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Porque é que os blogues são importantes?

por João Távora, em 12.01.20

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O Facebook bloqueou qualquer ligação ao blog "Portugal Profundo" de António Balbino Caldeira, o blogger que em 2007 denunciou a falcatrua da licenciatura de José Sócrates. A isto chama-se censura e é absolutamente lamentável.

Domingo

por João Távora, em 12.01.20

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus


Naquele tempo, Jesus chegou da Galileia e veio ter com João Baptista ao Jordão, para ser baptizado por ele. Mas João opunha-se, dizendo: «Eu é que preciso de ser baptizado por Ti e Tu vens ter comigo?». Jesus respondeu-lhe: «Deixa por agora; convém que assim cumpramos toda a justiça». João deixou então que Ele Se aproximasse. Logo que Jesus foi baptizado, saiu da água. Então, abriram-se os céus e Jesus viu o Espírito de Deus descer como uma pomba e pousar sobre Ele. E uma voz vinda do céu dizia: «Este é o meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência».


Palavra da salvação.

Em veículos eléctricos, Senhor Primeiro Ministro?

por henrique pereira dos santos, em 12.01.20

Parece que ontem o Senhor Primeiro Ministro anunciou, no contexto do lançamento de Lisboa capital verde da Europa 2020 (não fui verificar o nome certo, mas a ideia é esta e, de qualquer maneira, qualquer nome que eu escolha não deve ser pior que os cartazes e o logo que escolheram), que neste ano e no próximo os senhores ministros, nas suas deslocações urbanas, o farão em veículos eléctricos.

"“É a prenda simbólica que o Governo gostaria de dar à cidade de Lisboa ao longo deste ano, mas também para servir de exemplo para todos os outros”, salientou."

Na verdade estou a deturpar voluntariamente as declarações (onde está veículos, o Senhor Primeiro Ministro disse viaturas) para poder dar publicidade ao judicioso comentário de João Pires Cruz: mas isso (acrescento eu, isso é a prenda que o Rei Sol, na sua magnanimidade, oferece à cidade de Lisboa) é o que fazem todos os dias milhares de pessoas em Lisboa, deslocam-se num veículo eléctrico que se chama Metro.

Há já bastantes anos, propuz, sem qualquer êxito (como de costume) ao Governo que adoptasse uma política simples de mitigação climática, que não exigia mais nada que uma decisão própria: todos os membros do Governo (no sentido alargado que inclui os membros dos gabinetes) assumiam o compromisso de 10% das suas deslocações serem em transportes públicos (incluindo bicicletas, na altura não havia trotinetes, que se podem também incluir agora, ou mesmo motas), excluindo desta contabilidade os aviões.

Senhor Primeiro Ministro (e, já agora, senhores jornalistas presentes que não fazem perguntas e senhores ambientalistas presentes que não fazem comentários), isso de pôr os seus ministros a andar de carro eléctrico é para meninos (na verdade, em qualquer caso, quem tem de resolver os problemas dos carros são os motoristas e quem paga é o desgraçado do trabalhador têxtil do Ave que tem mesmo de ir de mota para o emprego, por falta de alternativa, e sustena, na bomba de gasolina, o Fundo Ambiental que paga os carros eléctricos do Governo), deixe-se de mariquices e ponha toda a gente a andar de transportes públicos (ou a pé, grande parte das deslocações do seu Governo em Lisboa estão perfeitamente ao alcance de qualquer pessoa que decida andar a pé).

Menos que isso é simples treta.

Se quer dar o exemplo, dê exemplos que possam servir as pessoas comuns, ou acha que alguém vai passar a andar de carro eléctrico porque vislumbrou um ministro a passar de carro eléctrico quando esperava o sinal na passadeira que ia atravessar para chegar à paragem do autocarro?

"Para os nossos cuidadores de doentes"

por João-Afonso Machado, em 10.01.20

A costumeira descontração dos portugueses, para não se trair, não deu por isso – o mundo muda aceleradamente. A todos os níveis e, designadamente, no plano das relações familiares. Cá em Portugal, ante a euforia profissional e o fracasso do desemprego, as gentes procuravam a sua independência, o apartamento mais funcional, a cidade, o desenrascanço. E para trás foram ficando, no antigo casario onde haviam criado os seus filhos, - os idosos; cada vez mais, em quantidade e longevidade, os idosos.

É de todos hoje sabido – vive-se mais tempo, o mundo laboral é mais absorvente, os solavancos da nossa economia não se compadecem com os regalos campestres de outrora. Os nossos dias são uma selva e não é justo sigamos as teorias de Darwin acerca da sobrevivência dos mais fortes.

Um trajecto imparável, este que refiro. Mas que só agora começa a ser patente. Como não acredito na bondade do Estado, acrescento a fatalidade da falha de meios para darmos albergue, bem-estar e alegria que dignifiquem os nossos idosos. Valham-nos muitas coisas, à cabeça das quais a Santa Casa da Misericórdia e os seus lares e instituições afins!

Entretanto, confrontamo-nos com o Presente e – sempre à portuguesa – ao improviso que ele nos impõe. Quase todos se deparam já com pais e avós incapacitados, desprovidos de autonomia, e a aflição que é zelar por eles entre as incontornáveis obrigações do trabalho e dos empregos. Quantos não abdicam desta fonte de rendimento para tratar do seu velhinho acamado, alimentá-lo à colherada, tratar da sua higiene! Ouvimos nas caminhetas, recorrentemente, histórias de quem passa o seu tempo à cabeceira de um doente entrevado; ou as aflições dos que têm a seu cargo pessoas já atacadas pela demência, em maior ou menor grau…

Foi neste contexto de emergência (face à ausência de respostas capazes dos poderes públicos) que, há meses atrás, nasceu a Associação da Casa da Memória Viva, iniciativa de um grupo de meia dúzia de famalicenses. Totalmente direcionada para a terceira idade, maxime, daqueles que já vão padecendo de doenças do foro neurológico, com todas as inerentes consequências.

A Casa da Memória Viva tem objectivos amplos, e um deles passaria pela criação de um «alfarrabista», um espaço de coisas antigas que os ajudasse a viverem um tempo que não é actual mas foi o deles: que os ajudasse a guardarem essa noção do tempo e do espaço, o lugar que por direito lhes assiste na vida mediante o emergir das suas recordações.

E, também, a desenvolver, reforçar e acautelar uma nova noção, um novo affaire surgente na nossa sociedade – o dos “cuidadores”. Pessoas que, remuneradamente ou não, abdicam de si para acompanhar – cuidar – de quem necessite.

Tarefa custosa, a requerer preparação específica. Formação. Tranquilidade e resistência psicológicas. Por todos os motivos de justiça, o seu retorno à vida de antes, uma vez dispensados os seus serviços. E os modos possíveis de descanso – trata-se de uma profissão de “rápido desgaste”…

Faltam meios. Falta gente. A Casa da Memória Viva carece de apoio, de financiamento e de uma sede em local adequado aos seus propósitos. O projecto é de Famalicão e para Famalicão. E esta crónica um apelo à diligência e ao contributo de todos os famalicenses.

 

(Da rúbrica Ouvi nas caminhetas, in Opinião Pública de 09.JAN.2020)

 

 

Remédio santo

por Corta-fitas, em 09.01.20

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Este avolumar de casos — tornados públicos, mas haverá outros... — de médicos e enfermeiros agredidos em hospitais e centros de saúde é certamente mais uma das arestas da crise do serviço público de saúde, mas é muito mais do que isso: é a prova de que se criou um ambiente social de aquisição de direitos e de redução drástica de deveres (o primeiro dos quais o respeito pelos outros e a cordialidade), num espectro muito vasto de percepções individuais, de grupo ou clã. O abuso de alguns — que perceberam que agindo colectivamente alcançam efeitos persuasivos e amedrontam interlocutores em serviços públicos que por definição devem ser iguais para todos — deve ser travado com absoluta firmeza, sem tornar hospitais e centros de saúde uma espécie de coliseus para confrontos físicos em larga escala, como o sempre imprudente ministro Cabrita parece pretender ao anunciar que defesa pessoal será instruída aos funcionários hospitalares.

Talvez tudo se resolva de maneira muito mais simples: indivíduos identificados em tais distúrbios, abusos e ataques físicos (e bastará a vídeovigilância) passarem a ser impedidos, e seus agregados familiares, de usufruir de quaisquer beneses dos contribuintes portugueses — perdendo por cinco anos o direito a subsídios de desemprego (?), reinserção social (— oi?), isenção de taxas moderadoras, etc.

Quem sabe se assim haveria menos espalhafato abusivo e se garantia a integridade de quem faz tanto por todos.

Vasco Rosa 

trump irão

Esta mensagem do discurso de Donald Trump parece-me muito importante. Uma vez que revela o desfecho esperado pelos Estados  Unidos deste conflito. Mas a surpresa é que talvez seja também o desfecho esperado pelo Irão. Não do Irão de Ali Khamenei, mas provavelmente do Irão de Hassan Rouhani.  

Irão falhou alvos norte-americanos de propósito?

Enquanto Donald Trump se preparava para fazer a declaração ao país - o Presidente norte-americano falou mais de 30 minutos depois da hora prevista - a agência Reuters avançava que o Irão tinha falhado deliberadamente os alvos norte-americanos no ataque que ocorreu na madrugada.

De acordo com a agência internacional, que cita fontes norte-americanas e europeias anónimas, o Irão quis evitar baixas entre as tropas norte-americanas que estão destacadas em Erbil e Al-Asad, as duas bases norte-americanas que foram visadas pelo ataque. O Irão terá então evitado atingir determinadas zonas das bases militares de forma a evitar a morte de soldados norte-americanos.
A Reuters explica que "eles pretendiam responder, mas não queriam uma escalada".
 
Isto é apenas uma teoria, não se baseia em nenhum conhecimento profundo de Geopolítica, mas a minha intuição diz-me que a morte de Soleimani dá jeito ao Irão que quer libertar-se o mais depressa possível das sanções dos EUA. Há uma fação do Irão mais ocidentalizada que tem hoje, pós-Soleimani, um caminho mais aberto para um acordo com os Estados Unidos. 
 
A minha teoria, e só eu respondo por ela, é que o Irão quis livrar-se do maior obstáculo a um acordo com os EUA para pôr fim às pesadas sanções que assolam o país dos persas.

Isso explicaria a retaliação cirúrgica do Irão no Iraque, sem vítimas mortais, sem pôr em causa esse caminho da pacificação.

Um dia se descobrirá que houve mão amiga de alguém do Irão na morte cirúrgica de Soleimani. Um dos terroristas do Médio Oriente.

Hoje Trump mostrou abertura à paz, mesmo tendo ameaçado com mais sanções o Irão que já está estrangulado economicamente. 
 
O Presidente dos EUA disse hoje que não vai dar gás à escalada de tensão com o Irão, na sequência do ataque iraniano a duas bases militares norte-americanas no Iraque. Recorde-se que este por sua vez surgiu na sequência da morte do general Qassem Soleimani, comandante da força de elite iraniana Al-Quds, num ataque aéreo contra o carro em que seguia, junto ao aeroporto internacional de Bagdade, ordenado pelo Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

A declaração do Presidente dos EUA surge na sequência do Irão ter lançado vários mísseis terra-a-terra contra duas bases iraquianas, onde estão instaladas as tropas norte-americanas. A operação “Martir Soleimani” aconteceu nas bases aéreas de al-Asad, a oeste de Bagdad, e em Erbil, no Curdistão iraquiano.

Ao contrário do que todos os europeus parecem defender, eu acho que o presidente dos EUA sabe o que faz. Aliás logo após o ataque que tirou a vida a Soleimani, Trump veio dizer que com esta morte “estava a acabar uma guerra e não começar uma guerra”. Donald Trump sabia que não estava a desencadear nenhuma guerra mundial, pelo contrário, estaria provavelmente a traçar o caminho para a paz.

Se dúvidas houvesse, eis que horas depois da declaração de Donald Trump na resposta aos ataques contra bases aéreas norte-americanas no Iraque, o Ministério suíço dos Negócios Estrangeiros relevou que Teerão e Washington trocaram mensagens através de um canal diplomático suíço antes da comunicação ao país. A informação é avançada pela CNN.

"De acordo com a CNN, os dois países trocaram mensagens através de um canal diplomático suíço, avança a RTP. Há várias décadas que o Irão e os Estados Unidos não têm representações diplomáticas e recorrem a canais alternativos de comunicação. Segundo a notícia da CNN não se conhece o conteúdo destas mensagens nem quando o contacto ocorreu, mas a informação do MNE suíço surge depois das declarações de Donald Trump.
 
O presidente dos EUA disse também que o Irão "parecia estar a recuar" e apelou à negociação de um novo acordo sobre o programa nuclear.
 
O Presidente norte-americano não descartou novas ações de retaliação, mas a resposta limita-se, pelo menos para já, à imposição de novas sanções contra Teerão. 
 

Trump revelou que Soleimani esteve por trás do terrorismo no Médio Oriente, e treinou exércitos terroristas, incluindo o Hezbollah, no Líbano, e esteve envolvido nas milícias xiitas no Iraque e Afeganistão. Os serviços secretos dos EUA não são de subestimar e conheciam ao detalhe Soleimani e o seu papel na Síria, no Líbano, no Iraque, etc. 

Soleimani  era visto como possível sucessor do ayatollah Ali Khamenei, Líder Supremo do Irão, e foi o grande estratega da expansão da influência iraniana no Médio Oriente.

Mas há quem queira a paz com o Ocidente no Irão. 

Donald Trump disse esta quarta-feira que os EUA estão “prontos para abraçar a paz”. Teerão quer pôr fim às sanções para salvar o país da agonia económica. Hoje esse caminho estará certamente mais perto.

Há 12 ou 13 anos calhou estar em trabalho em Budapeste. Às 20 horas, estando o meu grupo a preparar-se para jantar, eu, fumador, pobre de mim, saí para a rua. Ao fim dela, na praça em que desembocava, havia um ajuntamento festivo. Passeei até lá, e sentei-me admirando uma pequena e simpática multidão. Juntara-se à porta do teatro onde aguardava para entrar e ver a récita de uma ópera italiana, A Tosca, julgo lembrar-me. Perdi a noção das horas, porque me senti em boa companhia. Em todas e todos os presentes se sentia expectativa e boa disposição. E o conjunto delas e deles era ao mesmo tempo comovente, contagiante e animador. A Hungria ainda não tinha saído há muito tempo de sob a bota comunista que se abatera sobre ela em 1945, nem da escravidão e do massacre com que em 1956 os comunistas lhe mataram a ilusão de liberdade; mas agora a Hungria era livre. Aquela gente, eles e elas, não era manifestamente rica, e era comovente por isso mesmo: tão bem ataviados para o momento alegre e solene que anteviam, mas ataviados com sapatos e roupas e adereços de qualidade tão modesta. Por toda a Budapeste havia já sinais de progresso, lojas novas, convites ao turismo, edifícios clássicos em obras para acolherem os novos hotéis das grandes cadeias. E havia sinais de alegria como aquela pequena multidão, e por isso ela era contagiante. Era animador aquele ambiente, por ser tão visível o ânimo e a esperança de quem deixa de ter sobre os ombros a canga do Estado que em tudo se mete, do Estado que proíbe e castiga (e asfixia, e desencoraja, e malbarata, e tortura e mata), de quem sente que agora pode fazer e progredir.

Lembrei-me desta cena no outro dia, na sala de espera do dentista, folheando impressionado as páginas da revista Caras. A Caras pertence a um grupo da elite portuguesa, o grupo Balsemão, que detém uma televisão de reverência socialista, e um semanário de reverência socialista, o tipo de reverências com que a nossa elite se faz merecedora das isenções de concorrência e das vantagens da cumplicidade. Essa elite acomodou-se numa receita fatal: é discreta, porque não quer que reparem nela; é imobilista, porque o Portugal medíocre e rentista convem-lhe. E é sonsa. A Caras é apenas um indício de como é sonsa. É que na Caras, a elite verdadeira (a discreta e imobilista) anuncia e tenta fazer crer que a elite portuguesa é aquilo que vem naquelas páginas. E aquelas páginas, ao contrário da pequena multidão húngara, são confrangedoras, repulsivas e desanimadoras. Estão cheias de «empresários». Qualquer acompanhante de uma modelo, de uma animadora, de uma estrelinha televisiva, é «um empresário». A Caras está cheia de modelos, animadoras, estrelinhas, de mulheres de várias idades e estatutos, que cabem todas na designação de «famosas». Fizeram uma telenovela, ou um programa qualquer, ou fizeram pouco, ou não fizeram nada, ou estão de esperanças e dizem que «deu-me uma nova perspectiva da vida», ou sentem-se «uma pessoa nova», ou vão separar-se «com amizade», mas saem nas páginas da Caras porque são famosas, coisa que são por sairem nas páginas da Caras, razão por que, naturalmente, voltarão a sair nas páginas da Caras. As roupas, as delas e as deles, são muito menos modestas do que as dos alegres espectadores húngaros da Tosca; brilham, resplandecem, mostram. Mas são toscas, e, portanto, mais pobres, menos vivas, menos animadoras.

Lembrei-me da multidão simpática, esfusiante e expectante à porta da ópera de Budapeste. Lembrei-me das gentes que desfilam nas pobres elites que a arcaica elite promove. E, não sei porquê, tive a certeza triste, tristíssima, de que não será apenas a Irlanda, a República Checa, a Eslovénia, a Estónia, a Lituânia, a Eslováquia, a Letónia... Não. A Hungria desse Viktor Orban, tão detestado pelo Portugal velho, arcaico, socialista e pobre, também nos vai ultrapassar em breve.

Ficar mal na fotografia

por Pedro Picoito, em 08.01.20

O grupo monoparlamentar do Livre continua a brilhar a grande altura. Depois da rábula da Palestina, que levou Joacine Moreira a declarar alto e bom som ter sido eleita sozinha e não aceitar lições do Grupo de Contacto (e quem aceitaria lições de um Grupo de Contacto que nem sequer sabe contactar?), agora a senhora deputada pretende proibir uma fotografia oficial da Comissão do Ambiente, da qual faz parte, porque ficou de olhos fechados.

Se eu fosse dado ao simbolismo, notaria a deliciosa metáfora da coisa. Mas o que me surpreende mais é o casamento entre a alegada superioridade moral e a fatídica pulsão censória, um clássico da extrema-esquerda (e, por acaso ou talvez não, da extrema-direita). Para já não falar da justificação invocada, uma pérola retórica que exibe gloriosamente a liberdade do Livre perante as covencionais amarras da lógica burguesa: "Sabia-se que fotografia seria para divulgação, mas não se sabia que fotografia seria a divulgada" (sic).

O assessor que chamou a polícia para os jornalistas deixarem em paz a sensibílissima representante do povo, cuja "cultura de trabalho é uma cultura de descanso, no sentido intelectual do termo", parece ter feito escola. Ou, então, tudo se resume à velha vitimização, sempre à espreita nas causas identitárias.  Seja como for, Joacine fica mal na fotografia.

Da mediocridade

por João Távora, em 07.01.20

Ainda sou do tempo em que se debatia uma revisão constitucional que retirasse ideologia ao regime e da discussão sobre limites da intervenção do Estado na vida das pessoas. Às vezes, à mesa do jantar, ainda recordo saudoso aos meus filhos incrédulos esses ideais ambiciosos. A dívida que nos sobrou da crise de 2011 não nos deixou só pobreza, tolheu-nos as aspirações.

Em peça de abertura do seu jornal das 20 de hoje a Tvi:

- deduziu que a ameaça de Trump de atingir alvos vitais no Irão, caso o Irão ataque os EUA, dizia respeito aos monumentos iranianos reconhecidos como património da humanidade pela UNESCO;

- visto isso, a Tvi inventou que Trump pretende atingir a humanidade;

- posto o que, a Tvi acrescentou que isso demonstrará que Trump é tão mau como o Estado islâmico.

A Tvi construiu esta peçazinha falsária - composta decerto por imbecis ou fanáticos, mas jornalista nenhum - com ajuda de mapas e fotos, para melhor fingir que se tratava de informação. As imagens foram acompanhados por um texto fantasioso, papagueado por um pobre diabo de fatinho azul de saldo com sapatinho castanho cócó que junta a interlocução aaaaaaaaa sempre que não vê bem a linha que deve ler a seguir (o-aaaa mapa que-aaaa mostra então o-aaa Irão e o-aaa-s locais onde o-aaaaa, etc).

A coisa foi de tal ordem que teve que ser o embaixador Seixas da Costa -- um homem de esquerda, mas dotado de boa dose de neurónios -- a apelar repetidamente à razão:

- que não, que o general morto não era um santo, era um terrorista;

- que não, que o acto americano não foi gratuito ou tresloucado, foi ponderado e em reacção às atividades do Irão;

- que não, que a vingança do Irão nunca terá a dimensão que faz babar os patetas da Tvi e de vários orgãos «de informação», porque o Irão não tem nem os aliados, nem os meios.

Foi algum e indispensável bom senso, a rematar uma peça em que (talvez) a redação da Tvi veio confessar que é com o «noticiário» internacional do inenarrável Ribas da Sic que quer competir em platitudes e estupidez.

 

 

Domingo (Epifania do Senhor)

por João Távora, em 05.01.20

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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus


Tinha Jesus nascido em Belém da Judeia, nos dias do rei Herodes, quando chegaram a Jerusalém uns Magos vindos do Oriente. «Onde está – perguntaram eles – o rei dos judeus que acaba de nascer? Nós vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-l’O». Ao ouvir tal notícia, o rei Herodes ficou perturbado e, com ele, toda a cidade de Jerusalém. Reuniu todos os príncipes dos sacerdotes e escribas do povo e perguntou-lhes onde devia nascer o Messias. Eles responderam: «Em Belém da Judeia, porque assim está escrito pelo Profeta: ‘Tu, Belém, terra de Judá, não és de modo nenhum a menor entre as principais cidades de Judá, pois de ti sairá um chefe, que será o Pastor de Israel, meu povo’». Então Herodes mandou chamar secretamente os Magos e pediu-lhes informações precisas sobre o tempo em que lhes tinha aparecido a estrela. Depois enviou-os a Belém e disse-lhes: «Ide informar-vos cuidadosamente acerca do Menino; e, quando O encontrardes, avisai-me, para que também eu vá adorá-l’O». Ouvido o rei, puseram-se a caminho. E eis que a estrela que tinham visto no Oriente seguia à sua frente e parou sobre o lugar onde estava o Menino. Ao ver a estrela, sentiram grande alegria. Entraram na casa, viram o Menino com Maria, sua Mãe, e, prostrando-se diante d’Ele, adoraram-n’O. Depois, abrindo os seus tesouros, ofereceram-Lhe presentes: ouro, incenso e mirra. E, avisados em sonhos para não voltarem à presença de Herodes, regressaram à sua terra por outro caminho.


Palavra da salvação.

Deus... nos ajude

por João Távora, em 04.01.20

(...) A nossa conceção de justiça, por exemplo, depende da existência de Deus. Não há direito natural (“direitos humanos”) sem Deus. Não vale a pena abanarem a cabeça, porque um raciocínio cem por cento secularizado não nos garante os direitos humanos. Sem transcendência, isto é, sem uma dimensão independente da imanência física, a soberania da ciência, da economia e do poder político, torna-se impossível contemplarmos algo como o amor, na nossa vida privada, ou a justiça, na nossa vida coletiva. A ideia de “injustiça” é uma criação da Bíblia. É a essência dos salmos: fazer uma injustiça é ferir Deus. E claro que o Novo Testamento, a adenda das adendas, aprofundou esse espírito: magoar um ser humano é como magoar Deus; toda a vida humana é sagrada e inviolável; os poderes humanos e terrenos não podem violar a vida humana. Deus, e não o homem, é rei. Só esta premissa nos liberta das ditaduras terrestres da cidade dos homens; só esta premissa nos liberta do relativismo dos nossos totens, nações, classes, impérios, partidos, fações, tribos, modas.

Também é por esta razão que a moral estoica e “moral” hedonista não são suficientes. Santo Agostinho, o grande degrau depois de Paulo, atacou os hedonistas porque estes diziam (e dizem) que basta o prazer para que uma vida humana mereça ser vivida. Mas o que acontece quando a receção de prazer desaparece? Santo Agostinho também atacou os estoicos, porque estes diziam (e dizem) que basta a autonomia racional do “eu” para que a vida tenha a sua moral e felicidade. Mas o que acontece quando o “eu” não tem ou perde a autonomia racional? Ou seja, a sacralidade da vida humana não pode estar dependente de capacidades mentais e/ou neurológicas, porque, caso contrário, um bebé, um deficiente mental e um idoso com Alzheimer passam a ser vidas não sagradas, tocáveis, violáveis. A sacralidade da vida humana não depende de qualquer critério humano e mensurável. Todos os seres humanos, seja qual for a sua funcionalidade, são sagrados porque foram criados por Deus. Só este salto de fé pode fechar o círculo dos direitos humanos, os direitos inalienáveis que são intrínsecos à condição humana, direitos que não dependem de poderes terrenos. (...)

 

Henrique Raposo hoje no Expresso 

A promessa de felicidade e uma bomba relógio

por João Távora, em 03.01.20

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Não tenho feitio para catastrofista, mas não consigo evitar sentir que no ocidente vivemos sobre uma bomba relógio - principalmente os países com uma economia mais débil como Portugal. Eu explico: se somarmos a fórmula venal de sustentação do poder nas democracias liberais com a promessa de “felicidade” para todos os indivíduos, um conceito subjectivo que como todos sabemos é objectivamente inalcançável, com o alarmismo cada vez mais estridente sobre as alterações climáticas – o medo é uma arma muito potente – cujo combate esconde a exigência da austeridade como inevitável modo de vida num Mundo que afinal não possui recursos ilimitados; poder-se-á entender o caldo que está em vias de se entornar por estas bandas (lembram-se dos primeiros anos do resgate da Troika?).
Se no hemisfério sul os povos ainda estão a sair da miséria, por cá poucos são aqueles que estão dispostos a mudar de vida de forma voluntária: basta atentar nas auto-estradas suburbanas de Lisboa e Porto diariamente engarrafadas até à noite avançada, ou como nos sugere Miguel Monjardino, no número de grandes aeroportos em construção na Ásia, na diferença abissal de venda de carros a gasolina com os eléctricos no mundo, e na expansão anual do tráfico aéreo acima de 6% na Europa para entender a discrepância entre o discursos e a realidade. Depois lembremo-nos como surgiu o fenómeno dos Coletes Amarelos em França, sempre na linha da frente no que a motins diz respeito, na sequência do anúncio do aumento dos impostos sobre os combustíveis fósseis e sobre as emissões de carbono. Os revolucionários começam sempre motivados pela ameaça aos seus privilégios, e assim como o transporte individual, o consumo desenfreado do descartável tomaram o lugar do bezerro de ouro da nossa civilização. Como se vai convencer toda a geração “mais bem preparada de sempre” a prescindir das suas viagens de 3 dias em “Low Cost” com que se entretêm enquanto não “assentam” para fazer família – e de caminho mitigar a inversão da pirâmide demográfica que sustenta o Estado Social? E se o travão ao consumo fosse coisa realizável sem muito sangue qual seria o efeito na economia e no emprego? O que me assusta é que já há demasiada gente a maquinar os planos para um novo “Homem Novo” que encaixe nas suas expectativas. Ah, sim é verdade: já me esquecia da felicidade que nos foi prometida em campanha eleitoral. Exijo ser feliz! Porque é que os políticos afinal não cumprem com a palavra dada?!

Novidades do Ano Novo

por João-Afonso Machado, em 03.01.20

Algo de quase inédito vem sucedendo estes últimos dias: os doentes, nos centros de saúde ou nas unidades hospitalares, entram nas salas e espancam os médicos: Moscavide, Setúbal-bis... Eu digo quase inédito porque, até agora, não raro, ciganos incorriam nessa prática (desgraçados funcionários das "urgências"...). Ciganos ou, corrigindo,  «indivíduos de etnia cigana» ou, mais recentemente, com singeleza e descrição, «familiares dos doentes». Para não sermos todos votados à ignomínia da xenofobia, Andrés Venturas de segunda extracção.

Nos casos recentes, parece não se tratou de tal parentela. Assim sendo, os noticiários, livres da maldição da xenofobia, relataram os acontecimentos ao pormenor. É caso para julgar, ao fim de dez minutos a levar porrada a sério no exercício do seu múnus, prontinho para o tratamento pelos seus colegas, que médico não suspirará pelos hospitais particulares?

Neste aspecto se descobre ainda a perversidade da Esquerda: mais alto do que as falhas da sua ideologia, ergue-se o fanatismo do seu ethos ideológico. A Esquerda é absoluta e rigidamente ideológica e ideologizante. O que a torna incapaz de admitir duas realidades óbvias - todos preferem um sistema público de Saúde, com o Estado a tratar dos seus cidadãos; mas um SNS que não funciona não existe. Ideológicamente, a Esquerda chamou causa ao efeito e vice-versa. E daqui nunca sairemos porque do Estado desta República nada de bom se pode esperar.

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