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O Sotavento algarvio, lugar de expiação

por João-Afonso Machado, em 23.07.20

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Das antigas Ordenações do Reino (Livro V, Tit. 3, §3º, Dos Feiticeiros) consta a penalização imposta a quem "alimentasse" certo tipo de superstições, mais não fosse, os malefícios provocados, por exemplo, por um sapo. Lê-se então naquela norma: «(...) E porque tais abusões não devemos consentir, defendemos que pessoa alguma não faça as ditas coisas (...) e qualquer que as fizer (...) se for escudeiro e daí para cima seja degradado para África (...); e sendo mulher da mesma qualidade, seja degradada três anos para Castro Marim (...)».

A legislação do Reino, imensamente mais sábia do que a da República, neste capítulo peca contra a igualdade de género, impontando os homens para o inferno africano e as senhoras conduzindo-as às delícias do sotavento algarvio. Mas as nossas amigas do BE rapidamente se encarregariam, volvendo nós ao regime das Ordenações, de, no Parlamento, corrigir esta distorção apontando o dedo a Casto Marim, visto Angola já não ser nossa.

Assim fosse, ou assim sendo, e repristinada aquela regra, eu próprio me confessaria imensamente supersticioso, v. g. vendo peçonha em tudo quanto viva da política.

E por isso fico aguardando uma condenação futura, uns tempinho de degredo em Castro Marim, terra encantadora.

 

A falta que nos fazem Obama e Lula

por henrique pereira dos santos, em 23.07.20

É apenas uma parte de um post scriptum de Alexandre Homem Cristo no seu artigo de hoje (mais um que vale bem a leitura): "Já não se trata de um debate, mas de matéria de facto: o encerramento das escolas amplia desigualdades sociais e de aprendizagem, sendo brutalmente nocivo para os horizontes e vida futura de milhares de crianças. E a única forma de enfrentar com isto com realismo é abrir as escolas, no respeito das orientações da DGS".

O problema é que a questão do fecho das escolas se liga a Trump (menos com Bolsonaro, em que é mais geral, Lula faria basicamente o mesmo que Bolsonaro em relação à epidemia, por não haver muita alternativa em países como o Brasil ou a Índia).

E se Trump defende alguma coisa, então é um imperativo humanitário defender o contrário.

Se ainda fosse Obama o presidente, tudo se teria passado mais ou menos na mesma - descontando o folclore, claro, a epidemia teria feito o seu curso normal, entrando por Nova York com força, estacionando, em número de casos, mas com baixas mortalidades, nos estados do Sul nesta altura (é extraordinário como há tanta gente a não notar a similitude dos números da Florida, Texas e Califórnea, independentemente das diferenças substanciais na gestão da epidemia entre os diferentes estados) - com a vantagem de que a abertura de escolas seria uma opção razoável, sensata e apoiada pela evidência existente.

E isso seria muito bom para todos, com excepção do Mário Nogueira, o sórdido sindicalista que acha normal andar a fazer campanhas terroristas a dizer que os professores não são carne para covid, apesar de não haver qualquer evidência de problemas sérios e riscos sérios para os professores em consequência de abertura de escolas.

O camarada Nogueira até pode dizer, aliás com razão, que com a actual política de fechar escolas porque há alguém que testa positivo, há o risco de haver escolas a abrir e fechar ao ritmo dos testes covid.

Só que esse é um problema que se resolve facilmente: quando alguém testar positivo, faz-se o mesmo que se faz nos supermercados ou nas fábricas: manda-se para casa 14 dias quem esteve mais de 15 minutos em contacto próximo com quem testou positivo, testa-se o que se entender e a vida continua.

Ou, melhor ainda, abandona-se esta política maluca de testar assintomáticas e volta-se ao que é normal em qualquer doença infecciosa: isolam-se pessoas doentes, quando possível e não muito disruptivo até se podem isolar os contactos próximos de quem esteve doente, por 14 dias, para ver se aparecem sintomas e mandam-se os outros à sua vida.

O que não faz o menor sentido é levantar problemas à abertura das escolas com o argumento de que se se abrirem, algumas podem ter de voltar a fechar, como aliás a abertura de escolas por toda a Europa tem demonstrado.

Estivéssemos no tempo de Obama e Lula, quase tudo seria igual, descontando o folclore, mas ao menos poder-se-ia defender isto que escrevi acima sem, imediatamente, se ficar desqualificado por vagamente poder ser associado ao que dizem Trump ou Bolsonaro.

Sunetra Gupta

por henrique pereira dos santos, em 23.07.20

Desde o princípio da epidemia que Sunetra Gupta tem seguido uma linha de pensamento diferente da de Neil Ferguson, que tem sido a linha dominante na base da qual se têm adoptado a maior parte das medidas não farmaceuticas de controlo da expansão da epidemia.

Quaisquer das linhas de pensamento disse coisas, no início da pandemia, que hoje sabemos não estarem certas ou, pelo menos, não terem sido absolutamente rigorosas.

Esta entrevista de Sunetra Gupta é muito interessante - muito mais do que o título poderia sugerir - e um ponto de situação sobre as hipóteses que estão em desenvolvimento.

"The other interesting issue that I’ve suddenly realised with this particular threat, is that people are treating it like an external disaster, like a hurricane or a tsunami, as if you can batten down the hatches and it will be gone eventually. That is simply not correct. The epidemic is an ecological relationship that we have to manage between ourselves and the virus. But instead, people are looking at it as a completely external thing."

A leitura integral da entrevista vale bem o tempo gasto nela.

Não é difícil entender...

por João Távora, em 22.07.20

É indiferente que Portugal não faça parte da “lista verde” irlandesa de 13 países cujos viajantes estão isentos de cumprir a quarentena ao chegar à Irlanda: eles (ou os ingleses) jamais viriam passar férias em Portugal sem garantia de estarem abertos sítios para festejar e beberem copos à noite. Obviamente que um país onde tudo encerra às 20,00hs não é seguro.

Da formação médica

por henrique pereira dos santos, em 22.07.20

De quando em vez, aparecem por aí uns comentadores que, à falta de argumentos de substância, dizem que eu não posso escrever o que escrevo sobre a epidemia sem ter formação médica.

Para esses, uma informação útil: os médicos não pensam todos da mesma maneira.

"Ou seja, mantenho a minha posição sobre a Covid-19: é uma infecção viral respiratória, com potencial para ser grave numa minoria de pessoas, quase todas acima dos 80 anos, idade em que sua a mortalidade atinge valores próximos de 15% (por comparação, a mortalidade por pneumonia nestas idades anda à volta dos 38%). Poderá vir a ser tão grave como uma gripe pandémica mas, de momento e em Portugal, não teve ainda a repercussão sequer de uma gripe sazonal. Pelo contrário, a repercussão das medidas instauradas para o seu controlo é enorme e crescente. Se não se mudar a estratégia que tem sido seguida nesta doença, aliviando o medo e ajustando as medidas, de acordo com a ciência que as comprova e com as consequências que provocam, os danos que já se fazem sentir virão a ser ainda maiores e a mitigação desses danos, essa sim, tornar-se-á difícil ou impossível."

 

Costa e Silva: algumas generalidades boas e um plano péssimo (1)

por Jose Miguel Roque Martins, em 22.07.20

Tive ocasião de ler o Plano de Costa e Silva. É um plano que se pretende sério, feito por alguém que tem uma visão alargada de problemas que existem, da incerteza em que nos movemos e da identificação de alguns constrangimentos com que nos deparamos. Tem também uma identificação de rumos desejáveis a imensos níveis.

É de saudar a identificação da reforma da justiça, a necessária aposta na educação, a imperativa  exploração dos nossos recursos naturais, a inadiável descarbonização, o útil cofinanciamento de projetos privados, melhor regulação e um papel no mundo para Portugal. Entre  outros bons exemplos identificados, de problemas que  temos  para resolver. Necessariamente, todos temos uma visão particular sobre cada um destes assuntos, mas ninguém tem duvidas  que o Estado tem os meios e a obrigação de os resolver. E neste caminho necessário, é nos detalhes, não discutidos,  que está o diabo.

O programa ( sempre muito genérico) até começa com uma boa lista de desejos até á página 58 e finaliza, no seu capitulo 5 com alguns alertas globalmente corretos. No entretanto, é um desastre.

A sua teoria de uma refundação de uma parceria entre o Estado e o sector privado é apenas uma introdução á sua visão da imposição de um  estado paternalista cada vez maior.  Considera que o peso do Estado  minimizado em Portugal, como foi em países como o Reino Unido e os Estados Unidos, fruto da reacção liberal dos anos 80 e 90. 

Considera o investimento das empresas útil, até “ (para aliviar alguma da fatura do Estado no Plano de Recuperação Económica)”. No limite pode inferir-se que o considerado ideal, seria o Estado poder fazer todo o investimento.

Assume o seu protecionismo, “obrigando” consórcios internacionais ávidos dos nossos recursos naturais a terem sócios nacionais ( quem?) , ligações a universidades Portuguesas e um caderno de encargos de compras em Portugal. Percebi que considera, talvez com razão, Portugal um pais subdesenvolvido.

Adianta uma enxurrada de investimentos, a maior parte de eficácia duvidosa,  como se não houvesse limites aos cofres públicos.

Ignora que precisamos de uma melhor economia de mercado e flexibilidade laboral. Que é necessário destruir o poder de grupos de pressão. Que os grandes investimentos dinamizados pelo  Estado costumam falhar e ser péssimos investimentos. Que a mudança profunda da nossa matriz económica é necessariamente lenta, já que também depende de educação e de valores. Que a incerteza sobre o futuro, tão bem identificada,  nos obriga a sermos prudentes e criar as bases mais abertas possíveis  para sobrevivermos ao que vier a acontecer. Que temos menos controlo sobre o futuro do que gostaríamos. Que as vantagens competitivas de um pais, em cada momento, são as que são, não as que gostaríamos.  E que a criação de sistemas de relacionamento complexos é muito difícil.

Fiquei muito desapontado.

Este plano é um excelente exemplo da ilusão da capacidade do Estado que tudo resolve, tudo providencia, tudo permite. Um desastre. 

A nossa história está cheia de exemplos deste tipo. Nos próximos dias, irei criticar algumas propostas e omissões especificas, exemplos flagrantes de erros,  que me parecem importantes demais para não serem  discutidos.

 

 

Ps:. Um relatório, mesmo que seja todo bom, não costuma ser normalmente completamente implementado. Neste caso, arriscamo-nos a avançar com o  mau, que implica investimentos sem retorno e esquecer o bom, que necessita mais de trabalho do que dinheiro.

Os velhos (outra vez)

por henrique pereira dos santos, em 22.07.20

Já escrevi sobre os velhos e a epidemia, e hoje, ao olhar para estes dois gráficos, achei que valia a pena retomar o assunto.

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A mim não me interessam nada os campeonatos sobre o que mata mais, excepto para poder avaliar a dimensão de qualquer ameaça e, consequentemente, procurar compreender a proporcionalidade das medidas a adoptar para lhe fazer face.

O primeiro gráfico mostra a mortalidade geral em Portugal desde um de Janeiro e a mortalidade de 2020 é aquela linha preta que acaba hoje com um pontilhado (é a mortalidade de hoje, à hora a que o gráfico foi produzido). Os três ou quatro dias anteriores a hoje, em especial o dia de ontem, 21, podem ainda ter correcções no número de mortos.

No caso de Portugal no seu todo - e isso nem é válido para diferentes sítios em Portugal, nem é válido para todos os países, nem é válido para diferentes sítios em diferentes países - é evidente que esta semana de calor induziu uma mortalidade em excesso maior que a epidemia de covid.

Aliás é o que diz o gráfico de baixo, que começa em vinte e um de Julho de 2018, mostrando a mortalidade excessiva a amarelo na linha da mortalidade, sendo evidente que, apesar do bombardeamento constante com a contagem de mortos covid - e não me meto na discussão sobre o que é um morto covid -, a verdade é que 5 de Agosto de 2018 (508 mortos num só dia em que seria de esperar uma mortalidade em torno dos 270 a 300 mortos) é um dia terrivelmente pior que o pior dia de mortalidade excessiva durante o surto de covid, e as épocas gripais de 2019 e 2020 (mais aquela que esta) e mesmo esta última semana de calor, tiveram impactos bem maiores na mortalidade excessiva que a epidemia de covid.

O que me interessa é que, para qualquer destes três factores - época gripal, calor ou covid - a mortalidade induzida é sempre sobre os mais velhos (no caso da gripe também sobre os muito mais novos, embora em menor proporção, como ia acontecendo com uma das minhas netas que passou algum tempo nos cuidados intensivos quando tinha um mês, com as complicações de uma porcaria sem importância nenhuma que a irmã terá trazido do infantário, a que os pediatras preferem chamar infectários).

E o que talvez valha a pena é pensar o que isto diz sobre nós.

Em primeiro lugar, aparentemente estamos menos disponíveis para aceitar a vida tal como ela é, em especial a sua finitude, e rapidamente alguém que se limite a constatar que muitos destes mortos eram pessoas que, na expressão brutal, mas certeira, de um médico meu amigo, "estavam mais doentes que vivas", é catalogada como eugenista sem coração e respeito pela velhice.

Constatar que está Sol não é ser a favor do Sol contra a chuva, é constatar uma realidade que é o que é.

Em segundo lugar, depois de constatar que de facto não faz sentido revoltarmo-nos contra a morte, "que é de todos, e virá", talvez valha a pena perder algum tempo saber se não podemos melhorar a qualidade de vida e, talvez, prolongá-la, dos muito velhos, reconhecendo a sua fragilidade e os riscos que todos os Invernos correm com a época gripal, e todos os Verões também correm com os dias de canícula.

Pessoalmente, antes de toda esta confusão com a epidemia, não tinha grande noção do que disse acima.

Tinha a noção de que há demasiados lares que são essencialmente depósitos de pessoas que já não conseguimos acompanhar, seja porque não queremos - é melhor para todos, dizemos, e muitas vezes é verdade -, seja porque realmente não conseguimos, às vezes até por não sabermos o que fazer.

Talvez seja útil partir da constatação base: é muito caro manter vivas estas pessoas e muito mais caro mantê-las vivas no pressuposto de que estar vivo é um bocado mais que ter as funções vitais em funcionamento.

E que, como é habitual, são os pobres as maiores vítimas do Estado optar por gastar o dinheiro dos contribuintes a comprar companhias aéreas em vez de assumir parte dos custos de ter lares, centros de dia, apoios domiciliários dos que não têm dinheiro para pagar a quem possa cuidar de si.

Enquanto se considerar que a gestão da epidemia é uma questão que deve estar entregue à Direcção Geral de Saúde quando mais de terço da mortalidade é em lares, e dos restantes dois terços, a esmagadora maioria diz respeito a pessoas que pela idade, condição física e económica e rede social de apoio, mereciam bem mais atenção de um Estado negligente e de uma Segurança Social kafkiana, acho que não vamos longe.

No nosso caso, e de muitos outros países, os erros de gestão da epidemia decorrem de estarmos loucamente à procura de evitarmos o contágio que nos prejudica pessoalmente, em vez de estarmos a aceitar os riscos de contágio próprio para que possamos levar a sério a protecção das pessoas mais velhas, protecção em relação à doença, claro, mas também em relação ao calor e, sobretudo, em relação à solidão e abandono.

Infelizmente a Organização Mundial de Saúde sabe mais de doenças que de solidão e os governos preocupam-se mais com os votos dos que têm voz, que com o abandono dos que a sua condição condena a ser abstencionistas.

E nós, temos a nossa vida para levar, não o queremos fazer carregando também o fardo de terceiros que já não o conseguem fazer sozinhos.

O resultado não é bonito de se ver, mesmo que eufemisticamente expressos em gráficos de muitas cores.

Liberdade de ensino?

por João Távora, em 21.07.20

Por que razão dois alunos naturais de Famalicão, ambos com média de 5 valores, foram obrigados a retroceder dois anos escolares? Por causa do pai, no uso do seu direito de objecção de consciência, não ter autorizado os seus filhos a frequentarem as aulas de  "Cidadania e Desenvolvimento" (o que quer que isso seja!).

Os donos disto tudo

por João Távora, em 21.07.20

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O lugar do Partido Socialista é de tal forma hegemónico no regime que há momentos em que a disputa interna entre os seus dirigentes e suas tendências é politicamente mais relevante que a disputa desse poder com os líderes da oposição. Pedro Nuno Santos que em boa hora se desfez do seu Porsche já afronta António Costa pela esquerda, numa linguagem que se aproxima do bloco, demarca-se do apoio a Marcelo nas presidenciais. Mais social democrata é o Fernando Medina, pragmático promotor de eventos, gestor de estacionamentos e ciclovias, está a construir o seu curriculum numa grande câmara municipal como fez Rui Rio que nesta luta por São Bento arrisca  a tornar-se irrelevante. Ou algo muda depressa ou tudo irá resolver-se no Rato, até a distribuição dos milhões de Bruxelas.

Excelentes Noticias num Mundo em pantanas

por Jose Miguel Roque Martins, em 21.07.20

Nunca uma pandemia foi antes derrotada por uma nova vacina. A multiplicação de boas noticias, nesta frente, fazem prever que vamos ter, não uma, mas varias vacinas viáveis. A de Oxford e Astra Zeneca, a da Moderna, a da Pfizer, a Russa, a Chinesa e muitas outras, dão indicações que dificilmente algumas não se convertam em realidade ainda este ano.

Também a nível de tratamentos, já existem duas esperanças, a ultima dos quais,  da Synergan, deu indicações extremamente positivas.

Ainda não há certezas. Mas parece que o pior pesadelo, a de que esta pandemia se arrastasse durante anos, não vai acontecer. Graças a uma comunidade científica cada vez mais plural e preparada.

Excelentes perspectivas.

A partir do primeiro trimestre do próximo ano, o mundo deverá poder começar a remover os escombros que a pandemia provocou. Num esforço que vai levar anos.

Os custos deste episódio, mesmo neste cenário optimista,  serão lembrados durante séculos. E, tenho esperança que,  no futuro, passadas as paixões das atuais discussões, vamos chegar á conclusão que resposta á pandemia foi desproporcionada e causou mais danos e mortes a nível mundial que a prevenção de danos que permitiu. E que melhores respostas serão dadas em futuros eventos.

Esta pandemia tão especial, deverá ser a primeira em que morreram mais pacientes da cura do que da doença. Se estiver enganado, então Deus nos valha.

 

PS: A tão necessária bazuca Europeia foi  aprovada ontem. Outra excelente noticia. Um apoio enorme e indispensável mas não suficiente.   Não podemos esquecer-nos que todo esse dinheiro é inferior á perda de produção que acontecerá apenas este ano.

A academia sueca na Praça de Espanha

por henrique pereira dos santos, em 20.07.20

O prémio Gulbenkian para a humanidade foi hoje anunciado e Greta Thundberg ganhou um milhão de euros.

Não me interesse muito discutir a atribuição do prémio a Greta porque, tal como o prémio foi concebido, dificilmente ela não seria uma das fortes candidatas para o ganhar.

Conheço razoavelmente bem o prémio na medida em que tive de olhar para a possibilidade de apresentar alguma nomeação.

Conheço razoavelmente bem alguns membros do júri, a começar pelo presidente do comité de especialistas que fez a primeira selecção e que, nessa qualidade integrou também o grande júri que sugeriu três potenciais vencedores ao Conselho de Administração da Gulbenkian, Miguel Araújo, com quem tenho muitas divergências e por quem tenho o maior respeito e de quem sou amigo pessoal (já antes de o ser tinha o maior respeito pelo pai que foi meu professor. Respeito que aliás mantenho, ao fim destes anos todos).

Acho absurdo que num comité de especialistas nesta matéria tenha lugar Viriato Soromenho Marques mas enfim, não é o júri que me interessa aqui discutir.

O que me interessa aqui é que a Gulbenkian poderia ter pegado nos cinco milhões (e uns trocos para o funcionamento da coisa) que vai gastar em cinco prémios nos próximos cinco anos e ter feito uma discussão séria sobre qual seria a melhor forma de os aplicar em benefício da humanidade.

Eu estou convencido, mas posso estar completamente errado, claro, que cinco milhões em cinco anos, aplicados em pequenos e médios projectos enraizados na sociedade e com trabalho concreto e real no terreno, eram bem mais úteis à humanidade que entregar um milhão a uma pessoa ou organização, sem programa de aplicação definido.

Greta parece que vai repassar o milhão de euros para terceiros, de acordo com o que diz. Nesse caso mais valia a Gulbenkian ter criado um sistema competitivo de selecção para alavancar actividades, organizações e pessoas que saudavelmente competiriam entre si pelo acesso a esses recursos.

Claro que esta solução tinha um problema: a Gulbenkian não poderia apresentar o prémio como um dos maiores do mundo na área das alterações climáticas, nem beneficiar da notoriedade mundial que lhe traz o facto de premiar Greta com um milhão de euros.

Parece-me, que a questão central é esta: a Gulbenkian terá reparado que não há prémio Nobel para o ambiente e as alterações climáticas e terá visto aí uma grande oportunidade para ganhar notoriedade, ocupando esse espaço vazio, tanto mais que com a ingratidão dos néscios, a Gulbenkian não só se desfez da sua carteira de activos relacionado com o petróleo, como a sua actual Presidente fala dessa história como uma nódoa que é preciso fazer desaparecer rapidamente.

Tenho poucas dúvidas de que o mais natural é que os próximos prémios acabem divididos por mais de um vencedor, pelo menos em algumas edições porque entregar um milhão de euros assim, como um prémio para a humanidade, é bastante contraditório com um prémio individual de desempenho, como são os prémios Nobel.

O que espero, ardentemente espero, é que a minha visão desencantada deste prémio - não, não é por ter sido atribuído a Greta, sou bastante céptico em relação à sua real importância, a prazo, mas consigo compreender as razões dos que acham que eu não tenho razão e, desse ponto de vista, acho esta atribuição normal - como sendo sobretudo uma operação de comunicação da Gulbenkian esteja errada e, na verdade, parte desses recursos acabem a ser aplicados em coisas úteis para a humanidade.

Infelizmente a história da aplicação de recursos públicos ou filantrópicos nas áreas do ambiente em Portugal, em especial da gestão da biodiversidade, não me deixa grandes esperanças, mas há sempre alturas em que a história não se repete.

E até pode ser que criar um prémio Nobel para o ambiente e as alterações climáticas tenha sido uma boa ideia e eu esteja enganado sobre o que isso representa, e que, afinal, tenha muito mais importância que a que tem o prémio Nobel da paz para a paz no mundo.

Que inveja

por henrique pereira dos santos, em 20.07.20

""Posso assegurar que não há riscos? Claro que não. Todos temos medo e eu sei bem o que isso é. Tenho uma filha de 12 anos com uma doença que a coloca nos grupos de risco. Mas o medo não pode tomar conta de nós. É obrigação dos líderes de organizações que nos representam combaterem-no e promoveram a racionalidade. Ter a Fenprof a instigar o medo, fazendo uma chantagem que, se bem sucedida, terá como único efeito adiar o regresso às aulas presenciais, é sórdido."

Todo o texto vale a pena, chama-se "Um sidicato sórdido" e é escrito por Luis Aguiar-Conraria.

Mesmo achando eu a inveja um sentimento mesmo mesquinho - de maneira geral até tenho uma grande admiração por quem consegue fazer coisas que eu não consigo - neste caso não tenho como não reconhecer a inveja que tenho por não ter conseguido escrever isto, com esta clareza e simplicidade.

O país das maravilhas

por João Távora, em 20.07.20

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Não deixa de ser irónico que hoje segunda-feira, enquanto em Bruxelas se arrastam as negociações por umas côdeas com que a Europa nos vai acudir para fazermos face à brutal crise económica que se prenuncia no horizonte, o tema de abertura do noticiário das 9:00 da manhã da rádio Observador tenha sido o das vitimas do incêndio florestal em Santo Tirso e uma pertinente entrevista ao sagaz bastonário da ordem do médicos veterinários. Pelo que me apercebi a peça era sobra duma comoção nacional ocorrida ontem e amplamente explorada nos telejornais, resultado do facto dos bombeiros terem ousado impedir os populares de entrarem no canil durante o fogo para resgatarem os pobres animais que não escaparam a um trágico destino.

Por falar em entretenimento, é consolador constatar que apesar do planalto epidémico se manter firme e regular nas três centenas diárias de novos casos, nos últimos dias desapareceram as alarmantes notícias radiofónicas matinais sobre focos de infecção na região de Lisboa e Vale do Tejo assim como os encontros juvenis nas ruas da periferia a afrontar a pacatez do confinamento dos bons cidadãos. Este fenómeno certamente deve-se ao facto deles serem proibidos e evidentemente por causa das bombas de gasolina estarem impedidas de vender bebidas alcoólicas depois das 20,00hs.

Nós

por henrique pereira dos santos, em 20.07.20

O Público tem hoje uma peça sobre uma sondagem da Universidade Católica.

A acreditar na peça, 66% das pessoas acham que vai haver mais austeridade, 70% acham que o país vai ficar menos rico nos próximos dois anos, 71% acham que o emprego vai diminuir, 67% acham que a economia vai piorar mas 55% acham nada provável que perca o emprego e 67% acham que os seus rendimentos se mantêm (a pergunta aqui parece-me um bocado equívoca, não fala tanto dos rendimentos futuros, mas dos rendimentos actuais, se bem percebi, mas não fui ler o estudo original).

Ou seja, há uma parte substancial de nós que acha que o seu emprego e os seus rendimentos têm pouca relação com a situação da economia.

É triste que tenham razão.

Esta coisa extraordinária de mais de metade da população achar irrelevante a situação económica do país para o seu nível de rendimento ajuda com certeza a explicar por que razão elegemos quem elegemos e achamos que os nossos problemas decorrem mais da maldade de Marke Rutte que das nossas opções.

Avaliar, avaliar, avaliar

por henrique pereira dos santos, em 19.07.20

"Está na época em que se discute o que mudou no domínio dos fogos rurais. O que nos dizem os números, ou seja que resultados há para apresentar?
Comparando um conjunto de indicadores (2018 - março 2020) com os valores que seriam expectáveis de acordo com o histórico recente (2008-2017) ou seja, ajustados para a meteorologia e outros tipos de ruído, verifica-se:
- Diminuição apreciável (41%) do nº de ignições;
- redução interessante (24%) do nº de fogos (>1 ha);
- pequena redução na duração dos fogos;
- pequena redução da representatividade da floresta na área ardida;
- reduções substanciais (>50%) dos grandes incêndios em floresta do Estado, perímetros florestais e áreas protegidas.
As más, ou menos boas notícias são:
- Pequeno aumento da % de reacendimentos;
- Idem para proporção de grandes incêndios (>100 ha);
- Idem para a dimensão dos maiores incêndios;
- aumento de 27% da fração da área ardida correspondente a dias com perigo meteorológico elevado a extremo;
- e praticamente não há alteração na área ardida total
O sumo da conclusão: a mesma área ardida mas com maior impacto por unidade de área"

Paulo Fernandes, claro - na verdade talvez haja até meia dúzia de pessoas no país que poderiam escrever qualquer coisa semelhante, mas o mais provável era mesmo ser Paulo Fernandes.

A partir daqui são leituras da minha estrita responsabilidade.

O que interessa é que há indicadores que são muito usados, como o número de ignições, que são como o número de casos positivos da epidemia: na verdade têm pouca relevância.

Há outros indicadores que são bastante mais relevantes, e muito directos, como a área ardida - a mortalidade, no caso da epidemia -, que permitem avaliar melhor a dimensão do problema e como impacta a sociedade.

E há indicadores que, pela sua complexidade, são pouco usados, mas que realmente eram o que deveríamos estar a medir, como a riqueza perdida em consequência dos fogos - a esperança de vida encurtada, no caso da epidemia.

Em qualquer caso, importa ter a percepção de que a dimensão das perdas provocadas pelos fogos são uma consequência de um problema económico de fundo: a falta de competitividade e sustentabilidade da gestão de largas partes do país, do que resulta abandono e, consequentemente, disponibilidade e continuidade de combustíveis.

O problema até pode ser adormecido bastante tempo, mas em qualquer altura que se juntem factores favoráveis ao fogo, isto é, secura acentuada, vento forte e o tempo passado (pelo menos cinco anos, mas mais provavelmente 10 a 15) desde o último fogo, vamos ter um ano dramático de incêndios.

A única possibilidade é percebermos qual é o problema, e encontrarmos forma de pagar a gestão da paisagem a quem a faz, de forma tal que não se criem rendas injustificadas, mas que seja compensador fazer gestão.

Doutra forma estaremos como Eduardo Cabrita, que ainda hoje, a propósito destas condições meteorológicas, falava da proibição do fogo e da GNR, sem em nenhum momento dar qualquer indicação de já ter percebido que não é por via legal que se resolve um problema económico.

Se estamos hoje mais bem preparados que em 2017?

Provavelmente sim, mas em questões relativamente marginais, no essencial continuamos com o mesmo problema de acumulação de combustível que esteve na base de 2017.

Já não seria mau que, ao contrário do que é a tradição no país, percebêssemos que a propaganda não resolve nenhum problema e do que precisamos é da capacidade de estudar, avaliar, reconhecer decentemente os erros e os limites da decisão, para no dia seguinte fazer um bocadinho melhor.

Sem isto, estamos condenados a ter fogos ou comprar companhias aéreas, sem que num caso ou no outro haja qualquer discussão séria e racional entre diferentes propostas políticas para lidar com o problema.

Domingo

por João Távora, em 19.07.20

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus


Naquele tempo, Jesus disse às multidões mais esta parábola: «O reino dos Céus pode comparar-se a um homem que semeou boa semente no seu campo. Enquanto todos dormiam, veio o inimigo, semeou joio no meio do trigo e foi-se embora. Quando o trigo cresceu e começou a espigar, apareceu também o joio. Os servos do dono da casa foram dizer-lhe: ‘Senhor, não semeaste boa semente no teu campo? Donde vem então o joio?’. Ele respondeu-lhes: ‘Foi um inimigo que fez isso’. Disseram-lhe os servos: ‘Queres que vamos arrancar o joio?’. ‘Não! – disse ele – não suceda que, ao arrancardes o joio, arranqueis também o trigo. Deixai-os crescer ambos até à ceifa e, na altura da ceifa, direi aos ceifeiros: Apanhai primeiro o joio e atai-o em molhos para queimar; e ao trigo, recolhei-o no meu celeiro’». Jesus disse-lhes outra parábola: «O reino dos Céus pode comparar-se ao grão de mostarda que um homem tomou e semeou no seu campo. Sendo a menor de todas as sementes, depois de crescer, é a maior de todas as plantas da horta e torna-se árvore, de modo que as aves do céu vêm abrigar-se nos seus ramos». Disse-lhes outra parábola: «O reino dos Céus pode comparar-se ao fermento que uma mulher toma e mistura em três medidas de farinha, até ficar tudo levedado». Tudo isto disse Jesus em parábolas, e sem parábolas nada lhes dizia, a fim de se cumprir o que fora anunciado pelo profeta, que disse: «Abrirei a minha boca em parábolas, proclamarei verdades ocultas desde a criação do mundo». Jesus deixou então as multidões e foi para casa. Os discípulos aproximaram-se d’Ele e disseram-Lhe: «Explica-nos a parábola do joio no campo». Jesus respondeu: «Aquele que semeia a boa semente é o Filho do homem e o campo é o mundo. A boa semente são os filhos do reino, o joio são os filhos do Maligno e o inimigo que o semeou é o Diabo. A ceifa é o fim do mundo e os ceifeiros são os Anjos. Como o joio é apanhado e queimado no fogo, assim será no fim do mundo: o Filho do homem enviará os seus Anjos, que tirarão do seu reino todos os escandalosos e todos os que praticam a iniquidade, e hão-de lançá-los na fornalha ardente; aí haverá choro e ranger de dentes. E os justos brilharão como o sol no reino do seu Pai. Quem tem ouvidos, oiça».


Palavra da salvação.

Manter o curso é um disparate

por Jose Miguel Roque Martins, em 19.07.20

Pedro Nuno Santo tem-se notabilizado recentemente por uma avidez de palco, de afirmação de esquerdismo e de declarações desastradas.

Na semana passada, admitiu acabar com as restrições ao uso dos transportes publicos, ao arrepiu da ortodoxia oficial que prontamente o desmentiu.

Mais desejo de palco e apresentar-se como alternativa a Antonio Costa? Uma declaração desastrada? Uma rendição por falta de meios? Não sei.

Antonio Costa, na sua habil forma “politica” de comunicar, reconheceu que Portugal não aguenta mais um confinamento.

O que não deixa de ser incongruente, é para mim uma restia de esperança que a “saude em primeiro lugar”, tal como foi aplicada, deixe de o ser.  

Multiplicam-se noticias dando conta, a nivel mundial, de imaginaveis custos associados á crise economica associada á Pandemia. Fome, desigualdade, uma geração de pobres sem perspectivas de educação, orçamentos para a saude comprometidos no futuro, no meio de um escalar de tenções geopoliticas. Não morrer da doença mas sim da cura, torna-se cada vez mais um destino anunciado.

Reconhecer limitações, assumir as realidades  e começar a preparar um plano B, parece-me muito mais  util do que continuarmos a negar a evidencia e insistir sempre no que não funciona. As coisas não estão a correr bem. Manter o curso é um disparate

Quatro notas curtas mas não desprezíveis

por João Távora, em 18.07.20

1) Não sou amigo do Vasco Rosa pelas suas capacidades de trabalho ou arcaboiço cultural e intelectual. Conhecemo-nos noutra dimensão do tempo em que nada disso era importante. Mas o que esta entrevista nos revela é muito mais que isso, é também o seu carácter independente e consequente coragem. Isso sim traços que me seduzem profundamente. Obrigado, Vasco!

2) Isto da epidemia tornou-se um assunto fracturante - não se deve falar do tema na sala de jantar sob o risco de azedar a refeição. Toca em sensibilidades profundas das pessoas - umas mais securitárias outras mais liberais (simplificando, evidentemente). E depois há o calor que exacerba os espíritos.

3) Uma bela reflexão de Paulo Maia Loureiro sobre o erro crasso de se basear decisões políticas em "bases científicas" sempre controversas e dinâmicas. Aqui

4) Uma das maiores provas do progresso da humanidade (tecnológico, que outro não se vislumbra) é a existência nos supermercados de pacotes de pevides descascadas a um preço razoável. Em miúdo eu tinha de esfolar os dedos para comer duas dúzias delas.

Os frugais não são monstros , mas estão vencidos à partida

por Jose Miguel Roque Martins, em 18.07.20

 

O Conselho Europeu  deste fim de semana, dificilmente irá produzir resoluções. Não apenas por questões de fundo mas sobretudo por questões de imagem.

O principal tema em discussão, não está em cima da mesa. A sobrevivência da Comunidade Europeia, tal como a conhecemos, é a verdadeira questão. Por este motivo, podemos esperar muito espetáculo, mas  será provável que, noutro fim de semana qualquer, um acordo que satisfaça mais os países mais pobres, acabe por ser aprovado.

As dificuldades e compromissos que venham a ser atingidos, permitirão que os Países frugais, ganhem qualquer coisa e sobretudo salvem a sua face. Mas quem são estes países, neste momento tão inconvenientes?

Os frugais, a Holanda, a Áustria a Dinamarca e a Suécia, pequenos países ricos, contribuintes líquidos da CEE, desconfiam dos regimes políticos e económicos da maior parte dos países mais pobres, especialmente do Sul da Europa. A História já provou que, mesmo com fortes ajudas no passado, estes teimam em não convergir, manietados por problemas estruturais e restrições dogmáticas que inviabilizam um crescimento sustentado. Estão cansados do esforço que fazem e que não vêm como útil. São também dos países que mais beneficiam do mercado comum, que compensa amplamente o esforço que têm feito. Enquanto pequenas economias abertas, é a sua participação da CEE que os liberta da sua pequena escala económica. Este é o seu ponto fraco, já que têm muito a perder com o fim da CEE.

Não são nem monstros, nem representam uma linha política comum. Se há pais com credenciais de solidário é a Suécia.  E politicamente não podiam ser mais diversos. Desde uma linha social democrata escandinava (de mercado social mas liberal) á direita Austríaca. Simplesmente acham , que sem reformas, os fundos serão perdidos pelos países estruturalmente desequilibrados.  E sobrará uma conta para pagar apenas porque não se impuseram reformas. Solidariedade sim, mas não apenas para fogachos momentâneos.

Interessa á Alemanha ( e á menos poderosa  França), a estabilidade política Europeia e um bloco com dimensão e expressão para ser uma força geopolítica á escala mundial. Em termos per capita, são países que não retiram tantos benefícios do mercado comum, dada a sua maior escala interna. Ou seja, seriam os menos prejudicados com uma implosão da CEE, não contando com os efeitos de longo prazo de passar a ser um anão num mundo de gigantes.

E por isso, para a  Alemanha, o valor de manter a CEE é superior aos montantes que se estão a discutir. Valha-nos que Merkel não tenha uma lógica de contabilista de curto prazo. E que perceba que, sem um acordo deste género, o risco de desagregação da Comunidade e do Euro, passam a ser uma realidade.

São já demasiados os países que começam a questionar se vale a pena pertencer a um clube que lhes impõe restrições, mas não os ajuda quando precisam. Depois do desastre do Euro cujos efeitos ainda perduram , os animos ainda estão quentes. 

O  peso da Alemanha é demasiado para que os frugais não acabem por se vergar.

Pessoalmente, não posso deixar achar que Portugal teria muito a ganhar com a imposição de reformas profundas. A ajuda que ai vem, é necessária e será preciosa.  Mas se bem aproveitada, não seria um meio para sair do buraco negro em que nos encontramos,   seria determinante e suficiente para nos lançar no caminho da prosperidade.

Uma história

por henrique pereira dos santos, em 18.07.20

Passei à porta da mercearia e, como estava aberta - a porta, não a mercearia - perguntei pelos donos.

Têm duas mercearias, numa delas está habitualmente o dono, na outra a mulher.

Fecharam há semanas por causa da covid, o dono esteve uns dias nos cuidados intensivos, mais uma semana em recuperação, foi para casa e já abriu a outra mercearia.

A dona também testou positivo, mas nunca teve outros sintomas para além de uma perda de paladar, os filhos deram sempre testes negativos.

Até aqui, uma história banal, a partir daqui entramos na dimensão surrealista da coisa.

Para não infectar os filhos, a dona não sai do seu quarto praticamente há quatro semanas e o Estado determinou que tem de estar em prisão domiciliária até que tenha dois testes negativos.

Só que, teste após teste, os resultados são inconclusivos e, dessa forma, o Estado português, ao arrepio do que se sabe sobre o assunto (ao fim de treze dias a probabilidade de alguém ser infecciosa não está demonstrada), determina a prisão domiciliária de uma pessoa e determina, por consequência indirecta, o fecho de uma estrutura económica.

Insisto neste ponto: o que me arrepia não é tanto que isto aconteça, porque em processos complexos é muito provável que existam erros, o que me arrepia é o silêncio quase absoluto sobre isto (que me lembre, vi um dia destes uma notícia de uma senhora que se mantém assim há quatro meses, notícia cujo impacto social foi ser considerada uma curiosidade chata, e não uma flagrante violação de direitos constitucionais praticada discricionariamente pelo Estado, sem controlo judicial) e a serena posição da generalidade da imprensa que é capaz de escrever peças manhosas sobre eventuais sequelas da covid em crianças assintomáticas, ou peças manhosas sobre o risco de abrir escolas, mas é incapaz de ver flagrantes violações de direitos constitucionais, praticadas com fundamentação que, aparentemente, ninguém acha necessário discutir.

Que haja tantas conferências de imprensa e não se questionem os responsáveis por esta opção administrativa e política que consiste em impôr a prisão domiciliária a quem não tenha testes negativos, apesar da evidência científica que a suporta ser nula, é deprimente.




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