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Onde estás tu APV que não vens salvar a TAP?

por José Mendonça da Cruz, em 30.11.20

Aguardamos ansiosamente a próxima carta aberta de António Pedro Vasconcelos sobre o que deve ser feito na TAP, que, como ele e o ministro dos desastres estruturais queriam, já não é do «Neeleman e seus comparsas» nem d`«o privado», é dele e do Nuno Santos e do Costa. Os 3000 futuros desempregados, os 500 pilotos que vão para a rua, e os pagadores dos 4 mil milhões que lá vão ser enterrados (para começo) também estão desdejosos de os ouvir.

A redação da tvi deu hoje no jornal das 20 horas a grande notícia estruturante do abaixamento do Iva, e com ele do preço da eletricidade para as tarifas mais baixas. A poupança é de 1,5 euros mensais, informou, sem rir, a tvi. (Por falta de um comentário de José Alberto Carvalho ou de um socialista -- perdoe-se a tautologia -- os 1,5 por mês não passaram a ser mais de 160 euros anuais). 

Como elemento probatório de que não lhe resta pinga de brio ou seriedade, a redação da tvi ilustrou a peça sobre poupanças nas potências mais baixas com imagens de placas cerâmicas, máquinas de lavar, frigoríficos americanos e ares condicionados.

Seguiram-se peças sobre o bullying contra Cristina Ferreira, e o que a tvi entende como humor na forma de pais natais com máscara cirúrgica -- e julgo que para a tvi o pai natal é aquele senhor que nasceu em 25 de dezembro. 

Já não vi as notícias sobre o pezinho partido ou o cãozinho resgatado de Joe Biden. Nem sobre fogos na Amazónia, que hão de chegar logo que a redacção da tvi descobrir que agora no Brasil é Verão.

Fado da pobreza

por Jose Miguel Roque Martins, em 30.11.20

Em Portugal, estamos sempre tão absorvidos pelo ultimo escândalo, pela discussão da ultima medida absurda, que nos esquecemos do essencial. Às vezes até se lançam programas elaborados e complexos, para finalmente chegarmos a uma realidade mais feliz. De nada serve se, como acontece, o nosso problema é de natureza estrutural. Com pressupostos que estão errados, mesmo que tivermos a sorte de contar com bons planos e execução, nada resiste. E os objectivos vão ficando por cumprir.

É fácil chegar à conclusão que estamos muito pior do podíamos. O que acontece provavelmente há mais de 500 anos. A nossa situação não é, assim, o resultado das ultimas políticas e medidas do ultimo governo. É a manutenção e persistência de políticas erradas, assumidas e escolhidas, que nos condenam a um atraso crónico.

Ao longo desses séculos, fomos uma monarquia e república, tivemos muitos regimes políticos e fomos da esquerda à direita.

Com excepção do período das descobertas, Portugal sempre foi um País atrasado, olhando pasmado e invejoso para o progresso dos países europeus mais avançados. Crentes na sua superioridade misteriosa que sempre nos humilhou.

Com persistência, aceitamos ou escolhemos, que alguns iluminados, com maior ou menor eficiência, capacidade e honestidade se encarreguem de ditar os caminhos para o nosso desenvolvimento. Achamos até que devemos ser pacientes e aceitar que nem os objectivos sejam ambiciosos ou atingidos. Acreditamos há séculos que D Sebastião vai regressar numa manhã de nevoeiro e que tudo depende do imprescindível Homem do leme.

A liberdade nunca pareceu ser um valor a perseguir. O medo da liberdade dos outros, sempre nos assustou. E aqui começam os nossos verdadeiros problemas. A incapacidade de abraçarmos uma economia de mercado e um Estado que não seja de um paternalismo extremo. O segredo dos Países, que depois da revolução industrial, se libertaram da pobreza, é simples. Abraçaram o mercado e a liberdade individual.

O que nos separa de um progresso idêntico é apenas essa diferença de filosofia e atitude. Acreditar na liberdade, em nós, e nos outros. Aceitarmos a responsabilidade de procurar as melhores soluções para a nossa vida. Deixarmos ao Estado apenas o que não possa ser feito pelos indivíduos. Procurarmos ser práticos e evitarmos originalidades e termos razão teórica.

Certo é  que estamos a fazer pior do que os outros. Que a economia de mercado é o segredo do desenvolvimento. Que o Estado excessivo, como acontece em Portugal, é um manancial de perda de bem estar estupendo.

Se conseguirmos deixarmos de olhar para árvores, para arbustos e simples plantas, e olharmos para a floresta, será fácil percebermos o fácil que seria escolhermos o progresso. Se tivermos bom senso e pragmatismo. Só somos pobres porque o escolhemos ser.

Dois grandes valores do jornalismo

por José Mendonça da Cruz, em 29.11.20

Duas histórias com alguns anos, sobre dois «grandes valores» do jornalismo que por aí anda.

Durante a campanha eleitoral de 2011, que daria a maioria absoluta ao governo Passos Coelho/Paulo Portas, soube-se, primeiro, que o governo de Sócrates andava a fazer dezenas de nomeações de última hora (que, ao contrário do que era dito, produziam efeito no momento, e não apenas quando publicadas em Diário da República) e, do mesmo passo, a dar instruções para as manter secretas.

Um «jornalista» da Sic, destacado para a campanha do PSD, abordou o tema. Terá ele investigado o caso, questionado as nomeações, perguntado sobre porque eram secretas, ou criticado Sócrates? Não. O «jornalista» disse que «era um caso de campanha», e que «vamos ver quanto tempo dura».

Com um pé na porta de saída, Sócrates contratara 600 funcionários públicos, e dera ordens para que as nomeações não fossem conhecidas. Mas, visto que o foram, pela boca de Passos Coelho, outro «jornalista» da Tvi foi mais longe. Longe, como? Terá ele questionado as nomeações feitas por Sócrates, ou investigado o que se passava? Não. Criticou os adversários de Sócrates e ralhou com a fonte. Disse o «jornalista»  que Passos Coelho faltou à promessa de não fazer uma campanha de escândalos, e que era «um caso de faz o que eu digo não faças o que eu faço».

Agora, uma adivinha: parece-vos ser possível que um ou outro destes «jornalistas» se chamasse Anselmo Crespo ou Bento Rodrigues? E onde estarão, e em que funções, Anselmo Crespo e Bento Rodrigues? E digam-me ainda se o advérbio adequado é este: «Naturalmente!»

Um grande valor do jornalismo

por José Mendonça da Cruz, em 29.11.20

Com a devida e profunda vénia a Alberto Gonçalves e ao Observador, que revelam notícias que a generalidade dos media consideram «não-notícias», no sentido de que são inconvenientes para os serventes, os avençados e os vendidos, transcreve-se a decisão da Comissão da Carteira de Jornalistas que retirou a dita (por «incompatibilidade») a Filipe Santos Costa, por dirigir sob disfarce um podcast de propaganda socialista:

Segundo a CCPJ, o problema da relação entre o jornalista e o PS não está no conceito de assessoria de imprensa e consultoria em comunicação, nos termos tradicionais em que a assessoria é feita, mas «precisamente» no facto de que «o que o PS pretendeu, com este contrato, foi colocar a independência do jornalista ao serviço do partido do governo para credibilizar e valorizar a mensagem político-partidária».

Uma nota final para a formulação: foi o PS «que pretendeu». O «jornalista», esse, a crer na CCPJ, não «pretendia» nada além de uns trocos.

O Natal dos medrosos e 7x3=210

por José Mendonça da Cruz, em 29.11.20

Vejo a intervenção de Paulo Portas na Tvi, com intrusões-prova-de-vida de José Alberto Carvalho, e divirto-me.

Primeiro, ao constatar que por vontade de Portas ou Marcelo toda a gente ficaria encerrada em casa no Natal (não o da árvore ou do Pai Natal das Câmaras jacobinas; nem o da «festa da família» inventada por Afonso Costa para abastardar a data, além do país), o dia da celebração do nascimento de Jesus Cristo. E divirto-me, depois, ao constatar que -- ao contrário deles, e quero lá saber se por oportunismo -- parece que vai ser António Costa a deixar-nos comemorar esta fundamental festa cristã.

O segundo motivo de divertimento, foi o regresso de José Alberto Costa, à contracena com Portas. Quando Portas explicou que o plano alemão de vacinação prevê mais de 3000 vacinações por semana, Carvalho completou com informação utilíssima acrescentando: «Sim, duzentas e tal mil por semana».

As saudades que eu já tinha...

Nova York e Alemanha

por henrique pereira dos santos, em 29.11.20

Não faz muito sentido comparar Nova York, mesmo que seja o estado e não a cidade, com a Alemanha.

Também já terei escrito que não faz muito sentido tratar uniformemente os países, como unidades geográficas base para análise da evolução da epidemia, quando a epidemia tem variações geográficas brutais dentro do mesmo país (o que é tanto mais verdade quanto maior é o país, naturalmente).

Dito isto, no dia em que me aparecer alguém que tenha uma explicação consistente para que tenha morrido muita gente em Nova York, e agora nem por isso, e na Alemanha esteja a morrer mais gente agora que na Primavera, com base na ideia de que é o comportamente dos hospedeiros e potenciais hospedeiros que controlam a evolução da epidemia, eu passo a olhar para essa hipótese com mais atenção.

Até lá, francamente, não vejo por que razão se deve aceitar essa hipótese como auto-evidente se ela é absolutamente incapaz de explicar coisas destas (a menos que alguém demonstre que os novaiorquinos passaram todos a comportar-se com as regras dos conventos carmelitas e os alemães se tenham entregue às raves todos os dias, claro).

Domingo (1º do Advento)

por João Távora, em 29.11.20
 

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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos 

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Acautelai-vos e vigiai, porque não sabeis quando chegará o momento. Será como um homem que partiu de viagem: ao deixar a sua casa, deu plenos poderes aos seus servos, atribuindo a cada um a sua tarefa, e mandou ao porteiro que vigiasse. Vigiai, portanto, visto que não sabeis quando virá o dono da casa: se à tarde, se à meia-noite, se ao cantar do galo, se de manhãzinha; não se dê o caso que, vindo inesperadamente, vos encontre a dormir. O que vos digo a vós, digo-o a todos: Vigiai!». 

Palavra da salvação. 

Vemo-nos daqui a uma semana

por henrique pereira dos santos, em 29.11.20

Ontem reparei em várias referências ao aumento de casos esperados em consequências do dia de acção de graças e da black friday nos Estados Unidos, onde as duas datas têm mais importância, mas também numa série de países europeus.

A que se somam as várias manifestações com bastante gente, seja por causa das medidas de controlo da epidemia, seja por outras razões, como em França.

Vemo-nos então daqui a uma semana, para olhar para as curvas de evolução da epidemia.

Se demonstrarem uma clara ruptura na evolução, podemos contar como um indício de que as medidas não farmacêuticas adoptadas são mesmo fundamentais.

Se não demonstrarem nenhum ruptura relevante (repetindo o que tem acontecido sistematicamente, nunca se consegue ver ruptura nenhuma na evolução das curvas depois de adoptadas medidas, o máximo que se consegue são interpretações criativas de evoluções que podem ter muitos factores em presença) não se demonstra nada, mas é mais um indício de que talvez não seja elementar que aumentar contactos entre potenciais hospedeiros se reflicta necessariamente num aumento da actividade viral.

Salazarismo de esquerda

por João-Afonso Machado, em 28.11.20

Em tempos de pandemia não se brinca - eis o que é um aforismo do presente e do futuro também. A significar, com certeza, contenção nos actos e atitudes: quietinhos, que a saúde pública anda à deriva.

Depois, há um texto imbecil, vulgo Constituição da República (e ainda bem que é dela, e só dela) a assegurar direitos politico-partidários sobrepostos às garantias pessoais. Uma questão que foi polémica, in casu resolvida pelos constitucionalistas da maré.

In hoc casu, é do Congresso do PCP, uma confraternização de 600 camaradas, que resulta num escândalo político contra a sanidade nacional.

Acabo de ler agora, o Comité Central comunista foi reeleito. Vale o mesmo acrescentar, se moções houve, nessa festança, as mesmas foram aprovadas, também em conformidade. E que moções? Ressuscitando Cunhal, a velha parlenga - abreviada - sobre os direitos dos trabalhadores, o salário minimo, a banca por nacionalizar e a aleivosia europeia.

Ou seja, sempre mais do mesmo. Tanta encenação para quê?

Já que somos todos, cada um pelos seus direitos, do ponto de vista epidemológico já só espero, escassos tenham sido os delegados nortenhos. Nós por cá temos vírus que sobre.

Um silêncio pesado e brutal

por João Távora, em 28.11.20

“A 20 de Novembro de 1956, conjuntamente com o poeta e grande amigo Ruy Cinatti Vaz Monteiro Gomes e o advogado e jornalista Francisco de Sousa Tavares, com quem se casara havia dez anos certos — todos católicos e monárquicos ligados ao Centro Nacional de Cultura —, Sophia assinou na primeira página do Diário Popular um veemente “Depoimento” em repúdio frontal à violência soviética contra a revolta libertária húngara, esmagada duas semanas antes, e em resposta ao apelo internacional dos intelectuais daquele país.”

A ler o nosso Vasco Rosa aqui no Observador

Manchester by the sea

por henrique pereira dos santos, em 28.11.20

Um dia destes vi o filme que tem o mesmo título do post (embora me pareça evidente, sei que a evidência é uma coisa muito subjectiva, de maneira que assinalo que escrever a frase assim é uma mera pequena piada irónica, claro que é o post que tem o mesmo título do filme mas convém exercitar sempre a capacidade de não nos levarmos muito a sério).

Trago-o aqui, não por ser um bom filme, que acho que é, mas por causa da cena em que a médica comunica ao doente o diagnóstico de uma doença grave, identificando-a. Claro que o doente não faz a menor ideia do que quer dizer o nome da doença e pede para lhe explicar o que significa esse diagnóstico. É a resposta da médica que me interessa trazer para aqui por ilustrar muito bem um corte epistemológico (este post dá-me um trabalhão por me obrigar a ir à wikipedia verificar se as palavras que uso servem para dizer o que quero) que convém ter em atenção na discussão da epidemia.

Para explicar o que é a doença, a médica cita um conjunto de dados estatísticos (ou seja, descreve as implicações da doença no nível epidemiológico, forçando um bocadinho a definição de epidemiologia) e depois remata dizendo que o doente não é uma estatística, é uma pessoa, portanto nada do que disse antes é determinístico (ou seja, retoma o plano da clínica, em que o caso é mais importante que a estatística).

A necessidade de separar decisões clínicas, isto é, que dizem respeito à pessoa em concreto que está à frente do médico, de decisões de gestão de epidemias, isto é, que dizem respeito às comunidades em que evolui um surto de uma doença, é a principal razão pela qual não é boa ideia ter médicos treinados essencialmente na prática clínica a influenciar excessivamente decisões sobre a gestão da epidemia e, parece-me, um dos maiores problemas sociais que temos enfrentado na gestão desta epidemia.

Para além disso há uma outra zona cinzenta da discussão que é ainda mais difícil de enquadrar de forma socialmente útil, exactamente por ser cinzenta.

"Pelo que leio e pela conversa que tenho com especialistas existe sempre uma relação parasita-hospedeiro que determina a dinâmica das infecções. Até porque é o hospedeiro que transporta e transmite o parasita. Esse dependerá sempre do comportamento do hospedeiro.
(Carlos Antunes)
Elementar, meu caro Watson. Pelo menos numa infecção que se transmite de pessoa a pessoa."

Isto que acabei de citar é um post de uma das minhas irmãs a que convém dar um bocado de contexto antes de procurar fundamentar a minha opinião de que estamos perante um tremendo equívoco. A parte inicial da citação é uma resposta de Carlos Antunes a umas objecções minhas sobre a importância que atribui às medidas não farmacêuticas na evolução da epidemia, discussão na qual levo anos de experiência, não com esta epidemia, mas com a questão das ignições no problema da gestão do fogo.

A afirmação de Carlos Antunes parece auto-evidente, elementar, como diz a minha irmã, mas na verdade é sobretudo uma demonstração de uma abordagem escolástica do problema, que vou procurar decompor.

É inteiramente verdade que é a relação parasita-hospedeiro que determina a dinâmica das infecções. É também verdade que é o hospedeiro que transporta e transmite o parasita. Digamos que estamos no ponto em que dizemos que sem ignições não há fogos e que as ignições resultam dominantemente da actividade humana (nas nossas condições).

O problema está no passo seguinte - o parasita dependerá sempre do hospedeiro - que poderemos descrever como "Portugal sem fogos depende de todos", a base ideológica para uma abordagem de gestão do fogo desastrosa.

Se as coisas fossem realmente assim, a lógica inatacável estaria, com certeza, demonstrada em dezenas de papers com avaliações empíricas da sua validade, usando o clássico modelo da observação, hipótese, experimentação e verificação independente.

O problema é que a experimentação destas hipóteses - a evolução da epidemia depende essencialmente do comportamento do hospedeiro, ou o padrão de fogo depende essencialmente do número de ignições - não só é particularmente difícil, como é contaminado por uma ideia absolutamente lógica mas, infelizmente, pouco demonstrada: a de que qualquer diminuição de contágios ou ignições tem tradução positiva na contenção dos efeitos negativos da epidemia ou do fogo.

Se para a epidemia não existe tempo suficiente para haver um sólido corpo de produção científica que demonstre que não é bem assim, existe para o fogo, e o simples facto de ser tão difícil demonstrar que as medidas não farmacêuticas têm o impacto esperado na evolução da epidemia é um fortíssimo indicador de a hipótese, sendo lógica, provavelmente não ser verdadeira.

Como escrevia há alguns meses alguém, é verdade que se em todo o mundo, ao mesmo tempo, durante quatro semanas, todos os contactos humanos cessassem, a actividade deste vírus desapareceria e, nesse sentido, é verdade que a actividade viral depende do comportamento do hospedeiro.

Só que esta é uma hipótese teórica sem qualquer interesse porque os efeitos negativos desta opção, em mortalidade, seriam várias vezes superiores aos efeitos negativos da doença e porque a sua execução é manifestamente impossível, quanto mais não fosse porque para obrigar toda a gente a ficar em casa seria preciso montar um sistema repressivo que obrigaria outros a sair de casa.

Ou seja, se quisermos sair de um pensamento escolástico, com primazia da lógica e da fé, para uma discussão política, isto é, uma discussão sobre o que é possível fazer na realidade que existe, não podemos dar como adquirido que é possível obter o resultado esperado pela alteração do comportamento do hospedeiro sem discutir os limites dessa opção.

Há um limite teórico que tem sido objecto de discussão: os hospedeiros não são todos iguais e a relação parasita/ hospedeiro não é uniforme, depende das condições externas aos dois que determinam a maior ou menor facilidade do parasita encontrar um novo hospedeiro, depende da susceptibilidade do potencial hospedeiro ao ataque do parasita e depende da forma como cada hospedeiro se relaciona com os potenciais hospedeiros.

Ou seja, tal como no fogo, o contexto e a heterogeneidade são condições contingentes que determinam grande parte da evolução do surto ou do fogo: uma ignição que ocorra hoje é irrelevante, porque não há condições para o desenvolvimento de grandes fogos, tal como um contacto parasita/ potencial hospedeiro pode ser irrelevante se as condições ambientais forem desfavoráveis para a actividade viral ou o potencial hospedeiro for pouco susceptível ou ainda se, sendo muito susceptível e por isso for infectado, se relacionar escassamente com outros potenciais hospedeiros susceptíveis. Pelo contrário, qualquer ignição nos doze dias do ano mais favoráveis ao fogo tem um potencial de provocar uma situação dramática como a de Pedrógão, tal como um contacto do parasita com um potencial hospedeiro altamente susceptível, que trabalha em condições ambientais favoráveis (entrepostos de frio, lares, dormitórios, fábricas) à difusão da infecção, rodeado de pessoas susceptíveis, pode dar origem a um surto, mesmo que os comportamentos dos hospedeiros e potenciais hospedeiros seja adequado à ameaça existente.

Há depois um limite prático para aplicação desta ideia, nunca vai ser possível cessar 100% dos contactos e diminuir parcialmente contactos, como Portugal diminuiu em um terço (O Paulo Fernandes corrigiu, Portugal reduziu para um terço do que era há uns vinte anos) o número de ignições, não resolve grande coisa porque um pequeno número de ignições é responsável pela maioria dos problemas, tal como um pequeno número de contágios, em alturas particularmente favoráveis à actividade viral - como foi a entrada do Outono na Europa - podem resultar no crescimento galopante do número de infecções, independentemente de reduções de contactos de 20, 30, 40 ou 70%.

Por estas razões, o que era elementar na citação acima não é, para mim, nada elementar e é um risco tremendo, com implicações reais na vida e morte de milhares de pessoas, adoptar medidas tremendistas com base em hiper-simplificações de problemas complexos, em vez de, prudentemente, verificar que há dinâmicas internas do surto que resultam na sua própria limitação e, consequentemente, adoptar medidas sensatas, equilibradas e calibradas pelos seus potenciais efeitos negativos noutros aspectos da nossa vida em comum, sabendo que nos faz falta humildade para perceber que a natureza não existe para que nós a estudemos, nós é que insistimos em estudá-la, forçosamente com resultados precários, o que nos obriga a avaliação permanente dos resultados, não os interpretando apenas com base na lógica, mas também com base nos factos verificáveis.

Eleições legislativas 2021

por Jose Miguel Roque Martins, em 28.11.20

Quando a pandemia começou, o plano, era simples. Transformar um desafio numa oportunidade. Reforçar a ideia de que o Estado tudo podia. E que o Governo tudo fazia pela população.

O resultado esperado por um optimista irritante? A população em êxtase,  agradecida aos Homens do leme. Uma recessão perfeitamente compreensível, nacional e internacionalmente. Um enorme triunfo político e eleitoral.

À euforia libertária das limitações financeiras do passado, sucedeu-se o inevitável choque com a realidade. A pandemia não foi tão curta como pensado. A exemplaridade no seu combate, mais dificil de mascarar. Mas o verdadeiro problema passou a ser, como tantas vezes acontece, a economia e as suas consequencias políticas.

Numa crise aguda, mas curta, o Estado está habituado a transferir uma parte significativa das suas responsabilidades sociais a empresas, que têm a missão de aguentar o emprego. Numa crise aguda e prolongada, as pequenas empresas simplesmente não têm capacidade para resistir. Implodem. Deixando de cumprir “a sua” parte: assumir prejuizos e impedir desemprego insustentável . Criando um problema de uma imensidão gigantesca: ou são apoiadas ( o que custa dinheiro) ou aumentam o desemprego ( ainda mais caro) em muitas centenas de milhar de trabalhadores. Sim, são pequenas empresas, mas são muitas. O problema económico agrava-se para além do esperado e gerivel! 

É por isso que a generosidade das medidas tomadas no inicio da pandemia , contrastam com a actual aflição. Antes, a saúde em primeiro lugar, justificava tudo. Agora não. Antes confinamento total era imperativo e possível. Agora não. Antes faltar para tomar conta de filhos, era um direito óbvio que era apoiado. Agora não. Antes apoiavam se empresas sem olhar a custos, como aconteceu com a TAP. Agora não.

E de um problema económico agravado, passamos a ter um problema político brutal. São centenas de milhar de votos, a receber perto de 400 euros por mês. Dezenas de milhar de pequenos empresários e trabalhadores independentes, desesperados, a receber perto de zero.  É  parte da população que não percebe porque, agora, a sua saúde deixou de estar acima de tudo. São os chamados negacionistas revoltados com o desastre económico.  É a evidencia de injustiças relativas por todos os lados. É o descalabro.

António Costa é um animal político. Mas até o Houdini teria dificuldade de sair deste colete de dificuldades, desespero e frustração.

E por isso, rapidamente, passamos do triunfo inicialmente tentado pelo governo, para o momento desejado pela oposição para eleições antecipadas.Antes que algo de bom aconteça. 

Um novo ciclo é inevitavel. 

A direita e o Síndrome de Estocolmo

por João Távora, em 27.11.20

(...) O Mamadou Ba que anseia por “matar o homem branco” é um cavalheiro culto e gentil que cita Fanon; o político de direita que pretende reformar a Segurança Social é um assassino bárbaro que conspira para assassinar os pobres. Tudo em nome das metáforas.

Ninguém tem o direito de esperar que a esquerda deixe de fazer isto. É o que lhe convém: inocentar os seus, e demonizar os outros. O que compete a uma direita democrática não é queixar-se e exigir à esquerda que abandone os seus critérios duplos: é não se deixar impressionar, pois se esses critérios funcionam, é apenas porque uma parte da própria direita, por medo ou conveniência, os adopta para distinguir, entre os seus, aqueles que têm direito ao título de “democratas” e os outros, que podem ser tratados como “fascistas”. A força do esquerdismo não vem da esquerda, mas da cobardia e do oportunismo da direita. E não, isto não é uma questão tribal, de equilíbrio entre clubes. É uma questão de pluralismo e de liberdade, porque liberdade e pluralismo não existem onde o debate está tão enviesado. Nunca chamarei a polícia, como é hábito fazer à esquerda, por causa do que alguém disser. Acho bem que Mamadou Ba seja um homem com liberdade para citar Fanon ou o que lhe apetecer. O que também acho, no entanto, é que Mamadou Ba não pode continuar a ser o único homem com liberdade em Portugal.

A Ler a crónica semanal de Rui Ramos no Observador

Ninguém percebe muito disto

por henrique pereira dos santos, em 27.11.20

Está então na altura de olhar outra vez para as previsões feitas por lunáticos, por académicos convictos de que é o comportamento do hospedeiro que controla a dinâmica do vírus e pelo porteiro do hotel Alcazar.

Comecemos por aquilo que é o verdadeiro padrão para avaliar surtos e epidemias, a mortalidade excessiva.

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Estamos portanto com uma mortalidade excessiva na Europa que é da ordem de grandeza dos surtos gripais de anos anteriores e, tal como os surtos gripais, tem variações geográficas muito relevantes cujas razões conhecemos mal.

Veremos como evolui, é claro que podemos voltar a ter picos como o que se verificou com a entrada de uma doença nova na Primavera deste ano, mas haver essa possibilidade não nos diz nada sobre a probabilidade da sua ocorrência. O que podemos presumir, com base na teoria, é que a entrada de uma nova doença, para a qual existem defesas menores, provavelmente se traduz num pico mais relevante, sendo raras as segundas e terceiras épocas da mesma doença com maiores impactos que a primeira, por razões que me parecem tão claras que me escuso de enunciar porque este vai ser um post ainda mais comprido que o habitual.

António Diniz, do grupo da ordem dos médicos, uma seccção muito activa dos lunáticos da covid, previa, por volta de 9 ou 10 de Novembro e para agora, a entrada de 125 pessoas por dia em cuidados intensivos. Ontem até diminuíram os internados em cuidados intensivos, mas como um dado não faz uma tendência, o que se pode dizer é que houve alguns dias em entraram por volta de 25 internados em 24 horas, embora a média a sete dias seja razoavelmente inferior.

Não vale a pena ligar nenhuma ao que diz a fortíssima falange dos que prometem sempre o apocalipse para amanhã, primeiro para poupar a capacidade de resposta do Serviço Nacional de Saúde, depois para manter a pressão sobre a mola, depois para eliminar a actividade do vírus na origem e, por fim, quando o eterno retorno das doenças respiratórias se verificou no Outono/ Inverno, retornam à defesa do Serviço Nacional de Saúde como justificação para as mesmas medidas que defendem há meses, independemente do contexto. A única adaptação ao contexto é a utilização de diferentes argumentos para defender as mesmas medidas, ou seja, mera retórica.

José Artur Paiva (director de medicina intensiva em São João) e o director de medicina intensiva de Santa Maria, no dia 16 de Novembro, falavam no esgotamento de recursos num prazo de cinco dias, que já passaram sem que os recursos se tenham esgotado.

O resultado prático do discurso do apocalipse sobre o futuro imediato não é uma melhoria do desempenho desses serviços, que suponho que é o que se pretende, mas sim a substituição de prioridades por emergências nos critérios de decisão, o que normalmente se traduz numa diminuição de eficiência grande que, no caso, tem sido paga com a exaustão dos profissionais de saúde que acabam a fazer das tripas coração para manter o apoio aos doentes.

Por estas e por outras, o bastonário da Ordem dos Médicos, a 24 de Novembro (caramba, bastava olhar para a média a sete dias para perceber que era segura a tendência de estabilização, basta olhar para o gráfico abaixo) não punha de parte a necessidade de um confinamento mais agressivo (que é o que estão sempre a propor).

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Manuel Carmo Gomes (e a sua equipa) previa, também por volta de 9 ou 10 de Novembro, 10 mil casos de covid por dia, no princípio de Dezembro, 530 internados em UCI uma semana depois e uma mortalidade à volta das cem pessoas por dia na primeira quinzena de Dezembro.

Ao longo do tempo, de forma clara e transparente, a sua equipa foi alterando a previsão, em função da evolução da epidemia, como é de boa prática, na lógica dos meteorologistas, que naturalmente estão sempre a rever as previsões para as horas e dias seguintes em função do que realmente se verificou nas horas e dias anteriores.

Pouco tempo depois, quer o próprio Manuel Carmo Gomes, quer Carlos Antunes, da mesma equipa, falavam em diminuição de casos em princípio de Dezembro (ou seja, dentro de dias), ou num pico, já à vista (a 19 de Novembro) com cerca de sete mil casos em média e a ocorrer entre 25 e 30 de Novembro, para agora (ontem), finalmente identificar o pico dos contágios algures na semana passada, entre 18 e 21 de Novembro, com médias na ordem dos 6 200 casos (não sei a que diz respeito esta média, a média a sete dias, que está no worldmeter é um bocado mais baixa, mas não é muito relevante a discussão dessa diferença).

Tandis que moi, oui moi, vestiaire à l'Alcazar, dizia que numa semana, por volta do meio de Novembro, estaríamos a parar o crescimento do número de casos diário (no gráfico acima eu leio que essa quase paragem de crescimento se verifica a 9 de Novembro, tendo continuado a subida, ligeira, até 19, mas admito que haja alguma distorção por causa correcção feita uns dias antes), o que na verdade está, e sempre esteve, muito mais próximo da realidade.

Significa isto que sei mais que as outras pessoas citadas, tenho melhor informação e coisas que tal?

Não, não significa nada disso, significa apenas que a abordagem que fiz à informação disponível, neste caso (não diz nada sobre o caso geral) se revelou mais acertada.

O que é diferente na minha abordagem é que não acredito que seja o comportamento do hospedeiro a ter o maior peso na evolução da actividade viral, não acredito que qualquer diminuição de contactos entre hospedeiros e hospedeiros potenciais represente diminuição de contacto entre o vírus e o potencial hospedeiro (que é a questão central do contágio) e estou muito mais interessado numa abordagem climatológica que meteorológica do assunto, isto é, estou muito mais interessado em compreender padrões gerais que em prever os números de amanhã.

Note-se que isso não é retirar importância à meteorologia, longe de mim cometer esse erro, para quem tem de executar, por exemplo, um fogo controlado, a meteorologia é muito mais importante que o clima, só me parece estulto planear um programa de queimas controladas entre Maio e Outubro só porque existe a possibilidade de haver um ou outro dia favorável, num meio de um padrão genericamente desfavorável a essa prática.

O que me espanta é a falta de atenção a esses padrões na discussão de um assunto em que na verdade andamos todos aos papéis e a tomar decisões que afectam profundamente a vida de milhões de pessoas sem ponderar devidamente as diferentes opções.

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Por exemplo, quando comecei a reparar que a Alemanha, um dos faróis da boa gestão da epidemia na Primavera, estava agora a ter uma mortalidade maior que nessa altura, como se no tempo entretanto passado tivessem desaprendido de gerir contactos entre hospedeiros e hospedeiros potenciais, resolvi procurar perceber o padrão geográfico da epidemia na Alemanha.

Como não quero perder muito tempo com o assunto, o que encontrei não é o que gostaria, mas serve minimamente para responder à minha pergunta inicial: fazendo a Alemanha fronteira com a Europa central que tinha tido uma pequena afectação na Primavera e agora tinha uma grande afectação, com a Austria e Suíça que representavam o padrão intermédio de duas ondas médias, com os Países Baixos fortemente afectados na primeira onda e medianamente na segunda, e com os nórdicos sistematicamente referidos como exemplos de controlo (nem falo na Suécia, saco de pancada de lunáticos vários que são incapazes de ver as enormes diferenças dentro do país, com Estocolmo a ser completamente diferente de tudo o resto), essas divisões seriam visíveis na distribuição espacial da infenção no interior da Alemanha?

Sem surpresa, o que o mapa sugere é que na proximidade dos países nórdicos o comportamento da Alemanha de aproxima deles, na proximidade da República Checa e da Áustria o comportamento da Alemanha se aproxima deles e por aí fora.

Não sei o suficiente, nem tenho os dados, para tirar conclusões gerais de indícios deste tipo, mas parece-me absolutamente legítimo perguntar por que razão continuamos a usar os países como unidade geográfica base para esta discussão quando, em muitos lados, podemos facilmente descer às Nut 2 e 3 para ganhar aderência ao padrão geográfico de evolução da epidemia?

Tenho poucas dúvidas - é uma convicção, não é nenhum resultado de um processo científico - de que essa aproximação geográfica nos levaria rapidamente a uma abordagem por padrões de surtos e rapidamente deixaríamos de dar ouvidos aos profetas do apocalipse que olham para a epidemia a partir das salas de cuidados intensivos, sem fazer o menor esforço para se porem no lugar das pessoas comuns, aquelas que vêem a epidemia circular à sua volta, com pessoas infectadas e recuperadas, com pessoas acima dos 90 anos a passar pela infecção sem problemas de maior e, sim, também há, com uma ou outra pessoa a ser internada e mesmo alguns, poucos e em condições de saúde precárias, a morrer.

Ao mesmo tempo que olham, bem assustadas, para a tempestade social que estamos a alimentar com medidas mal desenhadas, não escrutinadas e com fundamentação e eficácia da treta.

Tesourinhos deprimentes

por Jose Miguel Roque Martins, em 27.11.20

Foi uma semana particularmente rica em "tesourinhos deprimentes". O que é dizer muito. 

1 Na sua infinita incapacidade, o governo proibiu as aulas online nas segundas feiras antes dos próximos feriados. Provavelmente para esconder a incapacidade de cumprir o que disse: disponibilizar meios informáticos para todos os alunos. A proibição estende-se a escolas privadas. Há que nivelar por baixo, em nome da igualdade. Ao estilo soviético!

2 Na sua, felizmente ainda pequena escala, Medina mostra as suas garras contra o mercado.  Vai (pelo menos tentar) oferecer (???!!!) um serviço de entregas aos restaurantes.  Para que estes escapem das sanguessugas das empresas que prestam esse serviço a preços considerados exorbitantes. Vamos,  mais uma vez, socializar os custos e concentrar os benefícios. Quem não quer encomendar comida a restaurantes, não faz mal, paga à mesma! Só não encomenda porque não quer! Mais lá à frente, vai ser engraçado, quando os estafetas se tornarem funcionários públicos! Por mais que a evidência aponte noutro sentido, não vale a pena: há quem nunca aprenda.

3) Muito se falou da “aliança” entre o PSD e o radical Chega, para a viabilização do governo nos Açores. O que ninguém tinha previsto é que o PSD iria celebrar com o Bloco de Esquerda e o PCP um acordo muito mais relevante: tentar inviabilizar o cumprimento dos acordos estabelecidos a propósito do Novo banco, estabelecidos com entidades privadas e com Bruxelas. Um passo de gigante na descredibilização total do Estado, que se compreende que seja objectivo do Bloco e do PCP, mas que não se entende que seja apadrinhado pelo PSD. O que pensar? Entretanto, no meio da subida das taxas de juro da República, António Costa, no meio desta e de outras loucuras, ainda teve o desplante de dizer que o orçamento ainda ficou melhor depois da discussão na especialidade. Estarão todos doidos? Ou sou apenas eu?

4) De acordo com o Expresso, a DGS, na sua infinita perspicácia, apresentou um plano de vacinação contra a Covid19 em que o grupo dos mais vulneráveis (com idades superiores a 65 anos) fosse considerado apenas o 5 grupo prioritário. Como referi, há dois dias, o nosso  maior problema parece ser falta do bom senso mais elementar! Resta-nos a esperança que o problema político de parecer que o Governo se quer livrar de pensionistas, reverta a proposta de decisão original!

À volta do xadrez

por Duarte Calvão, em 26.11.20

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Já despachei os sete episódios de “O Gambito de Rainha”, minissérie da Netflix. É muito bem feita e representada, embora a história seja banal, do tipo “jovem heroína vence todas as adversidades, apesar de vir de baixo, graças a uma vocação extraordinária”. É uma espécie de “Karate Kid” do xadrez, filme de êxito nos anos 80, que motivou várias sequelas. Adivinho que este “Gambito” também terá mais temporadas, porque de facto a fórmula funciona e eu vi a série com rapidez e agrado, facto ao qual o recolher obrigatório não é alheio. Ao que consta, a minissérie está a causar interesse pelo xadrez um pouco por toda a parte, sobretudo entre os jovens, o que é louvável. O mais estranho é que, apesar de ter consultores ilustres (como o antigo campeão Garry Kasparov), pareceu-me que quase não se aprende sobre o xadrez, nem se percebem as jogadas para quem vê a série descontraidamente. Talvez voltando atrás, parando as imagens e analisando-as, mas não estou para isso.

 

Foi impossível não me lembrar do celebérrimo encontro entre Boris Spassky e Bobby Fischer, ocorrido em Reiquiavique em 1972, que, embora só tivesse 9 anos de idade, acompanhava todas as noites nas reconstituições que a RTP de então transmitia em horário nobre. Sete anos mais tarde, acompanhei no Rio de Janeiro, onde vivia, um torneio interzonal (uma espécie de eliminatória para decidir quais os candidatos a desafiar o campeão) e vi como o xadrez pode ser absorvente. Durante mais de três semanas, para mim e alguns amigos adolescentes igualmente entusiastas pelo xadrez, o mundo esteve todo no Copacabana Palace – o fantástico hotel onde decorria o torneio – e, quando não estávamos lá, íamos para casa uns dos outros reconstituir as partidas e discutir as peripécias do dia. Encontrei na Internet um recorte de um jornal da altura, em que estão os participantes, que acima reproduzo. Foi ganho pelo húngaro Lajos Portisch, ficando em segundo o soviético-arménio Tigran Petrosian, que já tinha sido campeão do mundo, perdendo o título precisamente para Spassky, em 1969. Pude então confirmar algo que se vê no “Gambito”, que os jogadores soviéticos, apesar de competirem entre si, se ajudavam mutuamente nos intervalos das sessões. Lembro-me de ver Petrosian, sempre acompanhado pela mulher, numa sala à parte a analisar as suas partidas com Balashov e Vaganian. Rezavam as más-línguas que estas sessões se prolongavam noite fora, com muita vodka à mistura.

 

O que me pareceu pior na série da Netflix foi dar a ideia que tudo se resolve numa só partida, quando é quase sempre em longos (e, por vezes, enfadonhos) encontros com várias partidas. Mas aceito que, para a economia dramática da ficção, resultasse melhor desta maneira. Há ainda algo que continua a intrigar-me: porque é que existem campeonatos só para mulheres? Sendo-lhes permitida a participação dos campeonatos ditos “masculinos” - como se vê na série - e não havendo as razões físicas que motivam a separação entre sexos noutras modalidades, julgo que é extremamente sexista organizá-los. Deve haver uma boa explicação, sobretudo quando temos no mundo de hoje tanta atenção a estes assuntos (e ainda bem), mas não consigo encontrá-la.

O legado de Maradona

por João Távora, em 26.11.20

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Estranho que o caracter revoltado e autodestrutivo de Maradona exerça tamanha atracção a uma determinada opinião publicada "intelectual" e “progressista”. Se é certo que uma alma atormentada é algo que possui inegável interesse literário e inspira muitos artistas, no individuo concreto e naqueles que o amam significa apenas uma incomensurável dor, que tem pouco de revolucionário. Sendo assim, fiquemo-nos pelo futebol que em Maradona - sem moralismos - é o que verdadeiramente interessa. E já não é pouco.
Deus o tenha na sua infinita misericórdia.

Depois de mim o Dilúvio

por Jose Miguel Roque Martins, em 26.11.20

Para já, gasta-se com largueza, fazem-se acordos milionários para passar o orçamento.  A oposição maioritária vai somando o que pretende. Enfatizando os erros políticos de António Costa. 

Um deficit para aliviar o mau momento, em parte auto infligido,  até se aceita. O aprofundamento, já endémico,  da destruição da possibilidade da economia funcionar, é a grande  tragédia a que assistimos. Com a novidade de, agora, tambem contarmos com assumidos atropelos a compromisos contratuais e  publicos assumidos. 

É verdade que, no final, vamos ter um aborto democrático como orçamento. Mas também é verdade que quando chegar a revolução, os actuais deputados e ministros, tal como Luís XIV, também não vão estar lá. E eles sabem.

 

Contágio é contacto

por henrique pereira dos santos, em 26.11.20

Ontem tive uma curta mas interessante troca de argumentos com Carlos Antunes, uma das pessoas que trabalham com Manuel Carmo Gomes na previsão da evolução da epidemia.

Gosto muito de ler Carlos Antunes, discordando da sua perspectiva da evolução da epidemia, porque é claro no que diz e de uma correcção na discussão do que escreve de que tenho francamente inveja.

Ressalvando não ser especialista (desse ponto de vista estamos em pé de igualdade, é muito saudável esta abertura de Carlos Antunes para não usar argumentos de autoridade) Carlos Antunes escreve num comentário despreocupado (não vale a pena ler estas coisas como se as pessoas estivessem a "produzir ciência" em vez de estar simplesmente a conversar): "Pelo que leio e pela conversa que tenho com especialistas existe sempre uma relação parasita-hospedeiro que determina a dinâmica das infecções. Até porque é o hospedeiro que transporta e transmite o parasita. Esse dependerá sempre do comportamento do hospedeiro."

Gosto particularmente deste parágrafo porque condensa muito bem a ideia base da estratégia de gestão da epidemia dominante, no fundo, a ideia de que sendo o contágio dependente dos contactos entre hospedeiros e potenciais hospedeiros, controlando os contactos dos hospedeiros, controlamos a evolução da epidemia.

Saltemos por cima da falta de adesão à realidade da ideia - não há sítio nenhum em que haja controlo da epidemia por parte das autoridades de saúde, apareceu quando quis, desapareceu quando quis e ressurgiu quando quis, o mais que se pode discutir é se o controlo de contactos condicionou a dimensão dos surtos, o que me parece que está por demonstrar, especialmente tendo em atenção as variações dentro de espaços com as mesmas medidas de controlo de contactos - e aceitemos o pressuposto base de que contágio é contacto, ideia que na minha bolha social é mais vezes, e de forma mais clara, defendida por João Pires da Cruz.

Uma incursão num gráfico de Artur Rodrigues para ilustrar a ideia entre travessões do parágrafo anterior:

nuts suécia dinamarca.jpg

"A Dinamarca é um caso de sucesso em termos de mortalidade. Vejamos como se comparam as regiões (NUTS2) da Dinamarca e Suécia. Tudo (quase) igual, exceto Estocolmo, e com tendência para ficar ainda mais igual.", comentário de Artur Rodrigues a este gráfico

Na verdade, é o mesmo João Pires da Cruz que mais lucidamente coloca a principal objecção à aceitação da ideia de que sendo contágio contacto, então temos de nos focar nos contactos se queremos controlar a epidemia.

Fá-lo num artigo, ainda na fase inicial da epidemia, quando vem lembrar que o que interessa não é a geometria que conhecemos, o que interessa é a geometria do ponto de vista do vírus, ou seja, é verdade que contágio é contacto, mas chave da questão não é o contacto entre hospedeiros, mas sim o contacto entre o vírus e o hospedeiro (a primeira parte do que citei de Carlos Antunes, mais acima).

Ora sobre isso, a verdade é que sabemos pouco e, sabendo pouco, temos mesmo muita dificuldade em controlar o contacto entre o vírus e o hospedeiro.

O argumento acima é o de que, sendo o vírus transportado pelos hospedeiros, se não houver contacto entre hospedeiros, não há contacto entre o vírus e o futuro hospedeiro, exactamente a ideia de que sendo os incêndios dependentes de ignições, se não houver ignições não há incêndios.

É uma ideia errada, uma ignição, em condições desfavoráveis, não tem a menor importância, uma ignição, em condições favoráveis, pode dar origem a milhares de hectares de área ardida, de tal forma que 1 a 2% das ignições dão origem a 90% da área ardida.

É exactamente o que se passa com o vírus, em que contactos e consequentes contágios em escolas não têm grande importância, contactos do vírus com potenciais hospedeiros em lares de velhinhos, podem ser um drama bem grande.

O corolário do que é dito é, essencialmente, o que é defendido na declaração de Great Barrington: rebentar recursos a tentar evitar o contacto do vírus com todos os potenciais hospedeiros não tem dado grande resultado e, consequentemente, temos de nos concentrar em diminuir o risco do contacto do vírus com os contextos que podem gerar efeitos negativos mais devastadores.

Isso tem uma componente relacionado com a necessidade de diminuir a probabilidade de contacto entre o vírus e os vulneráveis, é certo, mas do ponto de vista colectivo tem sobretudo uma componente relacionado com a alteração de contextos, uma tarefa difícil, tecnicamente complexa, provavelmente muito cara e que nos obriga a olhar para a vulnerabilidade dos outros com outros olhos e com vontade de criar contextos que lidem melhor com essa vulnerabilidade.

Infelizmente, o resultado práctico da declaração de Great Barrington foi essencialmente atiçar as críticas aos que promovem e dão espaço às visões alternativas do problema, como se fosse a declaração de Great Barrington, ou posts como este, que representassem um risco real para a sociedade, e não o potencial de erro que existe em qualquer decisão.

O que é preciso combater é a falta de transparência e de fundamentação das decisões que nos afectam a todos, não é o facto de haver opiniões para todos os gostos e muitas delas serem tontices insensatas: as palavras, por mais tontas e absurdas que sejam, não matam, o que mata ou salva são as decisões, é o exercício do poder e é esse que precisa de ser escrutinado, não os discursos, por mais aberrantes que sejam (e alguns são).


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