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Não temos requiem, temos hosana

por Jose Miguel Roque Martins, em 26.10.21

António Costa, apesar de 6 anos de governação,  não será mais do que uma nota pálida de rodapé da história. Habilidoso como poucos, politicamente criativo, inventou a geringonça, não se lhe conhecendo mais nenhuma ideia. Para Portugal, nada se lhe pode apontar de significativo, de positivo, de relevante, durante seis longos anos de mandato. Apenas perdeu tempo, oportunidades, crescimento e progresso. O único mérito que se lhe pode creditar ( pelo menos hoje) é não ter cedido completamente à esquerda radical. Penso que por imposições de sobrevivência do próprio PS.

É verdade que ainda não morreu, que poderá ser Presidente da República, ser um alto funcionário Europeu. É verdade que ainda pode ser Primeiro ministro. Já todos sabemos que com ele, será sempre habilmente poucochinho, sem menção digna de registo. 

Nem ele, nem a geringonça, deixam saudades. Não temos requiem, temos hosana.

Uma metáfora que nos entra pelos olhos adentro

por João Távora, em 26.10.21

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Há uns dias, num inadvertido zapping nos noticiários, calhou-me confrontar-me com a notícia de uma multidão de migrantes da américa central em marcha pelo México a caminho dos Estados Unidos da América, gritando com todos os pulmões “Libertad! Libertad!”.  

Qual é a surpresa?

por henrique pereira dos santos, em 26.10.21

Lembram-se da forma como António Costa fingia negociar com Passos Coelho ao mesmo tempo que consolidava a geringonça, porque o PSD era absolutamente intransigente?

É a mesma pessoa, é a mesma técnica, portanto, qual é a surpresa sobre o resultado das negociações sobre este OE?

Resultado esse que, até ao momento, consiste em haver eleições antecipadas porque o BE e o PC são intransigentes, ao contrário do PS que negociou até ao limite, de boa fé.

Como, é bom lembrar, já tinha acontecido em 2015, em que também foi Passos Coelho que empurrou o PS para os braços do PC e do BE, apesar de toda a boa vontade do PS em negociar seriamente as condições em que poderia viabilizar um governo de quem tinha ganho as eleições.

A escola alemã de Caldeira Cabral

por henrique pereira dos santos, em 25.10.21

Este é o terceiro texto que escrevi nas condições que descrevo no fim do post.

Os outros dois foram publicados um pelo DN (acompanhado por uma fotografia que contém a cabeça da fotografia que mandei em cima de um fato, camisa e gravata que nunca vi na vida) e outro pelo Público e, segundo sei (não fui eu que tratei do assunto, eu limitei-me a escrever os textos e cedê-los para que a organização da conferência a que dizem respeito fizesse o que entendesse), este seria para ser publicado pelo Observador, o que acho que não aconteceu, pelo que resolvi usá-lo aqui.

Dos três textos este é o que mais directamente é tributário de uma apresentação, muitíssimo boa, de Teresa Andresen, embora o que esteja escrito seja inteiramente da minha responsabilidade e esteja longe de seguir a apresentação feita.

Nunca teria escrito o que escrevi sem a quantidade de informação sobre as raízes alemãs da escola de arquitectura paisagista portuguesa, uma realidade conhecida há muito, mas de maneira nenhuma com a profundidade e extensão que resulta das investigações citadas no texto. 

"Francisco Caldeira Cabral (há pelos menos três arquitectos paisagistas com este nome, mas falo do primeiro, o que do nada criou a profissão de arquitecto paisagista em Portugal), foi um homem excepcional, a quem Portugal deve grande parte de uma certa originalidade na abordagem da gestão da paisagem em relação aos outros países mediterrânicos (nem Espanha, nem França, nem Itália, apenas para citar os mais evidentes, têm uma abordagem da gestão da paisagem semelhante à portuguesa, que deu origem a originalidades como a Reserva Ecológica Nacional, entre outras).

E quando escrevo “certa originalidade” é sobretudo porque é original no nosso contexto, mas é essencialmente uma adaptação da poderosíssima escola alemã de arquitectura paisagista que está na origem de quase tudo o que fez, ensinou e escreveu Caldeira Cabral.

Quem se quiser documentar mais solidamente sobre o assunto tem a tese de mestrado de Mariana Abranches Pinto “O legado escrito de Francisco Caldeira Cabral” e as teses de doutoramento de Teresa Camara e Ana Catarina Antunes, respectivamente “Contributos da arquitectura paisagista para o espaço público de Lisboa (1940-1970” e “A influência alemã na génese da arquitectura paisagista em Portugal”.

Todas estas teses partem de uma investigação anterior de Teresa Andresen de que resultaram uma monografia sobre Francisco Caldeira Cabral e uma exposição, com o respectivo catálogo, sobre a primeira geração de arquitectos paisagistas portugueses.

O facto de Caldeira Cabral ter estudado na Alemanha da ascenção do nazismo (1936/ 1939) e ser um conservador profundamente católico, sem qualquer ligação aos movimentos oposicionistas do Estado Novo, talvez contribua para uma injusta menorização do caracter inovador e precursor das ideias que semeou, regou, cuidou, até que ganhassem vida própria fora da sua influência directa.

Talvez haja pouco investigadores disponíveis para escrever, preto no branco, que grande parte das ideias de ordenamento do território dominantes em Portugal têm raízes na Prússia, continuidade na república de Weimar e, depois de modernizadas pelas políticas nazis de gestão do território e do património natural, tenham sido trazidas para Portugal pela mão de Caldeira Cabral.

Quando, em 1961, realço a data, Caldeira Cabral defende que os arquitectos paisagistas “descendem” dos jardineiros e que “devemos ser os jardineiros do jardim mundial, o jardineiro que supervisiona tudo, mas é ainda um jardineiro … devemos ser mais que jardineiros em conhecimento técnico e dar toda a atenção possível à ecologia”, está a sintetizar a sua ideia base da profissão, muito antes destes assuntos serem banais.

Mas está a fazê-lo no seguimento de uma linha de pensamento que se consegue traçar até ao século XVIII nas regiões que hoje são a Alemanha, e de uma prática de gestão de parques, jardins e paisagens, que desenvolve conscientemente esse princípios há dezenas de anos: desde 1823 que a escola real de horticultura, dirigida desde a sua fundação até 1866 por Lenné, segue uma prática, uma investigação e um ensino que culmina nas actuais ideias de respeito pela natureza e valorização das aptidões do território.

Caldeira Cabral não é, evidentemente, um mero produto de uma escola, é um homem profundamente culto, com uma sólida formação em ciências e artes, que descobre, na Alemanha, uma ideia de gestão do território que casa bem com as suas ideias de família, pátria, ordem e beleza.

Frequentemente, e esquecemos isto com demasiada frequência, ideias prudentes de gestão da terra e valorização do território, crescem mais facilmente em ambientes nacionalistas e reaccionários, porque são estes que tendem a dar mais atenção ao chão que também os define.

Mesmo o mais conhecido discípulo de Caldeira Cabral, Ribeiro Telles, embora igualmente conservador e católico, mas com um apreço maior pela ideia de liberdade e, por isso, mais inconformado com a situação política anterior a 1974, não deixa de assentar a sua actuação política em ideias próximas do comunalismo, tendo a terra como valor colectivo central.

Nunca, quer em Caldeira Cabral, quer em Ribeiro Telles, quer em qualquer dos outros discípulos de Caldeira Cabral com forte influência nas ideias base do edifício jurídico de ordenamento do território que temos – como Viana Barreto, Álvaro Dentinho ou Ilídio de Araújo –, essa ideia de respeito pelos ciclos naturais e de uma gestão conservacionista da terra e dos valores naturais é equivalente às modernas ideias de wilderness, ou às ideias mais velhas de protecção integral e de ausência de uso pelo homem.

Há uma continuidade clara entre as preocupações de boa gestão, ordenamento e uso sensato dos recursos naturais bem presentes na escola alemã e os fundamentos das primeiras versões da Reserva Ecológica Nacional e outros instrumentos de ordenamento do território.

Infelizmente, talvez por falta de estudo das fontes dessas ideias, os instrumentos de ordenamento que hoje carregam os mesmos nomes, assentam em ideias antagónicas das originais.

As versões modernas dos diplomas que formatam o edifício jurídico do actual ordenamento do território, em Portugal, não traduzem a ideia de valorização e uso sensato do território.

Talvez fosse tempo de voltar às origens.

Este texto é parte de um conjunto de textos que respondem a um pedido de Cristina Castel-Branco: assistir a uma conferência sobre uma matéria que não corresponde ao que é o núcleo central da minha actividade de aquitecto paisagista e, sobre o que visse e ouvisse, escrever notas que não reflectem o conteúdo da conferência, mas sim o que me chamou a atenção de não especialista em história de arte dos jardins"

Novidades

por henrique pereira dos santos, em 25.10.21

“O que sei é que as pandemias têm características próprias. Atingem todo o mundo, por isso se chamam pandemias, mas não da mesma forma e ao mesmo tempo. Têm diferenças geográficas, de intensidade, na forma como se manifestam, e depois as diferenças que surgem pelas medidas que cada país toma por achar que são as mais adequadas à sua população.”

Graça Freitas a aproveitar a acalmia na histeria para reforçar a ideia de que as epidemias evoluem por si, com diferenças geográficas de intensidade e na forma como se manifestam em cada sítio e tempo.

Tenho tão poucas oportunidades para chamar a atenção para declarações de Graça Freitas, por boas razões, que não queria perder esta oportunidade.

"Portugal é um país que em termos gerais vive mal.com um dos salários mínimos mais baixos da Europa [665 euros], um salário médio de mil e tal euros, que em termos líquidos não chegará a mil euros. Mais de 80% da população activa não ganha mais do que 1500 euros por mês. E - apesar dos aspectos positivos, na saúde, na educação - todos falhámos em não ter conseguido que o nível de vida da população portuguesa fosse francamente superior ao que é. A geração a que pertenço não tem muito de que se orgulhar. Portugal tem um dos niveis de produtividade mais baixos da Europa, o que quer dizer que não trabalhamos o suficiente ou que a organização do trabalho não é das melhores, tanto no privado como no público".

José Maria Ricciardi a resumir bem boa parte do país.

Tenho tão poucas oportunidade para chamar a atenção para declarações de membros da família Espírito Santo, por boas razões, que não queria perder esta oportunidade.

A talho de foice (custa-me render à evidência de que a expressão correcta é esta, depois de tantos anos a usar a expressão errada), gostaria ainda de realçar uma pequena nota pessoal.

Tenho uma filha que vive nos EUA e que, como tem cinco filhos até aos cinco anos, é uma cliente relativamente frequente de serviços de saúde. De cada vez que vai a algum lado que tenha alguma relação com serviços de saúde, escreve umas diatribes enormes por causa do que paga (é das maiores forretas que conheço), da forma inacreditável como os preços se regateiam mais que no mercado de Fez se regateiam especiarias, e de como suspira pelo sistema de saúde português.

Nunca faço nenhum comentário sobre estas diatribes, até porque há um fundo de razão nestas diatribes, mas notei como Ricciardi contrapõe a nossa incapacidade para viver melhor às excepções dos sistemas de ensino e saúde, que considera bons e isso chamou-me a atenção para uma coisa que tenho reparado na sociedade portuguesa: a dificuldade em termos uma ideia clara de que todas as políticas públicas têm um preço e gastar dinheiro num lado é diminuir os recursos disponiveis noutro lado qualquer (não, não tenciono fazer um post sobre o regateio do actual Orçamento de Estado, não queria fazer outro comentário a diminuir o mercado de Fez).

O que gastamos em Educação e Saúde até pode estar a produzir bons resultados (eu diria que globalmente sim, numas coisas, mas convém não perder de vista a dificuldade que temos, enquanto sociedade, em matéria de avaliação) mas, se estivermos a ser ineficientes nesses dois sectores (e estamos seguramente), isso significa que estamos a sacrificar a nossa capacidade de produzir riqueza para termos sistemas de educação e saúde razoáveis, entre outras razões, porque obrigamos a economia a uma tributação excessiva.

Esta é uma, entre várias razões, para me parecer claro que ser a favor do acesso universal a bons padrões de educação e saúde não significa defender a estatização desses dois sectores, pelo contrário, significa aumentar a concorrência entre os diferentes agentes, para que, progressivamente, todos sejam mais eficientes.

Ou seja, significa defender os contratos de associação nas escolas e as PPP da saúde, por exemplo.

Doutra maneira o resultado provavelmente será o que é neste momento: a minha filha vai ganhar dinheiro fora de Portugal, com base na educação que recebeu em Portugal, adia na medida do possível cuidados de saúde e, depois quando vem a Portugal, usa os serviços portugueses de saúde de que gosta mais que os americanos por achar que têm uma relação preço qualidade que lhe é muito favorável.

Faz como os franceses que se têm vindo a instalar em Portugal, entre muitos outros que o Estado português favorece fiscalmente em relação aos seus próprios cidadãos.

Como se costuma dizer, Portugal é um país fantástico para viver, mas não é um bom país para se ganhar dinheiro.

Afinal não há as novidades prometidas no título do post.

Perspectivas

por Jose Miguel Roque Martins, em 24.10.21

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É fascinante vermos como cada um interpreta os mesmos factos de forma tão diferente. Um crime brutal de violação, em que uma dezena de pessoas não intervém, nada faz, é visto por uns na perspectiva do fraco valor da vitima, por ser mulher. Por outros, menos preocupado com o género, poderá ser encarado como mais  uma manifestação perversa de Estatismo.

Se tivesse sido uma mulher a espancar cruel e barbaramente um homem, sob o olhar impávido de quem assistia,o episodio teria sido menos repugnante? Penso que não.

A bestialidade humana não tem nada de novo. O que começa a ser cada vez mais frequente é a demissão das responsabilidades mais básicas de cada ser humano.

Assiste-se à brutalidade, mas não se intervém.  Afinal, não é uma obrigação individual. Compete ao Estado a manutenção da ordem publica, para isso é que se pagam impostos. O individuo, cada vez tem menos liberdade, menos responsabilidade e também menos deveres. O resultado não pode ser bom.

Ciclovazias

por henrique pereira dos santos, em 23.10.21

O título deste post é a forma depreciativa como muita gente se refere à política de apoio à utilização da bicicleta de Lisboa.

Apesar de facilitar e incentivar o uso de bicicletas em Lisboa ser uma política que, em abstracto, só tem vantagens para todos, as posições sobre o assunto têm vindo a extremar-se.

A origem do problema - o problema é o extremar de posições, não é nem a bicicleta nem o carro, que são meros instrumentos nas nossas mãos - parece relativamente fácil de identificar: o espaço urbano é limitado e circular, seja de que maneira for, obriga a usar o espaço.

Enquanto o espaço disponível é relativamente amplo, não sendo por isso factor limitante, como, por exemplo, na Avenida da República, a competição pelo espaço é relativamente contida e pode ir sendo gerida tecnicamente.

O problema é mais bicudo quando o espaço não chega para todos.

É o que acontece em algumas áreas de qualquer grande cidade e, nessa altura, é preciso fazer opções, beneficiar uns, prejudicando outros, porque o espaço não chega para satisfazer todos.

Ao contrário do que frequentemente se diz, o espaço tem alguma elasticidade: quando se faz um túnel (seja para o Metro, seja para os carros), ou um viaduto, ou quando se usam autocarros de dois andares, ou quando se usam estacionamentos em altura, ou quando se usam aplicações que aumentam o número de passageiros médios de um carro, etc., etc., etc., estamos a aumentar a secção de vazão, isto é, estamos a aumentar a capacidade de um fluxo de gente passar no mesmo local, ou seja, a expandir um espaço que parecia fisicamente limitado.

Só que este tipo de soluções, não só continuam a ter limites físicos (mesmo que sejam outros), como implicam gastar recursos para as pôr em prática.

Se a discussão se mantiver entre a escolha dos carros e das bicicletas (e afins), a discussão tenderá a extremar-se, quer porque os utilizadores compulsivos de carros não reconhecem o direito à segurança e conforto dos ciclistas, na medida em que cada ciclovia que é construída ocupa espaço que poderia ser dos carros, quer porque os ciclistas, partindo de um capital de queixa justificado face à sua fragilidade no confronto com os carros (quando chocam a probabilidade do condutor do carro se magoar a sério é mínima, mas a do ciclista ir para o galheiro é real), organizam-se como  minoria militante, moralmente superior porque estão a salvar o mundo (que nunca pediu para ser salvo, mas isso levar-me-ia por um longo desvio ao post) e, frequentemente, deixam de querer reconhecer as razões que levam tanta gente a usar um carro.

Por isso a discussão deveria manter-se na mobilidade das pessoas e bens, é isso que é relevante, reconhecendo-se que quer bicicletas, quer carros, quer transportes públicos, quer deslocação na criação de emprego, são meros instrumentos que deveremos usar em função de cada situação concreta.

É absurdo pensar que as bicicletas vão resolver o problema da mobilidade das cidades (um mês inteiro de bicicletas no Saldanha corresponde a uma hora do Metro, em transporte de pessoas, multiplicar por dez os utilizadores de bicicletas significaria que um mês inteiro corresponderia a um dia do Metro, e nem estou a falar dos outros transportes públicos que passam no Saldanha. E não estou a ter em atenção que talvez um quarto a um terço do movimento de bicicletas seja das empresas de entregas), mas não é razoável pensar que não só são irrelevantes, como que os ciclistas não têm direito a circular com segurança e conforto, havendo alguma obrigação dos poderes públicos se preocuparem permanentemente com os automobilistas, fazendo-lhes estradas, pontes, viadutos e estacionamentos, mas não terem a mesma preocupação para com os peões, cliclistas, utilizadores de transportes públicos, etc..

Andar de carro é um privilégio, não é um direito, ou melhor, andar de carro em horas de ponta, em zonas de elevado condicionamento da mobilidade por compressão do espaço físico, é um privilégio e um luxo, o direito é de poder circular.

Ora circular sem carro, nessas circunstâncias, é facílimo para a generalidade das pessoas (naturalmente é precisa muita atenção aos grupos sociais que precisam mesmo de se deslocar de carro mas, provavelmente, para essa minoria, o espaço até é suficiente).

A mim parece-me bem claro que apenas perdendo o medo de dizer que circular de carro, em hora de ponta, em zonas muito congestionadas, deve ser um privilégio que deve ser pago bem caro, podemos ter uma alternativa à presente situação de conflito social.

Sem surpresa, faço propostas liberais.

O estacionamento deve ser caro, as entidades públicas devem abandonar a mania de ter os carros à porta do poder para transportar rapidamente qualquer membro da elite dominante.

Sim, estou a dizer que não há nenhuma razão para o primeiro ministro ter de entrar e sair de carro de São Bento, da Câmara ter estacionamento no largo do Município, dos ministros terem carros no Terreiro do Paço, eu sei que facilmente se dirá que é demagogia, eu direi que é pôr-se no lugar do outro, daquele para quem se fazem as regras.

Nada impede o primeiro ministro de apanhar um taxi, um uber, o que quiser, para zonas onde estejam estacionados os carros de que precisa para chegar a Alcaravelas, que não é servida por transportes públicos compatíveis com a agenda que o obrigue a ir a Alcaravelas.

E a circulação de carros em algumas horas e lugares deve ser paga.

Para além disso, pode-se sempre mudar a capital do país da Castelo Branco, os comandos militares para Santa Margarida, os Tribunais Superiores para Coimbra e etc., que sempre ajudaria a descongestionar qualquer coisa as principais cidades.

Podem ser opções difíceis, nalguns casos caras, mas sobre as políticas que pretendem fazer o Rossio caber na Betesga, têm pelo menos a vantagem de serem políticas exequíveis.

Nada de mau muda.

por Jose Miguel Roque Martins, em 22.10.21

São impressionantes os avanços tecnológicos, as maravilhas do progresso económico e social, a nossa vida nunca foi tão fácil.

Mas há coisas que nunca mudam. E nem sempre são as melhores.

Luís Filipe Vieira, foi abatido por um processo judicial. Logo a seguir, o que incompreensivelmente não tinha acontecido, aconteceu: foi executado judicialmente pelo novo banco que nos vai sugando dinheiro. Animal ferido é finalmente atacado.

Começam as manifestações dos combustíveis, avançam os subsídios, modernaços, de esquerda, que obrigam os beneficiários a gastar não onde querem, mas onde o governo quer. Circo, sobretudo político, já temos quanto chegue.  Pão á populaça é curto, carimbado, mas lá tem que ser de vez em quando. Baixar impostos e a despesa, diminuir o poder e controlo do Estado, nunca.  

E a classe política, pelo menos a que manda, resignada ao gosto popular, continua a esgrimir sofismas e a enterrar o pais. Como sempre.

Quem precisa de rotinas, pode estar descansado em Portugal. Nada de mau muda.

O "direito à indignação", um direito orweliano

por João-Afonso Machado, em 21.10.21

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Todos recordarão os últmos tempos do cavaquismo, fatalmente acossado pelo Presidente Mário Soares e pelo "direito à indignação" que criou e constitucionalmente consagrou.

Foram os tempos do famoso buzinão na Ponte sobre o Tejo, cujas portagens haviam sido aumentadas.

Não muito depois, chegaram as SCUTT's, uma das mais formidáveis mentiras da política portuguesa. E seguidamente a bancarrota socrática, de pronto transformada no pecado da austeridade, cometido por Passos Coelho. Quando o País já erguia a cabeça - a rasteira eleitoral de Costa e a sua geringonça...

O que sempre ficou - fechado à chave - foi o dito "direito à indignação", da exclusiva titularidade da Esquerda. Que o usa na perspectiva de George Orwel (in 1984) - «se toda a gente aceitasse a mentira que o partido impunha (...) então a mentira passaria à História e tornar-se-ia verdade».

Ao longo dos anos, esse o grande trunfo da Esquerda, através de uma Comunicação Social muito bem orquestrada.

Só agora, com as redes sociais e a espontaneidade que consentem, o fenómeno tem vindo a ser invertido. Mais a mais, porque o PCP e o BE têm de estar à altura do seu eleitorado da Área Metropolitana de Lisboa.

Em suma, Costa sem uma bazoca que o proteja, o País a queixar-se de mais e mais falhas e, entre estas, como já não é possível esconder, o encerramento à vista do SNS. Pelos seus criadores!

 

À vontade do freguês

por henrique pereira dos santos, em 21.10.21

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Quem quiser, olha para este gráfico e entretém-se à procura das explicações para as diferenças de pormenor de cada uma destas curvas de evolução da incidência da covid, encontrando medidas administrativas ou emergências de variantes para as explicar.

Quem quiser, olha para o mesmo gráfico notando a consistência geográfica dos países escolhidos que resulta da escolha dos países europeus com maior incidência hoje e a semelhança das curvas entre a semana 40 de um ano e a semana 19 do ano seguinte.

Os primeiros estão convencidos de que o homem comanda o mundo, os segundos estão convencidos de que o mundo é maior que o homem.

Dificilmente as conversas entre pessoas dos dois grupos podem ter uma base racional, porque o ponto de partida de cada um dos grupos está muito para lá da mera racionalidade cartesiana.

A convivência serena entre os dois grupos só se consegue aceitando o princípio base dos casamentos longos: "tu queres ter razão, ou queres ser feliz?".

Mais um subsidio, não!

por Jose Miguel Roque Martins, em 20.10.21

O combustível é uma fatia importante do meu orçamento. E por isso, como muito outros, estou a sofrer com os aumentos de preços, no meu caso, do gasóleo.

Nem por isso mudo a minha opinião: não se deve fazer de conta que as coisas não são o que são. É verdade que há impostos a mais. É verdade que os atuais aumentos afetam muitas famílias, como a minha, os transportadores e todos aqueles que dependem de carros. E que destes primeiros impactados,  aumentos de preços vão atingir todos os consumidores. É verdade que o Estado pode ( e deve) aliviar os impostos que cobra de forma inesperada. Não deixa também de ser verdade que ignorar o mercado, a realidade é um tremendo erro, uma atitude típica da “esquerda”, que nos tem conduzido á nossa Pujante (?) situação económica. Quando os combustíveis aumentam na fonte, os seus consumidores, directos e indiretos, ficam mesmo piores. Uma inconveniência impopular, mas uma realidade. Não há volta a dar. Mais um subsidio, não!

 

 

Quando passam exactamente 100 anos sobre a macabra noite sangrenta, publicamos aqui o primeiro de  três interessantes textos assinado pela misteriosa e incógnita Joana no célebre blog Semiramis

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 19 de Outubro de 1921
Parte 1

O 19 de Outubro de 1921 foi o fim da 1ª República. Formalmente ela continuou até 28 de Maio de 1926. Pelo meio, alguns episódios grotescos de um regime em degenerescência: as governações de António Maria da Silva, o carbonário tornado o chefe todo poderoso do PRP e dos respectivos caciques, directas ou por interpostos testas de ferro; a eleição de Teixeira Gomes para a Presidência da República, uma manobra de Afonso Costa para tentar regressar ao poder; a renúncia de Teixeira Gomes quando percebeu que nem conseguia o regresso de Afonso Costa, nem passaria de um títere nas mão do odiado chefe do PRP: renunciou e abandonou o país no primeiro barco que zarpou da barra de Lisboa com destino ao estrangeiro.

Entre o assassinato de Sidónio Pais e os massacres de 19 de Outubro de 1921, Portugal, teoricamente um regime parlamentar, viveu sob uma ditadura tutelada pelos arruaceiros e rufias dos cafés e tabernas de Lisboa e pela Guarda Nacional Republicana, uma Guarda Pretoriana do regime, bem municiada de artilharia e armamento pesado, concentrada na zona de Lisboa e cujos efectivos passaram de 4575 homens em 1919 para 14 341 em 1921, chefiados por oficiais «de confiança», com vencimentos superiores aos do exército. A queda do governo de Liberato Pinto, o principal cacique e mentor da GNR, em Fevereiro de 1921, colocou as instituições democráticas na mira dos arruaceiros e pretorianos do regime a que se juntaram sindicalistas, anarquistas, efectivos do corpo de marinheiros, etc.. O governo de António Granjo, formado a 30 de Agosto, era o alvo.

O nó górdio foi o caso Liberato Pinto, entretanto julgado e condenado em Conselho de Guerra por causa das suas actividades conspirativas. Juntamente com o Mundo, a Imprensa da Manhã, jornal sob a tutela de Liberato Pinto, atacavam diariamente o governo, tentando provar, através de documentos falsos, que o Governo projectava o cerco de Lisboa por forças do Exército, para desarmar a Guarda Nacional Republicana. No Diário de Lisboa apareceram, entretanto, algumas notas relativas ao futuro movimento. Em 18 de Agosto, um informador anónimo dizia da futura revolta: «Mot d’ordre: a revolução é a última. Depois, liquidar-se-ão várias pessoas».

O coronel Manuel Maria Coelho era o chefe da conjura. Acompanhavam-no, na Junta, Camilo de Oliveira e Cortês dos Santos, oficiais da G. N. R., e o capitão-de-fragata Procópio de Freitas. O republicanismo histórico do primeiro aliava-se às forças armadas, que seriam o pilar da revolução. Depois de uma primeira tentativa falhada, em que alguns dos seus chefes foram presos e libertos logo a seguir, o movimento de 19 de Outubro de 1921 desenrolou-se num dia apenas, entre a manhã e a noite. Três tiros de canhão disparados da Rotunda pela artilharia pesada da GNR tiveram a sua resposta no Vasco da Gama. Passavam à acção as duas grandes forças da revolta. A Guarda concentrou os seus elementos na Rotunda; o Arsenal foi ocupado pelos marinheiros sublevados, que não encontraram qualquer resistência; núcleos de civis armados percorreram a cidade em serviço de vigilância e propaganda. Os edifícios públicos, os centros de comunicações, os postos de comando oficiais caíram rapidamente em poder dos sublevados. Às 9, uma multidão de soldados, marinheiros e civis subiu a Avenida para saudar a Junta vitoriosa. Instalado num anexo do hospital militar de Campolide, o seu chefe, o coronel Manuel Maria Coelho, presidia àquela vitória sem luta.Em face da incapacidade de resistir, às dez da manhã, António Granjo escreveu ao Presidente da República: «Nestes termos, o governo encontra-se sem meios de resistência e defesa em Lisboa. Deponho, por isso, nas mãos de V. Ex.a a sorte do Governo...» António José de Almeida respondeu-lhe, aceitando a demissão: «Julgo cumprir honradamente o meu dever de português e de republicano, declarando a V. Ex.a que, desde este momento, considero finda a missão do seu governo...» Recebida a resposta, António Granjo retirou-se para sua casa. Eram duas da tarde.O PR recusou-se a ceder aos sublevados. Afiançou que preferiria demitir-se a indigitar um governo imposto pelas armas. Às onze da noite, ainda sem haver solução institucional, Agatão Lança avisou António José de Almeida que algo de grave se estava a passar. Perante tal, conforme descreveu depois o PR, «Corri ao telefone e investi o cidadão Manuel Maria Coelho na Presidência do Ministério, concedendo-lhe os poderes mais amplos e discricionários para que, sob a minha inteira responsabilidade, a ordem fosse, a todo o transe, mantida». Passando a palavra a Raul Brandão (Vale de Josafat, págs. 106-107), «Depois veio a noite infame. Veio depois a noite e eu tenho a impressão nítida de que a mesma figura de ódio, o mesmo fantasma para o qual todos concorremos, passou nas ruas e apagou todos os candeeiros. Os seres medíocres desapareceram na treva, os bonifrates desapareceram, só ficaram bonecos monstruosos, com aspectos imprevistos de loucura e sonho...».Sentindo as ameaças que se abatiam sobre ele, António Granjo buscou refúgio na casa de Cunha Leal. Cunha Leal tinha simpatias entre os revoltosos (tinha aliás sido sondado para ser um dos chefes do movimento, mas recusara) e Granjo considerou-se a salvo. Todavia, a denúncia de uma porteira guiou os seus perseguidores que tentaram entrar na casa de Cunha Leal para deter António Granjo. Cunha Leal impediu-os, mas a partir desse momento ficaram sem possibilidades de fuga porque, pouco a pouco, o cerco apertara-se e grupos armados vigiavam a casa. Apelos telefónicos junto de figuras próximas dos chefes da sublevação, que pudessem dar-lhes auxílio, não surtiram efeito.

Perto das nove da noite compareceu um oficial da marinha, conhecido de ambos, que afirmou que levaria Granjo para bordo do Vasco da Gama, um lugar seguro. Cunha Leal vacilou. Granjo mostrou-se disposto a partir. Cunha Leal acompanhou-o, exigindo ao oficial da marinha que desse a palavra de honra de que não seriam separados. Meteram-se na camioneta que afinal não os levaria ao refúgio do Vasco de Gama, mas ao centro da sublevação.A camioneta chegou ao Terreiro do Paço onde os marinheiros e os soldados da Guarda apuparam e tentaram matar António Granjo. Cunha Leal conseguiu então salvá-lo. A camioneta entrou, por fim, no Arsenal e os dois políticos passaram ao pavilhão dos oficiais. Um grupo rodeou Cunha Leal e separou-o de Granjo, apesar dos seus protestos. Os seus brados levaram a que um dos sublevados disparasse sobre ele, atingindo-o três vezes, um dos tiros, gravemente, no pescoço. Foi conduzido ao posto médico do Arsenal.

Entretanto, vencida a débil resistência de alguns oficiais, marinheiros e soldados da GNR invadiram o quarto onde estava António Granjo e descarregaram as suas armas sobre ele. Caiu crivado. Um corneteiro da Guarda Nacional Republicana cravou-lhe um sabre no ventre. Depois, apoiando o pé no peito do assassinado, puxou a lâmina e gritou: «Venham ver de que cor é o sangue do porco!»A camioneta continuou a sua marcha sangrenta, agora em busca de Carlos da Maia, o herói republicano do 5 de Outubro e ministro de Sidónio Pais. Carlos da Maia inicialmente não percebeu as intenções do grupo de marinheiros armados. Tinha de ir ao Arsenal por ordem da Junta Revolucionária. Na discussão que se seguiu só conseguiu o tempo necessário para se vestir. Então, o cabo Abel Olímpio, o Dente de Ouro, agarrou-o pelo braço e arrastou-o para a camioneta que se dirigiu ao Arsenal. Carlos da Maia apeou-se. Um gesto instintivo de defesa valeu-lhe uma coronhada brutal. Atordoado pelo golpe, vacilou, e um tiro na nuca acabou com a sua vida.

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A camioneta, com o Dente de Ouro por chefe, prosseguiu na sua missão macabra. Era seguida por uma moto com sidecar, com repórteres do jornal Imprensa da Manhã. Bem informados como sempre, foram os próprios repórteres que denunciaram: «Rapazes, vocês por aí vão enganados… Se querem prender Machado Santos venham por aqui…». Acometido pela soldadesca, Machado Santos procurou impor a sua autoridade: «Esqueceis que sou vosso superior, que sou Almirante!». Dente de Ouro foi seco: «Acabemos com isto. Vamos». Machado Santos sentou-se junto do motorista, com Abel Olímpio, o Dente de Ouro, a seu lado. Na Avenida Almirante Reis, a camioneta imobiliza-se devido a avaria no motor. Dente de Ouro e os camaradas não perdem tempo. Abatem ali mesmo Machado Santos, o herói da Rotunda.

Não encontraram Pais Gomes, ministro da Marinha. Prenderam o seu secretário, o comandante Freitas da Silva, que caiu, crivado de balas, à porta do Arsenal. O velho coronel Botelho de Vasconcelos, um apoiante de Sidónio, foi igualmente fuzilado. Outros, como Barros Queirós, Cândido Sotomayor, Alfredo da Silva, Fausto Figueiredo, Tamagnini Barbosa, Pinto Bessa, etc., salvaram a vida por acaso.Os assassinos foram marinheiros e soldados da Guarda. Estavam tão orgulhosos dos seus actos que pensaram publicar os seus nomes na Imprensa da Manhã, como executores de Machado Santos. Não o chegaram a fazer devido ao rápido movimento de horror que percorreu toda a sociedade portuguesa face àquele massacre monstruoso. Mas quem os mandou matar?

O horror daqueles dias deu lugar a uma explicação imediata, simples e porventura correcta: os assassínios de 19 de Outubro tinham sido a explosão das paixões criadas e acumuladas pelo regime. Determinados homens mataram; a propaganda revolucionária impeliu-os e a explosão da revolução permitiu-lhes matar. No enterro de António Granjo, Cunha Leal proclamou essa verdade: «O sangue correu pela inconsciência da turba - a fera que todos nós, e eu, açulámos, que anda solta, matando porque é preciso matar. Todos nós temos a culpa! É esta maldita política que nos envergonha e me salpica de lama». No mesmo acto, afirmaria Jaime Cortesão: «Sim, diga-se a verdade toda. Os crimes, que se praticaram, não eram possíveis sem a dissolução moral a que chegou a sociedade portuguesa».

Com o tempo, os republicanos procuraram outras explicações. Não podiam aceitar a explicação simples que teria sido a sua acção, o radicalismo da sua política, a imundície que haviam lançado desde 1890 sobre toda a classe política, a sua retórica de panegírico aos atentados bombistas (desde que favoráveis), aos regicidas, a desencadear tanta monstruosidade. Significava acusarem-se a si próprios. Outras explicações foram aparecendo, sempre mais tortuosas, acerca dos eventuais culpados: conspiração monárquica; Cunha Leal (apesar de ter sido quase morto); Alfredo da Silva (apesar de, nessa noite, ter escapado à justa e tido que se refugiar em Espanha) uma conspiração monárquica e ibérica; a Maçonaria (a acção da Maçonaria sobre a Guarda, impelindo-a para a revolução, era constante, mas isso não significa que desse ordens para aqueles crimes).

Os assassinados na Noite Sangrenta não seriam, entre os republicanos, aqueles que mais hostilidade mereceriam dos monárquicos. Eram republicanos moderados. O furor dos assassinos liquidara homens tidos, na sua maior parte, como simpatizantes do sidonismo. Não se tratava de vingar Outubro de 1910, mas sim Dezembro de 1917. Carlos da Maia e Machado Santos foram ministros de Sidónio Pais. Botelho de Vasconcelos, coronel na Rotunda, às ordens de Sidónio Pais. Se as matanças de 19 de Outubro de 1921 foram uma vingança terão de ser referenciadas à República Nova e não ao 5 de Outubro. Aliás, num gesto significativo, os revolucionários libertaram o assassino de Sidónio Pais.

Há na Noite Sangrenta factos que se impõem de maneira evidente. A 20 de Outubro, a Imprensa da Manhã reivindicou para si a glória de ter preparado o movimento, mas repudiou as suas trágicas consequências, especialmente a morte de Granjo. Ora anteriormente, dia após dia, aquele diário havia acusado e ameaçado Granjo, injuriando-o sistematicamente. Como podia agora lavar as mãos da sua morte? Aliás, a atitude dos assassinos foi concludente: depois de matarem Machado Santos, dirigiram-se na camioneta da morte à Imprensa da Manhã para lhe agradecerem o apoio e para aquela publicar os nomes dos que tinham fuzilado o Almirante. Um deles confessou mais tarde que Machado Santos havia sido localizado por informações de jornalistas da Imprensa da Manhã. Os assassinos procuravam a satisfação e a glória de uma obra realizada, no diário matutino onde se proclamara a necessidade dessa realização.Os assassinos nunca esperaram ser castigados. Mesmo durante o julgamento sempre esperaram a absolvição. Quando foram condenados, entre gritos de vingança e de apoio à «República radical», alguns acusaram altos oficiais de não terem autoridade moral para os condenarem, pois estavam por detrás da carnificina. Os assassinos tinham, de certo modo, razão: eles tinham agido dentro da lógica que o republicanismo tinha instilado neles. Em todos os regimes que nascem e se sustentam no crime e no terror (por muito justa que a causa possa ser), há sempre o momento (ou os momentos) em que a revolução devora os próprios filhos.

Para terminar devo referir que nem Manuel Maria Coelho, nem nenhum dos «outubristas», conseguiu formar um governo estável. O horror fez todos os nomes sonantes recusarem fazer parte de um governo de assassinos. Menos de dois meses depois da revolução, António José de Almeida, em 16 de Dezembro de 1921, entregou a chefia do ministério a Cunha Leal.A GNR foi pouco a pouco desmantelada e reduzida a uma força de policiamento rural. A república ficara ferida de morte.

 

Novos tempos

por João Távora, em 18.10.21

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"Os nossos rituais estão para o tempo como a nossa casa está para o espaço, o ritual é um porto de abrigo que nos ajuda a unir o passado ao presente, o presente ao futuro, a unir as gerações passadas às gerações futuras, a criar um sentido de pertença comum".

Carlos Moedas há pouco no brilhante discurso de posse como presidente da Câmara de Lisboa. Cheira a novos tempos.

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Domingo

por João Távora, em 17.10.21

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Naquele tempo, Tiago e João, filhos de Zebedeu, aproximaram-se de Jesus e disseram-Lhe: «Mestre, nós queremos que nos faças o que Te vamos pedir». Jesus respondeu-lhes: «Que quereis que vos faça?». Eles responderam: «Concede-nos que, na tua glória, nos sentemos um à tua direita e outro à tua esquerda». Disse-lhes Jesus: «Não sabeis o que pedis. Podeis beber o cálice que Eu vou beber e receber o baptismo com que Eu vou ser baptizado?». Eles responderam-Lhe: «Podemos». Então Jesus disse-lhes: «Bebereis o cálice que Eu vou beber e sereis baptizados com o baptismo com que Eu vou ser baptizado. Mas sentar-se à minha direita ou à minha esquerda não Me pertence a Mim concedê-lo; é para aqueles a quem está reservado». Os outros dez, ouvindo isto, começaram a indignar-se contra Tiago e João. Jesus chamou-os e disse-lhes: «Sabeis que os que são considerados como chefes das nações exercem domínio sobre elas e os grandes fazem sentir sobre elas o seu poder. Não deve ser assim entre vós: quem entre vós quiser tornar-se grande, será vosso servo, e quem quiser entre vós ser o primeiro, será escravo de todos; porque o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida pela redenção de todos».

Palavra da salvação.

Comentário: Jesus realizou em Si a figura do Servo de Deus, de que falava a primeira leitura. E, se hoje O reconhecemos como “Senhor”, foi porque o Pai O exaltou e Lhe deu esse nome, que está acima de todos os nomes, depois de Ele ter sido obediente até à morte e morte de cruz. O caminho que O levou à glória foi o do serviço até à morte.

Comer o bolo e ficar com ele. A Habitação em Lisboa.

por Jose Miguel Roque Martins, em 17.10.21

 

Ontem, numa festa de amigos do tempo da Universidade, tive uma discussão acesa com um dos meus queridos e velhos amigos. Ele, mais com as ideias do tempo, eu,  com mais “radicalismo” liberal.  

A tese dele, a de que a CML, devia encorajar a vinda de jovens casais para a cidade. Por uma questão de justiça social, por um interesse da própria cidade, quer na fixação de jovens, quer como forma de mitigar a entrada de centenas de milhar de pessoas que engarrafam a cidade, tornando-a insuportável. Associado a estes temas surgiram, naturalmente, as questões do Alojamento local, do excesso de estrangeiros residentes e da entrega de casas aos mais necessitados.

Um embrulho complexo, difícil de discutir, que acende paixões e que, para mim, exemplifica, os grandes equívocos da sociedade Portuguesa.

A necessidade de politicas publicas para corrigir o que está errado, consequências nefastas do mercado ( mesmo quando não acontece) é o traço nacional, responsável pela maioria de esquerda e pelo nosso subdesenvolvimento. Enquanto assim continuarmos, será possível chegar ao que desejamos: mais progresso, mais qualidade de vida, mais liberdade para todos?

É um facto que viver em  Lisboa está muito caro e que mais pessoas que querem morar na cidade não o podem fazer.  Como acontece em Paris, Londres e nas cidades mais atraentes. Quando assim acontece, não será sinal que as coisas estão a correr bem para a Cidade, que se tornou desejável, que é alvo de desejo, porque terá virtudes, como a oferta de emprego, de diversão, de serviços, de cultura e de um funcionamento razoável, para além da média? Não será um feliz contraste com as cidades que perdem população e que não conseguem fixar, muito menos atrair, novos habitantes, apesar dos seus mais baixos preços de habitação?

É um facto que o problema poderia ser menor, caso existisse maior liberdade e celeridade em aprovar novos projetos de construção, ao contrario do que acontece, por inépcia da CML. Mais oferta, permitiria diminuir a pressão nos preços, permitir que mais pudessem viver em Lisboa, ao invés dos concelhos limítrofes. Também é um facto que o problema nunca poderá ser resolvido totalmente, enquanto a cidade se destacar como local de excelência para viver.  A procura irá sempre superar a oferta, enquanto os preços não se mantiverem superiores aos “subúrbios”. Mais desejado, um bem tem naturalmente um preço necessariamente superior. Um Rolls Royce não pode ter o preço de um Fiat Panda.

É um facto que se tivermos alojamento local e estrangeiros residentes, menos espaço sobra para os Portugueses. É também uma verdade que, sem esses alojamentos locais e estrangeiros, a cidade que se tornou mais arranjada, bonita, mais atraente, com muito mais oferta de restauração, lojas, cultura, empregos e riqueza, muito perderá. Muitos parecem esquecer-se como era a baixa há 10 anos, abandonada, barata, deserta, ignorada, perigosa, miserável, antes do “milagre” turístico que a tornou desejável. Assusta-me até, esse nacionalismo xenófobo, criticado por quase todos, menos no momento em que nos toca pessoalmente, no que consideramos ser os nossos interesses ou desejos, o que aliás me parece uma razoável definição de xenofobia.

É um facto que os altos preços da habitação em Lisboa, obrigará muitos a ir viver para outro sitio. Não se ter o que se quer, é  uma realidade familiar e infeliz, uma realidade impossível de eliminar, mesmo nas sociedades mais ricas, das quais não fazemos parte. Eu, como todos, ficaria radiante se todos pudessem ter o que querem. Não parece possível. Não será melhor concentrarmo-nos no melhor que conseguimos fazer no momento?

Parece razoável que não devemos combater problemas criando novos e piorando a situação. Se não for o mercado a ditar os resultados de quem pode aceder aos frutos mais desejados, vamos criar mais injustiças e menos riqueza. É certo que, quando temos um numero limitado de casas, se fizermos vir novos ocupantes, temos que expulsar antigos.

Se expulsarmos os reformados da cidade, podemos melhorar os problemas de transito. Será mais eficiente, mas será justo? Se vierem mais jovens, temos que exportar os mais velhos. Será justo? Se vierem mais pobres, temos que mandar embora os mais ricos. Será justo? Se limitarmos o numero de Alojamentos locais, estamos a criar espaço para mais habitantes autóctones, mas menos emprego e riqueza para todos e, no limite, o próprio interesse em viver em Lisboa. Será sensato? Será justo para os que ficarem mais pobres ou até os seus meis de subsistencia? Na objectiva impossibilidade de poder dar tudo a todos, será justo eleger, mesmo através de mecanismos de sorteio impolutos, a alguns, o que todos ( até os preteridos) vão pagar? Será razoável dar, em espécie, aos mais necessitados, neste caso, casas em Lisboa, ao invés de lhes dar o mesmo valor em renda mensal, que possam usar para gastar da forma que lhes dê maior satisfação? Das decisões aparentemente mais racionais, como por exemplo poderem ir viver para localidades mais baratas e menos congestionadas, ás menos racionais, como esbanjarem esses apoios nalguns almoços de lagosta e continuarem a viver em casebres? Temos mesmo o direito de considerar que, quem tem todos os seus direitos legais, seja declarado como incapaz de fazer as suas escolhas?   A sociedade apoiar os mais necessitados, apenas se os beneficiários desejarem o que lhes é imposto como bom, será o ideal?

Não é um facto que, o próprio mercado, não cria mecanismos automáticos de correção, que permite equilibrar o que fica desequilibrado? Oeiras, o concelho Português com maior PIB per capita, que cresce em postos de trabalho diferenciados e em qualidade de vida, não é a prova que é possível, pelo mercado, a correção da saturação de centralismo que traz custos de congestionamento? Será difícil imaginar que, no futuro, cada vez menos pessoas irão entrar em Lisboa, descongestionando a cidade, diminuindo preços da habitação, mas mantendo a riqueza que o turismo traz a Lisboa ( uma vantagem competitiva da cidade) e que Oeiras não pode dar?

Mesmo quando se reconhece alguns méritos ao mercado, que o comunismo foi um fracasso total, subsiste a ideia que se tem que ser “moderado”, corrigindo o mercado mesmo para além das suas verdadeiras e conhecidas patologias que, essas sim, têm que ser corrigidas.  A definição de moderado normalmente usada, não será  obter os resultados que pessoalmente consideramos desejaveis, em função dos nossos próprios preconceitos, desejos, boas intenções ou interesse próprio?

Comer o bolo mas ficar com ele, parece uma boa ideia. Mas não é possível.

Fado

por José Mendonça da Cruz, em 16.10.21

Ouvir Jerónimo de Sousa alucinar que com o dinheiro dos ricos que vai para as off-shores se faziam mais creches;  ouvir as meninas do resto do bloco sonhar com o aumento do saque e da estatização de tudo; ouvir os comentadores mais iludidos a verem mais uma «almofada» para gastos no que não passa de crescimento hipotético de 5%, nada quando chega sobre uma queda de 8%); ter a certeza que a «bazuca» não vai ser mais que outra esmola derramada no aumento da despesa corrente e da dívida; saber que Costa tem uma só política, ficar, e um só método, vender o que for preciso, com muita propaganda a travestir tudo -- ouvir estes pronunciamentos arcaicos e falidos (ou apenas manipuladores, ou simplesmente estúpidos) é ouvir e pressentir o nosso destino de subjugação, estagnação e miséria. 

O que é um negacionista?

por henrique pereira dos santos, em 16.10.21

Vera Novais e José Carlos Duarte escreveram uma coisa a que o jornal Observador (não sei como funciona, não sei se tem editores que olhem para o que os jornalistas fazem e escolhem títulos, não sei se tem um director que se responsabiliza por tudo o que lá se passa, não sei, e por isso não sei quem escolheu o título) deu o seguinte título: "Ordem dos Médicos instaura processo disciplinar contra médico negacionista de Coimbra".

O que escreveram pode resumir-se no seguinte: O Observador teve acesso a denúncias recebidas pela Ordem dos Médicos que acusam o médico de pertencer a associações, dizer umas coisas e fazer umas caminhadas, o que se traduz numa campanha contra a vacinação da Covid19. Após a análise destes factos, a seccção regional do Centro da Ordem dos Médicos decidiu avançar para um processo disciplinar.

Não me interessa nada discutir estes factos em si (eu sei, deveria interessar-me saber por que razão uma ordem profissional institui processos disciplinares por delito de opinião, mas já desisti dessa discussão) mas interessa-me discutir a notícia a partir do meu ponto de observação.

Diogo Cabrita, o médico em causa, era um dos irmãos mais novos (um ano de diferença) de um dos meus colegas da escola primária (uma das pouquíssimas fotografias minhas em criança, que conheço é exactamente numa festa de anos do Pedro Cabrita), e nunca mais o vi desde 1974. Mas há poucos anos restabelecemos contacto por via electrónica, através de um amigo comum, também meu colega de turma e vizinho do lado dos Cabritas em Lourenço Marques (hoje Maputo), razão pela qual vou acompanhando o que o Diogo tem vindo a fazer e escrever.

Durante bastante tempo, no início da epidemia, o Diogo era uma das pessoas a quem mais recorria para ter informação concreta sobre o que se passava nos hospitais, exactamente porque trabalhava na urgência de um dos hospitais de referência covid, aliás o único exclusivamente dedicado à covid. Para negacionista não está mau, como experiência sobre a doença.

Também por essa proximidade acompanhei o episódio em que o Diogo esteve nos cuidados intensivos, algum tempo depois de ter sido vacinado (nada mau, para quem, de acordo com os jornalistas, faz campanhas contra a vacinação), por causa de uma reacção estranha do seu organismo. O Diogo sempre disse que não podia atribuir esse episódio, em que quase bateu a bota, à vacina, embora também não pudesse dizer que as duas coisas não tinham relação, tratava-se de uma reacção do sistema imunitário que poderia ser desencadeada por qualquer coisa que foi impossível identificar, e foi depois desse episódio que o Diogo, no contexto da sua recuperação, fez uma caminhada de Coimbra a Lisboa, defendendo que não se vacinassem crianças e adolescentes e, já agora, alterou radicalmente a sua alimentação como medida profilática, tanto quanto percebi.

Os jornalistas omitem, na sua peça, todo este contexto: compreende-se, era desagradável escrever o que escreveram ao mesmo tempo que diziam que se tratava de um médico que fazia urgências covid - a que não era obrigado - quando muitos dos seus colegas mais novos arranjavam desculpas para não se exporem ao risco de uma doença sobre a qual se sabia muito pouco na altura.

O meu problema não é bem com os jornalistas.

Acho que o direito à asneira é sagrado e com certeza os jornalistas em causa têm o direito a:

omitir quem tem feito estas queixas sistemáticas à Ordem dos Médicos;

omitir que a própria Ordem dos Médicos tinha um parecer que escondeu do público durante meses e que o presidente do Conselho Nacional de Ética e Deontologia Médica da Ordem dos Médicos (Manuel Mendes da Silva) negou peremptoriamente que existisse, para rapidamente passar a dizer que se tinha esquecido da sua existência quando confrontado com a sua assinatura no dito parecer, parecer esse que dizia basicamente o mesmo que Diogo Cabrita;

omitir todo o trabalho de Diogo Cabrita relacionado com a covid,

e o mais que quiserem.

O jornal é que, se quer ser respeitado e ter credibilidade, não pode deixar de perguntar aos jornalistas, antes da publicação:

o que é um negacionista?

quem determinou que Diogo Cabrita é negacionista?

que critérios foram usados para falar de questões laterais (quem esteve ou deixou de estar na caminhada que fez de Lisboa a Coimbra) ao mesmo tempo que se omitem questões centrais da sua actividade?

que esforços foram feitos para ouvir o visado antes de publicar a peça em causa?

e por aí fora.

Dêem as voltas que derem, isto é jornalismo de treta.

Escusam de vir com a falta de meios, com as redacções pequenas e essas coisas todas, escolher fazer esta peça assim, escolher umas informações em detrimento de outras não é uma questão de mais ou menos meios, é uma questão de brio profissional e de qualidade do que se faz.

E peças destas não têm qualidade nenhuma, são lixo.

Crónicas de família

por João Távora, em 16.10.21

Leonor.jpg

(...) Sobre o livro "D. Leonor de Távora - o Tempo da Ira" da autoria do meu pai escreveu Helena Barbas num "especial" de duas páginas do semanário Independente de 18 de Março de 1993 intitulado "O Azar dos Távoras": "Existindo na fronteira entre o real e o imaginário, este romance histórico fundamenta-se num paradoxo: une a verdade dos factos com a «liberdade poética» que permite que os primeiros sejam modificados (embelezados, escamoteados, exaltados), ou seja, que tornem essa verdade numa mentira. Outro problema nasce da dúvida sobre a historicidade dos acontecimentos registados. Por tudo o que se (não) sabe - e que D. Luíz muito bem vai utilizando em seu, e nosso, proveito - todo o Caso dos Távoras gira em torno de uma magistral encenação levada a cabo pelo apagado membro da Academia de História que foi Carvalho e Melo. O argumento pombalino desorganiza-se em cenas que nem sequer respeitam uma decorosa verosimilhança, vindo a culminar no cruel e inesquecível espectáculo trágico - este inspirando o devido terror e piedade - que foi a execução pública da família Távora". O livro teve quatro edições, a última das quais em 2010. (...) 

Continuar a ler esta crónica que dedico ao meu pai, aqui 

Uma aldrabice chamada OE

por João-Afonso Machado, em 15.10.21

Ainda demorará mais de um mês a discussão parlamentar de uma das maiores inutilidades da República - o Orçamento de Estado. Um pequeno invólucro que Ferro Rodrigues exibe, no acto da sua entrega, com a maior alegria "ética" e contém páginas e páginas de números sobre números, nada mais valendo - actualmente - senão um "braço de ferro" entre o Governo e a Esquerda sua aliada.

Somente tudo serve para aferir lealdades - por um lado; para levar para casa (leia-se: para o sindicato) a consciência do trabalho feito - por outro; e para se consolidarem vitórias sobre a Direita, para se manter bem viva a chama revolucionária - em suma.

Orçamentos, rectificativos ou suplementares (os que serviam para acudir a situações imprevistas ou a negociações menos realistas), já não há, desde que Centeno inventou as famigeradas cativações e outros instrumentos congéneres. E, quem diria?! - como os números se prestam à fantasia...

O que há é a subida dos preços dos combustíveis por razões absolutamente tributárias; há os médicos e os enfermeiros do sector público em sucessivas greves: o SNS (o nosso sistema de saúde, por que a Esquerda tanto zela) exige uma carga de trabalho insuportável, não paga e não dispõe de meios nem oferece garantias aos doentes; há também os professores a reclamarem contra um Ensino inepto; há, finalmente (e por causa do permanente aumento nos combustíveis), um custo de vida que se agravará por todo o ano de 2022.

Mas o que é isto se o salário mínimo, com eficazes arautos a proclamá-lo, vai crescer uns eurozitos?

Foi muito, quando Costa inventou a gerigonça. Agora creio não será mais. Recordando Sócrates e toda a movimentação social de 2011, é provável que a "paz" que Marcelo tanto almeja, e lhe permite continuar a distribuir afectos, esteja por quase nada.

Nota: ando tão pouco de carro que pessoalmente a questão dos combustíveis não é importante; disponho, felizmente, de meios de ser tratado num hospital particular; e já não tenho filhos em idade de estudos. Não, as vítimas as aldrabices da Esquerda vão ser mesmo os mais pobres e desfavorecidos.

Lembranças

por henrique pereira dos santos, em 15.10.21

Há muitos anos, quando, por acaso e provável equívoco, eu era vice-presidente do ICN, era o representante desse instituto público no conselho nacional da caça, um fórum onde se juntavam organizações de caçadores e organizações de ambiente.

Nessa altura o ICN, ao contrário de hoje, não era a autoridade nacional do sector da caça e as organizações ambientalistas estavam convencidas de que o ICN tinha a obrigação de apoiar os devaneios ambientalistas em relação à caça, o que manifestamente não acontecia, frequentemente.

Numa dessas ocasiões houve uma discussão acessa entre as organizações de caçadores e as de ambiente por causa da idade a partir da qual se poderiam frequentar campos de treino e coisas afins (a carta de caçador, ou lá como se chamava a licença para caçar, já tinha limite mínimo de idade para ser atribuída, portanto já havia idade mínima para caçar).

As organizações de caçadores entendiam que sendo a caça uma actividade permitida, era melhor que fosse exercida por quem tivesse uma boa formação na actividade, pelo que entendiam que era absurdo que se impedisse a formação de futuros caçadores em idades em que essa formação poderia dar melhores resultados.

O representante de uma das organizações de caçadores dava o exemplo da sua casa, em que tendo vários filhos, uns eram caçadores e outros não, independentemente de todos terem tido a mesmo educação, concluindo que ou se nasce caçador ou não se nasce caçador, e para os que nascem caçadores, o melhor era terem formação adequado à actividade, tão cedo quanto os seus instrutores entendessem adequado (penso que a questão é que uns queriam que as pessoas com mais de doze anos pudessem andar pelos campos de treino e os outros quereriam qualquer coisa como 16 ou 18 anos como idade mínima, para se evitar a doutrinação de crianças influenciáveis).

Se não me engano, penso que o ICN acabou por concordar com os caçadores, não havendo nenhuma razão objectiva para proibir o contacto com a actividade da caça em idades tenras.

Por acaso, ao almoço, acabei por ficar na mesa em que estava o grosso dos representantes dos caçadores que, simpaticamente, me queiram convencer a ir a uma caçada não sei onde.

Francamente, quer por razões institucionais, quer por razões pessoais, não queria aceitar o convite, mas também não queria ser desagradável e andei por ali a fugir a dar uma resposta, até me lembrar de citar o que tinha ouvido de manhã: ou se nasce caçador, ou não se nasce caçador, e eu não tinha nascido caçador, o que resolveu a situação a contento de toda a gente.

Lembrei-me desta história a propósito da proibição de ir ver toiradas antes dos 16 anos.

Trata-se de uma proibição idiota, quer porque na prática não impede ninguém de ver touradas  (quer em Portugal, quer em Espanha, quer na televisão), quer por uma questão de princípio: trata-se de uma mera proibição assente nos valores morais de uma minoria mais que minoritária na sociedade.

A associação pró-toiro e outro tipo de organizações relacionadas com a actividade, em vez de andarem a protestar contra a decisão, deveriam simplesmente promover um referendo sobre o assunto, que é o tipo de coisas em que os referendos são úteis, e aceitar o resultado do referendo, se o perdessem, o que significaria que estou errado nesta minha ideia de que o apoio social a esta medida é ultra-minoritário.

Eu, que para além de não ter nascido caçador, também não nasci aficionado, ofereço-me desde já para fazer campanha para a revogação dessa norma, em nome da liberdade das famílias educarem os seus filhos de acordo com os seus valores, em nome da liberdade de expressão, em nome do combate a regulamentação absurda que permite todo o género de violência em horário nobre de televisões em sinal aberto, incluindo telejornais e afins, mas pudicamente quer impedir marmanjos de 15 anos de serem sujeitos à violência de uma tourada e, sobretudo, em nome do dever de resistir à intervenção do Estado na definição do que é permitido e proibido em matérias que apenas dizem respeito aos interessados e nas quais não há qualquer prejuízo para terceiros.


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