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Plágio

por henrique pereira dos santos, em 31.01.22

Este post é só mesmo uma reprodução, que deveria servir de prefácio a qualquer texto sobre a gestão da função pública em Portugal:

"Função Pública
BENEDITO ANTUNES JANUARY 31, 2022
Muitos anos de ver os melhores serem sempre quebrados, pouco a pouco, com o peso das disfuncionalidades, os obstáculos lançados no seu caminho, com todo o seu esforço ser emperrado e a recompensa zero

Estou cansado. Tão cansado! Farto talvez seja o termo.

A princípio (há tantos anos!), eu ainda acreditava, tinha uma espécie de crença optimisticamente inabalável. Mas agora já não.

Acreditava que as coisas iriam melhorar. Só podiam. Como não podiam?

E a observação diária das disfunções provocava em mim pensamentos automáticos de como as melhorar, resolver. “Se fosse assim”, “mudava-se isto”, “devia ser daquele modo”.

Só que fazer essa mudança nunca dependia de mim. Mas dependia de mim fazer aquilo que eu fazia. E então fazia o meu melhor.

Parvo. O meu melhor!

Sentia que eu fazia algo de diferente, de melhor, acima da média e da mediania. E que isso fazia a diferença e que faria a diferença. E acreditava que cada pequeno problema que o meu fazer melhor solucionava, ultrapassando e derrubando cada disfuncionalidade, alheia e do todo, valia a pena e mudava qualquer coisa, a caminho da tal melhoria que havia de vir.

E encontrava motivação em cada pessoa que ficava mais feliz, satisfeita, melhorada graças ao meu melhor.

Mas agora já não. São já muitos anos de ver que nada muda, tudo permanece na mesma. Ou então pior.

Perdi a crença. A crença no melhor que ainda está para vir. Não há nenhum melhor para vir. É o que é. E o que é é isto.

Para os menos capazes ou incapazes, que fazem pouco, mal, e tarde, não há consequências nem represálias. Somente menos lhes é dado para fazer. Cada vez menos.

Os mais capazes, que fazem mais, bem feito e a tempo, esses têm sempre a recompensa: mais ainda para fazerem. Sempre mais. Com uma pancadinha nas costas. Good boy!

Nenhuma boa acção permanece sem castigo. É mesmo verdade.

Eu sempre recusei, neguei com todas as minhas forças essa verdade e esse caminho. Não seria essa a minha realidade. Continuaria a fazer a minha diferença, pequenina, isolada, mas o meu melhor, e tudo aquilo que posso.

Acreditava que essa minha diferença viesse a ser inspiração, que constituísse exemplo e motivação para outros como eu, e que todos juntos, sendo cada vez em maior número, finalmente operássemos a mudança necessária para que o todo se alterasse.

Eu era novo e não sabia. Que o todo nunca se altera. Que o seu peso é excessivo. E que não há qualquer mecanismo de retorno virtuoso. E que o todo mastiga e tritura o mérito e promove a mediocridade.

Eu realmente via-os, os mais velhos que eram capazes. De olhos baços e sem energia. Eram eles os que mais me espantavam.

Não me surpreendiam os incapazes, aqueles que já eram incapazes quando novos, tinham evoluído incapazes e estavam agora no topo com a mesma incapacidade de sempre.

Eram os outros. Aqueles em que eu reconhecia a capacidade de fazer melhor, em que eu via o saber, e em que havia registos amplos e reconhecidos da sua capacidade e dos seus feitos prévios. Mas que agora já não tinham energia, vitalidade, vontade. O que faziam era ainda relativamente bem feito, mas pareciam procurar não ver o que havia a fazer, e apenas fazer o mínimo. Não tinham brilho nos olhos. Parecia que tinham desistido. Eram capazes, mas não faziam a diferença. Faziam o mínimo.

E agora sou eu. São já muitos anos disto.

Muitos anos de ver os melhores serem sempre quebrados, pouco a pouco, com o peso das disfuncionalidades, com os obstáculos lançados no seu caminho, com todo o seu esforço ser emperrado, com a recompensa zero e o castigo constante de mais trabalho ainda.

E quebrados ainda mais por verem os incapazes caminhando calmamente ao seu lado, os que mais se queixam e menos fazem. E cada vez menos fazem. E mais se queixam. Sem qualquer consequência, e com uma recompensa idêntica. Ou recebendo mais ainda.

Aos incapazes ninguém pede mais nada. Nem mais uma hora, nem mais um dia, nem mais um processo. São incapazes.

E os melhores foram quebrando um a um, ao longo dos anos, sob os meus olhos. A maioria partiu, foi-se embora para onde a sua capacidade fosse reconhecida e recompensada e o seu melhor pudesse dar frutos e ser impulsionado em vez de ser abafado. Os outros, os capazes que ficaram, foram desistindo.

Em terra de cegos, quem tem olho… é cegado pelos outros.

Eu achei que comigo não seria assim. Nem partiria (este sentido de missão será a minha ruína), nem desistiria. A minha motivação seria o trabalho bem feito e as pequenas diferenças que obteria a cada dia. Parvo.

Agora estou cansado e farto. Velho. Também os meus olhos perderam o brilho.

E vejo os novos chegarem, os incapazes e os capazes, e o ciclo interminável recomeçar. Ninguém vê. E os que vêem, fingem que não vêem e não querem saber. Nunca quiseram saber.

Função Pública."

Em Portugal, nada de novo.

por Jose Miguel Roque Martins, em 31.01.22

Como suponha, embora nem me tivesse passado pela cabeça a maioria do PS, a direita sobe, a maioria de esquerda ganha.

Mesmo sem pressão da esquerda radical, o PS, no essencial, não vai mudar. Crescimento é uma miragem e a crise, a partir de 2024, inevitável. A resistência ao pragmatismo, com base ideológica, é imensa. Só insuperáveis dificuldades, que teremos, obrigará à mudança.

 

 

De como o liberalismo contribuiu para a maioria absoluta de Costa

por henrique pereira dos santos, em 31.01.22

Antes da minha interpretação de como o liberalismo contribuiu fortemente para a maioria absoluta de Costa, uma nota sobre o Chega e a sua votação.

José Teixeira, num post público do seu Facebook, depois de várias considerações sobre as eleições, incluindo a explicitação da sua distância em relação ao Chega, diz:

"Já agora, uma adenda pessoal sobre os eleitores do CHEGA. Nas últimas semanas jantei com dois amigos distantes, meus respeitados mais-velhos, ambos com percursos profissionais de grande quilate, e um deles com vasta actividade político-administrativa. Para meu espanto nessas ocasiões ambos me disseram que votariam no CHEGA. Não são racistas, não são fascistas, não são incultos. Nem sequer têm apreço pelas genuflexões do prof. Ventura. Ambos, cada um à sua maneira, são conservadores e fortemente anti-socialistas, eu diria que até moralmente exauridos após este quarto de século PS. Não serão "o" eleitorado do CHEGA mas podem implicar algum recuo nesta patética deriva de reduzir quem votou Ventura a uma amálgama de truculentos neo-fascistas e descamisados irados.

E neste sentido junto ainda: só conheço uma pessoa do CHEGA. Trata-se do deputado eleito por Leiria, Gabriel Mithá Ribeiro. Conheço-o de o ler e de um breve contacto pessoal - ele teve a gentileza de me convidar para lhe apresentar um livro em Maputo, sabendo de antemão que eu muito discordo dele na sua interpretação sobre a colonização portuguesa em África. Não só isso demontra alguma democraticidade (e garanto que apanhar um intelectual disponível para dar palco a quem discorde do seu trabalho é trejeito democrático muito raro). Mas é relevante lembrar que o homem é um intelectual muito trabalhador, culto, lido, sistematizado e sério. Em suma, posso discordar (e muito) de como ele interpreta a história colonial portuguesa, posso até dizê-la conservadora, e até me posso arrogar ao direito de lhe debater os pormenores (apesar de ele ser mais graduado do que eu, isso não me impede de discordar). Mas não o posso rebaixar intelectualmente. E a partir deste caso retiro o fundamental: não se fará oposição ao alargamento do CHEGA assente numa redução absurda (digo-o sem latim) dos seus dirigentes e do seu eleitorado a uma mole de coirões. Faça-se isso, repita-se a preguiça de os classificar como "o inimigo principal" do regime, e eles dobrarão de votação nas próximas eleições."

Já noutros murais de outros amigos meus, leio coisas como "11 fachos no parlamento. Que tristeza."

Eu diria que esquecer, na outra frase que citei, os dois parágrafos de José Teixeira, para além de intelectualmente pouco estimulante, é um erro colossal.

Vamos então ao resto.

No momento do voto a percepção generalizada é que se estaria perante uma eleição muito renhida, de resultado muito incerto, e a opção era:

um governo de António Costa, isto é, um governo "pra melhor, está bem, está bem, pra pior basta assim", que não é grande coisa mas não tem um risco real imediato, excepto o de empobrecermos todos, mas a isso já estamos habituados;

um governo de Rio, mas fortemente condicionado pela negociação com a Iniciativa Liberal que, com ou sem razão, as pessoas tinham ideia de que iria vender caro o seu apoio, impondo uma agenda liberalizante para o país.

E perante estas opções, muita gente que poderia nem achar que fizesse alguma diferença de maior ser Costa ou Rio, acabaram a decidir que mais valia não correr riscos, tanto mais que o risco do PS ter uma maioria absoluta era inexistente.

Para muita gente, uma agenda liberalizante é um risco real para os apoios sociais, o aumento do ordenado mínimo e outras coisas que tais, de maneira que, nas circunstâncias em que votaram, acharam melhor escolher o que já conhecem, mesmo que achem que o que conhecem é poucochinho, e até achem que era melhor que o país crescesse mais e melhor.

Parte destas pessoas, se isto fosse como nas lojas, estariam hoje na Assembleia de Voto para devolver a decisão que tomaram e levar outra para casa, só que as coisas são o que são.

Para a Iniciativa Liberal isto quer dizer que há uma grande guerra cultural a ganhar nos próximos quatro anos: demonstrar que o liberalismo, em Portugal, está muito longe de ser uma ameaça para os mais pobres e frágeis.

E, já agora, embora o programa da área do ambiente da Iniciativa Liberal não seja mau (declaração de interesses, estive bastante envolvido nesse programa, havendo muitas coisas que defendo que foram rejeitadas, mas muitas outras que foram acolhidas e estão no programa eleitoral), o discurso dominante da Iniciativa Liberal sobre o assunto, em especial o discurso de João Cotrim de Figueiredo sobre o assunto, é demasiado displicente e simplista para meu gosto e é bem pior que o programa que foi apresentado a eleições.

Espero que ao longo deste tempo até às próximas eleições a Iniciativa Liberal reforce o seu posicionamento nestes dois aspectos essenciais: a discussão dos efeitos sociais das políticas defendidas, em especial no dia a dia dos mais pobres e frágeis (não esquecendo que nessa matéria a racionalidade não dispensa o ponto de vista emocional dos mais interessados); a construção de um discurso ambiental mais sólido e presente.

Para já, e por muito que a Iniciativa Liberal tenha tido um excelente resultado, o facto é que a percepção dominante de que o liberalismo é a selva do salve-se quem puder, contribuiu, com certeza, para a maioria absoluta que caiu no colo de António Costa.

Das consequências inesperadas

por henrique pereira dos santos, em 30.01.22

Foi decretada a proibição de queimas e queimadas.

Em relação às queimas (corresponde a queimar resíduos da exploração), não me parece que daí venha mal ao mundo, independentemente de achar sempre mau andar a dar ordens para cujo cumprimento forçado não existem recursos.

Já quanto às queimadas, vale a pena olhar para o problema porque existem problemas, sim, na gestão do fogo, mas o instrumento escolhido para gerir o problema é completamente errado, embora habitual na nossa administração pública.

Na Sexta-feira houve 132 incêndios rurais (e vou deixar a discussão dos critérios para classificar uma ocorrência como incêndio rural, vou tomar este número como rigoroso).

A argumentação técnica é a de que os combustíveis estão demasiado secos, não chove há tempo de mais e será preferível esperar que chova, porque o risco das queimadas e fogos controlados sairem de controlo é grande, já que se está fora dos critérios de prescrição de fogo.

Havia dez mil queimadas autorizadas que passaram à clandestinidade (adenda: este valor não é correcto, é verdade que existiam dez mil queimadas autorizadas, mas para os dias abrangidas por esta decisão são muito menos, da ordem dos 1500 a 2000), mais muitas outras clandestinas, tendo o Estado falta de recursos para gerir sensatamente esta pressão de queima nesta altura.

Por que razão é que proibir as queimadas (que incluem centenas de fogos controlados feitos por técnicos que sabem do assunto, mais muitas outras feitas por pastores que toda a vida as fizeram) é completamente errado como medida para lidar com os problemas existentes?

Em primeiro lugar, proibir não resolve o problema das queimadas clandestinas que, por definição, não cumprem as regras, sendo, provavelmente, as de maior risco. Risco esse que aumenta com a sua proibição porque quem faz a queimada não vai ficar lá a acompanhá-la e geri-la, mas vai-se embora para não ser acusado de prática ilegais.

Em segundo lugar, proibir as queimadas que cumprem as regras, ainda que neste momento tenham um maior risco e, nalgumas circunstâncias, estejam fora da prescrição, até pode baixar o número de ocorrências de incêndios rurais nesta altura.

Só que mesmo que se verifique esse resultado, que é o resultado pretendido com a medida tomada, esse resultado é obtido pelo aumento de risco no Verão, isto é, tudo aquilo que não arder agora, com fogo controlado, com queimadas de pastores ou mesmo com incêncios rurais, vai aumentar brutalmente o risco de que arda no Verão, em condições muito mais extremas e com muito maior probabilidade de causar problemas sérios (o facto de ter havido 132 incêndios não criou nenhum risco sério para coisa nenhuma, a deu apenas origem a umas notícias sem grande interesse sobre estar a arder no Parque Natural de Montezinho e na serra da Estrela).

Quer dizer que estava tudo bem e é deixar andar?

Não, quer dizer que teria sido possível gerir melhor o fogo, por exemplo, queimando mais nos últimos três meses, limitando algumas queimas agora, reforçando os meios de acompanhamento de algumas queimadas, etc., só que a proibição não contribui para resolver coisa nenhuma, o Estado é que tem de se organizar para desempenhar melhor o seu papel de apoio às pessoas.

A verdade é que proibir é fácil, esconjura o medo no imediato (em especial imediatamente antes de eleições), mas ou é ineficaz e o Estado limita-se a provocar a erosão da sua autoridade, ou é eficaz e aumenta o risco de incêndio no Verão, problema incomparavelmente maior que os 132 incêndios de Sexta-feira.

Parecem a DGS a gerir a epidemia.

Domingo

por João Távora, em 30.01.22

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

aquele tempo, Jesus começou a falar na sinagoga de Nazaré, dizendo: «Cumpriu-se hoje mesmo esta passagem da Escritura que acabais de ouvir». Todos davam testemunho em seu favor e se admiravam das palavras cheias de graça que saíam da sua boca. E perguntavam: «Não é este o filho de José?». Jesus disse-lhes: «Por certo Me citareis o ditado: ‘Médico, cura-te a ti mesmo’. Faz também aqui na tua terra o que ouvimos dizer que fizeste em Cafarnaum». E acrescentou: «Em verdade vos digo: Nenhum profeta é bem recebido na sua terra. Em verdade vos digo que havia em Israel muitas viúvas no tempo do profeta Elias, quando o céu se fechou durante três anos e seis meses e houve uma grande fome em toda a terra; contudo, Elias não foi enviado a nenhuma delas, mas a uma viúva de Sarepta, na região da Sidónia. Havia em Israel muitos leprosos no tempo do profeta Eliseu; contudo, nenhum deles foi curado, mas apenas o sírio Naamã». Ao ouvirem estas palavras, todos ficaram furiosos na sinagoga. Levantaram-se, expulsaram Jesus da cidade e levaram-n’O até ao cimo da colina sobre a qual a cidade estava edificada, a fim de O precipitarem dali abaixo. Mas Jesus, passando pelo meio deles, seguiu o seu caminho.

Palavra da salvação.

Comentário: Como Jeremias, também Jesus foi mal recebido pelos seus, e, deixando Nazaré, a terra “onde Se tinha criado”, partiu para outros lugares, onde a palavra de Deus pudesse encontrar quem melhor a escutasse. Deus liga-Se a determinadas circunstâncias humanas e temporais; mas a sua Palavra vem ao mundo para ser levada até aos confins da Terra. Ela não veio para dividir, mas para unir; dividir, só a verdade do erro, o bem do mal, a luz das trevas, porque Deus é Luz.

O surpreendente aumento dos preços de petróleo

por Jose Miguel Roque Martins, em 29.01.22

Quando o Petróleo, há uns anos, baixou para menos de 60U$ por barril, nada levava a acreditar que este mês ultrapassássemos, de novo, a marca de 90U$/barril, sendo a barreira de 100U$, de acordo com alguns analistas, provavelmente batida nos próximos tempos.

A ideia de que a transição para energias renováveis iria ser mais rápida do que está a ser, o medo de ficar com o seu petróleo no chão e acelerarem a própria transição energética que será o seu fim, a explosão da produção de Shale nos EUA, fazia prever que os produtores de petróleo estavam encurralados numa espiral de excesso de produção. Não estavam.

A Arábia Saudita inundou mercados, aguentou o prejuízo até à rendição dos outros produtores. Não apenas pertencendo à OPEC, mas também os produtores fora do Cartel e até do Shale Norte-Americano. Todos se disciplinaram.Facilmente, perceberam que mais valia produzir menos mas ganhar mais. Quando o mercado livre e concorrencial falta, o consumidor paga. 

Felizmente para o consumidor, este equilíbrio não é estável. E novos tempos de petróleo mais baratos irão acontecer no futuro. Quase nada é definitivo.

 

 

PS: A alergia á energia nuclear é uma das grandes patetices em curso.

 

 

"Vamu'lá vê"...

por João-Afonso Machado, em 28.01.22

- Vamu'lá vê! - e a face anafada e sorridente, morenaça, sem pestanejar, ia dizer uma coisa qualquer...

- Então?

- Vamu'lá vê, o Governo não podia ceder às pressões da Esquerda mais radical, era um desastre, urgia um novo caminho mais realista...

- E?...

- E por isso o Orçamento foi chumbado em Outubro. Um disparate! Vamu'lá vê, em plena crise pandémica, três meses de atraso...

- Mas agora...

- Vamu´lá vê, uma maioria forte, uma maioria absoluta, ia permitir-nos governar, favorecer o crescimento económico, relançar o País...

- Porém...

- Vamu'lá vê, o eleitorado começou a fugir. Vamu'lá vê, o eleitorado é o povo, e o povo é quem decide. Só não pode é decidir contra nós...

- Contra o que as sondagens começaram a apontar...

- Nem mais. Vamu'lá vê, imagine que o Rio e a Direita ganham. E se poem a fazer reformas! Já imaginou a carga de desemprego político que isso acarretaria para os nossos? Seria a nossa austeridade!

- Vai daí...

- Vai daí, vamu'lá vê, houve de acertar o discurso...

- ... Em plena campanha eleitoral? E o programa do PS?

- Pois, claro... [O sorriso sempiterno] Vamu'lá vê, já um ilustre meu antecessor dizia, «em política, o que parece é». Vamu'lá vê. Tudo ficou em deixar exigências, que a coisa corria pelo pior, e piscar outra vez o olho ao Bloco. Mesmo porque o Rio, sempre com a sua mania do melhor para Portugal, na certa não falhará o apoio na AR no devido momento...

- E isso esclarece o eleitorado? E quanto aos que já votaram previamente?

- Vamu'lá vê [jamais pestanejando], acha que eu deixaria as eleições para a Direita? A Esquerda cobra impostos, vale-se das cativações, mas a Esquerda é o Povo!

- E a democracia?

- A democracia sempre foi a Esquerda. E contra a Esquerda, vamu'lá vê, - linhas vermelhas!

- Portanto está confiante na vitória?

- Claro! Vamu'lá vê, não estamos aqui para enganar ninguém, apenas toda a gente...

- .... E o Orçamento chumbado em Outubro?

- Vamu'lá vê, dá-se-lhe a volta. Eu bem o acenei em entrevista, está ali um documento para negociar, rever...

- Vai contar com o apoio parlamentar do PCP?

- Evidentemente! Vamu'lá vê: Jerónimo foi-se abaixo, a nova geração é mais flexivel, na política a coerência mata os seus profissionais, e o importante é derrotar a Direita - Vamu'lá vê, a estratégia da colagem do Rio ao Chega foi genial - e eu, que nada quero deste barco velho, autorizado por mais um sucesso eleitoral deixo-o sozinho e zarpo de iate para a Europa. 

Um apoio de peso

por João Távora, em 28.01.22

Rui Ramos.png

Ao país, neste momento, convém uma maioria à direita do PS. Não uma maioria qualquer, mas uma maioria reformista em que sejam fortes – não apenas em deputados, mas em votação — partidos que não suscitem ao PS expectativas de acordo ou de cumplicidade, e que além disso justifiquem confiança como parceiros de um governo estável. Falei em “partidos”, no plural. De facto, nessas duas condições há apenas um: o CDS de Francisco Rodrigues dos Santos.

8%

por Jose Miguel Roque Martins, em 28.01.22

As sondagens valem o que valem. As ultimas trazem surpresas. A mais relevante é que, supostamente, apenas 8% dos jovens vota no PS.  Porque será? Quando vai o futuro chegar? 

A academia no seu labirinto

por henrique pereira dos santos, em 28.01.22

Pela segunda vez, em muito pouco tempo, Susana Peralta faz outro artigo no Público com a tese de que baixar impostos só tem um resultado certo: deixar mais dinheiro no bolso dos mais ricos (noto que do artigo anterior para este Susana Peralta corrigiu a terminologia e deixou de dizer que baixar impostos põe dinheiro no bolso de quem quer que seja, uma boa demonstração do seu fair play).

Susana Peralta é das economistas mais interessantes da esquerda caviar, tendo a insuperável vantagem, face a outros, de não torturar a informação até que ela diga o que a Susana quer que diga.

Tem também uma vantagem académica, mas que acho uma seca como leitor: para cada ideia que defende, tem um ou dois estudos, ou mesmo uma revisão geral da bibliografia, em que baseia o argumento. Acho uma seca porque tenho sempre a desagradável sensação de que as referências bibliográficas estão ali para dar credibilidade a argumentos pré-existentes e não para nos ajudarem a pensar.

Onde eu queria chegar é ao essencial da tese: "Como sempre na campanha eleitoral, há propostas de diminuição de impostos para todos os gostos, que vão fazer as pessoas trabalhar mais e melhor, investir e poupar mais, o que leva ao crescimento económico. E depois a pobreza vai resolver-se por arrasto, porque quando a economia cresce todos ganham. Só que a realidade é mais complexa e em Portugal não há estudos de qualidade que nos permitam quantificar os efeitos. Que serão, baseados na evidência internacional, seguramente menores do que a narrativa do milagre implica. Até ver, há apenas um efeito seguro: baixar a carga fiscal dos mais ricos. Sem pingar para os mais pobres".

Em primeiro lugar, note-se que a frase final, "Sem pingar para os mais pobres", de acordo com o próprio artigo de Susana Perealta, não tem a menor base na evidência internacional, que se limita a dizer que isso é incerto e, sobretudo, difícil de avaliar.

Mas deixemos esta minudência académica, para nos concentrarmos no essencial: qual é a evidência que existe de que o dinheiro no bolso do Estado produz melhores efeitos no combate à pobreza de que o dinheiro no bolso dos mais ricos?

Mesmo admitindo a validade de toda a tese de Susana Peralta, o que tem Susana Peralta a dizer em defesa da ideia de que o Estado, por definição, é uma entidade confiável, filantrópica, imune à corrupção e mais preocupada com os pobres que com o destino da TAP, e não um instrumento de repressão nas mãos das classes dominantes, como diria Marx?

A resposta a esta pergunta pode ser a clássica fuga dos académicos às perguntas societalmente relevantes: eu só falo do que sei e estudei, e a pergunta que me faz ultrapassa o âmbito das minhas competências.

Ou, citando de cor Mário Centeno, o ministro, sobre Mário Centeno, académico: aplicar à política as conclusões dos estudos académicos, é um caminho para a tragédia.

Esta citação, que me parece do mais chão bom senso, dever-nos-ia vacinar quanto à validade das credenciais académicas na discussão política, o que evidentemente não é o mesmo que negar a enorme valia do conhecimento para essas discussões.

É apenas o reconhecimento de que entre a produção académica e a criação de conhecimento há um enorme fosso, com muitas pontes, com certeza, mas um enorme fosso que convém não ignorar.

A estranha obsessão pela Industria

por Jose Miguel Roque Martins, em 28.01.22

A industria ocupa um lugar de relevo no imaginário dos Portugueses ( e não só).

A nossa falta de capacidade industrial, é muitas vezes invocada como o nosso calcanhar de Aquiles. E o esforço na industrialização do País, um imperativo mais do que categórico. “Nenhum pais sem uma industria forte é prospero”, uma convicção largamente partilhada.

Todos concordaremos com a importância de uma industria compensadora, na vitalidade de qualquer tecido económico. Tal como deve acontecer com o  sector primário e terciário. Um dos aspectos do especial interesse na industria é o do apresentar produtividade ( salários) tendencialmente superiores aos de outras actividades. O que em termos médios é verdadeiro, especialmente quando falamos de trabalho menos qualificado. Aqui acabam as semelhanças entre as convicções generalizadas e a realidade.

Portugal, não é um pais particularmente desindustrializado. O peso do emprego industrial ( quase 25%) é semelhante ao da média Europeia e superior ao dos Estados Unidos, um dos países mais ricos do mundo. E a industria, mundialmente, está longe de ser o sector mais importante. Hoje, representa  apenas 22,5% do emprego.

Em Portugal, nos últimos anos, a industria tem crescido: é um sector longe do declínio relativo. O que provavelmente não é a melhor noticia: cada vez mais os países desenvolvidos são menos dependentes da industria. Até a Alemanha, permanentemente invejada pela sua força industrial, tem vindo a conhecer uma queda acentuada da importância relativa da Industria. A China, que baseou o seu crescimento na industria, já começa a ver uma perda relativa de importância deste sector nos últimos anos.

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A perda de peso da industria, não se verifica apenas a nível de emprego. Em termos de valor acrescentado, apesar de apresentar valores superiores aos do emprego médio ( maior produtividade induzida por mais capital) , também tem vindo a cair. Os enormes ganhos de produtividade que se têm alcançado, condenam a industria á perda de posição relativa em termos de emprego. Os salários mais elevado do que a média, condenam os trabalhadores a ser substituídos por maquinas. No futuro, os “poucos” trabalhadores que restarem, serão muito bem pagos. Comandando um exercito de equipamentos. Mas serão uma fracção ínfima dos trabalhadores que hoje trabalham na industria.

Os trabalhadores dos países desenvolvidos, são ainda substituídos por trabalhadores mais baratos de países mais pobres, nas industrias menos sofisticadas, fenómeno que até já afecta a China, com deslocalização de varias industrias para o sudoeste asiático. Portugal tem crescido na industria nos últimos anos, por ter trabalhadores mais baratos do que nos países mais desenvolvidos e um maior nível de qualificação dos seus operários do que o observado nos países mais pobres, com menor níveis de remunerações.

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Trabalho, qualquer trabalho, o melhor trabalho disponível é a boa noticia. Se for em sectores mais produtivos e mais bem pagos, melhor. O que não corresponde a uma escolha voluntária para qualquer sociedade, antes depende das circunstâncias, das vantagens competitivas que existam em cada momento.

Não se podem escolher vantagens competitivas. Pode-se, através de educação, capacitar pessoas para que possam vir a ter as capacidades necessárias nos sectores mais ricos.  Mas mesmo que se consigam essas qualificações, existem, ainda, um sem numero de factores antes de se obter uma vantagem competitiva. A geração mais bem preparada de sempre em Portugal, tende a emigrar para onde as suas capacidades são mais valorizadas, nomeadamente em espaços onde existe um ecossistema que se revelou vencedor. Passar da Hotelaria para a aeronáutica espacial, não é um acto de vontade possível. Nem é a mais desejável das evoluções.

Melhor do que trabalho, só a inovação, o conhecimento, a geração de riqueza por actos de criação.

A industria é, pois, um sector em queda de importância relativa no mundo e, especialmente, nos países desenvolvidos. Em que melhores condições retributivas passaram a ser incompatíveis com elevados níveis de emprego. Que não oferece necessariamente a maior criação de riqueza.  Como se poderá compreender, então, a obsessão pela industrialização, que de qualquer forma está a acontecer, mais como sinal do nosso subdesenvolvimento do que do nosso progresso?

A única obsessão deveria ser a da liberdade de uma economia, permitindo que esta, a cada momento, se desloque para as actividades com melhores retornos e liberte a energia criativa dos povos, de todos os povos, de todos os indivíduos.  Com uma economia livre, em cada momento, vamos ter as melhores actividades possíveis e até novas e melhores ocupações. Com uma economia forçada administrativamente a deslocar-se para os sectores eleitos pelos “inteligentes”, temos a certeza de enormes perdas, de grandes desastres em nome do progresso.

Em economia ( e não só), a melhor opção é mesmo  a liberdade dos mercados.

 

PS: Este Post, é dedicado ao Balio, a quem o tinha prometido ( ou ameaçado). 

Atenção!!!

por João-Afonso Machado, em 27.01.22

Acabam de se saber as previsões (vulgo sondagens) da U. Católica quanto aos resultados eleitorais.

Costa prepara-se para falar num comício qualquer transmitido em directo televisivamente.

Aguardaram-se obscenidades menos recomendáveis para as pessoas sensíveis no seu discurso. No mínimo, Rui Rio estará conluiado com a extrema-direita, e Auschwitz será uma proposta plausivel para Portugal...

Quanto a amanhã, último dia de campanha - mais do mesmo e a parceria, entre outras, de Catarina (Anne-Frank) Martins.

(Mas, para já, a "pandermicida" Moreira a chegar no PSD, em David Justino e - claro - na conspiração Ventura/PSD.)

Porque é que eu não abandono o CDS

por João Távora, em 27.01.22

CDS.jpg

Se a liderança do Francisco Rodrigues dos Santos cometeu erros e falhou a missão impossível de atrair para a sua roda as figuras gradas que desde há quinze anos com a ascensão de Paulo Portas incorporaram o CDS (que desde o congresso de Aveiro lhe deram luta sem quartel, e algumas das quais por quem nutro franca simpatia), estou convicto que o seu maior sucesso foi ter recentrado o discurso do partido na sua matriz democrata-cristã e conservadora, o meu sonho antigo. Quem me conhece sabe quanto eu há muito batalhava lá dentro pelo reforço e prevalência destes valores identitários que tinham sido aqueles que ainda adolescente me tinham atraído ao Largo do Caldas. Isso tudo e uma firme orientação para o reformismo, um liberalismo económico mesmo que mitigado (sempre achei que a discussão sobre a gradação do mesmo não passa de uma discussão pueril tendo em conta a realidade cultural dos portugueses vergados ao paternalismo estatista desde tempos imemoriais). Refiro-me a uma direita civilizada e humanista que mesmo minoritária se assuma contracorrente num país tendencialmente conformado com a pobreza, desconfiado da liberdade e ressabiado com a felicidade. Um partido sem vergonha do legado histórico cristão que nos enformou civilizacionalmente. Um partido de diálogo e tolerância (sou monárquico e as monarquias só prosperam em sociedades de grande consenso - evoluídas).

Julgo que o CDS paga actualmente o preço de ter cedido à tentação generalista, de querer apanhar tudo disputando o espaço eleitoral do PSD. Como resultado, em vez de termos eleito uma primeira-ministra ficámos reduzidos a 5 deputados. Pela minha parte prefiro um partido pequeno mas sólido na sua doutrina e com um discurso firme para o seu nicho de eleitorado. Sei que talvez seja tarde para retomar o bom caminho, agora que se constituíram outros dois partidos identitários que nos esmagam de um lado e do outro. Em política não há vazios, dizem, e quer-me parecer que o CDS esteve demasiado tempo a querer ser muita coisa ao mesmo tempo.

De uma coisa estou certo: o espaço que o CDS ocupar no parlamento será directamente proporcional ao desenvolvimento civilizacional que atingimos. Não sendo altíssimo será certamente o suficiente para surpreender muita gente na noite de dia 30.  

Que falta de vergonha

por henrique pereira dos santos, em 27.01.22

Miguel Guimarães, bastonário das Ordem dos Médicos (raios partam que nunca mais se acaba com essas excrescências corporativas que são as ordens profissionais), dá aqui uma entrevista que inicialmente pensei que fosse uma montagem de mau gosto.

Desde quase o princípio da epidemia que as definições de doente covid e mortalidade covid estão perfeitamente estabelecidos (o quase da frase refere-se a um momento muito inicial da epidemia em que essa definição ia variando).

Desde sempre, e eu várias vezes fui citando médicos a dizer isso, que há a consciência clara de que as definições adoptadas eram de largo espectro (por exemplo, na mortalidade, é a morte por qualquer causa nos trinta dias subsequentes a um teste positivo, definição bem clara nas publicações do Instituto Ricardo Jorge, por exemplo), pelo que nela cabiam muitos doentes, sem qualquer outra relação com a epidemia que não um teste positivo (lembro-me, por exemplo, de ter escrito um post em que citava um médico da estefânia a dizer que tinha 11 crianças internadas, das quais sete tinham quadros clínicos compatíveis com a covid e 4 não tinham qualquer relação com a doença, excepto terem testado positivo).

O senhor Bastonário, que desde cedo montou um gabinete de crise dedicado à Covid, que desde há algum tempo se juntou ao mais delirante dos quatro matemáticos do apocalipse para fazer previsões, quer-me convencer a mim que desconhecia em absoluto esta questão e que é gravíssimo que a DGS ande a dar informação errada?

Caro Miguel Guimarães, francamente, um dos médicos que falam ao Público, por sinal o que dá as menores percentagens de gente que acidentalmente testa positivo em quadros clínicos sem qualquer relação com a covid, faz parte da sua task force. E diz ao Público que "uma boa percentagem de doentes internados, cerca de 40% [uma percentagem coincidente com o que disse o ministro da saúde inglês, recentemente], não está hospitalizado por causa da covid".

Não me diga que agora quer fazer a rábula do marido enganado, que é sempre o último a saber.

Tenha um mínimo de dignidade, o senhor sabe que é assim (mais percentagem, menos percentagem), desde o princípio da epidemia, tem dezenas de testemunhos de médicos a dizer isto nos jornais, a Ordem dos Médicos, e a sua task force, é que simplesmente nunca quiseram tornar claro que a forma como os números são publicados é uma forma incompleta e enganadora.

Foi o senhor que preferiu deixar andar os processos disciplinares que visavam calar as vozes discordantes, em vez de exigir informação completa sobre internamentos e mortalidade, incluindo a caracterização da condição de saúde (a de idade sempre foi existindo) dos mais suceptíveis e vulneráveis que foram morrendo ao longo destes dois anos.

Comporte-se como um homenzinho, assuma a responsabilidade da Ordem dos Médicos nisto tudo e deixe-se da cobardia de tentar passar entre os pingos da chuva, responsabilizando exclusivamente a DGS.

 

Os Anúncios de Adolfo

por Corta-fitas, em 27.01.22

adolfo.jpg

A penúltima vez que Adolfo Mesquita Nunes fez um anúncio foi para dizer que é homossexual. Está no seu direito de o ser, e é legítimo que o anuncie. Mas era escusado. A igualdade por que legitimamente anseiam os homossexuais e o fim da homofobia por que anseiam legitimamente só será realidade quando se abstiverem deste tipo de anúncios. Serão, então, como os heterossexuais, que não andam pelas ruas e as tvs com bandeirinhas a anunciar «eu gosto de sexo com mulheres» (eles) ou «eu gosto de sexo com homens» (elas).

A última vez que Adolfo Mesquita Nunes fez um anúncio foi para dizer que vota, não no seu partido de toda a vida, mas na Iniciativa Liberal. E também está no seu direito. Mas, além de escusado, este anúncio, ao contrário do outro, vai ao arrepio da decência. Esteve mal, esteve ressentido, esteve birrento e vingativo. E, pior para ele – penso eu, provavelmente isolado –, fez um favor a Francisco Rodrigues dos Santos.

José Mendonça da Cruz

Palas nos olhos

por henrique pereira dos santos, em 26.01.22

O movimento ambientalista em Portugal (de que faço parte, não me canso de sublinhar) está capturado pelos "activistas", de maneira geral, pessoas especializadas em explicar aos outros o que devem fazer em relação a assuntos em que os activistas nunca demonstraram saber fazer melhor.

Atavés deste artigo de João Adrião, fiquei a saber que a Associação Zero tinha feito um semáforo para avaliar as componentes ambientais dos programas eleitorais dos partidos com representação parlamentar.

Em relação à Iniciativa Liberal, o resumo feito pela Zero é uma boa descrição do que é um bloqueio mental: "Boas ideias em vários pontos, mas será difícil lidar com os intangíveis do ambiente num sistema mais liberal".

Se dúvidas houvesse, há uma apreciação parcial que é de antologia: "Defende a sustentabilidade da floresta através da obtenção da rentabilidade, acabando por não deixar espaço para os fatores não quantificáveis."

Confesso que fiquei sem saber se a Zero defende que a sustentabilidade é possível sem rentabilidade, ou se entende que esquecer a rentabilidade resulta em melhores condições para criar espaço para os factores não quantificáveis, num país em que o abandono rural é unanimente considerado o principal problema de gestão das áreas menos produtivas do país.

A ideia da Zero é boa, é útil que as associações ambientalistas escrutinem os programas ambientais dos partidos, mas é uma pena estragar boas ideias com más execuções como  considerar que lidar com "os intangíveis do ambiente" é mais difícil em sistemas mais liberais.

Estão a falar das políticas ambientais dos países nórdicos, dos países mais liberais do mundo, por exemplo? Estão a sugerir que o sistema de parques nacionais americanos é pior que o sistema de parques de Cuba, Coreia do Norte ou China? Estão a negar que o aclamado sistema de áreas protegidas da Costa Rica funciona bem, entre outras razões, por ser um enorme activo económico do país, gerido como tal?

A diferença de opiniões é uma coisa intrinsecamente boa, mas convém é não esquecer que existe uma realidade, que essa realidade é feita também de factos, e que ter opiniões sem atender aos factos não é muito útil.

God Bless America

por Jose Miguel Roque Martins, em 26.01.22

Ao contrario de muitos, aceitaria pagar um preço para não depender do escudo protector dos EUA. Não porque considere os EUA uns monstros, pelo contrario, acho que muito lhes devemos, mas porque um dia, poderemos vir a ser confrontados pela  sua falta de interesse em assumir sacrifícios pela nossa defesa.  Esse dia não parece muito distante se é que não chegou.

A crise na Ucrânia é , em larga medida, uma resposta à enunciação estratégica de que é no Pacifico que se jogam os principais interesses dos EUA, agravada pela vulnerabilidade e falta de interesses comuns dos países ocidentais Europeus. Teria Putin sequer imaginado esta jogada arriscada e perigosa, se sentisse o compromisso totalmente empenhado dos EUA na defesa dos interesses de segurança dos Europeus?

Para além de criticas estapafúrdias, a esquerda sempre lembrou, bem, que o imenso esforço económico Americano na defesa da Europa, não era por amizade, mas por interesse. Fizeram-no por calculo? Obviamente. Apenas quem acredita no Pai Natal ou no Socialismo, pensa que, no mundo real, as pessoas, países e instituições se movem essencialmente por ideais.

Foi também por calculo, que os países Europeus não investiram na sua defesa, ficando mesmo aquém dos compromissos contratualmente  assumidos, convencidos de que o interesse dos EUA seria eterno e que para sempre se poderia contar com um alinhamento milimétrico de interesses.

God Bless America por décadas de protecção, mas é tempo da Europa começar a fazer pela vida,

 

As elites e o povo

por henrique pereira dos santos, em 26.01.22

De repente, não mais que de repente, aparecem as coisas habituais "das pessoas do Porto" sobre como Rio era horrível, tiranete e detestado (o editorial de Manuel Carvalho no Público de hoje é inacreditável).

O mesmo aconteceu com Margaret Thatcher (a outra escala, evidentemente, não estou a comparar Rio a Thatcher, estou a comparar a conversa amarga dos seus inimigos políticos) e, em Portugal, o clássico é Cavaco Silva ("não é exemplo para ninguém", como disse Costa, convencido de que estava verdadeiramente a exprimir um consenso generalizado no país, apesar de ser o político com mais maiorias absolutas no país).

Nada me liga a Rui Rio, por quem não tenho qualquer especial afeição, mas continua a parecer-me estúpido que haja tanta gente que pretende explicar aos que não são do Porto como Rio era um nazizinho detestado no Porto: o homem ganhou três eleições e não me consta que nenhuma delas tenha sido fraudulenta.

Há uma quantidade enorme de gente, com acesso aos jornais, televisões e salões da gente "bom genre, bon chic" que conta no país (acham eles) que na verdade se está nas tintas para o que pensam as pessoas comuns, apesar de estarem sempre a falar em seu nome (como eu gostava de um dia ouvir um jornalista perguntar a Catarina Martins por que razão fala em nome do povo quando não vale mais de 10% dos votos desse povo) e que, por isso, acham Rio (como antes Cavaco, ou Trump, ou Bolsonaro) completamente imprestáveis para o exercício do poder, apesar de ganharem eleições.

Vejamos, eu acho Costa um péssimo primeiro ministro, um tiranete sorridente, desde que não contrariado, mas se no Domingo ganhar as eleições a única conclusão que eu posso tirar sobre isso é que não estou alinhado com a maioria dos eleitores.

Não é por ter a opinião que tenho sobre Costa que vou tentar demonstrar que as pessoas que votam nele têm qualquer deficiência congénita que as impede de ter o voto esclarecido que me pareceria evidente e, muito menos, tentar demonstrar que o homem é detestado no país e, mesmo assm, ganha eleições.

As elites, pelo menos em Portugal, têm uma enorme dificuldade em lidar com as derrotas, aceitando-as como aquilo que são e vivendo tranquilamente com o facto de na vida se perder e ganhar, a maior parte das vezes por responsabilidade própria, outras vezes pelas circunstâncias.

É a vida.

O Chega e os seus votantes

por Jose Miguel Roque Martins, em 25.01.22

O Chega é um produto dos nossos tempos, uma reacção ao politicamente correto, ao atropelo de convicções tão legitimas como aquelas que as provocaram. 

Nenhum partido, nem mesmo o animalesco PAN, tem tão pouco a ver com economia ou um modelo de sociedade como o Chega, uma confederação de pessoas fartas de verem as suas convicções atropeladas. Os seus eleitores não procuram soluções, em que já não acreditam. Querem protestar, cantar alto o seu descontentamento e o seu repúdio por uma sociedade em que não se revêem. O Chega não ter uma proposta coerente para a nossa sociedade, é por isso irrelevante para o seu eleitorado, que é relativamente fácil de identificar.

São aqueles que se fartaram de serem objecto de bulling, apenas por serem de direita, por parte de quem diz defender minorias e a democracia. São aqueles que não têm uma opinião diferente: são simplesmente idiotas. São aqueles que nunca engoliram a liberalização do Aborto e não aceitam a Eutanásia. São aqueles que deitam as mãos á cabeça com a loucura do género., o revisionismo histórico e que não percebem porque têm que provar constantemente não serem racistas, sexistas, intolerantes aos outros. Quando os outros têm orgulho em mostrar o desprezo por aquilo que acreditam. São aqueles que não percebem porque se perseguem os Policias. São aqueles que não aceitam que  se trate de forma igual aquilo que é diferente e o contrario.  São aqueles que se fartaram de uma justiça que aparentemente faz a culpa morrer sempre solteira. São aqueles que sentem o peso da injustiça  e de discriminações positivas que nunca os beneficiam.

Quem não é um radical de esquerda, tem a obrigação de pelo menos entender os agravos dos votantes do Chega.

Nunca escondi o meu completo repúdio pelo Chega. E compreendendo (quando não concordando) com as motivações dos seus votantes, não posso deixar de pensar que estão muito errados. Que se estão a tornar próximos, senão semelhantes,  daqueles que mais detestam. Que com convicções diferentes, se aproximam de um maniqueísmo e de um ódio tão característico de um Bloco de Esquerda que, com propósitos distintos, também não contribui para uma sociedade possível e desejável.

Tal como não podemos combater injustiças com outras injustiças, intolerância com intolerância, também não podemos combater um politicamente correto, com outro politicamente correto.

O Chega é apenas uma reacção irada. Que nada resolve. Um sinal de falta de esperança. Quando o Chega desaparecer é sinal que, enquanto sociedade,  estaremos melhor. Que seja breve. 

"O bom patrão"

por henrique pereira dos santos, em 24.01.22

O meu amigo João Eduardo Ferreira faz aqui uma crónica sobre o filme "O bom patrão".

Sobre o filme, não sei, não vi, mas sobre o primeiro parágrafo da crónica, sim, quero dizer qualquer coisa.

"Digamos que calha mesmo bem estrear esta comédia desabrida numa altura em que tanto se fala de liberalismo e de bons patrões que recebem incentivos estatais e depois, muito natural e voluntariamente, vão distribuir os lucros assim conseguidos (quais robins dos bosques!), pelos diligentes e afanosos operários. A sociedade prospera, o sol brilha e ficamos todos felizes".

Esta caricatura do liberalismo é muito, muito popular, até porque como caricatura é boa.

A verdade é que o liberalismo é de entre as ideologias políticas mais correntes, a que menos acredita na bondade, seja de quem for, como penhor de bom funcionamento da sociedade, pelo contrário, não tem grandes ilusões sobre a natureza humana.

É por isso que é das mais renitentes a intervenções externas às empresas para impedir que vão à falência, das que mais defendem a necessidade de garantir que os patrões sejam responsáveis pelas consequências das suas opções, das que mais se esforçam por garantir a impossibilidade da criação de monopólios, e outras posições dominantes no mercado que se possam tornar abusivas, de modo a impedir que os patrões se transformem nas caricaturas que deles fazem os que não gostam da iniciativa privada.

E é também por isso das que mais se preocupam com a definição das regras, e com a sua aplicação real, de forma que nos torne a todos iguais perante a lei, mas também perante as oportunidades, como o acesso a ensino de qualidade para todos.

Como qualquer ideologia, tem muitas dificuldades de aplicação em opções reais e concretas.

Por exemplo, a Iniciativa Liberal esforça-se por contestar a carga fiscal sobre combustíveis e eu, que a apoio quando posso, tenho as maiores dúvidas de que essa seja uma boa opção do ponto de vista da sustentabilidade.

A ideia de que o liberalismo é sobretudo a defesa dos mais ricos é uma caricatura absurda, pelo contrário, uma das principais razões para eu apoiar políticas liberais, pelo menos nas condições concretas de Portugal, é por achar que o elevador social está encravado em Portugal e é preciso pô-lo a funcionar para permitir que os filhos dos mais pobres não tenham de ser, como acontece actualmente de forma excessiva, pobres como os seus pais.

A liberdade de escolha na educação, por exemplo, não é a defesa da privatização do ensino (uma questão marginal, é irrelevante quem é o dono das paredes da escola ou quem paga o ordenado dos professores) mas sim a defesa da oportunidade dos mais pobres poderem andar nas mesmas escolas que os ricos, ter a mesma qualidade do ensino, terem oportunidade de criar redes sociais diferentes das dos seus pais.

Não há patrões bons que tomam atitudes bondosas nas suas empresas (há, com certeza, mas não é assim que se equilibram as relações dentro das empresas), o que há são contextos de funcionamento das empresas que as incentivam a funcionar melhor e serem mais favoráveis para os seus trabalhadores e contextos em que existem incentivos inversos.

Não há maior poder negocial dos trabalhadores que aquele que lhes é dado pela possibilidade de mudar de patrão com facilidade e vantagem, o que só se consegue em ambientes economicamente saudáveis e onde as relações contratuais são, tanto quanto possível, livres.


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