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A herança de Costa

por henrique pereira dos santos, em 18.08.20

Quando Costa sair do lugar em que está, seja em que circunsâncias for, deixará uma herança.

O essencial dessa herança não se prende com a economia, a covid, a posição do PS no contexto político, o essencial dessa herança é o aprofundar das características históricas da relação das pessoas comuns com as instituições do país.

Quando Costa nomeia Escária para seu chefe de gabinete, nestas circunstâncias, não é uma nomeação que está em causa, é a ideia de serviço público.

Quando Costa transita de primeiro apoiante de Sócrates para a mais absoluta ausência de relação entre os dois, através da fórmula "cada um tem direito à sua verdade" é a ideia de verdade que está em causa.

Quando Costa dá corda a Pedro Nuno Santos para se enforcar com a TAP, sabendo o custo que tem para as pessoas comuns a liquidação desse seu inimigo político, é a ideia de política que está em causa.

Quando Costa trata o assunto de Pedrogão em função de "focus group" é a ideia de comunidade e de serviço à comunidade que está em causa.

Quando Costa esconde do eleitorado a sua estratégia de acesso ao poder, é a ideia de confiança no processo eleitoral que está em causa.

Quando Costa se limita a sorrir pelo facto de Mariana Mortágua dizer que foi enganada ao aprovar o Orçamento de Estado que afinal seria descaracterizado por cativações, e Costa ainda repete a graça todos os anos por saber que ao BE não lhe resta alternativa se não vender a alma ao diabo, é a ideia de governação democrática que está em causa.

Quando Costa finge todo um número político para dar cobertura à pequena vingança pessoal de Mário Centeno entrar pela porta grande do Banco de Portugal na qualidade de governador, é a ideia de conflito de interesses que está em causa.

A herança de Costa será isto, a corrosão das instituições, o descrédito do Estado, a desvalorização da política, a desconfiança sobre a governação e tudo o mais que Costa não inventou, mas que seguramente tem vindo a potenciar com total desprezo pela noção de serviço público.

Que vergonha, Observador, que vergonha

por henrique pereira dos santos, em 17.08.20

Há quase uma semana o Observador resolveu traduzir uma porcaria qualquer de um jornal qualquer sugerindo que uma menina de onze anos tinha morrido com covid e não tinha patologias prévias.

Como se pode ler aqui nos comentários, a história era tão mal contada que era evidente que o título do Observador (que aliás ainda consta do link) fazia parte da campanha de terror do Observador a propósito da covid.

Pois bem, depois da autópsia, é evidente que a menina não morreu por causa da covid, tendo morrido durante uma cirurgia de urgência por causa de uma situação urgente que não tinha nenhuma relação com a covid e o que o Observador faz é mudar o titulo, pôr uma nota a dizer que a notícia foi actualizada, e siga a banda.

Não, Observador, a notícia não foi actualizada, a notícia é outra, desmente cabalmente a primeira, como logo na altura era evidente que era o mais provável e o mínimo dos mínimos era o Observador fazer um desmentido claro e um pedido de desculpas sem mimimis.

O que fizeram ao publicar a primeira notícia é uma vergonha de jornalismo, na verdade, é a mera publicação de um boato, o que fizeram agora é acrescentar indignidade a essa vergonha.

Proporcionalidade

por henrique pereira dos santos, em 17.08.20

A Nova Zelândia é muito interessante como estudo de caso em relação à covid e a forma como lidamos com ela.

Uma ilha perdida a que só se vai com o objectivo de lá ir - ninguém passa pela Nova Zelândia, ou se vai lá, ou não se vai lá, com excepção dos navegadores - que estava no Verão quando começa a epidemia, que tem uma pequena população de cinco milhões de habitantes, com uma baixíssima densidade populacional (Portugal tem uma densidade populacional mais de cinco vezes maior), embora com um terço da população concentrada na sua capital de cerca de milhão e meio de habitantes, com uma idade mediana de 37,5 anos - a idade mediana da Europa a 27 é de 43,7, em Portugal é de 45,2 e em Itália é de 46,7 -, com instituições fortes e organizadas em que as pessoas confiam, é com certeza um dos melhores locais do mundo para aplicar uma estratégia de supressão de um vírus emergente.

E foi exactamente o que terá pensado o governo neo-zelandês que, desde o princípio aplicou medidas restritivas fortes, nomeadamente de controlo de fronteiras e estrito cumprimento de regras de confinamento.

Tão estrito que, recentemente, o vice primeiro-ministro neo zelandês achou por bem criticar as autoridades australianas por terem confiado o controlo das quarentenas em hotéis a seguranças privados ao contrário da solução neo-zelandesa que consiste em confinar toda a gente que testa positivo, e os habitantes das mesmas casas, em instalações dedicadas ao assunto e controladas pelo exército, a propósito do surto australiano em Melbourne.

O controlo de fronteiras e as restrições foram tão eficazes, que o número de chegadas aos aeroportos neo zelandeses, em Maio deste ano, foi o mais baixo desde Maio de 1954, ou dito de outra forma, as entradas e saídas pelas fronteiras foram cerca de 16 mil, quando no ano anterior, no mesmo mês de Maio, foram cerca de um milhão.

Com tudo isto, o governo neo zelandês tem sido apresentado, e apresenta-se, como um caso de sucesso e um exemplo de como se gere uma epidemia emergente.

Só que, inesperadamente, surgiu um pequeno surto, primeiro com quatro pessoas que vivem na mesma casa, e nos últimos dias tem havido mais ou menos dez novos casos por dia, o que deu origem a umas cinco hospitalizações, sem que ninguém saiba de onde surgiu o surto.

O governo foi rapidíssimo a reagir, mal foram detectados os quatro casos fechou tudo em Auckland, incluindo escolas, e as eleições foram adiadas um mês, mais coisa, menos coisa.

E tudo isto para quê?

Para salvar vidas através do bloqueio da expansão da transmissão do vírus.

Como não existe contrafactual neste tipo de situações, não é possível discutir a proporcionalidade das medidas face à ameaça, visto que a ameaça terá sido contida pelas medidas do governo, pelo mesmo governo que entende que controla totalmente a actividade de um vírus e não faz a mínima ideia de como apareceu um novo surto.

Pretender que as medidas brutais de controlo não têm efeitos económicos e sociais, incluindo na saúde e na mortalidade é asneira.

Não é possível pensar que baixar os movimentos de fronteira de um milhão para menos de vinte mil não tem custos económicos e sociais, é absurdo dizer que o fecho das escolas não afecta a vida futura dos estudantes, sobretudo dos mais pobres e frágeis e pretender que adiar eleições por causa de uma ameaça externa não é um precedente que deve ser muito, muito cautelosamente explicado do ponto de vista dos direitos e garantias individuais, é querer tapar o Sol com uma peneira.

A informação que tenho sobre a evolução da mortalidade diária na Nova Zelândia, que anda quase em cem pessoas por dia, é a que está neste gráfico, que só vai até ao dia 20 de Julho deste ano, mostrando como uma mortalidade de cerca de 200 pessoas a mais por semana no Inverno de 2017, e cerca de 50 a 100 pessoas nos Invernos de 2018 e 2019 pareceu absolutamente aceitável e não deu origem a medias maximalistas de controlo de mortalidade a todo o custo, incluindo os custos sociais da pobreza.

Embora falte ainda Agosto, o pico do Inverno, o gráfico parece sugerir que as medidas maximalistas de saúde pública tomadas resultam numa quase anulação da mortalidade acrescida do Inverno, ou sejam controlam de facto as doenças respiratórias, no curto prazo.

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Mas o que aconteceria se se respeitassem as regras normais de sociedades democráticas que respeitam os indivíduos, o que não implica, forçosamente, não fazer nada em relação à gestão da epidemia?

Uma mortalidade insuportável, é o que nos respondem, apesar de não haver nenhuma evidência empírica nesse sentido: mesmo nos países mais afectados - e deveria escrever nos locais mais afectados - não se verifica essa mortandade prevista e entre um terço e metade da mortalidade ocorre em lares da terceira idade.

A discussão essencial é a seguinte: se num país com estas características, em qualquer altura pode aparecer um surto, sem se saber por que razão, e isso leva a um conjunto de acções políticas com efeitos sociais e económicos bastante negativos a prazo, como se espera que políticas de supressão da actividade do vírus, em circunstâncias muito mais desfavoráveis, possam ser sustentáveis?

Como se admite a desvalorização do risco da elevada incerteza quanto ao andamento normal da sociedade, da economia e, o mais inquietante, quanto à extensão das restrições das liberdades individuais que permitimos que os Estados definam, ao ponto de um surto levar ao adiamento de eleições gerais?

Não será já tempo de dizer que "tudo o que se faça para travar uma epidemia é bom e aceitável", independentemente das outras consequências desse "tudo o que se faça", não passa de uma falácia e que é mesmo preciso discutir, em cada momento, o que se perde e ganha com cada medida, do ponto de vista da gestão da epidemia, com certeza, mas não esquecendo que o que está em causa é a vida normal das pessoas comuns, incluindo o núcleo central dos seus direitos e garantias constitucionalmente asseguradas?

Eu olho para o que se passa na Nova Zelândia e não tenho dúvidas que estamos a ir longe de mais no que aceitamos que o Estado defina como o melhor para a nossa vida.

Domingo

por João Távora, em 16.08.20

Leitura do Livro de Isaías


Eis o que diz o Senhor: «Respeitai o direito, praticai a justiça, porque a minha salvação está perto e a minha justiça não tardará a manifestar-se. Quanto aos estrangeiros que desejam unir-se ao Senhor para O servirem, para amarem o seu nome e serem seus servos, se guardarem o sábado, sem o profanarem, se forem fiéis à minha aliança, hei-de conduzi-los ao meu santo monte, hei-de enchê-los de alegria na minha casa de oração. Os seus holocaustos e os seus sacrifícios serão aceites no meu altar, porque a minha casa será chamada 'casa de oração para todos os povos'».


Palavra do Senhor.

Malucos à solta

por João Távora, em 13.08.20

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Ao longo da minha vida fui diversas vezes ameaçado por maluquinhos da extrema-esquerda que, no que diz respeito ao “discurso do ódio”, entre nós tinham a exclusividade e gozavam de total impunidade - lembro-me até de ter apanhado uma sova algures nos anos setenta, quando as paixões não eram tão platónicas. A novidade no caso em apreço que está a dar brado é a motivação aparentemente (por dedução) racista das ameaças de uma auto-denominada "Nova Ordem de Aviz" - a apropriação deste nome é em si uma anedota. Isso é uma prova da degradação do ambiente político que se vive em Portugal, sinais que só por irresponsabilidade podemos ignorar. Um dia destes ainda alguém se aleija a sério, não era a primeira vez. De resto, num extremo e no outro do espectro partidário é muito fácil reconhecer os responsáveis pela inflação de doideira.

Ter razão pode ser muito triste

por henrique pereira dos santos, em 13.08.20

Por razões que não vêm ao caso, dei com isto que escrevi em Setembro de 2008

"tenho muito poucas dúvidas de que estamos muito longe de caminhar para destroços fumegantes porque sempre que fiz análises mais profundas e quantificadas, como por exemplo na preparação do Plano de Ordenamento do PNSAC (onde comparei fotografias aéreas orto-rectificadas de 1958 a 2007, com base em programas de análise estatística que deixam de lado enviesamentos de opinião), a conclusão é inequívoca: caminhamos para sistemas com maior acumulação de combustível, com maior cobertura do solo e com maior maturidade. São periodicamente perturbados por fogos cada vez mais severos em função dessa acumulação de combustíveis. Mas a frequência desses fogos, ao contrário do que se retira do senso comum, só é menor que dez anos em áreas muito residuais do país.

Bastam aliás três anos amenos como 2006 e 2007 (é cedo para fechar contas de 2008) para que todo este processo tenha dado um salto importante.

Para a continuidade do qual deveríamos estar a trabalhar preparando o território para os anos terríveis que necessariamente virão, mais tarde ou mais cedo.

E não o estamos a fazer.

Não vale a pena desviar a atenção do essencial apontando para bodes expiatórios como as áreas protegidas e a sua gestão: os instrumentos de gestão que existem estão na política de desenvolvimento rural e no fundo florestal permanente.

A sua aplicação resulta de puras opções políticas para as quais a opinião do sector da conservação conta muito pouco.

Quando recebermos o retorno destas opções em perdas de pessoas e bens será infelizmente tarde para responsabilizar os responsáveis que hoje decidem da política de desenvolvimento rural e da aplicação do fundo florestal permanente porque estaremos outra vez a discutir retratos em vez de dinâmicas."

Uma ou outra coisa levemente desactualizada, em especial na arquitectura institucional, mas poderia escrever exactamente mesmo hoje e esperar por 2030, mais ano, menos ano, para ter razão.

Só que, neste caso, ter razão é muito deprimente.

Era uma vez uma Ministra

por Vasco Mina, em 13.08.20

Festa do Avante. “Não haverá exceções” nem "tratamento especial", diz Marta Temido

A infindável novela

por João Távora, em 12.08.20

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Quando esta epidemia passar os jornais terão de arranjar outra doença para continuarem a excitar os consumidores mais susceptíveis. A novela não pode parar pois o vazio é insuportável.

Rampa deslizante

por henrique pereira dos santos, em 12.08.20

Filipe Froes, consultor da Direcção Geral de Saúde e coordenador do Gabinete de Crise da Ordem dos Médicos para assuntos relacionados com a covid terá dito ao Público "Apesar de os números serem favoráveis, temos de continuar a insistir na eliminação de toda a actividade viral e em ganhar as melhores condições para a retoma económica e social ... é preciso aproveitar a dinâmica positiva para erradicar a actividade do vírus".

Escrevo terá dito porque não acredito que alguém com um mínimo de conhecimento sobre o assunto diga isto.

Se dúvidas houvesse, vejamos uma notícia de hoje: "Na terça-feira, Ardern já tinha ordenado o restabelecimento do confinamento da maior cidade do país, Auckland, após o aparecimento de quatro casos do novo coronavírus ao fim de 102 dias sem registo de qualquer contágio local. Os quatro casos foram identificados na mesma casa, mas a origem é desconhecida. Auckland entra hoje no nível 3 das medidas de confinamento, o que significa que a população deverá ficar em casa e os bares e outros negócios terão de fechar portas. Os ajuntamentos estarão limitados a 10 pessoas. As escolas estarão fechadas por três dias. O resto do país entrará no nível 2 das medidas, no qual bibliotecas e espaços públicos podem manter-se abertos caso respeitem as medidas de contenção. A primeira-ministra neozelandesa admitiu a possibilidade de adiar as eleições, agendadas para 19 de setembro".

Resumindo, num país que é uma ilha no fim do mundo, em que todos os aeroportos e portos estão basicamente fechados desde Março, em que a epidemia surge no fim do Verão, portanto em condições ainda bem mais favoráveis que as do hemisfério Norte, que tem uma baixa densidade populacional, que teve uma taxa de ataque da epidemia especialmente baixa e em que foram adoptadas medidas extraordinárias, bastaram quatro casos testados positivos para voltar a fechar tudo, seguindo a lógica absurda de "erradicar a actividade do vírus", coisa que nunca foi possível sem vacinas e, mesmo com vacinas, só foi realmente reconhecida como erradicada a varíola, mais doença nenhuma.

A ideia que Filipe Froes pretende passar de que "erradicar a actividade do vírus" é bom para a actividade económica e que uma boa solução é resolver tudo o que diga respeito à epidemia antes de pensar no resto, tem o pequeno problema de não ser exactamente uma ideia, mas sim uma fraude.

E tanto é uma fraude do ponto de vista de saúde pública - erradicar a actividade de um vírus com as características deste é uma impossibilidade - como é uma fraude do ponto de vista da actividade económica e social - a sociedade e a economia têm instrumentos para lidar com a incerteza, por exemplo, quanto à confiança das pessoas para voltarem a viajar, mas não têm instrumentos para lidar com a arbitrariedade do Estado, que abre e fecha o que entende, quando entende, da forma que entende, sem sequer explicar os critérios que estão na base das decisões.

Eu sei que a resposta normal para as minhas discordâncias é que não é possível que esteja toda a gente errada e portanto se todos os governos acabam a convergir nas mesmas medidas, é porque provavelmente há alguma racionalidade nisso.

Em primeiro lugar nem sequer é verdade que toda a gente convirja para as mesmas medidas, para o que todos os governos convergem é para a redução do seu risco político, tudo o resto é diferente de sítio para sítio ou de tempo para tempo.

Por outro lado, quando se verifica que um médico do Instituto Ricardo Jorge envolvido na produção da informação oficial sobre a epidemia, é também o presidente da associação dos médicos de saúde pública, que fala frequentemente nessa qualidade e também pertence ao gabinete de crise da Ordem dos Médicos (para além do PSD), percebe-se melhor como é fácil haver convergência de opiniões na gestão da epidemia.

Infelizmente, é uma convergência com base numa ideia cuja utilidade está por demonstrar, mas cujos efeitos económicos e sociais estão muito bem documentados e que na verdade tem vindo a afirmar-se numa rampa deslizante progressivamente mais radical quanto à necessidade de "erradicar a actividade do vírus" e mais cega quanto à necessidade de erradicar a falta de senso em todo este assunto.

Vão faltar peças quando formos apanhar os cacos

por João Távora, em 10.08.20

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O distanciamento social é um fenómeno contrário à democracia, dizia há tempos Bernard  Henry-Levy numa entrevista do Pedro Mexia publicada no Expresso, e eu atrevo-me a sugerir que o distanciamento social, mais que antidemocrático, é pouco cristão.  E o pior é que suspeito que demorará muito tempo a apanhar os cacos e vão faltar peças para restaurar a normalidade nas relações humanas como as conhecíamos.

Numa missa de domingo na Igreja Matriz do Cadaval em que participei recentemente, fiquei triste ao encontrar o templo quase vazio. O meu grupo de onze pessoas foi acolhido com espanto e foi dificil explicar que eramos a mesma família e que não fazia mal ficarmos juntos. Estou a falar de uma freguesia que, sendo dispersa territorialmente, é próspera, e julgo ser bastante povoada mesmo em Agosto. Fico com a ideia de que boa parte dos católicos não desconfinaram verdadeiramente, ao mesmo tempo que o “higienismo”, que é uma forma de idolatria, tomou conta da liturgia com milícias de zelosos paroquianos que fanaticamente arrumam os crentes nos bancos da igreja e os aspergem insistentemente com álcool à entrada, outra vez antes da eucaristia, outra vez depois, e finalmente mais uma borrifadela à saída. Fico com a ideia que as missas no sofá, pela televisão ou pelas redes sociais, em que involuntariamente se relativizou o valor transcendental do sacramento da “comunhão” (palavra com significado oposto a “distanciamento social”) constituiu um forte abalo no cada vez mais fragilizado costume dos crentes se encontrarem fisicamente ao Domingo para a Missa. Foi Jesus Cristo que afirmou a importância do encontro comunitário: “Pois onde se reunirem dois ou três em meu nome, ali eu estou no meio deles" (Mateus 18:20).

Mas como é bom de ver, este não é apenas um problema da Igreja e das paróquias, que são dos últimos bastiões das antigas comunidades locais relativamente autónomas. A pandemia apenas veio acelerar o processo de descristianização e atomização social que há muito vem fazendo o seu caminho. A consequência são os exércitos de indivíduos inaptos para as relações sociais, cada vez mais isolados e dependentes do Estado, do Centro de Saúde ou da Segurança Social. E fiquem sabendo que admiro a tenacidade dos comunistas que insistem fazer a sua festa. 

Contou-me a minha mulher que antes da pandemia já vigorava a nova moda sanitária sobre os bebés recém-nascidos que são aconselhados pelos médicos a viver os dois primeiros meses isolados com os pais, sem saídas, visitas ou contacto físico com os avós, tios ou outros parentes, obrigados a conformarem-se com uma “story” no Instagram. E depois já repararam como é ineficiente o teletrabalho, a promiscuidade entre o trabalho, a família e o lazer? Já repararam na aberração dos jovens entretidos com gadgets electrónicos impedidos de ir à escola ou nos miúdos sem acesso aos parques infantis ainda selados pela fúria higienista e pelo medo da segunda vaga?

Quando é que nos vamos encontrar todos outra vez?

Dez razões para a festa do Avante avançar

por João Távora, em 10.08.20

A ler esta magnífica síntese do Henrique Raposo (só não concordo com a última afirmação) que eu roubo descaradamente ao Expresso:   

Avante!: dez razões para a festa avançar

Primeira. A cultura de um país não pode ficar congelada por tempo indeterminado. A “guerra à covid” não pode ser como a “guerra ao terror”, isto é, a perpetuação por tempo indeterminado de estados de excepção arbitrários que colocam em causa a liberdade e, neste caso, a cultura. Quando é que isto acaba? Se não acabar, corre o risco de se perpetuar como qualquer outra máquina burocrática que se alimenta do medo. Por exemplo, quando voltarem a morrer 3 mil portugueses de gripe num espaço de poucos meses (2018/19), os fanáticos do #ficaremcasa voltarão a pedir medidas draconianas.

Segunda. Quando falo de cultura, não estou apenas a defender a sobrevivência económica do meio cultural (do artista ao carpinteiro), estou a defender o coração da sociedade. O belo e o bom estão cancelados. Uma sociedade que não vai ao teatro, ao futebol, à festa da aldeia ou ao cinema não é uma sociedade, é um agregado de indivíduos amedrontados sem laços entre si e a gerar o pior vírus do elenco virologista: o ódio e a desconfiança entre seres humanos. O homem é o grande vírus do homem. As famílias estão a partir. A sociedade está a partir. A empatia está a morrer. Neste momento, o olhar nacionalista contra o "outro" é maioritário, porque o "estrangeiro" é uma potencial ameaça viral.

Terceira. Temos de começar a fazer experiências-piloto com espetáculos com público, do futebol aos concertos. Sem público, a arte e os espetáculos não fazem sentido cénico e não são rentáveis. Sem arte e espetáculos, a sociedade vai morrendo. Neste sentido, parece-me que um evento organizado pela instituição mais habituada a multidões é o melhor caminho. A capacidade organizativa do PCP e o imenso espaço da Atalaia são dois argumentos fortes para deixarmos esta experiência-piloto avançar.

Quarta. Se querem proibir o Avante!, então têm de ir fechar as praias, porque praias cheias e caóticas são mais perigosas do que uma festa organizada pela mão de ferro do PCP.

Quinta. A bolha do medo tem de ser furada. A sociedade entrou num torpor que é, em si mesmo, mais perigoso do que o vírus. Olhe-se para o estado da saúde. O cancro mata cerca de 70 portugueses por dia, mas a oncologia está mortalmente atrasada devido ao pânico do #ficaremcasa. Ao contrário da covid, o sarampo é muito perigoso em crianças. Pois bem: por causa do #ficaremcasa, 13 mil bebés portugueses não receberam nos últimos meses a vacina do sarampo.

Sexta. Abrir o Avante! e outros festivais é um risco? Pois é. Não há vida sem risco. Só que o #ficaremcasa também é um risco. Aliás, é um risco superior à abertura. A fatura do #ficarmecasa está à vista de todos, e crescerá no futuro próximo. Porque é que há tantos centros de saúde ainda fechados? Porquê? As pessoas só não podem morrer de covid? Podem morrer à vontadinha de outras doenças? O #ficaremcasa trocou mortes inevitáveis por mortes evitáveis. Uma senhora de 85 anos com várias comorbidades vai morrer em breve, com ou sem covid. Uma mulher de 40 anos saudável só vai morrer de cancro da mama (ou outro), porque a oncologia foi bloqueada pelo #ficaremcasa, o mesmo #ficaremcasa que matou à sede os velhotes de Reguengos.

Sétima. É preciso abrir a prisão psiquiátrica que o #ficaremcasa criou no coração da sociedade e de cada lar, e que não afeta apenas pessoas com autismo ou Alzheimer.

Oitava. Os maiores defensores do #ficaremcasa fazem parte do funcionalismo público, ou seja, têm sempre o seu rendimento garantido. É por isso que não compreendem (ainda) a crise que já está aí. Para uma parte esmagadora deste país, a crise é uma "crise dos outros", como dizia há dias João Vieira Pereira. Os "outros? Aqueles que dependem da economia a funcionar, aqueles que dependem do fluir normal do público nas suas empresas e lojas.

Nona. É talvez o ponto mais repugnante destes meses. A sociedade dividiu-se entre as pessoas que se sentem protegidas numa bolha que permite o #ficaremcasa e as pessoas que têm mesmo de #sairdecasa para sobreviver. E o sector protegido esmagou os sectores desprotegidos. Também por isso vale a pena apoiar a festa do Avante!, uma festa que, em teoria, é daquelas que têm de #sairdecasa. Mas, já agora, gostava de recordar uma coisa às pessoas que se sentem acima ao crise como se fossem um avião voando acima do clima: se não voltarmos a uma economia normal, a austeridade (isto é, cortes salariais na função pública) será inevitável. Um eterno #ficaremcasa mata a economia; com a economia estagnada, a receita fiscal baixa e, nesse cenário, mesmo com acesso aos mercados da dívida, a austeridade será inevitável.

Décima. A liberdade. É incrível a forma como a sociedade aceitou acriticamente os estados de emergência e as restrições. É urgente reforçar o lado da rebeldia e da liberdade numa sociedade tão paralisada, tão medrosa, tão obediente. Até vos digo uma coisa: se não tivesse a Iniciativa Liberal no boletim de voto, votaria PCP nas próximas eleições.

A redacção do Observador e a epidemia

por henrique pereira dos santos, em 10.08.20

A redacção do Observador - a parte da opinião é bastante mais diversa e equilibrada - calculo que seja uma redacção clássica, com forte preponderância do viés comum no jornalismo português.

No que diz respeito à epidemia, no entanto, ultrapassa largamente o admissível e parece um grupo de sectários a defender a sua dama, sem qualquer respeito por princípios e regras mínimas da profissão.

Tomemos um exemplo que é isso mesmo, um mero exemplo.

"Em Espanha, ... Era como se a Covid-19 tivesse dado tréguas a um país que chegou a lamentar a morte de quase mil pessoas num só dia. Mas não deu. A partir de meados do mês passado vieram os ‘brotes’, com vários surtos em diversas regiões no país, e o número de novos casos de infeção pelo novo coronavírus voltou a subir para os quatro dígitos. As mortes continuaram por muito tempo a roçar o zero ... mas só na terça-feira foram registadas 26 vítimas num só dia. O fantasma da segunda vaga parecia ter chegado. E a Covid-19 ameaçava novamente com força os nossos vizinhos do lado."

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Realmente, olhando para a média de sete dias, embora estejamos a falar de valores que são um terço dos de Março, ainda assim estamos a falar de dois mil e quinhentos casos, ou seja, no artigo em questão, a covid 19 ameaça em força Espanha.

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Mas olhando para a média dos sete dias de mortes, que mede melhor o real impacto da epidemia, verificamos que a jornalista resolveu escolher um dia não representativo, dramatiza a informação com "só na terça-feira foram registadas 26 vítimas num só dia", omite que se trata de um valor excepcional que fez elevar a média de sete dias dos dois ou três mortos anteriores para seis a oito, média essa que deve ser comparada com as cerca de 850 mortes diárias do princípio de Abril e esquece-se de dizer os cerca de 30% de casos actuais em relação ao pico correspondem a menos de 1% das mortes actuais face ao pico, ou seja, afinal a covid 19 até pode ameaçar de novo Espanha, mas seguramente não em força, como pretende a jornalista.

Toda a peça vai no mesmo sentido: "Não são caso único. Do outro lado do mundo, na Austrália, após um outono controlado, os números dispararam em flecha".

Tem razão, o número de casos na Austrália sobe em flecha (como é normal ao comparar o Inverno actual com o Verão de Março/ Abril de uma doença respiratória).

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Já têm 500 casos diários e morrem menos de 15 pessoas por dia, um verdadeiro drama. Acho eu, claro, que como não tenho termo de comparação com o que são os números de mortes diárias na Austrália, e qual a dimensão da mortalidade excessiva atribuída à gripe todos os anos, não tenho qualquer base para saber se realmente é um drama ou não, mas não é o Observador que me vai dar indicações nesse sentido, informação para quê quando se pode ter drama e emoção, embrulhados na boa intenção de sermos todos partes essenciais do controlo de uma epidemia?

"França e Países Baixos veem-se com um gráfico em subida contínua e admitem também a existência da segunda vaga".

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Pois é, falar do aumento de casos sem explicar que a esse aumento de casos não corresponde um aumento de mortalidade (nem de cuidados de saúde relevantes), e que os números da mortalidade em França estão abaixo de dez e nos Países Baixos quase em zero, serve exactamente para quê?

Manuel Carmo Gomes explica, na mesma peça, para que serve:

"Mas algo de fundamentalmente diferente vai ocorrer já no próximo mês: o regresso às aulas presenciais, recorda Manuel Carmo Gomes. As crianças vão voltar às escolas, os pais regressam ao trabalho no lugar habitual, o frio do outono levará mais gente para dentro de espaços mal ventilados e, de um momento para o outro, o país entra no verdadeiro desconfinamento ... Mas ninguém pode prever a dimensão dessa onda: depende do número de testes, da capacidade de resposta do sistema de saúde, das medidas de contenção exigidas pelas autoridades e do grau de respeito da população por elas. No Japão, por exemplo, um país que controlou bem a primeira fase a epidemia, as medidas de contenção foram levantadas tão repentinamente que o número de casos disparou".  

Tem razão Senhor Professor, o número de caso actual no Japão é o triplo dos que existiam lá para Março/ Abril.

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Mas talvez fosse razoável olhar para a mortalidade para ser perceber quais são as consequências deste aumento que tanto o assusta, Professor.

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Olha, olha, três vezes mais casos, uma coisa que parece assustadora, mas afinal das mais ou menos vinte mortes diárias de Março/ Abril, passámos para umas quatro agora. Sendo assim, qual é mesmo o seu problema, Professor?

Eu sei, Senhor Professor, eu sei qual é o seu problema, é o mesmo dos editores da revista que recusaram um artigo de Gabriela Gomes: "Given the implications for public health, it is appropriate to hold claims around the herd immunity threshold to a very high evidence bar, as these would be interpreted to justify relaxation of interventions, potentially placing people at risk."

Legitimamente, o Professor está convencido de que a epidemia responde essencialmente aos contactos humanos e não à sua dinâmica interna. É uma posição legítima e, na verdade, uma das hipóteses mais frequentes nos meios científicos, apesar da evidência empírica associada a esta ideia não ser sólida.

E a redacção do Observador também está absolutamente convencida disso.

Só que recusar as hipóteses alternativas de explicação para a dinâmica da epidemia já não é ciência, é apenas opinião política e é absolutamente ilegítimo sugerir que a abertura das escolas vai causar grandes problemas omitindo a parte da informação existente que levanta dúvidas sobre as suas ideias.

Isso não é nem ciência, nem legítimo.

E a redacção do Observador continuar nesta campanha absurda para a imposição de um pensamento único não é só ilegítimo.

Muito mais para perigoso para um jornal, é mesmo mau jornalismo, transformado em campanha política com base em processos de produção de material jornalístico assentes no desprezo por regras básicas do jornalismo.

Quando precisaram dos leitores, os leitores corresponderam, mas de cada vez que decidem publicar peças destas (e fazem-no todos os dias, várias vezes ao dia), é a base de confiança da vossa relação com os leitores que estão a minar.

E é pena.

 

Domingo

por João Távora, em 09.08.20

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo S. Mateus


Depois de ter saciado a fome à multidão, Jesus obrigou os discípulos a subir para o barco e a esperá-l’O na outra margem, enquanto Ele despedia a multidão. Logo que a despediu, subiu a um monte, para orar a sós. Ao cair da tarde, estava ali sozinho. O barco ia já no meio do mar, açoitado pelas ondas, pois o vento era contrário. Na quarta vigília da noite, Jesus foi ter com eles, caminhando sobre o mar. Os discípulos, vendo-O a caminhar sobre o mar, assustaram-se, pensando que fosse um fantasma. E gritaram cheios de medo. Mas logo Jesus lhes dirigiu a palavra, dizendo: «Tende confiança. Sou Eu. Não temais». Respondeu-Lhe Pedro: «Se és Tu, Senhor, manda-me ir ter contigo sobre as águas». «Vem!» – disse Jesus. Então, Pedro desceu do barco e caminhou sobre as águas, para ir ter com Jesus. Mas, sentindo a violência do vento e começando a afundar-se, gritou: «Salva-me, Senhor!». Jesus estendeu-lhe logo a mão e segurou-o. Depois disse-lhe: «Homem de pouca fé, porque duvidaste?». Logo que subiram para o barco, o vento amainou. Então, os que estavam no barco prostraram-se diante de Jesus, e disseram-Lhe: «Tu és verdadeiramente o Filho de Deus».


Palavra da salvação.

Um mundo perigoso de pernas ao contrario

por Jose Miguel Roque Martins, em 09.08.20

edmond burke.jpg

Hoje li no New York Times um artigo the Bret Stephens que merece muita atenção. Faz um exercicio sobre como Edmund Burke pensaria sobre o mundo actual.

Enfatizando o horror que Burke sentiria  em relação á presidencia de Trump e em relação ao movimento Black lives matter. Falha só por não comentar o que seria a sua surpresa sobre a loucura que se apoderou do mundo, em que o combate á pandemia se transformou num exercicio de subjugação das liberdades individuais e do exercicio de uma tirania pouco esclarecida por parte dos Estados.

Mas lembra muito bem  a sua preocupação sobre as muitas outras revoluções em curso e o facto de só ser possivel amar o Pais e as instituições se elas forem  dignas dessa admiração. 

Certo é que vivemos em tempos tão perigosos como os previstos por Burke nos tempos da revolução francesa. 

Ps: é tambem um artigo muito interessante para recordar a conservadores e liberais que a revolução ou o caos se evitam protestando vivamente com o que está errado. Independentemente das ondas que provoquem ou de quem os pratique. Só assim se evita a mediocridade e a revolução.  

 

A república deles...

por João Távora, em 08.08.20

Da leitura do Expresso pelas crónicas do Ricardo Costa e do Daniel Oliveira, oráculos das modas e da espuma dos nossos tristes dias a propósito da crise da monarquia em Espanha, fica claro que o seu tenebroso sonho (?) era viverem num regime em que o factor humano fosse definitivamente erradicado da equação. Eles comungam o pensamento infantil de John Lennon no seu “Imagine”: sem pessoas, o mundo seria como o paraíso. O problema é que não haveria ninguém para o registar.

Por qué no te callas?

por João-Afonso Machado, em 08.08.20

Sobre o Rei Juan Carlos, os seus últimos anos, a sua partida de Espanha:

É já excessivamente repetitivo aludir ao papel do monarca na consolidação da democracia (momento alto: a tentativa golpista de Milans del Bosch e de Terrero), na pacificação da nação e no seu crescimento económico. Foram muitas décadas. De repente, um elefante morto a destempo, uns negócios mal (- pessimamente -) explicados, e até se descobriu que, afinal, Juan Carlos é um mulherengo infrene.

(Oh Sr Ministro Tal da nossa República! Vocelência esta parte da história não comenta, pois não?)

Íamos, portanto, no ponto conclusivo de a Monarquia, que os demagogos - com o beneplácito da santa ignorância instalada - dizem ser de direito divino (!!!), traduzir, porém, cousa infernal. Comprovada em todos os países pobres europeus, sobretudo nos que levantam a cabeça à UE... Assim a Esquerda já vislumbra luz republicana ao fundo do tunel.

Convirá no entanto recordar, o actual Rei de Espanha é um homem novo. Gozando de um prestígio em que poucos não comungam. A transmissão do trono processou-se sem qualquer aparato ou balbúrdia. E, nas suas funções de Chefe de Estado, obrigado a escolher entre o Pai e o acusado de prevaricação, não hesitou: pôs o Pai longe do lugar das badaladas ilegalidades. Tirou-o da Família Real, que não da alçada dos tribunais espanhois.

(ALô, alô, instituições republicanas portuguesas - algum exemplo semelhante por cá? Alô, Paulo Pedroso, alô, Soares & Cª, alô PS, Sócrates, - ligação estabelecida?)

Agora a Esquerda vizinha (e a parolice da nossa imprensa) precipitam-se a averiguar para que milionárias arábias Juan Carlos terá partido, obviamente à custa do contribuinte que suportará os milhares de euros diários de estadias em hoteis de luxo.

Isto é o que se ouve.

Não se ouve, infelizmente, em Espanha a Esquerda  ser sobretudo o separatismo (catalão ou basco). Não se ouviu Iglesias ironizar com uma deputada do PP (a «marquesa»), mas ouviu-se, e houve indignação ético-republicana, quando a senhora, replicando, o disse filho de um terrorista da ETA. Que o eram - um terrorista, o outro filho.

Não se ouve, tão-pouco, recordar o célebre «por qué no te callas» dirigido ao - sabe-se agora - ditador Chavez. Que Marcelito nosso teria coragem para tanto, mesmo numa conferênciazinha dos nossos "palopinhos"?

Sobre escolas fechadas

por henrique pereira dos santos, em 07.08.20

covid.jpg

A psicose das escolas é das coisas mais estúpidas da gestão desta epidemia e das melhores demonstrações da pusilanimidade dos governos.

Desde o princípio, a partir das outras epidemias, que a informação disponível era a de que o fecho de escolas não é uma medida muito inteligente de controlo de epidemias, quer porque frequentemente não é muito eficaz - varia em função das características da epidemia - quer porque tem um efeito disruptivo brutal na sociedade.

Mas é sempre das primeiras medidas que as sociedades exigem aos seus governos, e daquelas a que é difícil os governos resistirem dada a carga emocional de pôr em risco as criancinhas.

Nesta epidemia em concreto, que afecta muito pouco as pessoas com menos de 18 anos, a medida é particularmente desadequada.

Ao princípio a imprensa ainda se entretinha a tentar demonstrar que não havia risco zero para as crianças (nunca há, de resto, dos sítios mais perigosos do mundo para uma criança, do ponto de vista estatístico, é a cozinha da sua casa), com base nas poucas situações relatadas de problemas graves em crianças e jovens causadas pela covid. Acontece que a maior parte desses relatos eram mesmo tretas - a imprensa desde cedo deixou de aplicar à informação sobre a covid as regras básicas da profissão, com a verificação dos factos à cabeça - e os muito poucos que não eram treta diziam respeito a situações muito excepcionais de crianças com vários problemas de saúde. Isso não impedia médicos responsáveis, por exemplo, do hospital Dona Estefânia, enfatizar que realmente havia crianças a ser assistidas no hospital e até, às vezes, passando pelos cuidados intensivos, sem terem a precaução de enquadrarem devidamente essas situações.

Quando se tornou particularmente evidente que o argumento da infecção das crianças não tinha base nenhuma, passaram-se a dois argumentos centrais para andar a questionar a abertura de escolas: 1) o risco de levaram para a casa as infecções, em particular aos avós - como se os grupos de risco não tivessem de se defender sempre perante a incerteza, com ou sem escolas abertas - de que o boneco deste post é exemplo; 2) o risco para os professores, como se não coubesse aos professores gerir o seu próprio risco e as escolas não existissem para servir os alunos e as suas famílias, e não como porto seguro dos professores (o risco de problemas sérios por exaustão é muito maior que o associado à covid, mas isso foi rapidamente esquecido).

Será talvez a altura de voltar à evidência científica, por exemplo, usando este relatório do European Centre for Disease Prevention and Control de que destaco as três últimas conclusões principais:

"There is conflicting published evidence on the impact of school closure/re-opening on community transmission levels, although the evidence from contact tracing in schools, and observational data from a number of EU countries suggest that re-opening schools has not been associated with significant increases in community transmission.

Available evidence also indicates that closures of childcare and educational institutions are unlikely to be an effective single control measure for community transmission of COVID-19 and such closures would be unlikely to provide significant additional protection of children’s health, since most develop a very mild form of COVID-19, if any.

Decisions on control measures in schools and school closures/openings should be consistent with decisions on other physical distancing and public health response measures within the community".

Já agora, o que destaque é profundamente embebido na linguagem diplomática típica deste tipo de documentos, de maneira que aconselho mesmo a leitura do relatório que aponta para uma conclusão que traduzo de forma mais clara: não faz o menor sentido ter escolas fechadas.

Os monárquicos e a crise espanhola

por João Távora, em 05.08.20

filipe VI.jpg

O escândalo à volta do Rei de Espanha constitui uma tragédia, desde logo no que diz respeito à sobrevivência do país vizinho tal como o conhecemos. Independentemente de se vir a provar que João Carlos I praticou actos criminosos (o princípio da presunção de inocência também existe em Espanha), as suas falhas, vindas a lume no final do seu reinado, vêm manchá-lo indelevelmente.

Essa mancha cobre injustamente o seu papel corajoso, fundamental e insubstituível para a implantação da democracia liberal em Espanha e para as várias décadas de progresso económico e social, que fizeram do reino vizinho uma potência à escala europeia. 

Apesar da exemplaridade e dedicação com que se tem devotado ao seu país, Filipe VI terá dificuldade em recuperar o consenso juancarlista em torno da Casa Real. A instituição goza ainda de autoridade junto da maioria da população e o actual Chefe de Estado tem o respeito da maior parte dos espanhóis, mas o espírito da Transição tem-se esvanecido e a Coroa é hoje objecto de um ataque contínuo num quadro político muito polarizado, em que os principais partidos do regime (monárquicos ou, pelo menos, defensores do pacto constitucional vigente) vêm perdendo força; já para não falar na pressão das forças independentistas que não irão deixar de aproveitar um momento de fragilidade de uma instituição estruturante para atacarem o Estado central. 

Se juntarmos a isto a previsível instabilidade social decorrente da pandemia, antecipando-se o aumento da pobreza e do desemprego, suspeito que Espanha se prepara para enfrentar uma tempestade perfeita. Para mais, todos conhecemos o “modo espanhol” de radicalização política. Não é preciso remontar a 1936: o actual governo contém o mesmo germe de dissensão e enfrentamento que precipitou Espanha no abismo fratricída.

Como monárquicos não podemos deixar de nos confrontar com o que se passa ao nosso lado, agora que os republicanos vociferam apesar dos tristes exemplos de presidentes que abundam por essas repúblicas afora. Será, talvez, útil recordar-lhes que a verdadeira república espanhola se ficou a dever a um rei. Ao mesmo monarca sob cujo reinado se firmaram as liberdades e a paz social que nunca vingaram sob regimes republicanos.

No entanto, é justo reconhecer que o escândalo em torno de João Carlos I fere um dos argumentos a favor da monarquia: a mais-valia da preparação precoce dum príncipe para um cargo de grande exigência ética e moral. Precisamente porque o cargo é hereditário e vitalício, qualquer erro mais grave pode comprometer uma das principais vantagens da perdurabilidade na chefia dos Estados, que é a confiança e autoridade de uma instituição, que a todos representa e agrega, como reserva moral. 

As monarquias, no nosso tempo de democracias avançadas, são sistemas muito frágeis, desde logo pela vertigem mediática que se vive, e também devido ao materialismo e ao niilismo, que tudo permeiam,  que relativizam a importância das tradições e da família natural como célula vital da sociedade. Pergunto-me se as repúblicas estarão mais imunes a essas fragilidades ou se serão mais aptas a superá-las por via do sufrágio e não tenho qualquer razão para acreditar que assim seja. Pelo contrário, a volatilidade e rotação na cúpula do poder e a sua captura pelos principais partidos, sem travões nem contrapesos fundados numa outra legitimidade, permitem-me acreditar que não serão melhores.

 Por tudo o que refiro, estes dias, em que um rei que nos habituámos a respeitar vê abalado o seu prestígio com tão grande estrondo, com consequências imprevisíveis para o seu povo, terão de ser de grande consternação para os monárquicos. 

Apesar das possíveis falhas de João Carlos I, a transição e a monarquia espanholas são exemplo para o mundo. As quase quatro décadas de monarquia em democracia mostram o quanto ambas se beneficiaram mutuamente e em como Portugal ficou a perder comparativamente com as repúblicas que lhe foram calhando em sorte.

As monarquias têm sabido adaptar-se ao longo dos séculos. O que trazem de bom e de permanente não se altera em virtude de excentricidades, pecados ou mesmo crimes de um Chefe de Estado individualmente considerado. Aprendamos todos, principalmente a monarquia espanhola, com esta lição concreta e a exigência de rigor no exercício da função real que a mesma acarreta, sem descurarmos as virtudes e as vantagens para os povos que só a monarquia é capaz de lhes trazer.

 
Com a colaboração do meu amigo João Vacas

IMG_0114_xoptimizadax.jpg

 
Vai por aí uma grande excitação entre os republicanos com os problemas de Juan Carlos. No fundo, esperam que isso leve ao fim da monarquia espanhola. Compreensivelmente, o êxito desta monarquia dói de perto aos republicanos portugueses. Para acalmar, deveriam ouvir o socialista Pedro Sánchez, que respondeu aos jornalistas que uma coisa são pessoas outra são instituições e que Juan Carlos, se for necessário, estará disposto a responder perante a justiça.
 
Não deixa de ser curioso que os republicanos - ao contrário do que fazem em relação às monarquias - nunca ponham em causa a natureza do regime quando há dirigentes como os actuais em repúblicas como, por exemplo, os EUA, Rússia, China, Brasil, Filipinas, Coreia do Norte, Venezuela, Cuba ou Hungria. Não quer isto dizer que o comportamento de Juan Carlos seja desculpável. As monarquias vivem muito do exemplo e ele deu péssimos exemplos neste final de vida. Mas também é verdade que é suposto a continuidade monárquica aprender com os erros que são cometidos e tudo indica que Filipe VI não repetirá os do seu pai. Apesar dos frequentes casos de corrupção, Espanha, muito graças a Juan Carlos, é hoje uma sólida democracia. O que não se poderá dizer de algumas das principais repúblicas do mundo.
 
Nota: Fotografia de Filipe VI a jurar a constituição perante o parlamento espanhol
 

Sartre contra Camus

por henrique pereira dos santos, em 05.08.20

E há quem insista em que há defesa racional para isto, com o que se sabe hoje sobre a doença.

Isto não tem nenhuma relação com a gestão de uma epidemia, isto é apenas a cedência política de populistas que fizeram uma escolha clara: se o povo quer segurança, o que é preciso é dar-lhe uma sensação de segurança, que se lixe a liberdade.

Que haja tanta gente razoável a justificar isto só não é surpreendente porque sempre foi com essa razoabilidade que todas as ditaduras se instalaram e se mantiveram, oferecendo segurança a troco da liberdade.

Em tempos de abundância e paz há sempre muito mais gente que, na prática, apoia Sartre contra Camus, justificando-se com as mais nobres razões do mundo, mesmo que, no fundo, no fundo, seja só medo dos riscos e custos de uma liberdade dada como adquirida.

"As if it were not bad enough that you can’t leave your house without being muzzled and without a “lawful reason” under this new regime you can’t even remain in your house unmolested by the cops, they can just pop ‘round anytime to make sure you haven’t had Bruce and Sheila from next door round for a couple of drinks".




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