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Público?! DN?! Expresso?! É tudo uns ingratos!

por José Mendonça da Cruz, em 20.10.20

A entrevista do senhor primeiro-ministro António Costa, ontem, à Tvi, deixou-me perplexo. Não porque a tenha visto, que não vi, evidentemente -- pois, ao contrário da direcção de informação da Tvi, não me passou pela cabeça que essa entrevista pudesse ser interessante, útil, oportuna ou informativa.

Não, a razão da minha perplexidade resulta de que, ao contrário do que eu previra e esperava, nem Público, nem Diário Notícias, nem Expresso nas suas versões online tenham feito manchete com algum pormenor dos esforços do pobre homem e da direção veneranda e obrigada da Tvi.

Ah, o futuro já não é o que era.

Samuel Paty

por Jose Miguel Roque Martins, em 20.10.20

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Na passada sexta feira, Samuel Paty, foi cruelmente assinado e decapitado, em França. Mais uma vitima do islamismo brutal e da incapacidade das democracias liberais em lidarem com quem faz tabua rasa dos seus princípios básicos.

A solução deste tipo de problemas, a coabitação no Ocidente, com minorias culturalmente opostas, não é fácil nem óbvia. O principio da igualdade não deve ser ferido. Mas não se pode tratar de forma diferente o que é igual nem de forma igual o que é diferente. Se não houver capacidade para o assumir, de forma justa mas firme, a frustração das populações, encarregar-se-ão de encontrar uma solução violenta e desproporcionada.

Em Portugal, felizmente de uma forma muito menos grave, é o que acontece com a etnia Cigana. Que já é a grande bandeira do Chega. 

Certo é que não se pode continuar a assobiar para o lado, a fingir que não se passa nada.

 

Estúpidos e irresponsáveis

por henrique pereira dos santos, em 19.10.20

Numa conversa civilizada, entre pessoas civilizadas, os negacionistas eram tratados de estúpidos e irresponsáveis para baixo.

O conceito de negacionista não era claro, mas pareceu-me que englobava todos os que se limitam a repetir que não há evidência de que a evolução da epidemia esteja a ser controlada pelos comportamentos individuais - a ideia de que os vírus não estão adaptados à diversidade dos comportamentos individuais que nos caracterizam é uma ideia muito estranha para mim, tal como me parece estranha a ideia de que a nossa capacidade de adaptação ao contexto é brutal, ao contrário da capacidade de adaptação do vírus, que é mínima - e, consequentemente, procuram discutir cada medida de gestão da epidemia numa base de custo/ benefício para o conjunto da sociedade, em detrimento de o fazer unidimensionalmente com base no hipotético benefício para a quebra das cadeias de contágio e outras quimeras do mesmo tipo, sem qualquer consideração pelos efeitos laterais das medidas tomadas.

Irresponsáveis, porque discutem a autoridade e as medidas, querem saber por que raio deverá haver uma obrigatoriedade de uso de máscaras em espaços abertos, ao arrepio das recomendações da Organização Mundial de Saúde, estúpidos porque não percebem o que se está a passar, o que tem como resultado que o comportamento de alguns põe todos em risco.

A ostracização da maçã podre, a eliminação do elemento que traz a podridão ao conjunto, é uma das linhas de força da comunicação dos regimes que destestam ovelhas negras porque tem uma grande virtude: faz de cada um de nós um polícia da podridão dos outros.

Se todos cumpríssemos todas as regras como deve ser, já teríamos resolvido isto, mas há sempre quem passe o tempo a lançar a confusão: “A conclusão a que chegámos é que a evolução clínica, e estamos a falar em doentes, é mais relevante do que a evolução laboratorial para determinar se um indivíduo se mantém ou não infecioso. Estas pessoas se tiverem tido doença ligeira ou doença assintomática mas com teste positivo, se ao décimo dia não tiverem febre e agravamento dos sintomas considera-se que não estão a infetar outras”.

Lá está, esta ideia de precedência da avaliação clínica sobre a avaliação laboratorial é um perigo para todos porque deixa à solta milhões de assintomáticos que estão por aí a fazer a infecção progredir.

E mais, dar liberdade a pessoas sem necessidade de teste negativo é, para além de estúpido, completamente irresponsável.

Se esta campanha negacionista continua, não sei mesmo o que um dia poderá dizer Graça Freitas, depois do que disse hoje na citação acima, às tantas ainda vai concluir que afinal a mortalidade é mais baixa do que se pensava, que afinal existia alguma imunidade e não é preciso deixar infectar 60% das pessoas para parar cada surto, que se calhar é preciso concentrar recursos na protecção dos vulneráveis em vez de os gastar em milhares de testes e seguimento com os quais se pretende quebrar cadeias de contágio, que a quebra da economia vai reduzir os recursos disponíveis para a saúde pública, que haver aumentos de doentes respiratórios no Outono/ Inverno é da natureza das coisas e, horror e maldição, vender álccol depois das oito da noite é completamente irrelevante para o desenvolvimento da epidemia.

Se não se acabar já com os malandros que dizem coisas, como felizmente está a acontecer em muitos sítios, ainda vai aparecer alguém a dizer que a pobreza é o principal factor associado à doença e que não é grande ideia tentar parar uma doença (os resultados das políticas de supressão da actividade viral no Verão estão a ser fantásticos e bloquearam a actividade viral no Outono/ Inverno em toda a Europa, como qualquer pessoa pode verificar) através de medidas de eficácia duvidosa e efeitos bem concretos e reais no aumento da pobreza.

Uma tarde bem passada

por Corta-fitas, em 19.10.20

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Por José Meireles Graça

A Blogosfera, diz-se, está decadente. Já penduraram as botas muitos blogues que foram populares, e não poucas estrelas deste meio aterraram em governos e empresas, colunas de opinião pagas nos jornais e programas de televisão com sorte vária.

Não fui, por preguiça, conferir se é assim: o número de visitas está registado, e pode-se comparar com épocas pretéritas.

Se for, nada garante que a tendência seja mais do que passageira. E seria muito mau se fosse inelutável porque não se perceberia a benefício de quê:

Da imprensa? Mas esta luta para sobreviver, não encontrou maneira de captar os leitores que lhe fugiram para a internet dos conteúdos grátis, mesmo que sumários, mas mais próximos dos acontecimentos, e pelo menos entre nós transformou-se quase toda numa caixa de ressonância da Geringonça e de quanta patetice bem-pensante anda no ar da opinião práfrentex, tudo servido por jornalistas que desistiram de investigar e reportar histórias e embrulham as notícias tendenciosas redigidas em português de trapos numa autodesignada magistratura de opinião.

Da televisão? Esta divide-se em canais que se guerreiam no tipo particular de lixo que atrai o maior número de espectadores e os programas de opinião, parentes pobres, são normalmente preenchidos por senadores cuja independência é inversamente proporcional aos seus interesses de carreira ou outros.

Das outras redes? Quais? O Facebook dos cotas, entupido de gente que imagina que tem alguma coisa a dizer? O Twitter, um esgoto a céu aberto de espirros opinativos? O WhatsApp do pirateio de conteúdos? O Instagram das fotografias de gatinhos, bikinis, viagens e pratos suspeitos de cozinha criativa, onde a ignorância culinária se casa com o desprezo da tradição?

Que se amanhem: até mais ver o melhor da opinião, salvo escassa meia dúzia de próceres com banca montada nos jornais, está ainda na blogosfera. E nesta, além da casa que me acolhe, mantém os pergaminhos serenos (e antigos: acho que já tem mais de uma dúzia de anos) o Corta-fitas.

Pois aquela gente qualidade tem, mas juízo nem por isso: este ano fui o convidado extra para o almoço de confraternização. E, lisonjeado, lá fui, e comecei por me deixar enganar pelo TomTom no endereço, indo parar, em vez do Estoril, a uma praceta com o nome indicado, mas em Sassoeiros. Um moço numa carrinha de entregas rapou do seu telemóvel xpto, conferiu na aplicação Waze, e explicou-me não apenas como chegar ao destino mas como tirar partido do tablet que me viu nas mãos. Se soubesse quem eu era, e do que penso e tenho dito sobre a geração mais bem formada de sempre, pergunto-me se teria sido tão generosamente simpático e prestável. Enfim, lá cheguei esbaforido, com três quartos de hora de atraso, e as minhas explicações foram aceites com equanimidade.

Fui recebido pelo dono da casa, que conheço há muito pessoalmente de andanças partidárias (somos militantes do mesmo partido), e pela família, que com simpatia e sem alarde me pôs à vontade. João Távora é um original: monárquico e católico devoto, defende as suas convicções políticas com inalterável urbanidade e assinalável modéstia e contenção, deplorando os ódios pessoais internos, e a guerrilha, que são o dia-a-dia dos partidos; e do seu catolicismo dá um exemplo de vida como pai de família exemplar e cidadão probo, sem sombra de proselitismo. A tudo soma a qualidade de um autor com um estilo pessoal e escorreito que nada deve a modas, e que só é intimista quando calha manifestar o seu desconforto com pessoas e coisas que ofendem o seu sentido apurado do certo e do justo.

Estava o Henrique Pereira dos Santos, com quem já tinha falado algumas vezes mas nunca pessoalmente, e que é, para certos efeitos, um dos meus raros maître à penser: sobre fogos, aprendi com ele que o combate que os poderes públicos lhes têm feito, e que diligentemente é trombeteado pela comunicação social, assenta em pressupostos cientificamente errados, por os mecanismos adequados para lidar com o problema serem, infelizmente, contra-intuitivos; e, sobre a Covid, que os mesmos erros se estão a repetir – o que parece óbvio, isto é, combater a infecção por todos os meios, tem causado mais problemas do que os que resolve. As complexidades de um assunto e outro não cabem num resumo em duas linhas, mas está aí, extante, todo um acervo de textos dele para, quem quiser, aprofundar esses assuntos.

Estava o José Mendonça da Cruz, o que me levou a dizer, ao ser apresentado, que era um grande alívio constatar que havia alguém ainda mais reaccionário do que eu (costuma há muito tempo dizer com desassombro o que pensa do país e do mundo, para meu deleite). Uma provável injustiça, para não lhe chamar deselegância, que o próprio encarou com a bonomia das pessoas superiores – que é.

E estavam o José Miguel Roque Martins, que comecei a ler há não muito tempo mas já figura obrigatoriamente no meu feed, e o Vasco Mina, que hoje escreve pouco, talvez para sossego dele – mas prejuízo nosso.

E o almoço em si, então, que tal? A bem dizer, teria dado por bem empregue o meu tempo mesmo que tivesse tido direito a uma ementa moderninha, de cozinha criativa, acompanhada de uma zurrapa vistosa. Nada disso: pratos de confecção canónica, dos quais repeti a favada, um tinto lisonjeiro a empurrar.

Suspeito, mas não confirmei, que a sombra tutelar da dona da casa deve ter pairado na lhaneza do acolhimento, na boa disposição dos comensais e na tarde ensolarada preenchida com conversa amena na varanda. Quando chegou o tempo da despedida, passava das seis da tarde, e parecia que tinha chegado há meia hora.

Obrigado, João, pelo convite. E aos outros pela paciência.

Marcelo e eu

por henrique pereira dos santos, em 19.10.20

Percebi que o Senhor Presidente se fez hoje fotografar a apanhar a vacina da gripe.

Acontece que hoje recebi da farmácia um SMS a dizer que tinham chegado as vacinas à farmácia, que havia pouco stock, e que se vacinariam as pessoas por ordem de chegada.

Isto resulta do facto de ter um médico que é um radical da covid e achou melhor que eu apanhasse a vacina este ano, mas também da minha mulher, que é de altíssimo risco, insistir para eu tratar do assunto.

Chego à farmácia e perguntam-me a idade, explicando logo que abaixo dos 65 anos não vacinavam ninguém porque só tinham chegado 20% das encomendas e com indicações estritas de prioridades dadas pela DGS, não sabendo quando viria um stock suficiente para as encomendas porque o SNS tinha ficado com as vacinas quase todas.

O Senhor Presidente é mais velho, está portanto nos grupos prioritários de vacinação (definidos apenas em função da idade e não da condição de saúde de cada um, mas isso são outros quinhentos).

Encolho os ombros e fico à espera de quando houver vacinas (mesmo vivendo, como disse, com quem é de elevado risco, mas isso é uma coisa que terei sempre de gerir diariamente, com ou sem vacinas).

Não sei é se a exibição do privilégio é a maneira mais inteligente de motivar um povo a vacinar-se.

Bem sei que a Rainha Vitória se ataviava o melhor que podia para ir visitar zonas pobres, com o argumento de que ninguém estava ali para ver a Vitória mas sim a Rainha, e era por respeito para com os mais pobres que ela não lhes podia fazer a desfeita de os desiludir.

Mas não, não é disso que se trata, é mesmo de um tratamento especial - já agora, que se justifica inteiramente, o Presidente da República merece um tratamento diferente do de Marcelo, mesmo que o próprio tenha dificuldade em compreender isso - no acesso à prevenção da doença.

Aí talvez se justifique a resposta de outra Rainha, quando pretenderam levar a família real para o Canadá (nunca confirmei a história, que é boa, porque não troco uma boa história por uma história verdadeira) durante a segunda guerra, para a proteger dos bombardeamentos alemães: os meus filhos não vão porque estão onde estiver a mãe, a mãe não vai porque está onde estiver o Rei, e o rei não vai porque está onde estiver o seu povo.

Domingo

por João Távora, em 18.10.20

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo, os fariseus reuniram-se para deliberar sobre a maneira de surpreender Jesus no que dissesse. Enviaram-Lhe alguns dos seus discípulos, juntamente com os herodianos, e disseram-Lhe: «Mestre, sabemos que és sincero e que ensinas, segundo a verdade, o caminho de Deus, sem te deixares influenciar por ninguém, pois não fazes acepção de pessoas. Diz-nos o teu parecer: É lícito ou não pagar tributo a César?». Jesus, conhecendo a sua malícia, respondeu: «Porque Me tentais, hipócritas? Mostrai-me a moeda do tributo». Eles apresentaram-Lhe um denário e Jesus perguntou: «De quem é esta imagem e esta inscrição?». Eles responderam: «De César». Disse-Lhes Jesus: «Então, dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus».

Palavra da salvação.

Cassandra

por henrique pereira dos santos, em 17.10.20

Cassandra tinha o dom de profetizar e a maldição de ninguém lhe dar ouvidos.

Cientes deste problema, há milénios que os profetas inventaram uma forma de se defender.

Profetizam, por exemplo, que neste Outono/ Inverno, na Europa, vão morrer cinco vezes mais pessoas com covid que no Outono/ Inverno precedente (verificar as profecias da Organização Mundial de Saúde).

A profecia, em si, não parece difícil de cumprir: as doenças respiratórias no hemisfério Norte temperado ocorrem sobretudo no Outono/ Inverno e, da primeira para a segunda época de gripe (e doenças de mesmo tipo), foi montado todo um sistema de teste que, com elevada probabilidade, identificará mais mortos com a doença, que ainda por cima foi tardia na primeira época avaliada.

Conhecendo a maldição de Cassandra, introduz-se uma nuance: a profecia cumprir-se-á se não forem adoptados estas e aquelas condições.

A natureza das condições varia com as épocas, antigamente eram mais prescrições relativas à moral sexual, à impiedade ou ao abandono do culto devido aos deuses a que estavam ligadas as profecias, hoje são coisas com eficácia semelhante, mas mais concretas, como usar máscaras ou horários de abertura e fecho de estabelecimentos comerciais, mas a ideia central é a mesma.

Se a profecia se cumprir, o profeta é o maior.

Se a profecia não se cumprir, por defeito, está demonstrada a eficácia das condições referidas.

Se a profecia não se cumprir, por excesso, basta ir buscar uns exemplos concretos de incumprimento grosseiro das condições (por exemplo, um fim de semana longo de 5 de Outubro em que as famílias se juntaram em casa por causa da chuva, ou outro qualquer à escolha, parece que o Diário de Notícias traz hoje cinco exemplos de reuniões familiares que deram origem a 171 infectados, mas não li a notícia e portanto não sei se ficou alguém doente, admito que sim) para explicar por que razão Sodoma e Gomorra devem ser destruídas e as condições prévias devem ser reforçadas até que os deuses, ou os vírus, se acalmem.

Em qualquer caso, os profetas estão sempre em vantagem em relação a quem se limita a olhar para os factos que conhece de uma natureza complexa, procurando entendê-los racionalmente, sabendo que no fim, só saberá que nada sabe (e ainda se arrisca a ter de beber uma cicuta, produto natural e do mais biológico que há) e, pelo meio, vai com certeza acumular erros sobre erros, como é próprio dos processos de aprendizagem.

A quem interessa ouvir Descartes quando há Cassandra, a mais bonita das filhas do último rei de Tróia e amada pelos deuses?

A TAP é nossa. Já podemos despedir 1600

por José Mendonça da Cruz, em 16.10.20

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«A TAP é nossa para o bem e para o mal», disse Pedro Nuno Santos. O bem são as «receitas (que) também serão nossas» daqui a umas décadas, quando a TAP as tiver; o mal vem mais depressa, com o despedimento de 1600 trabalhadores do grupo até ao fim do ano, como foi anunciado na Comissão de Economia pelo ministro responsável, o mesmo Pedro Nuno Santos. «Não podemos manter emprego que depois não tem trabalho», declarou ele, falando como um verdadeiro capitalista.

O talento que este homem tem para vociferar umas coisas e depois fazer isso, ou nada, ou o contrário coloca-o à altura do que o PS tem de melhor. Este homem tem futuro.

Liberdade para a Avenida

por João Távora, em 16.10.20

Hoje acordei feliz com a notícia de que a circulação na Avenida da Liberdade vai voltar à normalidade. Ao fim de oito anos duma surreal e sinistra experiência promovida pelo então presidente da câmara António Costa que entupiu o trânsito naquela zona nevrálgica, temos esperança que a cidade comece a ser devolvida aos lisboetas. E que Fernando Medina perceba que o centro da Lisboa não é um cenário para rodar filmes exóticos ou anúncios de televisão. Isso talvez seja mais difícil.

Antes a PIDE-DGS.  Agora a DGS

por Jose Miguel Roque Martins, em 16.10.20

Fez-se uma revolução, mudou-se de regime, prometeu-se liberdade e democracia e a PIDE-DGS foi extinta.

Vem uma pandemia e estamos debaixo de outra DGS, neste caso a Direção Geral de Saúde. Uma comparação entre as duas DGS ´s parece um exagero. A atual DGS não tortura e não prende pessoas. Mas tal como a PIDE, serve os desígnios de um regime, cerceando a liberdade individual, e usando técnicas de terror com desígnios meramente políticos.

O governo não assume que uma pandemia tem uma vida própria, que nenhum SNS está à altura de uma emergência deste tipo, que, sem culpa, é impotente para a travar. Que, inevitavelmente, vão existir vitimas, mesmo com os devidos cuidados, como sempre aconteceu nestes casos.

Ao invés escolheu uma política de terror dupla. Por um lado previne que, se a pandemia avançar,  não vai haver capacidade de tratar as vitimas e que qualquer um pode ser vítima dessa falta de meios. Por outro, assegura que está na mão dos cidadãos fazer com que a pandemia não tenha consequências. Bastará para tanto seguir as regras, clara e cientificamente estabelecidas.

Se as coisas correrem mal, como fatalmente acontecerá, a responsabilidade é dos cidadãos, nunca do governo. Mesmo que os Portugueses tenham que andar de metro,  trabalhar fora do teletrabalho ou,  valha-nos Nossa Senhora da Agrela, viverem com outras pessoas.

A infecção só resulta dos outros contactos, protagonizados pelos malandros que vão a casamentos, a batizados, a bares, a restaurantes e continuam teimosamente a conviver (antes o problema foi dos trabalhadores da construção civil). Mesmo que esses tresloucados deixem de existir, o governo está safo, já que ninguém pode provar a inexistência desses contactos imorais. Os mais velhos, nos lares, lá terão que morrer de depressão, já que de Covid é que não pode ser.

Para sacudir a água do capote, como a pandemia implica vitimas mortais, lançam o estigma da culpa aos cidadãos. Que por serem responsáveis por infecções, passam a assassinos. Mais terror do que este, não há!

A limitação das liberdades individuais, justifica-se para legitimar a falta de responsabilidade do governo nos resultados da pandemia.

Como sempre, as liberdades tolhidas, são para o bem maior.  Tal como acontecia no tempo da PIDE, plenamente justificadas por enquadramentos legais. Por mais absurdas e inúteis, por mais desproporcionadas e invasivas dos direitos dos cidadãos que sejam.

Como sempre, os atropelos aos direitos mais básicos dos cidadãos são necessários, neste caso, para salvaguardar o prestígio do Estado. Na cabeça de alguns, que ele possa proteger a população, exatamente do mesmo tipo de violência a que está a submete-la.

O último episódio burlesco, a pretensa vontade de impor o uso obrigatório de uma aplicação, que não funciona, para telefones que nem todos têm, eleva a fasquia da propaganda política. Anuncia-se, como imprescindível, o que está condenado a não ser implementado. Apenas para reforçar a ideia de que o governo tinha a solução milagrosa. 

Aparentemente vale tudo para proteger o regime e os partidos no poder. Não parecem as criticas que se poderiam fazer ao Estado Novo? Qual a grande diferença para o que se passa hoje?

 

Ps: Obviamente que se os nossos governantes fossem apenas patetas bem intencionados, teria que apresentar desculpas pelo que disse. Mas não me parece.

Sic, TVi e RTP consideram-nos iguais

por José Mendonça da Cruz, em 15.10.20

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A Europa ultrapassou ontem os Estados Unidos em novos casos diários de infecção por Covid-19.

Segundo a Sic, a Tvi e a RTP, as infecções nos EUA devem-se ao facto de o chefe do executivo americano ser ignorante, mentiroso, irresponsável e burro.

As infecções na Europa devem-se, portanto, a crer em Sic, Tvi e RTP, ao facto de António Costa ser ignorante, mentiroso, irresponsável e burro; de Pedro Sanchez ser ignorante, mentiroso, irresponsável e burro; de Macron ser ignorante, mentiroso, irresponsável e burro, etc.

 

 

Sobreviventes

por João Távora, em 15.10.20

tesoura_alfaiate-1.jpgExtraordinário como, apesar do Twitter, do Facebook e da generalização da imprensa online, com quase quinze anos de publicações diárias, o Corta-fitas mantém uma média de mais de duas mil visitas por dia. Os blogs continuam a fazer sentido, principalmente se, na forma e no conteúdo, se diferenciam dos jornais e da escrita profissional. É esse comentário informal, às vezes um pouco descuidado até, e um enorme gosto pela palavra escrita que nos distingue - aqui só escrevemos quando nos apetece. 

Curioso como o Corta-fitas, um blog colectivo que sempre acomodou diferentes sensibilidades e narizes, acabou ultrapassando as suas crises existenciais e a elas sobreviveu – nos últimos anos estabilizámos. Julgo que a nossa longevidade deve-se a um misto de maturidade, teimosia e desprendimento – aqui todos temos a noção que não influenciamos nada nem ninguém. Foi com este espírito que fidelizámos os nossos leitores que amiúde nos visitam, e sabem a onda que aqui irão encontrar: diferentes estilos, manias e sensibilidades para se inspirarem, embirrarem, anuírem, oporem-se ou até odiarem – é admirável a disposição de alguns fregueses fiéis que, conhecendo a frequência desta casa, teimosamente gravitam à nossa volta só para expelir rancor. Até esses são bem-vindos. Ademais é esse retorno que, seja pelas caixas de comentários, seja por testemunhos pessoais, nos anima a continuar por aqui. E as amizades que ao longo destes anos nasceram ou fortificaram por cá – isso não têm preço.

Sem comentários

por henrique pereira dos santos, em 15.10.20

Com base em Artur Rodrigues

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O dogmatismo mata mais do que o Covid

por Jose Miguel Roque Martins, em 15.10.20

 

É óbvio que numa emergência como a atual, todos os meios de saúde vão ter que trabalhar para além dos seus limites. Sejam públicos, privados ou sociais.

Se assim não for,  é inevitável que vão morrer mais pessoas por falta de cuidados, do que seria inevitável, como aliás já aconteceu. 

É por isso extraordinário que o apelo dos últimos bastonários, apelando á mobilização dos meios privados e sociais da saúde , seja necessária e que enfrente oposição.

A admissão da necessidade do Privado, para alguns, é mais difícil do que aceitar a morte de seres humanos, pelo menos se for a dos outros.

Não tenhamos duvidas, neste caso e em muitos outros, o dogmatismo mata mais do que o Covid.

 

 

 

Abanão

por henrique pereira dos santos, em 15.10.20

"Senti muito claramente que era preciso haver um abanão na sociedade".

É assim que nosso primeiro ministro explica a estratégia de gestão da epidemia.

Vai daí, declara que muda o estado do país disto para aquilo (confesso que acho divertidíssima esta ideia de que o estado do país se altera com declarações, seja de quem for, mas adiante) e "anunciou as oito novas medidas que têm pouco impacto "no emprego, nas empresas e nos rendimentos", como explicou ao Público, e cujo propósito é reajustar o comportamento da população para uma nova fase pandémica que considerou "grave"".

Eduardo Maximino fez uma boa síntese da coisa: "A conclusão óbvia disto tudo é que as máscaras indoor, a proibição de ajuntamentos de mais de 10 pessoas e, claro, os garotos não poderem beber álcool na rua, evitaram que em Agosto e Setembro tivéssemos os números que temos em meados de Outubro. Ou então não, os números, mais para a esquerda ou mais para a direita, seriam os mesmos, e as limitações impostas na altura, como as de agora não servem de nada e a infecção segue o seu curso natural. No fundo, o vírus é como o cão que obedecia sempre ao dono alentejano. Bobby, vens ou ficas? E ele ou ia ou ficava".

Já Henrique Barros, presidente do Conselho Nacional de Saúde - de quem já comentei declarações no Corta-fitas, discordando, sendo impossível negar que nos separa alguma divergência sobre gestão de risco - ficou mesmo irritado com o abanão: "são medidas altamente autoritárias. Isto é um sinal evidente de uma imensa desorientação, não é política baseada na evidência, é política a tentar criar evidência. Isto indigna-me não só pelo lado autoritário mas também pela estupidez, porque a história ensina-nos que nunca se consegue combater com eficácia uma crise sanitária com medidas repressivas".

Henrique Barros labora num erro compreensível: o de que António Costa está focado na gestão da epidemia e não na gestão do eleitorado, quando anuncia este tipo de medidas.

Se mais de 80% dos portugueses são favoráveis ao uso obrigatório de máscaras ao ar livre, o que é que interessa se isso tem ou não algum impacto na evolução da epidemia?

Se a generalidade das pessoas estão convencidas de que se os outros - são sempre os outros, claro - se portarem bem, controlamos a epidemia, o que é que interessa o facto de não saberem explicar por que razão em tantos países, com tantas abordagens diferentes, os números reflectem um aumento da actividade viral simultâneo?

António Costa gostaria mais de ter a epidemia mais controlada que menos controlada, claro, e, na medida do possível, tomará medidas que lhe pareçam úteis para limitar os efeitos da epidemia, mas não confunde prioridades: em qualquer caso, quaisquer que sejam as decisões, o essencial é que não possa ser responsabilizado por uma evolução da epidemia que os eleitores considerem negativa.

O que conta é dar um abanão para reajustar o comportamento da população, para evitar que o comportamento da população reajuste os resultados eleitorais que dêem um abanão em António Costa.

A epidemia, paciência, é como o bobby do alentejano descrito acima: ou fica, ou vai.

Vem a meus braços, Marta

por henrique pereira dos santos, em 14.10.20

"De acordo com as estimativas do Instituto Ricardo Jorge estamos a enfrentar uma situação de contágios crescente, que tem tendência a agravar-se nos próximos dias, tendo em conta os modelos matemáticos"

Marta Temido, hoje, a dizer que afinal isto evolui por si.

Claro que vai dizendo que isto é assim "se não forem cumpridas as medidas de prevenção" (noblesse oblige), mas se isto não fosse uma declaração de circunstância, quereria dizer que ou não existem medidas de prevenção, ou são insuficientes, ou existem, são suficientes, mas não estão a ser cumpridas.

Ora com tanta gente de máscara na rua (para já não falar dos espaços fechados), com a venda de álcool proibida a partir das oito, com as distâncias de segurança instituídas, com os bares fechados, com os restaurantes a meio gás, com as escolas cheias de regras que as tornam completamente seguras, com transportes públicos desinfectados e cheios de mascarados, com milhares de trabalhadores em tele-trabalho, com o isolamento dos casos positivos, com os milhares de testes diários, com os teatros, cinemas e concertos como estão, os modelos matemáticos ainda prevêem três mil casos positivos um dia destes?

De que medidas fala então Marta Temido que, sendo cumpridas, nos poderiam impedir de ter três mil casos dentro de pouco tempo?

Com inícios de ensino presencial completamente desfasados pela Europa toda, o aumento de casos positivos é mais ou menos simultâneo (há diferenças, claro, Espanha parece ter começado mais cedo, agora são outros, parece que na Suécia só agora começaram a subir mais acentuadamente) porque ninguém cumpre medidas ou não existem?

O mais provável é que finalmente Marta Temido esteja a admitir que a evolução da epidemia não depende sobretudo da nossa responsabilidade individual, que tem uma dinâmica interna com a qual temos de conviver, e que não está na nossa mão esmagar a actividade viral, um bom prenúncio para uma progressiva mudança estratégica (eu sei, eu sei, é preciso salvar a face, a coisa tem de ir indo devagar) que se desvie do objectivo de extinguir a actividade viral na sociedade e se aproxime do objectivo de limitar os efeitos negativos da epidemia nos grupos de risco.

E, sendo assim, vem a meus braços, camarada.

Perplexidades

por henrique pereira dos santos, em 13.10.20

"Imaginemos que hoje ocorreram mil infeções e nós, daqui a cinco dias, só detetamos 800. Isso significa que estamos com um défice de 200 casos. Ora, se o R(t) for 1,1, os mil casos de hoje vão infetar 1.100. E se detetarmos menos do que o número de infeções que estão a ocorrer, estamos a perder a corrida e o vírus vai avançando muito mais rapidamente. Por isso é que, a dada altura, consigo identificar as cadeias de transmissão e encontro uma série de infetados em excesso. Foi o que aconteceu e o que justifica o aumento desta semana.

A meta basicamente é quando nós atingimos o pico e quando conseguimos ser mais rápidos do que o vírus, começamos a detetar casos mais rápido do que essa propagação. Aí é que a curva começa a diminuir. A estratégia deve ser tentarmos ser mais eficientes nos inquéritos epidemiológicos, no seguimento dos surtos e das cadeias de transmissão, sermos mais prudentes na nossa proteção, no nosso comportamento social e no distanciamento. Dessa forma, conseguimos reduzir a velocidade do vírus e acelerar a nossa capacidade de teste."

Carlos Antunes, o matemático que está a monitorizar a segunda vaga, segundo o Observador.

Não sei se será das minhas deficiências a matemática, mas confesso que não percebi bem a lógica do que é dito (ou, pelo menos, do que a jornalista diz que é dito).

Se bem entendo, isto é como o jogo das escondidas: quando o vírus é descoberto, morre, mas se não for descoberto a tempo, chega ao coito e salva-se, portanto o objectivo é descobrirmos o vírus que está escondido, antes dele chegar ao coito.

Confesso que nesta estratégia de parar a progressão da epidemia com a quebra das cadeias de contágio há uma coisa que desde o princípio não percebo e de que me lembrei ao ler este segundo parágrafo que citei.

De acordo com os numerosos testes serológicos, os números de casos identificados por laboratório andava por um quinto da real dimensão da infecção (com variações, mas a ordem de grandeza era esta, 80% dos infectados não apareciam nos números oficiais, se não fosse mais).

Vamos admitir que progredimos muito na capacidade e eficácia da testagem, e portanto agora já conseguimos detectar, vá lá, 50% dos infectados. Se se quiser, vamos mesmo inverter os números e vamos admitir que 80% da infecção é detectada pelos testes.

Alguém no seu perfeito juízo acha que quebra cadeias de contágio, de forma relevante ao ponto de condicionar a evolução da epidemia, quando 20% dos infectados, provavelmente também infecciosos, nem sequer são detectados nos testes?

Já nem falo nos infectados que se estão nas tintas para as regras, nos vários dias que decorrem entre ter sintomas, fazer teste e ter o resultado, sabendo que quando aparecem sintomas já se é infeccioso antes e outras deficiências de gestão da parte que os testes detectam.

A questão é mesmo a de saber qual é a eficácia de uma estratégia que se baseia em seguir metade dos infectados sabendo que a outra metade nem sequer é detectada?

Não é o orçamento quem mais ordena

por Jose Miguel Roque Martins, em 13.10.20

O orçamento será o grande tema de discussão nas próximas semanas. Como a nossa divergência sistemática com a Europa demonstra, não é o orçamento quem mais ordena. São sobretudo os atropelos ao Mercado livre e á falta de eficiência como se gastam os recursos que condicionam o nosso progresso.

Gostei no entanto de uma medida, o aumento do subsidio de desemprego. Não só ampara melhor, os muitos, que ficarão desempregados mais tempo, como vai introduzir uma pressão adicional ao Estado para acabar com o desemprego.

Com sorte, talvez se comece a refletir  nas causas do desemprego e como combate-lo com eficácia: através do desenvolvimento económico e sem  salários mínimos e outras restrições que condicionam o emprego.

 

Aprendizes de feiticeiro, ou não

por henrique pereira dos santos, em 13.10.20

Esta notícia sobre a Nova Zelândia e a diminuição de 99,8% da gripe é muito interessante, mas mais interessante é a discussão ideológica que permite.

A ideia central é bem descrita pela pessoa entrevistada: ""What the Covid-19 response has done has largely eliminated those excess winter deaths and mortality as a whole is down around 5 percent," he said. "So that means an extra 1500 people will survive this year who wouldn't have." Baker said these measures had led to "a revolutionary change in thinking about how to deal with respiratory pathogens" and could be brought back in the event of a serious flu pandemic".

Dito assim, a coisa parece óptima.

Volto a analogias com processos naturais que conheço melhor: invasões e fogos. No fundo, a questão põe-se até nos mesmos termos que no artigo em causa se descrevem outros efeitos das medidas tomadas: "lockdown measures had not managed to stop ordinary colds and respiratory illnesses, such as rhinoviruses - which had dropped slightly during lockdown but bounced back soon after".

Ora é exactamente este efeito de boomerang que caracteriza os efeitos de longo prazo associados à eliminação de invasoras ou do fogo através de medidas drásticas e temporalmente limitadas, que não alteram o essencial das características naturais desses processos e se dirigem apenas aos resultados visíveis: depois de uns primeiros êxitos retumbantes, é uma questão de tempo até esses processos naturais voltarem mais fortes e mais difíceis de controlar.

A mim, e digo-o a partir de uma posição ideológica apriorística - a de que somos demasiado pequenos e impotentes para controlarmos a natureza, para todo o sempre, ao mesmo tempo e em todo o lado, como se nós próprios não fôssemos um produto dos processos naturais - parece-me que estamos na enésima promessa de uma sociedade nova, criada por um homem novo, que nos levará à felicidade eterna, sendo mais provável que essa promessa nos leve onde sempre levaram essas promessas que ao cumprimento delas.

A ideia de que daqui para a frente é fantástico adoptar as mesmas medidas que deram este resultado - e nem estou a discutir os resultados que foram obtidos fora da Nova Zelândia para explicitar as minhas dúvidas sobre a exequibilidade de estender a todo o lado a abordagem neo-zelandesa - passando nós a governar sociedades inteiras tendo como objectivo principal garantir a sua assépsia, e não o bem estar e a liberdade dos indivíduos, é uma ideia aterradora, mesmo que me seja apresentada com a vantagem da diminuição de 1500 mortes em excesso por ano.

Na verdade há anos que caminhamos nesse sentido em relação às crianças e as evidências de que isso as deixa menos protegidas para enfrentar o mundo são esmagadoras: parece que precisamos de treinar os nossos sistemas imunitários para não estar à mercê do primeiro problema que tenha fugido do controlo.

Claro que é bom prolongar a vida a 1500 pessoas por ano, aumentar a esperança média de vida e a humanidade tem conseguido muitos e bons resultados nessa matéria.

Mas isso não significa que qualquer meio seja razoável para obter esse fim, não só pelo que isso significa de sofrimento para milhares de outras pessoas que viram a sua vida de pantanas por causa das medidas tomadas, mas também porque há pouca evidência de que, a longo prazo, seja boa ideia adoptar sistemas deste tipo para lidar com doenças infecciosas.

Ontem vi uma entrevista em que uma alemã dizia uma coisa que me pareceu bastante sensata: não é possível evitar contágios em lares, o que é possível é organizar os lares de modo a que um contágio tenha maior dificuldade de se espalhar internamente.

Mutatis mutandis, é o que me parece racional: não é possível eliminar as infecções, os surtos e as epidemias, o que é possível é procurar encontrar formas saudáveis e sustentáveis das nossas sociedades lidarem com as suas consequências, mantendo o que as caracteriza como sociedades humanas livres e solidárias, e não procurando desenhar sociedades totalitárias como condição de eficácia para esmagar epidemias.

A minha vida é sobretudo alegrias

por José Mendonça da Cruz, em 12.10.20

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Vivo no melhor dos mundos, orgulhoso de ser português, e, por isso, um de 10 milhões melhores do mundo, consoante disse o senhor presidente. Eu ainda não apurei – como as têvês estão sempre a dizer que fazem – por que razão ao certo sou o melhor, embora deva confessar que não tenho investigado muito por não me parecer lá muito importante, porque 9 milhões 217 mil e 043 portugueses também não devem saber ao certo, e estão orgulhosos e contentes como eu. Se bem entendo, devemos tudo ao governo – ainda outro dia um jornal que eu nunca li mas me dizem que é muito influente e vende para cima de mil exemplares todos os dias dizia que o vírus é que deu cabo de mais de meio milhão de empregos que nos deu Costa, que é o senhor primeiro ministro, eu peço desculpa de dizer assim, Costa, em vez de senhor António, mas estou só a citar o título… mas, como ia dizendo, devemos tudo ao senhor António, exceto tudo o que tenha resultado ou resulte de alguma crise financeira ou de alguma crise sanitária, para as quais ninguém em país nenhum do mundo pode estar preparado, nem os melhores como nós  – como confirmam até a acenar com a cabeça e com muitos gestos das mãos todos os locutores de todas as têvês e mais o jornal muito influente, e o outro dos sábados, que toda a gente diz que é muito referente.

Não quero que fiquem a pensar porque é que só 9 milhões 217 mil e 043 portugueses se acham melhores sem saberem exatamente porquê, e porque é que não são 10 milhões. Ora, eu explico. Nos 782 957 que se acham melhores, mas que, ao contrário do comum como nós, sabem muito bem porquê, eu conto os 70 senhores ministros e secretários de Estado do governo do senhor António, incluindo o próprio, e mais os 1166 funcionários dos vários gabinetes que tratam do país; com mais os 750 mil funcionários públicos que tratam dos nossos assuntos, e, muito merecidamente, não devem ser despedidos e avançam na carreira conforme os anos que nos dedicam, e não conforme o que fazem, faz 751 mil 166 portugueses contentes e que sabem porquê. Os restantes 31 791 são os amigos do senhor António, e mais os presidentes de Câmara e os amigos deles, e mais as pessoas contratadas por eles e pelo senhor António para fazer estudos e relatórios e obras e coisas para governo de todos.

Este quadro geral é que faz de nós os melhores do mundo, como garante todos os dias o presidente da república, o senhor Marcelo.

Mas a minha felicidade começa no meu bairro. O meu bairro é administrado pelo senhor José, o presidente da junta que é amigo do senhor Fernando da Câmara Municipal de Lisboa e socialista como ele. Todos os socialistas querem fazer um homem novo, mais conforme às nossas ideias. Eu não sei se o senhor Fernando e o senhor José também gostam de homens novos – eu dantes gostava de mulheres novas, apesar de nunca ter andado por aí a gritar que estava orgulhoso disso –, mas vejo com alegria que ele e o amigo dele da junta de freguesia protegem as minorias no meu bairro. Por exemplo, dantes os automóveis andavam livremente no meu bairro, eram às dezenas e às centenas por minuto em todas as ruas e avenidas, mas agora têm que andar a 30 km/h e com cuidado, por causa dos 2 ciclistas ou trotinetistas que passam a cada 90 minutos e vão pelos passeios, mas agora não precisavam de ir. E cada vez há menos lugares de estacionamento, que é para que esses tipos dos carros de alta cilindrada, como dizem os jornalistas, não julguem que isto é tudo deles, e que podem andar para cá e para lá a levar e trazer filhos da escola, e a carregar sacos de supermercado, e a fazer compras no comércio. Deviam era andar todos de bicicleta, para o senhor Fernando poder ver o homem novo dele da janela do Mercedes oficial.

Eu já andava contente mesmo antes disto dos dinheiros que o senhor António vai trazer da Europa, proveniente desta pantomia do vírus. É certo que eu tenho cá as minhas queixas, gostava de ter alguns apoios do Estado – mesmo agradecendo por agora não ter que pagar a renda nem ter que sair – mas compreendo que agora não pode ser; e até nem me cai bem quando lá na empresa entram gajos novos a ganhar praticamente o mesmo que me levou anos a ganhar, derivado ao tal salário mínimo. Mas a gente temos que ser uns para os outros, e compreender que se é para sermos todos iguais tem que ser assim, exceto os do governo do senhor António, derivado às grandes responsabilidades que têm.

Têm as responsabilidades e têm que ouvir maldizentes todos os dias. Ainda agora atacaram o senhor António por mudar todos os chefes das repartições e organismos que fiscalizam como se gasta o dinheiro dos impostos, a dizerem que é para se abotoarem com ele. Más línguas. É tudo velhos do Restelo, como diz um camarada meu, que são aqueles gajos que vivem naquelas mansões. Pois se o senhor António não substituísse as chefias das instituições como é que elas iam funcionar? Às tantas estavam lá todos de rabo colado, a entravar tudo o que o senhor António e os seus ministros e amigos quisessem fazer em nosso bem. O senhor presidente disse bem, que as mudanças eram intencionais, e que um mandato chega muito bem e é o que vem na constituição. Um gajo lá da empresa, que deve ser do antigamente e só diz é mal de tudo, disse que isso de ser só um mandato não vinha na constituição, e que o senhor Marcelo é constitucionalista e sabe isso muito bem, e que, portanto, o discurso dele deve ter sido escrito pelo senhor António. E, então, mesmo que fosse assim, não é o melhor exemplo de cooperação das instituições? O que interessa é que assim temos instituições renovadas, prontas para deixar passar os dinheiros, que isto agora é que vai ser. O senhor António até tem um amigo que em dois dias lhe fez um plano para os gastar bem. Aquilo sim, é que é um amigo: quando descobriu que o senhor António pensava exatamente o mesmo que ele, que o Estado é que devia ficar com tudo, afinal não lhe levou nada pela encomenda.

Havia de ser o quê?!

Se entregassem o dinheiro à malta era tudo a gastar em viagens e carros, e depois não havia mais – mas não se queixem e agradeçam ao senhor António por aliviar a retenção no IRS. É algum dinheiro que fica. Óspois pode-se ter menos retorno ou afinal pagar mais, mas isso é óspois, e com o óspois pode a gente bem.

E se fosse a tirar impostos às empresas ou a facilitar o crédito aos empresários, era só casas de luxo e Ferraris e Porsches, e era só progresso para o capital – mas eles que não se queixem e agradeçam as regalias que o senhor António deu, conforme explicou o senhor Luís, aquele dos domingos na Sic, as da «isenção do agravamento» de umas taxas quaisquer. Eu sei que há uma gente daninha que pode pensar que «isenção de agravamento» é uma maneira fingida de dizer que fica tudo agravado como está. Mas não é assim: «Isenção de agravamento» é uma coisa muito boa, é como um gajo estar à espera de uma porrada, e depois afinal não a leva.

Não senhora, o Estado do senhor António é que sabe melhor que nós. A malta como nós não pensa e os capitalistas é só negociatas para se encherem, os socialistas do senhor António é que têm uma vida de serviço, em secções, concelhias, distritais, federações, comissões, conselhos, juntas, câmaras, assembleias, sem um único dia de trabalho na economia que lhes afunilasse a visão. O senhor António e os seus é que têm uma visão geral e sabem como gastar.

Isso que eu disse de saber como gastar – e mais por ter falado dos Porsches há pedaço – lembra-me agora outro de quem gosto muito no governo do senhor António, o senhor Pedro.

Primeiro, foi comprar por uma pechincha de um milhão uns comboios que os parvos dos espanhóis julgavam que era só sucata, e ficou com eles. Foi tão bom que ele até disse que podia explicar aos privados e aos outros países todos do mundo como é que se fazem bons negócios (estão a ver que somos os melhores, como diz o senhor Marcelo?). Depois, ficou com a Tap toda para ele, em vez de ficar nas mãos do privado, que andava nessa coisa das companhias aéreas há décadas, mas não percebia nada daquilo. E agora comprou para cima de cem comboios novos, para a gente usar.

Mas como é um rapaz novo e ativo, e até dizem que pode suceder ao senhor António, é logo tudo a malhar no homem.

Primeiro, a dizerem que os comboios eram mesmo sucata como os espanhóis achavam e, além disso tinham amaranto, ou lá o que é. Mas que mal é que faz? Foram baratos e têm arranjo. E há tempo, porque o senhor Pedro é das infraestruturas, mas ainda não as tem para lá pôr comboios em cima, nem sequer na linha de Sintra, onde não farão grande falta. Os comboios são para andar apinhados, e são seguros mesmo com pantomia, o senhor Pedro até apresentou um relatório a dizer que o vírus não entra lá. E vem para cima de cem comboios novos que o senhor António anunciou que o senhor Pedro comprou. Chegam daqui a seis anos, mas não pode ser tudo de arrepente.

Depois, a dizerem que ele não comprou a Tap, comprou foi um grande sarilho na pior altura, uma pipa de prejuízos, e a responsabilidade de despedir para cima de mil pessoas e rifar para cima de cem aviões. Pois falem, mas é como diz o senhor Pedro, quando a Tap tiver receita agora ela também é nossa. O meu patrão diz que receita não é a mesma coisa que lucro, mas isso é poque ele gosta de embirrar com tudo. O que interessa é a Tap ser nossa, e daqui a 20 anos a receita também, vamos ficar todos ricos.

Quem vai ficar com uma boa fatia dos dinheiros da Europa é o senhor João do hidrogénio, de quem também gosto muito, e que é para cima de 7 mil milhões. O hidrogénio é assim uma coisa que faz energia renovável, e é uma coisa nova, só para os melhores. Ainda não se sabe bem como se faz, nem como se ganha dinheiro com aquilo, mas é da modernidade, e vai dar muito dinheiro pelas contas do senhor João e de todos os amigos dele. Assim em dinheiro mais a sério, não é tão bom como as receitas do senhor Pedro, que, mais coisa menos coisa, vêm daqui a 20 anos, porque as do senhor João só vêm lá para 2050 ou por aí. Mas o progresso é assim.

Ora, agora, digam-me lá se com todo esse progresso à vista não havia necessidade de mudar as leis. Pois claro que havia! Foi por isso que o senhor António e os seus amigos fizeram uma lei nova para poderem contratar mais depressa quem faça as obras de modernização em que eles querem gastar. Ai as burocracias achavam que iam complicar a vinda deste dinheiro que tanta falta faz ao senhor António, e ao senhor Pedro, e aos outros todos, e porem-se a perguntar quanto custa, e a que fim se destina, e quem é que faz, e onde é que fica, e quando é que está pronto?! Ora tomem. Agora é que vai ser. Vai ser como dizia a outra senhora das escolas do tempo do senhor engenheiro José, «uma festa».

E eles também conseguiram que a Assembleia os autorizasse a fazer leis para expropriar propriedades mais depressa, assim um simplex da expropriação e um compliquex para o expropriado, que depois se verá se recebe algum, e quanto e quando.

Mas, então, digam-me lá se não se justifica. Por exemplo, o senhor Pedro que quer tanto um aeroporto para ter uma infraestrutura qualquer – e que agora é que é a altura boa para o construir derivado a não haver aviões – ia ter que ficar à espera só porque um tipo qualquer tinha um casebre nos terrenos? Ou o senhor Fernando de Lisboa havia de deixar de fazer uma ciclovia para as minorias ciclistas só porque lá no meio estava um prédio qualquer? Ou o senhor João havia de não poder dar-nos uma eólica só porque no cimo do morro estava uma exploração agrícola ou uma povoação cheia de gente avessa à modernidade? Não pode ser.

De maneira que é como vos digo. Pode ser verdade essa coisa que os fascistas andam sempre a dizer que a República Checa, a Estónia, a Hungria, a Letónia, a Lituânia, a Polónia, a Eslováquia, a Eslovénia, e Malta, e Chipre, que entraram na Europa em 2004, já ultrapassaram em riqueza o Portugal socialista. E se calhar é verdade mesmo, porque até o tal do Polígrafo da têvê diz que é verdade. Mas, vão ver, lá para 2087 vamos ser mais ricos do que eles todos são agora.

 


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