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Travar a epidemia ou gerir os seus efeitos

por henrique pereira dos santos, em 31.07.21

"The closure of schools for summer, the end of the Euro 2020 soccer championships and warmer weather are among factors epidemiologists say might have reduced social mixing indoors and therefore cases, even as England's economy has fully reopened".

Desde o princípio da epidemia que há um braço de ferro entre duas concepções de gestão de epidemias:

  • a largamente dominante, que pressupõe que sem contactos não há contágios e portanto se se controlarem os contactos controlam-se os contágios e, consequentemente, se trava a epidemia quando se decide fazê-lo;
  • a largamente minoritária que pressupõe que não há forma de controlar contágios, quer porque as sociedades não se comandam centralmente, quer porque nunca saberemos o suficiente sobre os processos naturais para os poder controlar totalmente - admitindo que mesmo que soubéssemos tudo, teríamos os meios necessários para esse controlo, o que não é linear - e portanto a gestão de uma epidemia é a gestão dos seus efeitos na sociedade, sabendo que em caso algum conseguiremos travar a epidemia.

Ao longo deste ano e meio o facto é que ninguém conseguiu controlar a epidemia em lado nenhum (talvez com a excepção da Nova Zelândia, visto que o caso chinês é do domínio da propaganda) e que diferentes abordagens sobre a forma de controlar contágios deram mais ou menos o mesmo resultado em todo o lado.

Como quase todos os governos adoptaram a racionalidade política associada à necessidade de afastar qualquer responsabilização do governo na mortalidade atribuída à epidemia, não está feita seriamente em lado nenhum a demonstração de que de facto as diferentes medidas que foram sendo tomadas têm efeitos reais, e qual o peso desses efeitos no conjunto de factores, naturais e não naturais, que determinam a evolução da epidemia.

O primeiro parágrafo deste post é um bom exemplo de como as pessoas que estão profundamente convencidas de que a abordagem maioritária é a única possível tentam justificar o evidente desfasamento entre o que dizem e o que se verifica (o que está em causa não é o facto de se dizerem asneiras, toda a gente tem dito asneiras sobre a epidemia, o que está em causa é a demonstração da utilidade de uma ou outra abordagem e a resistência de cada um às evidências que se vão acumulando).

"The Imperial College London epidemiologist recently predicted that Covid infections could reach 100,000 a day, possibly even 200,000, though he stressed that was unlikely.

On Monday just under 25,000 cases were reported, having more than halved in nine days, but Professor Ferguson said it was still “too early to tell” whether the 100,000 mark would be hit as it would take several weeks before the “effect of the unlocking” is clear".

As pessoas que argumentam com o fim das aulas e do Euro 2000 para explicar variações em quinze dias, argumentam com a necessidade de esperar "several weeks" para avaliar o efeito do fim das restrições no Reino Unido, mesmo tendo o exemplo da Suécia, em que a epidemia evoluiu essencialmente em linha com o resto do mundo, da Florida, em que não se consegue ver qualquer o efeito do levantamento das restrições há meses atrás, ou do Texas, cujo levantamente de restrições em Março também não é visível nos números.

Diga-se que quer a Florida, quer o Texas, tal como os outros estados sub-tropicais do Sul dos Estados Unidos, estão a assistir agora a crescimentos rápidos do número de casos, tal como aconteceu no ano passado na mesma altura do ano ("Não há, insisto, *não há*, qualquer demonstração da existência de sazonalidade na evolução da pandemia" escreve João Seixas, um feroz defensor da opção dominante de gestão da epidemia, apesar do que escrevem outros que estudaram o assunto de forma um bocadinho mais aprofundada), embora com mortalidades que são um terço do que eram no ano passado.

No dia 18 de Julho, Carlos Antunes (um dos principais arautos da abordagem dominante da epidemia em Portugal) escrevia: "Com uma positividade na ordem de 5.7% e com uma taxa de incidência de 414 casos por 100 mil habitantes, o país já está classificado em Nível de Risco 3 (numa escala de 1-4) pelo ECDC. Se viermos a ultrapassar os 500 casos por 100k habitantes, o que é bem provável, o país atingirá o nível máximo", numa altura em que já era provável que o crescimento dos dias anteriores não fosse continuar ao mesmo ritmo. Portugal, nem de perto chegou a uma incidência de 500 casos por cem mil habitantes nos dias seguintes (no futuro não sabemos) e até hoje, apesar da minha insistência, Carlos Antunes não explicou em que se baseou para dizer que era provável que o país a atingisse.

Henrique Silveira (ou Oliveira, depende) também é um dos defensores acérrimos da primeira abordagem da epidemia e, por exemplo, publica gráficos como este, com barras verticais que não passam de cherry picking de acontecimentos, omitindo os que não servem para o que se quer dizer, e apenas usando alguns quando dá jeito (por exemplo, o funcionamento das escolas não aparece sempre assinalado, apenas quando se pretende demonstrar a tese prévia de que o funcionamento das escolas têm algum efeito relevante na evolução da epidemia, mesmo que, em Portugal, o período de maior contágio tenha ocorrido durante um período de férias escolares).

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O que se está a passar no Reino Unido é um poderoso antídoto contra a irracionalidade da gestão da epidemia que surgiu da ideia estúpida de que somos nós que controlamos a natureza, que já antes foi aplicada a vários outros fenómenos naturais (Portugal sem fogos depende de todos, ou a campanha das quatro pragas, para citar dois exemplos).

Não chegará para mudar os dados do problema no curto prazo mas, a seu tempo e aos poucos, o braço de ferro entre os aprendizes de feiticeiro e os "pobres homens da Póvoa", que sabem que são pó e em pó se voltarão a tornar, equilibrar-se-á um pouco, felizmente.

As falácias do Sr Louçã (5)

A redistribuição e políticas sociais no Liberalismo.

por Jose Miguel Roque Martins, em 30.07.21

 

Para não deixar a questão de redistribuição por responder, já que até eu estou farto de falar do Sr Louçã, encero hoje, a critica ao artigo de Louçã, uma oportunidade, também, para revisitar alguns temas importantes do liberalismo.

A escolha de Nozic, ao invés de John Rawls, não é inocente. Ambos são filósofos de primeira grandeza, ambos são liberais.

Nozik leva ao limite as protecção das liberdade individuais. Como corolário, temos uma exigência de um estado mínimo e da impossibilidade de a sociedade não obrigar o individuo a dar o que é seu, “roubar”  o individuo daquilo que conquistou e lhe pertence. Não se pode invocar justiça social, já que para falarmos em  justiça, teria que existir um culpado, o que num mundo complexo, não existe. Nozik não é propriamente um libertário, assumindo que as despesas mínimas do Estado ( segurança, exercito, justiça) tenham que ser pagas através de impostos, pagos por todos os cidadãos.

Decorrente desta defesa intransigente da liberdade individual, logicamente conclui, que não podem ser impostas politicas redistributivas. Que compete, exclusivamente, ao cidadão, querendo, ajudar na medida dos seus desejos, os menos favorecidos que entenda ( ou não) ajudar.

A filosofia de Nozic é lógica, cientificamente inatacável, poderosa pela sua simplicidade, mas não é popular. A redistribuição de rendimentos merece largo consenso, pelo menos nas sociedades ocidentais. Ligar o liberalismo a um filosofo liberal, com teses impopulares, representa uma vertigem para qualquer detractor do liberalismo, como acontece com Louçã.

Não sendo um seguidor de Nozic, não deixo de ser, nem um liberal de pleno direito, nem um órfão de abordagens filosóficas liberais que sustentem a “justiça social”.

John Rawls é uma referência liberal pelo menos tão importante como Nozik. Mas ao contraio deste,  justifica a redistribuição e políticas sociais.  E, por isso, parece ser uma referencia incomoda para Louçã, tal como o reconhecimento de Milton Friedman, um mero economista,  ao espaço para políticas sociais, com o famoso imposto negativo.

Na base das teorias de Rawls, mais complexas e sofisticadas, está um simples desafio:  escolher um modelo de sociedade,  o limite das liberdades individuais, não sabendo qual vai ser o lugar do cidadão na sociedade. Ser vai ser rico ou miserável, desempregado ou com trabalho, doente ou saudável, importante ou ignorado, de nível familiar privilegiado ou excluído. Apenas uma  escolha, em abstracto, sem conhecimento prévio da posição que cada individuo ocupa na sociedade  pode, assim,  legitimar escolhas sociais. 

A conclusão final de Rawls é a de que, protecções sociais, seriam  a escolha da quase totalidade da população, caso fosse possível fazer a escolha nas condições adequadas e preconizadas.

Assim, para a maior parte dos liberais, medidas sociais são consideradas adequadas e justificadas, apesar de poderem representar, á posteriori, uma imposição sobre o individuo. E também existem liberais que, ao contrario, consideram a imposição de medidas sociais, sempre injustificadas.

Tal como também  acontece nos campos socialistas, sociais democratas e conservadores, permaneça a questão da fixação de limites a essa intervenção social. Abrindo-se a porta para uma discussão legitima Apenas o Comunismo e Nozik, resolvem esta tensão.

O liberalismo não é uma corrente filosófica, política e económica, monolítica e fechada. Como acredito que nenhuma outra corrente filosófica,  pelo menos virtuosa, o possa ser. Não apresenta, por isso, um manual de instruções definitivo e global, nem responde taxativa e numericamente a todas as questões.

O respeito pelas perspectivas, direitos e liberdades individuais, e consequentemente, pela diversidade e tolerância a pontos de vista, representa um cunho inalienável e único do liberalismo.  Só esse aspecto, enobrece-o.

O liberalismo, qualquer que seja a sua declinação prática, não estará isento de criticas fundamentadas. De inquietações legitimas e algumas insanáveis, nem que sejam  de apenas um individuo.  Não será possível agradar totalmente a todos, em todas as circunstâncias e para todo o sempre. Não ficar satisfeito com maiorias ou minorias expressivas, mas respeitar cada individuo, é a principal singularidade do liberalismo. A sua maior virtude e o seu maior desafio.

A grande vantagem do liberalismo não é apenas responder de forma simples e clara, a anseios básicos e fundamentais da maior parte dos seres humanos, mas também poder ser,  progressivamente, cooptado por outras correntes de pensamento, como tem acontecido nos últimos séculos, desde John Locke. O que mesmo não directamente, muito tem avançado a causa liberal.

 A demonização do liberalismo, tanto no campo político, como no económico, é tão constante como injusto. Representando, em demasiados casos, o medo que um maior conhecimento do pensamento liberal, possa esvaziar a base de apoio de grupos políticos que sabem não conseguir proporcionar tanto bem estar, psíquico e económico, aos cidadãos, nem respeitar tão profundamente cada um de nós. E para quem, respeitar a liberdade dos outros, não é uma prioridade ou até um objectivo.

O ângulo morto

por henrique pereira dos santos, em 30.07.21

Por puro acaso, voltei recentemente a ver este video sobre o colonato do Limpopo.

O video tem coisas interessantes e tem Fernando Rosas.

O que me impressiona é Fernando Rosas (e quem definiu o guião do episódio), seguir uma prática frequente na história contemporânea portuguesa, em especial na que se debruça sobre a história colonial: há um evidente interdito que impede historiadores  - e jornalistas, já agora - de recorrer à memória de alguns grupos sociais relevantes para perceber a complexidade desse processo histórico.

Nunca estive no colonato do Limpopo (que me lembre, mas tenho péssima memória) antes do 25 de Abril, lembro-me sim de uma vez ter ido a uma reserva no vale do Limpopo, mas seguramente com muito pouca relação com o colonato: era uma reserva natural, quase sem intervenção humana pesada, um bocado na sequência do Kruger Park, calculo eu hoje (penso que seria a origem do actual Parque Nacional do Limpopo, mas não garanto), ao contrário do colonato do Limpopo, que era uma área de intensificação agrícola através de investimento em regadio.

Aqui, de forma breve, uma visão alternativa do que foi esse colonato.

Mas a minha mulher viveu lá até 1974 ou 1975, o meu sogro fazia parte da brigada técnica do colonato (era um agrónomo que sempre trabalhou em regadio e, tanto quanto sei, foi para África à conta de assuntos de saias, motivação que provavelmente o historiador Fernando Rosas nunca consideraria nas suas análises) e estive lá, no que é hoje o Chokwé, há coisa de quatro ou cinco anos, quando a minha mulher resolveu ir mostrar-me a casa onde tinha crescido (e onde tinha estado uns anos antes, quando tinha voltado a Moçambique, numa altura em que não fui, uma história que já contei por aqui).

A tese do episódio para que fiz uma ligação na primeira frase do post, é a de que se tratava de uma tentativa de colonização branca das colónias portuguesas, explicando todo o processo numa base racial, para o que evidentemente foi preciso ajeitar os factos, esquecendo os colonatos da Junta de Colonização Interna que também foram criados em Portugal (Santo Isidro de Pegões é o mais conhecido e que ainda hoje subsiste, mas houve bastantes mais, pensados e estudados por pessoas como Henrique de Barros, cujo alinhamento com o regime toda a gente sabe qual era), investimentos como Cabora Bassa e outros pormenores que não encaixam na tese.

O episódio acaba com citações de Cláudia Castelo (não sei de onde, gostaria de as verificar no original, conheço a visão sectária de Cláudia Castelo sobre o assunto, mas isso não diminui o meu interesse em ler o contexto das afirmações feitas) que afirmam que os colonatos foram meras acções de propaganda falhadas, o que se pretende demonstrar com a diminuição progressiva do número de colonos.

Espantado com algumas afirmações que, mesmo já dando o desconto de serem feitas por Fernando Rosas, careciam de um mínimo dos mínimos de rigor, fiz duas ou três perguntas à minha mulher sobre a composição racial nas escolas (o desprezo com que Fernando Rosas fala do que chama assimilados é uma inequívoca demonstração do seu profundo racismo).

Confirmei que na escola primária - e havia uma por cada uma das treze aldeias do colonato, a brigada técnica estava sedeada na vila, sendo o que a minha mulher conhece melhor, naturalmente, saiu de lá na adolescência, numa altura em que subir às árvores era bem mais relevante que compreender a sociedade em que se está metido - havia uma mistura racial enorme.

No secundário a questão era diferente, primeiro porque só havia na vila, e algumas aldeias eram mesmo longe, e depois porque se verificava a distinção social que existia também em Portugal no ensino secundário, com os filhos da burguesia e dos colonos a serem quase todos brancos e a população escolar no colégio.

Falta-me o meu sogro para perguntar como era na escola agrícola em que também deu aulas, suspeito que teria tantos alunos brancos como mulatos e pretos, mas já não lhe posso perguntar para confirmar.

Mas como a minha mulher insistia na falta de certezas, que a memória vai falhando, e para além disso estava no colonato como filha de um funcionário público e não de um colono, resolvi fazer duas ou três perguntas a um amigo que sobrou do tempo da tropa e de que me lembrava ser filho de colonos do Limpopo.

Explicou-me que realmente o pai tinha ido para Trigo de Morais como colono, em 1956 (quase no início do colonato, a primeira aldeia começa em 1953, mas é em 1956 que é inaugurada a barragem, o meu sogro só foi mais tarde), a mãe tinha-se depois juntado em 1960, tinham vivido primeiro na vila, depois em Leonde, mas saíram do colonato em 1961: quando acabou o contrato com o Estado preferiu fazer uma machamba dele no mato e por outro lado os grandes trabalhos de desmatação e de construção de infra-estruturas estavam feitos, aspectos que explicam bem a diminuição de colonos, mas que Fernando Rosas esquece.

A história, como se vê, é o contrário de um falhanço, é a de um homem que sai da pobreza da sua terra, faz cinco anos de contrato com o Estado, e com os recursos e experiência conseguidos, investe numa machamba própria para dar um futuro melhor aos seus filhos. No entanto, percebo que seja difícil a Fernando Rosas falar disto sob este ponto de vista, e não sob o ponto de vista da diminuição de colonos como consequência das condições miseráveis a que os colonos eram sujeitos.

Explicou-me que ele próprio viveu muito pouco tempo no colonato, conhecia Leonde das visitas que os pais faziam a amigos, e explicou-me que fez a primeira classe numa aldeia (que não fazia parte do colonato, estava a 60 quilómetros em linha recta de Trigo de Morais, hoje Chokwé, o que na África daquele tempo pode significar várias horas de viagem) em que ficava em casa de um amigo dos pais - a machamba era no mato, não dava para ir e vir à escola - e quando os amigos se mudaram, foi para um internato em Lourenço Marques, hoje Maputo, numa missão (penso que uma escola técnica salesiana) em que a maioria dos alunos eram orfãos pretos (que me perdoem os mais sensíveis ao politicamente correcto, mas os meus amigos pretos sempre foram pretos, e essa designação não tinha, nem tem, nem para mim e nem para eles, qualquer conotação negativa).

E confirma a mistura racial na escola primária, que eu próprio conhecia da minha escola primária, apesar de ser a escola da burguesia colonial urbana de Lourenço Marques, a que a minha família pertencia (a definição da burguesia colonial está muito longe das vulgatas marxistas habituais, incluía muitos funcionários públicos de origem social mais que modesta e a quem a escola tinha permitido o acesso ao funcionalismo público e à progressão na carreira, outra coisa que Fernando Rosas desconhece seguramente).

Considerar uma obra de irrigação de uns milhares de hectares, que deu origem a um povoamento consistente, que ainda hoje persiste, à instalação de comunidades religiosas, mas também de fábricas e uma escola agrícola, como uma obra de propaganda que falhou, é uma visão peculiar da realidade.

Mas não é essa visão peculiar que me interessa, não tenho ilusões sobre o peso da ideologia na história contemporânea e não pretendo que a minha visão seja mais objectiva e menos ideológica que a de Fernando Rosas (eu acho que é, mas Fernando Rosas achará o inverso com a mesma legitimidade), o que me interessa é o que me distingue de Fernando Rosas na abordagem da questão: Fernando Rosas filma-se no Chokwé a explicar o que acha que era a realidade, eu seguramente filmaria as pessoas comuns que ainda lá andam a falar do que viveram nesse tempo.

Tal como daria espaço aos colonos e pessoas próximas que ainda por aí andam (ainda um dia destes num zapping qualquer aparecia uma senhora a dizer que tinha nascido em Trigo de Morais, hoje Chokwé, muito provavelmente filha de colonos), aos técnicos que ainda estejam vivos, e outras pessoas comuns, para registar as memórias de diferentes pontos de vista sobre assuntos complexos.

Infelizmente, os historiadores contemporâneos que conheço e tratam estas matérias contentam-se em olhar pelo retrovisor ampliando o ângulo morto que decidem ignorar: a voz e as memórias das pessoas que estavam lá, mas no lado da história que eles consideram errado.

Esses testemunhos não são mais objectivos que outros, mas as diferenças de pontos de vista ajudariam a compreender de forma mais profunda toda a complexidade do processo de colonização e descolonização, evitando-se uma série de tolices que Fernando Rosas diz neste programa, sem a menor base factual (se o meu sogro ouvisse Rosas a falar do carácter autoritário da brigada técnica sorriria com evidente ironia e limitar-se-ia a constatar em voz alta o óbvio: é tolo).

A minha enxada

por João Távora, em 29.07.21

Enquanto o mundo inteiro andava entretido com prioridades inadiáveis e assuntos de suma-importância, na terça-feira passada quando enviava um orçamento a um cliente, o meu fiel computador portátil já com doze anos de trabalho em cima e algumas letras do teclado desvanecidas, entregava a motherboard ao criador. E eu a pensar que tinha uma vida difícil... privado da minha enxada, vi-me subitamente numa grande aflição - que foi como se me tivessem cortado os dois braços. Claro está que adquiri logo um novo que me chegou cheio de mariquices que é donde agora vos escrevo esta crónica. Evidentemente que desde ontem tenho andado fanaticamente a formatá-lo para que a organização, funcionalidades e eficiência se pareçam tanto quanto possível com o meu defunto companheiro. Certo é que com estes maus-tratos iniciais já perdeu aquele irritante ar imaculado e daqui a uns dias nos iremos entender às mil maravilhas. Mas pronto, é só a minha enxada e a vida dos outros continua como se isso fosse óbvio.

As falácias do Sr Louçã (4)

A segunda traição, os inimigos da democracia

por Jose Miguel Roque Martins, em 29.07.21

 

Com base em varias afirmações de Hayek, Milton Friedman e Buchanan, Louçã “demonstra” a desconfiança, senão rejeição, dos liberais contemporâneos à democracia. Um absoluto absurdo.Mas que constitui a trama, da segunda traição dos liberais. 

As alegação apresentadas, são de que os distintos e supra citados liberais, conspiraram com Pinochet, por serem antidemocratas.  A associação “preferencial” do liberalismo a ditaduras, o passo seguinte.A conclusão, que os liberais são inimigos da democracia, senão mesmo incompativeis com ela.  

O Regime de Pinochet é responsável por demasiadas atrocidades. O liberalismo económico, que instituiu, não é um deles. Ainda hoje o Chile, antes muito pobre, é o país mais rico da América Latina. 

Porque nunca condena todos os regimes de fome e idênticas ou piores atrocidades, por países de esquerda radical, noutros artigos, pelo menos que eu tenha conhecimento? Talvez lhe estabelecesse mais legitimidade  a condenar ditaduras, o que não permitiria, de qualquer forma, estabelecer o que pretende. 

A primeira “prova”, são  afirmações dos acusados, que defendem que o liberalismo Económico, pode conviver com uma ditadura. A realidade demonstrou exactamente esta tese, com o sucesso do Chile e com o triunfo actual da China. São culpados ou têm razão?

O liberalismo económico, a economia de mercado, é um sistema económico, baseado na liberdade do individuo. Por isso mesmo é a  extensão natural, no plano económico, das filosofias liberais.  Mas mesmo sem o suporte de uma filosofia política e moral, a economia de mercado não deixa de ser um sistema económico, que não só funciona, como produz melhores resultados do que qualquer outro. Razão pela qual, pode ser seguido por qualquer regime político, mesmo em tirania. De direita, ou de esquerda.  Regimes tirânicos mas que melhoraram a vida económica das suas populações. Exactamente o contrario do que acontece, ainda hoje, em Cuba, Venezuela e Coreia do Norte, que são tiranias de fome e miséria. 

A segunda “prova”, por citações de Hayek e Milton Friedman,  que reconhecem ser teoricamente possível, a uma ditadura, não apenas abraçar o liberalismo económico, mas também direitos e liberdades amplos aos cidadãos, com exceção da escolha do seu próprio regime. Critica-se, uma tese possível, que não foi defendida  como ideal. Se bem que melhor do que uma democracia sem direitos, liberdades e garantias individuais e progresso para os cidadãos. O que por sua vez também será melhor do que o comunismo, onde não existe democracia, progresso ou direitos e liberdades individuais. Já para não mencionar serem eventuais incentivos a uma abertura da sociedade Chilena. Uma das raras ditaduras que evoluiu organicamente para a reposição da democracia, provavelmente, também  uma consequência influenciada pela tradição de maior  liberdade económica ( vamos ver na China). 

 A terceira prova, a citação de Buchanam, referindo que  se deviam  “retirar certas decisões da determinação pelo voto da maioria” pretensa demonstração máxima  da falta de respeito pela democracia pelos liberais. Um total disparate . É exactamente o que todas as democracias fazem, ao proteger liberdades e direitos individuais, consignando-os na constituição, de forma a impedir que, democraticamente,  a maioria possa tiranizar indivíduos e minorias. É este um principio básico perseguido por todos os liberais e por todas as sociedades em que se valorizam e defendem os direitos e liberdades dos indivíduos.

A serem verdade, as alegações de que Buchanan era racista, apenas a ele o compromete, não correspondendo, obviamente, a qualquer ideário liberal.

Louçã, provavelmente de forma genuína, faz uma grande confusão entre democracia e liberdade. Será porventura um Rousseliano tão convicto, que não consegue mesmo entender, que a vontade da maioria, não é a vontade de cada individuo. Que cada ser humano, tem o direito de ver reconhecidas liberdades e direitos próprios, que a maioria não deve cercear.  Este será mesmo um dos seus grandes problemas.

Os erros  não me parecem, infelizmente, poder ser reduzido a incapacidades próprias. Já há muitos anos que Louçã me provoca  reacções alérgicas, pelo que peço ao leitor, uma especial atenção à qualidade dos meus argumentos e conclusões. Estarei, também, a ser enviesado? 

Quando fala de três figuras publicas, que falaram e escreveram como poucos, durante tanto tempo, se fossem antidemocratas, Louçã não teria encontrado nada que o provasse?

As permanentes distorções da realidade e conclusões demasiado fracas, poderão  ser coincidências infelizes, quando falamos de  alguém manifestamente inteligente e articulado? 

A selectividade pouco representativa do pensamento de quem critica ou aplaude,  pode ser um acidente fortuito?

A tentativa de amesquinhamento do liberalismos, por erros de julgamento pessoais por parte de liberais, não é patente? 

Para mim, os erros de Louçã, são propositados. A falácia, o seu método. A sua intenção, a manipulação. 

(continua) 

As falácias do Sr Louçã (3)

A primeira traição: o liberalismo económico

por Jose Miguel Roque Martins, em 28.07.21

 

É no seu ataque ao liberalismo económico que Louçã chega ao delírio. Sugerindo que o livre mercado é compatível com uma intervenção supostamente ilimitada do Estado e que a nacionalização dos meios de produção, não é uma aberração completa para um liberal, quando é a negação completa do direito e liberdades económicas de que qualquer cidadão deve beneficiar.

Louçã cita Adam Smith: “Mas tais exercícios da liberdade natural de alguns indivíduos, que pode pôr em perigo a segurança de toda a sociedade, são, ou deveriam ser, restringidas pelas leis de todos os governos (...). A obrigação de construir paredes para prevenir a extensão de um fogo é uma violação da liberdade natural, exactamente como as regulações da actividade bancária que aqui são propostas”.

Concluindo desastradamente ( ou não) que  “Deste modo, Smith não preconizava um mundo povoado por empresários que calculariam os seus lucros potenciais através do seu apurado egoísmo; para um liberal pragmático como ele, a força do mercado tinha que ser limitada por regras que protegessem o bem comum. A consequência é imensa, é a democracia que garante a liberdade.”

Não se percebe o salto que explique a pretensa critica de Adam Smith aos lucros de empresários egoístas. Não se entende que a admissão de limites á liberdade individual, pela potencial ofensa á liberdade e interesses dos outros, não seja património liberal. Não é admissível que a regulação da Economia ( no exemplo do mercado financeiro) não seja entendida como parte integrante do liberalismo económico.  

Reconhece que a noção de que para os liberais não é válido o laissez-faire. “Apenas” omite que os liberais acreditam que há patologias do mercado que têm que ser corrigidas. Não apenas os bons, aqueles que já morreram, ou são “pragmáticos” mas todos os liberais vivos.  É um chão comum, consensual. Para os liberais, o Estado deve intervir para corrigir todas as patologias do mercado. Mas só nestes casos, que são muitos.

 Mais uma vez a forma de apresentação nem é feliz, nem inocente. A sugestão de  que o âmbito das intervenções no mercado, não sejam exclusivamente dirigidas à correcção das patologias, conhecidas, estudadas e conhecidas, é uma trapaça. E a sugestão de que nem os mais manifestos problemas do mercado,  são reconhecidos pelos liberais, uma enormidade.

Desenvolve uma narrativa, de forma cautelosa e inteligente, procurando deixar uma mensagem: os liberais (bons) são partidários da intervenção indiscriminada na economia e até são partidários da nacionalização dos meios de produção. Um salto impossivel, mas que Louçã procura estabelecer.

De forma hábil, ao enfatizar defesas de patologias do mercado, por parte dos bons liberais, insinua, estabelece, que a protecção de patologias de mercado é algo que não faz parte do património comum liberal.

Quando glorifica Walras por defender que  o Estado,  “deve controlar, se necessário, os caminhos de ferro, dado que seria uma “verdadeira aberração” invocar o princípio da concorrência numa situação de monopólio natural e de serviço publico”, uma clara e óbvia evidencia, sem oposição de ninguém,  e quando sugere que Walras, que morreu há mais de um século, foi dos últimos a defender a intervenção do Estado na economia, mente descaradamente, insinuando que os liberais de hoje, nem reconhecem as mais gritantes patologias do mercado, nem aceitam a intervenção adequada do Estado na economia.

A escolha de Walras não é feita por acaso. É a forma de mais naturalmente apresentar a tese de que os economistas bons também são partidários da nacionalização dos meios de produção, já que Walras, apresentou uma proposta de nacionalização da terra ( que eu desconhecia, tamanha é a centralidade desta tese nas contribuições de Walras) . A introdução de uma ideia extraordinária, de que, para os liberais ( ou pelo menos para os bons) a Estatização dos meios de produção é uma possibilidade. A ideia de que os bons liberais estão próximos do comunismo ou socialismo, não é simplesmente verdade. Por mais geniais que possam ser os argumentos e a habilidade do demagogo que o possa tentar demonstrar. Assim como apresentar Walras como o maior critico, do maior critico, de Marx, não faz dele marxista. É apenas uma tentativa de associação subliminar, que a multiplicação de dois números negativos produzem um positivo. Ou talvez, que o inimigo do meu inimigo é o meu amigo. Não é simplesmente o caso.

O génio e grandeza de Walras não merece este aproveitamento ideológico. As suas contribuições são muitas, importantes, boas e actuais. A sugestão da nacionalização da terra, não está nesse conjunto. É  a nódoa que cai no melhor pano e não corresponde, nem ao património do liberalismo, nem sequer de um pequeno grupo de liberais. É mais um caso de tentar que uma  ínfima parte defina o todo, tão da preferência de Louçã, quando lhe convém.

Como Louçã muito bem refere, Keynes é outro grande economista liberal. Era partidário da Eugenia, o que não significa que a Eugenia seja defendida pelos liberais. Já agora, alguém tem duvidas que Keynes advogou a intervenção do estado na economia, muito depois da morte de Walras em 1910?

Apenas para esclarecer, as criticas de Milton Friedman a politicas orçamentais, não faz de Keynes menos liberal do que era. Keynes, simplesmente identificou mais uma patologia de mercado e encontrou uma solução, que dependia do Estado.  Milton Friedman, não criticou os contributos de Keynes, criticou a generalização infeliz da aplicação dos remédios de Keynes, em situações que nada tinham a ver com a patologia por ele identificada. No que esteve completamente certo.

O grande debate entre Keynes e Milton Friedman, apenas produziu uma gloriosa síntese: políticas keynesianas sim, apenas quando defrontarmos uma crise de liquidez.

Não, nem Adam Smith e Walras defenderam a intervenção Estatal sem limites claros, nem os liberais admitem a colectivização dos meios de produção. Pretender o contrario é apenas mentira. Que parece convenientes para a esquerda radical, que Louçã, antes de quaisquer outros princípios, defende sem limites.

As falácias do Sr Louçã (2)

A primeira traição ---- os regimes liberais

por Jose Miguel Roque Martins, em 27.07.21

Nas primeiras páginas do seu artigo, o Sr. Louçã reconhece o extraordinário relevo das contribuições de Thomas Paine e John Stuart Mill, no combate à tirania e os seus contributos relevantes para o sufrágio universal. Que culminaram, em 1918, no Reino Unido,  com o direito de voto ( não universal) ás mulheres, na vigência de um governo liberal.  Reconhece, igualmente, que durante o mandato do Partido Liberal, no Reino Unido, “Era, mais uma vez, um liberalismo pragmático, que criou as ideias fundadoras de um seguro de saúde e desemprego, das pensões de velhice e de impostos progressivos, enquanto defendia o comércio livre, a redução do poder do rei e da Igreja oficial e o reforço do parlamento, mas sobretudo o império”. Já depois, parece claro para o Sr. Louçã  que, para além dos "liberais pragmáticos", o liberalismo poderá ser um covil de conservadores pouco recomendáveis ou até de perigosos fascistas. 

Para tanto, basta um passe de mágica. Não discutir o liberalismo, mas supostos regimes liberais, que não o foram. Para logo julgar e condenar o liberalismo, estabelecendo ( independentemente dos mais que  duvidosos méritos das suas criticas e conclusões) que os regimes liberais, não funcionam, nem estão de acordo com os seus princípios. O que parece a real descrição dos regimes comunistas.

É verdade que, a partir de Locke, as liberdades e  direitos individuais, passaram a ser consagradas, em diferentes graus, em todas as constituições, até em regimes fascistas e comunistas. O que levou a que, desde que democráticos, se fale dos regimes e das democracias liberais do Ocidente. O que também não é menos verdade, é que as ideias “opostas” de Rousseau, o  primado da sociedade sobre o individuo, das maiorias sobre as minorias, ainda hoje, impedem a quase totalidade dos regimes, de um verdadeiro cunho liberal,  que Louçã pretende que  tenham tido.

Enquanto força política organizada, os liberais na Europa, no Seculo XIX, nunca obtiveram grande sucesso. Repudiados por conservadores nos costumes, combatidos pela esquerda e direita, na sua proposta de um Estado minimamente intrusivo nas liberdades individuais, agredidos pela esquerda radical, por um modelo económico que  parecem não compreender. São por isso raros os momentos em que os liberais ascenderam ao poder político.

Só podemos falar de um regime tendencialmente liberal nos EUA, com uma constituição e práticas liberais, princípios fundamentais partilhados por republicanos e democratas, apesar de constantes  de debates, entre eles, e dentro de cada um desses partidos, quanto à sua extensão e pratica.

Na Europa, com excepção do breve período de ouro do partido liberal Inglês ( que elogia) parece um claro exagero falar de regimes que representem o liberalismo.  

Olhando para o titulo do artigo, “a traição dos liberais” e comparando-o com as criticas a regimes liberais que traíram as ideias liberais ( que não tinham), é descabido imaginar uma tentativa deliberada de manipulação da verdade por parte de  Louçã ?

Outra “técnica”, pouco simpática, mas amplamente usada no seu artigo, é focar em acções isoladas de indivíduos, procurando associar esses comportamentos, a uma pratica recorrente ou a uma tese de toda uma  filosofia política a que esse individuo possa estar ligado.

Um exemplo desta técnica,  é quando denuncia a oposição, de John Adams, ao sufrágio feminino. Omitindo que John Adams não é de todo uma figura central do pensamento liberal. E que se  o fosse , apesar de tudo, não o representaria. No século XVIII, o voto feminino era uma ideia tão válida, quanto revolucionaria. O anacronismo da sua acusação a John Adams, compreende-se melhor, quando Louçã admite que  Rousseau, um ícone da esquerda por direito próprio, também era machista. Espantoso é só mesmo a consciência precoce , por parte dos liberais, do absurdo e tirania de mulheres não terem direito de voto.

Outro exemplo, é quando associa o apoio pessoal de Vilfredo Pareto ao fascismo, procurando sugerir ser o endosso do  liberalismo ao fascismo. As suas acusações a outros 3 distintos liberais ( Hayek, Milton Friedman e Buchanan) são mais desesperadas, e entram noutro capitulo de maldades. 

Mas toda a trama política é um aperitivo ofuscado com o delírio demonstrado no campo económico. O mais importante e suculento tema de todo este denso artigo.

 

 

 

 

 

 

 

 

A pessoa, o militar e o político

por João-Afonso Machado, em 26.07.21

I - Morreu, já de idade algo avançada, o cidadão Otelo Saraiva de Carvalho. Espera-se, com o menor sofrimento possível. À sua enlutada família são devidos, e endereçados, pesâmes. Ao próprio, o sincero desejo que descanse em paz. Deus o guarde.

II - Morreu o coronel Otelo Saraiva de Carvalho. Conforme se historia, foi o brilhante estratega do golpe militar que pôs cobro à II República. Uma manobra que comandou a partir do denominado "centro de operações da Pontinha", a qual, graças à dedicação e ao sangue-frio dos oficiais no terreno e à pronta adesão dos portugueses, generalizadamente, não foi sanguinolenta. Ignora-se se o falecido perfilhava, já então, a ideologia social-democrata que mais tarde disse ser a sua.

III - Morreu o político, ainda fardado, Otelo Saraiva de Carvalho. Do que dele é inquestionável tudo se resume a terrorismo, mormente após a sua célebre viagem a Cuba. Comandante do COPCON, aprisionou arbitrária e desabridamente; dirigente partidário, apelou à violência; chefe revolucionário, pesam-lhe nas costas a morte de quase 20 pessoas, mais um número indeterminado de feridos - e de famílias enlutadas. Foi julgado e condenado a 17 anos de prisão e posteriormente amnistiado.

IV - À inferior condição da gente governante e partidocrata portuguesa apenas sobreleva o que, exactamente, não dependeu dele: o desfecho do movimento das tropas na rua. E ninguém proclama o óbvio: felizmente para Portugal, o militar e político Otelo Saraiva de Carvalho há muito havia morrido. O cidadão, repete-se, - durma tranquilo o  seu sono eterno.

As falácias de Louçã (I)

Resumo

por Jose Miguel Roque Martins, em 26.07.21

 

 

Quando o Cidadão Louçã escreve, nunca o faz sem propósito e aparentemente sem honestidade. A desconstrução da realidade e da história é a sua especialidade. Mesmo que tenha que recorrer, sob a capa de um aparente conhecimento científico, á omissão, descontextualização, distorção e a saltos ilógicos.

O Expresso, mais uma vez, presta-se a ser o veiculo de difusão de pura propaganda de um dos mais insidiosos, perigosos  e subversivos demagogos do universo Português. Ventura, embora esteja longe de ser analfabeto,  é propositadamente básico, táctico, caixa de ressonância e trauliteiro.  Louçã é elaborado,  estratégico, manipulador e venenoso.

Sob o titulo “ A traição dos liberais”, desenvolve um “ensaio” do fantástico sobre o liberalismo. Um ataque ou um eventual teste de uma nova abordagem do bloco de esquerda: já não serão apenas sociais democratas, provavelmente serão os representantes do verdadeiro liberalismo. A angustiada procura de novas vestes da esquerda radical, obriga a estranhas e extraordinárias revoluções. E o pequeno sucesso da IL, tem que ser anulado e capitalizado.

Há uma primeira ideia forte. Existem os liberais “bons”, que foram esquecidos e pertencem ao passado e os liberais maus, que são a única expressão do liberalismo no ultimo século, resumindo, os liberais.

A simples aceitações que há liberais bons, é aparentemente um extraordinário salto no pensamento político de um bloquista. Afinal, qualquer liberal ( bom ou mau)  é, por natureza e definição, um antimarxista  e antitrotskista! Mas o que não se pode combater, pode aproveitar-se, corromper-se, distorcer-se, desvalorizar-se, transformar-se.

Os liberais bons, defendiam o voto das mulheres, a democracia, políticas sociais., uma forte intervenção do Estado na Economia. O mais lúcido, advogava até a nacionalização dos meios de produção, ou pelo menos a terra.  Os liberais de carne e osso, exactamente o oposto, já que foram, segundo Louçã,  cooptados, quando não comprados, pelos demoníacos conservadores, tal como também aconteceu com os maus socialistas e comunistas.

Os liberais bons, que também estão na minha galeria de personagens ilustres, arriscam-se a ser entronizados. Da pior forma, porque se arriscam a ser usados para justificar o comunismo, que doravante poderá ser eventualmente conhecido como liberalismo pragmático.  Os outros grandes liberais, que também tanto respeito me merecem, afinal são feios porcos e maus. Como eu.

Numa peça épica de contorcionismo e demagogia, Louçã volta a atacar. Um mestre da falácia. Não há mentiras a apontar. Mas com a verdade engana que se farta. 

O que obriga a uma divulgação pausada dos argumentos que tornam o seu ensaio, numa obra superlativa do burlesco, do fantástico e do horror. Que Lenine teria aplaudido enternecido.

 

 

( a continuar)

Especialistas em números

por henrique pereira dos santos, em 26.07.21

Em qualquer circunstância normal, olhando para este gráfico, qualquer especialista em números perguntaria o que se passou nos três picos evidentes: o mais pequeno na Primavera do ano passado, o médio no Verão do ano passado e o excepcional em Janeiro/ Fevereiro deste ano:

 

Qualquer especialista em números, sem a menor ideia dos processos que estão a ocorrer, diria imediatamente que nessas três situações (e na quarta, um planalto prolongado durante quase todo o ano de 2020, mais consistente a partir do Outono) haveria factores específicos que deveriam explicar este andamento do gráfico.

Nas actuais circunstâncias, não: os especialistas em números negam que haja factores excepcionais no pico de Janeiro/ Fevereiro deste ano, ou melhor, dizem que sim, que há um factor, um Natal em que os contactos se multiplicaram e deram origem ao pico posterior, argumentando que uma situação meteorológica excepcional não é o que distingue este período dos outros porque também há mortes excessivas noutras alturas com calor, e diminuições com frio.

Isto apesar de em muitas situações haver níveis de contactos maiores que os do Natal, sem o mesmo efeito, e não haver outra anomalia meteorológica como a que coincide com o pico absolutamente excepcional de Janeiro/ Fevereiro.

Não há pior cego que o que não quer ver.

E como são muito bons em números, encontram sempre maneira de os pôr a dizer o que querem que os números digam.

Não teria importância nenhuma, se não se desse o caso de, a partir das parvoíces que inventam, conseguirem influenciar constrangimentos que afectam a vida real e concreta de milhares de pessoas, pormenor que não negam, mas que dizem que não é com eles: alguém que saiba de economia que trate de resolver o problema de condicionar a actividade económica sem afectação social dos mais frágeis, que eles estão muito acima dessas minudências, estão na missão de salvar vidas, a mais nobre das missões (e que se lixem os mais frágeis e o aumento de riscos de vida que se manifestam a prazo, decorrentes quer do aumento da pobreza, quer da diminuição de cuidados de saúde provocados pela paranóia da redução de contactos).

Por mim, olhando para os gráficos de casos dos Países Baixos e do Reino Unido, variando sincronizadamente com medidas de controlo de contactos sociais exactamente inversas, só me apetece citar Juan Carlos "por qué no te callas?".

Otelo Saraiva de Carvalho

por Jose Miguel Roque Martins, em 25.07.21

Quando se morre, parece ser de bom tom recordar cada traço, atitude e acções positivas, esquecendo tudo o que de mau se fez. No caso de Otelo Saraiva de Carvalho,  parece-me pouco elegante e perigoso seguir essa tradição sensata. 

Como podemos aceitar que ter feito parte do 25 de Abril, o enobrece, se a sua intenção fosse o estabelecimento de uma nova ditadura?

Como podemos, em democracia, celebrar quem demonstrou, de forma tão empenhada, pretender derruba-la ?

Sobretudo, como podemos respeitar as famílias e os amigos dos que foram assassinados pelas FP 25 de Abril, fazendo elogios públicos ao seu principal responsável, ainda por cima amnistiado?

Há momentos que aconselham silêncio. Este parece ser um deles. 

O princípio da responsabilidade

por henrique pereira dos santos, em 25.07.21

Artigo 16º do Código do Procedimento Administrativo: Princípio da responsabilidade - A Administração Pública responde, nos termos da lei, pelos danos causados no exercício da sua atividade.

Já num post anterior citei este artigo do código do procedimento administrativo que é um princípio que nem sempre esteve consagrado na lei, em especial com esta clareza e neste código.

Ao fim de muitos, muitos anos, o mesmo Estado que mantém tribunais especiais para administrar a justiça administrativa - como se o Estado vivesse num mundo de regras tão específico e diferente que os tribunais que servem para as pessoas e instituições normais não fossem capazes de lidar com a administração da justiça que resulta da actividade do Estado (eu compreendo, as quatro alterações contratuais que o Estado determinou unilateralmente em relação ao contrato que tinha comigo, jamais seriam aceites num tribunal do trabalho, e jamais seriam postas em causa no tribunal administrativo, por exemplo) - reconhece que tem uma responsabilidade concreta nos prejuízos que cause a terceiros.

Note-se que fora da bolha do Estado, é assim há muito tempo: se um médido for negligente, é responsável pelas consequências dos seus actos, por exemplo.

Bem sei que existem muitos matizes nesta responsabilidade para com terceiros, por exemplo, no caso do médico, se as coisas correrem mal, mas o médico tiver adoptado todos os procedimentos que seria normal adoptar, ele não é responsável pelas consequências das coisas terem corrido mal; no caso de um técnico de fogo controlado, ele é sempre responsável pelas consequências de um fogo controlado, mesmo que tenha feito tudo bem e um factor externo tenha dado origem a um problema; no caso dos juízes, e bem, são completamente irresponsáveis pelas consequências das suas decisões.

É pois preciso muito cuidado na aplicação deste princípio (ao ponto da responsabilidade do técnico de fogo controlado, por exemplo, dever ser restringida ao que depende do técnico, como acontece em alguns países, e não ser uma responsabilidade sem limite, que engloba circunstâncias incontroláveis pelo responsável pela acção).

Olhemos para um exemplo prático de como ainda não estamos sequer na discussão do melhor equilíbrio social na responsabilização do Estado e dos seus agentes (nos quais me incluo, fica feita a declaração de interesses), estamos ainda num ponto em que a lei diz uma coisa e na prática a teoria é outra.

Aqui a atrasado, o Governo decidiu fazer uma cerca sanitária que não era uma cerca sanitária (a influência de Magritte na prática administrativa portuguesa só tem comparação na influência de Kafka, devemos ter a prática administrativa intelectualmente mais estimulante do mundo) a Lisboa, para controlar a difusão da variante delta do vírus sarscov2.

A fundamentação das decisões que foram tomadas é desconhecida:

1) Não se faz ideia de como uma cerca sanitária a um terço da população portuguesa conseguia conter uma variante de um vírus que está presente em quase todo o mundo;

2) Não se faz ideia de como uma cerca sanitária intermitente tem algum efeito numa doença contagiosa, não tenho ideia de haver algum precedente mundial desse tipo:

3) Não se faz ideia de como se consegue pôr um prática uma cerca sanitária deste tipo sem recursos repressivos várias vezes superiores aos existentes.

Passado pouco tempo, não me lembro se duas, três ou quatro semanas, o Governo disse que afinal já não valia a pena fazer cerca nenhuma porque a tal variante delta já estava em todo o lado (já estava antes da cerca e seria mais que previsível que a cerca não tivesse efeito nenhum na difusão da dita variante).

Mas, e aqui está o busílis da questão, no entretanto esta decisão, não fundamentada, absurda e sem qualquer efeito real no que se pretendia fazer (controlar regionalmente a difusão de uma variante que tem uma difusão mundial crescente), afectou negativamente milhares de pessoas e milhares de empresas.

Imaginemos então que uma dessas pessoas pretendia invocar o princípio da responsabilidade do Estado para pedir uma indemnização (saltemos por cima do facto de um pedido desses ir ser decidido pelo tal tribunal mais ou menos privativo do Estado).

1) Quem tomou a decisão. Foi o Governo. Por proposta de quem? Não sabemos;

2) Onde está a proposta sobre a qual o governo decidiu, qual é a sua materialidade? Não sabemos;

3) Se de repente houver acesso à proposta material sobre a qual foram sendo feitos despachos concreto, com nomes, datas e fundamentação, qual foi a fundamentação invocada na proposta? Não sabemos;

4) Imaginemos que sabemos tudo que antes eu disse que não sabemos. Precisamos agora de saber que avaliação dos efeitos da medida foi feita para que fosse revogada? Não sabemos;

5) Imaginemos que foi feita uma avaliação, que está materializada em documentos concretos e acessíveis ao queixoso, a avaliação feita permite distinguir o que realmente foram boas práticas do que foram imponderáveis que estão para lá da responsabilidade do decisor? Não sabemos.

E assim sucessivamente.

É por isso que não tenho ponta de optimismo em relação ao país: o que seria normal - o escrutínio de medidas administrativas tremendistas com evidentes efeitos negativo na vida de milhares de pessoas - é simplesmente anormal em Portugal, quer por parte da administração, quer por parte dos jornalistas, quer por parte das oposições, quer por parte das organizações representativas dos interesses em presença, isto é, por parte de nós.

As nossas instituições são más, agem frequentemente fora da lei - isto vai ser assim, diga o que disser a constituição não foi uma frase dita por um taxista irritado, foi dita pelo primeiro ministro em pleno uso das suas faculdades e sem qualquer pressão relevante que o levasse a dizer tolices sem pensar - mas são as instituições que queremos e de que gostamos, porque com os amigos certos ou no momento certo, uma palavrinha vai com certeza resolver o nosso problema concreto.

Eu, por exemplo, limitei-me a sair um dia mais cedo de Lisboa, pagando mais uma noite, para fazer umas férias com os meus filhos e netos.

Se isto tudo fosse para levar a sério, eu não teria estado em férias com os meus filhos e netos, e isso, para cada um de nós, acaba por contar muito mais que abstracções como o princípio da responsabilidade do Estado no exercício da actividade administrativa.

Domingo

por João Távora, em 25.07.21

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo, Jesus partiu para o outro lado do mar da Galileia, ou de Tiberíades. Seguia-O numerosa multidão, por ver os milagres que Ele realizava nos doentes. Jesus subiu a um monte e sentou-Se aí com os seus discípulos. Estava próxima a Páscoa, a festa dos judeus. Erguendo os olhos e vendo que uma grande multidão vinha ao seu encontro, Jesus disse a Filipe: «Onde havemos de comprar pão para lhes dar de comer?». Dizia isto para o experimentar, pois Ele bem sabia o que ia fazer. Respondeu-Lhe Filipe: «Duzentos denários de pão não chegam para dar um bocadinho a cada um». Disse-Lhe um dos discípulos, André, irmão de Simão Pedro: «Está aqui um rapazito que tem cinco pães de cevada e dois peixes. Mas que é isso para tanta gente?». Jesus respondeu: «Mandai-os sentar». Havia muita erva naquele lugar e os homens sentaram-se em número de uns cinco mil. Então, Jesus tomou os pães, deu graças e distribuiu-os aos que estavam sentados, fazendo o mesmo com os peixes; e comeram quanto quiseram. Quando ficaram saciados, Jesus disse aos discípulos: «Recolhei os bocados que sobraram, para que nada se perca». Recolheram-nos e encheram doze cestos com os bocados dos cinco pães de cevada que sobraram aos que tinham comido. Quando viram o milagre que Jesus fizera, aqueles homens começaram a dizer: «Este é, na verdade, o Profeta que estava para vir ao mundo». Mas Jesus, sabendo que viriam buscá-l’O para O fazerem rei, retirou-Se novamente, sozinho, para o monte.

Palavra da salvação.

Comentário: A multiplicação dos pães situa-se próximo da Páscoa. Hoje lemos o facto; nos dias seguintes ouviremos o comentário, a catequese que o próprio Senhor Jesus fará deste facto. Mas a multiplicação dos pães e dos peixes é apresentada nos termos da celebração eucarística. Depois da catequese sobre o Baptismo na fala com Nicodemos, depois da referência constante ao Espírito Santo, começamos hoje a catequese sobre a Eucaristia. Estamos no ambiente da iniciação cristã.

Casamento

por João Távora, em 24.07.21

"As crianças que crescem num casamento sólido são cada vez mais uma minoria — a minoria privilegiada. Seja ela negra, hispânica, asiática ou branca, uma criança faz parte da minoria privilegia­da se viver numa casa sem divórcio. É esta a grande clivagem, meus amigos: o casamento. Não é o género, não é a raça, não é a orientação sexual, nem sequer é a classe social. É o casamento. Quando se analisam as possibilidades de sucesso de uma criança, é claro que o fator fundamental é a classe social, e não o género ou raça. No entanto, se crescer numa família sólida, a criança pobre tem mais hipóteses de ascender pelo estudo. Tudo se torna mais difícil no contexto do divórcio e sobretudo no contexto de uma marca social do Ocidente do século XXI: a fuga do pai. Os homens, sobretudo negros, brancos e hispânicos, tendem a fugir das suas responsabilidades — o exato oposto do homem asiático (indiano, coreano, chinês), que permanece ancorado à família e à paternidade. Não por acaso, as crianças asiáticas estão a superar em todos os níveis as crianças negras e também as brancas pobres.

Para mais informação comparativa, leiam, por favor, na “Spectator”, uma peça de Edward Davies, “Forget race or class, marriage is the big social divide”. Aqui quero apenas salientar que este assunto, apesar de ser vital, é um tabu. Não se pode falar de casamento, porque é visto como um assunto ‘reacio­nário’. Não se pode falar de casamento, porque a agenda cool exige que se fale apenas de questões identitárias e de racismo e de machismo. Esses pontos são legítimos, sim, mas não são o nó górdio. Antes de ter a tez escura e de ser do sexo feminino, uma rapariga negra é, antes de tudo, pobre. E a sua pobreza é reforçada porque vive apenas com a mãe. Cerca de 70% das crianças negras nos EUA crescem sem o pai. É o inverso da miú­da asiática que tem de lidar com o mesmo contexto social: também é de uma minoria étnica, também é pobre. Só que esta rapariga asiática tem algo que a rapariga negra não tem: uma cultura familiar e, sim, conservadora, que mantém o pai preso ao casamento e à estabilidade que permite a ascensão social dos filhos.

O colapso da família é pior do que o desemprego. O emprego vai e vem. A família é a estrutura que suporta uma pessoa nos momentos de desemprego, dando-lhe uma sensação de segurança e, por arrasto, uma mente mais racional e calma. Portanto, tenhamos coragem para ver a evidência: antes de qualquer outro fator, o que atrasa a vida de uma rapariga negra não é o racismo ou o machismo, é o colapso do casamento, o divórcio, a fuga do pai às suas responsabilidades. E — repito — encontramos o mesmo fenómeno nos brancos pobres. A este respeito, sugiro que vejam um filme que retrata sem adjetivar a cultura de pobreza que se desenvolve nas mães solteiras brancas e pobres. Chama-se “The Florida Project”. É muito fácil criticar aquela mãe intempestiva, imoral ou amoral, sem noções básicas de educação. Mas ela e outras raparigas estão sozinhas com os filhos. Eles fugiram. A eterna adolescência dos homens é o grande problema da sociedade ocidental, é a causa da nossa decadência. “É só meninos”, como diz o meu velho."

Henrique Raposo aqui no Expresso

O embargo de Cuba

por Jose Miguel Roque Martins, em 24.07.21

Sempre que o regime Cubano é criticado, a esquerda indigna-se contra o embargo Americano. Desvalorizando completamente , no caso da esquerda radical, a violação de direitos humanos, a falta de democracia e a verdadeira razão para a pobreza que se vive na ilha: uma economia verdadeiramente socialista.

Nenhum destes traços infelizes foram impostos pelos sinistros imperialistas americanos, mas pelo regime Cubano.

É verdade que, sem sair da pobreza extrema, os Cubanos estariam um pouco melhor do que estão hoje, se não existisse embargo. Mas os EUA representam apenas cerca de 25% da economia mundial: é simplesmente ridículo atribuir as culpas da miséria cubana ao embargo. Cuba não foi totalmente privada dos beneficios do comercio internacional. 

A recusa dos EUA, de vender ou comprar a Cuba e impedir o turismo dos seus cidadãos, não é uma violação dos direitos humanos, nem representa uma violação dos direitos de soberania de Cuba. Obrigar os EUA a ter relações comerciais com Cuba, isso sim, seria uma violação dos direitos de soberania. Cuba ser soberana e independente, não inibe que os outros deixem de o ser. Mesmo que sejam os odiosos imperialistas americanos. A evidente inversão de elementares princípios nas relações internacionais, só pode ser vista como mais uma grotesca procura de realidades alternativas, tão comum nas esquerdas radicais. 

Acresce que o regime cubano, fez parte da maior ameaça directa ao território dos EUA, a gorada instalação de misseis por parte da URSS. Será obrigação dos EUA, amenizar a existência de um regime que, justificadamente, considera, não apenas odioso, mas uma possível ameaça?

A resposta não é linear. Não por uma questão de direito ou justiça, mas por questões humanitárias. Mais sofrimento para tantos, que já tanto sofrem, é sempre arrepiante. Particularmente quando penalizados pelo seu regime vigente, que não escolheram, como acontece com os Cubanos. Infelizmente dificuldades extremas podem ser mesmo o único argumento para uma mudança de regime. As ditaduras só caem com oposição. Ditaduras radicais armadas, só caem com revolta generalizada. O argumento do embargo, no limite, assemelha-se a exigir melhores condições de trabalho para ladrões e assassinos, na esperança de favorecer as suas vitimas.

É verdade que a esquerda radical desvaloriza a pobreza extrema, o atropelo de direitos humanos e ditaduras do proletariado, seja lá isso o que for. Pelo menos quando o marxismo ou ideologias afiliadas, seja a bandeira do regime. Por isso não os vemos criticar a China, a Venezuela e a Coreia do Norte. São tudo aspectos irrelevantes em regimes de esquerda.

Já o falhanço económico recorrente de um regime marxista é sempre inconveniente para a narrativa socialista. Resta por isso desviar as atenções. A culpa não é do marxismo. É do capitalismo americano. Subversão da realidade, certamente. Coerente e esperado, infelizmente também.

 

 

PS: Ontem li no DN, que segundo a ONG Luta pela vida, da Venezuela, pelo menos 825 pessoas foram assassinadas em execuções extrajudiciais pelas forças de segurança do Regime Venezuelano nos primeiros 6 meses do ano. Tambem culpa de embargos? 

 

 

 

A responsabilidade total do PS

por Jose Miguel Roque Martins, em 23.07.21

É difícil vislumbrar um futuro para Portugal, sem um pacto de regime entre os dois maiores partidos, o PS e o PSD. Teremos, no futuro próximo, a necessidade de concessões importantes à esquerda radical, ( quando o PS governar) e ao radicalismo de direita ( se o PSD governar). È normal fazer concessões a quem nos apoia? Sim. O problema é se as concessões representarem  um custo importante para a sociedade. 

É impossível aspirar que esse pacto de regime seja ambicioso. Não tanto porque não haja essa possibilidade, mas porque existem linhas vermelhas que nenhum destes partidos ousa ou considera útil ultrapassar. Liberalizar o mercado de trabalho, enfrentar os funcionários públicos ou os pequenos interesses de tantas corporações, alterar o espírito de um regime paternalista, entre outros, está muito fora das cogitações eleitorais do centro.

Mas será difícil imaginar, pelo menos para quem esteja atento, que mais do mesmo, não venha a resultar num desastre total. Uma radicalização crescente da sociedade, crispação social, a asfixia fiscal da população, a eternização de crescimentos  anémicos, um aumento da emigração que nos privará dos (poucos) jovens que temos, dos nossos filhos e netos. Nada fazendo, é isso que vamos ter de forma muito nítida, num futuro muito próximo. 

Por mim, abdicaria facilmente do que realmente gostaria, para evitar ter,  o que não quero.  Exactamente o que temos e o que vem aí. 

O PS, o partido hegemónico em Portugal é a peça essencial numa, mesmo pequena, transformação. Depois de fazer cair o acordo de regime de que os partidos radicais não eram parceiros de governação, num pais ainda de esquerda,  o PS é uma referencia incontornável.

Partindo do pressuposto que a maioria dos seus votantes são relativamente moderados, não parece impossível proteger os Portugueses do pior.  Apesar de não compreender a insistência de António Costa em estigmatizar todos os partidos que não sejam de “esquerda”. Até porque, quando o descalabro for total, os moderados do PS, apesar da sua grande fidelidade, vão acabar por mudar de armas e bagagens para uma mudança. Qualquer que ela seja. Já aconteceu depois de Sócrates, vai acontecer no futuro. Quanto maior for o buraco cavado ( e já vai profundo) , mais difícil será o retorno á esquerda. Quanto mais tempo passar, mais ridículo se torna culpabilizar Passos Coelho, Cavaco Silva e o Estado Novo.

António Costa e o PS têm alternativas. Se não as seguem, são inequivocamente responsáveis pelo que acontece. Sem qualquer desculpa, antes com dolo.

Há um mínimo de objectivos comuns que poderiam ser vendidos a um  grande eleitorado desejoso de comprar. Protegendo o  o partido no poder, com argumentos para resistir a pressões das suas muletas eleitorais, por imposições de um acordo de regime amplo, a 10 ou 15 anos.

Será impossível limitar o crescimento da carga fiscal? Será pouco popular impor que a justiça seja mais célere e mais acessível? Será mal acolhido um plano de reformas sustentável, que não sobrecarregue demasiadamente as gerações futuras? Será que um pouco mais de liberdade e tolerância para os cidadãos faz perder votos? Será que aproximar as nossas praticas laborais, embora menos palatavel,  a 15 anos, á média da OCDE, é lançar a maioria aos partidos radicais?

O legado de António Costa vai-se decidir no futuro próximo. A muitos anos de distancia, as qualidades de ilusionista não são valorizadas. Os dados frios e objectivos acabam por ter mais importância.

O resto do PS não terá uma palavra a dizer? Os votantes do partido socialista que votam, sem entusiasmo, resignados á "falta de alternativas", são coniventes com a situação. 

Não sou, nem nunca fui do PSD. A crise profunda em que estamos a mergulhar, não é da sua responsabilidade, com excepção da sua inabilidade actual em apresentar alternativas claras, exequíveis e credíveis.

A responsabilidade do que acontece e vai acontecer é mesmo de António Costa, do PS e dos seus votantes. Só choro porque, não ter culpa, não impede o sofrimento dos inocentes. 

Sernancelhe, enfim à luz do dia

por João-Afonso Machado, em 23.07.21

Cheguei de manhã, pronto a batalhar com o indígena e regicida Aquilino. Para lhe roubar a terra, o coração, de todos os portugueses uma alma pretenciosa, apontando-lhe o ricochete do tiro mesmo no coração desta vila antiga, sede de concelho no distrito de Viseu. A minha arma, - somente a caneta, mais a magia da máquina fotográfica. É pouco. Aquilino escreveu as serranias, o vale do Coa, e as minhas palavras não descem além do vilório granítico. Assim o pelourinho duocentista se me plantou firme, na praça principal - Aquilino esquecido, o malandro, - nas eras eternas em que a voz do povo sempre mandou.

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Em seu redor, o casario dos de lá. Vivo, sempre vivo. Pedras que o Tempo nada deve à História; histórias a quem o tempo deve explicações. Valha o caso da Casa da Comenda de Malta!

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E, digam os compêndios, a nascença do nome, por que amargas margens não reside nele um orgulho, qualquer boaventurança do berço do regicída Aquilino.

(Vivemos, hoje ainda, almas que ele quis profanas de maldade engatilhada em pontaria de assassínio.)

Mesmo a ladear a Matriz, velhinha nascida no século IV. Os sinais românicos apontam para gerações anteriores. Não importa, reside ali uma realidade sobretemporal, santa, sã e sineira.

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Onde? - as marcas dos castigos, da sobranceria dos poderes, das vergastadas nas costas dos mais fracos? Sernancelhe descansa neste cimo e renova-se onde as gentes vão à fonte. E conversam e livremente explicam a sua terra, o seu devir. Toda a sua crença em amanhã.

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Não, em Sernancelhe nada condiz com o mundo macabro de Aquilino.

Há é muito para reconstruir. Ruínas datadas de quando? Tudo o abandono leva, menos os pétreos esqueletos que a pobreza mais recente deixou ao léu. Há sintomas naqueles arruamentos estreitos a que eu chamaria "esperança".

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Ou, talvez, desconfiança... Transmitiu-me o gato local, posto no que terá sido janela rasgada, grandiosa, esse medo medonho. Os animais são os iniciais presságios dos desastres; e serão, decerto, os últimos a compreeender a bonança.

GATO.JPG

Assim a calçada me levou ao morro maior e aos vagos dizeres de uma castelania suposta. Subir o escadório foi uma aposta nos pulmões, apenas onde se circunvizinhavam restos esparsos de muros, muralhas e degraus.

ESCADÓRIO PARA CASTELO.JPG

De uma fortificação - que terá defendido os antepassados de Aquilino e passou ao lado do Malhadinhas. Porquê? - porque a jactância do Mestre viajou até ao Minho, a Romarigães, lugar benigno em que se aconchegou em casa nobre. É sempre assim...

E em Sernancelhe ficava a velha vila, inspiração de males essencialmente políticos. Outrora grandiosa com episódios menos claros, fonte de investigações, quais as passeatas dos malteses por ali? Como queiram, a velha vila lá está, muito alargada, subindo nos andares dos prédios de hoje. Mas na sua paz e no seu sossego.

VISTA DO TOPO.JPG

Antiga, reservada (sem me querer intrometer nem expropriar), talvez mais dos visitantes do que dos seus nativos que vivem cá em baixo, preguiçosos de ir lá ao cimo.

 

O paradoxo do fogo e a epidemia

por henrique pereira dos santos, em 22.07.21

Se se procurar no google "Fire paradox" ou "Fire trap", encontram-se dezenas de artigos sobre uma ideia relativamente simples, mas paradoxal: quanto mais eficiente for um sistema de supressão do fogo, pior é o primeiro fogo que fugir do controlo.

Esta ideia não é evidentemente minha, mas descrevo-a vezes sem conta, para contrariar a ideia de que deveríamos ter um país sem fogos: quanto mais investíssimos nessa ideia irrealista, mais estaríamos a investir numa tragédia futura.

Há umas cabeças frágeis que lendo esta frase conseguem concluir que estou a dizer que se deve queimar o mais possível, em qualquer circunstância e eliminar todo o esforço de combate aos fogos, por isso convém explicar a essas cabeças frágeis que não é nada disso.

O fogo é um filho do seu contexto (mais uma ideia que está muito longe de ser minha, e que uso frequentemente) e o que o paradoxo do fogo diz é que ao favorecer a acumulação de combustíveis, uma política de supressão do fogo, sem gestão de combustíveis, corresponde à substituição de muitos fogos pequenos e médios por um fogo catastrófico futuro.

O centro da ideia é a gestão de contexto, não é a supressão do fogo.

Lembrei-me disto quando me mandaram notícias sobre uma afluência anormal de crianças com doenças respiratórias aos hospitais, nesta altura do ano.

Depois, em comentários posteriores, vi exemplos de outros países e inclusivamente falaram-me do facto de surtos de polio no princípio do século XX terem sido relacionados com o avanço da higiene.

Não gosto de notícias que se baseiam em testemunhos individuais, por mais qualificados que sejam, em que os jornalistas não verificam a matéria factual desses testemunhos: não é por um responsável por um serviço de saúde dizer que está a verificar que há uma entrada anormal de pessoas que o jornalista fica dispensado de ir à procura dos factos verificáveis, por exemplo, nos registos das urgências ou internamentos, comparando-os com anos anteriores. Por isso não dou um crédito excessivo a estas notícias, acho que têm informação contingente a mais e organização e verificação de dados a menos.

Mesmo com todas estas reservas, não posso deixar de me lembrar que a assepsia é fundamental em acções de risco, quando se aumentam as probabilidades de infecção, por exemplo, quando se abre um doente, que é igualmente fundamental reduzir as condições de falta de higiene especialmente favoráveis a organismos que podem ser patogénicos, mas não é possível viver em permanente assepsia.

Ou melhor, em algumas doenças utra-raras, não há outra possibilidade de sobrevivência, mas em condições extremamente precárias e que representam um risco de vida permanentemente alto.

O excesso de assepsia parece corresponder às políticas de supressão de fogo: ao eliminar os mecanismos de adaptação ao contexto, ficamos à mercê de circunstâncias relativamente raras mas que é altamente provável que aconteçam no futuro (é uma questão de tempo a ocorrência de um fenómeno raro como um grande terramoto).

E, nessa altura, quando mais precisarmos da nossa resistência, ela não existe.

Hoje ouvi Carlos Aguiar a explicar - vou usar o que me pareceu que disse, a conversa nem era comigo, ouvi por acaso, por isso posso estar a trair o seu pensamento - que o papel ecológico do fogo é o mesmo da herbivoria: fazer a decomposição da matéria orgânica.

Claro que reconhecia que os processos não são idênticos, falava, se não me engano, num processo explosivo, no caso do fogo, e num processo lento, no caso da herbivoria (para além de outras diferenças).

O mais interessante era a ideia seguinte: na medida em que reduzirmos a intensidade do fogo, aumentarmos a frequência dos fogos e os deslocarmos do Verão para a Primavera, aproximamos os dois processos, de tal forma que o fogo controlado, enquanto processo ecológico, está muito mais próximo da herbivoria que de um fogo de Verão.

É claro que para chegar a esta elegância de formulação é preciso saber muito sobre os processos naturais, a forma como ocorrem independentemente da nossa vontade e a forma como podem ser geridos a partir do conhecimento que se vai acumulando no processo colectivo de gestão do território.

Bem apela Carlos Aguiar para que trabalhemos mais com os pastores que condensam, frequentemente, um conhecimento dos processos naturais que temos tendência a desvalorizar, havendo muita vantagem em que o seu conhecimento empírico e o conhecimento teórico de pessoas como Carlos Aguiar "se iluminem mutuamente" para benefício de todos.

A impressão com que fico é que o peso excessivo na gestão da epidemia dos que estão mais habituados a gerir a assepsia que a progressiva adaptação aos contextos reais em que vivemos, nos continua a conduzir a um beco sem saída, onde correríamos o risco de perder estupidamente uma quantidade anormal de crianças que fossem impedidas de desenvolver as suas defesas.

Felizmente as sociedades são demasiado complexas para que seja possível pôr as pessoas a comportar-se como autómatos, e por isso as doenças talvez tenham vindo a ter um desenvolvimento muito mais próximo do padrão habitual que seria de esperar da paranoia colectiva que recomenda a assepsia permanente como ideal de vida.

A justiça capitalista e a socialista

por Jose Miguel Roque Martins, em 22.07.21

 

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Captura de ecrã 2021-07-22, às 14.03.05.png

 

As noticias são ambas recentes. Num caso veiculadas pela BBC, no outro, pelo Expresso. 

Não sei quanto possam estas farmacêuticas ter lucrado com os Opioides que venderam. Mas 26.000 milhões de US$ parecem à primeira vista uma punição ( cerca de 10% do Produto Português) .

Já a KPMG, depois de ter sido absolvida em primeira instância do Processo do Banco de Portugal, é agora condenada a uma coima de 450.000 Euros, no caso BES.Recebeu para certificar contas, falhou redondamente e leva um puxão de orelhas fofinho. O Estado, nós, pagamos a fatura. Os lesados do BES, perdem todo aquilo que nós ( o Estado) não lhes devolveu. O caso Enrom, nos Estados Unidos, semelhante ao caso BES, levou à falência da Arthur Anderson ( os auditores) , por motivos muito próximos.

Na justiça capitalista quem falha paga. Na justiça socialista, alguém falha e todos pagamos. E como não há punição para a prevaricação, muitos falham.

PS: Apesar de tudo, não há razão para alarmismos, como ficámos amplamente esclarecidos no Estado da Nação de ontem! è mais um casinho. 

Cheias, fogos, pestes e afins

por henrique pereira dos santos, em 21.07.21

De vez em quando pedem-me comentários sobre alterações climáticas (raramente falo ou escrevo sobre isso por minha iniciativa).

De maneira geral é assunto de que fujo, e portanto sugiro que falem com outras pessoas que saibam mais que eu sobre alterações climáticas, mas respondem-me que é sobre as consequências de cheias ou fogos que querem que eu fale e eu, que gosto de falar (e também gosto de estar calado), acabo por dizer que sim.

O que quer que me perguntem sobre estas matérias, faço mais ou menos como Álvaro Cunhal: tenho um kit de respostas que é razoavelmente autónomo em relação às perguntas.

O primeiro ponto é o de que cheias, fogos, pestes e outros grandes fenómenos que tais são processos naturais que é estulto tentar dominar. Na verdade dizer isto é uma parvoíce da minha parte, não porque não seja verdade, mas porque não é isto que as pessoas querem ouvir e muita gente sente-se desconfortável, mesmo que sem consciência imediata disso, pelo facto de não sermos nós que comandamos os processos naturais.

O segundo ponto é que enfiar as discussões sobre este tipo de coisas nas discussões sobre alterações climáticas só serve para complicar: 1) construir em leito de cheia, sem ter em atenção o que é uma cheia e um leito de cheia, é uma asneira, com ou sem alterações climáticas; 2) com ou sem agravamento dos fenómenos meteorológicos extremos, controlar o fogo é gerir combustíveis, ou seja, gerir paisagens; 3) as variações de localização das espécies selvagens até pode depender de alterações climáticas, mas sem habitats favoráveis, o que depende da gestão dos usos, não se ganha muito em tentar controlar o clima; ... e por aí fora.

O resultado será frustrante para mim - acabo sempre a ser classificado como negacionista vendido aos interesses - e frustrante para quem me ouve, que em vez de ter uma justificação moral para a indignação do momento, dizendo que os outros são do piorio e se todos fizessem como eu o mundo seria um paraíso, acaba sem moral da história e com mais dúvidas que certezas.

Ter dúvidas é uma actividade muito cansativa e pouco compensadora.


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