Há 12 ou 13 anos calhou estar em trabalho em Budapeste. Às 20 horas, estando o meu grupo a preparar-se para jantar, eu, fumador, pobre de mim, saí para a rua. Ao fim dela, na praça em que desembocava, havia um ajuntamento festivo. Passeei até lá, e sentei-me admirando uma pequena e simpática multidão. Juntara-se à porta do teatro onde aguardava para entrar e ver a récita de uma ópera italiana, A Tosca, julgo lembrar-me. Perdi a noção das horas, porque me senti em boa companhia. Em todas e todos os presentes se sentia expectativa e boa disposição. E o conjunto delas e deles era ao mesmo tempo comovente, contagiante e animador. A Hungria ainda não tinha saído há muito tempo de sob a bota comunista que se abatera sobre ela em 1945, nem da escravidão e do massacre com que em 1956 os comunistas lhe mataram a ilusão de liberdade; mas agora a Hungria era livre. Aquela gente, eles e elas, não era manifestamente rica, e era comovente por isso mesmo: tão bem ataviados para o momento alegre e solene que anteviam, mas ataviados com sapatos e roupas e adereços de qualidade tão modesta. Por toda a Budapeste havia já sinais de progresso, lojas novas, convites ao turismo, edifícios clássicos em obras para acolherem os novos hotéis das grandes cadeias. E havia sinais de alegria como aquela pequena multidão, e por isso ela era contagiante. Era animador aquele ambiente, por ser tão visível o ânimo e a esperança de quem deixa de ter sobre os ombros a canga do Estado que em tudo se mete, do Estado que proíbe e castiga (e asfixia, e desencoraja, e malbarata, e tortura e mata), de quem sente que agora pode fazer e progredir.
Lembrei-me desta cena no outro dia, na sala de espera do dentista, folheando impressionado as páginas da revista Caras. A Caras pertence a um grupo da elite portuguesa, o grupo Balsemão, que detém uma televisão de reverência socialista, e um semanário de reverência socialista, o tipo de reverências com que a nossa elite se faz merecedora das isenções de concorrência e das vantagens da cumplicidade. Essa elite acomodou-se numa receita fatal: é discreta, porque não quer que reparem nela; é imobilista, porque o Portugal medíocre e rentista convem-lhe. E é sonsa. A Caras é apenas um indício de como é sonsa. É que na Caras, a elite verdadeira (a discreta e imobilista) anuncia e tenta fazer crer que a elite portuguesa é aquilo que vem naquelas páginas. E aquelas páginas, ao contrário da pequena multidão húngara, são confrangedoras, repulsivas e desanimadoras. Estão cheias de «empresários». Qualquer acompanhante de uma modelo, de uma animadora, de uma estrelinha televisiva, é «um empresário». A Caras está cheia de modelos, animadoras, estrelinhas, de mulheres de várias idades e estatutos, que cabem todas na designação de «famosas». Fizeram uma telenovela, ou um programa qualquer, ou fizeram pouco, ou não fizeram nada, ou estão de esperanças e dizem que «deu-me uma nova perspectiva da vida», ou sentem-se «uma pessoa nova», ou vão separar-se «com amizade», mas saem nas páginas da Caras porque são famosas, coisa que são por sairem nas páginas da Caras, razão por que, naturalmente, voltarão a sair nas páginas da Caras. As roupas, as delas e as deles, são muito menos modestas do que as dos alegres espectadores húngaros da Tosca; brilham, resplandecem, mostram. Mas são toscas, e, portanto, mais pobres, menos vivas, menos animadoras.
Lembrei-me da multidão simpática, esfusiante e expectante à porta da ópera de Budapeste. Lembrei-me das gentes que desfilam nas pobres elites que a arcaica elite promove. E, não sei porquê, tive a certeza triste, tristíssima, de que não será apenas a Irlanda, a República Checa, a Eslovénia, a Estónia, a Lituânia, a Eslováquia, a Letónia... Não. A Hungria desse Viktor Orban, tão detestado pelo Portugal velho, arcaico, socialista e pobre, também nos vai ultrapassar em breve.