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Da tragédia do "bom senso"

por henrique pereira dos santos, em 24.10.20

Tenho um amigo que fala muito da responsabilidade social do proprietário, argumentando, e com razão, que a propriedade não é um valor individual absoluto mas um tem um valor social que não pode ser esquecido.

No plano dos princípios são muito raros os que discordam disto, não me parecendo haver contestação relevante à ideia de expropriação justa, que é uma das materializações do que está escrito no primeiro parágrafo, ou à ideia de que um proprietário é responsável pelos danos a terceiros que a gestão da sua propriedade lhes causa.

As divergências começam quando este meu amigo leva o princípio para lá da responsabilidade do proprietário pelos actos de gestão da sua propriedade, atribuindo-lhe também responsabilidade pela omissão de boa gestão.

Compreende-se o argumento: se eu tiver um edifício que ameaça ruína (ou uma mera varanda que tem fissuras) e não acautelar a segurança das pessoas que passam na rua, sou responsável pelo que aconteça e o Estado pode impôr-me, coercivamente, obras para garantir essa segurança. No caso em que não consiga obrigar o proprietário a garantir a segurança, o Estado pode fazer as obras directamente, com invasão da propriedade privada, se for caso disso (note-se que em países civilizados há um conjunto de procedimentos a que o Estado está obrigado antes de poder violar a propriedade privada, procedimentos esses que, de maneira geral, têm ou permitem a intervenção do poder judicial, prévia à intervenção coerciva do Estado, mesmo que exista, como geralmente existe, uma simplificação em casos de perigo iminente).

Este meu amigo vai muito mais longe que esta ideia de uma relação directa entre a minha omissão e o risco concreto de terceiros, este meu amigo aplica este princípio à gestão de processos naturais: eu sou responsável por gerir bem a minha propriedade, de tal forma que não contribua para o aumento do risco de incêndios que afecta terceiros, mesmo que o crescimento da vegetação seja um processo natural cujo controlo me obriga a uma gestão activa.

O que ele defende é que o proprietário é responsável pelo abandono a que a falta de recursos o obriga.

No fundo, é a aplicação da ideia de que isto depende de todos nós, e todos nós temos a obrigação de tomar decisões individuais que apontam para o bem comum, independemente dos prejuízos que essa acção tenha para mim e das dúvidas que existam na relação entre essa acção concreta e o bem comum.

Esta é a ideia central que está por trás da famosa lei de bases da protecção civil que tem vindo a ganhar importância nestes últimos meses, e é a ideia na base de grande parte da legislação sobre as obrigações dos proprietários em matéria de gestão de combustíveis.

A generalidade das pessoas acham de puro bom senso a ideia dos proprietários da envolvente de uma casa serem obrigados a garantir a segurança dessa casa - mesmo que a casa seja de terceiros - através da gestão de combustíveis e, podendo ter dúvidas técnicas sobre as regras que a lei define para essa gestão, concordam com o princípio.

É do mais elementar bom senso não ter uma casa no meio de matagal que acrescenta risco de fogo ao que já existe, dir-se-á.

Só que a investigação sobre o assunto demonstra, de forma muito clara, que as casas que ardem nos fogos não ardem por terem matagais à sua volta, no últimos trinta ou cinquenta metros, mas porque há projecções vindas de muito mais longe que caem no telhado - pode não ser no telhado, mas é esmagadora a evidência de que é no telhado que está a maior fragilidade - para as quais é completamente irrelevante a quantidade de combustível junto à casa.

Ou seja, o que parecia bom senso é o mero senso comum e, como é frequente, está errado.

A mesma ideia de aparente bom senso sustenta a legislação de defesa da floresta contra incêndios (uma palermice, na verdade nós temos é uma legislação - e uma prática - de defesa em relação aos incêndios que vêm da floresta) está na base das famosas faixas de gestão de combustíveis, que pretendem criar linhas de descontinuidade de combustíveis com o objectivo de diminuir a probabilidade de um fogo sair da parcela onde se dá a ignição, através da criação de barreiras à sua propagação (qualquer coincidência com a ideia de ter políticas de contenção de vírus através de barreiras físicas à sua propagação, como máscaras, não é involuntária).

Com base nesta ideia de mero bom senso, criámos um complexo e caríssimo sistema de redes de faixas de combustível, com uma rede primária que cabe ao Estado estabelecer - a custos incomportáveis, mesmo quando tecnicamente viáveis, o que nem sempre acontece - e uma rede secundária que toda a gente conhece porque se fala frequentemente das faixas ao longo das estradas, dos caminhos de ferro, por baixo das linhas eléctricas, etc..

Não existe, até hoje, qualquer evidência da utilidade destas faixas, a não ser em situações muito definidas de baixa intensidade de fogo ou de presença de dispositivo de combate nas redes primárias (o que raramente acontece).

E, no entanto, o Estado impõe aos proprietários um custo de perda de rendimentos - o Estado nem a decência de fazer dessas faixas servidões administrativas teve, para não ter de arcar com os custos inerentes, aplicando o tal princípio da responsabilidade social da propriedade através da socialização dos lucros e privatização dos prejuízos, com o pequeno pormenor de não haver lucros nenhuns - associados a essas faixas.

Para se ter uma ideia, uma das empresas de infraestruturas que por lei tem de assegurar as tais faixas secundárias fala em nove milhões de euros gastos todos os anos - pagos pelos utilizadores de energia, nuns casos, pelos contribuintes, noutros - sem qualquer utilidade social, constituindo pura destruição de valor (já agora, a empresa diz que aceita esse custo sem problema a única coisa que pede é que a deixem aplicar esses recursos em qualquer estratégia útil para resolver o problema, em vez de o deitar à rua sem qualquer retorno social).

Quando confrontado publicamente, um decisor de topo nesta matéria, partindo do reconhecimento técnico generalizado de que a lei é má, tem custos desproporcionalmente altos e retornos sociais insignificantes, a resposta terá sido a de que realmente havia uma concordância pessoal com os fundamentos técnicos das propostas de alteração, mas não havia maioria para aprovar as alterações que a generalidade dos que mais sabem do assunto subscreveriam.

Ontem um amigo fazia notar, por graça, que o dia 3 de Maio foi o dia com menos infectados covid (97) em Portugal, no dia 4 de Maio as máscaras passaram a ser obrigatórias em lojas, cafés e por aí, e desde aí nunca mais houve um número de infectados tão baixo.

Foi apenas uma constatação irónica, os dois sabíamos que o valor demonstrativo dessa constação é quase nulo (o quase está lá apenas porque indícios casuísticos desse tipo apontam para que as máscaras não desempenhem nenhum papel determinante na evolução da epidemia, uma vez vi alguém citar um paper com uma correlação estatística que seria especialmente convincente, mas ainda não me lembrei de ir perguntar se já tentaram fazer a mesma correlação agoram num contexto de subida de casos), mas serve apenas para ilustrar um problema sério que me parece ser dos factores que nos conduzem à estagnação e pobreza em que estamos: a invocação do bom senso - quando na verdade se está a invocar o senso comum, mas passemos por cima disso - é, muitas vezes, uma forma simples de liquidar qualquer discussão racional baseada na avaliação séria e descomprometida de políticas.

Cometemos muitos erros, o que não é grave, mas temos um estranho pudor em avaliar resultados que nos permitiriam ir corrigindo erros de forma natural, rápida e eficaz, como fizeram os dinamarqueses quando ao fim de duas semanas de abertura das escolas acabaram com a obrigação dos meninos desinfectarem as mãos de duas em duas horas, dados os problemas de pele que estavam a surgir e a ausência de demonstração de utilidade nesse procedimento.

Mais grave, quando existe avaliação e abundante demonstração da inutilidade de uma norma, haverá sempre um decisor que dirá que usar máscara mal não faz e não impacta a economia, tal como se mantém a obrigação de limpar terrenos à volta da casa, apesar do problema serem as projecções nos telhados, com base na mesma ideia de que limpar terrenos à volta de casas ou por baixo de linhas eléctricas mal não faz.

O Syriza - uma memória a preservar

por João-Afonso Machado, em 23.10.20

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Devo confessar, já não me lembrava do Syriza e da tragédia grega de 2015. Foi necessário um passeio por essas bandas para recordar Tsipras, & Varoufakis, II (Irresponsabiliade Ilimitada), porque, para os esquecer, por cá se mantém os Jerónimos e as Catarinas, às pazadas de areia sobre a experiência helénica de extrema-esquerda.

Mas, enfim, chegado lá, olhando tanto de um país ainda por refazer, como não rebobinar esse período de loucura, entre manifestações de rua, braço-de-ferro com a UE e racionamento dos ATM's?

Foi quando me disseram, melhor seria não abordar o tema em conversa, tão traumatizante a realidade se abatera sobre as pessoas.

Não - adiantaram - por causa da propriamente dita bancarrota iminente, ou do juízo que deles faria o mundo inteiro. Antes em resultado de um generalizado sentimento de culpa pela entrega do Poder a semelhantes figurões. Os gregos, parece, digerem com a maior dificuldade a sua própria ingenuidade, e por isso lhes custa expiar as suas responsabilidades eleitorais na calamitosa passagem do Syriza pelo Governo.

São, nas grandes cidades e no meio rural visto pela janela do comboio, evidentes ainda os sinais do tufão. Conquanto seja perceptível a natural despreocupação de hoje - mesmo em tempo de pandemia - e a usual movimentação das gentes.

Quanto a nós... estaremos sempre condenados à propaganda esquerdista, jamais os méritos serão reconhecidos pelas II's nossas à Nova Democracia de Mitsotakis, e tudo não passou de uma planetária conspiração dos ricos contra os pobres... Resta-nos, para consolação, a certeza de que, se Costa vai afagando com a mão esquerda os seus parceiros parlamentares, é com a outra, com a dextra, que conta para se alapar à Europa e assim se manter no poleiro.

 

Governos finados

por José Mendonça da Cruz, em 22.10.20

O dia de finados, 2 de Novembro, já não é dia de finados, manda este governo (por assim dizer). Nesse fim-de-semana, as pessoas não podem ir aos cemitérios, e, além disso, as de Lisboa não podem atravessar a fronteira do concelho de Cascais, ou da Amadora, ou de Vila Franca, ou de Sintra. E as de Sintra, Vila Franca, Amadora e Cascais não podem vir a Lisboa, nem visitarem-se uns aos outros. E as do Porto não podem ir à Maia. Nem vice-versa. É por causa do vírus. Se apanharem o vírus no fim-de-semana, o governo tinha avisado, a culpa é vossa. Durante a semana já todos podem andar de concelho em concelho, sobretudo se precisarem. Se apanharem o vírus porque precisam é porque são pobres. Se são pobres, é porque não votaram socialista. Se votaram, então é porque não se inscreveram.

Propagandeia o Público, e anunciam Costa e Nuno Santos, que Lisboa-Porto de comboio vai fazer-se em pouco mais de uma hora.

Também em 6 de Julho de 1999, o mesmo Público noticiava que «TGV vai ligar Lisboa e Porto em 1h15» -- porque a fé socialista do Público é inesgotável.

Era uma ideia de João Cravinho, ministro do pântano de Guterres. Foi até a concurso, depois, com Sócrates, antes da bancarrota. Agora é uma ideia nova de Pedro Nuno Santos, ministro de Costa, e o maior investimento do Plano 2030, com o qual os socialistas enterrarão definitivamente Portugal na condição de país mais pobre da Europa.

Custa para cima de 4 mil milhões de euros (vá lá, o Galamba já conta com 7 mil para ilusões ruinosas -- para nós, não para ele --, e o Medina há-de ter qualquer coisinha para as casas que anuncia todos os anos ou para a mobilidade «sustentável» dos outros). Mas não é para já. É por fases. E, por enquanto é em bitola ibérica, que só permite velocidades até 250 km/h. E a coisa só acaba lá mais para 2030. E depois é que vai ser, diz o Público. Depois vai ser túneis em toda a parte e pontes sobre o Douro e o Tejo e comboios a acelerar por todo o lado.

Na apresentação da maravilha estavam Costa, o ministro das Infraestruturas, Pedro Nuno Santos, e também os ministros do Ambiente e da Agricultura (não me perguntem, não quero saber).

Como sempre, Pedro Nuno Santos deixou uma pérola. Com esta obra, proclamou ele, «acabaram-se as auto-estradas».

«Como aconteceu com os TGVs em França e Alemanha?», pensei eu. Ah, deixem...

Europa bate records diários

por henrique pereira dos santos, em 22.10.20

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Atrevimento

Ou o exemplo que vem de baixo

por João Távora, em 22.10.20

Ao fim de sete meses deparo-me com uma criancinha feliz a andar de baloiço no parque infantil em frente à minha casa. Afinal as fitas plásticas da câmara municipal são fáceis de arrancar. A esperança brota de onde menos esperamos.

Basta!

por Jose Miguel Roque Martins, em 22.10.20

Com uma refrescante franqueza, a Sra. ministra da saúde declarou hoje que "até uma vacina ou um tratamento eficaz ninguém está a salvo de ficar doente”. O numero de internados é o maior desde o inicio da pandemia. Em toda a Europa batem-se os recordes de infectados.  E não há razões para pensar que vamos melhorar. O vigor deste pico infeccioso é claro e potente. Os prognósticos não são animadores. Até na Suécia,  os infectados também crescem, embora vá ser ultrapassada por Portugal no numero de infecções ainda esta semana. Mesmo com uma mortalidade em queda, o crescimento das infecções, vai ter consequências graves. 

Não tenho propostas milagrosas. Constato, há já algum tempo, que quem manda, também não. E pelo que tenho lido, não há especialistas, em lado nenhum, que tenham a bala de prata já à mão.

Que não haja confusões: como quase todos, sou a favor de fazer o que é possível e não tenha custos absurdos, para mitigar a pandemia.

O que já não suporto é ser tratado como um miúdo irresponsável, é a mentira constante, é a imposição de medidas com benefícios demasiado hipotéticos e custos reais e certos.

Basta de boas intenções e de placebos caros. Basta de brincar aos governos responsáveis e inconscientes. Basta de não aceitar a nossa incapacidade. Basta de fingir que não somos mortais. Basta de fazer de conta que vivemos numa realidade que não existe.

Basta!

A tenaz

A respeito da polémica citação do Papa Francisco

por João Távora, em 22.10.20

Os católicos praticantes (há outros?) por estes dias vivem espremidos pela tenaz dos libertários e dos fariseus. Resta-nos o discernimento e muita oração

Manuel Carmo Gomes e Jorge Torgal

por henrique pereira dos santos, em 22.10.20

Nada me liga a nenhum dos dois citados no título, apenas os conheço de os ouvir ou ler a propósito da epidemia.

Mas uma coincidência fez com que um visse publicada uma entrevista ontem, no I, e outro visse uma entrevista publicada hoje, no Público.

E vale pena ler as duas entrevistas que, sendo sobre o mesmo assunto, é como se existissem em mundos paralelos, de tal maneira os fundamentos dos dois são diferentes e a forma como olham para o assunto é radicalmente diferente.

Os dois sabem do que falam, têm preparação e estudo sobre o assunto.

Manuel Carmo Gomes é um biólogo que se foi especializando em matemática e estatística aplicada à biologia, desaguando na modelação matemática do controlo de doenças infecciosas através da vacinação. É, e sempre foi, um académico, cuja principal ligação profissional com a sociedade, fora da academia, se faz pelo mundo da vacinação.

Jorge Torgal é um médico (originariamente dermatologista) que se foi especializando em saúde pública, e que foi saltitando entre a academida e cargos públicos ligados à saúde pública, com fortes ligação à epidemiologia, quer em Portugal, quer em África.

É por isso natural que os pontos de partida com que olham para a epidemia seja radicalmente diferente.

Manuel Carmos Gomes está no grupo dos novos, dos que trabalham e modelam dados em computadores, Jorge Torgal está no grupo dos velhos, dos que já viram muitas epidemias evoluir e involuir nas mais diversas circunstâncias e trataram os seus doentes e mortos.

Por isso é natural que Manuel Carmo Gomes diga que o que há a fazer é reforçar enormemente os recursos para testagem e seguimento, de maneira a conseguir quebrar as cadeias de contágio ou, em alternativa, quebrar cadeias de contágios com base na diminuição dos contactos entre as pessoas. Estas duas soluções possíveis, ambas inviáveis porque para a primeira não existem recursos, e para a segunda não existem pessoas e sociedades a que se possa aplicar uma restrição de contactos como a que pretende, decorrem da ideia fundamental de que a evolução de uma doença pode ser controlada, como se faz com a vacinação, substituindo a vacinação por distanciamento social.

Pelo contrário, Jorge Torgal limita-se a dizer que o que é preciso é olhar globalmente para a saúde pública, olhar para a mortalidade, e controlar o medo decorrente de uma epidemia, dizendo que é absurdo que as regras de acesso de um doente a uma instituição de saúde sejam mais restritivas que as de acesso a qualquer outro sítio, porque o que é preciso é garantir que um doente, qualquer doente, tenha acesso a cuidados de saúde.

Na verdade, um está preocupado com uma abstracção (a cadeia de contágio ou a actividade viral), o outro está preocupado com os efeitos concretos de uma epidemia sobre as pessoas.

Os dois, com certeza, querem a nossa felicidade e saúde para todos, disso não tenho a menor dúvida, mas um está habituado a raciocinar escolhendo os seus pressupostos - se todos os contactos cessarem, isto quebra - o outro sabe que os pressupostos são definidos pelo vírus, e é a partir daí que temos de raciocinar.

O nosso problema, enquanto sociedade, é termos bloqueado este debate, cavando rapidamente trincheiras entre os partidários do "pára tudo já", que se lixem os efeitos secundários, e os partidários do "isto é uma gripezinha", do que precisamos é de manter a sociedade a funcionar.

E depois fizemos muito pior, em vez de termos o poder a arbitrar, em cada momento, o ponto de equilíbrio entre os diferentes pontos de vista, pusemos o poder ao serviço de uma facção, por pressão das pessoas e dos jornais.

Com isso a facção dominante vai-se tornando cada vez mais opressiva (cinco dias sem sair do concelho em que se estiver, uma ligeira compressão nas liberdades individuais, perfeitamente proporcional ao risco da doença para a generalidade das pessoas e justificada pela hecatombe que há oito meses se verifica no mundo, como se sabe) e a facção contrária mais radical e intolerante.

Há muitas razões para se defender que as medidas voluntárias são muito mais eficazes que a força no controlo de uma epidemia, uma delas é exactamente porque colocar o poder ao serviço de facções sempre foi uma péssima opção social.

Pior só mesmo colocar o poder nas mãos de uma facção aterrorizada com um inimigo ilusivo.

No ponto em que estamos, e eu sei que o que estou a dizer está fora de moda, os intelectuais, sejam eles quem forem, defendam eles o que defendam, acreditem na facção que acreditem, têm a obrigação de não ficar calados e dizer de forma clara: os limites da liberdade não deixam de estar permanentemente sob tensão para que se consiga definir onde está a linha que separa a liberdade individual do bem comum mas, neste caso, há muito tempo que essa linha ficou para trás e o poder deixou de reconhecer os limites da sua legitimidade.

A Eutanásia do Referendo

por Vasco Mina, em 22.10.20

Não, não me enganei no título deste post. O que estará hoje em discussão (e amanhã em votação na AR) não é a eutanásia mas sim um referendo. Recordo que resultou de uma Iniciativa Popular de Referendo promovida por um largo e variado número de pessoas (de múltiplas correntes políticas) e que recebeu mais de 95.000 assinaturas (bem acima das 60.000 estritamente necessárias). Os projectos parlamentares sobre a eutanásia serão debatidos posteriormente. Ou seja, o que está hoje e amanhã em causa é a viabilidade de uma consulta popular. Tudo indica que o referendo será chumbado e cada deputado será responsável não pela aprovação ou chumbo da eutanásia mas, sim, será responsável pela vida ou morte de um processo democrático constitucionalmente consagrado na Constituição da República Portuguesa. É que se eutanasiarem esta proposta de referendo estarão, sim, a matar a consulta popular e, por isso, em total desrespeito pelo povo que votou nos partidos sem que estes tivesses tomado posições nos programas eleitorais. Se há tema que requer um referendo é o da eutanásia!

Soma-se a isto um partido, o PSD, que no seu órgão mais importante, o Congresso, decidiu, através de uma moção que mereceu a aprovação da maioria dos congressistas, desencadear todos os mecanismos partidários e políticos no sentido de se avançar com um referendo sobre a eutanásia. Noto que a decisão foi sobre o referendo e não sobre a eutanásia. Pois não só o Presidente e a Comissão Política Nacional do PSD não cumpriram esta decisão do Congresso como foi dada liberdade aos deputados do PSD para, individualmente, tomarem posição no Parlamento. Fica assim, cada deputado social-democrata, com a responsabilidade de dar vida ou matar o referendo. Será um voto de consciência mas, sobretudo, de responsabilidade política perante os militantes e perante os portugueses que os elegeram. Se chumbarem o referendo, a pergunta que fica é a seguinte: para que serve um Congresso? O que é a mesma coisa que perguntar para que serve um partido.

O Covid e a Prostituição

por Jose Miguel Roque Martins, em 22.10.20

Hoje li o relato de uma jovem asiática forçada à prostituição para alimentar a sua família. A causa, a imensa recessão provocada pela paragem da economia no Ocidente. 

Esta, como outras desgraças, não têm qualquer importância, quando se tomam medidas  politicamente correctas no Ocidente. O principio do egoísmo anda de mãos dadas com a falta de senso. 

Viva Portugal!

Justiça não, estatismo selvagem sim!

por Jose Miguel Roque Martins, em 22.10.20

Em contraponto com o que se passa na America, temos o Estatismo selvagem. O tribuna constitucional acaba por proferir um acordão que impede o fim de rendas antigas por falta de conhecimento dos inquilinos de terem que respoder aos senhorios!

O principio de que a ignorancia da lei não aproveita ao infrator, ganha uma exepção para eternizar uma injustiça que atenta ao principio do direito á propriedade,  consignada na carta dos direitos humanos. 

Em nome da expropriação social, vamos cavando as razões para a nossa pobreza. 

 

 

 

Viva a America

Economia de mercado sim, capitalismo selvagem não

por Jose Miguel Roque Martins, em 22.10.20

Uma noticia importante passou despercebida na ultima semana: a Google está a ser processada por posição dominante que afecta a concorrência. 

Apenas dos Estados Unidos, os campeões das liberdades económicas e da regulação de mercados, poderíamos ver um colosso mundial, a ser questionado com um processo com consequências potencialmente tão graves. 

É por ser a mais verdadeira economia de mercado, na liberdade, na regulação, no empreededorismo, que os EUA são o país mais rico do mundo. Não por serem adeptos de um "capitalismo" selvagem, como os pobrezinhos invejosos sugerem!

“Black Lives Matter” em Cabo Delgado

por Vasco Mina, em 21.10.20

A revista Visão apresenta uma longa e impressionante reportagem sobre o que se passa em Cabo Delgado. Segundo este artigo “entre o passado sábado, 17 de outubro, e o dia de ontem, 20 de outubro, cerca de três mil pessoas terão desembarcado na praia de Paquiquete, em Pemba. Idosos, mulheres e crianças, sobretudo, chegam em barcos sobrelotados, que estão novamente a fazer a viagem de volta para tentar salvar mais pessoas que estão em risco no norte do País.” Uma verdadeira tragédia humana provocada pelos ataques terroristas comandados por forças do jiadaismo islâmico. Destroem tudo, decapitam cidadãos  e lançam o terror por onde passam. Quem apoia, localmente, estes refugiados? Uma plataforma da sociedade civil com poucos recursos e, como sempre, a Igreja. Mas com muitas e muitas limitações. Quem tem mais levantado a voz para denunciar o que se passa? O Bispo de Pemba, D.Luiz Lisboa. E as organizações internacionais e os movimentos civis como o “Black Lives Matter” por onde andam? E as televisões?  Será que o terrorismo deixou de ser tema? Será que apenas importa o racismo e a igualdade de género?

Demasiados contactos

por henrique pereira dos santos, em 21.10.20

Manuel Carmo Gomes dá hoje uma entrevista ao I, que não li na totalidade, mas a que o I dá grande destaque de primeira página.

Catherine Smallwood (senior emergency officer na OMS) dá hoje uma entrevista ao Público, que li na totalidade, a que o Público não dá destaque nenhum, apesar de quase toda a primeira página ser dedicada à epidemia.

A Sociedade de Virologia que abrange a Alemanha, Suíça e Áustria achou apropriado publicar um parecer em que se diz preocupada por haver vozes que discordam do que a dita sociedade acha que deveria ser o que toda a gente deveria pensar, explicitamente referindo-se à declaração de Great Barrington.

"Tandis que moi tous les soirs/ Je suis barman à l'Alcazar".

"O aumento da disseminação de infecções de SARS-CoV-2 deve-se, em particular, a eventos privados, como celebrações familiares, casamentos e outros encontros. Embora por isso a maior parte da ocorrência de infecção se desenrole em grupos etários mais jovens, que são na maioria muito menos afetados pelas consequências para a saúde do COVID-19 do que os mais velhos, observamos em todo o lado um aumento nas hospitalizações e um avanço constante de infecções em grupos de idade mais avançada" diz a dita sociedade de virologia, dizendo que se baseia na evidência científica.

"Para prever quantas pessoas vão precisar de cuidados hospitalares, temos de conseguir prever quantos casos vamos ter no máximo e, para isso, ser possível temos de ver o RT estabilizar. O que temos visto é que o RT tem estado a subir devagarinho, especialmente na região Norte. Não tem de ficar 1, mas tem de estabilizar. No fundo o que temos todos os dias é o pico a ir um bocadinho mais para cima, para valores mais altos. Há duas semanas estimávamos que teríamos uns 3000 casos reais (pessoas a serem infetadas diariamente) no final de outubro, mas agora estamos a projetar mais de 3500. ... as pessoas continuam a ter demasiados contactos entre si. O RT depende do número médio de contactos de cada um quando está infetado, o que pode não saber à partida. À medida que o RT sobe, quer dizer que continuamos a intensificar a transmissão. Mesmo que a diferença seja de casas decimais, faz uma grande diferença quando temos estes números. Quer dizer que não conseguimos travar o contágio entre as pessoas e as cadeias de transmissão prolongam-se" diz Manuel Carmo Gomes, com certeza também baseado na evidência científica.

"Os números são tão altos neste momento porque estamos a captar uma proporção muito maior do número real de pessoas infectadas com covid-19. No mês passado, quatro milhões de europeus foram testados todas as semanas, o que é o dobro do início deste ano. ... Nos primeiros meses os locais de testagem estavam muito sobrecarregados e a focar-se nos casos graves ou nas pessoas internadas. À medida que tempo passou, os testes na comunidade têm sido expandidos de forma significativa. Portanto, sim, estamos a testar mais e a captar muito mais pessoas que têm a doença. Por isso o número de jovens infectados é agora muito maior no panorama geral do número de casos" diz Catherine Smallwood, baseada com certeza na evidência científica.

"Tandis que moi tous les soirs/ Je fais la plonge à l'Alcazar"

"Devido à dinâmica de infecção explosiva que observamos em todos os hotspots em toda a Europa, é de temer que, acima de um certo limite, o controle sobre o processo de infecção seja perdido mesmo em regiões anteriormente não críticas. Se este limite for excedido, o rastreamento de surtos individuais e medidas de isolamento estritas deixam de poder ser realizadas e a propagação descontrolada para todas as partes da população, incluindo grupos de risco particularmente vulneráveis, deixam de poder ser evitadas de forma adequada" diz a tal sociedade de virologia, baseada na evidência científica.

"quando há muitos casos em circulação a saúde pública deixa de conseguir dar conta do recado. Se num determinado dia tenho mil novos casos, implica mil novos inquéritos e ir atrás dos contactos. É evidente que os médicos de saúde pública, a certa altura, deixam de conseguir acompanhar e sabemos que não estão a conseguir acompanhar há pelo menos duas semanas. Ou seja, há muitos casos que estão a ocorrer todos os dias e que não nos aparecem porque não os conseguimos apanhar. Se estas pessoas adoecerem e forem parar ao hospital, hão de aparecer, mas neste momento há mais pessoas infetadas que estão assintomáticas ou têm sintomas ligeiros e que não apanhamos e continuam a transmissão", diz Manuel Carmo Gomes, com certeza baseado na evidência científica que parece que contraria a ideia, científica, da sociedade de virologia, de que o actual modelo de controlo da epidemia é muito bom e há maneira de não falir.

"O vírus é imparável sem vacina?", pergunta a jornalista, "Mesmo com a vacina, podemos não o conseguir, porque podemos ter uma vacina que não é totalmente segura e eficaz" responde Catherine Smallwood, com certeza com base em evidência científica.

"Tandis que moi tous les soirs/ J'suis chanteuse légère à l'Alcazar"

Adenda: entretanto já li a entrevista toda de Manuel Carmo Gomes e não deixo de me espantar com a facilidade com que diz que há duas soluções possíveis e depois descreve duas soluções igualmente inviáveis

Do ovo de Costa a uma camisa de três varas

por Jose Miguel Roque Martins, em 21.10.20

Parecia óbvio. O PS e os partidos de esquerda radical tinham ( e têm) a maioria no parlamento. Porque não fazer tabua rasa de tabus antigos e incluir o PCP e o Bloco de esquerda no arco a governação? Dito e feito, com a habilidade e bonomia que lhe são características, António Costa cria a geringonça e chega ao poder.

No caminho foi fazendo cedências. Um processo normal em democracia, o bem maior obriga a recuar para depois avançar. A piorar, para depois melhorar.

Só que este processo tem uma vida e dinâmica própria. E apresenta caracteristicas de um equilibrio instavel. Todos ficaram reféns de todos.

O PCP e o Bloco, se não apresentarem resultados de “esquerda” palpáveis, perdem eleitorado. O PS, se abdicar totalmente de moderação, perde eleitorado. Se não se entenderem, perde-se a governabilidade. Como podem todos ganhar sempre com este jogo? Quem aceita perder no tribunal da opinião publica?

Cá se fazem, cá se pagam. O ovo de Costa transformou-se numa camisa de três varas . Camisa que os Portugueses vão pagar.

Público?! DN?! Expresso?! É tudo uns ingratos!

por José Mendonça da Cruz, em 20.10.20

A entrevista do senhor primeiro-ministro António Costa, ontem, à Tvi, deixou-me perplexo. Não porque a tenha visto, que não vi, evidentemente -- pois, ao contrário da direcção de informação da Tvi, não me passou pela cabeça que essa entrevista pudesse ser interessante, útil, oportuna ou informativa.

Não, a razão da minha perplexidade resulta de que, ao contrário do que eu previra e esperava, nem Público, nem Diário Notícias, nem Expresso nas suas versões online tenham feito manchete com algum pormenor dos esforços do pobre homem e da direção veneranda e obrigada da Tvi.

Ah, o futuro já não é o que era.

Samuel Paty

por Jose Miguel Roque Martins, em 20.10.20

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Na passada sexta feira, Samuel Paty, foi cruelmente assinado e decapitado, em França. Mais uma vitima do islamismo brutal e da incapacidade das democracias liberais em lidarem com quem faz tabua rasa dos seus princípios básicos.

A solução deste tipo de problemas, a coabitação no Ocidente, com minorias culturalmente opostas, não é fácil nem óbvia. O principio da igualdade não deve ser ferido. Mas não se pode tratar de forma diferente o que é igual nem de forma igual o que é diferente. Se não houver capacidade para o assumir, de forma justa mas firme, a frustração das populações, encarregar-se-ão de encontrar uma solução violenta e desproporcionada.

Em Portugal, felizmente de uma forma muito menos grave, é o que acontece com a etnia Cigana. Que já é a grande bandeira do Chega. 

Certo é que não se pode continuar a assobiar para o lado, a fingir que não se passa nada.

 

Estúpidos e irresponsáveis

por henrique pereira dos santos, em 19.10.20

Numa conversa civilizada, entre pessoas civilizadas, os negacionistas eram tratados de estúpidos e irresponsáveis para baixo.

O conceito de negacionista não era claro, mas pareceu-me que englobava todos os que se limitam a repetir que não há evidência de que a evolução da epidemia esteja a ser controlada pelos comportamentos individuais - a ideia de que os vírus não estão adaptados à diversidade dos comportamentos individuais que nos caracterizam é uma ideia muito estranha para mim, tal como me parece estranha a ideia de que a nossa capacidade de adaptação ao contexto é brutal, ao contrário da capacidade de adaptação do vírus, que é mínima - e, consequentemente, procuram discutir cada medida de gestão da epidemia numa base de custo/ benefício para o conjunto da sociedade, em detrimento de o fazer unidimensionalmente com base no hipotético benefício para a quebra das cadeias de contágio e outras quimeras do mesmo tipo, sem qualquer consideração pelos efeitos laterais das medidas tomadas.

Irresponsáveis, porque discutem a autoridade e as medidas, querem saber por que raio deverá haver uma obrigatoriedade de uso de máscaras em espaços abertos, ao arrepio das recomendações da Organização Mundial de Saúde, estúpidos porque não percebem o que se está a passar, o que tem como resultado que o comportamento de alguns põe todos em risco.

A ostracização da maçã podre, a eliminação do elemento que traz a podridão ao conjunto, é uma das linhas de força da comunicação dos regimes que destestam ovelhas negras porque tem uma grande virtude: faz de cada um de nós um polícia da podridão dos outros.

Se todos cumpríssemos todas as regras como deve ser, já teríamos resolvido isto, mas há sempre quem passe o tempo a lançar a confusão: “A conclusão a que chegámos é que a evolução clínica, e estamos a falar em doentes, é mais relevante do que a evolução laboratorial para determinar se um indivíduo se mantém ou não infecioso. Estas pessoas se tiverem tido doença ligeira ou doença assintomática mas com teste positivo, se ao décimo dia não tiverem febre e agravamento dos sintomas considera-se que não estão a infetar outras”.

Lá está, esta ideia de precedência da avaliação clínica sobre a avaliação laboratorial é um perigo para todos porque deixa à solta milhões de assintomáticos que estão por aí a fazer a infecção progredir.

E mais, dar liberdade a pessoas sem necessidade de teste negativo é, para além de estúpido, completamente irresponsável.

Se esta campanha negacionista continua, não sei mesmo o que um dia poderá dizer Graça Freitas, depois do que disse hoje na citação acima, às tantas ainda vai concluir que afinal a mortalidade é mais baixa do que se pensava, que afinal existia alguma imunidade e não é preciso deixar infectar 60% das pessoas para parar cada surto, que se calhar é preciso concentrar recursos na protecção dos vulneráveis em vez de os gastar em milhares de testes e seguimento com os quais se pretende quebrar cadeias de contágio, que a quebra da economia vai reduzir os recursos disponíveis para a saúde pública, que haver aumentos de doentes respiratórios no Outono/ Inverno é da natureza das coisas e, horror e maldição, vender álccol depois das oito da noite é completamente irrelevante para o desenvolvimento da epidemia.

Se não se acabar já com os malandros que dizem coisas, como felizmente está a acontecer em muitos sítios, ainda vai aparecer alguém a dizer que a pobreza é o principal factor associado à doença e que não é grande ideia tentar parar uma doença (os resultados das políticas de supressão da actividade viral no Verão estão a ser fantásticos e bloquearam a actividade viral no Outono/ Inverno em toda a Europa, como qualquer pessoa pode verificar) através de medidas de eficácia duvidosa e efeitos bem concretos e reais no aumento da pobreza.

Uma tarde bem passada

por Corta-fitas, em 19.10.20

favas.jpg

Por José Meireles Graça

A Blogosfera, diz-se, está decadente. Já penduraram as botas muitos blogues que foram populares, e não poucas estrelas deste meio aterraram em governos e empresas, colunas de opinião pagas nos jornais e programas de televisão com sorte vária.

Não fui, por preguiça, conferir se é assim: o número de visitas está registado, e pode-se comparar com épocas pretéritas.

Se for, nada garante que a tendência seja mais do que passageira. E seria muito mau se fosse inelutável porque não se perceberia a benefício de quê:

Da imprensa? Mas esta luta para sobreviver, não encontrou maneira de captar os leitores que lhe fugiram para a internet dos conteúdos grátis, mesmo que sumários, mas mais próximos dos acontecimentos, e pelo menos entre nós transformou-se quase toda numa caixa de ressonância da Geringonça e de quanta patetice bem-pensante anda no ar da opinião práfrentex, tudo servido por jornalistas que desistiram de investigar e reportar histórias e embrulham as notícias tendenciosas redigidas em português de trapos numa autodesignada magistratura de opinião.

Da televisão? Esta divide-se em canais que se guerreiam no tipo particular de lixo que atrai o maior número de espectadores e os programas de opinião, parentes pobres, são normalmente preenchidos por senadores cuja independência é inversamente proporcional aos seus interesses de carreira ou outros.

Das outras redes? Quais? O Facebook dos cotas, entupido de gente que imagina que tem alguma coisa a dizer? O Twitter, um esgoto a céu aberto de espirros opinativos? O WhatsApp do pirateio de conteúdos? O Instagram das fotografias de gatinhos, bikinis, viagens e pratos suspeitos de cozinha criativa, onde a ignorância culinária se casa com o desprezo da tradição?

Que se amanhem: até mais ver o melhor da opinião, salvo escassa meia dúzia de próceres com banca montada nos jornais, está ainda na blogosfera. E nesta, além da casa que me acolhe, mantém os pergaminhos serenos (e antigos: acho que já tem mais de uma dúzia de anos) o Corta-fitas.

Pois aquela gente qualidade tem, mas juízo nem por isso: este ano fui o convidado extra para o almoço de confraternização. E, lisonjeado, lá fui, e comecei por me deixar enganar pelo TomTom no endereço, indo parar, em vez do Estoril, a uma praceta com o nome indicado, mas em Sassoeiros. Um moço numa carrinha de entregas rapou do seu telemóvel xpto, conferiu na aplicação Waze, e explicou-me não apenas como chegar ao destino mas como tirar partido do tablet que me viu nas mãos. Se soubesse quem eu era, e do que penso e tenho dito sobre a geração mais bem formada de sempre, pergunto-me se teria sido tão generosamente simpático e prestável. Enfim, lá cheguei esbaforido, com três quartos de hora de atraso, e as minhas explicações foram aceites com equanimidade.

Fui recebido pelo dono da casa, que conheço há muito pessoalmente de andanças partidárias (somos militantes do mesmo partido), e pela família, que com simpatia e sem alarde me pôs à vontade. João Távora é um original: monárquico e católico devoto, defende as suas convicções políticas com inalterável urbanidade e assinalável modéstia e contenção, deplorando os ódios pessoais internos, e a guerrilha, que são o dia-a-dia dos partidos; e do seu catolicismo dá um exemplo de vida como pai de família exemplar e cidadão probo, sem sombra de proselitismo. A tudo soma a qualidade de um autor com um estilo pessoal e escorreito que nada deve a modas, e que só é intimista quando calha manifestar o seu desconforto com pessoas e coisas que ofendem o seu sentido apurado do certo e do justo.

Estava o Henrique Pereira dos Santos, com quem já tinha falado algumas vezes mas nunca pessoalmente, e que é, para certos efeitos, um dos meus raros maître à penser: sobre fogos, aprendi com ele que o combate que os poderes públicos lhes têm feito, e que diligentemente é trombeteado pela comunicação social, assenta em pressupostos cientificamente errados, por os mecanismos adequados para lidar com o problema serem, infelizmente, contra-intuitivos; e, sobre a Covid, que os mesmos erros se estão a repetir – o que parece óbvio, isto é, combater a infecção por todos os meios, tem causado mais problemas do que os que resolve. As complexidades de um assunto e outro não cabem num resumo em duas linhas, mas está aí, extante, todo um acervo de textos dele para, quem quiser, aprofundar esses assuntos.

Estava o José Mendonça da Cruz, o que me levou a dizer, ao ser apresentado, que era um grande alívio constatar que havia alguém ainda mais reaccionário do que eu (costuma há muito tempo dizer com desassombro o que pensa do país e do mundo, para meu deleite). Uma provável injustiça, para não lhe chamar deselegância, que o próprio encarou com a bonomia das pessoas superiores – que é.

E estavam o José Miguel Roque Martins, que comecei a ler há não muito tempo mas já figura obrigatoriamente no meu feed, e o Vasco Mina, que hoje escreve pouco, talvez para sossego dele – mas prejuízo nosso.

E o almoço em si, então, que tal? A bem dizer, teria dado por bem empregue o meu tempo mesmo que tivesse tido direito a uma ementa moderninha, de cozinha criativa, acompanhada de uma zurrapa vistosa. Nada disso: pratos de confecção canónica, dos quais repeti a favada, um tinto lisonjeiro a empurrar.

Suspeito, mas não confirmei, que a sombra tutelar da dona da casa deve ter pairado na lhaneza do acolhimento, na boa disposição dos comensais e na tarde ensolarada preenchida com conversa amena na varanda. Quando chegou o tempo da despedida, passava das seis da tarde, e parecia que tinha chegado há meia hora.

Obrigado, João, pelo convite. E aos outros pela paciência.




Corta-fitas

Inaugurações, implosões, panegíricos e vitupérios.

Contacte-nos: bloguecortafitas(arroba)gmail.com




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