2015 foi consultora de um gabinete de advogados. Nessa altura, em 2011, colaborou com o gabinete do Secretário de Estado da Administração Pública no âmbito do "Plano de Redução e Melhoria da Administração Central (PREMAC)".

Entre 2005 e 2006, ou seja, logo após a sua licenciatura, foi estagiária no escritório de João Pedroso (o escritório que deu origem a uma confusão com Maria de Lurdes Rodrigues, que acabou em tribunal, mas vamos admitir que a estagiária que por acaso estava ali nunca ouviu falar do assunto), mas logo em 2006, no ano do estágio, entrou nos gabinetes governamentais, saltitando de gabinete em gabinete, aparentemente até o PS perder as eleições.

Depois do interregno entre 2011 e 2015, em que esteve num gabinete de advogados como consultora, voltou aos gabinetes, sendo bastante tempo chefe de gabinete de Brandão Rodrigues e brevemente Secretária de Estado da Educação, no governo anterior.

O relevante aqui é que a Secretária de Estado da Administração Pública, a tal que pretende fazer os trabalhadores perceberem a sua condição de trabalhadores da administração pública, não só nunca foi funcionária pública, nunca trabalhou em nenhum serviço público, como tem toda a sua carreira profissional feita nas bolhas sociais dos gabinetes governamentais, um mundo particularmente fechado e alienado do mundo real dos trabalhadores a quem a Senhora Secretária de Estado quer fazer perceber a sua verdadeira condição de trabalhador da administração pública.

Não admira que me tenha divertido tanto a ler o lero, lero da Senhora Secretária de Estado, porque é uma conversa completamente alienada sobre um mundo que não existe.

Daí que a Senhora Secretária de Estado fale da tal Tabela de Remuneração Única como se realmente fosse única e fale do Sistema Integrado de Avaliação na Administração Pública como se fosse alguma coisa que alguém levasse a sério e para ser levada a sério.

Deixe-me explicar-lhe a questão.

Por puro acaso, li a sua entrevista no mesmo dia em que me chegou ao meu mail o relatório de actividades do meu instituto, isto é, em 14 de Junho de 2022 chegou-me ao mail o relatório de actividades de 2020. Um ano e meio, Senhora Secretária de Estado, para fazer, homologar e publicar um relatório de actividades.

O relatório diz que está tudo óptimo, tem uma execução de 95% em relação ao previsto, está tudo no melhor dos mundos, como diria Pangloss.

Veja bem:

À questão "1.2 É efetuada internamente uma verificação efetiva sobre a legalidade, regularidade e boa gestão?", o relatório, exultante com o êxito, responde: "A verificação tem lugar no quadro da segregação de funções que é assegurada pelas diversas unidades orgânicas no quadro das suas ações em cada momento dos processos que se interpenetram e reforçam o cumprimento dos princípios de legalidade, economia e eficiência, regularidade e boa gestão. A atuação do Gabinete de Auditoria e Desempenho, bem como os diversos normativos existentes nas áreas de suporte e nas áreas operacionais, contribuem para o processo de verificação, tendo decorrido em 2020 uma ação de auditoria interna, embora não tenha sido concluída".

Fabuloso, não acha, Senhora Secretária de Estado? Um lero, lero ainda melhor que o seu, em que se diz que não se fez a ponta de um chavelho em matéria de verificação da legalidade do que se faz no instituto, mas de maneira a dizer que está tudo sob controlo.

Não acharia melhor dedicar o seu tempo a explicar aos seus dirigentes (não venha com a história dos concursos, estão todos em substituição há anos, os dirigentes de topo, os outros foram agora nomeados depois de concursos que, veja lá, até me permitiram ganhar um deles, embora, por razões estritamente pessoais, eu tenha declinado o exercício do cargo) que a verificação da legalidade é uma coisa séria, em vez de explicar aos trabalhadores que eles têm uma carreira com progressão no futuro?

Não lhe sugiro que vá ler o relatório: eu, que conheço o Instituto onde trabalho, que até fui dirigente muitos anos, não consigo perceber grande coisa do que lá está, imagino que a Senhora Secretária de Estado tivesse ainda maior dificuldade, mas ao menos repare como todos os indicadores são indicadores de processo (quantas licenças passadas, pro exemplo) sem grande esforço para produzir indicadores de resultado.

Cara Senhora Secretária de Estado, vá lá tratando da sua vidinha, garantindo os lugares de recuo para quando o seu partido perder as eleições, ocupando os lugares que entender quando o seu partido estiver na mó de cima mas, por favor, não faça nada, não mexa, deixe andar: a coisa está preta na Administração Pública, como sabe, mas garanto-lhe que pode ficar muito pior se levar a sério o que anda a dizer nas entrevistas.

É que o seu patrão e patrono, António Costa, não a quer aí para fazer ondas, quere-a exactamente para que faça de rolha e se aguente à superfície com qualquer maré, concentre-se nisso e deixe os trabalhadores da função pública em paz, não se ponha com essas parvoíces de dar mais dinheiro a quem fez doutoramentos: normalmente só faz doutoramentos na administração pública quem não faz grande coisa como funcionário ou quem, como eu, saiu por uns tempos para ir apanhar ar, quando o ambiente claustrofóbico que se vive na administração pública se torna irrespirável.

Os outros, a maioria, os que verdadeiramente fazem funcionar os serviços independentemente das marés, nunca lhe perdoarão estar a premiar quem não merece, como eu.

A temida Marta

por João-Afonso Machado, em 14.06.22

Terrível!  Sobreviveu à crise pandémica e está aí igualzinha ao mais perfeito socialista. Com as suas infindas promessas. Os médicos escasseiam, os Serviços fecham à míngua de pessoal, estafados, mas nada se passa.

Só o mundo partidocrata levanta a voz, à esquerda e à direita. Os portugueses têm esse péssimo hábito de se manifestarem apenas quando o mal lhes bate ao ferrolho e a Obstrectícia (o fenómeno actual) não é tema de todos nem de todos os dias.

Mas subsiste a verdade: o Estado socialista é, afinal, o grande inimigo do SNS que sacrifica por diversas razões. Seja porque o rigor orçamental é mais importante, seja porque tudo vai bem em Belém e com um sorriso de Costa e uma promessa - de promessa em promessa... - assim os socialistas caminham galopantes para um hoje como ontem, reformas são comissões e atalhos para mais gente no aparelho e a mesma ineficácia de sempre.

Sendo simples a questão: faltam médicos porque o SNS, pobre, paupérrimo, não lhes dá emprego. A opção de quem necessita trabalhar - neste caso, os médicos - direcciona-se para hospitais e clínicas particulares, dentro ou fora de portas. A propaganda faz o resto: a culpa é dos privados - porque pagam mais. Como se os trabalhadores da Saúde não tivessem a sua vida também.

Em suma, este é o Estado republicano, socialista e laico que remunera regiamente os seus apaniguados e subservientes e pede aos médicos perfilhem os caminhos de S. Francisco de Assis.

E os médicos respondem-lhe com as armas do dito S. Francisco. E nós, cidadãos, lá vamos padecendo.


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