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Sobre escolas fechadas

por henrique pereira dos santos, em 07.08.20

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A psicose das escolas é das coisas mais estúpidas da gestão desta epidemia e das melhores demonstrações da pusilanimidade dos governos.

Desde o princípio, a partir das outras epidemias, que a informação disponível era a de que o fecho de escolas não é uma medida muito inteligente de controlo de epidemias, quer porque frequentemente não é muito eficaz - varia em função das características da epidemia - quer porque tem um efeito disruptivo brutal na sociedade.

Mas é sempre das primeiras medidas que as sociedades exigem aos seus governos, e daquelas a que é difícil os governos resistirem dada a carga emocional de pôr em risco as criancinhas.

Nesta epidemia em concreto, que afecta muito pouco as pessoas com menos de 18 anos, a medida é particularmente desadequada.

Ao princípio a imprensa ainda se entretinha a tentar demonstrar que não havia risco zero para as crianças (nunca há, de resto, dos sítios mais perigosos do mundo para uma criança, do ponto de vista estatístico, é a cozinha da sua casa), com base nas poucas situações relatadas de problemas graves em crianças e jovens causadas pela covid. Acontece que a maior parte desses relatos eram mesmo tretas - a imprensa desde cedo deixou de aplicar à informação sobre a covid as regras básicas da profissão, com a verificação dos factos à cabeça - e os muito poucos que não eram treta diziam respeito a situações muito excepcionais de crianças com vários problemas de saúde. Isso não impedia médicos responsáveis, por exemplo, do hospital Dona Estefânia, enfatizar que realmente havia crianças a ser assistidas no hospital e até, às vezes, passando pelos cuidados intensivos, sem terem a precaução de enquadrarem devidamente essas situações.

Quando se tornou particularmente evidente que o argumento da infecção das crianças não tinha base nenhuma, passaram-se a dois argumentos centrais para andar a questionar a abertura de escolas: 1) o risco de levaram para a casa as infecções, em particular aos avós - como se os grupos de risco não tivessem de se defender sempre perante a incerteza, com ou sem escolas abertas - de que o boneco deste post é exemplo; 2) o risco para os professores, como se não coubesse aos professores gerir o seu próprio risco e as escolas não existissem para servir os alunos e as suas famílias, e não como porto seguro dos professores (o risco de problemas sérios por exaustão é muito maior que o associado à covid, mas isso foi rapidamente esquecido).

Será talvez a altura de voltar à evidência científica, por exemplo, usando este relatório do European Centre for Disease Prevention and Control de que destaco as três últimas conclusões principais:

"There is conflicting published evidence on the impact of school closure/re-opening on community transmission levels, although the evidence from contact tracing in schools, and observational data from a number of EU countries suggest that re-opening schools has not been associated with significant increases in community transmission.

Available evidence also indicates that closures of childcare and educational institutions are unlikely to be an effective single control measure for community transmission of COVID-19 and such closures would be unlikely to provide significant additional protection of children’s health, since most develop a very mild form of COVID-19, if any.

Decisions on control measures in schools and school closures/openings should be consistent with decisions on other physical distancing and public health response measures within the community".

Já agora, o que destaque é profundamente embebido na linguagem diplomática típica deste tipo de documentos, de maneira que aconselho mesmo a leitura do relatório que aponta para uma conclusão que traduzo de forma mais clara: não faz o menor sentido ter escolas fechadas.

Os monárquicos e a crise espanhola

por João Távora, em 05.08.20

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O escândalo à volta do Rei de Espanha constitui uma tragédia, desde logo no que diz respeito à sobrevivência do país vizinho tal como o conhecemos. Independentemente de se vir a provar que João Carlos I praticou actos criminosos (o princípio da presunção de inocência também existe em Espanha), as suas falhas, vindas a lume no final do seu reinado, vêm manchá-lo indelevelmente.

Essa mancha cobre injustamente o seu papel corajoso, fundamental e insubstituível para a implantação da democracia liberal em Espanha e para as várias décadas de progresso económico e social, que fizeram do reino vizinho uma potência à escala europeia. 

Apesar da exemplaridade e dedicação com que se tem devotado ao seu país, Filipe VI terá dificuldade em recuperar o consenso juancarlista em torno da Casa Real. A instituição goza ainda de autoridade junto da maioria da população e o actual Chefe de Estado tem o respeito da maior parte dos espanhóis, mas o espírito da Transição tem-se esvanecido e a Coroa é hoje objecto de um ataque contínuo num quadro político muito polarizado, em que os principais partidos do regime (monárquicos ou, pelo menos, defensores do pacto constitucional vigente) vêm perdendo força; já para não falar na pressão das forças independentistas que não irão deixar de aproveitar um momento de fragilidade de uma instituição estruturante para atacarem o Estado central. 

Se juntarmos a isto a previsível instabilidade social decorrente da pandemia, antecipando-se o aumento da pobreza e do desemprego, suspeito que Espanha se prepara para enfrentar uma tempestade perfeita. Para mais, todos conhecemos o “modo espanhol” de radicalização política. Não é preciso remontar a 1936: o actual governo contém o mesmo germe de dissensão e enfrentamento que precipitou Espanha no abismo fratricída.

Como monárquicos não podemos deixar de nos confrontar com o que se passa ao nosso lado, agora que os republicanos vociferam apesar dos tristes exemplos de presidentes que abundam por essas repúblicas afora. Será, talvez, útil recordar-lhes que a verdadeira república espanhola se ficou a dever a um rei. Ao mesmo monarca sob cujo reinado se firmaram as liberdades e a paz social que nunca vingaram sob regimes republicanos.

No entanto, é justo reconhecer que o escândalo em torno de João Carlos I fere um dos argumentos a favor da monarquia: a mais-valia da preparação precoce dum príncipe para um cargo de grande exigência ética e moral. Precisamente porque o cargo é hereditário e vitalício, qualquer erro mais grave pode comprometer uma das principais vantagens da perdurabilidade na chefia dos Estados, que é a confiança e autoridade de uma instituição, que a todos representa e agrega, como reserva moral. 

As monarquias, no nosso tempo de democracias avançadas, são sistemas muito frágeis, desde logo pela vertigem mediática que se vive, e também devido ao materialismo e ao niilismo, que tudo permeiam,  que relativizam a importância das tradições e da família natural como célula vital da sociedade. Pergunto-me se as repúblicas estarão mais imunes a essas fragilidades ou se serão mais aptas a superá-las por via do sufrágio e não tenho qualquer razão para acreditar que assim seja. Pelo contrário, a volatilidade e rotação na cúpula do poder e a sua captura pelos principais partidos, sem travões nem contrapesos fundados numa outra legitimidade, permitem-me acreditar que não serão melhores.

 Por tudo o que refiro, estes dias, em que um rei que nos habituámos a respeitar vê abalado o seu prestígio com tão grande estrondo, com consequências imprevisíveis para o seu povo, terão de ser de grande consternação para os monárquicos. 

Apesar das possíveis falhas de João Carlos I, a transição e a monarquia espanholas são exemplo para o mundo. As quase quatro décadas de monarquia em democracia mostram o quanto ambas se beneficiaram mutuamente e em como Portugal ficou a perder comparativamente com as repúblicas que lhe foram calhando em sorte.

As monarquias têm sabido adaptar-se ao longo dos séculos. O que trazem de bom e de permanente não se altera em virtude de excentricidades, pecados ou mesmo crimes de um Chefe de Estado individualmente considerado. Aprendamos todos, principalmente a monarquia espanhola, com esta lição concreta e a exigência de rigor no exercício da função real que a mesma acarreta, sem descurarmos as virtudes e as vantagens para os povos que só a monarquia é capaz de lhes trazer.

 
Com a colaboração do meu amigo João Vacas

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Vai por aí uma grande excitação entre os republicanos com os problemas de Juan Carlos. No fundo, esperam que isso leve ao fim da monarquia espanhola. Compreensivelmente, o êxito desta monarquia dói de perto aos republicanos portugueses. Para acalmar, deveriam ouvir o socialista Pedro Sánchez, que respondeu aos jornalistas que uma coisa são pessoas outra são instituições e que Juan Carlos, se for necessário, estará disposto a responder perante a justiça.
 
Não deixa de ser curioso que os republicanos - ao contrário do que fazem em relação às monarquias - nunca ponham em causa a natureza do regime quando há dirigentes como os actuais em repúblicas como, por exemplo, os EUA, Rússia, China, Brasil, Filipinas, Coreia do Norte, Venezuela, Cuba ou Hungria. Não quer isto dizer que o comportamento de Juan Carlos seja desculpável. As monarquias vivem muito do exemplo e ele deu péssimos exemplos neste final de vida. Mas também é verdade que é suposto a continuidade monárquica aprender com os erros que são cometidos e tudo indica que Filipe VI não repetirá os do seu pai. Apesar dos frequentes casos de corrupção, Espanha, muito graças a Juan Carlos, é hoje uma sólida democracia. O que não se poderá dizer de algumas das principais repúblicas do mundo.
 
Nota: Fotografia de Filipe VI a jurar a constituição perante o parlamento espanhol
 

Sartre contra Camus

por henrique pereira dos santos, em 05.08.20

E há quem insista em que há defesa racional para isto, com o que se sabe hoje sobre a doença.

Isto não tem nenhuma relação com a gestão de uma epidemia, isto é apenas a cedência política de populistas que fizeram uma escolha clara: se o povo quer segurança, o que é preciso é dar-lhe uma sensação de segurança, que se lixe a liberdade.

Que haja tanta gente razoável a justificar isto só não é surpreendente porque sempre foi com essa razoabilidade que todas as ditaduras se instalaram e se mantiveram, oferecendo segurança a troco da liberdade.

Em tempos de abundância e paz há sempre muito mais gente que, na prática, apoia Sartre contra Camus, justificando-se com as mais nobres razões do mundo, mesmo que, no fundo, no fundo, seja só medo dos riscos e custos de uma liberdade dada como adquirida.

"As if it were not bad enough that you can’t leave your house without being muzzled and without a “lawful reason” under this new regime you can’t even remain in your house unmolested by the cops, they can just pop ‘round anytime to make sure you haven’t had Bruce and Sheila from next door round for a couple of drinks".

matar a galinha dos ovos de ouro (2)

por Jose Miguel Roque Martins, em 05.08.20

A nova frente de ataque ao livre comercio é a necessidade de eliminar dependências nas cadeias logísticas, partindo de países pertencendo a outros blocos.  

O exemplo mais retratado tem sido a dependência da industria de equipamentos médicos que surgiu na sequencia da Pandemia.

Equipamentos cruciais, como ventiladores, não surgiram em quantidade suficiente, quando foram necessários.  A China não foi capaz de aumentar a sua produção para suprir uma inédita necessidade pontual. Caso fosse a Alemanha ou os EUA a produzi-los teria sido diferente? Nenhuma industria está preparada para um aumento brutal de procura súbita, urgente e imprevista.

Acresce que, os exemplos de países Ocidentais impedindo a exportação de artigos subitamente considerados estratégicos, foram muitos. Ou seja, quando emergem problemas críticos, não há solidariedade na Asia, na Europa ou nos EUA. São os espaços nacionais que emergem de novo no seu egoísmo autárquico . Cada Pais tem então que produzir para autoconsumo quase tudo?

Num registo mais ridículo, tenho lido que os analgésicos são produzidos na Asia, criando uma enorme dependência desses mercados. Vamos deixar de produzir medicamentos muito mais rentáveis para produzir aspirinas? Faltaram analgésicos? Se fosse rentável produzi-los nos países ricos, porque não o são? Havia, antes da pandemia, desemprego que permitisse produzir adicionalmente analgésicos, sem deixar de produzir o que se estava a fazer? E mudar a estrutura de produção seria vantajoso, ou seja, permitiria aumentar o produto?

A resposta a  todas estas questões é um rotundo não.

O que temos é mais um pretexto usado para ferir o comercio livre, a globalização, que tanto bem estar tem proporcionado a todos os envolvidos, nomeadamente o mundo  Ocidental.  Uma tentação permanente, continua mas sempre errada. Uma daquelas ideias que parecem boas á primeira vista  mas que são um desastre.

Fechar fronteiras é adicionar uma desgraça á atual catástrofe. Mas esta é mais uma das vertigens dos nossos tempos.

 

 

PS: Outra questão, são os potenciais riscos geoestratégicos existentes por uma China num processo de afirmação musculado e perigoso.

Liberdade e segurança

por henrique pereira dos santos, em 04.08.20

No meio de tanta informação científica, às vezes é preciso ouvir quem se treinou a ler o mundo no passado para perceber melhor o que temos pela frente.

"I’m not suggesting that life should simply “go back to normal” and that we should cease to take protective measures, especially for those particularly vulnerable. But the standard of “safety” deserves to be banished or, at the very least, weighed against the notion of compromised liberty. “Safety” is simply not a reasonable goal for a free society. We are not “safe” driving our cars. We are not “safe” from cancer, or stroke, or heart disease, or numerous other killers that strike without any warning. We have vaccines now for various forms of the flu but we are not “safe” from it, given that 30,000 to 60,000 people die from it each year in the United States. There is no reason to believe that a vaccine for COVID-19 will make us “safe.” Some people will not take the vaccine and for others it will be ineffective.

Of course, I support trying to protect those particularly susceptible to harm from this virus, and individuals should take responsible steps to avoid infecting themselves and others. But I am suggesting that trying to achieve actual “safety,” as opposed to simply being prudent, is both impossible and carries with it a huge cost — the loss of our liberty, the loss of our dignity, and the loss of some measure of our sober judgment. Rational individuals understand that virtually every act entails some kind of risk, and we accept those risks every day of our lives. We don’t live as if we are likely to die at any moment (from cancer or a car accident or a gunshot); we live as if we know that the risks inherent in life and liberty are far outweighed by life’s joys and opportunities."

Henrique Neto, a politica energetica e o regime

por Jose Miguel Roque Martins, em 04.08.20

 

henrique neto .jpg"Porque fizeram o que fazem todos os governos socialistas, transformar erros de gestão em dívida. Até quando vamos deixar que estes erros e as roubalheiras sejam pagos pelos nossos filhos e netos?"

Ontem, no Observador, Henrique Neto, apresentou um excelente artigo, em que denuncia, mesmo sem casos de policia,  a  péssima Política Energética Nacional, mais  uma das muitas razões pelas quais somos pobres. E espanta-se com mais do mesmo, a propósito da nova coqueluche do regime, o Hidrogénio Verde. Outro elefante branco em gestaçao. È evidente que, assim, não vamos lá. 

Destacado militante socialista durante décadas, Henrique Neto, Homem integro sério e inteligente, não conseguiu manter a sua filiação política de décadas. Nem conseguiu deixar de ter um resultado pifio na sua candidatura á Presidencia da Republica, uma inevitabilidade conhecida, superada pela sua vontade que a politica conte com vozes desinteressadas e lucidas. 

Porque se afastam tantos Homens grandes dos partidos politicos? 

PS: É cada vez menor a crença nos partidos do arco do poder. Os resultados do regime justificam a tendência. Ou há uma regeneração rápida destes  partidos,  ou vamos ter populismo a sério. 

Mais alienação

por henrique pereira dos santos, em 03.08.20

"Utilizar apoios europeus para ajudar a preservar empregos e recorrer a todos os meios disponíveis para fazer com que as empresas preservem a sua actividade, deverá ser preocupação primordial das entidades governamentais. É urgente que as empresas voltem a dar emprego e trabalho às pessoas, que voltem a dar-lhes a possibilidade de ser donas da sua própria vida, porque, se num primeiro momento as pessoas da economia informal se vão aguentar, precariamente, por via de pequenos trabalhos remunerados de forma imediata, muitas empresas vão dispensar colaboradores e fazer despedimentos depois desta experiência do teletrabalho."

Não, não é neste parágrafo que está a alienação. Posso discordar que no texto de que tirei este parágrafo haja uma excessiva permeabilidade da linha que separa a publicidade de um texto de opinião forte sobre a devastação social que nos entra pelos olhos, mas não há ponta de alienação nesta crua descrição da realidade.

A alienação está no longo e interessante artigo de Manuel Carmo Gomes sobre o que nos espera no Outono, do ponto de vista da epidemia.

Manuel Carmo Gomes começa por informar que vai dividir o seu texto em três grupos de questões, o primeiro relacionado com o nosso comportamento em relação ao vírus, o segundo com o grau de imunidade já adquirida e a terceira relacionada com as intervenções das autoridades de saúde pública, sobre as quais Manuel Carmo Gomes avisa que tem uma visão pessoal totalmente aberta à discussão e escrutínio.

Na verdade este truque de retórica não chama a atenção para o carácter aberto e discutível do terceiro grupo de questões, o que o truque faz é dissimular o argumento de autoridade em que assentam os dois primeiros grupos de questões, caracterizando-os como sendo "abordados recorrendo aos conhecimentos científicos adquiridos nos últimos meses".

É extraordinário que Manuel Carmo Gomes omita, totalmente, que qualquer coisa como 70% do contágio se faz em coabitação e gaste quase todo o espaço dedicado à questão da transmissão e contágio à transmissão por aerossóis em contexto social, matéria que está longe de totalmente clarificada e, sobretudo, que consensualmente se sabe que não representa uma percentagem muito grande no contágio e, menos ainda, está associada a uma percentagem relevante de hospitalizações e mortes. Mesmo assim, conclui que a nossa capacidade de evitar uma segunda vaga da epidemia está na nossa capacidade para minimizar o contágio por aerossol, uma afirmação ousada e muito pouco fundamentada, quer no texto que escreve, quer nos dados conhecidos da epidemia.

Mais grave, no entanto, é o que Manuel Carmo Gomes refere sobre o grau de imunidade, referindo mais uma vez os famosos 60% de imunidade na comunidade para se atingir imunidade de grupo, sem dedicar uma linha à investigação de Gabriela Gomes sobre o efeito da heterogeneidade na diminuição desse número, nem à evidência empírica de que, mesmo em condições de forte prevalência da infecção, a infecção ter parado com percentagens da população muito abaixo desse número.

Na verdade, e no essencial, o artigo resume bem ao que vem: "uma média de 300 casos por dia é um valor muito alto (escusando-se a fundamentar esta afirmação), não afasta o risco de descontrolo (mas há alguma maneira de afastar o risco de descontrolo? O que precisamos é de o gerir, pretender risco zero é uma pretensão absurda, cara, ineficiente e que qualquer gestor de risco sabe ser uma infantilidade), dada a capacidade para propagação exponencial deste vírus na população (ainda está na conversa do risco de propagação exponencial? Não aprendeu nada neste seis meses?)".

E quanto ao problema de Isabel Jonet levanta o primeiro parágrafo deste meu texto, tem alguma a dizer, caro Manuel Carmo Gomes?

Ou acha que a pobreza é um risco menor para a saúde pública que a covid?

É que se acha, está na altura de começar a explicar, preto no branco, por que razão entende que a covid é um risco para a saúde pública maior que a pobreza, já chega de omitir partes essenciais do problema na definição de políticas públicas, como se fosse possível gerir a economia omitindo a ameaça sanitária ou gerir a saúde pública omitindo o contexto económico e social em que a epidemia se desenvolve.

A crise do Covid é um acidente, a nossa pobreza não

por Jose Miguel Roque Martins, em 03.08.20

A crise economica que vivemos é causada pelo Coronavírus. Honestamente, com o caminho seguido mundialmente, não seria possível evitar significativamente a atual devastação. Os 16,5% de contração no Segundo trimestre, poderiam ser apenas marginalmente inferiores,  mesmo com uma superior gestão da crise.

A pandemia é um acidente de percurso.

Relevante é perguntar porque, sobretudo desde 2000, Portugal tem vindo a divergir do crescimento da CEE e, em especial, dos países antes mais pobres que nós antes da sua entrada no espaço comunitário. Seguramente não foram boas politicas económicas e publicas ou choques exógenos os responsáveis por tamanha divergência.

Enquanto não tivermos a coragem de fazer analises frias e não doutrinarias, será difícil deixarmos de ser pobres por escolha.  À custa de ajudas, da evolução geral de produtividade, dos baixos preços do que importamos, estamos melhor do que há algumas décadas. Mas estamos incomensuravelmente pior do que poderíamos estar.

As soluções são conhecidas e fáceis de aplicar: basta imitar o que os outros, com mais sucesso do que nós, fazem. Nem é preciso discutir ou saber economia para o perceber.  

Esta crise é um choque exógeno. Mas tal como tem acontecido  há décadas, são as más escolhas próprias que nos condenarão a uma recuperação mais lenta. E provavelmente ao reforço do nosso papel na cauda da riqueza da Europa.

Mudar é tão fácil como aparentemente impossível em Portugal.

 

PS: já não se pede que imitemos a Irlanda, o maior caso de sucesso económico das ultimas décadas. Seria provavelmente demasiado radical. Mas porque competirmos com a Grécia, Itália e outros países que mergulham no abismo? Masoquismo, estupidez ou simples incapacidade?

 

O medo

por henrique pereira dos santos, em 02.08.20

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A menos que eu me tenha distraído, penso que nunca terei escrito nada a desvalorizar o papel do medo numa epidemia.

Bem pelo contrário, as minhas críticas mais fortes à Organização Mundial de Saúde prendem-se com a sua opção de gerir uma epidemia promovendo o medo.

Uma das minhas irmãs dizia-me, se bem percebi, que o que eu dizia que era promoção do medo era apenas uma maneira, muito pedagógica, de fazer a gestão de uma epidemia em dois ou três anos, até que o vírus se tornasse endémico.

A verdade é que o medo é uma coisa bem real e tem consequências individuais e sociais que não devem ser desvalorizadas.

O artigo que está no princípio deste texto é uma ilustração muito boa de como mesmo uma pessoa bem treinada para lidar com as emoções acaba enredado numa teia tecida pelo medo, mesmo tendo absoluta consciência do absurdo do que sente face aos riscos que realmente corre, mantendo a capacidade de análise racional da situação e, ainda assim, o medo permanece.

O relevante aqui é que o texto ilustra o que é normal, não vale a pena desvalorizar o que está descrito, todos nós tendemos a reagir assim e as comunidades, perante uma ameaça que as pessoas sentem como podendo atingi-las individualmente, reagem assim.

Este aspecto, aliás, tem sido usado como argumento de que não são as medidas tomadas que deprimem o PIB, haveria sempre uma descida acentuada do consumo, por causa do medo das pessoas, faz parte das consequências normais de uma epidemia.

É verdade que não está nas mãos dos governos, nem mesmo da coligação governos e jornais, controlar o medo das pessoas e das sociedades.

Tem estado nas mãos das pessoas, em especial das elites que são capazes de racionalizar o seu medo, e está nas mãos dos governos, e está nas mãos dos jornais e, mais que todos, está nas mãos da Organização Mundial de Saúde, adoptar uma doutrina de gestão da epidemia que considera o medo um aliado para que as pessoas adoptem comportamentos de defesa em relação à doença, e para que as pessoas pressionem os seus governos para que adoptem medidas coercivas maximalistas - cabe tudo no princípio da precaução e da definição do pior caso possível - e consequentemente cavalgar o medo, promovendo-o.

Em alternativa, pode-se adoptar uma doutrina de gestão da epidemia que considera o medo como um dado adquirido que, acima de determinado nível, é bem mais perigoso que a doença em si, e por isso todas as decisões são pesadas em função do seu contributo para o reforço da confiança, a racionalização do medo e o controlo dos efeitos mais perniciosos do medo social.

Manter, como acontece em Lisboa, parques infantis vedados e fechados, ou vedar com fitas todas as mesas e cadeiras do Jardim da Parada, onde habitualmente se juntam velhotes a jogar, tem um efeito absolutamente marginal na protecção dos grupos de risco - pensar que os amigos deixam de se juntar porque alguém põe umas fitas de plástico no sítio habitual é desconhecer por completo a natureza humana - e tem um efeito devastador na confiança das pessoas, por exemplo, para a abertura das escolas.

Já seria tempo de pôr a discussão onde deveria estar: o que podemos fazer para ajudar a normalizar a vida das pessoas, ao mesmo tempo que protegemos os grupos de risco?

A alternativa que continua a ser defendida por vários profissionais de saúde, e que consiste em caçar gambuzinos, para além de irracional, é uma alternativa que mata, como sugerem os dados da mortalidade do mês de Julho, mesmo descontando o que resulta de termos tido bastantes dias de calor seguidos.

Novo Banco, a venda de imóveis e a demagogia

por Maria Teixeira Alves, em 02.08.20

Novo Banco admite precisar de mais capital este ano - Economia ...

Não sai da agenda política a polémica em torno da venda de carteiras de imóveis, recebidos por dação em cumprimento de crédito, pelo Novo Banco. 

O Público mostra um dos imóveis que integrou a carteira Viriato, vendida pelo Novo Banco ao fundo norte-americano Anchorage em 2018. Trata-se de um Lote com armazém em Pataias, Alcobaça, foi vendido pelo Novo Banco por 62.294 euros à sociedade imobiliária Great Missouri, que está agora a pedir 120 mil euros.

A primeira questão que se põe é: E já foi vendido por esse preço? Quanto tempo pode a sociedade (que o comprou num pacote de vários imóveis) manter o imóvel até o conseguir vender? Se calhar 3 ou 4 anos... pois os bancos não podem. O BCE não deixa. Os bancos têm de se desfazer deles no prazo de 2 anos.

O Novo Banco herdou uma carteira de imóveis (e de malparado) de uma dimensão gigantesca do antigo BES, sim aquele banco que ninguém questionava e que toda a gente conhecia os donos, mas que afinal tinha uma casa-mãe sediada no Luxemburgo e com contas falsas. Aquele banco que até um figurante foi contratado, por 4,5 milhões de euros, para simular um alegado concurso internacional para uma suposta gestão de ativos dos clientes venezuelanos, acompanhada de um investimento num aumento de capital da empresa não financeira do GES. 

O Novo Banco foi vendido quando ninguém apostava na sua salvação, quando a Comissão Europeia achava que tinha de ir para liquidação.

Se nós tivéssemos um banco da dimensão do Santander em Espanha, podíamos esperar uma integração/absorção do banco com problemas, como aconteceu em Espanha com o Popular, mas não temos. Vender o Novo Banco foi uma tarefa hercúlea. Porque era um banco com um terço da carteira composta por malparado e imóveis recebidos em dação de cumprimento. As condições acordadas de venda ao Lone Star são sobretudo injustas para os outros bancos porque têm de pagar para dois fundos de resolução o nacional e o europeu, e o nacional está a sair-lhes muito caro. Mas a liquidação quanto é que iria custar ao sistema bancário? Quanto de fuga de depósitos iria provocar nos outros bancos? Quanto teríamos de pagar aos "lesados do Novo Banco"? Depois de o Estado ter ficado com direitos sobre ações em tribunal em troca de ter ressarcido os lesados do BES, ações judiciais essas que poderão não trazer frutos suficientes que compensem o Estado do que indemnizou aos lesados. A factura do BES ainda vai demorar vários anos a pagar.

A continuidade do Novo Banco está a sair-nos cara? Sim, mas quanto custaria uma nova resolução? Ou uma liquidação?

E, apesar de, para todos os efeitos, o Fundo de Resolução ser uma entidade pública e como tal todas as despesas serem contabilisticamente despesa pública, na verdade a resolução do BES é um custo dos bancos do sistema, pois são eles que pagam os empréstimos do Fundo de Resolução que o Estado concede.

É muito fácil perguntar porque é que o Novo Banco vende uma carteira de imóveis com desconto a  fundos que são vocacionados para a compra de ativos tóxicos que depois os vão rentabilizar da forma que conseguirem? Mas o mais difícil é conseguir em dois anos despachar uma carteira de imóveis significativa como é a que o Novo Banco herdou do BES.

Para quem acompanha o sistema financeiro, questionar a venda de carteiras de imóveis a fundos é como criticar a venda de dívidas a entidades que fazem depois de "homem do fraque". Porque haveriam estes fundos de comprar chatices se não fosse porque há uma possibilidade de ganho com esses ativos? Pôr sob suspeita a venda de portfólios de imóveis ou de malparado é o mesmo que olhar de soslaio para o negócio dos fundos que são vocacionados para a gestão de carteiras de crédito e imobiliário, é questionar a atividade de empresas como a Whitestar, como a Cerberus, como a Bain Capital, a Davidson Kempner.

O tema da venda de imóveis ao fundos especializados ganhou atualidade depois de uma notícia do “Público” que avançou que o Novo Banco concedeu a crédito ao fundo comprador dos imóveis vendidos em 2018 (o norte-americano Anchorage Capital Group) carteira essa composta por “5.355 imóveis que são compostos por 8.486 fracções”.

Segundo o Público os imóveis valeriam, nas contas do banco, 631 milhões de euros e foram vendidos por 364 milhões.
Ora, por essa ordem de ideias a perda nas contas do Novo Banco seria de 267 milhões de euros, mas não foi. O banco vendeu com perda, sim, mas as perdas contam-se na comparação com o valor do ativo, líquido do imparidades e esse era de 467 milhões. Pelo que a perda registada pelo Novo Banco foi de 159 milhões de euros.
Afetou os resultados, é verdade. Mas a maioria destes imóveis (cerca de 83%) não está coberta pelo mecanismo de capitalização contingente, pelo que não provoca chamadas diretas ao Fundo de Resolução.

Questiona-se também a "transparência" e talvez também a idoneidade do comprador, porque o Público descobriu que a compra foi feita através de um veículo sediado nas ilhas Caimão. Mas todos os fundos passam por zonas off-shore. Seja Caimão ou Jersey ou outra qualquer.

A Anchorage é opaca? Só pode dizer isso quem não percebe que se está a falar de sociedades que estão registadas na SEC. A actividade destes fundos que têm sede nos EUA é regulada pela SEC. Os últimos beneficiários são muitas vezes fundos de pensões incluindo de funcionários públicos.

Foi o próprio banco que emprestou dinheiro ao fundo das ilhas Caimão para que a operação se pudesse realizar. Aí é talvez o ponto mais frágil da operação de venda. Mas é preciso não esquecer que todos os bancos vendem imóveis (seja individualmente, seja por atacado através de portfólios a fundos especializados) a clientes a quem financiam. Pois a atividade do banco é dar crédito, não é vender imóveis. Portanto os bancos aproveitam vender imóveis a clientes a quem vão dar crédito hipotecário. É essa a atividade de um banco, lembram-se?

O Novo Banco não é uma exceção. Todos os bancos vendem carteiras de ativos com o inerente desconto a fundos especializados. Os ativos ou são créditos em incumprimento ou imóveis recebidos por incumprimento de crédito. O negócio dos fundos é comprar com desconto. A vantagem dos fundos é terem equipas especializadas para gerir a recuperação com mais eficácia do que os próprios bancos. Se não fosse assim esses fundos não tinham razão de existir.

Toda esta polémica aproveitada pela política para fazer oposição populista, vai fazer com que o Novo Banco fique mais tempo com os imóveis que ainda tem para vender no balanço.

O Novo Banco ainda tem bastantes imóveis em carteira para vender. Isto depois de em 2019 o Novo Banco ter vendido 909 milhões de euros de ativos imobiliários em três blocos diferentes: o bloco Sertorius; um bloco de grandes empreendimentos específicos e um bloco de ‘granulares’. No bloco Sertorius apenas 26% era de imobiliário residencial, 41% eram terrenos e 22% era parque industrial abandonado (que tem normalmente valor negativo) e ainda tinha 7% que eram ativos comerciais. Esse bloco Sertorius representa cerca de 40% do volume de vendas, isto é, 359 milhões de euros. O valor das perdas em 2019 foi de 229 milhões, com impacto em capital de cerca 120 milhões.

Tal como o CEO do Novo Banco revelou numa entrevista ao Económico, há depois outras operações que pesam cerca de 30%, no valor total de cerca de 200 milhões, e são sobretudo três: a operação da Matinha, a operação das Antas e a operação da Quinta Marques Gomes, em Gaia, e aqui não houve perdas face ao valor contabilístico líquido de imparidades.

As vendas granulares [pequenos imóveis individuais] conjugaram-se com uma parte do portfólio Albatroz, que foi a venda de uma carteira de ativos imobiliários e crédito não produtivo (non-performing loans), que envolveu cerca de 30 milhões de imóveis [era composto simultaneamente por imobiliário e crédito, sobretudo em Espanha].

No projeto Sertorius, o vencedor foi o Cerberus Group e a compra foi feita por uma entidade totalmente detida indiretamente por fundos de investimento que integram o grupo. Foram vendidos 195 imóveis, agregando 1.228 frações. O perímetro final da operação sobre imóveis teve um valor bruto de 488 milhões, mas um valor líquido, após imparidades, de 359 milhões. O comprador pagou 159 milhões pela carteira de ativos e isso teve um impacto direto nos resultados do banco de 229 milhões. Aqui também apenas cerca de 20% dos imóveis estavam protegidos pelo mecanismo de capital contingente. 

As duas vendas de carteiras de imóveis que ocorreram nos últimos dois anos foram feitas com perdas diretas para o banco de 388 milhões. Mas a generalidade destes imóveis não estava protegida pelo Fundo de Resolução. 

O Novo Banco ainda tem programas para a alienação de imóveis, tal como noticia o Expresso, até porque a isso é obrigado pelos supervisores. Ao todo, o banco ainda tinha no fim do ano 3.830 imóveis registados no balanço para vender, a maioria dos quais edifícios construídos para habitação. Mas há também uma parte relevante de terrenos. Este conjunto de imóveis está registado por um valor bruto em torno de 1.000 milhões, mas o banco já foi reconhecendo antecipadamente perdas, por via de imparidades, para 430 milhões. O justo valor destes ativos está em torno de 550 milhões de euros. Pelo que é este valor que serve de base para estimar perdas ou ganhos.

Há ainda a dizer que estas transacções são feitas por processos internacionais competitivos, em que os principais concorrentes são fundos de grande dimensão.

Domingo

por João Távora, em 02.08.20

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus


Naquele tempo, quando Jesus ouviu dizer que João Baptista tinha sido morto, retirou-Se num barco para um local deserto e afastado. Mas logo que as multidões o souberam, deixando as suas cidades, seguiram-n’O por terra. Ao desembarcar, Jesus viu uma grande multidão e, cheio de compaixão, curou os seus doentes. Ao cair da tarde, os discípulos aproximaram-se de Jesus e disseram-Lhe: «Este local é deserto e a hora avançada. Manda embora toda esta gente, para que vá às aldeias comprar alimento». Mas Jesus respondeu-lhes: «Não precisam de se ir embora; dai-lhes vós de comer». Disseram-Lhe eles: «Não temos aqui senão cinco pães e dois peixes». Disse Jesus: «Trazei-mos cá». Ordenou então à multidão que se sentasse na relva. Tomou os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos ao Céu e recitou a bênção. Depois partiu os pães e deu-os aos discípulos e os discípulos deram-nos à multidão. Todos comeram e ficaram saciados. E, dos pedaços que sobraram, encheram doze cestos. Ora, os que comeram eram cerca de cinco mil homens, sem contar mulheres e crianças.


Palavra da salvação.

O racismo e o populismo

por Jose Miguel Roque Martins, em 01.08.20

Dizer que não há racismo em Portugal é um disparate. È evidente que existe racismo. Desafio alguém a dizer-me que nunca conheceu ninguém racista. E sim, o racismo tem que ser condenado e sobretudo erradicado. Já a forma como está a ser combatido é outro disparate. Que a recente morte de Bruno Candé só não vai dar significativo alento, apesar das tentativas,  porque é um "insignificante" português ao invés de um "poderoso" americano. 

O que está errado na actual forma de combater o racismo? Praticamente tudo. Começa na perseguição a personalidades já mortas. Sem possibilidade de defesa e sem o beneficio de consideração de atenuantes por falta de pressupostos culturais à época em que viveram.

Vandaliza e reescreve a história, destruindo monumentos e reduzindo a uma parcela um ser humano, sempre mais complexo e completo de que uma das suas características.

Continua,  assumindo-se racista, ao impor que se ignore qualquer facto em que se reconheça a etnia de uma pessoa etnicamente minoritária. Como se fosse uma vergonha ou defeito ser branco, preto, asiático ou outra coisa qualquer. Factos nunca devem ser ignorados. Alguém que faz de conta que alguém, pertencendo a uma minoria, não o é, está a ser racista.

Impõe a inexistência de estatísticas ou a informação sobre grupos étnicos que poderiam provar factualmente que determinadas etnias estão completamente isentas de qualquer comportamento desviante. O argumento é que informação com base em etnicidade é uma descriminação. Quando se está a falar de informação factual que é a única forma de destruir preconceitos. Nos Estados Unidos é graças a essas estatísticas que se prova que os migrantes (hispânicos) não aumentam a criminalidade. Diminuindo um preconceito que mesmo assim, continua a afligir a sociedade.

 Black lifes matter. E a vida dos brancos e asiáticos ? Não importam? Que horrorosa descriminação!

Descobrem e denunciam comportamentos racistas que  podem simplesmente não existir.  Basta que alguém, pertencendo a uma minoria étnica, seja vítima, para transformar a situação inevitavelmente numa contenda racista. Quem pode ter a certeza que George Floyd foi morto por racismo ou por mais um horrendo crime de brutalidade policial, como infelizmente acontecem? Será o homicídio brutal de Bruno Candè um acto racista? Talvez. O Homicida era racista. O que não quer dizer que o tenha assassinado por ser negro. Com tudo o que aconteceu, ficaremos sempre com a duvida que pode ser apenas uma acusação influenciada pelo ambiente existente. 

Até parece que é preciso inventar atos racistas para os combater, quando o que não falta são manifestações quotidiana deste e doutros preconceitos! Apenas o sangue parece ser suficiente para justificar a luta contra o racismo.O que não é de todo verdade. 

Descredibilizam, assim, uma causa nobre,  que necessita de perseverança, verdade e de amor, mais do que ódio.

Se um clube de Futebol fizesse manifestações de protesto  convidando as suas claques e houvesse incidentes de ódio, ninguém teria duvidas em acusar esse clube. Já tivemos em manifestações recentemente promovidas mensagem de "morte aos policias". Não é uma mensagem de ódio? O que é diferente aqui? 

Por ser patrocinado pelo Bloco de Esquerda e pelo Livre? Porque dá o pretexto ao Chega de negar o racismo? O populismo está mesmo na moda. E as causas, por mais nobres que sejam, são desvalorizadas, aparentando  ser apenas mais um pretexto de luta mediático. 

 

 

 

Alienação

por henrique pereira dos santos, em 01.08.20

No mesmo dia, no mesmo exacto dia em que são publicados os números da estimativa da queda do PIB no segundo trimestre de 2020 (uma queda maior que 15%), são publicados os primeiros dados do estudo serológico português relacionado com a covid, cujas opções metodológicas continuam por justificar inteiramente e não são imediatamente apreensíveis (as pessoas treinadas no desenho de amostras que li fazem comentários de grande perplexidade, mas o que sei não me chega para ter opinião sobre o assunto).

Os dados são o que são, não percebo a necessidade de interpretações da treta como "O valor estimado é compatível com uma limitada extensão da infeção na população Portuguesa, entre março e junho de 2020, e distante do valor necessário para alcançar a imunidade de grupo (projetado, na literatura, entre 43 a 67 %)", mas é inegável que o estudo é útil (há quem defenda que seria muito mais útil se se aproximasse, metodologicamente, do estudo espanhol, mais abrangente e mais rápido, mas eu não sei discutir isso).

Como seria de esperar, os jornalistas resolvem confundir conceitos essenciais para manter a "linha justa" de pensamento: "Os resultados do estudo deitam por terra uma das afirmações mais comuns no início da pandemia na Europa: a de que as crianças eram menos afetadas. Segundo o inquérito, ao nível dos grupos etários são poucas as diferenças. De acordo com o INSA, a percentagem de pessoas que estiveram em contacto com o vírus varia entre 2,2% na faixa etária entre os 10 e os 19 anos e os 3,2% no grupo etário dos 40 aos 59 anos, sendo que a seroprevalência nas restantes faixas etárias é de 2,9%, incluindo as crianças com idades entre os 12 meses e os 9 anos".

Independentemente de "deitar por terra" ser uma afirmação claramente excessiva neste contexto, o estudo não diz rigorosamente nada sobre a afectação de pessoas, o estudo apenas se debruça sobre o contacto das pessoas com a doença, não sobre a sua afectação pela doença (excepto na medida em que usa a sintomatologia para separar sintomáticos, paucissintomáticos e assintomáticos, categorias que dizem muito pouco sobre afectação pela doença). Ou seja, o que o estudo confirma é que as crianças contactam com o vírus, o que combinado com o nível absolutamente marginal de casos problemáticos em crianças, confirma que a doença não as afecta muito, mesmo que as infecte, ao contrário do que afirma a jornalista.

Ora é aqui que entra a alienação pura e dura.

Partindo desta realidade, Filipe Fróis luta desesperadamente com a lógica: "“Isto quer dizer que se as crianças são assintomáticas, à partida, poderão também contaminar mais e ter um papel diferente do esperado na contaminação comunitária”, defende o pneumologista Filipe Froes , acrescentando que estes dados preliminares “apontam para o facto de as crianças também se infetarem, mesmo que fiquem menos doentes do que os adultos”.

Se são assintomáticas poderão contaminar mais? Como? Provavelmente Filipe Frois quer dizer uma coisa ligeiramente diferente: se também são infectadas, então podem infectar. O papel dos assintomáticos no contágio continua em discussão, é certo, mas mesmo que a hipótese de que são tão infecciosos como os sintomáticos seja a correcta - o que está longe de estar demonstrado - não se percebe em que medida este estudo serológico aponta num sentido diferente de uma das hipóteses que sempre existiram (como hipótese, evidentemente), a de que as crianças podem ser infecciosas.

Não se percebe, por isso, a insistência de Filipe Fróis na questão das crianças que, como se vê pela combinação entre os dados serológicos e os do sistema de saúde, até se podem infectar em proporções semelhantes aos adultos, mas o facto é que a infecção não os afecta por aí além (existem casos excepcionais sempre, é a situação geral que interessa).

Ou melhor, percebe-se quando se lêem os outros comentários que faz a este estudo.

Filipe Frois constata que os casos detectados são apenas cerca de15% dos casos reais de infecção, concluindo daqui que "Achatámos a curva mas não conseguimos esmagar a curva durante o confinamento. Os critérios de testagem demonstraram insuficiências em termos de número e de critérios clínicos. Se queremos resolver a pandemia, temos de ter uma política mais agressiva de testagem, utilizar de critérios clínicos mais ligeiros (por exemplo, temperaturas ≥ 37,5º C, queixas nasais, perda de olfato ou de sabor) e procurar activamente os indivíduos assintomáticos".

O mais extraordinário é não haver um jornalista que lhe pergunte como, com que recursos, com que probabilidade de êxito e para quê se propõe "procurar activamente os indivíduos assintomáticos". Se para identificar apenas 15% dos casos de infecção, grande parte deles os mais simples porque ou são sintomáticos, ou são contactos próximos com sintomáticos, rebentámos com a economia ao ponto de termos cerca de 15% de queda do PIB num trimestre, que cenário tem Filipe Frois para oferecer que nos permita ir encontrar os outros 85%?

O mais extraordinário é não haver um jornalista que lhe pergunte se não acha que o Serviço Nacional de Saúde vai sofrer cortes brutais em consequência de uma queda do PIB desta dimensão.

O mais extraordinário é não haver um jornalista que lhe pergunte se não acha que a pobreza, o mais consistente indicador associado à degradação das condições de saúde, não vai afectar mais as pessoas comuns que a covid, mesmo do estrito ponto de vista da saúde pública.

O mais extraordinário é não haver um jornalista que lhe pergunte que se o estudo refere: "A diferença entre a seroprevalência e a incidência acumulada era expectável e tem sido observada também noutros estudos seroepidemiológicos (Rosenberg et al. 2020; Salje et al. 2020; Xu et al. 2020; Havers et al. 2020; Pollán et al. 2020). Considera-se que possa ser atribuída ao facto da identificação dos casos durante a fase aguda da doença fornecer informação limitada sobre o estado da epidemia, o que pode refletir a variabilidade da gravidade da doença, bem como a estratégia de testagem adotada, a proporção de indivíduos testados, o acesso aos serviços de saúde e os comportamentos de procura de cuidados de saúde, uma vez que os casos ligeiros ou assintomáticos não são captados na totalidade pelos sistemas de vigilância (Peterson et al. 2020; Wiersinga et al. 2020).", por que razão atribui tanta importância ao número de infecções e não prefere usar outros dados de acompanhamento da epidemia, como o número de internados, o número de pessoas em cuidados intensivos, a mortalidade e o números de anos de esperança de vida perdidos?

O mais extraordinário é não haver um jornalista que lhe pergunte que interesse têm os controlos de fronteira se o vírus está socialmente espalhado dos dois lados da fronteira, dando origem à verificação de que "Apesar do encerramento das fronteiras entre Portugal e Espanha, entre meados de março e junho, os resultados deste estudo encontram-se próximos dos valores estimados nas Províncias Espanholas que fazem fronteira com Portugal, onde se observaram, também, taxas de ataque mais baixas (0,5 – 7,9 %) do que nas Províncias centrais Espanholas, mais afectadas pela epidemia, nas quais a seroprevalência foi de cerca de 11 % (Pollán et al. 2020)."

O mais extraordinário é não haver um jornalista que lhe pergunte (e, neste caso, aos autores do relatório também) por que razão falam tanto da imunidade de grupo teórica, obtida a partir de modelos matemáticos que desvalorizam a diversidade das populações, quando para além dos anti-corpos há outros indícios de que poderá haver imunidade bastante acima do esperado, que é coerente com valores relativamente baixos da população com contacto com a infecção, mesmo em locais onde a incidência da doença foi muito elevada? Por exemplo, se não seria boa ideia comentar este parágrafo: "A imunidade ao SARS-CoV-2, medida através da presença de anticorpos específicos para este vírus, é provável que se encontre subestimada no presente estudo, uma vez que não foi medida a imunidade celular, que também parece desempenhar um importante papel na resposta imunitária contra o SARS-CoV-2."

A completa alienação dos defensores do "temos de esmagar a curva e para isso temos de cadastrar todos os infecciosos", o que implica encontrar os 85% que escapam aos sistemas de acompanhamento que temos montado, no exacto dia em que se demonstram os efeitos brutais dessa alienação na vida das pessoas comuns, com uma queda do PIB em torno de 15% neste trimestre, é deprimente, muito deprimente, porque continua a ser o que comanda as opções que têm vindo a ser tomadas.

Não por qualquer razão maquiavélica, apenas porque é realmente isto que a maioria das pessoas pede e quer: há muita gente cheia de medo e as elites políticas e mediáticas, em vez de assumirem a responsabilidade de contrariar esse medo, preferem fazer contas ao seu futuro imediato e dar pão e circo ao povo que pede pão e circo, mesmo quando têm perfeita consciência dos custos da falta de confiança e do medo numa comunidade.

Quebra de 16,5% do PIB, o esperado não previsto

por Jose Miguel Roque Martins, em 01.08.20

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De acordo com o Ministro da Economia, os números ontem relevados do impacto económico sofrido no Segundo semestre “confirma o que se sabia”. O povo pode estar descansado, porque os altos dirigentes da nação dominam o que está a acontecer.

Não se percebe é a sua sugestão de que estes números “vão obrigar a refletir” sobre as projeções do Governo inscritas no orçamento suplementar.

Se sabiam o que se passava, porque não fizeram um orçamento suplementar mais consentâneo com a realidade? Engano deliberado? Ou simplesmente e mais grave, como tem acontecido, o nosso Governo não faz ideia a quantas andamos?

O Governo de Costa é incapaz de lidar com a mais pequena dificuldade. O que parece ser também o caso da brilhante e domesticada oposição. O regime está mal e não se recomenda.

 

PS: O caminho para o populismo do Bloco e do Chega parece estar aberto.  

 

 

 



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