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Ministros irresponsáveis

por Vasco Mina, em 16.01.21

António Costa, no anúncio das novas medidas para o confinamento que se iniciou ontem, assumiu, como sempre, que o problema está nas pessoas e que o Governo mais não faz do que reparar os efeitos da irresponsabilidade da população. Em concreto afirmou que “já todos compreendemos qual é a mecânica de transmissão da pandemia, que quanto mais nos deslocarmos, quanto mais juntos estivermos, mais se transmite a pandemia. Quanto menos nos deslocarmos, quanto menos juntos estivermos, menos transmitimos a pandemia. Portanto, se todos fizéssemos isto de forma espontânea seguramente não estaríamos aqui hoje a dar este passo.”Ora soubemos hoje que o Ministro das Finanças se encontra infetado e que também, há dois dias, tinha ficado infetada a Ministra do Trabalho e da Segurança Social, Ana Mendes Godinho. Ou seja, dois irresponsáveis ministros que não souberam, espontaneamente, estar isolados nem estar quietos em casa. É caso para perguntar: “Sr. Primeiro Ministro, já multou os seus ministros?”

Os "lábios" e as eleições

por João-Afonso Machado, em 16.01.21

Seja-me permitido falar em beiços. Beiças, beiçolas. "Lábios" é um termo que me passa ao lado, a não ser literariamente e só em especiais ocasiões. Portanto, traduzido por miúdos, os beiços da inocultável candidata Marisa, entendeu o nosso Portugalito, foram ofendidos por dizeres do adversário Ventura.

A história é a mesma, sempre. O que a carga politicamente correcta já despejou sobre Ventura, no meu meu ponto de vista, confere-lhe o direito de ripostar. Ou não estivéssemos elegendo um personagem que, por acaso, será - apenas - o Chefe de Estado! Enfim, questões que me passam ao lado, na exacta medida em que vivo fora desse Estado, respeitando somente a velha Nação - a nossa alma, a nossa essência, nós próprios, feitos da nossa História.

Ainda assim, sinto vergonha. E medo sentiria - se fosse pessoa de medos. Os "lábios" da candidata da extrema-esquerda elevados ao cume da perseguição "fascista"? Por amor de Deus!

Ocorre-me Mário de Sá-Carneiro, que adapto - Um pouco mais de vermelho - eu era além/Para atingir faltou-me um golpe de asa/Se ao menos eu permanecesse um pin... 

Um pintaínho, é claro. Debaixo da asa poderosa da mãe-galinha. Mas, entre nós, esta será mais uma provocação. Porque a Nação continua poluída pelos seus pretensos progenitores esquerdinos.

Entretanto, Tino de Rans coerente e em boa forma. E eu daqui mando os meus respeitos a Mayan, um homem sóbrio e convicto, cheio de pachorra para esta estopada.

E que a rusga siga.

Complexos de direita

por Jose Miguel Roque Martins, em 16.01.21

Nos EUA, de acordo com um estudo, a policia intervêm com uma probabilidade 3 vezes maiores contra manifestantes de esquerda do que de direita. Se assim for, e não houver um padrão de violência diferente entre estes grupos, então está profundamente errado. E por isso é noticia.

Um estudo de opinião sobre a violência dos media, dos agentes políticos sobre a direita em Portugal, nunca foi feito, pelo menos que eu saiba. Mas os números seriam certamente arrebatadores, denunciando a perseguição a que tudo que possa cheirar a direita é alvo em Portugal. O exemplo recente do Chega, quando existe um PCP e um Bloco de esquerda que passam incólumes aos seus extremismos, é apenas o ultimo episódio de uma longa saga e viés persecutório da direita em Portugal. Mas aqui, estas perseguições não são estudadas nem são noticia. O que é difamação ou discurso de ódio quando proferido pela direita, é o direito à indignação, quando proferido pela esquerda. A doutrina de protecção ás minorias, quando se trata da direita, simplesmente não existe. Apenas temos a expressão do ilegítimo direito de quem tem a força para oprimir.

Os complexos de esquerda, têm condicionado a nossa vida social, com os resultados que conhecemos, e agredido os cidadãos que não são de esquerda.

Eis senão quando, há uma reacção da direita, cansada de ser o saco de pancada de serviço. O sucesso de Ventura, é o rosto visível desse movimento.

O problema é que, agora, essa reacção, fez nascer os complexos de direita. Em que se defende o indefensável, apenas porque não é de esquerda. Exactamente o que acontecia quase exclusivamente à esquerda. Não só não nos livramos dos complexos de esquerda, como parece que ganhamos uns novos, os de direita.

Talvez consiga explicar-me melhor com um exemplo simples. Na direita, sempre existiu uma profunda e justificada indignação, quando desprezíveis ditadores , ditos de esquerda, como Fidel Castro, Maduro,  e tantos outros, são desculpados, aplaudidos e até condecorados. Agora, outro energúmeno, Trump, apenas porque se proclama de direita, é defendido exactamente por aqueles que condenaram justamente o mesmo tipo de políticos desprezíveis e indesejáveis, ditos de esquerda.

Estou farto de complexos. Melhor seria que o justo e a verdade sejam sempre o padrão. E que os dogmatismos, que tanto nos prejudicam, sejam erradicados.

Os 25% e a retratação

por henrique pereira dos santos, em 16.01.21

Pelos vistos explico-me muito mal.

Fiz um post sobre as previsões catastróficas sobre o pós Natal em que dizia uma coisa simples: se os casos aumentassem 25%, isso invalidava a teoria de que os contactos do Natal eram um grande problema.

Mais tarde, porque me perguntaram porquê 25%, eu expliquei e dei o exemplo do thanksgiving americano (que, já agora, volta a verificar-se no Natal, a prometida explosão de casos ficou abaixo dos 25%).

O post era um post com um princípio relativamente simples: haver uma correlação entre uma coisa e outra não demonstra grande coisa, mas não haver essa correlação, invalida a hipótese de que as duas coisas estão relacionadas.

O que se verificou foi que houve uma correlação entre o Natal e um aumento de casos até 15 de Janeiro, portanto a hipótese que eu assumi como invalidando a relação entre as duas coisas não se verificou, portanto é legítimo continuar a usar essa correlação como indício de que as duas coisas estão relacionadas (na verdade não é bem assim porque a subida de casos começa ali por 26 a 27, o que significa que a subida de contágios começa antes do Natal, mas deixemos essa discussão de lado).

Não há necessidade de retratação nenhuma porque em lado nenhum eu considerei (e seria estúpido considerar) que dizer que se não houver correlação, a hipótese é invalidada quer dizer que se houver correlação eu considero a hipótese demonstrada.

Eu continuo a achar que olhar para este gráfico (que é válido para a Europa temperada e Estados Unidos) e concluir que as principais forças que comandam a evolução da epidemia estão relacionadas com os contactos entre as pessoas e não com as condições ambientais que favorecem a actividade viral parece-me absurdo.

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Foi assim que tivemos o primeiro governo, desde 1975, que jamais enfrentou uma manifestação, nem paredes pintadas a mandá-lo embora. À direita, a crise e a tentação de colaborar é a mesma. Nunca a direita valeu tão pouco, nem mesmo em 1975. O PSD desespera do futuro do seu aparelho autárquico. O CDS foi arruinado pela facção que o dirigiu até ao ano passado. As fragilidades são tão grandes, que nem foram capazes de resistir à manobra socialista para, aproveitando a participação do Chega na nova maioria açoriana, tornar uma derrota dos socialistas num “problema” — da direita.

A ler a crónica de Rui Ramos desta semana no Observador

Até ao dia

por Jose Miguel Roque Martins, em 15.01.21

 

O caso do procurador Português na Europa é apenas mais um caso de um processo em curso: a tomada de poder do Estado na Justiça. Já tínhamos antes os estranhos acontecimentos que envolveram a não recondução de um procurador geral da república independente e por todos elogiados. Depois de muitos episódios, no mínimo, suspeitos nos critérios de independência de muitos outros no passado.

Não se estranha, por isso, que os jornalistas sejam agora ilegalmente vigiados. É apenas mais um passo. O poder só é útil se for usado, de acordo com as  conveniências do regime.

A falta de separação de poderes e ilegalidades flagrantes, são justamente criticada na Polónia e na Hungria.  Aqui, num regime democrático e num Estado de direito, pelo menos teoricamente, aparentemente essas questões não têm qualquer importância.

Até ao dia.

Cristalino

por henrique pereira dos santos, em 15.01.21

"Resta uma só solução: levar o confinamento muito a sério. ... Relativizar o perigo é exponenciá-lo. Virar-lhe as costas, por fadiga ou impaciência, por descrença nos políticos ou por dúvidas sobre as prescrições dos especialistas, é fugir à responsabilidade. Ficar em casa é mais do que uma opção individual, é um acto político, ... um gesto de resistência em favor do bem comum. Num momento dramático como este, é dever do Público alertar para a calamidade que vivemos e apelar a esse esforço colectivo indispensável para a vencer."

Obrigado Manuel Carvalho.

Raramente se encontra um director de jornal a explicar tão claramente que entende que o compromisso fundamental com os seus leitores não é produzir informação tão factual, objectiva e independente quanto possível, deixando à sociedade as opções quanto às consequências daí decorrentes, mas sim condicionar os seus leitores para adoptar opções politicas que o jornal entende que materializam o bem comum.

Nem nos orgãos oficiais de partidos e instituições é normal ser tão claro quanto aos objectivos pretendidos pelo jornal.

Francamente obrigado pela transparência e pela coragem de avisar os seus leitores de que o que lerem no jornal não é a descrição tão objectiva quanto possível da realidade, mas sim a materialização de uma agenda política que aconselha a calar o escrutínio sobre os políticos ou as prescrições sociais dos especialistas que o jornal escolher como porta-vozes do bem comum.

Tempo de trevas

por João Távora, em 14.01.21

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Das regras de confinamento ontem decretadas pelo governo, a melhor das excepções é sem dúvida a liberdade dada aos nossos jovens e crianças de frequentarem os seus estabelecimentos de ensino. Parecia-me pouco realista e até bastante insalubre do ponto de vista mental fechá-los em casa, restringidos a aulas e contactos sociais virtuais em espaços confinados – é contra natura. Depois, há um equívoco que urge desmontar: as aulas virtuais são um potenciador das desigualdades, que não apenas as económicas. Prejudicam profundamente os miúdos menos expansivos social e intelectualmente, que carecem de acompanhamento e estímulos mais exigentes. 
Sempre aqui manifestei as minhas dúvidas quanto ao real impacto dos diversos pacotes de restrições que ao longo de quase onze meses nos vêm sendo aplicadas à experiência. A ideia com que fico é que a dinâmica da epidemia lhes é em grande medida indiferente, mas como é bom de ver, esta é uma perspectiva tabu, maldita até - chamem-me "negacionista". Por isso pressinto nas inúmeras excepções que nos são concedidas neste Estado de Emergência uma certa cedência a essa tese: perdida a batalha da economia num panorama global de profunda depressão, o que as "autoridades" pretendem é manter a ilusão de que nos estão a proteger, que têm um plano e uma estratégia científica de limitação de danos da pandemia, e que ao fim do dia o seu sucesso dependerá do sentido de responsabilidade de cada um e não de um vírus extremamente contagioso. Para tal ilusão contribui o sensacionalismo das notícias em directo das enfermarias (adoptado agora também em repugnantes campanhas de publicidade) em prime-time, a imporem um verdadeiro estado de terror às pessoas indefesas encerradas nas suas casas – e note-se que nem no Verão, quando os números de internamentos e as "vítimas" do Covid19 eram baixos, essa narrativa do terror nos deu tréguas. Acontece que é neste tabuleiro que o regime (lato sensu) joga sua sobrevivência democrática. Para mais, é sabido que depois do medo, é com a culpa a melhor forma de se vergar um indivíduo.
Quase um ano passado deste inferno real e mediático, resta-nos rezar por uma rápida campanha de vacinação. Das chagas das solidões e da pobreza teremos de cuidar depois, quando se forem esvaziando as UCIs e os “especialistas” do Infarmed desocuparem o palco que lhes demos. E isso também não vai ser fácil, porque o poder é das mais funestas tentações.

A água e o fogo

por henrique pereira dos santos, em 14.01.21

Na sequência do meu post anterior, aproveito em primeiro lugar para corrigir a citação que fiz, a pergunta não era sobre as próximas acções mas sobre as próximas fases, o que é uma abordagem mais alargada.

Este novo post resulta de uma pequena troca de comentários, noutro contexto que não este blog, e que acho que me permite ser mais claro do que fui sobre a utilização do fogo enquanto instrumento de gestão do capital natural.

Em primeiro lugar gostaria de esclarecer um mal entendido que, pelos vistos, terá existido: ao falar dos efeitos do ensombramento do giestal denso não pretendia fazer uma declaração contra o ensombramento, estava apenas a constatar que aquele ensombramento em concreto tem um efeito concreto.

O ensombramento tem um efeito geral que é o de diminuir a produtividade primária, isto é, diminuir a velocidade de crescimento das plantas porque intercepta a luz, diminuindo a actividade fotossintética e, consequentemente, a captação de energia e, consequentemente, a actividade fisiológica da planta e, consequentemente, a criação de novos tecidos. O que, bem entendido, não quer dizer que não beneficie muitas espécies que exactamente se especializaram em explorar nichos ecológicos caracterizados por menor luminosidade.

Ao ensombramento também se aplica o célebre princípio que Paracelso estabeleceu na química: a diferença entre o remédio e o veneno está na dose.

Uma coisa é ter um ensombramento de um giestal muito denso, de folha perene e com copados a um ou dois metros do chão, outra coisa é o ensombramento de um carvalhal maduro dominado por espécies caducifólias e com copados a quatro ou cinco metros do chão.

Sabendo nós que a generalidade dos nossos matos são dominados por plantas heliófilas, isto é, que gostam do Sol, parece claro que aumentar o ensombramento acima do copado dos arbustos é uma maneira eficiente de fazer controlo de matos.

Por essa razão, a Montis, quando faz plantações, faz plantações muito densas, com árvores de metro a metro, com o objectivo de obter ensombramentos relevantes no mínimo tempo possível. As árvores, individualmente, teriam com certeza melhores desenvolvimentos com compassos mais alargados, é aliás por isso que nas matas de produção ninguém usa compassos com árvores de metro a metro, mas como os objectivos da Montis não são de optimização da produção de valores de mercado, mas de optimização de valores de biodiversidade - o que implica aumentar a diversidade e o mosaico de nichos ecológicos - as plantações podem ser feitas com algum prejuízo do crescimento das árvores se, em troca, houver, mais rapidamente, alguns bosquetes que fazem ensombramentos relevantes. Dessa forma limita-se a competitividade das plantas heliófilas dominantes, criando oportunidades melhores para a concorrência, de maneira geral mais rara.

A questão que se levanta, depois de esclarecido este ponto, é a de saber se os efeitos de bloqueio da sucessão ecológica associado ao fogo recorrente não é mais negativo que "esperar pelo fogo", como também se advogava na troca de argumentos sobre o post anterior.

O resultado não é o de desproteger o solo, aumentar a secura, destruir o horizonte biológico do solo, aumentar a susceptibilidade à erosão, destruir toda a fauna, etc.?

Não seria preferível plantar "água por todos os cantos úteis que a morfologia nos dê. Rete[r] essa água com raízes e sombra das plantas que ... com essa água se fazem grandes ... Recuperamos e recriamos linhas de água nas valadas e criamos aceiros nas cumeadas, sem mato, com cereal que suporte ainda as linhas arbóreas bombeiras que ali se plantam. Acrescentamos biodiversidade, nas plantas do estrato arbóreo ao herbáceo, nos fungos micorrízos e nos decompositores, nos microorganismos efectivos, nos habitats que trazem as avibrigadas e parasitóides pesticidas, os propagadores, os fertilizantes herbicidas. E todos os pedaços de matos, sem sombras, que não temos capacidade de plantar e gerir, deixamos a fazerem o seu serviço de babyssiting a novas árvores, que em anos posteriores iremos libertando na lei da roça. Isto cria mosaicos onde chegando o fogo, com centenas de projecões hora, irá queimar as ilhas de matos e parar nas ilhas arbóreas, que são podadas para crescer e têm um sorgo verde e que se corta com enorme facilidade, criando um importante mulch para o verão. ... [é que] eu não consigo gerar espontaneamente água, nem vento, nem terra" (ao contrário do que acontece com o fogo, interpreto eu).

Todo este comentário é interessantíssimo e parte de um preconceito largamente difundido e profundamente arreigado: o de que o fogo é o resultado de uma acção, de maneira geral humana, não sendo da mesma natureza que os outros elementos naturais, a água, o vento e a terra.

A verdade é que não é assim, Paulo Fernandes fez uma síntese admirável que responde a este preconceito: o fogo, muito antes de ser um instrumento nas mãos dos humanos, é um processo ecológico fundamental para a esmagadora maioria dos ecossistemas terrestres.

É muito interessante como acima se descreve uma pesadíssima e caríssima - no sentido mais geral de consumo de recursos, mas também do estrito ponto de vista financeiro - manipulação da água e da terra, ao mesmo tempo que se recusa aplicar os mesmos princípios à manipulação do fogo.

Na base desta recusa, para além do preconceito já referido sobre a natureza do fogo, há um claro défice de conhecimento sobre a ecologia do fogo, muito bem expresso pela ideia de que é igual fazer um fogo em condições escolhidas ou "esperar pelo fogo".

Milhares de anos de conhecimento tradicional no uso do fogo têm sido desprezados a favor de uma série de teorias new age, com alguns pontos interessantes, mas profundamente erradas sobre o fogo como processo ecológico.

Um fogo de baixa intensidade, isto é, que ocorre em condições de humidade do solo, humidade atmosférica, temperatura e vento escolhidas para controlar os seus efeitos não tem o mesmo efeito que um fogo pelo qual se espera e que, provavelmente, vai ocorrer em condições meteorológicas extremas, isto é, com índices de secura do solo e da atmosfera mínimos e com ventos fortes, ou seja, em condições que maximizam a sua intensidade.

Um fogo muito intenso é um fogo que irradia muita energia e, ao mesmo tempo, um horizonte orgânico do solo como baixo teor de humidade é um horizonte orgânico que precisa de menos energia para carbonizar ou arder, ou seja, enquanto num fogo de baixa intensidade, isto é, que irradia menos energia, que ocorre em condições de humidade de solo elevadas, não há sequer afectação do solo, nem sequer aquece, num fogo de elevada intensidade toda a matéria orgânica presente, mesmo em alguma profundidade, desaparece ou é fortemente afectada, incluindo toda a vida associada a esse solo.

E o que é verdade para o solo é verdade para toda a biodiversidade: as tais árvores bombeiras - termo inventado como piada por Paulo Fernandes e que é usado de forma séria por muita gente -, que até podem comportar-se de forma diferente de outras num fogo de baixa intensidade, não servem para rigorosamente nada em fogos de elevada intensidade, ardem como o resto (as partes da planta mais finas, os troncos com mais de dez centímetros de diâmetro raramente ardem, mesmo em fogos muito intensos com elevada severidade).

Argumentar que se segue a ordem natural, esperando pelo fogo, é razoável quando se está disposto a pagar o preço da perturbação provocada pelos fogos de Verão de elevada intensidade, incluindo a destruição do horizonte orgânico do solo - e eu defendo essa opção de gestão em algumas circunstâncias - mas como opção regenerativa de sistemas naturais profundamente degradados, é uma opção ineficiente e com pouco valor social.

Um fogo controlado cujo resultado, no próprio momento do fim do fogo, é o que mostra esta fotografia da parcela queimada na Terça-feira, também o dia em que a fotografia foi tirada, criando diversidade e abrindo oportunidades de gestão, que incluem a possibilidade de salvaguardar do fogo pequenos núcleos cujo desenvolvimento poderia ser mais prejudicado que beneficiado pelo fogo, como técnica regenerativa do capital natural, é incomparavelmente mais eficiente que a descrição idílica transcrita acima e que, em qualquer caso, qualquer gestor consegue ver que não tem aplicabilidade em terras marginais como esta.

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Claro que era melhor poder dispor de mais técnicas, em especial a integração dos animais neste proceso de reconstrução do capital natural, como se pode ver no projecto notável da Terra Maronesa, mas isso depende da possibilidade de dispor de recursos estáveis que permitam manter um rebanho, o que ainda não foi possível.

Manipular o fogo é tão útil como manipular a água ou a terra (o ar é mais difícil, pelo menos em larga escala) e igualmente legítimo, podendo as diferentes técnicas "iluminar-se mutuamente" para  criar paisagens mais equilibradas, com maior diversidade biológica e com melhores oportunidades para os grandes mamíferos selvagens que podem substituir parte das funções ecológicas que hoje conseguimos obter a partir do gado ou do fogo.

O que implica, naturalmente, saber mais e persistir na procura da "longa experiência com honesto estudo misturado" que é a base das boas decisões que podemos fazer na gestão do nosso território.

Trump está acabado.

por Jose Miguel Roque Martins, em 14.01.21

O processo de impeachment em curso, só terá êxito se o partido republicano decidir publicamente livrar-se de Trump. Em termos práticos será irrelevante. 

De qualquer forma, os incidentes do Capitólio, que provocaram 5 mortos, deitou por terra a estratégia definida por Trump para se manter politicamente relevante na política dos EUA.

Com antecedência, o ainda presidente dos EUA, foi lançando as bases para se manter como o líder do partido republicano. Durante meses  foi desacreditando o voto por correspondência e lançando as duvidas sobre a legitimidade do processo eleitoral. Depois da derrota, enquanto lutava para tentar o impossível, subverter os resultados das urnas, apresentou-se como vitima de uma fraude. Tentando criar o mito de que era invencível, mobilizando os mais extremados como seu exercito pessoal, garantindo que o partido republicano tivesse receio de perder apoio junto dos seus apoiantes indefectíveis. Uma candidatura autónoma e rival à apoiada oficialmente pelo partido, seria o suficiente para garantir a derrota Republicana nas próximas eleições.

Cinco mortes depois, tudo ruiu. Para os seus apoiantes moderados, as alegações de que não tinha incentivado à violência, são insuficientes. Para os apoiantes extremistas, foi demais. O corte de apoios financeiros a membros do congresso e senado, a ele ligados, foi a gota de água.

Aconteça o que acontecer, Trump está acabado.

 

Vacina?! Esperem confinados

por José Mendonça da Cruz, em 13.01.21

«Há agora a esperança de saber que há uma vacina», disse Costa, ao anunciar novo confinamento.

Notem: a esperança é a de «saber que há», e não a de ser-se vacinado. Porque a campanha de vacinação padece dos males das organizações à socialista: vai correr devagar e mal.

Costa é muitas vezes acusado, de forma bastante razoável, de ter sérios problemas gramaticais e de pronúncia com a língua portuguesa. Não desta vez. Quando Costa diz que «há a esperança de saber que há uma vacina» quer dizer isso mesmo, e está a ser rigoroso: a vacinação virá quando vier, e será vacinado quem calhar quando calhar onde for possível e se houver; resta, pois, «a esperança de saber que há uma vacina».

Mas é claro que o Polígrafo se encarniçará contra a regra de três simples que corre nas «redes sociais»: com o número de vacinados no período decorrido estaremos todos vacinados daqui a 7 anos.

 

P.S. ... e diz alguma coisa sobre a «informação» que temos que os «jornalistas» presentes tenham perguntado sobre cabeleireiros, e cóltura, e transportes públicos, mas nenhum sobre a vacinação.

Do nosso mais populista Governo de sempre

por João-Afonso Machado, em 13.01.21

Eis confirmado um novo confinamento geral.

Bom era os portugueses pensassem porquê, e fizessem as devidas comparações entre o de agora, e o bebé de há um ano atrás.

Melhor seria os políticos reflectissem sobre o mesmo. Embora seja pouco de acreditar: nas bossas de Costa e Cabrita cabe um mundo inteiro de (ir)responsabilidades, por acção ou por omissão, mas não frio ou calor saharaniano que lhes tire o sono.

Foi tudo a correr. Eu próprio, advogado provinciano, tendo um julgamento (na quinta sessão da audiência) agendado para amanhã, 14, em Lisboa, à cautela, ignorando as medidas a serem tomadas, requeri o seu adiamento para evitar uma deslocação inútil. O Senhor Juiz - titular de um orgão de soberania, mas não envolvido na política, - deferiu. A coisa demorará mais umas semanas...

Será o que já foi, com algumas nuances. A principal - as escolas manter-se-ão abertas. O Governo preocupado com os discentes, com o Ensino? É cego quem acreditar nisso - o Governo, simplesmente, preocupado com os pais que, em casa ou na oficina, têm de trabalhar. E, por isso, toca a despachar a miudagem que os tolheria. Ou então, efabulando a rapaziada mais velha, namoriscando na praceta e a trazer, de seguida, o vírus para o lar.

Aliás, assim não projectou nem programou o populista Costa na quadra natalícia. Assim borrou a pintura em sucessivos fins de semana, pensando que o vírus vinha à rua só depois das 13 horas, deixando o caminho livre para as multidões às compras. E assim continua a sacrificar portugueses, mandando fechar o comércio de bairro, em vez das grandes superfícies. As tais que muito devem contribuir fiscalmente para manter o Estado.

Aguardemos, pois, - salve-se quem puder! - os resultados das sempre atrasadas medidas do nosso mais populista Governo de sempre: o de Costa Geringonça.

"E agora plantam árvores, é?"

por henrique pereira dos santos, em 13.01.21

Ontem estive, como curioso, que eu não sou técnico de fogo controlado, numa queima de vinte hectares do baldio de Carvalhais, São Pedro do Sul, que estão integrados nos cerca de cem hectares que a Montis gere nesse baldio.

Ao longo do dia fui usando alguns videos e fotografias para ilustrar o que é uma queima controlada, como evolui e que efeitos podem ser observados, um dos quais um video sobre o chão em que o fogo tinha passado há dez minutos, mostrando algum musgo razoavelmente verde e a evidência de que num fogo de baixa intensidade o solo não arde, e minutos depois de passado o fogo, o chão está frio.

A razão para ter feito esse video, e o ter publicado, é porque há muita gente que tem objecções ao uso do fogo controlado com base na ideia, errada, de que todos os fogos tem impactos no solo, o que está longe de ser verdade: dependendo a energia libertada pelo fogo, e das condições de humidade no solo, os efeitos podem ser substancialmente diferentes.

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Essa fotografia que Paulo Fernandes usou há minutos num comentário sobre efeitos dos fogos é uma boa ilustração do que acima foi dito: esta área, na serra da Freita, ardeu em 2016 (uns milhares de hectares ardidos) e à esquerda do tracejado está uma área que tinha sido tratada com fogo controlado algum tempo antes do fogo do Verão de 2016, e à direita uma área que não tinha sido objecto de fogo controlado.

Os efeitos do grande fogo de 2016 são evidentemente diferentes, e prendem-se com o facto do fogo controlado ter removido parte dos combustíveis (para além de outras coisas) o que diminuiu a intensidade do fogo (a energia que irradia) e, consequentemente, a sua severidade (o efeito na vegetação).

O título deste post é um comentário feito ao tal video que usei ontem "E agora, plantam árvores, é? Quais são as próximas acções?", querendo perguntar-se que acções subsequentes à queima de ontem pretende a Montis fazer na área ardida de ontem.

A pergunta é muito interessante porque, na verdade, pressupõe - involuntariamente, suponho - que queimar só faz sentido para se fazer alguma coisa melhor depois.

Esse pressuposto faz algum sentido, mas na verdade a acção de queimar uma área pode não pressupor a criação de condições para outras acções, mais positivas, a queima é, em si, uma intervenção de gestão de ecossistemas que, em muitas circunstâncias, é positiva por si só.

Na tal área de baldio estava a ocorrer uma evolução de sistemas frequente na paisagem portuguesa.

A área terá sido, nos últimos cinco mil anos (enfim, não se tome esta frase à letra, as coisas foram andando com altos e baixos) a reserva de fertilidade e a origem de água de rega das terras agrícolas mais abaixo, o que significa que terá sido explorado através de um modelo tradicional de pastoreio e fogo.

Com o abandono rural - e a descoberta da síntese da amónia que permitiu criar fertilidade nas fábricas de adubos do Barreiro em vez de se depender da extracção de nutrientes destas encostas com recurso aos animais - a gestão destas áreas foi abandonada (depois de um período intermédio de florestação), os matos foram-se acumulando e os fogos passaram de fogos de baixa intensidade, em mosaico e frequentes, para fogos menos frequentes, de maior intensidade e intensidade. (De forma mais extensa, desenvolvo estas ideias aqui)

Naquelas encostas a giesta está especialmente bem adaptada, e o resultado visível são hectares e hectares de giestal denso e contínuo que arde periodicamente com intervalos de 10 a 15 anos. No muito longo prazo, esta evolução iria caminhar no sentido de carvalhais maduros, de forma bastante lenta porque sendo verdade que os nutrientes que estão nos tecidos das plantas irão, a prazo, ser parcialmente incorporados no solo, também é verdade que o processo natural de crescimento, lenhificação, morte e decomposição das giestas é muitissimo lento e o ensombramento que o giestal cria impede o desenvolvimento de vegetação junto ao solo.

Ao queimar com maior frequência, com menor intensidade e em condições meteorológicas e de humidade do solo que permitem a não afectação do solo e da matéria orgânica nos solos, o que se está a fazer é manipular o processo de crescimento e reposição da fertilidade descrito acima, criando um atalho.

O fogo, que é bom não esquecer que é um processo ecológico presente na esmagadora maioria dos ecossistemas terrestres muito antes de haver pessoas, permite quebrar as cadeias químicas complexas que formam os tecidos complexos das plantas, disponibilizado nutrientes directamente utilizáveis pelas plantas em muito menos tempo que através do processo que estava a ocorrer.

Ao fazer isso e, ao mesmo tempo, remover o ensombramente que impede o crescimento das plantas abaixo do copado das giestas, o que se está a fazer é acelerar o processo de recuperação do solo e dos sistemas naturais, o que pode ser bastante melhorado com a introdução de animais.

Isto é, mesmo que não fossem feitas acções posteriores à queima - e também são feitas, nomeadamente de retenção do solo - a queima não seria uma acção negativa que permitia acções positivas, seria uma acção positiva de gestão de sistemas em si mesma.

Como em muitos outros assuntos, temos dificuldade em admitir que somos muito pequeninos, podemos, "com longa experiência e honesto estudo" influenciar os processos naturais, mas na verdade podemos muito menos do que pensamos e a evolução de processos naturais depende muito menos das nossas opções do que pensamos.

O corolário desta ideia é a de que as intervenções radicais para compormos o mundo são geralmente ineficazes e, infelizmente, aqui e ali, com muito mais efeitos negativos que positivos.

Diagnostico  certo conclusões erradas

por Jose Miguel Roque Martins, em 12.01.21

Em Portugal, na economia, na pandemia, no funcionamento das instituições políticas,  a avaliação do Estado parece óbvia. É patente que o Estado e as suas instituições apresentam uma pungente incapacidade na transparência, no planeamento, na qualidade das decisões, na antecipação de problemas, ou em qualquer outro aspecto relevante que  impacta a nossa vida em sociedade.

As consequências que se retiram deste diagnostico, que será até partilhado pela maioria dos Portugueses,  é que serão menos pacíficas.

Em vez de melhor Estado, melhores líderes e melhores praticas e organização, como sempre, vamos chegar à conclusão colectiva que o problema é falta de meios. Mais impostos, mais carga fiscal, mais confusão é o que nos arriscamos a ter num futuro próximo. Qualquer bolo tem que ter a sua cereja! 

 

"Ele gosta de falências"

por henrique pereira dos santos, em 11.01.21

Não tenho visto muitos debates das presidenciais, uns porque começo a ver e são mesmo chatos e sem qualquer interesse, outros porque não tenho interesse no que dizem as pessoas que participam e, talvez o mais importante, a minha decisão de voto está tomada há bastante, salvo circunstâncias supervenientes excepcionais, como dizem sempre os juristas.

Mas vi alguns, um ou outro porque tinha especial interesse em ouvir (o último entre Marisa Matias e Tiago Mayan), outros por puro entretenimento, como o debate entre Marisa Matias e André Ventura.

Já nas eleições passadas eu achei que Marisa Matias era muito fraquinha, razão pela qual achei que não ia ter mais de 5% dos votos, no que me enganei redondamente porque teve o dobro. Mas sempre achei que era uma pessoa de trato fácil e razoavelmente decente na argumentação.

Vi muitos comentários sobre a sua prestação frente a Ventura, em que levou um arraso monumental, argumentando que realmente a luta na lama não era o forte de Marisa e lhe tinha corrido mal o deixar-se arrastar para o tipo de debate em que Ventura tem mais vantagem.

Logo quando vi o debate fiquei de pé atrás com esta justificação para o desastre (desastre relativo, num debate entre Marisa Matias e Ventura nenhum dos dois ganha ou perde votos significativos porque os respectivos eleitorados potenciais gostarão do estilo e do desempenho dos dois) porque na verdade quem começou à pedrada com matérias politicamente marginais foi mesmo Maria Matias e não foi só por reacção que o pé frequentemente lhe fugiu para a chinela, foi por opção e iniciativa própria.

Dando de barato a minha parcialidade no debate Maria Matias/ Tiago Mayan (não tinha grande impressão do pouco que tinha vista de Tiago Mayan, um perfeito desconhecido para mim no momento em que tomei a decisão de votar nele, não por ser ele, mas por representar a defesa de um Portugal mais liberal, e por isso até tencionava evitar ouvi-lo ou lê-lo para não correr o risco de mudar o voto, impressão que entretanto mudou), é impressionante a incapacidade política de Marisa Matias, o seu esquematismo intelectual e a inacreditável argumentação de que Mayan não serve porque não defende as políticas que Marisa Matias definiu como devendo ser as políticas de um liberal.

Até aqui, é como o outro, é mais ou menos o padrão dos dirigentes do Bloco de Esquerda que não só definem para si próprios, legitimamente, o que acham que são políticas que a esquerda radical deve defender, como pretendem definir o que são as políticas que definem um liberal, usando como padrão a caricatura que fazem do liberalismo.

O que verdadeiramente me espantou foi a quantidade de caneladas retóricas, a quantidade de vezes em que o pé de Marisa pretendeu fugir para chinela, procurando levar Tiago Mayan para a lama - suponho que medicinal, ao contrário da lama de Ventura - com argumentos da treta, como dizer que Tiago Mayan gosta de falências e muitas outras coisas do mesmo tipo. Pretender que defender uma "ADSE para todos", a mera expressão retórica de uma opção política clara, é o mesmo que defender que todas as pessoas em Portugal deveriam ser funcionários públicos  é de gente chalupa (eu não percebo, não percebo mesmo, como raio alguém acha que isto é argumento político eficaz no debate em causa, quando ainda por cima não resultou da dinâmica do debate, era um argumento evidentemente preparado).

Ao ponto de Marisa Matias se entreter a ler o programa da Iniciativa Liberal, truncando-o para deixar de fora a frase que contrariava o que pretendia dizer (Tiago Mayan não estava suficientemente preparado para responder com a mera indicação de que continuasse a ler, mas isso acontece).

Meus caros, a diferença entre a qualidade política do discurso de Marisa Matias e de André Ventura é muito pequena, isso só não se nota mais pela complacência com que as maiores barbaridades, insultos, mentiras e afins em que o Bloco é useiro e vezeiro, são recebidas pela generalidade das pessoas e, em especial, pelas redacções dos jornais.

Marisa Matias dizer que todos os países da Europa têm companhias aéreas de bandeira e não se ouvir uma sonora gargalhada nas redacções dos jornais, diz muito sobre a qualidade do jornalismo e sobre nós.

Domingo

por João Távora, em 10.01.21

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos


Naquele tempo, João começou a pregar, dizendo: «Vai chegar depois de mim quem é mais forte do que eu, diante do qual eu não sou digno de me inclinar para desatar as correias das suas sandálias. Eu baptizo na água, mas Ele baptizar-vos-á no Espírito Santo». Sucedeu que, naqueles dias, Jesus veio de Nazaré da Galileia e foi baptizado por João no rio Jordão. Ao subir da água, viu os céus rasgarem-se e o Espírito, como uma pomba, descer sobre Ele. E dos céus ouviu-se uma voz: «Tu és o meu Filho muito amado, em Ti pus toda a minha complacência».


Palavra da salvação.

Presidenciais

por João Távora, em 09.01.21

Vale o que vale, não voto em nenhum, mas se quiserem saber, eu até teria muito gosto receber o Marcelo Rebelo de Sousa a jantar cá em casa com os meus filhos à mesa, talheres de prata e tudo. A Ana Gomes jamais concederia tal privilégio, assim como a André Ventura. Esses nem com loiça de plástico. Estando os miúdos na cama e com explicito acordo da minha mulher (não lhe perguntei) talvez concedesse esse privilégio a Tiago Mayan e a Marisa Matias. De resto, os Duques de Bragança sabem bem como a minha humilde casa será sempre a sua casa com enorme honra e sem qualquer reserva.
Simplificando, se somos todos portugueses e essa for a Causa, para mim é tudo uma questão de boa educação.

Cumpram o dever: votem e não vão ao supermercado

por João-Afonso Machado, em 09.01.21

Pediram-me hoje um texto para uma publicação monárquica sobre as próximas eleições presidenciais. Que hei eu de dizer?, pergunto-me.

Assisti a algums debates. Observei a complacência dos mui sabedores frente a frente com os mais simples. Assisti a peixeiradas que envergonham. E ao contorcionismo dos políticos no se afã de caçar votos. Ouvi uma candidata dizer que nunca empossaria um Governo chefiado pelo seu opositor - e lembrei Pablo Iglesias, em Espanha... Senti beijocas de outros pretendentes que estavam ali por obrigação cronológica. Cansei-me de tolices proclamadas... Apercebi-me de ideias menos más tentadas ser expostas com uma absoluta ausência do dom da palavra. Conclui, a maior parte da tropa concorrente, nem à mesa do jantar saberá estar.

Acrescentar o quê e para quê? Só talvez que, em nome de uma eleição, à partida com o resultado definido, muito provavelmente crescerão os graves números da pandemia. A Constituição da República obriga a ficar em casa - em confinamento - mas não oferece soluções para quem tem dificuldades em votar. E votar é um dever, não há Constituição que o adie ou o permita cumprir em segurança.

Mais umas semanas enroladinhos em casa, hem?!

por João Távora, em 09.01.21

"A força política para que isso [confinamento] aconteça é muito grande. Basta ler os jornais que há dois dias pedem que tudo se feche. E esta é também uma forma de acalmar o medo que se foi instalando. Mas a eficácia do confinamento é muito baixa (...) A eficácia para evitar as mortes é muito baixa. E a mim o que me preocupa é evitar que as pessoas morram."

Como sabem não tenho qualquer interesse em votar nas eleições presidenciais, mas detesto que me fechem em casa. Façam o favor de ler esta entrevista Jorge Torgal, professor catedrático de Medicina, ao jornal Público.

Perplexidade

por henrique pereira dos santos, em 08.01.21

"The rate or speed of transmission of viral infections depends on factors that include population density, the number of susceptible individuals, (i.e., those not immune), the quality of healthcare and the weather."

Isto não é sofisticação científica, é a wikipedia a falar de actividade viral.

"Numerous viruses can cause upper respiratory tract infections. They often precede serious lower respiratory tract infections. Each virus has a seasonal pattern, with peaks in activity in different seasons. We examined the effects of daily local meteorological data (temperature, relative humidity, “humidity-range” and dew point) from Edinburgh, Scotland on the seasonal variations in viral transmission. We identified the seasonality of rhinovirus, adenovirus, influenza A and B viruses, human parainfluenza viruses 1–3 (HPIV), respiratory syncytial virus (RSV) and human metapneumovirus (HMPV) from the 52060 respiratory samples tested between 2009 and 2015 and then confirmed the same by a generalised linear model. We also investigated the relationship between meteorological factors and viral seasonality. Non-enveloped viruses were present throughout the year. Following logistic regression adenovirus, influenza viruses A, B, RSV and HMPV preferred low temperatures; RSV and influenza A virus preferred a narrow “humidity-range” and HPIV type 3 preferred the season with lower humidity. A change (i.e. increase or decrease) in specific meteorological factors is associated with an increase in activity of specific viruses at certain times of the year."

Isto é o resumo de um relatório científico de 30 de Janeiro de 2019 (Price, R.H.M., Graham, C. & Ramalingam, S. Association between viral seasonality and meteorological factors. Sci Rep 9, 929 (2019). https://doi.org/10.1038/s41598-018-37481-y), imediatamente antes do vendaval irracional que se abateu sobre a discussão da evolução da actividade viral, ligando-a exclusivamente a contactos entre hospedeiros potenciais dos vírus.

Era no tempo em que, naturalmente, se escrevia: "upper respiratory tract infection (URTI) ... are mostly self-limiting but can progress to lower respiratory tract infections (LRTI) particularly in those with underlying conditions", ou que "Most respiratory viral infections have seasonality. In temperate regions, URTI increase in frequency in autumn and spring, and remain raised through winter. Three theories have been put forward to explain viral seasonality. 1: The effect of climatic conditions on host resistance to infection (low vitamin D levels following lack of sun exposure can affect our ability to fight infection). 2: The effect of meteorological factors (e.g. temperature, humidity) on virus survival and hence on infection rates. 3: The effect of behavioural changes on transmission (e.g. spending more time indoors in close proximity to others or aggregation of susceptible children at schools during the colder months)".

Sem surpresa, os autores conseguem estabelecer padrões de incidência dos diferentes tipos de vírus respiratórios em função de condições ambientais, por exemplo, em bonecos como este.

41598_2018_37481_Fig4_HTML.jpg

Generalised Linear Models.The generalised linear models were performed to demonstrate the seasonality of each virus. Using temperature as a comparison meteorological factor, the highest point in the waveform for each virus is the time of year where they are most active in the population 4a: Enveloped viruses in the winter. RSV – 17th of December, IAV – 12th of January, IBV – 8th of February; HMPV – 11th of March 4b: Non-enveloped viruses. Adenovirus – 5th of March, Rhinovirus – 6th of November; 4c: Human parainfluenza viruses. HPIV-1–31st of October, HPIV-2–15th of November, HPIV-3–4th of May.

O relatório é todo ele interessante, relativamente fácil de ler e não tenho intenção de o reproduzir aqui, bastando-me finalizar com esta citação: "meteorological factors like temperature, humidity and “humidity-range” have a significant effect on the incidence of the causative agents of the common cold and changes in meteorological factors could potentially predict the decline of one virus and the emergence of the next."

O que na verdade motiva este post é uma pergunta simples: se o conhecimento estabelecido em Janeiro de 2019 sobre a sazonalidade da actividade viral era mais ou menos este, como é que, de repente, um monte de gente desatou a explicar subidas e descidas de actividade viral apenas (sublinho este apenas) com base no contacto humano?

Como é absolutamente claro, há muitos anos, a evolução temporal de uma infecção, consequentemente, a probabilidade de se ser infectado, depende de dois factores essenciais: o nível da actividade viral e a densidade de contactos entre potenciais hospedeiros.

Ao longo de um ano, a densidade de contactos entre potenciais hospedeiros é razoavelmente constante, pelo que são as variações da actividade viral, fortemente influenciadas pelos factores ambientais, que verdadeiramente comandam a sazonalidade das infecções respiratórias.

Algumas mentes brilhantes resolveram, como o José Mário Branco, que se todo o mundo é composto de mudança, o melhor era trocar-lhe as voltas que ainda o dia era uma criança, e decidiram que se alterássemos profundamente os contactos entre pessoas, passávamos nós a comandar a dinâmica das infecções.

Agora, como os aprendizes de feiticeiro que descobrem, tarde demais, que afinal o mundo é muito mais complexo do que imaginam, inventam mitos para justificar a evidente falta de resultados positivos decorrentes das opções que determinaram.

É por isso que, contra toda a evidência factual, insistem que o aumento de uma doença respiratória em Janeiro se deve à falha moral de celebrar o Natal e não ao facto, prosaico, de que neste Janeiro as condições ambientais parecem favorecer, em Portugal, a actividade viral associada à covid.

Espero que não se esqueçam de que Malagrida, que atribuía o terramoto de 1755 a uma falha moral da sociedade, foi garrotado e queimado, mimetizando o justo catigo de Sodoma e Gomorra, igualmente destruídas por causa das falhas morais dos seus habitantes.


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