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Assustador

por José Mendonça da Cruz, em 29.02.20

Quando constato que o coronavírus alastrou a toda a Europa e em Portugal ninguém sabe de caso nenhum, eu preocupo-me.

Quando ouço os discursos patéticos e supostamente apaziguadores da directora geral da saúde, eu sinto-me tudo menos apaziguado. Quando verifico que se refere a China, Itália, Irão, e fala de «cenarizações», e manda não andar aos beijos, e descreve com ligeireza eventuais mutações e características do vírus, mas de Portugal não tem ideia, fico preocupado.

Quando ouço o inefável primeiro-ministro e a ministra da saúde inenarrável dizerem que o vírus vem de certeza, mas por enquanto andam claramente aos papéis, fico receoso.

Quando leio que uma senhora suspeita de infecção ficou fechada horas na casa de banho de um centro de saúde, e depois foi mandada embora porque não havia instruções da DGS para fazer análises, não sei se deva rir se praguejar.

Quando compreendo que há casos suspeitos, mas diagnóstico nenhum, e mais casos suspeitos, mas sabe-se lá; quando comparo a gravidade dos alertas da OMS e o tom confuso e atrabiliário das advertências que se fazem cá, fico com a suspeita de que as coisas cá vão correr muito, muito mal.

As regras, as regras, senhores

por henrique pereira dos santos, em 28.02.20

As nossas instituições são de facto muito frágeis, mas não adianta muito discutir os nomes das pessoas que nos poderiam garantir a o reforço dessas instituições.

Carlos Guimarães Pinto, com toda a razão, fez uma proposta radical, e muito sensata, para a nomeação do Governador do Banco de Portugal: uma escolha precedida de um concurso internacional.

Pode-se gostar ou não da proposta, mas tem uma enorme virtude: discute regras e processos, antes de discutir nomes. Os nomes são sempre relevantes, claro, mas antes disso estão as regras.

Se a nossa oposição (e, já agora, no nosso Governo e o nosso Presidente) quiserem um dia reforçar as instituições em Portugal, o melhor é ir mudando pequenas regras.

Já um dia destes sugeri que todas as organizações que recebem apoio público tivessem de ter estatutos democráticos, que percebo que seja uma regra mais discutível e difícil de aplicar porque não existe critério único para definir a democraticidade de uns estatutos, mas também que as suas contas fossem forçosamente certificadas (boa parte dos milhares de euros que são geridos a partir dos baldios, por exemplo, são tratados com regras financeiras que não dão qualquer garantia).

Hoje fiquei a saber que na escolha de pessoas para o Tribunal Constitucional, não se escolhem pessoas concretas, mas listas de pessoas, isto é, o incentivo é para contrabandear medíocres à conta da fidelidade partidária, em vez desta eleição ser uma competição séria entre pessoas cuja aceitação pelos deputados poderia depender das suas próprias qualidades.

E mais, fiquei a saber que antes a regra era serem votadas as pessoas nominalmente, e mudou-se a regra em 2003 para acabar com isso, metendo tudo numa lista negociada entre os partidos e impedindo que pessoas concretas sejam eliminadas por serem quem são e terem o curriculum que têm.

Não admira que as nossas instituições sejam tão frágeis e que a sua qualidade geral não seja grande coisa quando escolhemos estas regras e não outras para as enquadrar.

As redacções e as elites a trabalhar para André Ventura

por henrique pereira dos santos, em 28.02.20

Primeiro foi a história da senhora que só queria dar um abraço à menina que estava cercada de agentes da polícia, agora, credo, cruzes, o polícia tirou a arma do coldre só porque estava cercado de vândalos agressivos.

Uma coisa é ser contra a violência policial e ter mão dura contra quem violar as regras que protegem as pessoas da violência injustificada da polícia, outra coisa é partir do princípio de que os polícias são uma espécie de Meninos de Deus, obrigados a comportar-se como Ghandi em todas as circunstâncias.

O que as redacções, os outros partidos, a generalidade das elites têm vindo a fazer é pôr-se do lado dos vândalos contra a polícia, deixando o campo totalmente livre para que André Ventura, ou outro qualquer demagogo, cavalgue o mais que justo sentimento de que a polícia, os professores, os enfermeiros, os médicos, os condutores de autocarros, os fiscais da Carris ou do Metro, os funcionários da secretaria das urgências ou da segurança social estão desprotegidos pelo Estado e pela sociedade face a quem não cumpre e não quer cumprir as regras normais de convivência entre as pessoas.

Bem sei que não é isso que dizem, em tese, pelo contrário, são todos a favor da autoridade abstracta do Estado que cumpre a lei, por acaso são é sempre contra o desgraçado do funcionário que materializa, no caso concreto, esse respeito pela lei ou pelas regras de convivência: com certeza há bons e maus professores, mas a autoridade do professor dentro da sala de aula tem de ser inquestionável, desde que se mantenha dentro do estrito cumprimento das regras.

Os casos excepcionais em que o professor abusa dessa autoridade devem ser exemplarmente punidos, exactamente na medida em que essa autoridade, por regra, deve ser inquestionável e o abuso dessa autoridade é a forma mais corrosiva de a questionar.

Agora partir do princípio de que uma tontinha qualquer tem o direito de ir dar abraços a uma pessoa que está a ser detida, ou que um polícia cercado e insultado ameaçadoramente por um grupo de vândalos deve ser socialmente sancionado por tirar a pistola do coldre, francamente, isso é trabalhar para aumentar a votação de André Ventura.

Esperteza saloia

por João Távora, em 27.02.20

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O anunciado novo “rebranding” da marca CTT em que desaparece o clássico cavalo, cinco anos depois de ter despendido milhares de euros numa outra ´parece-me uma aberração. É exemplo acabado da vertigem parola com que em Portugal, quando não se sabe mais o que fazer, se finge começar tudo do zero para parecer moderno e eficiente ou associar a ilusão a uma determinada “geração espontânea”. Acontece que uma identidade é essencialmente uma construção que requer tempo, e é a antiguidade que confere confiança (o valor mais precioso), seja às instituições ou às empresas. Uma marca com quinhentos anos só tem a ganhar em exibir um símbolo que remeta para a sua História. Este aparente delírio, que irá custar uma pipa de massa em montras, vinis e estacionário, é justificado pela gestão dos CTT com a pretensão de que deixando cair o cavalinho, o público percepcionará a diversificação de serviços em que a distribuição postal perde importância. Enganam-se: a empresa vai gastar uma pipa de massa apenas para prescindir duma mensagem de confiança. De resto não me venham dizer que o problema está na privatização do negócio: é mesmo fruto da endémica saloiice do país, que de refundação em refundação, a única coisa que tem conseguido preservar é a mediocridade.

Publicado originalmente aqui

O vírus que pára na fronteira de Portugal

por José Mendonça da Cruz, em 27.02.20

A crer nos mapas das televisões o coronavirus alastrou (*) à Europa toda, menos a Portugal.

País com mais sorte ou mais eficaz da Europa?

Ou país que nem sequer tem meios para identificar em tempo útil os infectados?

 

(*)só um lembrete: as coisas «alastram», não «se alastram».

Quaresma

por João Távora, em 27.02.20
O pó sobre a cabeça faz-nos ter os pés assentes na terra: recorda-nos que viemos da terra e, à terra, voltaremos; isto é, somos débeis, frágeis, mortais. Somos um bocado de pó no universo. Mas somos o pó amado por Deus. Amorosamente o Senhor recolheu nas suas mãos o nosso pó e, nele, insuflou o seu sopro de vida. Por isso somos um pó precioso, destinado a viver para sempre. Somos a terra sobre a qual Deus estendeu o seu céu, o pó que contém os seus sonhos. Somos a esperança de Deus, o seu tesouro, a sua glória. A cinza, que recebemos na testa, abala os pensamentos que temos na cabeça e obriga-nos a reconsiderar as nossas prioridades. Se vivo só para arrecadar algum dinheiro e divertir-me, procurar um certo prestígio, fazer carreira, então estou a viver de pó. Se julgo má a vida, só porque não sou tido suficientemente em consideração, ou não recebo dos outros o que acho merecer, estou ainda com o olhar no pó. Não estamos no mundo para isso. Valemos muito mais, vivemos para muito mais: para realizar o sonho de Deus, para amar.  

 

Da homilia do papa Francisco na quarta-feira de cinzas de 2020.

 

 

Susana Peralta escreveu um artigo interessante com o título "Prémio da TAP: a dolce vita dos executivos que se pagam a si própios".

Essencialmente, a tese do artigo é a de que tendo a TAP acumulado prejuízos de 100 milhões, e pagando prémios de desempenho, há nisso alguma coisa totalmente errada.

Que em muitas circunstâncias as administrações escolhem para si remunerações dificilmente explicáveis pelo desempenho das empresas, parece-me pacífico, embora eu tenha alguma dificuldade em perceber qual é o ordenado razoável para Cristiano Ronaldo, por exemplo.

O que me incomoda é a distorção do que está em causa no caso dos prémios da TAP.

David Neeleman explicou recentemente que os prémios de desempenho têm 50% relacionado com o desempenho dos trabalhadores, em função dos objectivos estabelecidos (Susana Peralta argumenta que as empresas definem objectivos baixos e fáceis de propósito) e 50% relacionado com o desempenho da empresa.

Usar os resultados da empresa como único critério para definir se os prémios são justos, ou injustos, é uma coisa que me faz muita confusão ver defendida por economistas, em especial economistas que não se focam no curto prazo: a TAP renovou grandemente a frota, diminuiu os custos, pagou dívida, contratou pessoal, transporta mais gente, ou seja, criou condições para melhores desempenhos futuros. Ou seja, usar os resultados da empresa como único critério é um incentivo à tomada de decisão orientada para resultados de curto prazo, em detrimento da criação de condições para o futuro das empresas (note-se que usar o mesmo tipo de raciocínio aplicado ao Estado levaria à defesa da diminuição, ou pelo menos não aumento, do ordenado dos funcionários públicos enquanto o Estado tivesse défice, o que ainda não ouvi ninguém defender).

O que mais me incomoda no artigo é que estes prémios não dizem respeito à administração (pode haver uma parte que sim, mas não a maior parte do valor global dos prémios) mas sim aos trabalhadores, não a todos, é certo, mas aos que têm maiores responsabilidades, ou seja, o argumento de que são prémios em que quem decide é o beneficiário é falso, neste caso.

Confesso que não vejo o interesse em discutir o que perdem os donos da TAP pagando estes prémios, mas se se pretende fazer essa discussão, era bom que se fizesse a discussão de forma séria e sustentada, e não desta forma em que essencialmente se alimenta o ressentimento e a iliteracia em matéria de gestão empresarial.

"Não esqueceram nada, nem aprenderam nada"

por henrique pereira dos santos, em 25.02.20

As convulsões na QUERCUS não me são totalmente indiferentes porque fui sócio dessa associação muitos anos, gastei muito do meu tempo e energias a fazer coisas para a QUERCUS e gostaria que Portugal tivesse um movimento ambientalista forte e independente.

Se há muitos anos deixei de ser sócio da QUERCUS foi exactamente por ter achado que tinha passado, em muito, o limite da decência na sua intervenção pública, tendo como factor imediato a forma desonesta como lidou com a aprovação do Plano Sectorial da Rede Natura, em especial por, à falta de argumentos, ter desatado a tratar injustamente os meus colegas do ICN, com base em mentiras.

Recentemente essas convulsões tiveram expressão mais pública através do Sexta às Nove (eu não gosto daquele tipo de jornalismo e acho a peça relativamente fraca) onde Viriato Soromenho Marques resolveu fazer a demonstração de como as elites, em Portugal, não se sentem responsáveis por nada e, se sofrem derrotas, é apenas porque alguém não respeitou o seu estatuto, como devia.

Preocupa-me a complacência do Estado para com este tipo de organizações (sejam ONGs de ambiente, associações humanitárias de bombeiros, conselhos directivos de baldios ou partidos políticos), entregando-lhes facilmente recursos sem se assegurar de duas condições que me pareceriam básicas: a democraticidade dos seus estatutos e a certificação das suas contas.

Por isso escrevi este artigo que o ECO publica hoje, que mais que um artigo sobre a QUERCUS e as suas desventuras, é um artigo sobre o Estado e a forma como contribui para a falta de exigência institucional que mina a expressão da vontade organizada da sociedade civil, em vez de a reforçar.

[Este post contém linguagem eventualmente chocante]

por José Mendonça da Cruz, em 24.02.20

A TVi soube que os moradores de um prédio do Campo Grande, em Lisboa, se queixam porque um dos andares foi arrendado a uma casa de putas, e que avançaram com uma providência cautelar para pôr fim àquilo.

Então, naturalmente, os jornalistas da TVi foram ouvir as queixas da madame e das putas.

Domingo

por João Távora, em 23.02.20

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus


Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Ouvistes que foi dito aos antigos: ‘Olho por olho e dente por dente’. Eu, porém, digo-vos: Não resistais ao homem mau. Mas se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a esquerda. Se alguém quiser levar-te ao tribunal, para ficar com a tua túnica, deixa-lhe também o manto. Se alguém te obrigar a acompanhá-lo durante uma milha, acompanha-o durante duas. Dá a quem te pedir e não voltes as costas a quem te pede emprestado. Ouvistes que foi dito: ‘Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo’. Eu, porém, digo-vos: Amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem, para serdes filhos do vosso Pai que está nos Céus; pois Ele faz nascer o sol sobre bons e maus e chover sobre justos e injustos. Se amardes aqueles que vos amam, que recompensa tereis? Não fazem a mesma coisa os publicanos? E se saudardes apenas os vossos irmãos, que fazeis de extraordinário? Não o fazem também os pagãos? Portanto, sede perfeitos, como o vosso Pai celeste é perfeito».


Palavra da salvação.

Saudades de quem nunca conheci

por José Mendonça da Cruz, em 22.02.20

Não conheci Vasco Pulido Valente, nem tenho o talento e a bagagem para escrever um epitáfio, mas tenho saudades dele.

Devo-lhe inúmeros momentos de prazer de leitura, pela inteligência interpretativa e reveladora, pelo estilo, o conhecimento, a honradez,o brio e a pontaria certeira. Devo-lhe e devemos muitos o balanço final da I República, devemos-lhe ter varrido de vez a narrativa falseada de um tempo de tiranetes, medíocres, irresponsáveis e crápulas. Devemos-lhe o balanço da I República? Não, devemos-lhe também a higiene das outras. Quem senão ele teria reconhecido Mário Soares e Francisco Sá Carneiro, mas também se teria afastado quando o próprio ou os seus herdeiros desmereceram? Quem senão ele reconheceria nessa massa de indecisão e adiposidade moral que é Gutereres uma «picareta falante»? Quem identificaria neste conjunto de oportunismos, conveniências e derradeira oportunidade de sobrevivência uma «geringonça» (que ele decerto pensou primeiro como «contraption») ? 

Hoje vou reler «Glória» e entristecer-me um bocadinho com a sagacidade, o saber e a ironia de que acabámos de ser privados. Já ele deve ter batido à porta, e ouvido: «Fizeste bem, entra».

Saudade

por João Távora, em 22.02.20

Pai_3.jpg

Nesta data em 1993 partia deste mundo o meu Pai, Luís de Lancastre e Távora, que hoje recordo com saudade. Tinha um proverbial mau feitio, é certo. Mas o que ficou da nossa intensa convivência foi uma sua presença muito forte na minha consciência. É com ele que ainda hoje confidencio muitas das minhas pequenas conquistas e derrotas. Quero acreditar que ainda hoje ele está algures onde acompanha nos meus passos. E concorde que as nossas disputas, encontros e desencontros, afinal valeram a pena - foram fruto de um grande amor. Reencontrar-nos-emos um dia, espero.

Esta foi a minha alocução por ocasião da sessão evocativa dos 25 anos sobre sua morte organizada pelo Instituto Português de Heráldica no dia 21 de Fevereiro de 2018.

George Estabrook, uma parábola sobre Portugal

por henrique pereira dos santos, em 21.02.20

Uma colega mandou-me este artigo, sabendo que eu tenho um grande fascínio por George Estabrook.

Nunca conheci Estabrook, mas depois de Carlos Aguiar me ter indicado os seus artigos como leituras úteis para a mim, acabei a mandar-lhe o meu primeiro livro, para lhe agradecer o que tinha aprendido com ele, sem ele saber.

Ao contrário do que é usual em Portugal, Estabrook respondeu-me e lembro-me de querer saber qualquer coisa sobre o que eu dizia dos sobreiros.

Quando fiz a minha tese de doutoramento, por simples curiosidade, a partir de casa e sem estar ligado a nenhuma instituição das que habitualmente dão acesso à literatura científica, Miguel Araújo disse-me que quando quisesse qualquer coisa sobre um artigo a que não tivesse acesso, que escrevesse ao primeiro autor. De maneira geral teria uma resposta porque os académicos gostam que se interessem pelo seu trabalho. Foi por isto que tive lata suficiente para ir ver onde trabalhava Estabrook e lhe mandei o livro, depois de ter verificado que nos Estados Unidos, e em boa parte do mundo, os académicos, mesmo quando são estrelas mediáticas mundiais, respondem a quem se lhes dirige, ao contrário do que se passa, geralmente, em Portugal.

Numa troca de meia dúzia de mails com Estabrook, disse-me que estaria a preparar uma colectâncea dos seus artigos sobre Portugal (penso que oito, mas o artigo que cito acima tem uma lista que deverá estar completa), embora dissesse que tinha dúvidas sobre se o conseguiria fazer porque lhe tinha sido diagnosticado um cancro e, eventualmente, não teria tempo para acabar essa tarefa.

Tirando Carlos Aguiar, que fala entusiasmadamente do trabalho de Estabrook, e mais um ou outro académico com quem se cruzou na Universidade de Coimbra, que ouvi dizer, com fastio, que sim, lembrava-se de o ter visto por lá, não tenho ideia de ouvir a academia portuguesa falar de Estabrook, pouco valorizado pela academia portuguesa, apesar da enorme originalidade e riqueza do trabalho que fez por gosto, quando estava em Portugal, onde tinha uma casa.

Citando o artigo que motiva este post:

Once, when a student interviewer back at UM kept asking him how he was planning to “help” the Portuguese by teaching them what he knew, he made clear who was learning from whom: “I don’t try to teach them anything. I try to learn from them what it is that they do that seems to have worked for the past many hundreds of years. And then I use modern ecological technology to try to understand why it works and how it works and to measure quantitatively the nutrients that are present in the plant and animal matter and in the crops that they produce and the soil that they manage and so on. … The purpose of this research is to learn from them what it is they do so that we, who are in many cases not getting it very right as we trash our soils and pollute our soils and pollute our crops, cover our farmland with other less appropriate structures; help us understand how this has been done in the past. I’m not there helping farmers at all. I’m there learning from farmers how they’ve managed to pull this off for the last 800 years (Y1)”. On so many levels, we have so much to learn from a professor at a world-prestigious university who was humble and open enough to learn scientific principles from the daily chores of uneducated mountain farmers in a small country across the ocean, and to mine deep truths from “cultural beliefs and practices that appear to be ‘old wives tales’”.

O que queria dizer, depois desta longa introdução, é que a displicência com que a academia portuguesa trata Estabrook, como se fosse um mero obscuro americano excêntrico, ou a displicência com que a sociedade trata, por exemplo, a gestão do fogo, esquecendo o conhecimento longamente acumulado dos "uneducated mountain farmers", em vez de aprender com Estabrook o valor desse conhecimento e os métodos para extrair dele lições para o futuro, é uma poderosa parábola sobre um país de doutores e pessoas importantes, que gastam rios de dinheiro em campanhas para ensinar o padre nosso ao cura e, no fim, culpa sempre factores externos pela sua pobreza e indigência intelectual.

Triste academia a nossa, tristes elites as nossas, triste incapacidade para ouvir e ver coisas diferentes e fazer delas coisas úteis para todos.

O vigor da morte

por José Mendonça da Cruz, em 21.02.20

«Como é que os vivos vivem com os mortos? Até à desumanização do capitalismo, todos os vivos aguardavam a experiência dos mortos. Era o seu futuro derradeiro. Por si sós, os vivos eram incompletos. Assim, vivos e mortos eram interdependentes. Sempre. Só uma forma inigualavelmente moderna de egoísmo fracturou essa interdependência. Com consequências desastrosas para os vivos que pensam nos mortos como os eliminados».

John Berger, citado por Kate Berridge em Vigor Mortis

 

«A fúria do ateu ressuscitado, isso sim, seria uma coisa digna de ser vista.»

Julian Barnes, Nothing to be frightened of

I rest my case

por João Távora, em 20.02.20

Uma enfermeira que conheci nos anos noventa em Coimbra, num sitio de sofrimento, disse-me algo que nunca mais esqueci: é preciso respeitar profundamente os padecimentos de cada pessoa, pois a sua dor é sempre a maior e a mais insuportável de todas, porque é ela e mais ninguém que a sente na pele, com a lente da sua sensibilidade e fragilidades, circunstanciais ou não.
Este exemplo, ao contrário do que parece, serve para perceber a importância do olhar exterior para a pessoa condicionada e suas circunstâncias. E os equívocos que uma perspectiva individualista da questão encerra, mais ainda quando pode ser causa duma decisão irreversível. Muito menos delegá-la ao Estado.

Tarde demais...

por João Távora, em 20.02.20

"Em 2020, num país civilizado, penso que a eutanásia não é necessária para prevenir mortes terríveis. Nas exceções em que os cuidados paliativos não são eficazes, podemos querer pôr fim à vida de maneira direta e intencional. Mas isso é uma tragédia e penso que é um erro acharmos que uma tragédia pode ser legalmente regulamentada. No momento em que regulamos uma forma de tragédia, outras tragédias exigirão uma nova liberalização da lei. O que mais me preocupa é que a eutanásia começou a minar a nossa determinação de lidar com as nossas dificuldades. Em vez de dar esperança, enviamos o sinal de que, para alguns doentes, é melhor deixar de existir."

A ler esta entrevista a Theo Boer professor de Ética dos Cuidados de Saúde na Universidade Teológica Protestante em Groningen

Tavares, Marega, Martins e Ventura

por henrique pereira dos santos, em 20.02.20

Ontem, Rui Tavares cascava forte e feio no homem cujo nome não se pode pronunciar (na opinião de Rui Tavares, eu tenho outra opinião, como se pode verificar pelo título do post) e, depois de um artigo cheio de disparates, Rui Tavares acabava a dizer coisas absolutamente certas: "Contra isso, só podemos contar com uma arma. A mesma que Marega usou: a dignidade. Quando confrontados com algo que é inaceitável, deixar bem claro que não aceitamos. Ser intransigentes, e exigentes com quem aceite transigir, é o que depende de nós. Se cada um fizer o que depende de si, já teremos muito caminho andado".

O que aparentemente Rui Tavares não entende bem são as razões da eficácia do discurso troglodita de André Ventura ou de Catarina Martins (o de Catarina Martins é um bocadinho menos troglodita, é verdade, mas é essencialmente igual ao de André Ventura, explorando o ressentimento como arma política).

Qualquer demagogo, seja Ventura, seja Martins, pega num ponto de vista que tem um fundo de verdade ("P'ra mentira ser segura/ e atingir profundidade,/ tem que trazer à mistura/ qualquer coisa de verdade"), simplifica-o, alinha-o com o ressentimento do grupo social de que quer ter o apoio, e repete incessantemente essa simplicação, de forma mais polida, como Martins, ou de forma mais troglodita, como Ventura.

Se é verdade que essa forma é relevante, a questão central é encontrar o fundo de verdade que existe e dar-lhe uma resposta diferente, se se quer limitar os estragos sociais da demagogia.

Ora nesta questão da dignidade de Marega (é inquestionável que qualquer pessoa tem o direito de se revoltar por ser mal tratada por causa da cor da pele), pessoas como Rui Tavares têm um calcanhar de Aquiles: onde estão quando é a dignidade de outras pessoas que é mal tratada? Do lado da intransigência que advoga Rui Tavares para este caso, ou do lado da contemporização que Rui Tavares execra neste caso?

Por exemplo, onde ficou Rui Tavares quando Mamadou Ba resolveu mexer com a dignidade dos polícias falando na "bosta da bófia"? Ou que artigo escreveu sobre as agressões e insultos a médicos? E sobre agressões e insultos a professores? Ou da dignidade dos motoristas de autocarros frequentemente enxovalhados? Ou, mais próximo deste caso, Rui Tavares acha que chamar gatuno a um árbitro não é mexer com a dignidade da pessoa que tem a difícil tarefa de ser justo e imparcial no julgamento, condição sine qua non para que exista jogo de futebol decente?

É muito fácil exigir intransigência quando são os assuntos que estão alinhados com a nossa agenda (racismo, homofobia e afins), difícil, e digno, é ter a mesma intransigência para com a dignidade das pessoas envolvidas nos assuntos que estão desalinhados com as nossas agendas (autoridade do Estado e das funções públicas, liberdade religiosa, etc.).

Pessoalmente acho que toda a gente tem o direito a usar os insultos que quiser (sejam racistas, homofóbicos, contra a autoridade da polícia, a religião, o que quer que seja), porque insultos são palavras, tal como a vítima dos insultos tem o direito a reagir a esses insultos da forma que entender (um murro no insultador pode perfeitamente ser admissível).

O que não há é o direito a agir discriminatoriamente contra alguém, prejudicando-o, seja qual for o factor de discriminação que se escolha.

O que Ventura tem feito é explorar as vezes em que Tavares e Martins diminuem a dignidade dos árbitros dizendo que o jogo está viciado, o que lhe permite cavalgar o ressentimento dos que preferem atribuir aos árbitros as suas derrotas, para não ter o trabalho de treinar mais e melhor.

O que sempre me ensinaram é que quem não confia no árbitro, não joga e eu cá esperarei (sentado) para ver Tavares a defender a dignidade dos árbitros que são permanentemente insultados com a mesma instransigência com que defende (e bem) a dignidade de Marega.

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O cargo de governador do Banco de Portugal ficará disponível a partir do próximo dia 9 de julho e o tema de Mário Centeno ser o seu substituto de Carlos Costa tem levantado polémica. Mas há muita subjetividade na discussão pública.

Um ministro das Finanças pode ir para o Banco de Portugal? Pode. Não vale a pena nomear os vários casos em Portugal ou no Estrangeiro em que isso aconteceu.

Eu diria que tudo depende da motivação leva Mário Centeno a querer ser o supervisor bancário. Se a motivação for boa, porque não? Mas será que é? 

Mas o essencial não é isso, essencial é saber se Mário Centeno, ministro, vai acelerar até julho a reforma da supervisão financeira que tanto apregoou, com críticas subtis ao atual Governador Carlos Costa, por quem não morre de amores – reforma essa que retira poder ao Banco de Portugal – ou se vai protelar o assunto até julho, para que não seja o carrasco da sua futura função?

Como se lembram uma das consequências da legislação que Centeno propôs na anterior legislatura a seis meses das eleições, era que retirava poderes específicos ao supervisor da banca. Curiosamente só no final da legislatura teve o processo legislativo, que pretendia implementar desde 2015, pronto para levar ao Parlamento.

Na reforma da supervisão financeira que ficou adiada, há dois poderes do BdP que são retirados da esfera direta do Banco de Portugal. Um deles é a supervisão macroprudencial, de análise dos grandes riscos para todo o sistema financeiro, sendo que o outro prende-se com a autoridade de resolução, o poder de intervir em instituições bancárias. 

Previa-se ainda a alteração do mandato do governador - para um período único de sete anos, sem qualquer possibilidade de renovação, ao contrário do regime atual -, bem como havia mexidas nas causas para uma exoneração (mexidas depois de uma legislatura em que muitas foram as críticas do Governo ao governador).

Isto vai avançar se Centeno substituir Carlos Costa? Essa é a questão essencial.

Janinas, Janinas, Janinas (...da Silva)

por João-Afonso Machado, em 19.02.20

E pronto, amanhã as Janinas (contracção das possidoneiras Joacine, Ana e Catarinas) terão resolvido a seu contento mais um "tema fracturante". Muito gostam o raio das mulheres de "fracturar", mesmo à revelia do saber e da vontade do povo!

Do povo que antes só se suicidava no desespero causado pelas maldades fascistas; do povo que agora o passará a fazer, com ou sem ajuda, para se ver livre do seu sofrimento fisico e moral, ambos ditados pela doença - doença "terminal", apressam-se as Janinas a esclarecer; mentira - como, o outro dia, bem lembrou um médico: a tetraplagia, por exemplo, é uma doença crónica.

Aguardam-se, pois, as tradicionais rectificações vindas a lume no Diário da República (além de baterias e baterias jurisprudenciais) para colmatar as indecifrabilidades do legislador, na sua pressa de "fracturar".

Quatro notas me parecem, entretanto, relevantes:

- A primeira a honrosa personalidade demonstrada pelo PCP ao não embarcar nesta palhaçada. Confesso, não li as razões que aduziu, mas o facto permanece - não alinhou em "fracturas" urbano-caviaristas.

- Depois, esta tirânica fonte de poder em que se estão a transformar as Janinas e os seus animaizinhos do PAN.

- Também, a costumeira plasticidade de Costa - como cidadão pensaria assim, como governante pensa assado: a dar de comer a gregos e a troianos.

- Por fim, a posição pessoal de Rio. Não é a de um humanista. Está no seu pleno direito de entender a realidade como a entende, e eu de não votar nele (e no partido dele, enquanto ele o dirigir) por causa do seu entendimento.

No mais, este novo - e "fracturante" - diploma legal nada assusta. A não ser que as Janinas consigam impor ao pessoal de Saúde (médicos e enfermeiros) a obrigação de praticar a eutanásia. Porque, se assim não for, entre a objecção de consciência da esmagadora maioria e um SNS permanentemente coxo, continuaremos a optar pelo suicídio ou pela morte natural. Sem interferências de terceiros, sempre suspeitas, sediciosas ou oportunistas.

 

Anti-racismo.

por João Távora, em 18.02.20

A igreja de Pedro, herança de Jesus Cristo, no Vaticano, numa paróquia de Lisboa, numa aldeia de África ou em qualquer lugar da terra, é o maior exemplo de promoção e sucesso de convivência interétnica e racial que eu conheço. Orgulhamos-nos disso, pois.


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