Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]




A Propósito da Lenka

por Miguel A. Baptista, em 30.06.21

Nunca vi “O Preço Certo”. Ao que parece há lá uma, ou umas, assistentes que vestem vestidos curtos para “embelezar a montra”. 

Actualmente este comportamento tende a ser socialmente censurado, levando, na maior parte dos casos, à extinção do mesmo. Por exemplo, havia umas miúdas atraentes que acompanhavam os pilotos na grelha de partida, as “pit girls” que deixaram de existir. No concurso de Miss Mundo deixou de existir desfile em fato de banho, como se uma pessoa não visse um concurso desses para ver “aviões”, mas sim para encontrar a companhia certa para discutir Heidegger e Foucault. Existem imensos exemplos que podem ser dados. 

Eu não nego que essa exibição, e objectivação, da mulher tenha algo de degradante. No entanto, e entendendo que esta é uma questão que, de todo, não é a preto e branco, eu prefiro que existam algumas situações de “mulher-objecto” do que tal seja banido por completo. 

O homem é um ser bio-socio-cultural. A evolução dos tempos levou que muitas das nossas pulsões biológicas fossem “domesticadas” por padrões culturais. Tal não é, necessariamente, mau. Tal permitiu-nos, abandonando a lei da selva, atingir padrões de civilidade que, na maior parte das vezes, significam proteção dos mais fracos.  No entanto, a engenharia da criação do homem novo “quimicamente puro”, destituído de qualquer instinto biológico tem tanto de perverso como o de perigoso. 

Depois na crítica às “Lenkas” há uma enorme componente moralista. É permitido exibir talentos futebolísticos, musicais ou de cultura geral. Mas tudo o que respeita a exibição (e não tenho receio em utilizar a palavra exibição) do corpo é visto como intrinsecamente mau. As feministas, e outros puritanos, são completamente reféns da cultura judaico-cristã que vê o corpo como a fonte do pecado que conspurca a alma. 

Também existe uma componente elitista. Fala-se com desprezo dos velhotes que se babam a ver a Lenka. Nos valores desses críticos uma mulher glamorosa de vestido de noite e stilettos é algo interdito aos sonhos de um modesto reformado que vive nos subúrbios. Para se ter “acesso”, real ou onírico, a uma mulher dessas é necessário vestir Armani e conduzir um Aston Martin. 

Conforme referi, acho que este tema é longe de ser simples, há argumentos fortes de ambos os lados. No entanto, de modo global, não tenho dúvidas em dizer que prefiro viver num mundo em que existam Lenkas, do que num mundo de zelotes frustrados acicatando permanentemente os superegos. 

 

Acidentes da natureza

por João Távora, em 29.06.21

Como são diferentes as coisas em Portugal e em Inglaterra. Lá, um ministro da saúde é apanhado a pregar um xôcho na secretária, e demite-se. Por cá o carro onde viaja o ministro da administração interna atropela mortalmente um trabalhador na estrada e fica a reclamar que foi por falta de sinalização.
Na verdade seria extremamente improvável uma secretária a beijar o Cabrita.

 

Novas ementas, restaurantes exóticos

por João-Afonso Machado, em 29.06.21

GRILO.JPG

Acabo de ler nos jornais, alguns insectos a Direcção-Geral de Alimentação e Veterinária vai consentir na sua «produção, comercialização e utilização na alimentação»!!!

Assim acabo de aderir ao PAN!

Pobres insectos, aliás desvastados pelos adubos químicos nos campos! E que saudades dos tempos em que as tocas dos grilos eram aos milhões, e um breve xixi os punha cá fora e uma folha de alface, na gaiola, os fazia "cantar" o Verão todo!

O meu (de agora) PAN esqueceu essa benesse da Natureza.

Contas feitas, sete espécies de insectos poderão ser comidos - cá, não nas Arábias. A saber: duas de grilos, outras tantas de gafanhotos e de larvas (???) e uma de besouros.

Que delícia!!!

Enquanto a estupidez não deu conta, definitivamente, da Nação os bicharocos serviam muito para pescar trutas. Era mais substância, por troca com menos seres vivos. Ah!, grande PAN, vamos acabar com os atentados às minorias! É desta!...

Caso não saibam, uma das larvas (dita da farinha) consentida comer é a da mosca varejeira: uma rapariga de bons hábitos, muito pousadia no esterco, nas lixeiras, e lambuzadamente necrófaga.

Os (as) desgraçado(a)s terão de ser comercializados ou usados inteiros, mas não vivos, ou moídos e não será permitido vendê-los «em partes ou extractos». Decerto por esquecimento, os fascistas (viva o PAN!!!) olvidaram a prévia passagem pelas Faculdades de Ciência, onde a garantia de qualidade será assegurada. É necessário criar a (socialista) CVIC (Comissão de Verificação dos Insectos Comestíveis)

Enfim, tenho muito mais a escrever. Mas, entretanto, vou ali à janela fumar um cigarro, atirando depois a pirisca para o passeio.

PAN! PAN! PAN!

 

Berardo. Foi o motorista, outra vez?

por José Mendonça da Cruz, em 29.06.21

Eu sei que a culpa da pedofilia na Santa Casa foi do chófer da carrinha, e que a culpa da bancarrota e da ladroagem foi do Perna, e que a culpa da morte do trabalhador durante a deslocação de Cabrita foi do próprio trabalhador, da falta de sinalização, e, por fim, do motorista, mas, e agora?!

Agora, Berardo também vai ser o motorista de Sócrates, Salgado e Carlos Santos Teixeira? Ou Berardo foi -- nas trapalhadas, danças de cadeiras e malabarismos ruinosos de Opa da PT, Caixa e BCP -- apenas figurante secundário, embora bem recompensado?

Alegrias e amarguras do Euro2021

por José Mendonça da Cruz, em 29.06.21

«O grupo de Portugal era mesmo o grupo da morte. Foram todos para casa na ronda seguinte.»

Duarte Calvão

«Coitado do treinador da Suíça, pobre de saber e opções, que confiou no segundo marcador do ignoto campeonato português. É muito pior um treinador ficar no estrangeiro com jogadores que não conhece de lado nenhum (ou demasiado novos, ou que «não se enquadram», ou que deram provas que eu não vi), do que ir para casa sem usar o melhor goleador português, mas rodeado dos jogadores que conhece há 10 ou 15 anos.»

Eu

Historiografia e mitos

por henrique pereira dos santos, em 29.06.21

O debate que Nuno Palma lançou na convenção do MEL tem sido excelente, mesmo que pelo meio haja muita treta, como acontece em qualquer polémica mais alargada.

Ontem era Reis Torgal, no Público, mais uma vez, mas como não percebi nada do que escreveu, não tenho nenhum comentário a fazer.

Fernando Alexandre chamou a atenção para a resposta de Nuno Palma a Fernando Rosas que o Público publicou no Domingo, e na troca de comentários que se seguiu, apareceu, mais uma vez, o mito da emigração dos anos sessenta como um processo social forçado pela natureza do Estado Novo.

Sobre o mito da vontade de manter a pobreza no país acho que não tenho grande coisa a acrescentar, tal como o mito do analfabetismo como objectivo político do Estado Novo (para já não falar do mito do contributo  positivo do Marquês de Pombal para a educação em Portugal, diminuindo em 90% a população escolar).

Mas sobre o que parece ser o terceiro mito mais frequente associado ao Estado Novo, o da emigração como consequência do regime, talvez eu já tenha escrito aqui alguma coisa, mas ainda assim gostaria de fazer alguns comentários, já que tive de olhar minimanente para isso quando estudei a evolução da paisagem portuguesa ao longo do século XX.

Em primeiro lugar gostaria de dizer que a emigração pode ser um drama pessoal, é um excelente tema para ser tratado na literatura e restantes artes, como todos os temas que sejam emocionalmente fortes, mas como processo social é um mero processo de reposição de equilíbrios entre a oferta e a procura do trabalho (na impossibilidade de haver emigração quando existem desequilibrios estruturais entre procura e oferta de trabalho, a alternativa é a pobreza, o desespero e a desvalorização do trabalho).

O que se passou em Portugal nos anos sessenta tinha-se passado em todos os países desenvolvidos pelo menos desde o sécuo XVIII, de forma mais rápida ou mais lenta, com a transferência do trabalho dos campos para as fábricas e as cidades. Que essas fábricas e cidades estejam no país ou fora dele, é mais ou menos irrelevante.

Esse processo é fortemente impulsionado pela descoberta da síntese da amónia, isto é, pela capacidade de criar fertilidade a partir de fábricas em vez de a colectar nas terras marginais através do pastoreio, o que vem permitir a revolução verde que nos alimenta a todos (Carlos Aguiar dizia, há tempos que não o ouço dizer isso mas duvido que tenha mudado de ideias, que a agricultura biológica consiste em colocar um animal, ou uma cultura e um animal, entre o saco de adubo e a produção, não sendo por isso uma alternativa à agricultura moderna).

Com a capacidade de produzir muito mais alimentos a partir de muito menos terra, e com a possibilidade de manipular a terra mais eficientemente para obter a produção que o mercado mais valoriza, o remuneração do trabalho aumenta muito, a da terra diminui em termos relativos, mas ainda assim o trabalho nas fábricas e cidades continua a ser mais compensador que no campo, sendo possível ver sair milhões de pessoas do campo para a cidade sem perda substancial, pelo contrário, com ganho de produção de alimentos e fibras (no princípio do século XX, 60% da população activa rm Portugal estava no sector primário e hoje deve andar pelos 5% e produz-se incomparavelmente mais que no princípio do século XX).

Ora em Portugal, este processo é forte desde o fim do século XIX, com emigração para o Brasil e toda a restante América (todos os meus tios paternos, incluindo o meu pai, emigraram da aldeia onde viviam os pais, a maioria para o Brasil, e a minha avó teve treze filhos. Não aconteceu o mesmo a todas as tias, apenas a algumas. Na casa dos meus pais andava um legítimo seis tiros smith and weston trazido por um tio que foi para a América e lá morreu, em condições não completamente esclarecidas), emigração que é bruscamente interrompida no fim dos anos 20 (provavelmente alguém se lembrará de um crash bolsista por essa altura) e até aos anos 50, isto é, durante toda a primeira fase do Estado Novo.

Em metade do Estado Novo a emigração foi historicamente baixa, e na outra metade foi historicamente alta.

Porque na primeira metade as pessoas viviam bem e na segunda metade a miséria as obrigou a emigrar?

Não, evidentemente, a miséria era incomparavelmente maior na primeira metade do Estado Novo, o que acontecia era apenas que não havia destino de emigração, primeiro por causa da crise económica dos fim dos anos 20, depois por causa da segunda guerra mundial, por razões que sem qualquer ligação ao regime que existia em Portugal.

Tal como na segunda metade do Estado Novo, apesar de, em Portugal, ser o período de maior convergência económica e social com os países mais desenvolvidos dos últimos 200 anos, houve um pico histórico da emigração, não apenas para fora do país, mas também do mundo rural para os centros urbanos do país, por razões que dificilmente se podem atribuir ao regime, como a disparidade de rendimento entre Portugal e a Alemanha, como se demonstra pelo facto de ainda hoje essa disparidade, em grande medida, existir, quase cinquenta anos depois da queda do regime anterior (e também existir muito antes do Estado Novo).

Sendo isto tão manifesto quando se olha para os números, seja qual for a perspectiva, o que justifica a presença tão forte do mito da emigração como resultado do Estado Novo, na historiografia dominante?

Não tenho uma resposta sólida e segura sobre isso, mas pelo menos uma parte da explicação só pode ter uma origem, que é consistente com a forma lamentável como boa parte dos bonzos da historiografia dominante reagiram à intervenção de Nuno Palma: a história contemporânea em Portugal parece ter ideologia a mais e objectividade a menos, estando muitas vezes mais perto do manifesto político que da produção científica.

A crítica aos regimes políticos é essencialmente política, prende-se com a legitimidade das fontes de poder, o respeito pelas pessoas comuns e outras coisas deste tipo, factores em que o Estado Novo não tem qualquer hipótese de ser classificado como um regime benigno, não sendo aceitável a desqualificação destes aspectos por troca com resultados sociais e económicos positivos.

Por mim, prefiro uma democracia de pobres a uma ditadura de ricos, quanto mais não seja porque posso livremente criticar a pobreza na democracia e defender mudanças de política sem correr riscos pessoais por isso, dito de outra maneira, a liberdade é um valor em si, não é preciso torcer a realidade para contestar a legitimidade de qualquer ditadura e não é seguramente esse o papel que as sociedades maduras e livres reservam à historiografia.

Jornalismo do absurdo

por henrique pereira dos santos, em 28.06.21

Ontem, Domingo, o Público titulava em grandes parangonas:

"Montezinho, o último refúgio do lobo ibérico em Portugal".

Não é preciso ter grande ligação à conservação do lobo para saber que esta frase é um disparate completo, de maneira que fui rapidamente ver o artigo em causa à procura da origem da asneira.

O artigo para que o título remete não tem a mais leve alusão a esta ideia completamente idiota, tendo aliás um mapa com a distribuição do lobo em Portugal que manifestamente contraria o título de primeira página. Não é uma pequena chamada de primeira página, é a fotografia principal da primeira página, o assunto que ocupa mais espaço nessa primeira página, sobre a qual está o título em que se dá livre curso à ignorância de quem fechou a primeira página do jornal.

Não é com certeza o segurança que fecha a porta depois do último sair que fecha também a primeira página do jornal, não estamos portanto a falar de segundas, terceiras, quartas linhas de jornalistas, estamos a falar de quem fecha a primeira página que não só inventa um título sem a menor base factual, como é completamente desmentido pela peça para que o título remete.

Meus caros accionistas, meus caros directores, meus caros jornalistas de referência: não vendem jornais porque o mundo mudou, com certeza, mas também porque os jornais que fazem são maus, muito maus.

O V Marquês de Abrantes, ou o "Marquês Velho"

por João Távora, em 27.06.21

Vilafrancada.jpg

Esta é a trágica história de D. José da Piedade, meu 4.º avô paterno. Reconhecido como VI Marquês de Abrantes ainda em vida do seu pai, que lhe sobreviveu, cedo se iniciou nas lides políticas a seu lado, tendo começado precocemente a pagar o preço de ser o primogénito de uma das casas nobres mais prestigiadas do Antigo Regime em estertor. Com aquilo que pude apurar, vejo-o como um espírito forte e carácter intrépido, porventura algo ingénuo ou voluntarista, que se tornou uma espécie de mártir do regime, por via da forma como se entregou às suas crenças e se empenhou nas causas a que foi chamado dar o corpo ao manifesto. Primeiro enfrentando os invasores franceses e depois na luta pela causa tradicionalista, pelos valores e convicções contra-revolucionários de que a sua família emergia e era pilar. Desse modo, cedo se tornou valido do Infante D. Miguel, com quem desenvolveu grande cumplicidade e ao lado de quem participou em conspirações e intentonas, até cair em desgraça acusado dum alegado assassinato. Certamente não sabia que estava a lutar contra os ventos que a História seguiria, e por isso pagaria elevado preço. Aliás, todos nós pagámos e continuamos a pagar os custos desse maldito espírito revolucionário a que o povo português é especialmente volúvel.

Filho de D. Maria Xavier de Lima e de Dom Pedro de Lancastre, D. José Maria da Piedade de Lancastre Silveira Castelo Branco de Almeida Sá e Meneses nasceu em 1784 e foi o VI Marquês de Abrantes. Começou por seguir a carreira militar aos 17 anos como era próprio dum rapaz com aquele estatuto, tendo começado como Ajudante de Campo do Marechal Duque de Lafões (1716-1806). Foi pouco mais de um ano depois de casar com D. Helena Vasconcellos e Sousa que viria a interromper o seu serviço no exército em 1807: por ocasião da primeira invasão francesa viu-se na obrigação de acompanhar o seu pai, presidente do Conselho de Regência, a Baiona numa delegação portuguesa para prestar vassalagem a Napoleão e negociar a entrega da Coroa portuguesa que, como sabemos, se ausentara para o Brasil. Na sequência disso, perante as notícias da revolta dos portugueses apoiados pelos Ingleses contra os invasores, com o seu pai sofre um grande revés, ficando detido em França como refém do Imperador até ao final das Guerras Peninsulares, em 1814. Curiosamente chegam-nos notícias que durante esse cativeiro José da Piedade, então com 25 anos, tirou o curso agrícola do botânico André Thorin enquanto esteve detido em Paris. Regressado a casa mantém-lhe o gosto e constitui-se sócio correspondente da Academia Real das Ciências de Lisboa.

Na sua vida política, José da Piedade, envolvido nos negócios da corte, cedo abraçou a causa tradicionalista com o Infante Dom Miguel de quem foi valido. Dessas andanças lhe advém a maior das desgraças, pelo seu protagonismo "com um bando de campinos armados" na insurreição da Vilafrancada a 27 de Maio de 1823 (curiosamenete Vasco Pulido Valente no seu brilhante ensaio  “A contra revolução (1823 – 1824)” reclama que a proclamação por Dom Miguel do rei "restituido aos seus direitos" terá ocorrido no morgado da Póvoa da família Abrantes e não em Vila Franca de Xira) um ano depois no falhado pronunciamento Abrilada de que falaremos a seguir, e — pior que tudo — com a acusação da autoria, em conluio, com o Infante do alegado assassinato do Marquês de Loulé, em Salvaterra de Magos, na noite fatídica de 29 de Fevereiro de 1824. Esse acontecimento irá valer-lhe a prisão, o exílio, e inevitavelmente o ostracismo da corte, incluindo de Dom Miguel também ele em posto em maus lençóis, enviado de castigo em passeio pela Europa por ordem de seu Pai.

salvaterra.jpeg

Que se terá passado em Salvaterra onde boa parte da Corte, fracturada nas duas facções beligerantes, se reunia no teatro do Paço para celebrar o Carnaval em grande folguedo na companhia de Dom João VI, a ensaiar a farsa Manuel Mendes Enxúndia de António Xavier Ferreira de Azevedo e uns quantos «arremedilhos» (um antigo género de teatro baseado em imitações, comummente de figuras públicas) com que abrilhantariam a Terça-feira Gorda?

Para lá da jornada de festa, estavam em acirrado confronto, naqueles anos que antecedem a Guerra Civil, duas concepções antagónicas do Estado: o fundamento religioso e realista do mesmo — as velhas estruturas nacionais fundadas nas famílias e na religião — e o representativo e proto-republicano apoiado pela academia ascendente e pela maçonaria afrancesada, a «pestilenta cáfila dos pedreiros-livres». Ao meio deste assanhado antagonismo, Dom João VI procurava empenhadamente equilíbrios, que todavia se mostravam insustentáveis. A disputa era deveras fratricida.

A morte do Marquês de Loulé, Estribeiro-Mor e pessoa muito próxima do Rei, naquelas misteriosas circunstâncias e sob um clima de acirrada intriga política, constituiu um enorme escândalo. Vasco Pulido Valente na obra atrás referida, ao seu estilo é taxativo: “Em 28 de Fevereiro, por ordem de Dom Miguel, o marquês de Abrantes e alguns criados mataram à paulada o marquês de Loulé no palácio de Salvaterra, a dois passos do rei” com a intenção de “isolar Dom João e derrubar o governo”. No entanto não fundamenta a sua tese, que não seja na notícia veiculada pela Gazeta de Lisboa onde se afirmava ter sido um crime, e na opinião do Embaixador de França, Hyde de Neuville. Será que leu os relatórios da devassa mandadada instaurar por D. João VI? A verdade é que nos inquéritos iniciados no dia seguinte à tragédia foram desde logo inquiridas 130 testemunhas em Salvaterra, num longo processo que resultou inconclusivo e foi encerrado um ano depois. Se para uns a morte de Loulé não teria passado de um terrível acidente (queda por uma “porta” que saía dum escuro corredor directamente para um saguão com quatro metros de altura, que ali surgira na sequência da derrocada do edifício anexo, entretanto ardido, sob o “efeito dos vapores do álcool” que o sinistrado teria bebido durante o serão de ensaios e folia), para grande parte das testemunhas o acontecimento fora um crime perpetrado a mando de Dom Miguel em conivência com D. José da Piedade e o Sota Leonardo Joaquim Cordeiro, com 40 anos, cocheiro das reais cavalariças e pessoa muito próxima do Infante, morador nos Anjos e em casa de quem viria a reunir um mês depois com os oficiais do exército na preparação da Abrilada. Sob suspeita estava também D. Francisco de Sales Lancastre, o único filho natural reconhecido ao VI Marquês de Abrantes, 24 anos, e que na ocasião acompanhava seu pai. Interrogado como testemunha na devassa, nenhum ilícito foi assinalado contra ele. Outras testemunhas atribuiriam culpas a conspirações maçónicas. É o caso de D. José da Piedade, que declarou no interrogatório ter-lhe sido dito por D. Miguel que o assassinato afinal «seria obra de pedreiros livres, por não querer o Marquês [de Loulé] fazer alguma coisa que eles lhes pedissem». Pelo que nos é dado ler nas devassas transcritas no livro de António Cabral Uma Tragédia na Corte: A Morte do Marquês de Loulé (1936), todas elas constituem meras opiniões, sendo difícil através das mesmas chegar a conclusões irrefutáveis. 

Marquês_de_Loulé.png

Para desgraça do Marquês de Abrantes, ao lado de Dom Miguel vai assumir — apenas um mês depois — grande protagonismo na Abrilada, um pronunciamento fútil que resultará na capitulação deste (contra a vontade do Marquês) perante a posição intransigente do rei Dom João VI, que mandaria prender os principais partidários do filho. Esta derrota resultaria na retirada «punitiva» do Infante para uma viagem pela Europa e na expulsão do Marquês de Abrantes para o exílio, depois de passar pelos calabouços da Torre de Belém, onde novos interrogatórios tentariam inculpá-lo do assassinato de Loulé.

Estava Dom José da Piedade caído definitivamente em desgraça. Num Decreto Real de indulto, publicado em 24 de Junho de 1825, a acusação ao VI Marquês de Abrantes é mantida, sendo condenado ao exílio com os mais próximos participantes no pronunciamento. Nesse decreto pode ler-se:

Da generalidade d’este indulto e perdão exceptuo somente os indivíduos, que mais se cumplicaram e manifestaram constituindo-se como chefes, e fautores da federação para tão abomonáveis crimes, os coaes deverão sahair em direitura para fora dos meus reinos, e não poderão voltar a eles, sem expressa licença minha, expedindo-se-lhes para esse effeito os passaportes necessários. Com esta limitação de que não pode prescindir a Minha indefectível justiça, gozarão estes mesmos réos das outras graças aos mais. Os exceptuados vão inscriptos na relação junta, assignada por Fernando Luís de Sousa Barradas, do meu Conselho de Estado e Meu ministro e Secretário d’ Estado dos Negócios Ecclesiasticos e de Justiça a qual faz parte do presente decreto.

Eram eles os infelizes “exceptuados”: D. José da Piedade - Marquês de Abrantes; Inácio António de Paiva Raposo - Tenente de Caçadores 6; Dr. António de Paiva Raposo – Advogado; Carlos António de Gambôa – Ten. Corel. De Milicias de Trancoso; Manoel António Cotta Coelho de Araújo – Médico; Sebastião Duarte de Ponte de Andrade Negrão – Cap. Mor de Albufeira; José Veríssimo – Sarg. De Cavalaria da Polícia e o Leonardo Joaquim Cordeiro – Sota das Reais Cavalariças.

Importa saber quem era, afinal, Agostinho Domingos José de Mendoça Rolim de Moura Barreto, o Marquês de Loulé [1780-1824], estribeiro-mor de D. João VI. Homem da confiança do rei que em tempos fora maçon de grande importância, conseguiu ser condenado à morte por traição, pela sua ajuda às tropas napoleónicas nas invasões francesas. Desse crime viria a ser perdoado por Dom João VI, na sequência duma viagem que empreendera ao Brasil com o propósito de lhe implorar perdão. Partidário das ideias liberais, a sua carreira política e militar alimentou uma forte rivalidade e hostilidade com o VI Marquês de Abrantes.

Palacio_MAbrantes.jpg

Considerado principal suspeito, recusando todas as acusações que sobre si incorriam, o meu 4.º avô defendeu sem sucesso a tese de que o assassinato do Marquês de Loulé bem podia ter sido congeminado pelos seus antigos companheiros da Maçonaria, por causa da sua deserção, ou até pelo facto de possuir segredos que os outros maçons, entre os quais o Conde de Paraty — D. Miguel Rafael António do Carmo de Noronha Abranches Castelo Branco (1784-1849) —, receavam ver divulgados.

O VI Marquês de Abrantes foi preso na raia de Espanha, para onde tentava escapar depois de falhada a Abrilada. Assim regressou aos calabouços da Torre de Belém, e interrogado de novo, entra em graves contradições: defende a certeza da inocência do Infante, mas por outro lado afirma que aquele Senhor «guardava grande reserva e dissimulação no que queria», insinuando as suas suspeitas por saber da aversão que o Infante nutria por Loulé «por motivos particulares a que não estava autorizado a referir-se», como por lhe parecer uma espécie de «reparação» a nomeação pelo Infante do filho natural de Loulé como seu camarista após a tragédia. Este depoimento desastrado, que revela um homem desesperado e abandonado, temendo pela pior das sortes, chegaria ao conhecimento de Dom Miguel. De acordo com os ofícios do embaixador de Portugal na corte austríaca, Dom Miguel não mais abriu a correspondência do seu valido D. José da Piedade, a quem apelidaria de «desavergonhado», e que do seu exílio em Londres implorava por uma audiência que nunca aconteceu.

Noticia_morte_VImarques_abrantes.jpeg

Não sabemos até que ponto o Infante Dom Miguel estaria a agir em plena liberdade, tanto mais que permanecia «de castigo» em Viena, num «exílio» ordenado por seu Pai, Rei de Portugal, e a quem o embaixador respondia. Tendo o meu 4.º avô morrido em 1827, e o Infante regressado a Lisboa no ano seguinte, não podemos saber qual seria a atitude de Dom Miguel para com ele nos acontecimentos que se sucederam. No entanto, sabemos que se reencontrou com o Sota Leonardo Joaquim Cordeiro, também ele feito bode expiatório e condenado ao exílio, pessoa de grande proximidade ao Marquês de Abrantes (cujos testemunhos ambíguos tinha validado na devassa, nomeadamente o facto do Senhor Infante nunca mais ter falado da morte de Loulé, donde concluía que ele «ou por si ou por outrem tinha conduzido aquelle delicto para os fins que tinha em vista, que provavelmente erão os de trinta de Abril [a Abrilada], e os com elle conexos»).

Como terá passado o meu avô esses dois anos em exílio permanece um mistério. Quanto sei, não se encontra na posse da família qualquer correspondência desse período — nessa altura a Casa de Abrantes não estaria ainda refeita de uma grave crise financeira.

Julgando estar incluído na amnistia promulgada aquando da morte de D. João VI, D. José da Piedade tentou voltar a Lisboa, mas o ministério não lhe permitiu desembarcar. Rejeitado em Lisboa voltou a Londres em Novembro de 1826, para, estranhamente, morrer de apoplexia em Fevereiro do ano seguinte, por ocasião duma visita ao embaixador de Portugal. Suspeita-se na família que tenha sido envenenado. Segundo o Evening Mail de 19 de Fevereiro de 1827, os seus restos mortais foram depositados nas criptas do templo católico de Moorfields, onde decorreram as cerimónias fúnebres, a que compareceram o próprio embaixador e muitos portugueses residentes em Londres.

Contactada a paróquia em Londres para saber onde estará o corpo do meu avô, fui informado que, tendo a igreja sido demolida em 1899, os corpos nela enterrados até 1853 foram transladados para um cemitério católico em Wembley actualmente encerrado e sem lápides visíveis. Até à data ainda não conseguimos obter resposta por parte do serviço de arquivos da Igreja de St. Joseph's para onde os mesmos terão sido transferidos, e esperamos contenham respostas às nossas dúvidas. 

DHelena.jpg

Cerca de um ano depois, supomos que em grande angústia, morreria no Palácio de Marvila o V Marquês de Abrantes, seu pai. Por cá ficaria a viúva Marquesa de Abrantes, D. Helena Vasconcellos e Sousa, a criar os dois filhos, Pedro Maria e José Maria, ao mesmo tempo que procurava resgatar a Casa de Abrantes da ruína financeira.

Filha dos Marqueses de Castelo Melhor, nascida em 1786, tem o seu retrato lugar de honra na minha casa: como conta o meu pai, «D. Helena foi senhora de carácter forte e intrépido e também como o marido, fiel partidária de Dom Miguel». E com certa ironia, depois da morte do seu marido abandonado por todos em Londres, foi ela quem organizou a chamada «Pensão Alimentícia» ao Senhor Dom Miguel, recolhida de um grande número de seus partidários em Portugal. Acrescenta o meu pai que «ao ficar viúva, soube chamar a si a educação dos seus filhos, regendo e administrando a Casa, que ficara muito diminuída com a vitória do partido liberal». Para reforçar a ideia do génio que possuía a Marquesa D. Helena, conta o meu pai que, não tendo ela aceitado bem o casamento do seu filho mais velho D. Pedro Maria da Piedade (VII Marquês de Abrantes) com a filha dum desembargador, D. Joana Perpétua Feo Sanches Guião, «sempre ela se recusou a receber em casa o seu filho e nora», atitude tão excêntrica «visto que, tendo o VI Marquês de Abrantes morrido antes da extinção dos morgadios, ficara sendo seu filho primogénito o único senhor de toda a Casa». D. Pedro, diga-se, morreu aos 31 anos sem deixar geração, tendo a administração da Casa sido herdada pelo seu irmão José. 

Nunca na família se verificou qualquer rancor a estas desventuras do VI Marquês de Abrantes com o Infante Dom Miguel, tão angustiantes quanto mal contadas. Até o seu filho segundo, com o mesmo nome, Dom José de Lancastre, aquele austero poeta e filósofo que anteriormente biografei, foi um fiel partidário Tradicionalista. Dele, D. João de Almeida publica postumamente Algumas notas coligidas em Bronnbach, após o falecimento de El-Rei D. Miguel I, pelo Sr. Marquês de Abrantes Dom José de Lancastre, sobre o assassínio do Marquês de Loulé em Salvaterra, e narrando a despedida do Senhor Dom Miguel de seu pai a bordo da nau inglesa, quando o Sr. Infante depois da Abrilada, foi mandado viajar pela Europa. Uma brochura com que pretende provar a inocência do seu rei e do seu pai neste trágico evento, da qual possuo um exemplar.

Talvez não seja estranho a tudo isto que, da longa galeria de retratos dos marqueses de Abrantes e seus ascendentes que era propriedade da Casa de Abrantes (com alguns dos quais convivi quotidianamente), não exista pintura, desenho ou aguarela do VI Marquês de Abrantes, com que era tradição, desde o século XVI, a família perpetuar na história as suas maiores e principais personalidades. Dom José da Piedade, o exilado, é o único senhor da Casa que tendo chegado à idade adulta não possui qualquer imagem ou representação gráfica. Com uma existência breve, tão agitada quanto aventureira, imagino que pouco tempo deve ter tido para comungar com os seus filhos e mulher uma vida normal, muito menos terá tido sossego para posar umas dúzias de horas à frente dum retratista.

Mas o mais irónico desta história toda plena de matizes e mistérios, é que a Casa de Abrantes não muito tempo depois se cruzou de novo com a família Loulé, nomeadamente através do aluguer — em 1853 — de parte do seu palácio em Santos, então sob administração do filho segundo do nosso protagonista, à infanta D. Ana de Jesus Maria, casada com o 2.º Marquês e 1.º Duque de Loulé. Caso para dizer: ironias do destino…

xxxxx

Imagens:

1) Chegada a Vila Franca do Infante Dom Miguel.

2) Aspecto do Real Teatro de Ópera de Salvaterra de Magos, hoje totalmente desaparecido.

3) Retrato de Domingos José de Mendonça Rolim de Moura Barreto, o Marquês de Loulé.

4) O palácio dos Marqueses de Abrantes em Santos, Lisboa (actual Embaixada de França).

5)  Retrato da Marquesa de Abrantes, D. Helena Vasconcelos e Sousa.

Fontes:

A Heráldica da Casa de Abrantes, vol. 2 do tomo 4, por Luís de Lancastre e Távora.

Le Palais de Santos de Pierre Samoyault, Éditions Internationales du Patrimoine, Paris, 2011.

Quinta de Nossa Senhora da Piedade. História do Seu Palácio Jardim e Azulejos por Celso Mangucci, Vila Franca de Xira, 1998.

«Patrocínio e Performance Practice em Lisboa e proximidades na segunda metade do século XVIII e começo do século XIX», de Joseph Scherpereel, Revista Portuguesa de Musicologia, 1999.

“O Fundo da Gaveta” Vasco Pulido Valente (Dom Quixote 2018)

Documentos de família e testemunhos orais

Com um agradecimento especial ao meu amigo e bom conselheiro Nuno Pombo

Domingo

por João Távora, em 27.06.21

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Naquele tempo, depois de Jesus ter atravessado de barco para a outra margem do lago, reuniu-se uma grande multidão à sua volta, e Ele deteve-se à beira-mar. Chegou então um dos chefes da sinagoga, chamado Jairo. Ao ver Jesus, caiu a seus pés e suplicou-Lhe com insistência: «A minha filha está a morrer. Vem impor-lhe as mãos, para que se salve e viva». Jesus foi com ele, seguido por grande multidão, que O apertava de todos os lados. Ora, certa mulher que tinha um fluxo de sangue havia doze anos, que sofrera muito nas mãos de vários médicos e gastara todos os seus bens, sem ter obtido qualquer resultado, antes piorava cada vez mais, tendo ouvido falar de Jesus, veio por entre a multidão e tocou-Lhe por detrás no manto, dizendo consigo: «Se eu, ao menos, tocar nas suas vestes, ficarei curada». No mesmo instante estancou o fluxo de sangue e sentiu no seu corpo que estava curada da doença. Jesus notou logo que saíra uma força de Si mesmo. Voltou-Se para a multidão e perguntou: «Quem tocou nas minhas vestes?». Os discípulos responderam-Lhe: «Vês a multidão que Te aperta e perguntas: ‘Quem Me tocou?’». Mas Jesus olhou em volta, para ver quem O tinha tocado. A mulher, assustada e a tremer, por saber o que lhe tinha acontecido, veio prostrar-se diante de Jesus e disse-Lhe a verdade. Jesus respondeu-lhe: «Minha filha, a tua fé te salvou. Vai em paz e fica curada do teu mal». Ainda Ele falava, quando vieram dizer da casa do chefe da sinagoga: «A tua filha morreu. Porque estás ainda a importunar o Mestre?». Mas Jesus, ouvindo estas palavras, disse ao chefe da sinagoga: «Não temas; basta que tenhas fé». E não deixou que ninguém O acompanhasse, a não ser Pedro, Tiago e João, irmão de Tiago. Quando chegaram a casa do chefe da sinagoga, Jesus encontrou grande alvoroço, com gente que chorava e gritava. Ao entrar, perguntou-lhes: «Porquê todo este alarido e tantas lamentações? A menina não morreu; está a dormir». Riram-se d’Ele. Jesus, depois de os ter mandado sair a todos, levando consigo apenas o pai da menina e os que vinham com Ele, entrou no local onde jazia a menina, pegou-lhe na mão e disse: «Talita Kum», que significa: «Menina, Eu te ordeno: Levanta-te». Ela ergueu-se imediatamente e começou a andar, pois já tinha doze anos. Ficaram todos muito maravilhados. Jesus recomendou-lhes insistentemente que ninguém soubesse do caso e mandou dar de comer à menina.

Palavra da salvação.

Comentário: Dois milagres, em que Jesus Se manifesta o Senhor da vida. Mais de uma vez, Ele próprio Se definiu como sendo a Vida. É assim, porque é o Filho de Deus. Fazendo-Se homem, a sua humanidade é agora o instrumento, bem próximo de nós, da sua divindade, de sorte que aproximar-se d’Ele é aproximar-se da Vida, como o pôde experimentar a mulher doente e a filha de Jairo, que morrera. É pela fé que nos podemos aproximar de Jesus, fé que, nos sacramentos, nos leva a ver o prolongamento dos gestos do Senhor no meio dos homens.

O Príncipe, o Estado Novo e a epidemia

por henrique pereira dos santos, em 25.06.21

Ontem foi a vez de Irene Pimentel fazer a defesa do regime no Público, procurando evitar que se discutam seriamente as razões da convergência com os países desenvolvidos entre meados dos anos 50 e meados dos anos setenta, durante a ditadura, e a estagnação dos últimos vinte anos, durante a democracia.

Irene Pimentel avisa logo que jamais deixará que os factos influenciem as suas ideias "não me proponho rebater uma argumentação baseada na sacralização dos números".

E depois entretém-se na demonstração do que acabei de escrever.

"Qualquer historiador sabe que não é "fazer história" abordar apenas aspectos económicos, sem os interpretar, contextualizar e comparar ... E na ditadura portuguesa, têm de ser referidos, pelo menos, os aspectos repressivos (censura, PIDE), a ausência de Estado social, a emigração, os salários de fome, a miséria e a guerra colonial.

...

para caracterizar qualquer regime do passado, é benéfico utilizar a comparação histórica. Mas é melhor, por exemplo, comparar dados económicos no longo período ditatorial com outros países da Europa no mesmo período."

Sendo a origem da discussão exactamente o facto de Nuno Palma dizer que a vulgata historiográfica que é passada à sociedade, nomeadamente nos livros escolares, não faz essas comparações de forma correcta, usando Nuno Palma a solidamente estabelecida convergência económica que referi acima e a evolução no ensino, como exemplos de como a ideologia se tem sobreposto ao conhecimento na análise da evolução do país, seria de esperar que Irene Pimentel, depois de se colocar no mesmo plano metodológico, explicasse os erros de Nuno Palma na caracterização da evolução de Portugal quando comparada com o resto do mundo.

"Para só falar da mortalidade infantil, compará-los entre os anos 30 e 70 do século XX, em Portugal pouco traz ... a não ser que obviamente diminuiu em 42 anos. Em 1930, 143,6 bebés até um ano por cada mil morriam em Portugal, ..., e 55,5 por mil em 1970. Ora, neste último ano, a média da mortalidade infantil da UE (a 27) era menos de metade do que em Portugal: 25 por mil".

Certo, Irene, mas e qual era o ponto de partida em 1930 da UE a 27, para que nós, pobres ignaros, possamos saber se convergimos ou divergimos ou, para usar as suas palavras, não seria "melhor, por exemplo, comparar dados económicos no longo período ditatorial com outros países da Europa no mesmo período"?

"Compare-se também os valores da mobilidade social, da redistribuição da riqueza, do analfabetismo, da emigração".

Cara Irene, mas é exactamente essa comparação que tem sido feita pela historiografia que Nuno Palma refere como sendo deturpada no discurso social sobre o Estado Novo, incluindo nos programas escolares, comparação que Irene Pimentel não pode deixar de conhecer e que omite totalmente, tornando o seu artigo numa comédia de enganos.

E é neste ponto que a minha cabeça fez a ponte para a invocação da ciência a propósito da epidemia.

Deixemos de lado a palavra ciência, e usemos academia, a elite que investiga e pensa de forma institucionalmente estabelecida, para evitar a discussão sobre o carácter científico ou não das ciências sociais.

O que a polémica sobre a intervenção de Nuno Palma demonstra é que a academia instalada é tão permeável ao viés ideológico como qualquer outro grupo social, na enésima demonstração desta citação de Max Planck que uso frequentemente e de que tomei conhecimento, via Carlos da Câmara, a propósito de fogos: “A new scientific truth does not triumph by convincing its opponents and making them see the light, but rather because its opponents eventually die, and a new generation grows up that is familiar with it.”

Como me parece claro - embora o óbvio seja uma coisa muito subjectiva - as medidas de gestão da epidemia, e mesmo a interpretação das variações de incidência da epidemia, dificilmente mudarão nos próximos tempos, não por estarem certas ou erradas - um ano e meio depois do seu início não existe uma única demonstração científica sólida, baseada em dados reais, que consiga estabelecer uma correspondência sólida entre medidas não farmacêuticas e taxas de incidência da covid - mas simplesmente porque quer os investigadores mais expostos publicamente, quer o poder instituído, não podem simplesmente reconhecer, agora, que realmente não controlam epidemia nenhuma e as incidências que se vão verificando, se influenciadas pelas horas a que se vendem bebidas alcoólicas ou se fecham restaurantes, são-no marginalmente, não são um factor essencial de evolução da incidência da epidemia.

As consequências disto para a forma como o poder vai gerindo politicamente este assunto compreende-se melhor a partir do Príncipe, de Maquiavel, um arguto analista da natureza do poder, embora, claro, seja sempre difícil compreender o chorrilho de disparates regulamentares de compressão das liberdades públicas que estão a ocorrer, porque não é possível compreender as decisões num manicómio em auto-gestão.

Quando se argumenta que o facto de todos os países em todo o mundo terem adoptado o mesmo tipo de medidas é uma demonstração de que com certeza essas opções serão as mais razoáveis, argumenta-se com base na falácia  de que as medidas, por serem todas não farmacêuticas, são semelhantes, o que está longe de ser verdade.

No entanto, a verdadeira objecção a este argumento é que o que faz todos os governos convergirem para o mesmo tipo de medidas é a natureza do poder, não é o consenso sobre a epidemia, que simplesmente não existe.

Por isso é que Maquiavel é útil para compreender o que se está a passar.

O poder sabe que uma epidemia é essencialmente um processo social guiado pelo medo, portanto é a gestão do medo que é relevante politicamente - os aspectos de saúde associados à epidemia acabam por ser marginais, no processo social, pela simples razão de que são largamente não controláveis sem medidas farmacêuticas eficazes, tratamentos e vacinas, sobretudo.

"cada príncipe deve desejar ser tido como piedoso e não como cruel", diz Maquiavel e é esta ideia que é o centro das opções: cada governo foge como o Diabo da cruz de ser acusado de ser cruel e não ligar ao valor da vida humana, fazendo tudo o que estiver ao seu alcance para se mostrar piedoso.

Todos os governos fazem a pergunta mais conhecida de Maquiavel e conhecem a resposta à pergunta: "se é melhor ser amado que temido ou o contrário. A resposta é de que seria necessário ser uma coisa e outra; mas, como é difícil reuni-las, em tendo que faltar uma das duas é muito mais seguro ser temido do que amado", o que naturalmente implica, em caso de dúvida, que os governos prefiram estabelecer confinamentos, por impopulares que sejam, evitando o risco da evolução da epidemia os colocar na posição de ter de responder à acusação de falta de sensibilidade social perante o número crescente de mortos que venha a ocorrer.

A questão central é que mesmo que os confinamentos sejam ineficazes, e as mortes venham a ocorrer, como abundantemente aconteceu neste ano e meio e aconteceria sempre em qualquer epidemia com estas características, é possível responsabilizar terceiros pelo incumprimento das regras, mas não há forma de escapar politicamente à responsabilização política quando não foram tomadas medidas que a imprensa considere necessárias.

"Isso porque dos homens pode-se dizer, geralmente, que são ingratos, volúveis, simuladores, tementes do perigo, ambiciosos de ganho; e, enquanto lhes fizeres bem, são todos teus, oferecem-te o próprio sangue, os bens, a vida, os filhos, desde que, como se disse acima, a necessidade esteja longe de ti; quando esta se avizinha, porém, revoltam-se".

Ou, de forma mais clara:

"que o príncipe pense (como acima se disse em parte) em fugir àquelas circunstâncias que possam torná-lo odioso e desprezível; sempre que assim proceder, terá cumprido o que lhe compete e não encontrará perigo algum nos outros defeitos".

Em verdade, em verdade vos digo, todas estas medidas e contra-medidas que se vão tomando por estes dias para controlar uma doença que não está a provocar nenhuma pressão relevante sobre a prestação de cuidados de saúde, nem nenhum aumento expressivo de mortalidade, não têm qualquer relação com a ciência, com a saúde ou  com a razoabilidade, decorrem apenas da natureza do poder e do medo instalado na sociedade, que a torna receptiva à compressão das liberdades públicas ao ponto de permitir que o Estado defina como se organizam reuniões familiares, produzindo mesmo certificados que me permitam estar com os meus filhos e netos todos juntos sem que o aparelho repressivo do Estado se possa abater sobre mim.

Tal como a polémica sobre as questões levantadas por Nuno Palma não tem nenhuma relevância académica - todos estão de acordo com os factos que enunciou - prende-se apenas com o controlo político da memória colectiva, que tem estado nas mãos dos donos do regime como instrumento que lhes permite fugir à discussão sobre a sua responsabilidade no Estado a que chegámos.

Toda a gente devia saber

por henrique pereira dos santos, em 24.06.21

"O que toda a gente devia saber, a começar pela ministra da saúde é que é ao fim de duas semanas, que os números se mostram. O resultado só podia ser este, nós agora temos o Algarve com um Rt de 1,62, que é o valor mais alto do país. Nós sabemos desde o início da pandemia, que foi há mais de um ano e meio, pode haver muita coisa que não se conhecia deste vírus, há uma que é certinha, desde o início, é que o vírus precisa de duas semanas, mais coisa menos coisa, para se mostrar. E agora, todos o podemos ver, passaram-se duas semanas, e temos estes números no Algarve. A ministra da saúde tinha a obrigação de ter visto isto antes, é paga para ver estas coisas antes, tem especialistas a trabalhar com ela para ver estas coisas antes, só não viu antes porque não quis, e por isso, se o governo não quis impedir a ida de milhares de pessoas da grande Lisboa para o Algarve, no fim de semana prolongado, porque seria se calhar uma medida incómoda, desagradável e que tirava votos, não venha agora fingir surpresa com os números que era inevitável (a ênfase é do original) termos duas semanas depois."

Longa citação de uma conversa de taxista que ontem ouvi por acaso na Rádio Observador e que pode ser verificada aqui.

Nunca ouço voluntariamente Miguel Pinheiro, do Observador, nem leio o que escreve, porque me falta a paciência para a prosápia de superioridade que o caracteriza a falar dos outros, mas quando ando de carro apanho-o aqui e ali, e foi o caso.

Não me interessa nada desmontar a quantidade de parvoíces deste parágrafo, apenas me interessa fazer notar que este é o director de um orgão de informação que militantemente afirma, quer o orgão de informação, quer o próprio - destratando todos os que fazem notar que a evolução dos números não é compatível com o que se sabe da forma como evolui esta doença, desde o contágio até à manifestação de sintomas (quando existem), internamento (quando é necessário) e morte (quando ocorre) - que o fecho de escolas a 22 de Janeiro, seguido da imensa movimentação de pessoas associada à uma eleição a 24, é responsável por uma queda brusca da incidência da doença uma semana depois (neste caso a ênfase é minha).

Miguel Pinheiro é pago para verificar factos, Miguel Pinheiro foi treinado para verificar factos, Miguel Pinheiro tem muitos jornalistas a trabalhar com ele para produzir informação fiável, portanto não venha agora dizer que toda a gente sabe que os números se manifestam inevitavelmente duas semanas depois dos factos que escolhe como ponto de partida - no caso em apreço, o segundo fim de semana comprido, e não o anterior, que também foi comprido - e, ao mesmo tempo, recusar-se a admitir que a evolução da epidemia em Janeiro/ Fevereiro é totalmente incompatível com essa coisa que "toda a gente sabe".

Põem os jornalistas permanentemente a dar as suas opiniões sobre tudo e mais alguma coisa, sem que ninguém perceba por que razão os mesmos jornalistas comentam epidemias, futebol, dívida pública, política externa, sem que se lhes reconheça qualquer aptidão especial em cada uma das matérias, e o resultado é inevitável: falta-lhes tempo para fazer jornalismo e perceber que impedir um terço da população se deslocar ao fim de semana para onde lhes apetece não é um incómodo, é uma violação severa de liberdades constitucionalmente garantidas, como a liberdade de circulação.

Pode-se admitir que circunstâncias excepcionais levem à compressão de direitos fundamentais, mas o papel do jornalismo não é malhar no governo por não comprimir mais direitos fundamentais com base em conversas de taxista, o papel do jornalismo é escrutinar, duramente, as razões que fundamentam essa compressão das liberdades, para que o público possa fazer um juízo informado sobre a razoabilidade desses fundamentos.

A UBER tem hoje mais viabilidade económica que o jornalismo por uma razão simples: se é para ouvir conversa de taxista, ao menos que seja quando a corrida tem alguma utilidade para o consumidor.

À escolha: jornalista ou papagaio

por José Mendonça da Cruz, em 23.06.21

Os jornalistas que anunciam que a DGS tem telefones de contacto deviam experimentar contactar a DGS por telefone. Se não o fizerem antes do anúncio são papagaios de propaganda, não são jornalistas.

Os jornalistas que anunciam que está disponível no site da DGS um dispositivo para marcação de vacinas deviam experimentar o dispositivo de marcação antes do anúnico. Se não o fizerem, não são jornalistas, são papagaios de propaganda.

Os jornalistas que anunciam que os vacinados com AstraZeneca terão antecipada a administração da 2.ª dose deviam contactar a DGS (para o telefone ou site que anunciaram) ou o seu centro de saúde antes do anúncio, e, ficcionando um caso real, inquirir da tal antecipação anunciada. Se não o fizerem são papagaios de propaganda, não são jornalistas.

Os jornalistas que anunciam vacinações «de porta aberta» devem tentar usar a porta (tendo as condições exigidas, ou acompanhando-se de alguém que as tenha) antes de anunciarem que está aberta. Se não o fizerem não são jornalistas, são papagaios de propaganda.

Os jornalistas que anunciam que algum serviço público, alguma repartição, alguma instituição do Estado -- seja central ou autárquica -- disponibilizou algum telefone, ou site na Net, ou endereço de email para rápida solução de algum problema, devem, antes do anúnico, tentar utilizar o telefone, o site ou o endereço para verificarem a rapidez ou as facilidades que obtêm. Se não o fizerem são papagaios de propaganda, não são jornalistas.

Paradoxos

por João-Afonso Machado, em 23.06.21

O País continua vivendo entre as atoardas de Costa, o Europeu de futebol e as oscilações da covid.

Quanto ao nosso 1º, nada haverá a esperar. Nem já mesmo a bazuca financeira...

No mais, tenho algum medo o Europeu seja de mais rápido desfecho do que a covid. E se, porventura, for um Europeu de grandes alegrias e emoções, ainda venha complicar o dito imbróglio covid.

Estranhamente, nos jogos disputados há assistência e não se estabelece qualquer nexo de causalidade entre esse facto e o recrudescimento da doença. Aqui... acabamos de verificar que muitos com a primeira vacina já aplicada ainda vão contagiados parar aos hospitais. Fala-se numa hipotética 4ª vaga, no retrocesso dos desconfinamento, a indústria do turismo vive já em alarme. E a India e a sua versão covid são a mãe de todos os males.

Todos os dias aprendemos. Aprendemos, ao menos, que não conseguimos aprender.

Torrar dinheiro

por henrique pereira dos santos, em 23.06.21

Terá sido ontem apresentado o projecto LIFE LxAquila.

O programa LIFE é um programa europeu, directamente gerido pela Comissão Europeia, objecto de uma selecção exclusivamente da responsabilidade da Comissão Europeia, portanto tudo o que digo neste post não se refere a um esquema manhoso de aplicação de fundos comunitários em Portugal mas sim a opções legítimas de alocação de recursos para a conservação da natureza por parte da União Europeia.

Os objectivos do projecto são meritórios: 

Criar uma rede de custódia composta por proprietários de terrenos privados e entidades públicas, que serão guardiões dos valores naturais da região, e em particular das águias-de-bonelli

Demonstrar que é possível compatibilizar a conservação de predadores com as atividades humanas

A questão que se levanta é a de saber por que razão, para atingir estes objectivos, se escolhe um projecto que tem como alvo a águia de bonelli na região de Lisboa.

Há já muitos anos sugeri que dois empreendedores da área da conservação recebessem um prémio de excelência por terem conseguido vender à EDP um projecto inútil por cerca de dez mil euros de serviços por mês, durante cinco anos.

Como entretanto isso foi há uma década, sugiro uma nova atribuição de empreendedores da década na área da conservação aos promotores do LxAquila, por terem conseguido vender este projecto inútil por dois milhões de euros à Comissão Europeia.

Na realidade, a este projecto aplica-se integralmente o último parágrafo do post para que ligo antes: "Este projecto demonstra que captar mais de meio milhão de euros para resolver problemas de conservação, mesmo inexistentes, apenas exige estratégias de marketing adequadas e capacidade por parte dos empreendedores, tendo por isso um enorme potencial de mobilização positiva para todo o sector", com a pequena adaptação de neste caso não ser meio milhão, mas dois milhões.

O que me incomoda não é que haja quem faça projectos manifestamente absurdos para financiar actividades em grande parte meritórias - e muito menos que o projecto seja co-financiado por uma das celuloses, como é evidente - o que me incomoda são os critérios de decisão da União Europeia que permitem que um financiamento cuja base de atribuição é o valor europeu de conservação dos projectos seja aplicado em projectos que nem têm valor europeu, nem têm valor para a conservação.

A águia de bonelli está em expansão, teria qualquer coisa como 120 casais há dez anos em Portugal e hoje tem cerca de 150, teria meia dúzia de casais na área metropolitana de Lisboa, terá hoje o dobro, mas ainda assim justifica-se o projecto com ameaças mirabolantes como a eventual diferenciação genética de populações que nidificam em árvoras e não escarpas (a reutilizaçao da treta da diferenciação genética potencial com base em factores comportamentais, já usada no tal projecto anterior vendido à EDP, que citei) ou, o que é mais interessante, a argumentação de que como a espécie está presente em áreas densamente povoadas, como a área metropolitana de Lisboa, e é muito sensível à perturbação, quer dizer que está numa situação limite em que qualquer nova perturbação pode levar um casal a mudar de sítio.

Com base nestes pressupostos, deveremos concluir que a duplicação de casais na área metropolitana de Lisboa nos últimos dez anos se deve, com certeza, ao intenso despovoamento da área metropolitana de Lisboa nos últimos dez anos, diria eu.

Com problemas de conservação bem sérios, como os que estão associados à perda de capacidade de gestão activa de serviços de ecossistema, com questões de conservação realmente importantes, como o aumento da capacidade de produzir conhecimento em grupos especialmente desconhecidos, como os invertebrados, com preocupações relevantes como as que dizem respeito à biodiversidade do solo e sua relação com a captação de carbono, com gravíssimas lacunas de conhecimento na dinâmica de espécies da flora especialmente ameaçadas, a opção da União Europeia é torrar dois milhões na reinação com águias de bonelli.

E, a julgar pelo envolvimento institucional no projecto - seis câmaras municipais, companhia das lezírias, e-redes, GNR, ICNF (declaração de interesses, a minha entidade patronal), Parques de Sintra, Tapada de Mafra, financiamento por uma das celuloses, no caso, a ALTRI - parece que toda a gente acha isto normal.

Apesar das muitas vezes em que isto me acontece, não consigo sentir-me confortável com a circunstância de andar demasiadas vezes com o passo trocado na formatura e não saber como se faz para ter a capacidade de andar sempre de passo acertado, como consegue tanta gente sem esforço.

Fernando Rosas e Nuno Palma

por henrique pereira dos santos, em 22.06.21

No Domingo, 20 de Junho, Fernando Rosas tem duas páginas do Público, com destaque de primeira página, para contestar o que disse Nuno Palma na convenção do Movimento Europa e Liberdade, a saber, que a vulgata sobre o desastre económico do Estado Novo está errada e tem sido usada para desresponsabilizar o regime democrático pelos seus falhanços económicos e sociais.

Os pontos relevantes da contestação de Fernando Rosas são os seguintes, parece-me.

1) O relevante não é o que diz objectivamente Nuno Palma, mas o sub-texto essencial do que disse Nuno Palma, isto é, Fernando Rosas pretende deslocar a discussão do que disse Nuno Palma para o que Fernando Rosas acha que quis dizer Nuno Palma, mesmo não o tendo dito. É uma velha técnica retórica, aliás não apenas retórica, Sun Tzu, na Arte da Guerra, também dá muita ênfase à importância da escolha do terreno do combate para a vitória. Ou seja, Fernando Rosas não está interessado em discutir argumentos a partir de um chão comum racional mas apenas interessado em ganhar uma guerra;

2) Na substância, depois de algumas voltas e voltinhas retóricas, Fernando Rosas confirma, em absoluto, o primeiro argumento de Nuno Palma: "é certo que no pós-guerra, sobretudo a partir da segunda metade dos anos 50 até ao início dos anos 70, a economia regista um crescimento sem precedentes" e implicitamente reconhece o fracasso económico do regime democrático "O certo é que este gigante oligárquico ... tinha pés de barro. Quando os trabalhadores reconquistaram a liberdade ... o modelo político-económico ... ruiu como um baralho de cartas, lançando o pesado lastro da sua insustentabilidade sobre a democracia portuguesa", o segundo pressuposto de Nuno Palma;

3) O texto é todo ele uma demonstração de como as elites do regime democrático, de que Fernando Rosas sempre fez parte, procuram alijar responsabilidades para cima do Estado Novo fazendo uma opção metodológica que é exactamente o que é contestado por Nuno Palma (pelo menos é essa a minha interpretação): a apresentação de números absolutos de caracterização da realidade do fim do Estado Novo, evitando a todo o custo o enquadramento e a compreensão do contexto, de modo a evitar a discussão das razões pelas quais a dinâmica numa alturas é de convergência e noutras é de divergência;

4) Quando se fazem comparações são fixas num tempo e com geografias escolhidas a dedo (aquilo a que agora se chama cherry picking), dando origem a coisas curiosas como esta, assinalada por João Cerejeira num curto comentário sobre este texto: "Não deixa de ser curiosa esta frase no texto de Fernando Rosas: "Com cerca de 29% de analfabetos em 1970, Portugal só era ultrapassado pela Turquia." Com referência aos dias de hoje, a mesma frase poderia ser escrita assim: "Com cerca de 45% da população adulta sem o ensino secundário em 2020, Portugal só é ultrapassado pela Turquia."", evitando cuidadosamente o "antes e depois" dos diferentes períodos de evolução económica social, condição sine qua non para se poder avaliar que factores estiveram a actuar nos melhores períodos e que factores estiveram a actuar nos piores períodos.

Em duas páginas de texto, Fernando Rosas usa muito mais adjectivos que factos e, mais uma vez, faz uma estranha defesa da ditadura ao pretender que o maior período de expansão económica e social do país nos últimos duzentos anos, que coincide com o maior período de convergência com as economias mais avançadas, é inseparável do regime político em que ocorreu.

A explicação alternativa a esta é a de que o esforço de consolidação da primeira fase do Estado Novo, conjugado com a abertura do país e da economia forçada pelo acordo da EFTA, são factores essenciais, o primeiro com maior ligação ao regime político, o segundo razoavelmente autónomo em relação ao regime, a partir do momento em que o acordo com a EFTA obrigou à abertura económica (parcial, é claro, mas muito relevante).

A discussão que interessa é esta, não a dos sub-textos de cada pessoa: os períodos de maior pujança económica do país estão ou não ligados à maior abertura externa e a modelos económicos mais liberais, e os períodos de maior estagnação estão ou não ligados ao sufoco do Estado sobre a economia, incluindo através de despesas excessivas de baixa eficiência económica?

Eu percebo que os donos do regime queiram evitar esta discussão à custa da pesada utilização de adjectivos e de slogans bem esgalhados como o do título do texto de Fernando Rosas "O milagre da economia sem política".

A queda dos anjos

por Miguel A. Baptista, em 20.06.21

A Victoria’s Secret decidiu acabar com os anjos sexies e colocar pessoas “normais” e “inspiracionais”, tais como uma jogadora de futebol, uma refugiada, ou uma transexual.

Quanto a mim, ao contrário do que muitos possam pensar, tal representa um retrocesso civilizacional. Eu gosto de viver numa sociedade onde a jogadora de futebol, a refugiada, ou a transexual sejam aceites e valorizadas. Mas também gosto de viver numa sociedade onde haja glamour, sedução e fantasia.

A sociedade abdicar de um dos seus maiores ícones de sedução e fantasia não é nada de forçosamente bom. Uma sociedade que abandona o sonho, concentrando-se exclusivamente na realidade, não é particularmente interessante.

Domingo

por João Távora, em 20.06.21

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Naquele dia, ao cair da tarde, Jesus disse aos seus discípulos: «Passemos à outra margem do lago». Eles deixaram a multidão e levaram Jesus consigo na barca em que estava sentado. Iam com Ele outras embarcações. Levantou-se então uma grande tormenta e as ondas eram tão altas que enchiam a barca de água. Jesus, à popa, dormia com a cabeça numa almofada. Eles acordaram-n’O e disseram: «Mestre, não Te importas que pereçamos?». Jesus levantou-Se, falou ao vento imperiosamente e disse ao mar: «Cala-te e está quieto». O vento cessou e fez-se grande bonança. Depois disse aos discípulos: «Porque estais tão assustados? Ainda não tendes fé?». Eles ficaram cheios de temor e diziam uns para os outros: «Quem é este homem, que até o vento e o mar Lhe obedecem?».

Palavra da salvação.

Comentário: Se a contemplação da obra da criação nos pode levar a reconhecer a presença de Deus junto dos homens, quanto mais a contemplação das obras realizadas por Jesus Cristo, o próprio Filho de Deus feito homem? E mais ainda do que acalmar a tempestade no lago da Galileia, o Senhor sempre presente na barca da Igreja, continua a trazer a paz e a bonança ao seu povo batido pelas vagas na travessia do mar desta vida a caminho do porto seguro da glória celeste.

Estou chim?! Estou aqui!

por José Mendonça da Cruz, em 19.06.21

É sempre um bom momento aquele em que os reportes televisivos proclamam, ufanos, que estão «aqui». «Aqui, de Budapeste», «Aqui, de Munique».  Surpreende-me e diverte-me sempre que os reporteres achem que poderiam estar em outro lado senão ali, onde a câmara os mostra. Lembram-me sempre o pastor do anúncio de telemóveis: «Estou chim? É pra miiimm!»

Cultura institucional

por henrique pereira dos santos, em 19.06.21

Vou contar três histórias que ouvi directamente de pessoas que estavam nos carros, se são verdadeiras ou não, não tenho maneira de saber, que retratam uma cultura institucional, isso sim, sei que são bastante fiéis.

Na primeira, um ministro (José Sócrates) entra no carro em Aveiro e diz para o motorista: tenho uma reunião em Lisboa dentro de uma hora, estou cansado, vou aproveitar para dormir e não se esqueça de cumprir os limites de velocidade. Mas como é que eu chego a Lisboa numa hora a cumprir os limites de velocidade? Como lhe disse, eu vou dormir, estou apenas a dar-lhe informação sobre o meu próximo compromisso e a dar a instrução de que quero que cumpra os limites de velocidade, o resto é o seu trabalho.

Na segunda, uma ministra (Elisa Ferreira), diz ao seu motorista que está atrasada para uma reunião em Lisboa, à saída de Estremoz, ou por aí (não me lembro). Adormece, acorda a meio, sobressaltada, repara no conta-quilómetros e insiste com o motorista: por favor, senhor ... já lhe pedi várias vezes para nunca passar dos 200.

A terceira é com um director geral a quem a polícia manda encostar numa auto-estrada, por evidente excesso de velocidade. Enquanto pára o carro o motorista diz para o seu director geral, de que é motorista há anos: esteja calado, daqui para a frente, diga eu o que disser. Quando o polícia o aborda e lhe faz notar a velocidade absurda a que seguiam, o motorista, com voz alterada, diz para o polícia que a culpa é daquele gajo que agora está encolhido lá atrás porque sabe que se alguém levar uma talhada sou eu, o gajo é que me obriga a estas loucuras, sabe como é, eu preciso do ordenado ao fim do mês, não posso dizer-lhe que não faço o que ele me manda fazer, e por aí fora, e agora por causa disso fico aqui sem carta e sem trabalho, estes sacanas é sempre a mesma coisa e os outros é que pagam as favas, etc. (safou-se da multa e da apreensão de carta).

Não sei porquê, lembrei-me destas histórias e da cultura institucional que impede o Zé das Iscas de sair hoje de Vila Franca de Xira para ir fazer o um pic-nic à Azambuja, mas permite ao primeiro ministro ir de Lisboa a Munique ver um jogo de futebol.

A praga

por José Mendonça da Cruz, em 18.06.21

O ministro Eduardo Cabrita lançará imediatamente um rigoroso inquérito, doa a que motorista doer, para apurar em que circunstâncias foi atropelado e morreu um trabalhador rodoviário. Isto, mesmo que os media nacionais digam que quem atropelou foi o carro (como dizem que foram camionetas, quando as guiava algum tarado do Islão). Depois, o substituto e os seus colegas já podem rolar rotineiramente a 150 ou 170 km/h, pois levam gente importante, cujo tempo conta mais do que tudo.


Pág. 1/3



Corta-fitas

Inaugurações, implosões, panegíricos e vitupérios.

Contacte-nos: bloguecortafitas(arroba)gmail.com




Notícias

A Batalha
D. Notícias
D. Económico
Expresso
iOnline
J. Negócios
TVI24
JornalEconómico
Global
Público
SIC-Notícias
TSF
Observador

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes

  • Tiro ao Alvo

    Por incrível que parece, o trânsito automóvel aume...

  • Anónimo

    Pagar mais é com o PS, não se metam nisso, Liberai...

  • Anónimo

    Desculpe estar a lembrar a ausência na discussão d...

  • Anónimo

    Admito estar a fazer uma enorme confusão ou a ser ...

  • Anónimo

    Ouvi há pouco na sicN pelas 20h :26m (é uma interv...


Links

Muito nossos

  •  
  •  
  • Outros blogs

  •  
  • Links úteis


    Arquivo

    1. 2021
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2020
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2019
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2018
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2017
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2016
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2015
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2014
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2013
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2012
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2011
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2010
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D
    157. 2009
    158. J
    159. F
    160. M
    161. A
    162. M
    163. J
    164. J
    165. A
    166. S
    167. O
    168. N
    169. D
    170. 2008
    171. J
    172. F
    173. M
    174. A
    175. M
    176. J
    177. J
    178. A
    179. S
    180. O
    181. N
    182. D
    183. 2007
    184. J
    185. F
    186. M
    187. A
    188. M
    189. J
    190. J
    191. A
    192. S
    193. O
    194. N
    195. D
    196. 2006
    197. J
    198. F
    199. M
    200. A
    201. M
    202. J
    203. J
    204. A
    205. S
    206. O
    207. N
    208. D


    subscrever feeds