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Será que chegou a nossa vez?

por João Távora, em 31.10.21
Tenho uma perspectiva conservadora, democrata-cristã (temperada de liberalismo é certo) como solução para o progresso da minha Pátria, e desde cedo tentei afirmá-la no partido de Amaro da Costa e Freitas do Amaral a que me associei em 76 quando o PDC foi irradiado do jogo democrático. Nessa coerência, nos últimos 15 anos juntei-me com alguns amigos a um dos melhores nortenhos que conheço, o Filipe Anacoreta Correia, para me bater pelos valores católicos que defendo e que tanto gostaria de ver reflectidos na governança do País, em sentido contrário à tese de Paulo Portas que quis um partido "abrangente" a concorrer no eleitorado do PSD. O resultado é o que se vê: temos 5 deputados no parlamento e o pior resultado de sempre em europeias obtido pelo Nuno Melo. (O problema daqueles que agora abandonam o CDS é que no fundo sempre se acharam superiores ao partido e às suas bases que aturaram com relutância para não dizer nojo. Serviram-se e agora vão-se embora - estão quase todos bem lançados, benza-os Deus. E não se esqueçam que ainda está por provar a genealidade do político Paulo Portas.)

Aqui chegados, anos e anos depois, a minha rapaziada (toda ela independente da política para viver - alguns deles bons monárquicos), tem hoje os dois pés no partido apoiada em Francisco Rodrigues dos Santos que sem dúvida é um guerreiro. E estamos decididos a fazer tudo para corresponder às expectativas daqueles que se identificam com a nossa mundividência. Apesar do condicionamento do Chega e dos Liberais estou em crer que pior do que conseguiram os nossos antecessores é difícil. O anúncio da morte do CDS foi um manifesto exagero, daqueles que receiam uma direita civilizada e afirmativa na corrida ao poder. Prefeririam sempre concorrer com palhaços inconsequentes. Será que chegou a nossa vez?

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Domingo

por João Távora, em 31.10.21

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo S. Marcos

Naquele tempo, aproximou-se de Jesus um escriba e perguntou-Lhe: «Qual é o primeiro de todos os mandamentos?». Jesus respondeu: «O primeiro é este: ‘Escuta, Israel: O Senhor nosso Deus é o único Senhor. Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento e com todas as tuas forças’. O segundo é este: ‘Amarás o teu próximo como a ti mesmo’. Não há nenhum mandamento maior que estes». Disse-Lhe o escriba: «Muito bem, Mestre! Tens razão quando dizes: Deus é único e não há outro além d’Ele. Amá-l’O com todo o coração, com toda a inteligência e com todas as forças, e amar o próximo como a si mesmo, vale mais do que todos os holocaustos e sacrifícios». Ao ver que o escriba dera uma res¬posta inteligente, Jesus disse-lhe: «Não estás longe do reino de Deus». E ninguém mais se atrevia a interrogá-l’O.

Palavra da salvação.

Comentário: Na Nova Aliança, Jesus, o Filho de Deus, leva à perfeição o primeiro mandamento da Lei, o amor de Deus, e declara o amor para com o próximo, o segundo mandamento, semelhante ao primeiro. Reconhecê-lo e aceitá-lo é já um grande dom e o ponto de partida para o pôr em prática. Foi assim a primeira atitude do escriba; e Jesus louvou-o por isso. Ele estava já no bom caminho.

De como vai o CDS

por João-Afonso Machado, em 31.10.21

O meu caríssimo Amigo João Távora interroga-se, e protesta, sobre o presente e o futuro da sua fidelidade partidária longínqua, o CDS. Sei-o bem capaz de jamais abandonar as suas convicções. Somente, creio ele (não) ser um exemplar caso de crença.

O João Távora, aqui no CF, critica os «portistas» seus correligionários. Preambularmente - não sou do CDS, nem sou contra portuenses ou lisboetas. A questão parece-me totalmente longe da geografia, antes entrosando nas ideologias. Vamos a uma tentativa de explicação:

Algo existe e subsistirá, economico-socialmente, neste infeliz e desinformado País: a divisão entre a Esquerda e a Direita.

Durante anos e anos, o eleitorado votou, como se diz, «ao centro»: ora no PSD, ora no PS, maioritariamente, conforme as benesses atribuídas à Função Pública a faziam sentir mais confortável. O CDS serviu uma escolha e outra - ambas - no rescaldo do supremo escrutínio popular.

Se havia fé democrata-cristã ou social-democrata? Salvo raríssimas excepções - não! Quando muito havia líderes que pela palavra arregimentavam gente ao clube.

Assim, por via da falha de oratória, o CDS foi perdendo espaço entre os votantes. Realidade que saíu reforçada com a golpada de Costa em 2015. E daí às questiunculas internas é que se adivinha.

Ao invés (para exemplificar), a Iniciativa Liberal, de parto recente, apostou nas suas ideias. Na diferença. São poucos, mas a tendência é de serem mais. Assim se mantendo, as guerras intestinas ficam mais além.

Já o CDS - ideologicamente - tentou as boias de salvamento e foi oscilando entre o liberalismo e a democracia-cristã. Nele floresceram correntes antagónicas que nada dizem ao eleitorado. E os resultados, em cada eleição, foram-se vendo.

Chegámos a hoje. «Portistas» e lisboetas não discutem um rumo certo programático para o Partido. Apenas, à tona dos intervenientes, a manutenção de um lugar no mapa partidário. O CDS é uma vítima de si mesmo. Como Portugal também.

É por isso que (no meio desta confusão toda) sou e serei sempre monárquico por opção de regime e social-democrata por aposta ideológica. Mas o que vale isto? - nada!

Daí o meu empenhado afastamento de quaisquer organizações, políticas e partidárias. Independência e liberdade, in casu, confundem-se.

 

 

Coligações

por henrique pereira dos santos, em 31.10.21

Existe a ideia de que nas eleições os partidos "testam a sua força", para usar uma expressão de um dos comentadores do meu post anterior.

Isso é verdade, claro, mas não é para isso que existem eleições e menos ainda é para isso que os partidos concorrem às eleições.

Os partidos existem, e concorrem a eleições, para apresentar o seu programa, mesmo que o seu programa seja apenas eleger um chefe de facção.

Quem acha que tem um programa suficientemente distinto dos que existem, faz um partido, concorre, e depois se vê se os eleitores acham que o programa é suficientemente distinto (por exemplo, o Livre, o Aliança, o Volt, são partidos que, aparentemente, não conseguem explicar muito bem aos eleitores por que razão se deve votar nesses partidos).

Só faz sentido fazer coligações pré-eleitorais quando existe um programa comum que ganha em ser apresentado com uma base de apoio única.

Foi o caso da Aliança Democrática, que tinha um programa - não é o programa que escreveram, é o programa real, tal como percebido pelas pessoas comuns - razoavelmente claro e que justificava uma coligação: liquidar os restos institucionais do 25 de Abril que não correspondiam a opções democráticas, reformar economicamente o país e, já agora, trazer para o centro da política a agenda ambiental e de gestão do território que o PPM trazia consigo (a ideia de que a política ambiental é uma bandeira da esquerda não tem qualquer, mas qualquer, base factual na história do ambientalismo em Portugal).

Admito que poderia haver razões para fazer hoje uma coligação liberalizante que libertasse o país dos pesos que lhe têm imposto a estagnação dos últimos vinte anos, a começar pelo enorme peso da dívida.

Reconheço, no entanto, que dificilmente seria possível fazer uma coligação que seria sempre catalogada como uma espécie de troica sem troica.

Acresce que os partidos que poderiam apoiar um sentido reformista liberalizante, não se entendem sobre o que é necessário fazer para deixarmos de continuar estagnados.

Assim sendo, é de longe preferível que cada um apresente aos eleitores o programa que quiser, e depois das eleições, logo que se vê o que é possível fazer em comum.

Agora fazer coligações apenas porque com os mesmos votos se pode ter mais deputados, é mesmo muito, muito poucochinho, ou ter como programa remover António Costa é, ainda assim, poucochinho, o problema não é António Costa, é tudo aquilo a que António Costa dá representação política. 

Os partidos que estão fartos da estagnação dos últimos vinte anos não podem ter como ambição ter mais deputados com os mesmos votos, têm mesmo de ter como ambição ter de tal forma mais votos que essa matemática do método de Hondt se torne irrelevante.

Se os eleitores não quiserem, paciência, resta-lhes trabalhar para que na eleição seguinte mais eleitores se convençam de que o seu programa vale a pena.

A alternativa é ficarmos nesta mansa resignação em que temos andado, cujos resultados são o que todos sabemos que têm sido.

Do péssimo ao mau.

por Jose Miguel Roque Martins, em 31.10.21

Era uma vez um partido político que nasce no meio de um período revolucionário. Timidamente, assume-se como de centro, que os tempos não permitiam mais. Anunciar que não se era de esquerda, já era de grande risco político, social e um acto até de coragem física. As pessoas esquecem, mas a democracia ainda era muito mais frágil do que nos dias de hoje. A ditadura de esquerda ainda era mais clara.  Sendo o partido dos não socialistas e sociais democratas, abrigou uma pequena falange de grupos diferentes: conservadores, liberais e até reaccionários, que insistiram em não se infiltrar noutros partidos, de poder, como o PS e o PSD.

O discurso sempre foi difícil e nem sempre totalmente coerente. Porque o país não estava preparado ( nem está) para que o socialismo ou social democracia não sejam as únicas e óbvias vias possíveis . Porque o seu eleitorado, apesar da sua forte comunhão antissocialista, tinha ideias diferentes sobre muitos temas. As coisas foram correndo, por um lado porque os seus eleitores não tinham alternativas, por outro porque não ser socialista, nunca permitiu que esse pequeno grupo fosse expressivo em Portugal.

Ao longo da sua História, impressionava a desproporcionada qualidade dos seus quadros em relação a partidos de muito maior dimensão. O que de nada serviu, continuou a ser um partido marginal e pouco influente, mesmo se capaz de quando em vez, proporcionar maiorias parlamentares e, à boleia, chegar, com influencia reduzida,  ao poder.

Os poucos, como eu, que ao longo do tempo, votaram fielmente, ano após ano, década após década, no CDS, resignaram-se a ser uma voz fora do baralho. Na verdade, aceitarem ser uns perdedores crónicos de eleições, em troca de afirmarem a sua distancia ao socialismo. Se não for assim para todos os antigos CDS, é pelo menos assim que me vejo.

Vieram então as eleições de 2015. A esquerda radical que, apesar da sua desproporcionada importância na comunicação social, apesar da sua capacidade de impor o mito de esquerda como o santo graal da democracia, justiça social e decência humana, ultrapassa o cordão sanitário imposto pelo arco do poder. A maioria de esquerda, da pior esquerda, passa a ser uma realidade. O PS, transforma-se num partido capaz do pior: aliar-se a partidos, em tudo menos nos seus estatutos, antidemocráticos, de desígnios e praticas capazes de inviabilizar por mais algumas décadas uma democracia liberal e prospera. Não para receber o seu apoio, mas abraçar as suas políticas que pudessem ser acomodadas sem reparos da Europa.  

Foi a gota de água que inicia uma revolução à direita. Perdidos por um, perdidos por mil. Diminuídas as esperança de influenciarem uma evolução serena e consensual que permitisse a Portugal e aos Portugueses, viverem num país civilizado, aumentou a mobilização da direita. Para além do mais, de novo agredida de forma cada vez mais explicita e brutal, os não socialistas aumentaram o desejo de lutar pelas ideias de cada um, de forma mais clara e sem filtros impostos pelo desejo de uma representatividade superior, cuja importância se esvaiu na cada vez mais nítida improbabilidade de com moderação ( onde anda?) o País evoluir, mesmo que lentamente,  para melhor.

Crispa-se a sociedade, fragmenta-se o espectro partidário, implode o CDS, sobretudo sangrado pelo Chega e pela IL.

Ao contrario de muitos, acho o movimento positivo. Não se verifica apenas uma fragmentação da direita, existe uma clarificação. À IL os liberais, aos zangados e reaccionários o Chega, ao CDS os conservadores e os leais acima de qualquer consideração.  A soma de todas estas tendências, não socialistas,  representará mais do que o CDS, como provavelmente constataremos nas próximas eleições. Sejam a 16 de Janeiro ou em Fevereiro de 2022.

A IL, poderá ir buscar votos ao PSD, ao PS e ao BE. O Chega ( o BE da direita) poderá ir buscar votos ao partido comunista, PS e PSD.

Sou dos que passaram a votar na IL e consideram que o Chega merece o mesmo respeito do que o PCP e o Bloco de Esquerda. Todos partidos que tenho dificuldade em reconhecer um papel verdadeiramente positivo, mas que têm espaço e legitimidade democrática.

As coligações e reaproximações poderão fazer-se depois de um período em que se perceba o quanto vale cada tendência. Para quem espera  há décadas, são as próximas eleições que contam?

Por mais importantes ( e são) estas cisões para os interessados ( como eu) , no grande quadro das coisas, são relativamente inócuas. Importa não esquecer que a direita continua a ter uma expressão reduzida, quase insignificante, em Portugal. Com três partidos ou só um. Mesmo somando o PSD, a maioria de esquerda, é uma realidade quase constante. O que realmente vai permitir, ou não, bascular a política Portuguesa, será o que se possa passar no PS. É aqui que se joga o futuro de Portugal e que a revolução à direita poderá ter um impacto inspirador, transformador, da nossa sociedade.

Assim como os Portugueses não querem a direita, em nenhuma das suas declinações, também não querem o socialismo revolucionário que o PS abraçou nos últimos anos.

O PS é como o tradicional CDS, uma amálgama que vai desde os radicais de esquerda aos sociais democratas. Será que os sociais democratas, no PS, vão continuar a suportar o socialismo radical  protagonizado por António Costa? A emergência de figuras como Pedro Nuno Santos, não irá partir o partido de vez, com socialistas vermelhos de um lado e sociais democratas do outro?  Uma transferência para o PSD ou a cisão do PS serão tão improváveis? O que parece impossível, acontece, como se está a ver no CDS.

É nos apoiantes do PS, não na direita, que se pode desenhar um caminho de esperança para Portugal, o fim da espiral radical de esquerda que faz mergulhar Portugal no abismo. A grande clarificação que falta a Portugal é a do PS: afinal são socialistas revolucionários ou sociais democratas como eram os seus pais fundadores?

Brevemente poderemos perceber se apenas a direita se reorganiza, ou se também há esperança de contarmos com uma ( nova) revolução no PS. Que é crucial e determinante, para podermos contar com um pais minimamente viável.  

Liberalismo, direita, não vamos ter em Portugal tão cedo. Espero, também, que socialismo radical, seja rejeitado e que a horrível experiencia de António Costa  tenha os dias contados.

O que nos resta é o centro. Mais ou menos ineficiente, nunca magnifico, ocasionalmente péssimo, mas que se manterá afastado da vertigem da esquerda revolucionaria e de todas as correntes de direita. Regressamos ao mau, não ao péssimo.

 

 

Crise, qual crise?

por João Távora, em 30.10.21

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Não gosto de trazer a política partidária para este blog, e esta será uma excepção. Mas ao ouvir o Nuno Melo a perorar contra  a realidade na televisão não prescindo das minhas armas: este último capítulo triste da vida do CDS está fechado - não o desejei, mas compreendo - as facções eram irreconciliáveis, é da natureza humana.

A boa notícia é que a derrota do "portismo" no meu partido parcece ser irrevogável - ontem Nuno Melo obteve a clara expressão do Conselho Nacional do CDS a esse respeito. Podemos finalmente  experimentar outra via sem o boicote constante dos barões - e daqueles que agora amuam e saem relevando  mau perder?

Temos um mês para criar uma onda positiva para irmos a eleições ajudar a correr com os progressistas. Vai dar trabalho, as circunstâncias não são as melhores, temos má imprensa, mas acredito que seja possível. Porque permanece no CDS gente muito boa, provavelmente os melhores, e há lugar para mais. 

A propósito do mau perder de Adolfo Mesquita Nunes e de outros reputados militantes que agora fogem como ratos: ando há 14 anos minoritário no CDS onde fomos obrigados a engolir os mais vis insultos e truques regimentais da malta do Portas para nos calar. Nunca desistimos de lutar. 

Bora juntar forças para correr com os socialistas do poder? 

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A unica crise, é a de valores.

por Jose Miguel Roque Martins, em 29.10.21

A crise política, nem é uma crise, nem é política. É uma oportunidade e uma luta de interesses próprios

Na pior das hipóteses, fica tudo na mesma. Temos um tempo de férias de disparates, desaparecem os ministros mais rançosos, ficam estabelecidas as linhas vermelhas do PS à sua esquerda. Acresce que terão que aguentar os anos mais difíceis, a partir de 2014, que, com a estapafúrdia governação que temos tido, será uma inevitabilidade indisfarçável mesmo para o Houdini Português.

Na melhor das hipóteses, o País vê-se livre da governação socialista durante uns tempos. E até poderemos ultrapassar os ventos mais difíceis quando o défice estrutural não for amparado pela Bazuca.

Não há pois crise: é uma oportunidade em que o País e os Portugueses têm muito a ganhar. Continuar como estávamos, sem qualquer mudança, é que era uma crise das grandes.

Falar em política, é até engraçado. O que eu mais vejo em confronto, não são seguramente ideologias ou políticas, são interesses e egos.

O Sr. Presidente, está furioso por ter feito pior do que Cavaco Silva. Nada que não se consiga mascarar. Os seus medos de estimação, não ser amado e ser irrelevante, não estão em perigo. Pelo menos no quesito da relevância, só pode estar mesmo feliz: nunca, como hoje, está em plena luz dos holofotes.

O Sr. Costa, está naturalmente triste: o artista do pleno de consensos, morreu. Agora há que ressuscitar aquele que faz das derrotas vitórias. À falta de melhores obras, há que apresentar vitórias políticas.

Os Srs. da Esquerda radical, estão apertados. Não há duvida que as cedências de Costa foram mesmo generosas, criminosamente de esquerda radical. Afinal o titulo de príncipe dos consensos vale muito.

Sem poder explicar que o seu voto contrário tem a ver com a sua sobrevivência política enquanto partidos, há que passar a ideia que o Sr. Costa queria mesmo era provocar eleições para ter maioria e esmagar as verdadeiras forças de protecção dos trabalhadores: eles próprios. De cuja sobrevivência depende, não a sua relevância pessoal, mas a salvação nacional.

No PAN, à falta de capacidade de inovar ou apresentar argumentos ideológicos, que não têm, reinventa-se o Nin. Nem a favor dos malandros do PS, ainda mais contra os que votam contra o PS, com consequências. Afinal são os radicais pouco radicais, a verdadeira alternativa de esquerda ao PS. Que a causa canina ou taurina, obriga ao crescimento do partido e à sobrevivência e crescimento de lugares, para mais animalistas, daqueles que deitam fora a rica vida que têm, entre os cuidados que prestam aos nossos amigos de quatro patas, para ir para o parlamento, abandonando as suas obrigações directas. Tudo pelo bem da causa maior.

No PSD e no CDS, a luta é entre os velhos líderes e os candidatos, ambos esgrimindo o interesse nacional para justificarem o mesmo objectivo de poder dentro do partido. Os instalados acoitados em discursos que já deixaram o “agora é que ia ser”, para, democraticamente, cada vez mais se refugiarem em regulamentos que os impeçam de ir a votos.

A verdadeira crise, é a de valores.

A votos, sozinhos, depois, como o eleitorado quiser

por henrique pereira dos santos, em 29.10.21

Não faço segredo da minha proximidade à Iniciativa Liberal, de que não sou militante, "somos só bons amigos".

Também não fiz segredo da minha perplexidade, e discordância, em ir a votos sozinha, e não com Carlos Moedas, nem das minhas dúvidas em quem votar, tendo decidido votar na Iniciativa Liberal já na assembleia de voto, quer por achar que Moedas ia perder (por aqui se vê a lucidez das minhas análises políticas, também não votei em Passos Coelho em 2011, apesar da minha feroz e antiga oposição a José Sócrates), quer por ter ficado convencido de que havia virtude em ser mais claro no que pretendia dizer com o meu voto.

Todos os que discordam de António Costa - parece-me mais que evidente que a hipótese de uma maioria absoluta do PS só é considerada positivamente pelos que agora se entretêm a fazer paralelismos entre o actual chumbo do orçamento e o chumbo do PEC4 para concluir que esta extrema esquerda é a idiota útil da direita - não podem ter como programa político removê-lo do poder, por mais que a remoção do poder de António Costa seja um grande benefício do país, como é.

Tenho muita esperança de que o PSD resolva as suas questões internas de modo a que haja uma oposição com verdadeira capacidade de ganhar as eleições - o que, como se viu em 2015, evidentemente não chega para remover António Costa do poder -, fiquei mesmo muito satisfeito com o facto de Rangel ter ido buscar Fernando Alexandre à Universidade para lhe dar apoio no programa que quer apresentar (e espero que isso não signifique a menorização de Joaquim Sarmento, tanto mais que um se move mais na área da economia e outro na das finanças) mas, tudo isso, não me faz querer que todos os que querem ver António Costa arredado apareçam numa amálgama programática que disfarce o que querem os votos verdadeiramente dizer.

Resumindo, espero que a Iniciativa Liberal concorra sozinha.

É evidentemente contra os interesses da Iniciativa Liberal ter Rangel e não Rio à frente do PSD, é bem possível que o voto útil - útil para quem o recebe, como se sabe, para quem o usa o voto só é útil se for claro - limite substancialmente as possibilidades da Iniciativa Liberal ter um grupo parlamentar, em vez de um único deputado, mas os riscos são compensados pela clareza que resulta do processo: é bom que as políticas liberais se apresentem a votos e tenham a representação parlamentar que resulte da vontade dos eleitores.

Depois das eleições, então sim, se os votos dessa representação parlamentar servirem para afastar António Costa do poder, é natural que se negoceiem programas apoiáveis, a partir da diversidade de pontos de vista com representação parlamentar.

Isso diminui a probabilidade de eleger os deputados necessários para remover António Costa?

Sim, diminui, mas se os adversários de Costa tiverem medo de correr esse risco, o melhor é nem irem a eleições, seguindo o exemplo de Luís Patrão, um dirigente do PS que fez toda a sua carreira política (na verdade, nunca teve outra) respeitando a decisão de nunca mais se candidatar a nenhuma eleição que pudesse perder, depois de ter sido surpreendentemente derrotado na eleição para a presidência da Juventude Socialista (história que me foi contada há anos, que não tenho qualquer hipótese de confirmar, mas que se não é verdade é bem achada).

O "ter de ser" tem muita força

por João Távora, em 28.10.21

istockphoto-647252186-170667a.jpgA razão de ser do sucesso do contra-almirante na campanha da vacinação Covid19 foi o método da "task force". Qual é o truque? Fiz parte de algumas nos anos 90 criadas no MNE, a mais ambiciosa das quais aquela que operacionalizou a Cimeira da OSCE '98 que reuniu em Lisboa durante 3 dias 52 Chefes de Estado e de Governo - além dos ministros, Sec. de Estado, comitivas diplomáticas, esposas e esposos - uma logística incomensurável impregnada de gente importante, sensibilidades e armadilhas político-burocráticas. Como se faz o milagre? Com uma "task-force". Trata-se de uma equipa relativamente pequena de contratados, no caso quase todos civis, mas armados até aos dentes para o efeito pretendido, cujos responsáveis de cada área (política, transportes, segurança, hotelaria, protocolo, etc.) têm ligação directa ao topo da hierarquia (Ministro, EMFA ou 1°, Ministro). Como uma bolha de eficácia dentro dum microcosmos disfuncional (ministério) que está montado em função da sua orgânica para complicar ao invés de agir.

Dito isto, eu acho que o nosso país deveria ser governado por uma "task force" pelo menos por dois anos para por isto tudo a funcionar outra vez, que o "ter de ser" tem muita força. Sempre com o suporte da ciência. Depois logo se via.

Depois de ontem, hoje já

por João-Afonso Machado, em 28.10.21

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Março de 2011, todos se lembram? Vão lá onze anos. E se destes não houver memória, nunca mais haverá Portugal. Indo ao Presente, sem esquecer o Passado:

Ontem foi o dia das "lágrimas de crocodilo". Costa chorou um esquema falhado. Terá Costa sonhado a união das "Esquerdas", idealisticamente, assistindo então ao desmoronar desse propósito?

Evidentemente, não!!! Costa sonhou, sonha e sonhará com o poder. Um PS que meteu o "socialismo na gaveta" há décadas, e constantemente se diz social-democrata, nunca seria viável aliado com partidos marxistas-leninistas-estalinistas-trotskistas. Sucedeu, apenas, Costa foi vexado pelos portugueses. Como? - Depois de rasteirar Seguro sob o pretexto de uma vitória «poucochinha», submeteu-se à humilhação de perder, em 2015, para uma coligação de Direita que tinha suportado - e vencido - todo o desgaste resultante da intervenção da Troika.

Escondia já a cartada na manga, usou-a, criou a situação inédita de um partido perdedor formar governo. (Ah! que alívio, Ferro Rodrigues dali para longe!) Seis anos volvidos, sente agora outro momento único - o do único orçamento chumbado em quase meio século de III República. Desta vez, não houve "queijo liminiano" que lhe valesse.

Última nota: o PS (lamentavelmente, os portugueses, em grande parte não têm essa percepção) não é um partido, não tem uma ideologia, não tem um programa. É apenas - e isso os tribunais vão demonstrando - uma central de interesses económicos. É o rosto visivel na política da Maçonaria.

O aspecto positivo deste imbróglio - espero - consiste em ideias espúreas, as de ir buscar a Esquerda clássica para apoiar a governação, que tão depressa não voltarão. E com o PS, haja um mínimo de dignidade, nem PSD nem CDS quererão, dia algum, qualquer acordo sob qualquer forma.

Um outro aspecto, interrogativo, é se a Direita será capaz de "produzir" gente com sentido de estado e capacidade de cativar o eleitorado. Alcançaremos uma social-democracia, uma democracia-cristã (esta terminologia rejeito-a), um liberalismo politico-económico (outro caminho não meu) como se deseja?

Finalmente, o aspecto negativo, aliás, aterrorizante: Costa (depois da pandemia, depois do impasse da nossa economia) deixa-nos Portugal tal qual o deixou o seu "Don", o padrinho Sócrates.

 

Vinculativo

por henrique pereira dos santos, em 28.10.21

À medida que se aproxima a 26ª Conferência das Partes da Convenção sobre Alterações Climáticas, vou lendo mais gente a defender o estabelecimento de metas vinculativas para os acordos relacionados com a alteração climática.

Qual é o problema deste tipo de propostas?

É que para uma coisa ser vinculativa é preciso que tenha uma base legal que vincule os potenciais participantes no acordo social que define esse carácter vinculativo.

E depois é preciso que haja um sistema de fiscalização que permita detectar desvios ao que está definido.

E depois é ainda preciso que haja um sistema de aplicação de sanções a quem não cumpre o que está estabelecido.

No contexto de um Estado, isso é relativamente simples: as pessoas que são cidadãs desse Estado reconhecem a lei (ou não, e nesse caso colocam-se fora da lei), são legalmente perseguidas pelo sistema de repressão desse Estado quando infringem a lei (o Estado, em princípio, tem o monopólio da violência legal) e sujeitam-se ao sistema judicial responsável por sancionar o incumprimento da lei.

Há instâncias acima dos Estados em quem os Estados delegam parte destas responsabilidades, é o caso, por exemplo, da União Europeia, que tem um sistema de regras aprovadas pelos Estados, tem mecanismos de fiscalização, tem um sistema judicial e tem mecanismos sancionatórios sobre os Estados (mecanismos esses que acabam sempre em multas, teoricamente podem acabar na expulsão da União de um Estado, mas não incluem medidas punitivas como a destituição de governos ou a invasão militar de territórios, por exemplo).

Na União Europeia estas possibilidades estão bastante limitadas pelas regras dos tratados em que se baseia a União Europeia, e não podem ser usadas para lá desses limites.

Por exemplo, a União Europeia tem uma política agrícola comum, mas não tem uma política florestal comum, o que faz com que os instrumentos de controlo da agricultura, essencialmente económicos, não estejam disponíveis para a gestão das terras não agrícolas, definição que está perfeitamente tipificada nos tratados.

Acho, é apenas a minha percepção, que é também por isso que uma série de patetices que estão no Pacto Ecológico Europeu tem vindo a ser aceites pelos Estados, sem grandes complicações: o Pacto Ecológico Europeu não tem nenhuma base legal, é um documento da Comissão Europeia, aceite pelos Estados, mas sem qualquer intrumento legal que obrigue os Estados a aplicá-lo (ao contrário do que acontece com Directivas e Regulamentos que, esses sim, têm força legal).

O que me impressiona na defesa de acordos vinculativos na COP26 da Convenção sobre Alterações Climáticas que vai começar brevemente em Glasgow, é que, pelo menos que eu veja, a maior parte dos defensores dessas metas vinculativas não percam um minuto a fazer a pergunta base num Estado de direito: "quem guarda os guardas?".

Ou, dito de outro modo, de que forma, com que regras, e quem é que verifica os incumprimentos e os sanciona, na ausência de um governo mundial?

Que isso não pareça ser uma preocupação base e essencial para tanta gente informada, razoável, experiente, séria e etc., não deixa de ser assustador.

PAN, o PEV do PS

por Jose Miguel Roque Martins, em 28.10.21

O tremendo descrédito na Europa da esquerda dura e radical, explodiu partidos comunistas por essa Europa fora. Só em Portugal, ainda temos um  PCP com expressão mas que, pelo sim pelo não, lançou uma segunda marca, o PEV, o esquerdismo revolucionário mascarado de causa ambiental. 

Depois de ontem, só eu fiquei com a impressão que o PAN, vai ser uma marca satélite do PS? 

No que verdadeiramente lhes importa, a esquerda usa técnicas de mercado! 

 

 

Umas eleições importantes.

por Jose Miguel Roque Martins, em 28.10.21

Todas as eleições são importantes mas algumas são mais importantes que outras. É o caso das próximas eleições legislativas. Em plebiscito vai estar a continuação, ou não, do espírito revolucionário de esquerda, que não nos abandonou depois do 25 de Abril.

O importante é como o eleitorado tradicional do PS vai reagir. Ou punindo António Costa pela sua deriva de esquerda quase revolucionaria. Ou reafirmando que menos e pior  mercado, que resultados económicos pífios persistentes,  que a incapacidade, mesmo com mais dinheiro, de termos mais saúde e educação, são aspectos sem importância.

Muito gostaria de assistir à derrota da esquerda revolucionaria e que a economia de mercado não fosse letra morta.

Não estou optimista.

 

 

O desafio é ganharmos o país

por João Távora, em 27.10.21

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Nestes momentos de incerteza e apreensão, na perspectiva dumas eleições antecipadas caídas do céu poderem constituir o resgate do país ou o seu afundamento numa crise de ingovernabilidade, seria da maior conveniência que os actores se comportassem com a serenidade e inteligência que a situação delicada exige. Não digo isto só a propósito da desgarrada verborreia e hiperactividade de Marcelo Rebelo de Sousa quando precisávamos de um Chefe de Estado com os mínimos institucionais (o mal que nos faz a república), mas também a propósito da prestação expectável por parte protagonistas que disputam as lideranças dos dois (ainda) principais partidos da direita portuguesa. Não se esqueçam eles, que dada a insólita coincidência das suas disputas internas com um calendário eleitoral, estarão o tempo todo sob as luzes da ribalta e sob o julgamento dos eleitores, que na maioria não é sectário e não vislumbra grande virtuosismo nas lutas internas, antes pelo contrário. Se se confirmar a dissolução do parlamento e o fim da fraude da geringonça, o caminho da direita para o poder será estreito e sob gelo fino. Uma alternativa ao socialismo só sairá vitoriosa se as suas lideranças souberem transmitir para o povo muito sentido de responsabilidade e serviço que verdadeiramente contraste com a actual situação - foram esses os melhores argumentos para a vitória de Carlos Moedas num território hostil à direita como o de Lisboa. De que valerá a Rio, Rangel, Chicão ou Melo ganharem os partidos e perderem a oportunidade de resgatarmos o país?

Não temos requiem, temos hosana

por Jose Miguel Roque Martins, em 26.10.21

António Costa, apesar de 6 anos de governação,  não será mais do que uma nota pálida de rodapé da história. Habilidoso como poucos, politicamente criativo, inventou a geringonça, não se lhe conhecendo mais nenhuma ideia. Para Portugal, nada se lhe pode apontar de significativo, de positivo, de relevante, durante seis longos anos de mandato. Apenas perdeu tempo, oportunidades, crescimento e progresso. O único mérito que se lhe pode creditar ( pelo menos hoje) é não ter cedido completamente à esquerda radical. Penso que por imposições de sobrevivência do próprio PS.

É verdade que ainda não morreu, que poderá ser Presidente da República, ser um alto funcionário Europeu. É verdade que ainda pode ser Primeiro ministro. Já todos sabemos que com ele, será sempre habilmente poucochinho, sem menção digna de registo. 

Nem ele, nem a geringonça, deixam saudades. Não temos requiem, temos hosana.

Uma metáfora que nos entra pelos olhos adentro

por João Távora, em 26.10.21

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Há uns dias, num inadvertido zapping nos noticiários, calhou-me confrontar-me com a notícia de uma multidão de migrantes da américa central em marcha pelo México a caminho dos Estados Unidos da América, gritando com todos os pulmões “Libertad! Libertad!”.  

Qual é a surpresa?

por henrique pereira dos santos, em 26.10.21

Lembram-se da forma como António Costa fingia negociar com Passos Coelho ao mesmo tempo que consolidava a geringonça, porque o PSD era absolutamente intransigente?

É a mesma pessoa, é a mesma técnica, portanto, qual é a surpresa sobre o resultado das negociações sobre este OE?

Resultado esse que, até ao momento, consiste em haver eleições antecipadas porque o BE e o PC são intransigentes, ao contrário do PS que negociou até ao limite, de boa fé.

Como, é bom lembrar, já tinha acontecido em 2015, em que também foi Passos Coelho que empurrou o PS para os braços do PC e do BE, apesar de toda a boa vontade do PS em negociar seriamente as condições em que poderia viabilizar um governo de quem tinha ganho as eleições.

A escola alemã de Caldeira Cabral

por henrique pereira dos santos, em 25.10.21

Este é o terceiro texto que escrevi nas condições que descrevo no fim do post.

Os outros dois foram publicados um pelo DN (acompanhado por uma fotografia que contém a cabeça da fotografia que mandei em cima de um fato, camisa e gravata que nunca vi na vida) e outro pelo Público e, segundo sei (não fui eu que tratei do assunto, eu limitei-me a escrever os textos e cedê-los para que a organização da conferência a que dizem respeito fizesse o que entendesse), este seria para ser publicado pelo Observador, o que acho que não aconteceu, pelo que resolvi usá-lo aqui.

Dos três textos este é o que mais directamente é tributário de uma apresentação, muitíssimo boa, de Teresa Andresen, embora o que esteja escrito seja inteiramente da minha responsabilidade e esteja longe de seguir a apresentação feita.

Nunca teria escrito o que escrevi sem a quantidade de informação sobre as raízes alemãs da escola de arquitectura paisagista portuguesa, uma realidade conhecida há muito, mas de maneira nenhuma com a profundidade e extensão que resulta das investigações citadas no texto. 

"Francisco Caldeira Cabral (há pelos menos três arquitectos paisagistas com este nome, mas falo do primeiro, o que do nada criou a profissão de arquitecto paisagista em Portugal), foi um homem excepcional, a quem Portugal deve grande parte de uma certa originalidade na abordagem da gestão da paisagem em relação aos outros países mediterrânicos (nem Espanha, nem França, nem Itália, apenas para citar os mais evidentes, têm uma abordagem da gestão da paisagem semelhante à portuguesa, que deu origem a originalidades como a Reserva Ecológica Nacional, entre outras).

E quando escrevo “certa originalidade” é sobretudo porque é original no nosso contexto, mas é essencialmente uma adaptação da poderosíssima escola alemã de arquitectura paisagista que está na origem de quase tudo o que fez, ensinou e escreveu Caldeira Cabral.

Quem se quiser documentar mais solidamente sobre o assunto tem a tese de mestrado de Mariana Abranches Pinto “O legado escrito de Francisco Caldeira Cabral” e as teses de doutoramento de Teresa Camara e Ana Catarina Antunes, respectivamente “Contributos da arquitectura paisagista para o espaço público de Lisboa (1940-1970” e “A influência alemã na génese da arquitectura paisagista em Portugal”.

Todas estas teses partem de uma investigação anterior de Teresa Andresen de que resultaram uma monografia sobre Francisco Caldeira Cabral e uma exposição, com o respectivo catálogo, sobre a primeira geração de arquitectos paisagistas portugueses.

O facto de Caldeira Cabral ter estudado na Alemanha da ascenção do nazismo (1936/ 1939) e ser um conservador profundamente católico, sem qualquer ligação aos movimentos oposicionistas do Estado Novo, talvez contribua para uma injusta menorização do caracter inovador e precursor das ideias que semeou, regou, cuidou, até que ganhassem vida própria fora da sua influência directa.

Talvez haja pouco investigadores disponíveis para escrever, preto no branco, que grande parte das ideias de ordenamento do território dominantes em Portugal têm raízes na Prússia, continuidade na república de Weimar e, depois de modernizadas pelas políticas nazis de gestão do território e do património natural, tenham sido trazidas para Portugal pela mão de Caldeira Cabral.

Quando, em 1961, realço a data, Caldeira Cabral defende que os arquitectos paisagistas “descendem” dos jardineiros e que “devemos ser os jardineiros do jardim mundial, o jardineiro que supervisiona tudo, mas é ainda um jardineiro … devemos ser mais que jardineiros em conhecimento técnico e dar toda a atenção possível à ecologia”, está a sintetizar a sua ideia base da profissão, muito antes destes assuntos serem banais.

Mas está a fazê-lo no seguimento de uma linha de pensamento que se consegue traçar até ao século XVIII nas regiões que hoje são a Alemanha, e de uma prática de gestão de parques, jardins e paisagens, que desenvolve conscientemente esse princípios há dezenas de anos: desde 1823 que a escola real de horticultura, dirigida desde a sua fundação até 1866 por Lenné, segue uma prática, uma investigação e um ensino que culmina nas actuais ideias de respeito pela natureza e valorização das aptidões do território.

Caldeira Cabral não é, evidentemente, um mero produto de uma escola, é um homem profundamente culto, com uma sólida formação em ciências e artes, que descobre, na Alemanha, uma ideia de gestão do território que casa bem com as suas ideias de família, pátria, ordem e beleza.

Frequentemente, e esquecemos isto com demasiada frequência, ideias prudentes de gestão da terra e valorização do território, crescem mais facilmente em ambientes nacionalistas e reaccionários, porque são estes que tendem a dar mais atenção ao chão que também os define.

Mesmo o mais conhecido discípulo de Caldeira Cabral, Ribeiro Telles, embora igualmente conservador e católico, mas com um apreço maior pela ideia de liberdade e, por isso, mais inconformado com a situação política anterior a 1974, não deixa de assentar a sua actuação política em ideias próximas do comunalismo, tendo a terra como valor colectivo central.

Nunca, quer em Caldeira Cabral, quer em Ribeiro Telles, quer em qualquer dos outros discípulos de Caldeira Cabral com forte influência nas ideias base do edifício jurídico de ordenamento do território que temos – como Viana Barreto, Álvaro Dentinho ou Ilídio de Araújo –, essa ideia de respeito pelos ciclos naturais e de uma gestão conservacionista da terra e dos valores naturais é equivalente às modernas ideias de wilderness, ou às ideias mais velhas de protecção integral e de ausência de uso pelo homem.

Há uma continuidade clara entre as preocupações de boa gestão, ordenamento e uso sensato dos recursos naturais bem presentes na escola alemã e os fundamentos das primeiras versões da Reserva Ecológica Nacional e outros instrumentos de ordenamento do território.

Infelizmente, talvez por falta de estudo das fontes dessas ideias, os instrumentos de ordenamento que hoje carregam os mesmos nomes, assentam em ideias antagónicas das originais.

As versões modernas dos diplomas que formatam o edifício jurídico do actual ordenamento do território, em Portugal, não traduzem a ideia de valorização e uso sensato do território.

Talvez fosse tempo de voltar às origens.

Este texto é parte de um conjunto de textos que respondem a um pedido de Cristina Castel-Branco: assistir a uma conferência sobre uma matéria que não corresponde ao que é o núcleo central da minha actividade de aquitecto paisagista e, sobre o que visse e ouvisse, escrever notas que não reflectem o conteúdo da conferência, mas sim o que me chamou a atenção de não especialista em história de arte dos jardins"

Novidades

por henrique pereira dos santos, em 25.10.21

“O que sei é que as pandemias têm características próprias. Atingem todo o mundo, por isso se chamam pandemias, mas não da mesma forma e ao mesmo tempo. Têm diferenças geográficas, de intensidade, na forma como se manifestam, e depois as diferenças que surgem pelas medidas que cada país toma por achar que são as mais adequadas à sua população.”

Graça Freitas a aproveitar a acalmia na histeria para reforçar a ideia de que as epidemias evoluem por si, com diferenças geográficas de intensidade e na forma como se manifestam em cada sítio e tempo.

Tenho tão poucas oportunidades para chamar a atenção para declarações de Graça Freitas, por boas razões, que não queria perder esta oportunidade.

"Portugal é um país que em termos gerais vive mal.com um dos salários mínimos mais baixos da Europa [665 euros], um salário médio de mil e tal euros, que em termos líquidos não chegará a mil euros. Mais de 80% da população activa não ganha mais do que 1500 euros por mês. E - apesar dos aspectos positivos, na saúde, na educação - todos falhámos em não ter conseguido que o nível de vida da população portuguesa fosse francamente superior ao que é. A geração a que pertenço não tem muito de que se orgulhar. Portugal tem um dos niveis de produtividade mais baixos da Europa, o que quer dizer que não trabalhamos o suficiente ou que a organização do trabalho não é das melhores, tanto no privado como no público".

José Maria Ricciardi a resumir bem boa parte do país.

Tenho tão poucas oportunidade para chamar a atenção para declarações de membros da família Espírito Santo, por boas razões, que não queria perder esta oportunidade.

A talho de foice (custa-me render à evidência de que a expressão correcta é esta, depois de tantos anos a usar a expressão errada), gostaria ainda de realçar uma pequena nota pessoal.

Tenho uma filha que vive nos EUA e que, como tem cinco filhos até aos cinco anos, é uma cliente relativamente frequente de serviços de saúde. De cada vez que vai a algum lado que tenha alguma relação com serviços de saúde, escreve umas diatribes enormes por causa do que paga (é das maiores forretas que conheço), da forma inacreditável como os preços se regateiam mais que no mercado de Fez se regateiam especiarias, e de como suspira pelo sistema de saúde português.

Nunca faço nenhum comentário sobre estas diatribes, até porque há um fundo de razão nestas diatribes, mas notei como Ricciardi contrapõe a nossa incapacidade para viver melhor às excepções dos sistemas de ensino e saúde, que considera bons e isso chamou-me a atenção para uma coisa que tenho reparado na sociedade portuguesa: a dificuldade em termos uma ideia clara de que todas as políticas públicas têm um preço e gastar dinheiro num lado é diminuir os recursos disponiveis noutro lado qualquer (não, não tenciono fazer um post sobre o regateio do actual Orçamento de Estado, não queria fazer outro comentário a diminuir o mercado de Fez).

O que gastamos em Educação e Saúde até pode estar a produzir bons resultados (eu diria que globalmente sim, numas coisas, mas convém não perder de vista a dificuldade que temos, enquanto sociedade, em matéria de avaliação) mas, se estivermos a ser ineficientes nesses dois sectores (e estamos seguramente), isso significa que estamos a sacrificar a nossa capacidade de produzir riqueza para termos sistemas de educação e saúde razoáveis, entre outras razões, porque obrigamos a economia a uma tributação excessiva.

Esta é uma, entre várias razões, para me parecer claro que ser a favor do acesso universal a bons padrões de educação e saúde não significa defender a estatização desses dois sectores, pelo contrário, significa aumentar a concorrência entre os diferentes agentes, para que, progressivamente, todos sejam mais eficientes.

Ou seja, significa defender os contratos de associação nas escolas e as PPP da saúde, por exemplo.

Doutra maneira o resultado provavelmente será o que é neste momento: a minha filha vai ganhar dinheiro fora de Portugal, com base na educação que recebeu em Portugal, adia na medida do possível cuidados de saúde e, depois quando vem a Portugal, usa os serviços portugueses de saúde de que gosta mais que os americanos por achar que têm uma relação preço qualidade que lhe é muito favorável.

Faz como os franceses que se têm vindo a instalar em Portugal, entre muitos outros que o Estado português favorece fiscalmente em relação aos seus próprios cidadãos.

Como se costuma dizer, Portugal é um país fantástico para viver, mas não é um bom país para se ganhar dinheiro.

Afinal não há as novidades prometidas no título do post.

Perspectivas

por Jose Miguel Roque Martins, em 24.10.21

Captura de ecrã 2021-10-24, às 11.43.25.png

 

É fascinante vermos como cada um interpreta os mesmos factos de forma tão diferente. Um crime brutal de violação, em que uma dezena de pessoas não intervém, nada faz, é visto por uns na perspectiva do fraco valor da vitima, por ser mulher. Por outros, menos preocupado com o género, poderá ser encarado como mais  uma manifestação perversa de Estatismo.

Se tivesse sido uma mulher a espancar cruel e barbaramente um homem, sob o olhar impávido de quem assistia,o episodio teria sido menos repugnante? Penso que não.

A bestialidade humana não tem nada de novo. O que começa a ser cada vez mais frequente é a demissão das responsabilidades mais básicas de cada ser humano.

Assiste-se à brutalidade, mas não se intervém.  Afinal, não é uma obrigação individual. Compete ao Estado a manutenção da ordem publica, para isso é que se pagam impostos. O individuo, cada vez tem menos liberdade, menos responsabilidade e também menos deveres. O resultado não pode ser bom.


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