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A Propósito da Lenka

por Miguel A. Baptista, em 30.06.21

Nunca vi “O Preço Certo”. Ao que parece há lá uma, ou umas, assistentes que vestem vestidos curtos para “embelezar a montra”. 

Actualmente este comportamento tende a ser socialmente censurado, levando, na maior parte dos casos, à extinção do mesmo. Por exemplo, havia umas miúdas atraentes que acompanhavam os pilotos na grelha de partida, as “pit girls” que deixaram de existir. No concurso de Miss Mundo deixou de existir desfile em fato de banho, como se uma pessoa não visse um concurso desses para ver “aviões”, mas sim para encontrar a companhia certa para discutir Heidegger e Foucault. Existem imensos exemplos que podem ser dados. 

Eu não nego que essa exibição, e objectivação, da mulher tenha algo de degradante. No entanto, e entendendo que esta é uma questão que, de todo, não é a preto e branco, eu prefiro que existam algumas situações de “mulher-objecto” do que tal seja banido por completo. 

O homem é um ser bio-socio-cultural. A evolução dos tempos levou que muitas das nossas pulsões biológicas fossem “domesticadas” por padrões culturais. Tal não é, necessariamente, mau. Tal permitiu-nos, abandonando a lei da selva, atingir padrões de civilidade que, na maior parte das vezes, significam proteção dos mais fracos.  No entanto, a engenharia da criação do homem novo “quimicamente puro”, destituído de qualquer instinto biológico tem tanto de perverso como o de perigoso. 

Depois na crítica às “Lenkas” há uma enorme componente moralista. É permitido exibir talentos futebolísticos, musicais ou de cultura geral. Mas tudo o que respeita a exibição (e não tenho receio em utilizar a palavra exibição) do corpo é visto como intrinsecamente mau. As feministas, e outros puritanos, são completamente reféns da cultura judaico-cristã que vê o corpo como a fonte do pecado que conspurca a alma. 

Também existe uma componente elitista. Fala-se com desprezo dos velhotes que se babam a ver a Lenka. Nos valores desses críticos uma mulher glamorosa de vestido de noite e stilettos é algo interdito aos sonhos de um modesto reformado que vive nos subúrbios. Para se ter “acesso”, real ou onírico, a uma mulher dessas é necessário vestir Armani e conduzir um Aston Martin. 

Conforme referi, acho que este tema é longe de ser simples, há argumentos fortes de ambos os lados. No entanto, de modo global, não tenho dúvidas em dizer que prefiro viver num mundo em que existam Lenkas, do que num mundo de zelotes frustrados acicatando permanentemente os superegos. 

 

Acidentes da natureza

por João Távora, em 29.06.21

Como são diferentes as coisas em Portugal e em Inglaterra. Lá, um ministro da saúde é apanhado a pregar um xôcho na secretária, e demite-se. Por cá o carro onde viaja o ministro da administração interna atropela mortalmente um trabalhador na estrada e fica a reclamar que foi por falta de sinalização.
Na verdade seria extremamente improvável uma secretária a beijar o Cabrita.

 

Novas ementas, restaurantes exóticos

por João-Afonso Machado, em 29.06.21

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Acabo de ler nos jornais, alguns insectos a Direcção-Geral de Alimentação e Veterinária vai consentir na sua «produção, comercialização e utilização na alimentação»!!!

Assim acabo de aderir ao PAN!

Pobres insectos, aliás desvastados pelos adubos químicos nos campos! E que saudades dos tempos em que as tocas dos grilos eram aos milhões, e um breve xixi os punha cá fora e uma folha de alface, na gaiola, os fazia "cantar" o Verão todo!

O meu (de agora) PAN esqueceu essa benesse da Natureza.

Contas feitas, sete espécies de insectos poderão ser comidos - cá, não nas Arábias. A saber: duas de grilos, outras tantas de gafanhotos e de larvas (???) e uma de besouros.

Que delícia!!!

Enquanto a estupidez não deu conta, definitivamente, da Nação os bicharocos serviam muito para pescar trutas. Era mais substância, por troca com menos seres vivos. Ah!, grande PAN, vamos acabar com os atentados às minorias! É desta!...

Caso não saibam, uma das larvas (dita da farinha) consentida comer é a da mosca varejeira: uma rapariga de bons hábitos, muito pousadia no esterco, nas lixeiras, e lambuzadamente necrófaga.

Os (as) desgraçado(a)s terão de ser comercializados ou usados inteiros, mas não vivos, ou moídos e não será permitido vendê-los «em partes ou extractos». Decerto por esquecimento, os fascistas (viva o PAN!!!) olvidaram a prévia passagem pelas Faculdades de Ciência, onde a garantia de qualidade será assegurada. É necessário criar a (socialista) CVIC (Comissão de Verificação dos Insectos Comestíveis)

Enfim, tenho muito mais a escrever. Mas, entretanto, vou ali à janela fumar um cigarro, atirando depois a pirisca para o passeio.

PAN! PAN! PAN!

 

Berardo. Foi o motorista, outra vez?

por José Mendonça da Cruz, em 29.06.21

Eu sei que a culpa da pedofilia na Santa Casa foi do chófer da carrinha, e que a culpa da bancarrota e da ladroagem foi do Perna, e que a culpa da morte do trabalhador durante a deslocação de Cabrita foi do próprio trabalhador, da falta de sinalização, e, por fim, do motorista, mas, e agora?!

Agora, Berardo também vai ser o motorista de Sócrates, Salgado e Carlos Santos Teixeira? Ou Berardo foi -- nas trapalhadas, danças de cadeiras e malabarismos ruinosos de Opa da PT, Caixa e BCP -- apenas figurante secundário, embora bem recompensado?

Alegrias e amarguras do Euro2021

por José Mendonça da Cruz, em 29.06.21

«O grupo de Portugal era mesmo o grupo da morte. Foram todos para casa na ronda seguinte.»

Duarte Calvão

«Coitado do treinador da Suíça, pobre de saber e opções, que confiou no segundo marcador do ignoto campeonato português. É muito pior um treinador ficar no estrangeiro com jogadores que não conhece de lado nenhum (ou demasiado novos, ou que «não se enquadram», ou que deram provas que eu não vi), do que ir para casa sem usar o melhor goleador português, mas rodeado dos jogadores que conhece há 10 ou 15 anos.»

Eu

Historiografia e mitos

por henrique pereira dos santos, em 29.06.21

O debate que Nuno Palma lançou na convenção do MEL tem sido excelente, mesmo que pelo meio haja muita treta, como acontece em qualquer polémica mais alargada.

Ontem era Reis Torgal, no Público, mais uma vez, mas como não percebi nada do que escreveu, não tenho nenhum comentário a fazer.

Fernando Alexandre chamou a atenção para a resposta de Nuno Palma a Fernando Rosas que o Público publicou no Domingo, e na troca de comentários que se seguiu, apareceu, mais uma vez, o mito da emigração dos anos sessenta como um processo social forçado pela natureza do Estado Novo.

Sobre o mito da vontade de manter a pobreza no país acho que não tenho grande coisa a acrescentar, tal como o mito do analfabetismo como objectivo político do Estado Novo (para já não falar do mito do contributo  positivo do Marquês de Pombal para a educação em Portugal, diminuindo em 90% a população escolar).

Mas sobre o que parece ser o terceiro mito mais frequente associado ao Estado Novo, o da emigração como consequência do regime, talvez eu já tenha escrito aqui alguma coisa, mas ainda assim gostaria de fazer alguns comentários, já que tive de olhar minimanente para isso quando estudei a evolução da paisagem portuguesa ao longo do século XX.

Em primeiro lugar gostaria de dizer que a emigração pode ser um drama pessoal, é um excelente tema para ser tratado na literatura e restantes artes, como todos os temas que sejam emocionalmente fortes, mas como processo social é um mero processo de reposição de equilíbrios entre a oferta e a procura do trabalho (na impossibilidade de haver emigração quando existem desequilibrios estruturais entre procura e oferta de trabalho, a alternativa é a pobreza, o desespero e a desvalorização do trabalho).

O que se passou em Portugal nos anos sessenta tinha-se passado em todos os países desenvolvidos pelo menos desde o sécuo XVIII, de forma mais rápida ou mais lenta, com a transferência do trabalho dos campos para as fábricas e as cidades. Que essas fábricas e cidades estejam no país ou fora dele, é mais ou menos irrelevante.

Esse processo é fortemente impulsionado pela descoberta da síntese da amónia, isto é, pela capacidade de criar fertilidade a partir de fábricas em vez de a colectar nas terras marginais através do pastoreio, o que vem permitir a revolução verde que nos alimenta a todos (Carlos Aguiar dizia, há tempos que não o ouço dizer isso mas duvido que tenha mudado de ideias, que a agricultura biológica consiste em colocar um animal, ou uma cultura e um animal, entre o saco de adubo e a produção, não sendo por isso uma alternativa à agricultura moderna).

Com a capacidade de produzir muito mais alimentos a partir de muito menos terra, e com a possibilidade de manipular a terra mais eficientemente para obter a produção que o mercado mais valoriza, o remuneração do trabalho aumenta muito, a da terra diminui em termos relativos, mas ainda assim o trabalho nas fábricas e cidades continua a ser mais compensador que no campo, sendo possível ver sair milhões de pessoas do campo para a cidade sem perda substancial, pelo contrário, com ganho de produção de alimentos e fibras (no princípio do século XX, 60% da população activa rm Portugal estava no sector primário e hoje deve andar pelos 5% e produz-se incomparavelmente mais que no princípio do século XX).

Ora em Portugal, este processo é forte desde o fim do século XIX, com emigração para o Brasil e toda a restante América (todos os meus tios paternos, incluindo o meu pai, emigraram da aldeia onde viviam os pais, a maioria para o Brasil, e a minha avó teve treze filhos. Não aconteceu o mesmo a todas as tias, apenas a algumas. Na casa dos meus pais andava um legítimo seis tiros smith and weston trazido por um tio que foi para a América e lá morreu, em condições não completamente esclarecidas), emigração que é bruscamente interrompida no fim dos anos 20 (provavelmente alguém se lembrará de um crash bolsista por essa altura) e até aos anos 50, isto é, durante toda a primeira fase do Estado Novo.

Em metade do Estado Novo a emigração foi historicamente baixa, e na outra metade foi historicamente alta.

Porque na primeira metade as pessoas viviam bem e na segunda metade a miséria as obrigou a emigrar?

Não, evidentemente, a miséria era incomparavelmente maior na primeira metade do Estado Novo, o que acontecia era apenas que não havia destino de emigração, primeiro por causa da crise económica dos fim dos anos 20, depois por causa da segunda guerra mundial, por razões que sem qualquer ligação ao regime que existia em Portugal.

Tal como na segunda metade do Estado Novo, apesar de, em Portugal, ser o período de maior convergência económica e social com os países mais desenvolvidos dos últimos 200 anos, houve um pico histórico da emigração, não apenas para fora do país, mas também do mundo rural para os centros urbanos do país, por razões que dificilmente se podem atribuir ao regime, como a disparidade de rendimento entre Portugal e a Alemanha, como se demonstra pelo facto de ainda hoje essa disparidade, em grande medida, existir, quase cinquenta anos depois da queda do regime anterior (e também existir muito antes do Estado Novo).

Sendo isto tão manifesto quando se olha para os números, seja qual for a perspectiva, o que justifica a presença tão forte do mito da emigração como resultado do Estado Novo, na historiografia dominante?

Não tenho uma resposta sólida e segura sobre isso, mas pelo menos uma parte da explicação só pode ter uma origem, que é consistente com a forma lamentável como boa parte dos bonzos da historiografia dominante reagiram à intervenção de Nuno Palma: a história contemporânea em Portugal parece ter ideologia a mais e objectividade a menos, estando muitas vezes mais perto do manifesto político que da produção científica.

A crítica aos regimes políticos é essencialmente política, prende-se com a legitimidade das fontes de poder, o respeito pelas pessoas comuns e outras coisas deste tipo, factores em que o Estado Novo não tem qualquer hipótese de ser classificado como um regime benigno, não sendo aceitável a desqualificação destes aspectos por troca com resultados sociais e económicos positivos.

Por mim, prefiro uma democracia de pobres a uma ditadura de ricos, quanto mais não seja porque posso livremente criticar a pobreza na democracia e defender mudanças de política sem correr riscos pessoais por isso, dito de outra maneira, a liberdade é um valor em si, não é preciso torcer a realidade para contestar a legitimidade de qualquer ditadura e não é seguramente esse o papel que as sociedades maduras e livres reservam à historiografia.

Jornalismo do absurdo

por henrique pereira dos santos, em 28.06.21

Ontem, Domingo, o Público titulava em grandes parangonas:

"Montezinho, o último refúgio do lobo ibérico em Portugal".

Não é preciso ter grande ligação à conservação do lobo para saber que esta frase é um disparate completo, de maneira que fui rapidamente ver o artigo em causa à procura da origem da asneira.

O artigo para que o título remete não tem a mais leve alusão a esta ideia completamente idiota, tendo aliás um mapa com a distribuição do lobo em Portugal que manifestamente contraria o título de primeira página. Não é uma pequena chamada de primeira página, é a fotografia principal da primeira página, o assunto que ocupa mais espaço nessa primeira página, sobre a qual está o título em que se dá livre curso à ignorância de quem fechou a primeira página do jornal.

Não é com certeza o segurança que fecha a porta depois do último sair que fecha também a primeira página do jornal, não estamos portanto a falar de segundas, terceiras, quartas linhas de jornalistas, estamos a falar de quem fecha a primeira página que não só inventa um título sem a menor base factual, como é completamente desmentido pela peça para que o título remete.

Meus caros accionistas, meus caros directores, meus caros jornalistas de referência: não vendem jornais porque o mundo mudou, com certeza, mas também porque os jornais que fazem são maus, muito maus.

O V Marquês de Abrantes, ou o "Marquês Velho"

por João Távora, em 27.06.21

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Inicialmente, pensei em escrever esta crónica sobre o V e o VI Marquês de Abrantes em simultâneo porque o que nos chega das suas vidas mostram-nas bastante embrulhadas, entre as invasões dos franceses e as lutas contra os liberais, ou seja, ambos com excepcional protagonismo na viragem das mais trágicas páginas da História de Portugal. Refiro-me a D. Pedro de Lancastre, VII Conde de Vila Nova de Portimão e V Marquês de Abrantes – título e mercês que resgata à sua tia-bisavó, D. Maria Margarida de Lorena, IV Marquesa de Abrantes, que morreria sem geração - e seu filho José Maria da Piedade, VI Marquês de Abrantes, que no meio do turbilhão das lutas entre legitimistas e liberais morreria em 1827 com 43 anos desgraçadamente exilado em Londres longe da família, um ano antes do pai.

Mas concentremo-nos em D. Pedro de Lancastre, personalidade porventura excêntrica, sensível às artes e amante do requinte, chefe de uma das mais exuberantes casas nobres do Antigo Regime, de quem nos chegam testemunhos depreciativos através dos diários de William Beckford e das memórias do Marquês de Bombelle, embaixador de França em Lisboa entre 1786 e 1788, ambos o considerando “ridículo”, nomeadamente as suas “infantis e ostensivas manifestações piedosas”.   

No entanto foi o V Marquês de Abrantes o nomeado pela coroa como Presidente do Conselho de Regência na retirada da Família Real para o Brasil, sob “severas recomendações” deixadas pelo Príncipe Dom João para, em defesa da ordem pública, receber o exército francês invasor como “aliado”. Desse cargo viria a ser demitido três meses depois por Junot. Ainda assim, foi escolhido para integrar uma delegação portuguesa a Bayonne para a humilhante tarefa de cumprimentar Napoleão, coisa que terá feito certamente a contragosto acompanhado pelo seu filho primogénito José Maria de Lancastre. Certo é que, perante as notícias da revolta dos portugueses apoiados pelos ingleses contra os invasores, os dois ficaram detidos em França como reféns até ao final da Guerra Peninsular em 1814. Não tendo propriamente estado presos num carcere, presumem-se terem estes anos sido muito duros para os meus antepassados.

Sobre os gastos sumptuários do V Marquês de Abrantes, sabemos que Dom Pedro de Lancastre foi responsável por grandes obras no Palácio de Santos, empreendidas entre 1802 e 1805, incindindo sobre duas grandes áreas do edifício: o corpo principal da ala fronteira e respectivo acrescento de dois vãos, a ala paralela ao Tejo sobre os jardins, e a construção do coro da Igreja de Santos o Velho que inclui as duas grandes tribunas actualmente existentes, uma para a família e a outra para a Irmandade do Santíssimo de Santos o Velho. São da mesma altura os trabalhos de ornamentação das salas de recepção: casa de jantar, galeria e salão principal, orientadas por Felizberto António Botelho que dirigia uma equipa que chega a ser constituída por dez pintores, alguns deles artistas consagrados. Nem sonhava o “marquês velho”, como viria a ser chamado, os tempos conturbados que se aproximavam – não posso deixar de concluir que a má leitura das realidades da época evidenciada por esta figura representativa do antigo regime é prenúncio da sua queda.

Do bom gosto e erudição do V Marquês de Abrantes decorre também o seu apoio à música como refere Joseph Scherpereel num artigo publicado em 1999 na Revista Portuguesa de Musicologia, “Patrocínio e «Performance Practice» em Lisboa e proximidades na segunda metade do século XVIII e começo do século XIX”, tendo Dom Pedro de Lancastre chegado a desembolsar uma média anual entre seiscentos e setecentos mil réis (uma soma avultada para a época) em patrocínios musicais no decénio de 1790.

De resto a má gestão da Casa de Abrantes não estará certamente desligada do enorme rasto de filhos bastardos (comportamento já não muito aceitável na época) que Dom Pedro de Lancastre deixa para trás, dos quais legitimou três, o terceiro deles filho de Plácida Scapesis, cantora lírica italiana. Era literal e definitivamente um grande amante da música.

Certo é que Dom Pedro de Lancastre foi “demitido” da administração da Casa de Abrantes por decreto régio que a atribui ao seu filho José Maria da Piedade, assim como o uso do título de Marquês em vida do seu pai, facto que não sendo caso único, era pouco comum na época – a intervenção da coroa na “defesa” das grandes casas senhoriais - e terá certamente causado algum escândalo na sociedade.

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Casado com D. Maria Joana Xavier de Lima, filha dos primeiros Marqueses de Ponte de Lima, dessa união teve quatro filhos. Com uma vida aventurosa e acidentada, profundamente ligado à causa legitimista de Dom Miguel, ainda teve tempo de com ele participar na insurreição Vilafrancada, tendo-se retirado depois para o Palácio de Marvila onde morre em 1828 um ano depois da nomeação de uma junta administrativa para evitar a falência da sua Casa provavelmente sem saber porque fora nomeado Par do Reino por Dom Pedro IV um ano antes. O País ainda mal refeito das invasões francesas estava prestes a entrar em guerra civil, o seu filho mais velho morrera em Londres - suspeita-se que assassinado pelos seus adversários políticos por envenenamento – e a viúva Helena Vasconcelos e Sousa, tomava em suas mãos a administração da Casa e segurava o património de família. É sobre a vida trágica do seu marido e meu quarto avô, o VI Marquês de Abrantes, que versa a próxima crónica.

Legendas das fotografias:

  • Fotografia 1 

Dom Pedro de Lancastre, aguarela da autoria de Sta. Bárbara. 

  • Fotografia 2

Palácio do Marquês de Abrantes em Marvila

Fontes: 

"A Heráldica da Casa de Abrantes", vol. 2 do Tomo 4, por Luís de Lancastre e Távora

"Le Palais de Santos" por Pierre Samoyault

"Quinta de Nossa Senhora da Piedade - História do Seu Palácio Jardim e Azulejos" por Celso Mangucci

“Patrocínio e «Performance Practice» em Lisboa e proximidades na segunda metade do século XVIII e começo do século XIX” Joseph Scherpereel - Revista Portuguesa de Musicologia, 1999

Documentos de família e testemunhos orais.

Publicado originalmente aqui

Domingo

por João Távora, em 27.06.21

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Naquele tempo, depois de Jesus ter atravessado de barco para a outra margem do lago, reuniu-se uma grande multidão à sua volta, e Ele deteve-se à beira-mar. Chegou então um dos chefes da sinagoga, chamado Jairo. Ao ver Jesus, caiu a seus pés e suplicou-Lhe com insistência: «A minha filha está a morrer. Vem impor-lhe as mãos, para que se salve e viva». Jesus foi com ele, seguido por grande multidão, que O apertava de todos os lados. Ora, certa mulher que tinha um fluxo de sangue havia doze anos, que sofrera muito nas mãos de vários médicos e gastara todos os seus bens, sem ter obtido qualquer resultado, antes piorava cada vez mais, tendo ouvido falar de Jesus, veio por entre a multidão e tocou-Lhe por detrás no manto, dizendo consigo: «Se eu, ao menos, tocar nas suas vestes, ficarei curada». No mesmo instante estancou o fluxo de sangue e sentiu no seu corpo que estava curada da doença. Jesus notou logo que saíra uma força de Si mesmo. Voltou-Se para a multidão e perguntou: «Quem tocou nas minhas vestes?». Os discípulos responderam-Lhe: «Vês a multidão que Te aperta e perguntas: ‘Quem Me tocou?’». Mas Jesus olhou em volta, para ver quem O tinha tocado. A mulher, assustada e a tremer, por saber o que lhe tinha acontecido, veio prostrar-se diante de Jesus e disse-Lhe a verdade. Jesus respondeu-lhe: «Minha filha, a tua fé te salvou. Vai em paz e fica curada do teu mal». Ainda Ele falava, quando vieram dizer da casa do chefe da sinagoga: «A tua filha morreu. Porque estás ainda a importunar o Mestre?». Mas Jesus, ouvindo estas palavras, disse ao chefe da sinagoga: «Não temas; basta que tenhas fé». E não deixou que ninguém O acompanhasse, a não ser Pedro, Tiago e João, irmão de Tiago. Quando chegaram a casa do chefe da sinagoga, Jesus encontrou grande alvoroço, com gente que chorava e gritava. Ao entrar, perguntou-lhes: «Porquê todo este alarido e tantas lamentações? A menina não morreu; está a dormir». Riram-se d’Ele. Jesus, depois de os ter mandado sair a todos, levando consigo apenas o pai da menina e os que vinham com Ele, entrou no local onde jazia a menina, pegou-lhe na mão e disse: «Talita Kum», que significa: «Menina, Eu te ordeno: Levanta-te». Ela ergueu-se imediatamente e começou a andar, pois já tinha doze anos. Ficaram todos muito maravilhados. Jesus recomendou-lhes insistentemente que ninguém soubesse do caso e mandou dar de comer à menina.

Palavra da salvação.

Comentário: Dois milagres, em que Jesus Se manifesta o Senhor da vida. Mais de uma vez, Ele próprio Se definiu como sendo a Vida. É assim, porque é o Filho de Deus. Fazendo-Se homem, a sua humanidade é agora o instrumento, bem próximo de nós, da sua divindade, de sorte que aproximar-se d’Ele é aproximar-se da Vida, como o pôde experimentar a mulher doente e a filha de Jairo, que morrera. É pela fé que nos podemos aproximar de Jesus, fé que, nos sacramentos, nos leva a ver o prolongamento dos gestos do Senhor no meio dos homens.

O Príncipe, o Estado Novo e a epidemia

por henrique pereira dos santos, em 25.06.21

Ontem foi a vez de Irene Pimentel fazer a defesa do regime no Público, procurando evitar que se discutam seriamente as razões da convergência com os países desenvolvidos entre meados dos anos 50 e meados dos anos setenta, durante a ditadura, e a estagnação dos últimos vinte anos, durante a democracia.

Irene Pimentel avisa logo que jamais deixará que os factos influenciem as suas ideias "não me proponho rebater uma argumentação baseada na sacralização dos números".

E depois entretém-se na demonstração do que acabei de escrever.

"Qualquer historiador sabe que não é "fazer história" abordar apenas aspectos económicos, sem os interpretar, contextualizar e comparar ... E na ditadura portuguesa, têm de ser referidos, pelo menos, os aspectos repressivos (censura, PIDE), a ausência de Estado social, a emigração, os salários de fome, a miséria e a guerra colonial.

...

para caracterizar qualquer regime do passado, é benéfico utilizar a comparação histórica. Mas é melhor, por exemplo, comparar dados económicos no longo período ditatorial com outros países da Europa no mesmo período."

Sendo a origem da discussão exactamente o facto de Nuno Palma dizer que a vulgata historiográfica que é passada à sociedade, nomeadamente nos livros escolares, não faz essas comparações de forma correcta, usando Nuno Palma a solidamente estabelecida convergência económica que referi acima e a evolução no ensino, como exemplos de como a ideologia se tem sobreposto ao conhecimento na análise da evolução do país, seria de esperar que Irene Pimentel, depois de se colocar no mesmo plano metodológico, explicasse os erros de Nuno Palma na caracterização da evolução de Portugal quando comparada com o resto do mundo.

"Para só falar da mortalidade infantil, compará-los entre os anos 30 e 70 do século XX, em Portugal pouco traz ... a não ser que obviamente diminuiu em 42 anos. Em 1930, 143,6 bebés até um ano por cada mil morriam em Portugal, ..., e 55,5 por mil em 1970. Ora, neste último ano, a média da mortalidade infantil da UE (a 27) era menos de metade do que em Portugal: 25 por mil".

Certo, Irene, mas e qual era o ponto de partida em 1930 da UE a 27, para que nós, pobres ignaros, possamos saber se convergimos ou divergimos ou, para usar as suas palavras, não seria "melhor, por exemplo, comparar dados económicos no longo período ditatorial com outros países da Europa no mesmo período"?

"Compare-se também os valores da mobilidade social, da redistribuição da riqueza, do analfabetismo, da emigração".

Cara Irene, mas é exactamente essa comparação que tem sido feita pela historiografia que Nuno Palma refere como sendo deturpada no discurso social sobre o Estado Novo, incluindo nos programas escolares, comparação que Irene Pimentel não pode deixar de conhecer e que omite totalmente, tornando o seu artigo numa comédia de enganos.

E é neste ponto que a minha cabeça fez a ponte para a invocação da ciência a propósito da epidemia.

Deixemos de lado a palavra ciência, e usemos academia, a elite que investiga e pensa de forma institucionalmente estabelecida, para evitar a discussão sobre o carácter científico ou não das ciências sociais.

O que a polémica sobre a intervenção de Nuno Palma demonstra é que a academia instalada é tão permeável ao viés ideológico como qualquer outro grupo social, na enésima demonstração desta citação de Max Planck que uso frequentemente e de que tomei conhecimento, via Carlos da Câmara, a propósito de fogos: “A new scientific truth does not triumph by convincing its opponents and making them see the light, but rather because its opponents eventually die, and a new generation grows up that is familiar with it.”

Como me parece claro - embora o óbvio seja uma coisa muito subjectiva - as medidas de gestão da epidemia, e mesmo a interpretação das variações de incidência da epidemia, dificilmente mudarão nos próximos tempos, não por estarem certas ou erradas - um ano e meio depois do seu início não existe uma única demonstração científica sólida, baseada em dados reais, que consiga estabelecer uma correspondência sólida entre medidas não farmacêuticas e taxas de incidência da covid - mas simplesmente porque quer os investigadores mais expostos publicamente, quer o poder instituído, não podem simplesmente reconhecer, agora, que realmente não controlam epidemia nenhuma e as incidências que se vão verificando, se influenciadas pelas horas a que se vendem bebidas alcoólicas ou se fecham restaurantes, são-no marginalmente, não são um factor essencial de evolução da incidência da epidemia.

As consequências disto para a forma como o poder vai gerindo politicamente este assunto compreende-se melhor a partir do Príncipe, de Maquiavel, um arguto analista da natureza do poder, embora, claro, seja sempre difícil compreender o chorrilho de disparates regulamentares de compressão das liberdades públicas que estão a ocorrer, porque não é possível compreender as decisões num manicómio em auto-gestão.

Quando se argumenta que o facto de todos os países em todo o mundo terem adoptado o mesmo tipo de medidas é uma demonstração de que com certeza essas opções serão as mais razoáveis, argumenta-se com base na falácia  de que as medidas, por serem todas não farmacêuticas, são semelhantes, o que está longe de ser verdade.

No entanto, a verdadeira objecção a este argumento é que o que faz todos os governos convergirem para o mesmo tipo de medidas é a natureza do poder, não é o consenso sobre a epidemia, que simplesmente não existe.

Por isso é que Maquiavel é útil para compreender o que se está a passar.

O poder sabe que uma epidemia é essencialmente um processo social guiado pelo medo, portanto é a gestão do medo que é relevante politicamente - os aspectos de saúde associados à epidemia acabam por ser marginais, no processo social, pela simples razão de que são largamente não controláveis sem medidas farmacêuticas eficazes, tratamentos e vacinas, sobretudo.

"cada príncipe deve desejar ser tido como piedoso e não como cruel", diz Maquiavel e é esta ideia que é o centro das opções: cada governo foge como o Diabo da cruz de ser acusado de ser cruel e não ligar ao valor da vida humana, fazendo tudo o que estiver ao seu alcance para se mostrar piedoso.

Todos os governos fazem a pergunta mais conhecida de Maquiavel e conhecem a resposta à pergunta: "se é melhor ser amado que temido ou o contrário. A resposta é de que seria necessário ser uma coisa e outra; mas, como é difícil reuni-las, em tendo que faltar uma das duas é muito mais seguro ser temido do que amado", o que naturalmente implica, em caso de dúvida, que os governos prefiram estabelecer confinamentos, por impopulares que sejam, evitando o risco da evolução da epidemia os colocar na posição de ter de responder à acusação de falta de sensibilidade social perante o número crescente de mortos que venha a ocorrer.

A questão central é que mesmo que os confinamentos sejam ineficazes, e as mortes venham a ocorrer, como abundantemente aconteceu neste ano e meio e aconteceria sempre em qualquer epidemia com estas características, é possível responsabilizar terceiros pelo incumprimento das regras, mas não há forma de escapar politicamente à responsabilização política quando não foram tomadas medidas que a imprensa considere necessárias.

"Isso porque dos homens pode-se dizer, geralmente, que são ingratos, volúveis, simuladores, tementes do perigo, ambiciosos de ganho; e, enquanto lhes fizeres bem, são todos teus, oferecem-te o próprio sangue, os bens, a vida, os filhos, desde que, como se disse acima, a necessidade esteja longe de ti; quando esta se avizinha, porém, revoltam-se".

Ou, de forma mais clara:

"que o príncipe pense (como acima se disse em parte) em fugir àquelas circunstâncias que possam torná-lo odioso e desprezível; sempre que assim proceder, terá cumprido o que lhe compete e não encontrará perigo algum nos outros defeitos".

Em verdade, em verdade vos digo, todas estas medidas e contra-medidas que se vão tomando por estes dias para controlar uma doença que não está a provocar nenhuma pressão relevante sobre a prestação de cuidados de saúde, nem nenhum aumento expressivo de mortalidade, não têm qualquer relação com a ciência, com a saúde ou  com a razoabilidade, decorrem apenas da natureza do poder e do medo instalado na sociedade, que a torna receptiva à compressão das liberdades públicas ao ponto de permitir que o Estado defina como se organizam reuniões familiares, produzindo mesmo certificados que me permitam estar com os meus filhos e netos todos juntos sem que o aparelho repressivo do Estado se possa abater sobre mim.

Tal como a polémica sobre as questões levantadas por Nuno Palma não tem nenhuma relevância académica - todos estão de acordo com os factos que enunciou - prende-se apenas com o controlo político da memória colectiva, que tem estado nas mãos dos donos do regime como instrumento que lhes permite fugir à discussão sobre a sua responsabilidade no Estado a que chegámos.

Toda a gente devia saber

por henrique pereira dos santos, em 24.06.21

"O que toda a gente devia saber, a começar pela ministra da saúde é que é ao fim de duas semanas, que os números se mostram. O resultado só podia ser este, nós agora temos o Algarve com um Rt de 1,62, que é o valor mais alto do país. Nós sabemos desde o início da pandemia, que foi há mais de um ano e meio, pode haver muita coisa que não se conhecia deste vírus, há uma que é certinha, desde o início, é que o vírus precisa de duas semanas, mais coisa menos coisa, para se mostrar. E agora, todos o podemos ver, passaram-se duas semanas, e temos estes números no Algarve. A ministra da saúde tinha a obrigação de ter visto isto antes, é paga para ver estas coisas antes, tem especialistas a trabalhar com ela para ver estas coisas antes, só não viu antes porque não quis, e por isso, se o governo não quis impedir a ida de milhares de pessoas da grande Lisboa para o Algarve, no fim de semana prolongado, porque seria se calhar uma medida incómoda, desagradável e que tirava votos, não venha agora fingir surpresa com os números que era inevitável (a ênfase é do original) termos duas semanas depois."

Longa citação de uma conversa de taxista que ontem ouvi por acaso na Rádio Observador e que pode ser verificada aqui.

Nunca ouço voluntariamente Miguel Pinheiro, do Observador, nem leio o que escreve, porque me falta a paciência para a prosápia de superioridade que o caracteriza a falar dos outros, mas quando ando de carro apanho-o aqui e ali, e foi o caso.

Não me interessa nada desmontar a quantidade de parvoíces deste parágrafo, apenas me interessa fazer notar que este é o director de um orgão de informação que militantemente afirma, quer o orgão de informação, quer o próprio - destratando todos os que fazem notar que a evolução dos números não é compatível com o que se sabe da forma como evolui esta doença, desde o contágio até à manifestação de sintomas (quando existem), internamento (quando é necessário) e morte (quando ocorre) - que o fecho de escolas a 22 de Janeiro, seguido da imensa movimentação de pessoas associada à uma eleição a 24, é responsável por uma queda brusca da incidência da doença uma semana depois (neste caso a ênfase é minha).

Miguel Pinheiro é pago para verificar factos, Miguel Pinheiro foi treinado para verificar factos, Miguel Pinheiro tem muitos jornalistas a trabalhar com ele para produzir informação fiável, portanto não venha agora dizer que toda a gente sabe que os números se manifestam inevitavelmente duas semanas depois dos factos que escolhe como ponto de partida - no caso em apreço, o segundo fim de semana comprido, e não o anterior, que também foi comprido - e, ao mesmo tempo, recusar-se a admitir que a evolução da epidemia em Janeiro/ Fevereiro é totalmente incompatível com essa coisa que "toda a gente sabe".

Põem os jornalistas permanentemente a dar as suas opiniões sobre tudo e mais alguma coisa, sem que ninguém perceba por que razão os mesmos jornalistas comentam epidemias, futebol, dívida pública, política externa, sem que se lhes reconheça qualquer aptidão especial em cada uma das matérias, e o resultado é inevitável: falta-lhes tempo para fazer jornalismo e perceber que impedir um terço da população se deslocar ao fim de semana para onde lhes apetece não é um incómodo, é uma violação severa de liberdades constitucionalmente garantidas, como a liberdade de circulação.

Pode-se admitir que circunstâncias excepcionais levem à compressão de direitos fundamentais, mas o papel do jornalismo não é malhar no governo por não comprimir mais direitos fundamentais com base em conversas de taxista, o papel do jornalismo é escrutinar, duramente, as razões que fundamentam essa compressão das liberdades, para que o público possa fazer um juízo informado sobre a razoabilidade desses fundamentos.

A UBER tem hoje mais viabilidade económica que o jornalismo por uma razão simples: se é para ouvir conversa de taxista, ao menos que seja quando a corrida tem alguma utilidade para o consumidor.

À escolha: jornalista ou papagaio

por José Mendonça da Cruz, em 23.06.21

Os jornalistas que anunciam que a DGS tem telefones de contacto deviam experimentar contactar a DGS por telefone. Se não o fizerem antes do anúncio são papagaios de propaganda, não são jornalistas.

Os jornalistas que anunciam que está disponível no site da DGS um dispositivo para marcação de vacinas deviam experimentar o dispositivo de marcação antes do anúnico. Se não o fizerem, não são jornalistas, são papagaios de propaganda.

Os jornalistas que anunciam que os vacinados com AstraZeneca terão antecipada a administração da 2.ª dose deviam contactar a DGS (para o telefone ou site que anunciaram) ou o seu centro de saúde antes do anúncio, e, ficcionando um caso real, inquirir da tal antecipação anunciada. Se não o fizerem são papagaios de propaganda, não são jornalistas.

Os jornalistas que anunciam vacinações «de porta aberta» devem tentar usar a porta (tendo as condições exigidas, ou acompanhando-se de alguém que as tenha) antes de anunciarem que está aberta. Se não o fizerem não são jornalistas, são papagaios de propaganda.

Os jornalistas que anunciam que algum serviço público, alguma repartição, alguma instituição do Estado -- seja central ou autárquica -- disponibilizou algum telefone, ou site na Net, ou endereço de email para rápida solução de algum problema, devem, antes do anúnico, tentar utilizar o telefone, o site ou o endereço para verificarem a rapidez ou as facilidades que obtêm. Se não o fizerem são papagaios de propaganda, não são jornalistas.

Paradoxos

por João-Afonso Machado, em 23.06.21

O País continua vivendo entre as atoardas de Costa, o Europeu de futebol e as oscilações da covid.

Quanto ao nosso 1º, nada haverá a esperar. Nem já mesmo a bazuca financeira...

No mais, tenho algum medo o Europeu seja de mais rápido desfecho do que a covid. E se, porventura, for um Europeu de grandes alegrias e emoções, ainda venha complicar o dito imbróglio covid.

Estranhamente, nos jogos disputados há assistência e não se estabelece qualquer nexo de causalidade entre esse facto e o recrudescimento da doença. Aqui... acabamos de verificar que muitos com a primeira vacina já aplicada ainda vão contagiados parar aos hospitais. Fala-se numa hipotética 4ª vaga, no retrocesso dos desconfinamento, a indústria do turismo vive já em alarme. E a India e a sua versão covid são a mãe de todos os males.

Todos os dias aprendemos. Aprendemos, ao menos, que não conseguimos aprender.

Torrar dinheiro

por henrique pereira dos santos, em 23.06.21

Terá sido ontem apresentado o projecto LIFE LxAquila.

O programa LIFE é um programa europeu, directamente gerido pela Comissão Europeia, objecto de uma selecção exclusivamente da responsabilidade da Comissão Europeia, portanto tudo o que digo neste post não se refere a um esquema manhoso de aplicação de fundos comunitários em Portugal mas sim a opções legítimas de alocação de recursos para a conservação da natureza por parte da União Europeia.

Os objectivos do projecto são meritórios: 

Criar uma rede de custódia composta por proprietários de terrenos privados e entidades públicas, que serão guardiões dos valores naturais da região, e em particular das águias-de-bonelli

Demonstrar que é possível compatibilizar a conservação de predadores com as atividades humanas

A questão que se levanta é a de saber por que razão, para atingir estes objectivos, se escolhe um projecto que tem como alvo a águia de bonelli na região de Lisboa.

Há já muitos anos sugeri que dois empreendedores da área da conservação recebessem um prémio de excelência por terem conseguido vender à EDP um projecto inútil por cerca de dez mil euros de serviços por mês, durante cinco anos.

Como entretanto isso foi há uma década, sugiro uma nova atribuição de empreendedores da década na área da conservação aos promotores do LxAquila, por terem conseguido vender este projecto inútil por dois milhões de euros à Comissão Europeia.

Na realidade, a este projecto aplica-se integralmente o último parágrafo do post para que ligo antes: "Este projecto demonstra que captar mais de meio milhão de euros para resolver problemas de conservação, mesmo inexistentes, apenas exige estratégias de marketing adequadas e capacidade por parte dos empreendedores, tendo por isso um enorme potencial de mobilização positiva para todo o sector", com a pequena adaptação de neste caso não ser meio milhão, mas dois milhões.

O que me incomoda não é que haja quem faça projectos manifestamente absurdos para financiar actividades em grande parte meritórias - e muito menos que o projecto seja co-financiado por uma das celuloses, como é evidente - o que me incomoda são os critérios de decisão da União Europeia que permitem que um financiamento cuja base de atribuição é o valor europeu de conservação dos projectos seja aplicado em projectos que nem têm valor europeu, nem têm valor para a conservação.

A águia de bonelli está em expansão, teria qualquer coisa como 120 casais há dez anos em Portugal e hoje tem cerca de 150, teria meia dúzia de casais na área metropolitana de Lisboa, terá hoje o dobro, mas ainda assim justifica-se o projecto com ameaças mirabolantes como a eventual diferenciação genética de populações que nidificam em árvoras e não escarpas (a reutilizaçao da treta da diferenciação genética potencial com base em factores comportamentais, já usada no tal projecto anterior vendido à EDP, que citei) ou, o que é mais interessante, a argumentação de que como a espécie está presente em áreas densamente povoadas, como a área metropolitana de Lisboa, e é muito sensível à perturbação, quer dizer que está numa situação limite em que qualquer nova perturbação pode levar um casal a mudar de sítio.

Com base nestes pressupostos, deveremos concluir que a duplicação de casais na área metropolitana de Lisboa nos últimos dez anos se deve, com certeza, ao intenso despovoamento da área metropolitana de Lisboa nos últimos dez anos, diria eu.

Com problemas de conservação bem sérios, como os que estão associados à perda de capacidade de gestão activa de serviços de ecossistema, com questões de conservação realmente importantes, como o aumento da capacidade de produzir conhecimento em grupos especialmente desconhecidos, como os invertebrados, com preocupações relevantes como as que dizem respeito à biodiversidade do solo e sua relação com a captação de carbono, com gravíssimas lacunas de conhecimento na dinâmica de espécies da flora especialmente ameaçadas, a opção da União Europeia é torrar dois milhões na reinação com águias de bonelli.

E, a julgar pelo envolvimento institucional no projecto - seis câmaras municipais, companhia das lezírias, e-redes, GNR, ICNF (declaração de interesses, a minha entidade patronal), Parques de Sintra, Tapada de Mafra, financiamento por uma das celuloses, no caso, a ALTRI - parece que toda a gente acha isto normal.

Apesar das muitas vezes em que isto me acontece, não consigo sentir-me confortável com a circunstância de andar demasiadas vezes com o passo trocado na formatura e não saber como se faz para ter a capacidade de andar sempre de passo acertado, como consegue tanta gente sem esforço.

Fernando Rosas e Nuno Palma

por henrique pereira dos santos, em 22.06.21

No Domingo, 20 de Junho, Fernando Rosas tem duas páginas do Público, com destaque de primeira página, para contestar o que disse Nuno Palma na convenção do Movimento Europa e Liberdade, a saber, que a vulgata sobre o desastre económico do Estado Novo está errada e tem sido usada para desresponsabilizar o regime democrático pelos seus falhanços económicos e sociais.

Os pontos relevantes da contestação de Fernando Rosas são os seguintes, parece-me.

1) O relevante não é o que diz objectivamente Nuno Palma, mas o sub-texto essencial do que disse Nuno Palma, isto é, Fernando Rosas pretende deslocar a discussão do que disse Nuno Palma para o que Fernando Rosas acha que quis dizer Nuno Palma, mesmo não o tendo dito. É uma velha técnica retórica, aliás não apenas retórica, Sun Tzu, na Arte da Guerra, também dá muita ênfase à importância da escolha do terreno do combate para a vitória. Ou seja, Fernando Rosas não está interessado em discutir argumentos a partir de um chão comum racional mas apenas interessado em ganhar uma guerra;

2) Na substância, depois de algumas voltas e voltinhas retóricas, Fernando Rosas confirma, em absoluto, o primeiro argumento de Nuno Palma: "é certo que no pós-guerra, sobretudo a partir da segunda metade dos anos 50 até ao início dos anos 70, a economia regista um crescimento sem precedentes" e implicitamente reconhece o fracasso económico do regime democrático "O certo é que este gigante oligárquico ... tinha pés de barro. Quando os trabalhadores reconquistaram a liberdade ... o modelo político-económico ... ruiu como um baralho de cartas, lançando o pesado lastro da sua insustentabilidade sobre a democracia portuguesa", o segundo pressuposto de Nuno Palma;

3) O texto é todo ele uma demonstração de como as elites do regime democrático, de que Fernando Rosas sempre fez parte, procuram alijar responsabilidades para cima do Estado Novo fazendo uma opção metodológica que é exactamente o que é contestado por Nuno Palma (pelo menos é essa a minha interpretação): a apresentação de números absolutos de caracterização da realidade do fim do Estado Novo, evitando a todo o custo o enquadramento e a compreensão do contexto, de modo a evitar a discussão das razões pelas quais a dinâmica numa alturas é de convergência e noutras é de divergência;

4) Quando se fazem comparações são fixas num tempo e com geografias escolhidas a dedo (aquilo a que agora se chama cherry picking), dando origem a coisas curiosas como esta, assinalada por João Cerejeira num curto comentário sobre este texto: "Não deixa de ser curiosa esta frase no texto de Fernando Rosas: "Com cerca de 29% de analfabetos em 1970, Portugal só era ultrapassado pela Turquia." Com referência aos dias de hoje, a mesma frase poderia ser escrita assim: "Com cerca de 45% da população adulta sem o ensino secundário em 2020, Portugal só é ultrapassado pela Turquia."", evitando cuidadosamente o "antes e depois" dos diferentes períodos de evolução económica social, condição sine qua non para se poder avaliar que factores estiveram a actuar nos melhores períodos e que factores estiveram a actuar nos piores períodos.

Em duas páginas de texto, Fernando Rosas usa muito mais adjectivos que factos e, mais uma vez, faz uma estranha defesa da ditadura ao pretender que o maior período de expansão económica e social do país nos últimos duzentos anos, que coincide com o maior período de convergência com as economias mais avançadas, é inseparável do regime político em que ocorreu.

A explicação alternativa a esta é a de que o esforço de consolidação da primeira fase do Estado Novo, conjugado com a abertura do país e da economia forçada pelo acordo da EFTA, são factores essenciais, o primeiro com maior ligação ao regime político, o segundo razoavelmente autónomo em relação ao regime, a partir do momento em que o acordo com a EFTA obrigou à abertura económica (parcial, é claro, mas muito relevante).

A discussão que interessa é esta, não a dos sub-textos de cada pessoa: os períodos de maior pujança económica do país estão ou não ligados à maior abertura externa e a modelos económicos mais liberais, e os períodos de maior estagnação estão ou não ligados ao sufoco do Estado sobre a economia, incluindo através de despesas excessivas de baixa eficiência económica?

Eu percebo que os donos do regime queiram evitar esta discussão à custa da pesada utilização de adjectivos e de slogans bem esgalhados como o do título do texto de Fernando Rosas "O milagre da economia sem política".

A queda dos anjos

por Miguel A. Baptista, em 20.06.21

A Victoria’s Secret decidiu acabar com os anjos sexies e colocar pessoas “normais” e “inspiracionais”, tais como uma jogadora de futebol, uma refugiada, ou uma transexual.

Quanto a mim, ao contrário do que muitos possam pensar, tal representa um retrocesso civilizacional. Eu gosto de viver numa sociedade onde a jogadora de futebol, a refugiada, ou a transexual sejam aceites e valorizadas. Mas também gosto de viver numa sociedade onde haja glamour, sedução e fantasia.

A sociedade abdicar de um dos seus maiores ícones de sedução e fantasia não é nada de forçosamente bom. Uma sociedade que abandona o sonho, concentrando-se exclusivamente na realidade, não é particularmente interessante.

Domingo

por João Távora, em 20.06.21

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Naquele dia, ao cair da tarde, Jesus disse aos seus discípulos: «Passemos à outra margem do lago». Eles deixaram a multidão e levaram Jesus consigo na barca em que estava sentado. Iam com Ele outras embarcações. Levantou-se então uma grande tormenta e as ondas eram tão altas que enchiam a barca de água. Jesus, à popa, dormia com a cabeça numa almofada. Eles acordaram-n’O e disseram: «Mestre, não Te importas que pereçamos?». Jesus levantou-Se, falou ao vento imperiosamente e disse ao mar: «Cala-te e está quieto». O vento cessou e fez-se grande bonança. Depois disse aos discípulos: «Porque estais tão assustados? Ainda não tendes fé?». Eles ficaram cheios de temor e diziam uns para os outros: «Quem é este homem, que até o vento e o mar Lhe obedecem?».

Palavra da salvação.

Comentário: Se a contemplação da obra da criação nos pode levar a reconhecer a presença de Deus junto dos homens, quanto mais a contemplação das obras realizadas por Jesus Cristo, o próprio Filho de Deus feito homem? E mais ainda do que acalmar a tempestade no lago da Galileia, o Senhor sempre presente na barca da Igreja, continua a trazer a paz e a bonança ao seu povo batido pelas vagas na travessia do mar desta vida a caminho do porto seguro da glória celeste.

Estou chim?! Estou aqui!

por José Mendonça da Cruz, em 19.06.21

É sempre um bom momento aquele em que os reportes televisivos proclamam, ufanos, que estão «aqui». «Aqui, de Budapeste», «Aqui, de Munique».  Surpreende-me e diverte-me sempre que os reporteres achem que poderiam estar em outro lado senão ali, onde a câmara os mostra. Lembram-me sempre o pastor do anúncio de telemóveis: «Estou chim? É pra miiimm!»

Cultura institucional

por henrique pereira dos santos, em 19.06.21

Vou contar três histórias que ouvi directamente de pessoas que estavam nos carros, se são verdadeiras ou não, não tenho maneira de saber, que retratam uma cultura institucional, isso sim, sei que são bastante fiéis.

Na primeira, um ministro (José Sócrates) entra no carro em Aveiro e diz para o motorista: tenho uma reunião em Lisboa dentro de uma hora, estou cansado, vou aproveitar para dormir e não se esqueça de cumprir os limites de velocidade. Mas como é que eu chego a Lisboa numa hora a cumprir os limites de velocidade? Como lhe disse, eu vou dormir, estou apenas a dar-lhe informação sobre o meu próximo compromisso e a dar a instrução de que quero que cumpra os limites de velocidade, o resto é o seu trabalho.

Na segunda, uma ministra (Elisa Ferreira), diz ao seu motorista que está atrasada para uma reunião em Lisboa, à saída de Estremoz, ou por aí (não me lembro). Adormece, acorda a meio, sobressaltada, repara no conta-quilómetros e insiste com o motorista: por favor, senhor ... já lhe pedi várias vezes para nunca passar dos 200.

A terceira é com um director geral a quem a polícia manda encostar numa auto-estrada, por evidente excesso de velocidade. Enquanto pára o carro o motorista diz para o seu director geral, de que é motorista há anos: esteja calado, daqui para a frente, diga eu o que disser. Quando o polícia o aborda e lhe faz notar a velocidade absurda a que seguiam, o motorista, com voz alterada, diz para o polícia que a culpa é daquele gajo que agora está encolhido lá atrás porque sabe que se alguém levar uma talhada sou eu, o gajo é que me obriga a estas loucuras, sabe como é, eu preciso do ordenado ao fim do mês, não posso dizer-lhe que não faço o que ele me manda fazer, e por aí fora, e agora por causa disso fico aqui sem carta e sem trabalho, estes sacanas é sempre a mesma coisa e os outros é que pagam as favas, etc. (safou-se da multa e da apreensão de carta).

Não sei porquê, lembrei-me destas histórias e da cultura institucional que impede o Zé das Iscas de sair hoje de Vila Franca de Xira para ir fazer o um pic-nic à Azambuja, mas permite ao primeiro ministro ir de Lisboa a Munique ver um jogo de futebol.

A praga

por José Mendonça da Cruz, em 18.06.21

O ministro Eduardo Cabrita lançará imediatamente um rigoroso inquérito, doa a que motorista doer, para apurar em que circunstâncias foi atropelado e morreu um trabalhador rodoviário. Isto, mesmo que os media nacionais digam que quem atropelou foi o carro (como dizem que foram camionetas, quando as guiava algum tarado do Islão). Depois, o substituto e os seus colegas já podem rolar rotineiramente a 150 ou 170 km/h, pois levam gente importante, cujo tempo conta mais do que tudo.


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