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Contágio

por henrique pereira dos santos, em 30.11.21

Alemanha

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Austria

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Portugal

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Estes três bonecos são produzidos automaticamente pelo Our World in Data e contrariam o essencial do discurso mediático sobre a epidemia.

Sim, é verdade que na Alemanha a incidência é mais do dobro da que existiu no pior pico anterior, sim, é verdade que a incidência na Austria é quase o dobro do pior pico passado e sim, é verdade que a incidência em Portugal está a subir (aparentemente está já a dar sinais de abrandar, mas até ao lavar dos cestos é vindima).

Também é verdade que as hospitalizações, doentes em cuidados intensivos e mortes, não acompanham a incidência como anteriormente, de tal maneira que se torna difícil aceitar a conversa da sobrecarga dos hospitais alemães, já que as hospitalizações estão bastante abaixo dos anteriores picos.

Essencialmente, o que se pode dizer é que a vacina tem cumprido bem a sua função de protecção individual (há quem argumente que as variantes que se tornam dominantes são as que são mais infecciosas, mas menos letais, não vou entrar nessa discussão, de uma maneira ou de outra há um claro desfasamento entre a evolução do número de casos e a evolução de hospitalizações, cuidados intensivos e mortes) mas, aparentemente, não é uma grande ajuda no bloqueio do contágio.

Dizer isto não significa que a vacina não possa ter algum efeito de contenção do contágio, significa é que há outros factores mais importantes a determinar a evolução do contágio - sejam as tais variantes mais contagiosas, sejam os factores ambientais, também não entro nessa discussão - e a variação de contágio comunitário que a vacina possa induzir é absorvida pelos outros factores que duplicam, triplicam, e mais, os contágios, numa ou duas semanas.

Resumindo, para quem adoptou o contágio como o critério central de evolução da epidemia, a situação é hoje muito complicada na Europa, para quem adoptar os efeitos reais da doença nas pessoas, medido em hospitalizações, cuidados intensivos e mortes, a situação actual é tranquila na Europa quase toda.

Note-se que o padrão de hospitalizações, cuidados intensivos e mortes não é exactamente igual, não há uma sequência de evolução da doença que seja hospital, cuidados intensivos e morte.

Há muitas hospitalizações que não evoluem para cuidados intensivos e, sobretudo, as pessoas que estão a morrer correspondem a grupos sociais muito diferentes dos que estão nos cuidados intensivos.

Os que estão a morrer são pessoas muito velhas e doentes, vacinadas ou não. São, de maneira geral, pessoas cuja vida pode desaparecer com covid ou com outra coisa qualquer, à mínima perturbação correm riscos de vida elevadíssimos, não sendo de esperar, na esmagadora maioria, que na ausência de covid vivessem muito mais tempo.

Os que estão a ser hospitalizados e levados para cuidados intensivos, de maneira geral são mais novos, às vezes sem histórico de doenças prévio, e não morrem, em grande parte, são tratados e voltam para casa.

Ou seja, com a vacina, ou com as variantes mais transmissiveis mas menos letais ou com uma combinação das duas coisas, a verdade é que a covid deixou de ser uma doença que crie mais risco social que a gripe.

Aqui chegados, é mais que legítimo perguntarmo-nos por que razão há crianças que desde o ano lectivo já estiveram isoladas em casa três vezes, catorze dias de cada vez.

E a resposta é desarmantemente simples: porque as pessoas que tomam decisões sobre o assunto acham muito importante diminuir o contágio de uma doença - medido laboratorialmente é bom lembrar - e não atribuem grande importância à frequência da escola.

Luís Aguiar-Conraria rendeu-se ao pragmatismo e no seu último artigo do Expresso (aliás, muito bom, embora eu tenha dúvidas sobre a parte final, que é a que estou aqui a comentar) defende que como será sempre assim, o melhor mesmo é vacinar as crianças para que as deixem em paz na escola.

Em compreendo esse pragmatismo, também dou tanta importância à frequência presencial da escola que acho que mais vale garantir a sua frequência que discutir se as políticas públicas estão certas ou erradas, mas não consigo ir tão longe.

Não porque veja grande risco na vacinação de crianças, que acho essencialmente um gasto ineficiente de recursos e energia (para além de uma injustição evidente face aos países que nem a sua população de risco têm vacinada), independentemente de reconhecer as questões éticas que se levantam.

O problema é que se mantivermos o foco no contágio medido laboratorialmente, não são só as escolas que vão ser destinatárias de medidas de gestão da epidemia que, além de estúpidas, são na verdade contraproducentes (os efeitos de longo prazo na confiança dos processos vacinais, que é elevadíssima em Portugal, talvez não seja dispicienda), é toda a sociedade.

E eu continuo a achar que é preciso perguntar por que raio continuamos a discutir isto com base em incidências de casos, visando um bloqueio de contágio irrealista, em vez de nos concentrarmos no essencial: hospitalizações, mortes e protecção dos mais susceptíveis.

Se há coisa que, mais uma vez, como nas outras epidemias, parece ficar demonstrado, é que tentar fazer bloqueios de transmissão de doenças deste tipo, sem que existam instrumentos farmacêuticos adequados - medicamentos e vacinas - é uma rematada idiotice, com custos sociais brutais e completamente desproporcionados face aos benefícios que se obtêm.

Uma coisa é usar medidas não farmacêuticas na protecção individual, outra coisa é confiar nelas para evitar surtos, tal como uma coisa é gerir os efeitos de um incêndio em concreto recorrendo a meios de combate, outra coisa é confiar na diminuição das ignições e nos meios de combate para obter o padrão de fogo que se pretende.

A insónia de  Putin

por Jose Miguel Roque Martins, em 30.11.21

Depois de ter invadido a Crimeia, a Rússia amontou nas ultimas semanas,  mais de 100.000 Homens e equipamento pesado, na fronteira da Ucrânia, a que se vão agora juntar tropas da Bielorrússia. Em tese, uma invasão da Ucrânia pode começar a qualquer momento.

Uma concentração de meios tão importantes, são caros demais para serem tomados sem qualquer objectivo claro. Claro que se pode tratar apenas de uma provocação. Uma prova de vida e uma fanfarronada para impressionar quem compra equipamentos militares. Como a maioria das pessoas, não entendo por que razão a Rússia poderia querer invadir a Ucrânia. O que é certo é que já anexou em 2014 a Crimeia, sem que se vislumbre, até à posteriori,  um interesse geopolítico relevante.

Com o histórico passado e recente, no caso do Ocidente pretender de facto proteger a Ucrânia, bastaria que a NATO, em linguagem diplomática mas clara, anunciasse que reagiria militarmente  a qualquer nova agressão ás fronteiras da Ucrânia. Não foi o que aconteceu. Umas declarações ameaçando umas sanções difusas, umas manifestações de preocupação, uma reunião da NATO, hoje, para partilha de inteligência sobre a situação no terreno. E é tudo, pelo menos para já.

Apenas três lógicas parecem poder explicar este quase convite a uma agressão Russa. Ou porque se entende útil sacrificar os Ucranianos, num calculo que me escapa. Ou porque não defender a Ucrânia lance duvidas à Rússia do seu  interesse em o fazer. Ou porque não há mesmo vontade de perder um único homem, numa guerra que não ataca(?) nenhum interesse fundamental dos países que deveriam reagir, até porque precisam do gás russo.

Tanta passividade, deve estar a enervar Putin e a tirar-lhe o sono: não é assim que se deve reagir a uma provocação, não é assim que se brinca, não é assim que se valoriza um eventual êxito militar.

Radicalização ideológica

por Jose Miguel Roque Martins, em 29.11.21

Costumo ler as crónicas de Daniel Oliveira no Expresso que, de certa forma, considero o arauto honesto e inteligente da Esquerda. Hoje, a páginas tantas, escreve:

“E desde que Rui Rio venceu que deixaram claro que o consideram um líder ilegítimo, em contraciclo com a radicalização ideológica que defendem.”

Simplificando, qualquer ideologia que ultrapasse á direita o socialismo, ou uma social democracia de esquerda socialista, para a esquerda, é naturalmente uma ideologia radical.

Curiosamente, na esmagadora maioria dos países desenvolvidos, o radical em Portugal é o moderado e o moderado português, radical.

Em termos de classificações politicas tudo é uma questão de perspectiva e de onde se posiciona o observador. Já em termos de consequências praticas, no bem estar da população, é que não há duvidas: a direita do socialismo, dita radical ou moderada, é bem mais agradável para os cidadãos.

Rio: as bases venceram os "notáveis"

por João-Afonso Machado, em 29.11.21

Gostei da vitória de Rio. Tive a vaga noção de que Paulo Rangel não chegaria lá, tal o frenesim, a panóplia de "notáveis" a apoiá-lo e a serenidade do seu concorrente. E daí uma primeira analogia possível - a proeza de Rio está para o PSD como a abstenção está para Portugal. Isto é, estamos todos fartos de "notáveis", dos políticos televisivos e afastados do quotidiano.

Acrescento: Rio é um social-democrata convicto. Por isso se põe a jeito de o acusarem de esquerdista. Demagogia! Povoa a Esquerda o marxismo, em todas as suas variadas estirpes, sempre renovadas, sempre adaptadas. E nesse covid estratégico e endémico, obviamente não se inclui Rui Rio.

Por fim: a putativa aproximação do PSD ao PS. Outro falso alarme! Senão vejamos - ganhando o PSD, Costa nunca se sujeitaria (como o PS nunca se sujeitou) a uma posição subordinada, e refinará na oposição; saindo a sorte a Costa, e não lhe sendo viável reeditar a Geringonça... Rio sabe bem da confiança que o ainda nosso 1º merece,  a ligeireza com que espeta o punhal em quem quer lhe tolha o passo. Poderá facilitar-lhe a vida, aliviar impasses parlamentares. Mas mais - jamais.

Morre o PSD, nasce o PSB

por Jose Miguel Roque Martins, em 28.11.21

Rui Rio ganhou as eleições do PSD, que no seu consolado se deve chamar PSB , o outro PS.  Se estivermos zangados com a coca cola, tomamos pepsi cola. Não abandonamos é a cola, que nos une no nosso estranho e fraco projecto colectivo.

Se já não havia grandes perspectivas de mudança a partir de Janeiro, agora não há nenhumas. Ganhe o PS ou o PSB.

Ainda bem para quem acha que estamos no rumo certo.

 

Domingo

por João Távora, em 28.11.21

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas e, na terra, angústia entre as nações, aterradas com o rugido e a agitação do mar. Os homens morrerão de pavor, na expectativa do que vai suceder ao universo, pois as forças celestes serão abaladas. Então, hão-de ver o Filho do homem vir numa nuvem, com grande poder e glória. Quando estas coisas começarem a acontecer, erguei-vos e levantai a cabeça, porque a vossa libertação está próxima. Tende cuidado convosco, não suceda que os vossos corações se tornem pesados pela intemperança, a embriaguez e as preocupações da vida, e esse dia não vos surpreenda subitamente como uma armadilha, pois ele atingirá todos os que habitam a face da terra. Portanto, vigiai e orai em todo o tempo, para que possais livrar-vos de tudo o que vai acontecer e comparecer diante do Filho do homem».

Palavra da salvação.

Comentário: A vinda do Senhor, a sua última vinda, ou talvez melhor, o último momento da vinda que Ele inaugurou quando Se fez homem e veio habitar no meio de nós, é, de novo, proclamada nesta leitura. E com que solenidade! E com que exigências! Mas, no fundo, será esse o momento supremo da nossa libertação, porque o Senhor, que vem, vem como Salvador. O Advento é o tempo particularmente consagrado a viver nesta expectativa.

Viva o provedor do leitor do Público

por henrique pereira dos santos, em 27.11.21

Não é segredo, para quem lê o que escrevo, a minha quase permanente irritação com a qualidade do jornalismo em Portugal (suspeito que não é caso único no mundo, mas é este que conheço melhor).

E, sobretudo, a minha incompreensão sobre o feroz corporativismo do jornalismo, que na prática bloqueia a crítica saudável, isto é, aquela que permite melhorar o desempenho.

O Público criou, há muitos anos, um provedor do leitor que, inicialmente, fazia um bom trabalho. Mas rapidamente foi capturado pela redacção porque os provedores seguintes se achavam, esta é a minha interpretação, mais provedores do bom jornalismo - isto é, o jornalismo que os provedores entendiam que deveria existir - que dos leitores.

Desliguei, portanto, desse mecanismo de escrutínio do jornalismo, tal como desliguei dos mails para os jornalistas do Observador, que inicialmente resultavam em qualquer coisa de útil e, depois, pura e simplesmente ou deixaram de ter resposta, ou têm respostas burocráticas a negar a discussão da crítica dos leitores.

Um dia destes, perante a evidente manipulação do jornal para fins privados, protestei junto do Provedor do leitor do Público.

Confesso que quando o Provedor me mandou um mail a reencaminhar a resposta do jornalista, temi que o assunto morresse como de costume.

Mas não, hoje o Provedor, na sua coluna, não só fala do assunto, como responde de forma clara e conclui cristalinamente: "o provedor considera que o artigo em causa viola o artigo 1º do Código Deontológico dos jornalistas e o ponto 15 do Livro de Estilo do Público, com a agravante do jornal ter feito sua a opinião de uma das partes".

Com certeza fico satisfeito por haver outras pessoas, com mais distância do assunto, que corroboram o que eu dizia sobre o artigo (ou parte do que eu dizia, mas uma parte muito relevante), mas não é isso que me deixa mais contente, o que me deixa mais contente é verificar que há um provedor do leitor, num jornal, que se põe fora do habitual corporativismo e reconhece que os jornalistas também cometem erros de palmatória que o jornal não detecta a tempo de os impedir.

Muito obrigado, senhor Provedor (José Manuel Barata-Feyo, de seu nome).

No caminho da miséria

por João Távora, em 25.11.21

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Regressado dum memorável e intenso fim-de-semana alargado em Milão onde fui pela primeira vez para visitar a minha filha, sou testemunha duma agitada metrópole com uma economia pujante que parece pulsar indiferente ao alarmismo pandémico. Multidões de pessoas percorrem as ruas e praças de cara destapada, sendo unicamente obrigatório o uso de máscaras em espaços fechados, como transportes públicos (à pinha - mesmo no domingo) monumentos, museus, lojas e restaurantes que fervilham com autóctones, estudantes e turistas. Quando segunda-feira às 5 da madrugada me deslocava para o aeroporto de Bergamo, reparei da janela do autocarro no imenso movimento de transportes de mercadorias repletos de contentores, que numa frenética corrida nocturna às centenas arribavam à cidade.
Se não é necessário fazer turismo para verificar a imensa diferença entre as economias das cidades de Milão e de Lisboa, com esta visita fiquei com uma amarga sensação de que a disparidade se irá acentuar com a pandemia e a maneira como a encaramos por cá -  como se não bastasse o excesso de socialismo. No domingo à noite, no único noticiário televisivo a que assisti, a peça sobre o crescimento da epidemia, apareceu apenas em 5ª lugar, quase 15 minutos passados do seu início. Segunda-feira já em Lisboa a caminho de casa ao ouvir as notícias da rádio deu-me a sensação que, por cá, se vive uma calamidade.  

* Fotografia minha da Praça do Duomo, no passado domingo de manhã.  

Marta Temido e nós

por henrique pereira dos santos, em 25.11.21

Não, não me interessa tanto o que parece que escandalizou toda a gente (eu incluído), a tal história da resiliência (por favor, podemos parar de confundir resiliência, que é a qualidade de voltar ao estado inicial depois de uma deformação, com resistência, que é a capacidade de resistir a qualquer coisa adversa?).

Nas declarações de Marta Temido há coisas que me parecem bem mais relevantes, não por dizerem alguma coisa sobre Marta Temido, mas por dizerem bastante sobre nós.

"Nós sabemos que o limite de trabalho suplementar ... de 150 horas, não é possível de ser respeitado no nosso sistema de saúde".

O que está em causa é o facto do Código do Trabalho e da Lei Geral do Trabalho em Funções Públicas estabelecerem um limite de 150 horas anuais de trabalho por trabalhador. Mas, para resolver o problema da má gestão do Serviço Nacional de Saúde (ou a escassez de médicos que a Ordem dos Médicos continua a dizer que não existe, de cada vez que alguém tenta abrir mais um curso de medicina), há um aditamento à lei que cria uma excepção: "a realização de trabalho suplementar ou extraordinário no âmbito do SNS não está sujeita a limites máximos quando seja necessária ao funcionamento de serviços de urgência ou de atendimento permanente".

Ou seja, há uma regra geral na lei do trabalho, a que o Estado se exime no seu interesse próprio, uma ministra (esta ou outra qualquer) dá como adquirido que a excepção à lei é a normalidade e nós, nós todos, não nos perguntamos por que razão a regra existe no código do trabalho.

A regra é boa e deve existir para proteger os trabalhadores dos abusos dos patrões?

Então o Estado patrão deve "liderar pelo exemplo" e deixar-se de abusar do seu poder para se eximir ao cumprimento de regras que impõem aos outros.

A regra é estúpida e impede uma boa gestão de recursos humanos?

Então o Estado deve rever a regra.

Agora esta situação em que a regra é boa em tese, para os outros, mas má na prática, quando convém ao Estado, é que revela uma falta de exigência nossa em relação ao Estado que, infelizmente, nos caracteriza bem como sociedade.

Não admira por isso que Marta Temido, cujas demonstrações de falta de amor à liberdade são frequentes (da mesma audição "A melhor forma de atrair recursos humanos é conquistá-los para projetos de trabalho e não passar uma imagem, ou intensificar uma imagem, de que a instituição vive enormes dificuldades e num clima de confronto”, um bom retrato das suas prioridades, a realidade não interessa nada, o que interessa é garantir que enganamos as pessoas para as poder arregimentar), seja a ministra mais popular do Governo, apesar de ter liquidado as PPP na saúde que garantiam melhor assistência médica a mais baixo preço para o contribuinte, por exemplo.

O relevante neste exemplo não é Marta Temido (os ministros vão e vêm, apesar de muitos acharem que passam o tempo a tomar decisões históricas), mas sim a nossa falta de exigência em relação à actuação do Estado.

É muito triste que nos foquemos na parvoíce da resiliência, em vez de nos questionarmos por que razão existe uma regra geral no código do trabalho a que o Estado se furta porque, no seu papel de patrão, considera a regra impossível de cumprir.

Será isto?

por henrique pereira dos santos, em 24.11.21

Depois de tantos dias a ver demonstrações claras da relação entre taxa de vacinação e incidência Covid, temos de concluir que em Portugal, de repente, está a haver uma diminuição expressiva da taxa de vacinação, certo?

A percepção pública e o fogo

por henrique pereira dos santos, em 23.11.21

Nota prévia importante. Depois de escrito o post, corrige-se uma informação muito relevante: o polígono amarelo diz respeito à Área Protegida da Serra do Açor, que inclui a Mata da Margaraça, mas não à Mata da Margaraça ela mesma

Este post começou numa sessão pública oficial em que, mais um vez, o Senhor Ministro do Ambiente (que conheço e trato por tu, embora falemos raramente, fica feita a primeira declarações de interesses deste post) estabeleceu uma relação directa entre a presença de eucaliptos e os fogos de 2017.

Mas não é sobre isso o post, é sobre a percepção sobre o fogo que transpareceu em algumas equipas técnicas que têm a responsabilidade de desenhar paisagens mais resilientes ao fogo.

Esse é o objectivo do Programa de Transformação da Paisagem, um equívoco tremendo em que estão envolvidos vários colegas meus, que conheço e prezo.

Numa dessas apresentações, e não foi a primeira vez, a responsável por uma dessas equipas (que conheço e prezo, mas não tem trabalho científico reconhecido na matéria, o que diz mais sobre os critérios de decisão na Administração Pública na execução deste programa que sobre os meus colegas envolvidos), insistiu na sua tese, já desmentida noutras ocasiões, de que a Mata da Margaraça não ardeu em 2017, porque é constituída maioritariamente por folhosas autóctones.

Fogo Outubro2017 Margaraça (003).jpeg

O boneco acima é de José Miguel Cardoso Pereira e João Neves Silva e foi feito depois dessa sessão pública procurando dados verificáveis sobre o tal fogo que não terá ardido mas terá sido visto, ao contrário do costume.

A Mata da Margaraça é o que está dentro do contorno amarelo e é intuitivo perceber o que ardeu  e não ardeu ("A imagem ... é do satélite Sentinel-2 e foi recolhida poucos dias após 15 de Outubro de 2017, onde o polígono amarelo demarca a Mata da Margaraça. As áreas a verde mostram a vegetação intacta, ou onde o fogo apenas queimou ligeiramente à superfície, sob copado arbóreo que permaneceu verde. As áreas a vermelho são aquelas onde a vegetação foi consumida, ou fortemente chamuscada pelo fogo, No caso de arvoredo, serão copas consumidas ou completamente chamuscadas").

Tem uma dificuldade que é  ponta Leste (à direita) em que a sombra topográfica não permite perceber se ardeu ou não, e de que forma.

Em qualquer caso, há um mosaico de áreas mais ardidas e menos ardidas que é essencialmente o mesmo da zona envolvente, com ou sem carvalhos, isto é, o mosaico de severidade do fogo depende de outros factores que não da espécie dominante no povoamento (existem resmas de estudos a dizer o mesmo).

"Tudo isto é conhecimento estabilizado e consensual para quem analisa dados, investiga o assunto e conhece a literatura especializada. Para além disso, é por demais evidente que a espécie, ou o género arbóreo não é o determinante único, frequentemente nem sequer o principal, da severidade dos efeitos do fogo. A abundância de sub-bosque, a exposição das encostas e a sua orientação relativamente à propagação do fogo, a hora do dia e a velocidade do vento no momento em que o fogo passou por determinado local são tão ou mais importantes que a espécie/ género".

Como a conversa sobre este fogo continuou (eu, essencialmente como espectador, que esta não é a minha área profissional, José Miguel Cardoso Pereira, Paulo Fernandes e Nuno Guiomar, qual deles mais qualificado em matérias relacionadas com comportamento do fogo e ecologia do fogo e João Baeta Henriques, intermitentemente), foi possível ter bastante mais informação sobre o fogo na Margaraça.

 "Até tenho foto com fogo de copas tirados durante o 1º incêndio (1-2 semanas antes de 15 de Outubro) e que se propagou do topo para o vale, creio que coincide com as manchas vermelhas. E tenho muitas fotos que documentam a variação da severidade do fogo dentro da mata, numa visita que fiz 1 semana após 15 de Outubro. Todo o sombreado a leste ardeu e a única área que realmente não ardeu foi aquela ilha central verde, incluindo um pedaço acima da estrada e junto à casa do ICNF mas principalmente abaixo da estrada no que constitui a porção mais húmida e abrigada da mata".

A talho de foice, a relação causa/ efeito de aparecerem manchas não ardidas de folhosas no meio de áreas quase totalmente ardidas (também há dezenas de exemplos com talhões nas ardidos de eucalipto, por exemplo, neste caso, muito provavelmente, relacionando-se com a intensidade de gestão desse povoamento em concreto) não é intuitiva: é porque há umas bolsas em que o fogo  tem dificuldade em chegar, de maneira geral relacionando-se com factores topográficos e exposição aos ventos que dominantemente ocorrem nos dias mais favoráveis ao fogo (o que no parágrafo acima é descrito como "porção mais húmida e abrigada da mata"), que resistem aí retalhos reliquiais de matas de folhosas, não é por haver aí matas de folhosas que não arde.

"Esta insistência na inviolável Margaraça não tem sentido nenhum, é um facto facilmente comprovável, até porque esta mata não foi afectada uma, mas sim duas vezes nesse ano. Aliás, o fogo de Esculca-Côja-Arganil do 15/10 resulta de dois reacendimentos, um deles aqui. Mas, já agora, e para diversificar nas "provas do crime" envio anexo um artigo ("Macrofungi of Mata da Margaraça (Portugal), a relic from the Tertiary Age") que é parte de uma tese de mestrado elaborada aqui na Universidade de Évora (um dos três alunos que incentivei a realizarem as suas teses na área ardida da Margaraça, embora não tenha orientado nenhum por indisponibilidade de tempo). E esta tese até tem alguns pontos de interesse particulares: "The recent fires that occurred in the area have provided the opportunity to study the post-fire communities. The surveys were carried out in 2004 and later in 2018-2019. A total of 271 species were registered as belonging to Basidiomycota (≈ 80%) and Ascomycota (≈ 20%). The most represented Basidiomycota families were Russulaceae, Mycenaceae and Agaricaceae and the most represented Ascomycota families were Pyronemataceae and Pezizaceae. The new records to Portugal add up to a total of 88 species and another 116 species are new records to the province of Beira Litoral. Post-fire fungi account for 17 of the total of 271 species registered in these studies and most of these species are new to Portugal."

"um mapa (reconstrução e simulação) que mostra que o fogo da Margaraça, o de 15 de Out, entrou já em condições facilitadas, porque entrou de flanco e não de cabeça. O incêndio anterior evitou que o de 15 entrasse de cabeça margaraça abaixo".

"Esta atitude negacionista em relação à Margaraça, já a encontrei várias vezes em relação ao Caldeirão (onde na falta de argumentos, vale tudo, até colocar o que lá não está). E não basta provares com factos ou demonstrares analiticamente uma vez. Eu pensava que bastava e vê o que aconteceu em Monchique, um relatório inacabado migra para uma Resolução do Conselho de Ministros com um mini-capitulo que demonstra que o que estão a publicar não terá o efeito que se diz ter ou pelo menos querer ter. Temos que repetir e repetir e repetir, tal como nos nossos primeiros momentos de aprendizagem pós-nascimento, e mesmo assim não é garantido que alguma coisa mude a narrativa ficcional de alguns actores da nossa praça".

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"um boneco que mostra os focos de calor detectados pelos sensores VIIRS, TERRA e AQUA em 7 e 8 de Outubro de 2017. A cor azul indica que as observações foram todas feitas durante a noite, entre as 22:30 e as 2:30".

"Isto é ainda mais interessante, porque mostra que apenas o lado mais ocidental da mata ardeu em 15 de Outubro. Portanto o gradiente de severidades que se observa no terreno resulta de condições de fogo bem menos extremas do que aquelas que se verificaram a 15 Out".

"a encosta Leste deve ter sido percorrida pelo fogo durante a noite e contra o declive".

Resumindo estas longas citações, cujos autores de cada uma omito, mas são os três acima citados numa amena cavaqueira suscitada pela negação de um facto evidente e verificável, feito numa conferência de elevado nível técnico e administrativo (dois membros do governos, vários directores gerais, vários coordenadores de extensas equipas técnicas, etc., etc., etc..) e que não belisca minimamente a credibilidade do processo de "transformação da paisagem" em curso.

E não belisca porquê?

Porque na verdade a percepção pública sobre fogos se reduz, essencialmente, a incendiários e eucaliptos (por vezes estende-se aos pinheiros, portanto, em rigor, à produção florestal comercial), ignorando totalmente a brutal quantidade de informação acumulada sobre o assunto e princípios fundamentais da ecologia do fogo e da evolução das paisagens (é aqui que acabo por estar metido nisto, é neste bocadinho que tenho algum conhecimento).

É compreensível a ideia de que o fogo é todo igual, embora seja uma ideia errada, é compreensível a ideia de que todos os fogos grandes começam por ser pequenos, portanto é preciso é apagá-los logo nessa altura, embora seja uma ideia não só errada, como impossível de aplicar totalmente, potenciando o desastre das vezes em que não se consegue aplicar, é compreensível a estranheza perante a ideia contra-intuitiva de que o fogo se gere com fogo, embora seja uma ideia certa (que é largamente potenciada pela introdução do pastoreio na equação).

O que é incompreensível é que a niveis que devem ser tecnicamente exigentes, corramos atrás da percepção pública errada, desenhando políticas erradas, com resultados catastróficos, quer do ponto de vista da economia, quer, mais importante, do ponto de vista social.

Aparentemente, só com a morte de toda a minha geração é que uma nova geração de técnicos, que tenham crescido habituados à ideia de gestão do fogo, familiarizados com a ecologia do fogo e libertos das fantasias sobre o comportamento das folhosas nativas em fogos que ocorrem em condições meteorológicas extremas, poderão gerir paisagens mais resilientes ao fogo.

Não há que desanimar, já nos restam poucos anos a fazer e dizer asneiras.

Dúvidas

por henrique pereira dos santos, em 22.11.21

Tanto quanto eu sei (admito que não fui informar-me muito sobre o assunto), a reinfecção é relativamente rara na Covid (no futuro não sabemos), sugerindo que a imunidade induzida pela doença dura pelo menos entre um e dois anos (é preciso tempo para confirmar melhor se assim é).

Pelo contrário, estamos agora a fazer reforços de vacinação em períodos curtos, digamos, seis meses ou pouco mais.

A vacina tem demonstrada ser útil na diminuição da gravidade da doença e na mortalidade, não parecendo ter o efeito prometido em matéria de incidência (poderá ter algum efeito, mas muito longe do que foi prometido).

Assim sendo, não seria razoável procurar vacinar as pessoas, para diminuir os riscos associados à infecção (que já de si são muito baixos para pessoas mais novas), e aproveitar essa diminuição de risco para deixar correr a infecção, visto que imunização adquirida pela doença parece durar mais tempo e ser mais eficaz?

Os organismos de saúde e do medicamento da generalidade dos países, bem com a generalidade dos especialistas especiais que mais aparecem no espaço público, garantiram que a vacina iria ter um papel fulcral na diminuição da incidência, afirmando, com bastante segurança, que ao fim de X ou Y taxa de vacinação, a incidência deixaria de ser problema e a existência de surtos relevantes seria muito pouco provável.

A realidade veio demonstrar que não é bem assim.

É absurdo dizer que ter dois terços de uma população vacinada é pouco, pode até ser insuficiente, mas dizer que é igual a ter 0% de vacinados, se o papel da vacina no corte do contágio fosse relevante, seria ridículo, pelo que, manifestamente, os organismos de saúde e do medicamente e os especialistas especiais se enganaram redondamente sobre o papel que a vacina iria desempenhar na gestão da epidemia.

Qual é a garantia que isso nos dá sobre a enorme quantidade de outras coisas, como a eficácia dos confinamentos e das máscaras, cujos efeitos na evolução da doença são muito mais dificeis de avaliar?

As linhas traçadas para definir a pressão dos serviços de saúde mantêm-se há meses, e continuam a ser usadas como critério para inverter o que é normal: organizar os serviços de saúde para responder às necessidades da sociedade, em vez de organizar o funcionamento da sociedade para proteger os serviços de saúde.

Por que razão se deve admitir que a sociedade, no seu todo, tem obrigação de se organizar para não ultrapassar a capacidade de encaixe dos serviços de saúde se os responsáveis pelos serviços de saúde não explicam por que razão não aproveitam as acalmias da epidemia para alargar essa capacidade? Quais são as limitações impossíveis de ultrapassar para que os serviços de saúde ganhem mais capacidade de encaixe?

Ou, posto de outra maneira, por que razão decide o governo estoirar dinheiro na TAP em vez de usar os mesmos recursos para dotar os serviços de saúde de maior capacidade de resposta ao stress que as doenças respiratórias colocam sobre o sistema de saúde todos os anos?

E por que razão não se trabalha melhor a articulação com os privados e se melhoram os processos de gestão para que seja possível ter melhores respostas a situações de elevada procura nos serviços de saúde?

Promessas

por José Mendonça da Cruz, em 21.11.21

Este é um pequeno aperitivo publicitário da nova CNN-de-cá que amanhã começa a emitir no canal 7. Num flash que já passou na Tvi o tema  era Marisa Matias a subir para o pódio de um discurso. Que bom, não é?! Também vamos ter as nossas Ocasio-Cortez, embora ligeiramente mais arcaicas.

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Percepção pública

por henrique pereira dos santos, em 21.11.21

Num dos grupos humorísticamente mais fortes de Portugal que eu frequento no facebook (Política Florestal em Portugal), sempre que alguém diz que o eucalipto ocupa cerca de 10% da área de Portugal, aparecem várias pessoas a acusar quem quer que faça essa afirmação de estar vendido ao lobby do eucalipto.

A situação, em si, é um clássico: pessoas que não têm a menor preparação sobre o assunto, que nunca estudaram o assunto, estão absolutamente convencidas de que se toda a gente que estuda o assunto e escreve e fala sobre o assunto diz uma coisa que acham aberrante, não é porque os próprios precisem de ir rever as suas certezas, é mesmo porque são todos corruptos.

Em Portugal o eucalipto não ultrapassa os 900 mil hectares de ocupação do espaço. Aqui fica um mapa, já de 2010, mas daí para cá a situação não se alterou assim tanto, com a distribuição do eucalipto no país.

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Este tipo de informação é público, pode-se ir ver o inventário florestal, pode-se ir ver as Cartas de Ocupação do Solo (COS) em vários anos, pode-se ir ver o que é publicado directamente pelos organismos da comissão europeia, pode-se até fazer directamente a foto-interpretação (se se conseguir), e ver-se-á que, em lado nenhum, mas mesmo nenhum, alguém fala de uma ocupação do solo com eucalipto de mais de 900 mil hectares.

Ora como Portugal tem, grosso modo, 9 milhões de hectares (também se pode confirmar esse dado em qualquer sítio, até na wikipedia) isso dá os tais 10% do país ocupados por eucalipto (números redondos).

Vejamos agora por que razão há uma quantidade de gente - gente que não trabalha profissionalmente com a matéria, note-se - que está convencidíssima de que o eucalipto ocupa mais de 10% do país.

O que se passa é que a maior ocupação do eucalipto coincide com a maior densidade populacional, isto é, a faixa litoral do país (e, já agora, da Galiza) até Lisboa, mais coisa, menos coisa, com umas entradas profundas pelo vale do Tejo e coisas mais ou menos isoladas, como Monchique.

Em algumas zonas, em especial na extensa faixa de xistos que vai do antigo pinhal interior (actualmente eucaliptal interior, tanto quanto uma coisa a 30 ou 40 kms do mar é interior) até às serras de Valongo, passando pelas zonas de Mortágua, Albergaria-a-Velha, Sever do Vouga e adiante, a presença do eucalipto é absolutamente esmagadora, com percentagens de ocupação concelhia que facilmente chegam os 60% e 70%.

No litoral Oeste, a presença do eucalipto é também fortíssima, mas aí, porque existem alternativas económicas para os donos dos terrenos, as manchas de eucaliptal são entrecortadas com pomares, hortas e vinhas, razão pela qual a sua presença não é tão opressiva como na região que citei (e em largas áreas de zona de Monchique).

Como a maior parte de nós circula, habitualmente, em áreas geográficas relativamente pequenas, e como a maior parte de nós vive rodeado de eucaliptais, porque a sua área de distribuição coincide com a área de maior densidade populacional, há muita gente convencidíssima de que o país está coberto de eucaliptos.

Note-se que esta correlação entre áreas de maior densidade de eucalipto e áreas de maior densidade populacional é uma mera correlação sem qualquer causa que ligue directamente os dois factos. A causa que liga os dois factos tem de ser procurada nas condições naturais (nas condições edafo-climáticas, dizem eles) que favorecem a presença humana - são as zonas historicamente mais ricas e diversas do país, consequentemente, as de maior oportunidade económica, mesmo agora que grande parte da população não vive da terra - e que favorecem também a produtividade do eucalipto. É uma espécie que precisa de uma precipitação anual razoável (digamos, 600 milímetros, mas com vantagem se for um bocado mais), da inexistência de geadas tardias, de baixas altitudes (sobretudo o eucalipto globulus, esmagadoramente dominante em Portugal, há umas exploração de eucalipto nitens a maiores altitudes, mas muito menos frequentes e menos vantajosas), e mais umas coisas que encontra nessa área de distribuição que descrevi acima. E, já agora, porque a exploração de eucalipto é hoje um negócio de tostões, também precisa que não haja coisas que paguem melhor, como as já citadas vinhas no Oeste ou no Douro, ou a produção agrícola em grande parte do Minho.

No mapa são visíveis algumas manchas que fogem a este padrão, como a serra de Ossa, umas coisas ali por Castelo Branco/ Idanha ou ainda Mogadouro, mas isso são resquícios das asneiras feitas nos anos 80 do século XX, quando havia quem considerasse o eucalipto como o petróleo de Portugal e a febre da sua expansão levou muita gente, incluindo gente muito responsável, a plantar eucalipto em zonas de baixíssima produtividade, sem grande interesse para a produção de eucalipto. Hoje são passivos que se costumam caracterizar como "sucata florestal". O facto de ainda lá estarem decorre apenas de não ser fácil ter alternativas de uso economicamente racionais e a produção de eucalipto para a indústria não teria perdas relevantes se metade da área actualmente ocupada por eucalipto indevidamente fosse reconvertida para outras coisas (incluindo renaturalização e produção de biodiversidade).

Mesmo pessoas com dois dedos de testa, como Francisco Louçã e o seu genro João Camargo (este com mais pretensões a saber alguma coisa do assunto, até tem um livro, a meias com Paulo Pimenta de Castro, sobre florestas), completamente obcecados com teorias de conspiração para explicar um mundo que manifestamente não evolui de acordo com o que acham que deveria ser o seu devir histórico, acabam a dizer disparates monumentais sobre as razões pelas quais não existem eucaliptos na Alemanha, apresentando esse facto como uma recusa da Alemanha em ficar com os ónus ambientais da produção de eucalipto, em vez de simplesmente aceitarem o facto trivial das condições naturais na Alemanha impedirem a produção de eucalipto, tal como dificultam a produção de bananas no Ártico.

Não admira por isso que haja tanta gente indignada por alguém se limitar a apresentar um facto indesmentível - o eucalipto, em Portugal, representa cerca de 10% da ocupação do solo - convencidos que estão, a partir do que vêem da estrada e da televisão, de que o país é um mar sem fim de eucaliptos.

Pelo menos eu, não fico admirado com o facto da ignorância ter uma distribuição no país que é muito maior que a distribuição do eucalipto.

Lá voltam eles

por José Mendonça da Cruz, em 19.11.21

Lá voltam os «especialistas de saúde pública», de debaixo das suas pedras, alacres -- decerto alheios ao estado catatónico do SNS e à legião dos mortos por falta de atendimento a tempo -- aaahhhhh, ou é como digo ou vamos morrer todos, a culpa é vossa!

Lá voltam as reuniões intrigantes do Infarmed, mal enjorcadas, torcidamente concluídas, de conclusões brancas ou pessimamente divulgadas, aaahhhh, horror, estamos à beira da tragédia!

Lá vem Costa e os seus farejando uma bóia de salvação, é o horror, é o fim, votem em nós senão morrem.

Lá vêm os jornalistas amestrados e incompetentes em mistura indistinguível, são 1000, são 2000, são 3000 amanhã, 10 000 na 5.ª semana de fevereiro, votem PS ou amanhã morrem.

Lá vem o Presidente e diz coisas. 

Sim, e quantos casos são por causa doCovid, e quantos também com Covid? Quantos são casos graves, ou preocupantes, ou sequer de algum cuidado, ou simplesmente 37,5 de febre e uma tosse, como 6 familiares meus? Não se sabe. Os «jornalistas» não querem saber. Um palerma na RTP, trazido a esta triste fama, quer, o tonto, fechar fronteiras, fechar restaurantes, fechar os espaços públicos, viver do ar. Ponham máscaras, não respirem, escondam-se em casa, não bebam nem comam, borrifem em família, trabalho, amigos, fujam!, tremam de medo!

É preciso vacinar!, dizem eles. A vacina de nada serve!, inculcam eles. Eu, vacinado, aprendo que a vacina não serve de nada, vamos morrer todos!, dizem eles. A mim, vacinado, chamem-me negacionista; eu chamo-vos moluscos («T`es comme une moule, mon frére, t`es comme une moule!»).

Ovelhas, todas em coro, digam outra vez: Bééééééééééééééééé

Eu não entendo

por henrique pereira dos santos, em 18.11.21

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A coisa que mais me faz confusão, desde o início da pandemia, é a demisão voluntária dos jornalistas.

Para gerir uma epidemia, qualquer epidemia, uma das questões fundamentais é avaliar o grau de ameaça que a epidemia representa.

Isto é válido para as nossas epidemias, mas claro que é válido também para as epidemias relacionadas com a produção pecuária, com a conservação da natureza - sim, gerir a conservação do lince significa compreender as epidemias regulares das populações de coelho, por exemplo - e, já agora, embora não lhes chamemos epidemias mas pragas, para as que afectam as culturas de plantas.

Por isso, para mim, seria evidente o interesse dos jornalistas em saber quem é mais afectado pela doença e quem morre da doença, para termos uma ideia de grupos de risco e grau de ameaça para a sociedade, no momento em que for preciso tomar decisões sobre a gestão da epidemia.

De entre as informações mais úteis para caracterizar a mortalidade e, consequentemente, o grau de ameaça, estão três informações, das quais apenas uma é de fácil acesso, embora muitas vezes mesmo essa seja omitida.

A primeira, mais fácil, razoavelmente conhecida, é a da idade das pessoas que morrem. É completamente diferente ter uma doença que afecta sobretudo os mais velhos, como a covid, que mata sobretudo os mais velhos, mas também os muito novos, como a gripe ou que mata os mais velhos, os mais novos e, estranhamente, os jovens adultos, como era o caso da gripe espanhola.

A segunda, praticamente impossível de obter em Portugal de forma fácil, é a distinção entre morte por covid e morte com covid. A distinção nem sempre é fácil e, muitas vezes, vários factores concorrem para a morte, podendo a covid ser o empurrão final de uma situação que é, em si, de extrema fragilidade. Neil Ferguson falava, desde o início da epidemia, em metade a dois terços de mortes de pessoas que, em qualquer caso, dada a sua condição de saúde, morreriam no prazo de um ano, mas a produção e divulgação de informação sobre este aspecto, pelo menos em Portugal, é praticamente nula, não havendo distinção entre mortes com covid e mortes por covid.

A terceira, directamente relacionada com a anterior, e por isso já referida acima, é a da condição de saúde dos que são registados como mortos covid. Conheço várias pessoas com idades acima dos 90 anos que tiveram covid e não tiveram problemas de maior com a doença, sendo absolutamente inqualificável a forma como se apresenta a covid em idades elevadas como uma quase sentença de morte. Sem entrar em linha de conta com a condição prévia dos infectados, ainda antes das vacinas, a verdade é que a mortalidade em lares com elevadas incidências dificilmente subia acima dos 10% a 15%, ou seja, sete a nove em cada dez infectados, internados em lares, o grupo mais susceptível e de maior risco, não morriam da doença, mas evidentemente eram levadom a passar umas semanas aterrorizados pela ideia de que a covid em idades elevadas é quase uma sentença de morte. Ora a informação sobre este assunto, que é fulcral para definir o grau de ameaça que a doença representa para a sociedade, não existe e, estranhamente nunca é exigida pelo jornalismo.

Eu não entendo, mas não entendo mesmo, o que nos conduziu a este jornalismo de derrotados, a esta demissão do jornalismo informativo em benefício do jornalismo de emoções, mas talvez seja apenas mais um sintoma de sociedades de abundância, em que há muito conforto a perder se quisermos arrsicar qulquer coisa na vida.

A diferença essencial

por henrique pereira dos santos, em 17.11.21

Um dia destes vi uma pessoa explicar que estava com uma grande gripe ou constipação, com os sintomas clássicos. Se fosse no ano passado, acrescentava, estaria muito preocupada, como é este ano, estando vacinada, estava perfeitamente tranquila e não ia fazer nada a não ser baixar a febre com paracetamol e pôr gengibre ralado no  chá.

A vacina é de facto a diferença essencial da última época gripal para esta (parece que agora já toda a gente, com excepção dos matemáticos que voltaram a aparecer, aceita o papel das condições ambientais para explicar variações na incidência de doenças respiratórias).

É essencial porque reduz o risco de desenvolvimentos graves da doença, reduzindo a probabilidade de morte, mas é igualmente essencial por devolver tranquilidade às pessoas.

Houve quem tivesse defendido as máscaras por desempenharem esse papel (semelhante ao papel dos aviões num grande incêndio, não alteram grande coisa o desenvolvimento do incêndio, mas dão tranquilidade às pessoas), mas o que se verifica é que as máscaras funcionam essencialmente como um sinalizador de risco, e não como um tranquilizante.

A vacina não, a vacina é um verdadeiro tranquilizante.

A hipótese das vacinas terem um papel determinante na redução da incidência ou no bloqueio de surtos é hoje tão evidentemente falsa - vejam-se a Bélgica e os Países Baixos com mais de setenta por cento da população vacinada, que inclui a quase totalidade da população de risco, o que não as defende de aumentos brutais de incidência nas últimas semanas, embora com pouca tradução, pelo menos para já, no crescimento de mortos - que apenas uma minoria completamente alienada a defende seriamente.

Mas actua sobre o risco e, muito mais importante, actua sobre a percepção do risco.

Isto é, a pessoa que citei no início tinha, no ano passado, um baixíssimo risco de desenvolvimento de complicações de saúde decorrentes da covid, e este ano tem um risco ainda mais baixo.

A somar a esse benefício há outro bem mais difícil de medir, mas com consequências na forma como a sociedade gere a resposta à pandemia: no ano passado a pessoa em causa pensava que tinha um risco relevante e este ano acha que tem um risco irrelevante.

E isso é razoavelmente independente do risco real, sendo um benefício marginal bem grande que as vacinas vieram trazer.

Há espaço social para mais bom senso este ano que no ano passado.

O Inferno são os outros

por henrique pereira dos santos, em 15.11.21

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Estes são os gráficos de incidência covid de hoje, na Alemanha e Áustria, vindos do OurWorldinData. Estão aqui apenas para enquadrar o que se segue.

Em rigor bastaria o gráfico da Alemanha, mas o da Áustria está aqui para ilustrar a enésima coincidência entre uma subida brusca da incidência da doença e a tomada de decisões políticas maximalistas - na Áustria, contra os não vacinados - cuja ligação real com a subida dessa incidência é mais que discutível. É a defesa política padrão dos governos que têm medo das suas opiniões públicas.

Helena Ferro de Gouveia, que não é propriamente uma cidadã média porque é jornalista com uma carreira cosmopolita, desempenha cargos de topo em sítios vários (incluindo a Lusa) e é, de acordo com o seu perfil no Linkedin, especialista em comunicação de crise.

No entanto, sendo tudo isto e com toda a informação e capacidade de análise que daí decorre, terá escrito o seguinte:

"Leio os especialistas alemães e fico gelada. ... Os alemães são pouco dados à histeria logo a situação é muito, muito séria (um bocadinho de história sobre histerias alemãs talvez fizesse aqui falta, diria eu, mas deixemos isso de lado). E isto porquê? Porque um bando egoístas decidiram não se vacinar. ... Espero que a política encontre agora a coragem de austriacos e holandeses: "não se querem vacinar? Muito bem. Não entram em lado nenhum e ficam em lockdown".

É aqui que entram os gráficos que ali estão em cima.

As incidências, quer da Alemanha, quer da Áustria, são hoje bastante superiores aos picos anteriores, portanto, a julgar pela raciocínio brilhante de Helena Ferro de Gouveia, a responsabilidade é da minoria (à volta de 35% da população total do país, que inclui as faixas etárias em que a vacinação não é recomendada) que não está totalmente vacinada e provoca picos maiores que os que existiram quando 100% da população não estava vacinada. Já se fossem como Portugal, que só tem cerca de 13% da população total não totalmente vacinada, teriam, provavelmente, incidências como as de Portugal.

Aliás o corolário lógico deste raciocínio, aplicado a Portugal, é a de que a subida da incidência da doença que se espera para os próximos tempos, resultará, evidentemente, da descida correspondente da percentagem de população totalmente vacinada, como é bom de ver.

É extraordinário como ao fim de quase dois anos disto a conversa continua igual: o que é preciso é culpar os malandros que provocam subidas, sejam os ajuntamentos de jovens nas bombas de gasolina, sejam as festas privadas dos meios universitários, sejam os casamentos e outros convívios familiares, seja o Natal, seja o que seja, a conclusão é sempre a mesma: são vocês e só vocês que matam pessoas e sobrecarregam os serviços de saúde, se todos fizessem como eu, nada disto acontecia.

Mas como não fazem o que eu acho que deviam fazer, só há uma solução: pôr o Estado a impor o que tem de ser feito, com mão de Ferro.

Até porque onde isso tem sido feito tem corrido muito bem, e onde isso não tem sido feito os governos vão ter de ser responsabilizados por dizimarem os seus próprios povos.

Cara Helena Ferro de Gouveia, não acha que prestaria melhor serviço ao país se, como administradora da Global Média, explicasse como se aguenta um grupo de comunicação com perdas anuais de vários milhões de euros (quase oito milhões em 2019, quase 18 milhões em 2020), em vez de andar a promover a ruptura social de onde nascem os populismos e as ditaduras?

Veja aqui o vídeo integral da cerimónia de lançamento do livro "Memórias de um Roialista" da autoria de Tomás Moreira, testemunho reflexivo tendo como base cerca de 40 anos dedicados ao serviço da Causa Real. A apresentação teve lugar no dia 11 de Novembro na Sala do Arquivo dos Paços do Concelho da Câmara Municipal de Lisboa, sob a égide da Real Associação de Lisboa. Com a presença de SAR o Senhor Dom Duarte de Bragança a sessão foi presidida por mim e a obra foi apresentada pelo Presidente da Câmara Municipal do Porto, Rui Moreira.

O livro encontra-se disponível para venda postal aqui

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Nós?

por henrique pereira dos santos, em 14.11.21

Já usei este título (penso que a recorrência com que me lembro dele vem de Cesário Verde), e é provável que volte a usar como forma simples de perguntar: quem define o que quer dizer este "nós" (no caso de Cesário Verde é fácil, é da sua família, dos dele que fala, sensatamente não pretende falar pela humanidade).

Lembrei-me disto quando li as peças do Público (algumas, confesso que cada vez ligo menos a este tipo de circos) de balanço da COP26 sobre o clima.

Uma das peças consistia em comparar as expectativas com o que realmente se conseguiu.

Patrícia Carvalho (tenho boa impressão do seu trabalho e inclusivamente apresentei no Porto o livro que escreveu para a Fundação Francisco Manuel dos Santos) fala das expectativas, da vontade pré-existente, do que se pretendia, sem em nenhum momento se perguntar, de quem são essas expectativas, quem tem essa vontade, quem pretende isso.

Note-se que a mais mediática das alterações de última hora foi proposta pela Índia e teve o apoio da China e dos EUA.

Seguramente metade da população dos EUA tem vontades diferentes das grandes ONGs mundiais de ambiente em relação à COP26, duvido que mais de metade da população da Índia tenha grandes vontades sobre o assunto - não conheço nenhuma grande organização de origem indiana, nem um grande movimento político indiano que incorpore a visão, por exemplo, da Comissão Europeia, sobre o assunto - e da China, sendo uma ditadura feroz, é ainda mais difícil saber o que pensa a sua população, mas tenho as maiores dúvidas que entre os principais interesses políticos e sociais do chinês médio esteja a regulamentação do artigo 6º da convenção sobre o clima.

O que estamos a assumir como a vontade da sociedade sobre a COP (e não falo da pequena minoria que faz muito barulho atrás de Greta, porque esses são muito claros sobre o que pretendem para o futuro: "no more blah, blah, blah", como não se cansaram de repetir) é na verdade a vontade dos investigadores que trabalham no assunto, das grandes ONGs mundiais (que são todas baseadas em sociedades ocidentais), dos funcionários diplomáticos de alguns governos, e mais umas quanta pessoas mas, muito provavelmente, não chegam para garantir, nem de perto, nem de longe, a representação da vontade da maioria da população mundial.

Estes grandes processos negociais internacionais são o que são e têm importância, são um exemplo típíco em que a mediação é fundamental para se chegar a uma espécie de vontade colectiva para fazer isto ou aquilo.

O que convém é não confundir a vontade dos que pensam como eu com a vontade do mundo.


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