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A «cidadania» dos poltrões

por José Mendonça da Cruz, em 28.02.21

Um padre de Pinhel decidiu continuar a celebrar missas presenciais, com máscaras e distância física. Logo um bufo ou bufa convocou a Sic, para que registasse o que julga ser «falta de cidadania e respeito». A Sic lá enviou uma equipa jacobina de promoção do pânico e defesa do p.c., que ouviu o padre, alguns fiéis, e o bufo ou bufa. Mas, como todos os bufos ou bufas, o bufo ou bufa veio escondido, cobarde, não deu a cara, nem o nome, nem a voz, que se ouviu filtrada. Tudo em nome da «cidadania», que os bufos ou bufas não sabem o que seja, e do «respeito», que nenhum bufo ou bufa merece, já que não o têm por si próprios.

Henrique Oliveira e a sociedade aberta

por henrique pereira dos santos, em 28.02.21

João Pires da Cruz escrevia um dia destes que o que nos separava da Suécia não eram as estratégias diferentes de gestão da epidemia, mas sim a capacidade de aprender. Tinha toda a razão: nos dois sítios foram tomadas decisões, mas na Suécia foi produzida informação largamente disponível para toda a gente (ser boa ou má é uma questão diferente), fizeram-se discussões racionais sobre os resultados obtidos e eventuais erros cometidos e as decisões seguintes incorporaram os resultados (sempre precários e provisórios, claro) dessas discussões, sendo por isso diferentes das primeiras.

Pelo contrário, em Portugal a informação tem enormes fragilidades (há coisas muito boas, como o sistema de monitorização da mortalidade, por exemplo), é extremamente assimétrica, a cultura de discussão franca e aberta é mínima e o resultado é que não aprendemos, tomamos sempre as mesmas decisões, seja agora, seja no ano passado.

A mera justificação de António Costa para não abrir já a escolas, baseada na comparação dos números com o anterior período de desconfinamento, é de bradar aos Céus, um exemplo acabado de como não aprendemos, nem fazemos nenhum esforço sério para aprender, apenas nos esforçamos para demonstrar que sempre tivemos razão (todas as generalizações são abusivas e esta não foge a esta regra, com certeza as coisas não são preto e branco).

Talvez um exemplo seja útil para explicar a falta que nos faz o verdadeiro escrutínio, o debate e a substituição da autoridade pela racionalidade.

contágios henriq oliveira.jpg

Este gráfico foi apresentado por Henrique Oliveira, dentro da sua campanha para demonstrar como o fecho de escolas foi fundamental. O gráfico tem uma alteração feita por Fernando Batista que consiste em introduzir o ponto das eleições presidenciais, a verde, para levantar uma questão relevante: como é que o fecho de escolas numa Sexta-feira tem um efeito determinante quando no Domingo seguinte há umas eleições que põem em contacto milhares de pessoas, de milhares de bolhas sociais diferentes?

O gráfico foi apresentado assim: "Hoje consegui obter o almejado gráfico dos contágios em Portugal.
O pico dos contágios foi no dia anterior ao fecho das escolas. O confinamento do "postigo" conseguiu, durante dois ou três dias estabilizar os contágios a um nível elevadíssimo de 12.000 diários oficiais DGS, mesmo antes do dia 21, mas o fecho das escolas teve um efeito drástico."

Explicações úteis sobre como foi obtido o gráfico, zero, apenas um argumento de autoridade "consegui obter".

O mais interessante é que na imensa complexidade que é o desenvolvimento de uma epidemia, Henrique Oliveira consegue isolar e ter certezas sobre o efeito do confinamento do postigo, identificando exactamente o seu efeito nesta curva de contágios.

Naturalmente alguém questiona este gráfico chamando a atenção para o facto do Instituto Ricardo Jorge produzir um gráfico de casos (não contágios), que coloca o pico de casos a 18 de Janeiro, o que é evidentemente incompatível com um pico de contágios a 21, como pretende Henrique Oliveira.

insa 26 fev.jpg

O resultado de alguém questionar o primeiro gráfico, apresentando este segundo, não é o que seria normal, uma discussão sobre os dois gráficos para perceber de onde vêm e o que querem dizer, o resultado é o bloqueio de qualquer discussão, com Henrique Oliveira e Jorge Buescu (um senhor que ficou instantaneamente famoso no mundo da epidemiologia quando logo no início da epidemia previu que dentro de dias Portugal teria 12 milhões de infectados) a desconsiderarem o trabalho do Instituto Ricardo Jorge: "Eu fiz o gráfico com dados fidedignos, o pico da incidência registada é mesmo a 29 de Janeiro. ... (sobre o boletim do Ricardo Jorge) "viste o R0? Totalmente errado em todos cálculos que se possam fazer. Fazem correcções arbitrárias não justificadas na literatura das datas das incidências, etc etc etc... Enfim, este boletim corresponde à qualidade de quem o faz..." ... "O INSA repete essa asneira à exaustão desde o princípio. Em nenhuma parte do Mundo é 2. Vivem em Marte? Ignoram totalmente a literatura? Alienação da realidade?" ...  "OLha, na última reunião do Infarmed em que o BN citava o Rt como 0,67, "o mais baixo da pandemia"... estava de facto em 0,82, quer calculado por mim quer pelo Carlos, e já tinha tido um mínimo há 10 dias. Não sei que raio de contas eles fazem!" ... "usam o modelo seird mas de forma totalmente errada..." ... "Acabei de perder a fé nos cálculos do INSA, pelos menos sobre o R." ... "se o R está errado desde o início, e é fácil, imagina o resto...", etc..

Se eu gostasse de usar argumentos de autoridade, diria que não deixa de ser irónico que matemáticos que ouviram falar de epidemiologia há um ano se entretenham a dar lições ao departamento de epidemiologia do Instituto Ricardo Jorge, mas eu não tenho o menor respeito por argumentos de autoridade e acho perfeitamente razoável que se questione o trabalho do Instituto Ricardo Jorge, mais que isso, acho fundamental que isso se faça.

Tal como acho útil questionar o trabalho de toda a gente, porque é da crítica séria, desassombrada e frontal que podemos ir melhorando, incluindo questionar o primeiro gráfico que Henrique Oliveira usa para defender a sua tese.

Henrique Oliveira faz este gráfico de forma simples: pega na incidência acumulada a sete dias (aparentemente centrada), medida pelo número de casos, parte do pressuposto de que há dois dias de diferença entre sintomas e registo de teste positivo pela DGS, e mais cinco dias entre contágio e sintomas e faz um gráfico de contágios que é uma deslocação do gráfico de casos para sete dias antes.

Que problemas existem com isto?

Estabelecer dois dias de intervalo entre o início dos sintomas e o registo do caso positivo é manifestamente absurdo. Pode ser que o Instituto Ricardo Jorge, que usa uma técnica que todos as autoridades europeias usam para transformar reposicionar os casos no início dos sintomas, esteja a cometer erros nesse processo, mas o que é verdadeiramente seguro é dizer que é uma tolice dizer que apenas existem dois dias entre sintomas e registo de teste positivo.

Todos nós conhecemos, com certeza, dezenas de pessoas que testaram positivo, eu conheço, mas não me lembro de em algum dos muitos casos que conheço terem passado apenas dois dias entre os primeiros sintomas e o resultado positivo do teste.

Ou seja, o gráfico de Henrique Oliveira precisa de ser recuado pelo menos dois dias (um número que estou a definir arbitrariamente, acho que é curto, mas prefiro errar contra o meu argumento, para evitar qualquer dúvida sobre má-fé), isto é, o fecho de escolas apareceria depois da linha verde do gráfico, bem dentro da descida brutal de contágios e sem qualquer sinal de os ter influenciado.

Assim sendo, a interpretação do gráfico de Henrique Oliveira, que já era fraquinha, torna-se impossível de sustentar: o pico de contágios já não é no dia anterior ao fecho de escolas, mas três dias antes, e a tal demonstração do efeito do fecho do postigo é anterior ao dito fecho.

Tudo isto só discutindo o tempo que decorre entre sintomas e registo de caso positivo, matéria para a qual não tenho informação de qualidade, ao contrário do Instituto Ricardo Jorge que diz que é bem mais que o que diz Henrique Oliveira.

Henrique Oliveira respondeu-me que tinha as previsões fantásticas e que batiam certinhas num relatório oficial que fez. Naturalmente perguntei se podia ter acesso ao relatório.

Respondeu-me que evidentemente que não.

Henrique Oliveira, pelos vistos, desconhece que todos os documentos oficiais são públicos (as excepções estão definidas na lei) e acha normal passar o tempo a influenciar decisões que afectam milhares de pessoas sem disponibilizar abertamente a informação que usa, para que essas decisões possam ser escrutinadas e, por essa via melhoradas.

Duvido que a academia sueca esteja tão viciada como a academia portuguesa no segredo que permite usar a autoridade como argumento.

E isso é uma responsabilidade que a academia portuguesa carrega às costas e um factor brutal que nos empurra para a pobreza e para a fragilidade institucional que nos caracteriza.

O Primeiro Programa Nacional de Vacinação

por Vasco Mina, em 27.02.21

Neste tempo em o Plano de Vacinação para a Covid-19 se encontra na ordem do dia, importa recordar como e quando teve início o planeamento nacional de imunização da população portuguesa para um conjunto de doenças infectocontagiosas. Um recente artigo, no Expresso, de Bruno Vieira Amaral sobre a vacinação lembrou o primeiro Programa Nacional de Vacinação (PNV). Foi em 1965 e o seu mentor o então Ministro da Saúde e Assistência Francisco Neto de Carvalho. Este Programa contou com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian e o próprio reconheceu, numa obra sua (“Do Estado Novo à Democracia” em edição póstuma da sua família) os fracos recursos financeiros que levaram o Estado a recorrer ao subsídio da referida Fundação (atualmente seria com o apoio da União Europeia).

O PNV foi um sucesso e permitiu erradicar a poliomielite e reduzir as taxas de incidência das outras doenças que passaram, igualmente, a ser incluídas no referido Plano: tosse convulsa, difteria, tétano e varíola. A grande mais valia desta medida foi proporcionar a cobertura vacinal à escala de todo o país. A par de tudo isto lançou-se a construção do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge e foi instituído o Boletim Individual de Saúde o qual passaram a ser registadas as vacinas e que (ainda hoje) é um documento fundamental que a todos deve acompanhar.

Vale a pena ouvir a conferência de imprensa para lançar o PNV. O Ministro Francisco Neto de Carvalho destacou, entre outros, os seguintes aspectos: a colaboração da comunicação social na divulgação da importância da vacinação, o envolvimento das populações interessadas, a criação da consciência social para levar os portugueses a vacinarem os seus filhos e a importância de se conseguir a imunização generalizada da população (pelo menos 75%). Igualmente curiosa é a constatação da resistência de muitos aos tratamentos da tuberculose nos sanatórios. Ou seja, então e hoje, a mesma preocupação face aos que resistem às novas abordagens da medicina.

Não, não sou saudosista do Estado Novo (em 1965 tinha eu 3 anos de idade) mas importa ter (boa) memória de quando e como se iniciaram os planos de vacinação. Também a merecida homenagem ao seu autor que teve uma longa carreira se serviço público que terminou em 1991 como Juíz Conselheiro do Tribunal de Contas. Vale a pena ler o livro que citei  (com prefácio de Guilherme D’Oliveira Martins) acima pois é o testemunho de uma vida que acompanhou o Estado Novo e a Democracia.

Baltazar Nunes e as escolas

por henrique pereira dos santos, em 27.02.21

"Nós sabemos que as escolas, aparentemente, e vimos que são seguras e não houve grandes surtos de transmissão nas escolas, mas também aquilo que aprendemos é que a abertura das escolas tem efeitos colaterais, tem efeitos indirectos sobre a sociedade, porque liberta os pais para poderem ir trabalhar e vai libertando a sociedade, não é propriamente as escolas que sejam o principal factor que promove a transmissãocomo sendo as crianças os vectores dessa transmissão, mas são efectivamente um factor que confina muito a sociedade".

Esta transcrição diz respeito a Baltazar Nunes, uma das eminências pardas da estratégia de gestão da epidemia.

É director dos serviços que no Instituto Ricardo Jorge publicam o relatório sobre mortalidade que alerta para os efeitos sinergéticos entre mortalidade e covid resultantes da situação meteorológica excepcional que ocorreu entre 24 de Dezembro e 20 de Janeiro.

E mesmo sendo o director desses serviços, mesmo depois da publicação do relatório com estas conclusões, prefere omitir (ou quase omitir ao ponto de não terem qualquer relevância no conjunto da sua intervenção) as conclusões dos seus próprios serviços na reunião do Infarmed em que repete argumentos a favor do confinamento e interpretações da curva de epidémica e transmissibilidade que são mais que abusivas face à informação que o seu próprio departamento produz.

Nada de original na função pública actual, que está de pantanas e que promove uma cultura de irresponsabilidade e de subserviência ao poder como não conheço paralelo anterior (e eu trabalho na função pública há mais de trinta anos, esquecendo alguns interregnos).

Que o próprio não tenha sequer consciência da barbaridade do que está a dizer - que o fecho das escolas não se justifica pelo papel das escolas na evolução da epidemia, mas porque prende os pais das crianças em casa - diz muito mais sobre nós, sobre o jornalismo que o ouve sem o confrontar com o carácter indigno dessa opção com esse fundamento, que sobre Baltazar Nunes.

Versar-com

por João Távora, em 26.02.21
Das diferentes formas de conversa (versar-com) distingo duas. Uma de preponderância mais narcísica, autocentrada, emocional, que tende para o monólogo e exige do interlocutor uma enorme humildade e apagamento, e outra que, sendo carregada de afecto, é feita de construção, uma ponte para o encontro.

Hoje mais do que nunca reconheço o valor de uma rara, boa e sã conversa. Descomprometida e desinteressada, sem constrangimentos mas com atenção ao outro. Que se disfruta com pessoas próximas, amigos especiais ou em raros estados de graça. Conversa cúmplice que simplesmente acontece, e não se encomenda. Com a qual resolvermos os verdadeiros problemas do mundo e da existência, principalmente a dos outros. Discutindo o tudo e o nada, um livro, um autor; recordando memórias, aventuras, gaffes ou anedotas, risos e gargalhadas. Zombando dos outros, da vida e de nós próprios. Até às lágrimas, até ao silêncio, até à próxima.
 
A boa conversa é prática rara e fidalga que só os espíritos livres e superiores podem alcançar. Sem pretensões, pelo simples prazer de se estar vivo e de nos reconhecermos uns dos outros.
 
(texto reeditado)

A antevisão do jogo

por João-Afonso Machado, em 26.02.21

Da maior importância, na actualidade, o mundo do futebol está em alta rotação política. Uma verdadeira pandemia em toda a vanguarda da Divisão superior. E um novo regime que se adivinha está para, sustentadamente (como ora se diz), chegar e ficar.

Isso tem a ver com o findar - e ainda bem - do monótono império dos "3 grandes", apenas quebrado, ao longo de uns 80 anos, por proezas esporádicas do Belenenses (a bem dizer, a proeza tinha nome: Almirante Tomaz) e do Boavista (e, sobre esta, as histórias que se contam...).

A afirmação do Braga como uma quarta grande equipa, vem vindo a fazer-se. E não fora o assalto ao seu plantel, pelos mais ricos, e a saída de Rúben Amorim... não sei, não.

O F. C. do Porto, digam o que disserem, ainda é uma grande Naçom. Não tem estrelas, porque, quando as tem, aí vão elas, cadentes, para o futebol milionário. Mas com meia América do Sul a jogar lá, gigantes malianos e alguma juventude portuguesa por imigrar, sempre se desenrasca, permanece na Europa, e... «ainda há muito campeonato para jogar, o futebol é isto».

O Sporting, uma enorme surpresa! Eu diria, desde logo, com um treinador que é um predestinado; mas, sobretudo, com a gente da casa, gente nova que joga sem medo e é portuguesa. Tudo isto merece, sem dúvida, a devida recompensa.

E o Benfica... Enfim, a minha qualidade de provinciano não me permite alcançar onde foram buscar tantos milhões para tanto desperdício. Em 4º lugar, a um ponto do 5º e a quatro pontos do 3º... Onde os lisboetas não organizaram buzinões contra Cabritas, Temidos e outros que tais, ao nível do Pedro Guerra, fizeram-no contra o pobre JJ, a quem, já se vislumbra, nem Cristo valerá.

Isto sim, é política. O resto é confinamento. Aqui o nosso Famalicão já conheceu melhores dias, e se eu fosse lisboeta era do Atlético da Tapadinha. Alguém se lembra? Azul e branco, sempre! Em tudo o verdadeiramente importante, como é caso do futebol.

 

Os escombros

por João Távora, em 26.02.21

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Esta entrevista Susana Peralta teve o mérito de por "a burguesia" a olhar para a sua carteira, e quem sabe para os desgraçados que estão a pagar a factura do confinamento - que é o capítulo que se segue quando nos dispormos a olhar para os efeitos colaterais da gestão da pandemia. Por ora há gente a mais confortavelmente no sofá a comer pipocas enquanto assiste pela TV ao desastre que se agiganta do outro lado da sua porta.

"Sobem sempre mais depressa"

por henrique pereira dos santos, em 26.02.21

"sabemos que os números sobem sempre mais depressa do que descem", disse o nosso Presidente da República sobre este gráfico:

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Não contente com dizer isto, ainda acrescentou que um confinamento em Março era relevante para a incidência no Verão e no Outono.

Pouco satisfeito, justificou o confinamento de um mês do país com a necessidade de não baralhar as pessoas abrindo agora e fechando uns dias na Páscoa, para voltar a abrir depois.

E tudo isto para se substituir ao poder executivo na definição da gestão concreta da epidemia.

Que Marcelo Rebelo de Sousa, numa declaração formal ao país, nas suas funções de Presidente da República, faça afirmações manifestamente falsas, que lhe acrescente fantasias sem qualquer base, que argumente com razões de comunicação para justificar o sacrifício real que está a impor aos mais pobres, aumentando a desigualdade no país, com o objectivo de exorbitar das suas competências e se substituir ao poder executivo, é da natureza das coisas e ninguém pode negar que os eleitores sabiam perfeitamente quem estavam a eleger.

Que toda a imprensa se abstenha de assinalar o facto do Presidente da República dizer coisas falsas, facilmente verificáveis, para sustentar fantasias de hipocondríaco e argumentos sem pés nem cabeça para entalar o governo e o substituir nas suas funções executivas, é que verdadeiramente caracteriza a fragilidade das nossas instituições e explica o nosso empobrecimento e a erosão progressiva da dignidade da nação.

O Inferno é a ausência de esperança.

Adenda: ouvi agora José Manuel Fernandes, e gostaria de assinalar esta excepção

Buescu mente sobre as escolas...

por henrique pereira dos santos, em 25.02.21

... e uma imprensa acéfala repete a mentira, sem verificar os factos, e deputados mal preparados engolem a mentira sem questionar incongruências e nós todos continuamos sujeitos a medidas absurdas porque achamos o respeitinho muito bonito.

Compreendo que haja quem considere excessivo eu dizer que Jorge Buescu mente sobre as escolas, mas aos que dizem que o rio é violento, convém lembrar a opressão das margens sobre ele.

E aqui ficam as minhas justificações.

“Nós sabemos o que acontece quando abrem as escolas. Em Setembro abriram as escolas todas, portanto, se nós queremos ter a noção do efeito de abrir as escolas, é olhar, por exemplo, para o que aconteceu ao R(t), o R(t) aumentou 20 a 25% em quinze dias depois da abertura das escolas, ou melhor, seis dias depois da abertura das escolas o R(t) começou a subir e aumentou cerca de 20 a 25%, portanto, eu diria o seguinte, se nós pensarmos que vai acontecer a mesma coisa se abrirmos as escolas … nós estamos com um R(t) suficiente para que com um aumento de 20% continuemos abaixo de 1?”, disse ontem Jorge Buescu numa audição parlamentar.

Vejamos então os factos.

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Este é o gráfico de pormenor da variação do R(t) na altura da abertura do ano lectivo, com a indicação de 1) abertura do ano lectivo, foi entre 14 e 17, estou a usar o dia 15 de Setembro; 2) os tais seis dias de descida de que fala Buescu; 3) o ponto em que o R(t) começa a subir, a 26 de Setembro (10 dias, e não seis, como diz Buescu); 4) o dia 3 de Outubro, que assinalei aqui para ligar com o gráfico vou usar já a seguir; 5) O ponto em que o R(t) estabiliza depois da subida iniciada a 26 de Setembro, por volta de 9 de Outubro; 6) o ponto, a 15 de Outubro, mais coisa, menos coisa, em que o R(t) começa a descer, apesar das escolas abertas.

Não está aqui visível, mas os tais 20 a 25% de aumento de R(t) em quinze dias, na verdade são, considerando o dia com o R(t) nos mínimos deste perído (19 de Setembro) e o dia com R(t) mais elevado (10 de Outubro), menos de 20% (19%) em três semanas.

Em matéria de rigor na avaliação temporal que permite estabelecer relações de causa e efeito, estamos conversados.

Agora olhemos para este gráfico.

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Sem surpresa, e sem qualquer ligação com os calendários escolares dos diferentes países, é no fim de Setembro e princípios de Outubro (a tal barra 4 que coloquei na curva do R(t) a 3 de Outubro) que a incidência da covid, em toda a Europa, dispara (por alguma razão os sistemas de vigilância da gripe e doenças afins são activados na semana 40 do ano que, em 2020, é a semana que começou a 28 de Setembro).

Portanto, é mentira que saibamos o que acontece quando abrimos as escolas, quer porque é preciso martelar muito a interpretação do gráfico do R(t) para encontrar uma correlação sólida com a abertura de escolas, quer porque a análise global da evolução da epidemia na Europa não autoriza qualquer relação directa entre calendário escolar e incidência da epidemia, ao mesmo tempo que mostra uma simultaneidade que não pode dever-se aos diferentes calendários escolares.

Mas há, por omissão, uma mentira muito mais grave.

Olhemos para o mesmo gráfico, mas no período do Natal.

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Neste gráfico assinalei 1) o começo das férias de Natal (ou seja, encerramento das escolas); 2) a verde, o início de uma anomalia meteorológica excepcional; 3) o Natal; 4) a abertura das escolas após o Natal; 5) o fim da anomalia meteorológica; 6) o fecho de escolas.

Aqui sim, neste período, há uma subida do R(t) de 25%, em seis dias (sensivelmente entre 25 de Dezembro e 31 de Janeiro), mas com as escolas fechadas.

Jorge Buescu, que afirma taxativamente que as alterações do R(t) de Outubro (que são temporalmente coincidentes em praticamente toda a Europa temperada e com o começo o Outono) se devem à abertura das escolas, omite toda a evolução do R(t) no fim de Dezembro e princípios de Janeiro, omite que não há qualquer descida do R(t) nas férias escolares, não há qualquer aumento relevante com a abertura a 4 de Janeiro e que a descida da terceira semana de Janeiro dificilmente pode ser relacionada com o fecho das escolas.

Olhe-se para este gráfico, também ontem apresentado na audição da Assembleia da República, mas por Carlos Antunes, que já há alguns dias o tinha apresentado como uma evidência inquestionável da relação entre o fecho de escolas e o aumento da velocidade de descida da incidência (note-se que há uma evolução relevante da posição de Carlos Antunes, que inicialmente atribuía a descida de casos ao fecho de escolas mas, perante a evidência, passou a falar apenas da sua influência no aumento da velocidade de descida, reconhecendo que a alteração de tendência se deu antes do fecho das escolas).

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Antes da audição, que foi à tarde, na manhã de ontem, na minha página de Facebook, houve uma cordial troca de argumentos sobre o que significa este gráfico, que penso que vale a pena sintetizar aqui.

Carlos Antunes refere-se à barra da direita como sendo a evidência do efeito do fecho das escolas, relacionando a quebra da variação diária da incidência acumulada a 31 de janeiro com qualquer coisa que se passou pelo menos sete dias antes.

O que a troca de argumentos havida ontem permitiu confirmar, pelo próprio Carlos Antunes, foi que a tendência na incidência, medida pela data de sintomas, deu-se a 22 de Janeiro, acentuando-se a 24 de Janeiro e acentuando-se ainda mais a 28 de Janeiro (esta última corresponderia à tal barra a 31 de Janeiro, dependendo os desfasamentos temporais da forma como se calculam os valores).

Como o que está no gráfico é a incidência acumulada a sete dias, não centrada (isto é, contando com os valores dos seis dias anteriores e não com três dias anteriores e três posteriores), significa que a alteração de tendência identificada no gráfico deu-se, na realidade, três dias antes (três e meio, para o caso usei o meio dia contra o meu argumento), isto é, a 25 de Janeiro.

Como, por outro lado, o gráfico é de incidência por data de sintomas, significa que temos de andar cinco dias (em média) para trás, para saber quando ocorreram os contágios que dão origem a esta incidência.

Ou seja, os contágios que deram origem à evolução conhecida, nomeadamente à alteração de tendência identificada (pela incidência acumulada de sete dias, não centrada) a 22, 24 e 28, ocorrem a 14, 16 e 20, isto é, sem qualquer possibilidade de se relacionarem com um fecho de escolas na Sexta 22 (seguido de umas eleições no Domingo 24).

De resto, se houvesse uma relação clara entre abertura de escolas e evolução do R(t), o normal seria estar toda a gente à procura das escolas que abriram a 12 de Fevereiro, onde é evidente uma nova alteração de tendência, agora no sentido da subida, com as escolas fechadas.

Activistas mascarados de cientistas, jornalistas que não verificam factos, deputados que olham mais para a percepção pública que para o bem comum é uma receita infalível para empobrecermos alegremente e, o que é mais difícil de engolir, cavar maiores diferenças sociais num país tão desigual e em que o elevador social passa a vida na manutenção.

Salvar a Pátria

por João Távora, em 24.02.21

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O retorno à ribalta política de Pedro Passos Coelho como salvador da pátria é um assunto recorrente no debate à direita que reflecte bem a profunda crise que atravessa, com clara dificuldade de renovar-se com novos protagonistas, mas principalmente de assumir bandeiras que entusiasmem um eleitorado tendencialmente resignado – e assustado. Esse sebastianismo também espelha uma falta de autoridade e reconhecimento público das elites políticas envelhecidas que há décadas circulam desgastadas pelos corredores do poder e seus vasos comunicantes: há muito que o serviço público vem deixando de atrair os melhores, seja pela fraca remuneração duma carreira política, mas principalmente por causa do desprestigio em que esses cargos decaíram. Evidentemente que há excepções que só confirmam a regra, e percebe-se a veneração que Passos Coelho suscita numa direita inconformada com a decadência permanente dos indicadores económicos e o desprestígio das instituições do país.

Mas o seu tempo na ribalta política passou: se Passos Coelho foi o salvador da Pátria e o sucesso no resgate do País se deveu à sua heróica resistência, por esse motivo conquistou demasiados inimigos e preconceitos, e suspeito que será sempre uma personalidade desgastada pelos anos de chumbo que lhe alienaram o centro político.
Para mais, se não queremos somar aos já muitos problemas do país um choque geracional a prazo, parece-me urgente a promoção de novos actores no espaço público partidário, urge rejuvenescer as lideranças, que tragam um discurso renovado e mais afoito para denunciar os nossos vícios velhos e inspirar alguma esperança no futuro. A tralha ferrugenta que se pavoneia em comentários nas televisões são o espelho duma decadência que urge inverter.

Também é por isso que deposito altas expectativas em Francisco Rodrigues dos Santos que gostava de ver mais vezes no espaço público, para que sem complexos se dedique a uma agenda de valores conservadores e liberais, que tanta falta fazem ao equilíbrio dum debate político que se queira estimulante. Bandeiras não hão-de faltar a uma direita rejuvenescida que conseguisse emergir do pântano moral, político e económico em que estamos todos atolados.

Porquê?

por henrique pereira dos santos, em 24.02.21

"Em entrevista à RTP, António Lacerda Sales falou na importância do número de camas de enfermaria ocupadas com doentes Covid, que deve ser inferior a 1500, o número de camas em Unidades de Cuidados Intensivos, que deve ser inferior a 200, e, por fim, uma incidência cumulativa a 14 dias que deve ser de 60 casos, o que significa 400 a 428 casos por dia".

Do ponto de vista do Governo (e de grande parte da sociedade) a sociedade deve organizar-se para obter uma determinada pressão sobre os serviços de saúde, em vez de se organizarem os serviços de saúde para garantir o apoio adequado à sociedade.

Mas ainda que se faça essa opção, por que razão se devem escolher estes limites em detrimento de outros?

Durante semanas a fio de incidência relativamente baixa, por exemplo, durante todo o Verão, a questão não eram os números verificados, mas as tendências, agora que as tendências são todas no mesmo sentido, isso já não interessa, o que interessa são os números e, note-se, não os números relevantes da epidemia, mas sim os números relevantes para a gestão dos serviços de saúde.

Repare-se que a incidência referida nunca existiu desde o início de Setembro. A pergunta, legítima, é se se tenciona manter um confinamento, com escolas fechadas, até ao Verão.

Acresce que se se calcula a incidência acumulada a 14 dias, contando com os treze dias antes da data, então significa que haverá um atraso dos números em relação à realidade, o que quer dizer que o governo e os especialistas acham que abrir uma semana mais cedo ou mais tarde as escolas é irrelevante, pode perder-se uma semana de aulas pelo mero artifício estatístico de usar uma incidência acumulada a 14 dias, em vez de usar os dados do relatório semanal de incidência e transmissibilidade.

Do mesmo modo, o número de internamentos considerado fundamental nunca existiu desde o fim de Outubro, e o número de camas de cuidados intensivos consideradas fundamentais nunca foi atingido desde 20 de Outubro, ou seja, passámos todo o Outono e Inverno, até agora, sem problemas de maior com os níveis de pressão dos serviços de saúde acima do que se pretende ter agora, com excepção de Janeiro.

Mas porque em Janeiro, por razões que podemos discutir, mas razões indiscutivelmente excepcionais, houve uma pressão excepcional, passamos a achar que a sociedade não pode funcionar, que a vida de milhares de pessoas pode ser condicionada, para que os serviços de saúde funcionem com limites de ocupação que os responsáveis pela sua gestão acham confortáveis.

E acham confortáveis por razões que consideram não ter de explicar convenientemente, em especial, demonstrando a ponderação de ganhos e perdas globais para a sociedade da definição desses limites.

Isto não é governar, é simplesmente gerir o medo da facção que ocupa o poder tem de perder as eleições seguintes.

Serviço

por João Távora, em 23.02.21

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(...) É inequívoco que a Monarquia tem procurado adaptar-se às novas circunstâncias – para permanecer relevante e útil a uma sociedade em que muitos procuram mostrá-la como desajustada.
O Príncipe de Gales tem sido o líder desse objectivo de modernização e de adaptação à nova realidade, como qualquer análise séria e descomprometida permitirá verificar. Tem-no feito, contudo, sem evitar os temas difíceis.
A utilidade que procurou dar ao lugar que ocupa foi a resposta a um certo vazio funcional da sua posição. Sem fazer sombra à Soberana, procurar servir o povo britânico e cumprir a divisa que acompanha o seu título: Ich dien (Eu sirvo). Maquiavel ficaria desiludido.

A ler o artigo completo aqui

A segunda derivada

por henrique pereira dos santos, em 23.02.21

A informação sobre a epidemia a que a generalidade da imprensa tem dado importância prende-se com a pressão sobre o sistema de saúde e com as previsões de um conjunto de matemáticos.

Confesso que quando vejo pessoas responsáveis dizer que as escolas não podem abrir porque ainda há muita gente em cuidados intensivos me assaltam duas perplexidades essenciais.

Uma prende-se com o absurdo de se entender que é legítimo fechar o acesso a um serviço essencial, como é a educação, para resolver as fragilidades de outro serviço essencial, como é a prestação de cuidados de saúde, sem que se ponderem adequadamente os prejuízos e benefícios de cada opção.

Uma coisa é os serviços de saúde entrarem em colapso, deixando de ser capazes de prestar assistência aos doentes, que é uma situação limite.

Outra coisa é os gestores dos serviços de saúde decidirem que só se sentem confortáveis com 200 ou trezentas camas de cuidados intensivos ocupadas com doentes covid e, consequentemente, acharem normal ter toda a sociedade, em especial as escolas, fechadas para se atingir um número de ocupação de camas que é unilateralmente definido pelos gestores dos sistemas de saúde.

A facilidade com que se propagou a ideia de que é a sociedade que tem de se organizar para proteger os serviços de saúde, em vez de serem os serviços de saúde a organizarem-se para proteger a sociedade é, para mim, um mistério insondável.

Para evitar situações limite na saúde talvez seja razoável bloquear o acesso à educação de milhares de alunos. Para dar conforto aos serviços de saúde, francamente, tenham juízo.

A outra perplexidade prende-se com a confiança que se deposita em modelos de previsão que, dia após dia, demonstram a sua inutilidade, dado o desfasamento entre as previsões e a realidade (quer por defeito, quer por excesso, isso é irrelevante, qualquer das duas situações demonstram que a modelação feita não reflecte a realidade do processo que está a tentar modelar).

Um bom exemplo é a insistência que agora se faz no excesso de pressão que ainda existe sobre o sistema de saúde: os contágios caíram, os casos diminuíram fortemente, e evidente que os internamentos e a mortalidade irão diminuir de acordo com o que se passou nos contágios. Se ainda há muita gente em cuidados intensivos, é porque a doença tem uma evolução lenta e o desfasamento entre contágio e alta dos cuidados intensivos pode ir facilmente às três ou quatro semanas (ou mais).

Seria normal os modeladores estarem agora a dizer que realmente não faz sentido nenhum estar a prejudicar milhares de alunos à espera de uma descida de internamentos que ocorrerá de qualquer maneira nos próximos dias.

Infelizmente, uma boa parte dos modeladores, deixaram há muito de funcionar como investigadores e são meros activistas.

Por isso, quando confrontados, dizem que quem os contesta não sabe de matemática, não consegue apreender bem o que significa um processo ser exponencial (esquecendo-se que depende do valor do exponencial ser um processo lento ou rápido) e não estão a ver bem a coisa porque têm dificuldade em compreender integralmente o efeito da evolução da segunda derivada.

Meus caros matemáticos, muito antes de haver matemática, muito antes de haver segundas derivadas, já as pessoas comuns sabiam perfeitamente o efeito de uma aceleração progressivamente maior ou progressivamente menor, escusam de se esconder atrás de uma suposta sofisticação matemática para fugir à discussão substancial do que está em causa.

E o que está em causa, neste momento, é uma evolução muito favorável da epidemia e um custo desproporcionalmente alto do fecho de escolas, que não tem qualquer justificação substancial.

Amanhã a tendência pode inverter-se?

Sim, pode, as probabilidades não vão nesse sentido, mas sim, pode inverter-se a tendência.

Se a positividade dos testes desatar a subir, se aumentar o factor de contágio, se a base de casos subir de forma relevante, então discutimos outra vez confinamentos e fecho de escolas.

Mas agora, na actual situação, por favor, tenham juízo e deixem de se esconder na vossa superioridade intelectual que pretende que é preciso ter um doutoramento em matemática para saber o que é uma segunda derivada e façam lá umas contas de deve e haver, pondo de um lado os custos e os riscos sanitários, e do outro, os custos de oportunidade de manter as escolas e a economia fechados.

E deixem de ser activistas da estratégia covid zero que ninguém vos elegeu para tomar decisões pelos outros. 

Um contador de histórias

por henrique pereira dos santos, em 22.02.21

Já aqui tenho elogiado a abertura e a cordialidade de Carlos Antunes, elogios que mantenho.

Mas de há uns tempos para cá, apercebi-me de uma outra característica da forma de estar no espaço público: quando são feitas perguntas, igualmente cordiais, fundamentadas e dirigidas a aspectos em que manifestamente o seu discurso colide com a realidade, em especial dirigidas ao esclarecimento dos enormes desvios das suas previsões em relação ao posteriormente verificado, Carlos Antunes simplesmente não responde.

Penso que hoje finalmente percebi: Carlos Antunes é um contador de histórias, a nós cabe-nos o honroso papel de ouvintes educados.

A 20 de Janeiro de 2021, no Diário de Notícias, Carlos Antunes conta uma história claríssima.

"Carlos Antunes começa por referir ao DN que "ninguém pode dizer com certezas o que vai ou não acontecer daqui para a frente", mas o que se vê nesta altura é que a própria realidade se está a antecipar aos modelos matemáticos."

Como qualquer bom contador de histórias, Carlos Antunes previne os seus ouvintes de que a história que vão ouvir é extraordinária mas só poderá ocorrer em condições que estão para lá do nosso controlo. No fundo, o mesmo que escrevia aqui Manuel Carmo Gomes sobre o tipo de modelos matemáticos usados por Carlos Antunes: " embora as previsões a curto prazo da modelação estatística sejam úteis, revelaram-se pouco fiáveis para prever o médio-longo prazo".

Mas Carlos Antunes vai muito mais longe e soma dramatismo ao dramatismo, demonstrando que a fiabilidade, mesmo a curto prazo, faz parte do carácter fantástico da história, como se pode ver.

"Os cenários que temos agora traçados poderão ser ultrapassados daqui a quatro ou cinco semanas com a nova variante. Os especialistas não têm duvida de que se irá tornar dominante em relação à que já circula, e se agora não estamos a conseguir dominar o contágio, nessa altura vamos ter muito mais dificuldade, pois é sabido que a velocidade com que se propaga é muito maior".

Pois bem, que novas histórias conta o mesmo Carlos Antunes quatro semanas depois desta previsão, sobre a qual não havia dúvidas nenhumas?

Ao mesmo Diário de Notícias, agora no dia 20 de Fevereiro: ""os dados são extraordinários". "... o que a evidência nos mostra é que ... "Não foram só dois milhões de estudantes que foram para casa, foram também os pais e muitos outros profissionais." E, ao fim de um mês de confinamento, "todas as estimativas mudaram".

Note-se esta maestria narrativa, quantos de nós nos apercebemos imediatamente deste golpe retórico genial, inspirado nos desenhos de Escher, em que as escadas descem para cima: são os factos que influenciam as estimativas e não as estimativas que os precedem.

Não se pense que foi um golpe de génio pontual, corresponde a um domínio fabuloso das técnicas narrativas: "o problema são as UCI, cujos números demoram mais tempo" a voltar a este patamar ... Carlos Antunes adverte que "qualquer desconfinamento vai dar espaço à nova variante e essa nova variante tem a capacidade de aumentar os números rapidamente.""

Embrulha, Garcia Marquez, pensavas que eras o mestre do realismo fantástico mas isso é só porque desconheces Carlos Antunes.

O que tem a ocupação das UCI com confinamentos? Nada, evidentemente, os confinamentos, a ter algum efeito, é sobre os contágios e os números de hoje nas UCI resultam de contágios há um mês atrás, portanto os tais "números extraordinários" vão chegar aos internamentos e UCI dentro de dias, porque são uma função directa de números de casos que já ocorreram e cuja evolução conhecemos. Sim, mas e a variante? Aqui, como  no Reino Unido, tem coincidido com descidas brutais de casos. Não é que não seja mais contagiosa, é apenas que outros factores mais relevantes estão a actuar sobre a evolução da epidemia.

De resto, seria útil que algum matemático se dedicasse a avaliar o efeito de aumento de casos pela nova variante em contraponto com o efeito de contenção de aumento de casos resultante da progressiva imunização da população (mesmo sem vacinas), ou do aumento de ultra-violetas, ou da normalização meteorológica.

Mas como diz Carlos Antunes, e muito bem, a 20 de Janeiro, quando previa o que previa: "Quem não tem visão não tem e mostra que ainda não aprendeu ao fim deste tempo todo o que é uma pandemia".

Ou como diz hoje, sobre matérias em que um matemático (já sei que é um engenheiro geográfico especialista em geodesia, isso não interessa nada, também Art Garfunkel tem um mestrado em matemática e ninguém discute a sua falta de graus académicos em música) tem uma especial preparação e capacitação: "os números de internamentos pré-Natal "devem ser atingidos nesta semana" e nas unidades de cuidados intensivos "no início de Março", segundo Carlos Antunes, que diz que "enquanto não se desanuviar a pressão hospitalar, tudo o que é outra actividade clínica não covid fica compromentido". Isto numa altura em que o "burnout dos profissionais de saúde não aguenta uma quarta vaga". 

E são estas histórias da carochinha que vão ser hoje contadas na reunião do Infarmed, como fundamento para manter as escolas fechadas.

Sporting Clube da Portugalidade

por João Távora, em 21.02.21

Sporting.jpeg

O Sporting ontem na vitória dois-zero sobre o Portimonense jogou com Nuno Mendes, Tiago Tomás  e Gonçalo Inácio (todos com menos de 20 anos) no onze inicial, além de Palhinha e João Mário também portugueses da formação. No onze estavam outros dois: Pedro Gonçalves e Nuno Santos. Como suplentes e oriundos da academia de Alcochete entraram como suplentes Joavane, Daniel Bragança (até temos um Bragança) e Matheus Nunes. Um enorme contraste com os adversários e 13 pontos de avanço sobre o segundo lugar. O caminho para o título faz-se passo a passo.

Domingo

por João Távora, em 21.02.21

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Naquele tempo, o Espírito Santo impeliu Jesus para o deserto. Jesus esteve no deserto quarenta dias e era tentado por Satanás. Vivia com os animais selvagens e os Anjos serviam-n’O. Depois de João ter sido preso, Jesus partiu para a Galileia e começou a pregar o Evangelho, dizendo: «Cumpriu-se o tempo e está próximo o reino de Deus. Arrependei-vos e acreditai no Evangelho».

Palavra da salvação.

Comentário: “O Senhor Jesus Cristo era tentado pelo demónio no deserto. Mas em Cristo também tu eras tentado, porque Ele tomou sobre Si a tua condição humana, para te dar a salvação; para Si tomou as tuas tentações, para te dar a sua vitória” (S. Agostinho). A vitória de Jesus sobre Satanás proclamada neste primeiro Domingo da Quaresma anuncia desde já o triunfo pascal da sua Morte e Ressurreição, e oferece-nos, ao mesmo tempo, a participação nessa sua vitória sobre o pecado e a morte.

O vencedor ganha tudo, perde a sociedade

por Jose Miguel Roque Martins, em 21.02.21

Um dos grandes problemas económicos da atualidade,  são os monopólios naturais do novo mundo digital.

Quem experimenta o Google, nem morto quer voltar para o Yahoo. Há concorrência, há liberdade de outras empresas entrarem no mercado, mas simplesmente não é possível competir. Não porque os custos de infraestrutura sejam imensos, como nos monopólios naturais do passado, mas porque a acumulação de informação do vencedor não é possível de alcançar. E a informação é tudo no mundo digital. Tanto mais que nem o preço ( serviços sem preço aparente) pode compensar a diferença de serviço. Há outros browsers com expressão, como o Edge , Firefox, Safari , Opera e outros. Mas o Google tem mais de 50% do mercado.

Este fenómeno, em menor escala, também acontece nas redes sociais, nas vendas online e em aplicações. É transversal ao mundo digital. È um novo mundo dificil de entender e de regular. 

Como resultado, temos hoje um nível de concorrência muito inferior ao passado e sobretudo ao desejável. Monopólio não rima com  ótimo social,  é exatamente o oposto dos mercados livres que o promovem. Outro problema de maior gravidade, a possibilidade de usar informação colhida pelos seus utilizadores de formas pouco éticas e socialmente úteis, é uma questão á parte, ainda mais complexa, que nem vou aflorar neste post.

A consciência de que se tem que corrigir esta situação é evidente para todos há mais de uma década. Mas nada, com exceção de uma multas ocasionais, tem sido feito.

Ainda não se sabe como lidar com o problema. “Partir” uma Google não é solução aparente. Estamos muito melhor com ela do que sem ela.

Novas soluções terão que ser adoptadas. A obrigação de vender “informação” acumulada e algoritmos a novos concorrentes, poderá ser um caminho. Que também não anula o valor que acrescentou a biliões de consumidores.

Eventualmente ineficaz, sem a imposição de mecanismos que permitam que esses novos motores de busca sejam consultados e acabem por se afirmar ( estamos todos habituados ao Google.....) .

A solução Chinesa, bloquear  o Google , só permite que um novo monopólio ( regional) se afirme.

Não é fácil resolver este problema. Mas é necessário.

Porque quando o vencedor ganha tudo, perde a sociedade.

Mamadou - Simões

por Vasco Mina, em 20.02.21

Li e reli o artigo de opinião do deputado do PS Ascenso Simões ontem publicado no ”Público”. Estamos, há muito, habituados a alguns excessos de linguagem deste deputado (incidente com um agente da PSP, “Os parentes de figuras públicas só podem ser pedintes“, acusação a Paulo Rangel de ser uma “cabeça doente”, etc). Desta vez foi bem mais destravado e, qual Mamadou Ba perante a escultura do Padre António Vieira, defendeu que “o Padrão, num país respeitável, devia ter sido destruído”. O Padrão dos Descobrimentos, claro está! Inacreditável o que vai no pensamento deste homem! Mas não ficou por aqui, aliás, começou assim o artigo : “O 25 de abril de 1974 não foi uma revolução, foi uma festa. Devia ter havido sangue, devia ter havido mortos, devíamos ter determinado bem as fronteiras para se fazer um novo país. Construímos Abril com a bonomia que nos produz há séculos, um ser e não ser que sempre concebeu o nosso profundo atraso, uma marca histórica que não nos abriu ao risco e ao radicalismo que provoca o progresso.” Nada desta verborreia foi escrita com aspas ou em itálico; ou seja, não foi em ironia nem em linguagem simbólica. Não, não foi um ligeiro excesso pois um texto destes é bem premeditado.

Mas quem mandaria matar o deputado Ascenso Simões que em Abril de 74 teria 11 anos de idade? Sendo deputado na AR e tendo até assumido (obviamente na governação Sócrates) cargos governamentais (em três Secretarias de Estado distintas) as suas afirmações deveriam ser de nível superior e não ao nível das de Mamadou Ba. É que este pode bem dizer o que entende pois é inimputável mas um deputado tem de responder perante os seus pares e perante o povo que o elegeu. Corre muita alergia política em relação ao Chega e ao radicalismo de extrema direita no discurso do André Ventura sendo, frequentemente, acusado de racista. A própria candidata presidencial Ana Gomes avançou com um pedido à Procuradoria-Geral da República para que haja uma reavaliação da legalidade do partido Chega. A ver vamos qual a postura que vai ter com o seu camarada e apoiante eleitoral Ascenso Simões. É que ao nível do discurso político radical, o líder do Chega, ao lado deste deputado socialista, não passa de um menino de coro!

Marcelino da Mata, o inconveniente

por João-Afonso Machado, em 20.02.21

Se não estou em erro, a biografia do tenente-coronel Marcelino da Mata nunca foi escrita. Sabemos bocados avulsos da sua extraordinária vida de combatente na Guerra Colonial, do lado das forças do Exército português. Parece, actuou muitas vezes à margem das tropas convencionais, não brincava em serviço e matou tantos quantos (os desaparecidos filhos das famílias da Metrópole que sofriam a angústia do seu destino...) lhe apareciam pela frente, opondo-se às suas operações militares. Foi o mais condecorado dos nossos militares... Porque Marcelino da Mata, nascido na Guiné e negro, embora, português se considerava. Tinha esse direito! Marcelino combateu pela sua Nação.

Apenas o racismo de Esquerda o condena - por ser negro, - como não condena todos os militares, aderentes à III República, que igualmente se bateram em África. Desses se diz - foram uns bravos, uns sacrificados... Principiemos essa longa lista nos oficiais generais (Spínola, Costa Gomes, Rosa Coutinho...) e prossigamos até aos soldaditos sobre quem chovia o choro das suas mães, nas nossas aldeias. Mas Marcelino era negro - logo, havia de ter matado brancos.

Marcelino da Mata é tema actual, como se sabe. O Bloco de Esquerda está lá para tanto. Além de outros. Só agora, por isso, conheceremos a sua biografia, que será da autoria de um Rosas qualquer.

Não importa. Escreveu Bernard Shaw, «biógrafo que não ornamente a nossa biografia com farta quantidade de mentiras agradáveis - é um rancoroso e pérfido caluniador».

Ora, para a Esquerda, a agradável mentira seria uma África pintada a preto e branco, como no jogo das damas. E não era assim, o português de então nunca foi racista. A Esquerda, maldizendo o oficial Marcelino, só o enaltecerá.

A Uber foi um fenómeno de sucesso. Com base numa plataforma digital, veio lançar um novo conceito de negócios. Que se impôs, até agora.Uma empresa organiza a informação e canaliza a procura. Empreendedores ligam-se á empresa, e satisfazem essa procura. Repartindo depois os benefícios decorrentes. O mercado livre por excelência.

O sucesso tem consequências. Os modelos antigos de negocio nas mesmas áreas, são fortemente afectados. Como competir com regulação apertada e uma estrutura laboral clássica, com a eficiência, flexibilidade e fome de quem não tem a sorte de ter um emprego? As licenças administrativas de operar um Táxi, caem a pique. As rendas excessivas implodem: uma licença administrativa para operar um taxi gera rendas exessivas. 

Os consumidores rejubilam, com mais oferta, melhor serviço e preços mais baixos.

Há duvidas sobre a equidade da repartição de proveitos entre a Uber e os seus prestadores. Dois factos são uma verdade. Ninguém aponta uma arma para que ninguém trabalhe para a Uber. Sinal de que estão melhores com ela do que sem ela. O modelo é gerador de riqueza e surgem novos operadores, prontos a disputar esses prestadores e “regular” possíveis lucros anormais de quem iniciou o negocio. Inexoravelmente, os lucros “excessivos” vão ser transferidos para os consumidores e para os prestadores. Chegando-se ao ótimo social.

Destroi-se o modelo ineficiente do passado, porque indevidamente regulado. Cria-se riqueza, pela liberdade concedida aos agentes económicos.

Eis senão quando, o supremo tribunal do Reino Unido, decide que os prestadores de serviço são afinal trabalhadores da Uber, devendo ser enquadrados nas regras trabalhistas comuns. Movimento que vai alastrar-se por toda a Europa ( mas não nos EUA, em que se assiste a decisões opostas).

O que acontece?

Para a maior parte dos prestadores de serviço da Uber, a decisão corresponde a um aumento de vencimentos e a uma estabilidade dos seus rendimentos. Subsidio de férias, férias e subsidio de natal, entre outros.

O pequeno problema é que serão menos aqueles que vão trabalhar: o equilíbrio de mercado, pela subida inevitável do preço do serviço, vai corresponder a uma menor quantidade de trabalho. Os consumidores, para um nível maior de preço, vão querer menos produto e vão pagar mais por aquilo que tinham.

Os instalados, os que passam a trabalhadores da Uber, ficam melhor. A sociedade fica pior. E os prestadores que ficam sem trabalho ficam muito pior.  

O conceito destrói-se e perde-se a riqueza que criou.

Porque então destruir riqueza que é tão difícil de criar? Por simples dogmatismo transcrito para a legislação.

Existindo a necessidade de complementar o rendimento dos prestadores da Uber, por ser abaixo do que socialmente se considera desejável, com um imposto de rendimentos negativo, deveria ser esse o caminho seguido. Assumia-se a política social, não se perderia a possibilidade de criar riqueza. E , no final, todos ficariam melhor do que com a decisão tomada.  Necessariamente o valor dos impostos negativos é menor do que a falta de produção dos que ficam desempregados e na diminuição dos beneficios ao consumidor. No final o modelo Uber, baseado no mercado livre, continuaria a criar riqueza para a sociedade.

É verdade que não estamos a falar de uma revolução no PIB de nenhum País. Mas a soma destas pequenas ineficiências que se introduzem em quase todos os mercados e industrias,  todas somadas, representam valores astronómicos. E que explicam porque os Europeus vivem pior do que os Americanos. E porque são os Estados Unidos a ter que erigir muros para não serem “invadidos “por pessoas  ( inclusivamente Europeus) que procuram uma vida melhor.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


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