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Ventura e a reverência

por José Mendonça da Cruz, em 31.01.20

Uma portuguesa, uma Joacine, de origem guineense com assento no parlamento português proclama que os portugueses são ladrões e devem devolver o que ela diz que são os bens culturais que ela diz que eles roubaram.

A direita pusilânime acha perfeitamente normal.

O porta-voz do Partido Livre (de quê?), Pedro Mendonça, do «Grupo de Contacto» (com quem?), diz que a deputada Joacine deixou agora de representar os orgãos, os apoiantes, e os membros do Livre de quê. Em protesto, o assessor dela, que se estreou na AR envergando uma saia plissada como símbolo moderníssimo de afirmação de uma cretinice qualquer, desfiliou-se do Livre de quê, com quem não contacta mais. 

A direita pusilânime não se ri. A direita pusilânime não consegue sequer rir da cena de «A Vida de Brian», dos Monthy Python, onde ficou inesquecivelmente retratada a prática e inteligência destes grupelhos de palermas.

Mas o Mendonça do Livre de quê, que acaba de cortar relações com a mulher-migrante-negra-e-gaga, faz questão de, galhardamente, atacar logo os que a criticam, os que, evidentemente, são para ele os verdadeiros vilões, os «novos fascistas», e os «populistas, racistas e sexistas».

A direita pusilânime guarda de Conrado o prudente silêncio.

Perante todos estes factos, patéticos, ridículos, e inaceitáveis, o deputado André Ventura, pegando na frase atirada por Joacine, sobre «devolver os bens culturais», atira, nas redes sociais e com patente ironia, que talvez fosse melhor «devolver ao país de origem» a deputada.

Ora, há pessoas para quem o contexto, a oportunidade, a construção de uma frase, e, aliás, a língua portuguesa não têm qualquer importância. E têm ainda menos quando o mau entendimento de contexto, oportunidade, construção de frase e língua podem permitir um episódio flamejante em prol da afirmação da ditadura politicamente correcta. 

A melhor prova de que havia uma intenção dolosa de aproveitar o episódio, deram-na as televisões em uníssono, os serventes do pc e da causa sobrante do socialismo. Deram-na, primeiro, ao separar o protesto de Ventura da patetice de Joacine que lhe dera origem; e, pondo ainda mais zelo na manobra, substituindo o «devolver» escrito por Ventura por «deportar», expressão que inventaram.

Estes «jornalistas», não são, evidentemente, jornalistas. São canalhas que abdicaram de seriedade e brio para defenderem modas fascistas, taras de grupelhos, e modernices de idiotas, dos propriamente e dos úteis. E a direita que, perante manobras destas, ou fica queda e muda e passiva, ou, pior, alinha até alguns pruridos em defesa de palermas e em coro com canalhas, essa direita não serve para nada.

Ventura não se dispôs a aturar a palhaçada, e troçou dela. Fez bem. Fez bem em reagir, e fez bem em fazê-lo nos termos que escolheu. Mais: o deputado André Ventura declarou a milhares de pessoas (sem ter que dizer uma palavra especificamente nesse sentido) que não devem pensar que têm que aturar tudo.

A direita pusilânime é que, perante tudo isto, não teve uma palavra, nem se riu, nem teve nada a objetar de inteligente, inteligível ou patriótico. Ou, aliás, teve. Teve uma palavra para dizer, que é sua palavra do costume: que tinha muita vergonha de não ser de esquerda.

Em defesa do Grunhus Lusitanus

por Pedro Picoito, em 29.01.20

A proposta marxista cultural, politicamente correcta e transafrosexual da Joacine Moreira, aquela coisa de de devolver o património às ex-colónias, não tem pés nem cabeça. Antes de devolvermos o que tanto nos custou a pilhar, devíamos pensar na conservação do que é nosso. Por exemplo, o Grunhus Lusitanus, espécie raríssima.

Dir-me-ão que o Grunhus Lusitanus não é uma espécie raríssima e que podemos encontrá-lo em  todas as tascas e redes sociais do país. Mas não estou a falar do Grunhus Lusitanus Vulgaris, esse sim vulgar (como o nome indica). Nada disso. Estou a falar da variante extraordinária: o Grunhus Lusitanus Maximus. O Maximus parece partilhar com o Vulgaris a capacidade de sobreviver sem o uso da inteligência, a visão a preto e branco, a dificuldade de locomoção bípede. A grande diferença, porém, é que o Vulgaris vive no café e no Facebook, enquanto o Maximus, graças a uma mutação genética, invadiu o Parlamento. Mutação genética que lhe dá a vantagem evolutiva de adaptar a grunhice ao meio. No Facebook, o Lusitanus Maximus grunhe "ó preta, vai prá tua terra!" em nome da ironia. No Parlamento, grunhe "Vergonha! Vergonha" em nome da salvação da Pátria. É um Grunhus muito evoluído.

Daí que a sua conservação seja um imperativo cultural e turístico. Não há muitos assim, nem mesmo lá fora (os Grunhi estrangeiros, por muito que tentem, não têm a finíssima ironia do tuga). E, para o conservar, nada melhor do que devolvê-lo às origens. Até porque o Algueirão sempre é mais perto do que as ex-colónias.

Meu querido diário (2)

por João Távora, em 29.01.20

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Se há um eleitorado à direita que não percebe que um deputado da Nação não pode expressar estados de alma à laia dum motorista de táxi embriagado, deixá-lo estar longe do CDS, um partido de tradição humanista, personalista e cristã. Se a proposta de Joacine é absurda e insultuosa para muitos portugueses, ela merece uma resposta política fundamentada e inteligente, como o mereceram muitas outras do mesmo calibre defendidas pela extrema-esquerda ao longo dos anos da democracia.

Nunca por nunca um conservador permitir-se-á descer o nível, perder a compostura, menos ainda o norte - que é atirar achas para a fogueira das disputas tribais. 

Após o congresso do CDS

por João Távora, em 28.01.20

Vamos certamente assistir à multiplicação de “fascistas” e de “populistas”, não porque haja mais “fascistas” e “populistas”, mas porque os que mandam há muito tempo estão com medo de deixar de mandar.

O fim de uma geração CDS?

por João-Afonso Machado, em 26.01.20

As prévias desculpas a quem apenas ouviu notícias breves no telejornal. Mas, parece,  houve uma revolução no CDS - uma revolução congressista, evidentemente. Não faço a mínima ideia quem seja o Sr.  Rodrigues dos Santos, o putativo dirigente-mor do Partido, Muito menos do que ele programa, assinalando somente que apontou o dedo do elogio (e da conivência?) a Cecília Meireles, de longe a grande, a melhor, referência parlamentar dos democratas-cristãos.

Não é o caso da celebérrima viagem a rodar um Citroen até à Figueira da Foz. Isto para o comum dos mortais, longe dos corredores do Largo do Caldas. É, por isso, a revolução. Contra a qual alguns pilares-fortes do CDS julgo terem surgido na última hora - Telmo Correia, Pires de Lima, Nuno Melo... Mas debalde, já. Aparentemente, falo do desastre Cristas, e da geração dos politicos que enfrentaram com o PSD o caos lançado por Sócrates.

A expectativa é, assim, bastante. Em boa verdade, o eleitorado consumia-se há muito, quer com a Iniciativa Liberal, quer com o Chega! Matar um partido que aguentou a vaga totalitária pré-25 de Novembro, e teve a coragem de votar contra a Constituição republicano-socialista, parece-me uma injustiça, além das demais considerações de oportunidade política.

Do que será capaz o Sr. Rodrigues dos Santos (ouvi, entretanto, para os amigos o Chicão)? A situação é, em absoluto, desconforme com a ascenção de Manuel Monteiro, in illo tempore.

Subscreve estas linhas quem nada tem a ver com o assunto e, quando se digna votar que não seja em branco, aposta em outros rumos. Mas que é da Direita (sem centros e meios centros) e se interessa por saber como vai a Direita portuguesa.

 

Meu querido diário

por João Távora, em 26.01.20

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1) Aqui do sofá (a contravontade, diga-se) tenho a dizer-vos que gosto deste modo antiquado de fazer política, de congressos electivos, com drama e galhardia, sem resultados pré-estabelecidos. Em que "directas" quer dizer noites sem dormir. Os jornalistas não gostam do Chicão? Pela minha já vetusta experiência isso indica que o CDS está no caminho certo - agora adoram o Pires de Lima. Entendam definitivamente uma coisa: quando não nos chamam fascistas é porque estamos a fraquejar. Os media tradicionais não descansam enquanto não formos progressistas ... ou "moderninhos".

2) Quantas vezes, um polícia grosseiro (ainda longe de serem padres ou psicólogos, nos dias de hoje são cada vez são mais bem-educados, diga-se) agarrou num pobre diabo branco apanhado “em falso” e no carro ou na esquadra lhe infringiu um "generoso" correctivo sem ser notícia? Muitas, garanto-vos. A questão está longe de ser “racial”, e para mim está no facto continuarmos a precisar das “forças da ordem” para nos comportarmos todos de forma instruída e mais polida. Em alternativa foquemo-nos nesse ponto.

Domingo

por João Távora, em 26.01.20

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus


Quando Jesus ouviu dizer que João Baptista fora preso, retirou-Se para a Galileia. Deixou Nazaré e foi habitar em Cafarnaum, terra à beira-mar, no território de Zabulão e Neftali. Assim se cumpria o que o profeta Isaías anunciara, ao dizer: «Terra de Zabulão e terra de Neftali, estrada do mar, além do Jordão, Galileia dos gentios: o povo que vivia nas trevas viu uma grande luz; para aqueles que habitavam na sombria região da morte, uma luz se levantou». Desde então, Jesus começou a pregar: «Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos Céus». Caminhando ao longo do mar da Galileia, viu dois irmãos: Simão, chamado Pedro, e seu irmão André, que lançavam as redes ao mar, pois eram pescadores. Disse-lhes Jesus: «Vinde e segui-Me e farei de vós pescadores de homens». Eles deixaram logo as redes e seguiram-n’O. Um pouco mais adiante, viu outros dois irmãos: Tiago, filho de Zebedeu, e seu irmão João, que estavam no barco, na companhia de seu pai Zebedeu, a consertar as redes. Jesus chamou-os e eles, deixando o barco e o pai, seguiram-n’O. Depois começou a percorrer toda a Galileia, ensinando nas sinagogas, proclamando o Evangelho do reino e curando todas as doenças e enfermidades entre o povo.


Palavra da salvação.

Manual para arranjar inimigos

por henrique pereira dos santos, em 25.01.20

"Se tu olhas para uma mulher com a cara toda esmurrada e começas logo a procurar justificar aquilo que lhe aconteceu, desculpando quem lhe fez aquilo, és uma besta" (André Solha)

"Para mim ser liberal também é isto: na dúvida assumir a posição de defesa do indivíduo quando do outro lado está uma organização - o Estado - que tem o monopólio do uso da força." (Carlos Guimarães Pinto)

"Se a senhora foi esmurrada já depois de algemada, dentro do carro da polícia, o seu cadastro interessa zero e a duração dos murros também" (João Miguel Tavares)

Três citações que parecem inquestionáveis (enfim, a do meio, de Carlos Guimarães Pinto, só é inquestionável para liberais).

E uma boa base para discutir o papel do jornalismo no combate ao racismo.

Estas afirmações são perfeitamente compreensíveis e admissíveis como comentários a uma situação "que por violenta e injusta/Ofendeu o coração de um pintor chamado Goya/ Que tinha um coração muito grande, cheio de fúria e de amor" (sim, poderia ter parado a citação em "coração", o que a tornaria mais compreensível neste contexto, mas achei que, embora menos evidente, valia a pena lembrar que a raiz da ofensa é a injustiça, se perde na origem dos tempos e tem uma expressão muito maior que a causa concreta a que cada um dos corações ofendidos dedica mais afecto).

Para os jornalistas de causas, o seu papel é apenas o de amplificar "a fúria e amor" dos ofendidos e deserdados, por isso este registo emocional chega-lhes e sobra, tanto mais que, frequentemente, confundem a injustiça com a desigualdade, com o que isso acarreta de viés.

Em matéria de racismo o Público tem um bom exemplo neste tipo de jornalismo e por isso, sobre o assunto em torno de Cláudia Simões tem três artigos, em três dias seguidos, assinados pela mesma jornalista (Joana Gorjão Henriques), ilustrados sempre com a mesma fotografia da tal cara esmurrada citada acima. Em dois dos três artigos, Joana Gorjão Henriques repete textualmente "Peixoto Rodrigues, que foi candidato na lista do líder de extrema-direita de André Ventura às eleições europeias, lidera o sindicato ao qual pertencem 16 dos 17 polícias da esquadra de Alfragide que foram a julgamento acusados de racismo e tortura contra seis jovens da Cova da Moura  - oito foram condenados por agressão e sequestro" (para este tipo de jornalismo, a proposito de Cláudia Simões, o importante é publicar, em dois dias seguidos, este texto manifestamente marginal para o que está em causa). Claro que para este tipo de jornalismo é irrelevante que, em julgamente, as acusações de racismo e tortura tenham caído para os 17 acusados e que nove dos acusados tenham sido ilibados das acusações porque os factos interessam menos que a agenda anti-racista e o importante é passar a ideia que se quer defender.

Um jornalismo sério (e, por isso, anti-racista) teria feito algumas coisas básicas: pedir a médicos experientes que interpretassem os sinais da cara esmurrada de modo a que tivéssemos informação sólida sobre o tipo de agressões que lhe poderão estar na origem (eu, ignorante me confesso, não sou capaz de saber a gravidade das escoriações a partir do que vejo, nem que tipo de agressão as poderá ter provocado), teria feito todos os esforços para ouvir o motorista em causa (já agora, há notícias de um motorista da Vimeca agredido ontem, não havendo certezas sobre a sua identidade, o que é suficientemente grave para chamar a atenção para a limitação do princípio, com que concordo, enunciado acima por Carlos Guimarães Pinto, e que se prende com as consequências da fragilidade das instituições na defesa dos outros indivíduos envolvidos nesta história), teria procurado outros passageiros (para além do sobrinho da vítima) e, jamais, poderia ter assumido como factuais as versões das diferentes partes envolvidas (a vítima e a polícia). A ideia de que os testemunhos das vítimas merecem ser mais credibilidade que os outros é uma ideia perversa em crescimento, confundindo-se atenção (que, essa sim, é devida mais às vítimas que a quaiquer outros) com credibilidade.

O jornalismo sério ter-se-ia concentrado naquele "se" de João Miguel Tavares, que é a questão chave.

Que existem abundantes exemplos de uma polícia pouco transparente e capaz de fazer o que a advogada de Cláudia Simões diz que aconteceu em relação à primeira queixa feita contra o polícia, não há qualquer dúvida (a única referência da queixa à actuação da polícia seria ao mata-leão e nada sobre agressões, mas isso dever-se-ia ao facto da polícia não ter registado adequadamente a denúncia que, em qualquer caso, foi assinada por Claudia Simões, no dia seguinte de manhã. Uma pessoa pode sempre assinar coisas sem as ler convenientemente, mesmo 11 horas depois dos factos, porque está com pressa para ir para o hospital depois, como foi o caso). Isso é verdade e é um problema estrutural das nossas instituições (não escrevi da nossa polícia, porque é uma questão bem mais geral, e as nossas instituições, incluindo os nossos jornais, são férteis na manipulação de testemunhos e na falta de respeito pelas pessoas concretas que confiam nelas).

Por exemplo, ainda esta noite o Diário de Notícias (Suzete Henriques) dizia que a fita do tempo da ocorrência refere três minutos entre a saída do carro patrulha da paragem do autocarro e a chamada telefónica para o 112 a pedir "assistência para uma cidadã detida com escoriações no rosto", o que é totalmente incompatível com uma hora de espancamento referido por Cláudia Simões, não na denúncia registada e assinada por ela na Segunda de manhã, mas nas versões que foi apresentando depois, já com apoio do SOS Racismo (voltemos à cara esmurrada, o que vejo também me parece incompatível com um espancamento dessa dimensão, mas não sou médico, nem jornalista, posso escrever isto aqui porque sei que ninguém lhe atribui mais importância que a devida a um mané qualquer que tem uma opinião não fundamentada sobre um assunto que desconhece). E o Diário de Notícias, e bem, tem o cuidado de explicitar as suas dúvidas: "Uma questão que se coloca e que não foi possível ainda esclarecer com os bombeiros é, caso esta fita de tempo esteja correta, porque demorou praticamente uma hora entre a chamada e a entrada no hospital".

E esta é a questão, caro João Miguel Tavares: se houve espancamento de uma pessoa presa, é evidente que o curriculum das pessoas ouvidas é irrelevante, mas para saber se esse "se" é provável ou não, o curriculum das pessoas e instituições ouvidas não é nada irrelevante.

O problema central em Portugal é que quer a polícia, quer os jornais, nesta matéria, justa ou injustamente, são considerados como fontes pouco idóneas de informação, havendo muita gente a achar que têm mais cadastro que curriculum.

E, aí, voltamos à citação de Carlos Guimarães Pinto: para um liberal, fazer das instituições do Estado entidades confiáveis é, seguramente, uma das principais prioridades políticas em Portugal. Isso não se faz contra o Estado, mas discutindo seriamente as regras que regem as relações entre as pessoas comuns e o Estado: neste caso, desde o primeiro momento, há um conjunto de informações (incluindo a famosa fita do tempo das ocorrências) que me parece que deveriam ser de acesso público e fácil.

Quanto aos jornais, enfim, são o que são e não vejo muita forma do corporativismo dos jornalistas aceitar um verdadeiro escrutínio que permita separar o trigo do joio na profissão.

CDS: mudar ou morrer

por João Távora, em 24.01.20

"O que está em causa, pois, no próximo Congresso não é apenas a escolha de perfis de candidatos mais ou menos competentes, com quem temos maior ou menor empatia. O que está em causa é a própria razão de ser do CDS. Se não formos provocação, sinal de contradição, corremos o risco de ser dispensados."

A ler a opinião de Filipe Anacoreta Correia aqui

Da ideologia de género

por João Távora, em 23.01.20

“Assim como para assegurar a eliminação das classes económicas é necessária a revolta da classe mais baixa, o proletariado, e numa ditadura temporária a tomada dos meios de produção, também para assegurar a eliminação das classes sexuais é necessária a revolta da classe mais baixa, as mulheres, e a tomada do controlo da reprodução. Assim como a meta final da revolução socialista não era apenas a eliminação do privilégio da classe económica, mas da própria distinção da classe económica em si mesma, também a meta final da revolução feminista deve ser não apenas a eliminação do privilégio do homem, mas da própria distinção sexual em si mesma.”

Shulamith Firestone, 1970

"A ideologia de género entende-se como um conjunto de ideias anticientíficas que com propósitos políticos extirpa a  sexualidade humana da sua realidade natural e a explica somente pela cultura."

Agustin Laje

Selfies e Flores

por José Mendonça da Cruz, em 22.01.20

Os habitantes da ilha das Flores, nos Açores, receberam em Janeiro os produtos tradicionais do Natal, e ficaram até Janeiro com as prateleiras vazias nas despensas, nas mercearias e nos supermercados. Havia barco ou avião para o presidente ir jantar com socialistas e tirar umas selfies por lá apesar dos ventos e dos mares. Para transportar víveres essenciais é que não.

Está, portanto, na hora de algum personagem exótico do lamentável governo português ou do seu irmão açoriano, dizer uma graçola qualquer. Não o primeiro-ministro, claro, que deve reservar o alto verbo para platitudes ou disparates sobre Portugal, em particular, e o Mundo em geral. Mas podia vir algum dos abundantes ministros e ajudantes dizer, por exemplo, que está na altura de os habitantes das Flores vagarem aquelas paragens e irem para um sítio qualquer mais à mão. Ou lembrar que os Florianos têm lá relva e hão-de ter vacas e galinhas, pelo que só não comem porque não querem, ao menos leite e bolinhos. 

Negócios de Santos

por José Mendonça da Cruz, em 22.01.20

Teremos que esperar sentados para que apareçam nas notícias sobre Isabel dos Santos (antes tão lisonjeiras e agora tão justiceiras) alguma coisa sobre isto, que corre nessas «redes sociais» de que os criados do poder nos media têm tanto medo.

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O Polígrafo da Sic e do Expresso, pressuroso, classifica esta notícia de imprecisa. Sabem porquê? É que está tudo certo, mas os milhões dos contribuintes não foram mil milhões, foram cerca de três mil milhões. Diz muito sobre esta gente do Polígrafo, da Sic e do Expresso, não? Insistindo: nas notícias da Sic, da Tvi e da RTP sobre Isabel dos Santos, que tem 40% doBic, hoje EuroBic, ouviram falar do nome de Teixeira Santos? Não?

Domingo

por João Távora, em 19.01.20

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João


Naquele tempo, João Baptista viu Jesus, que vinha ao seu encontro, e exclamou: «Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. É d’Ele que eu dizia: ‘Depois de mim vem um homem, que passou à minha frente, porque era antes de mim’. Eu não O conhecia, mas foi para Ele Se manifestar a Israel que eu vim baptizar na água». João deu mais este testemunho: «Eu vi o Espírito Santo descer do Céu como uma pomba e permanecer sobre Ele. Eu não O conhecia, mas quem me enviou na baptizar na água é que me disse: ‘Aquele sobre quem vires o Espírito Santo descer e permanecer é que baptiza no Espírito Santo’. Ora, eu vi e dou testemunho de que Ele é o Filho de Deus».

Palavra da salvação.

Joacyne no recreio

por João-Afonso Machado, em 19.01.20

Saltou como uma pantera negra assanhada para o pulpito e desatou aos berros: que eram todos uns mentirosos, como se atreviam!...

Depois foi sempre confundindo o singular com o plural, consoante lhe dava mais jeito. Sem ponta de gaguejo, sempre vociferando, - ora como ousava o partido trair a confiança nele depositada pelos eleitores, ora como podia ela ser acusada de actuar à revelia do partido?

Não tropeçou a descer a escada do pulpito, prosseguiu gesticulando, urrando, e, já no seu assento, não sossegava, voltada para trás, ameaçando não sei quem. 

O Livre entreolhou-se assustado. Joacyne acabara de o conquistar sob mão de ferro. A decisão de lhe retirar a confiança política foi imediatamente suspensa e a emissão televisiva também.

Manifestamente pouco à vontade, Ricardo Sá Fernandes tentou explicar o inexplicável. Até a uma pretensa «diferença cultural» se agarrou (ah, mas afinal não somos todos iguais?); e a questões de feitio, outrossim, (ah, mas afinal não é suposta a urbanidade dos congressistas, a sua educação?)

E a um canto, calado como um ratinho de coração aos pulos, o tótó da turma - o menino Rui Tavares.

O que vale a vitória de Rio?

por João-Afonso Machado, em 19.01.20

Contra todas as suas expectativas, o baronato do PSD perdeu as eleições internas. O forte sismo sentido entre eles a 8 de Janeiro, replicou-se ontem: Rio é preferido pelos militantes. Estou absolutamente convencido, pelo eleitorado também.

Será, por isso, o homem certo na hora certa no mais incerto partido social-democrata. Essa a grande fatalidade: o que há de fazer Rio das suas profundas convicções ideológicas, entre uma multidão cada vez menor e mais esparsa?

Ouvi-o ontem apelar à união de esforços, ao apaziguamento do partido e à conquista do País político. Que cessassem as querelas intestinas, proclamava Rio.

Em resposta, Montenegro, depois dos cumprimentos da praxe, deixou a sua ameaçazinha, adaptada do célebre dito de Mark Twain - «As notícias da minha morte são manifestamente exageradas»...

Costa ouviu e citou Napoleão - «Estamos contentes convosco».

Pensamento mágico

por José Mendonça da Cruz, em 18.01.20

Uma maioria relativa de portugueses, ajudada pelo descaso dos abstencionistas, a apatia da direita,  e um número indeterminado de ovinos confiou aos socialistas a gestão da coisa pública. Os socialistas passaram, portanto, a crer-se donos disto tudo, e vê-se que consideram que não há nada que os trave.

Nos momentos de serenidade e boa disposição, fazem como um ministro que manda povoações mudarem-se de sítio para evitar cheias provocadas pela incúria e a incompetência; ou como o secretário de Estado que, para remediar o caos e a espera nos hospitais públicos recomenda que se sirva chá e bolos a quem espera; ou, então, como a inenarrável patroa desse secretário, mandam criar um gabinete ou um observatório qualquer para darem mais uns lugares aos amigos, e fingirem que assim resolvem problemas como o da violência contra o pessoal dos hospitais.

Nos momentos de irritação e destempero, chamam nomes aos empresários que resgataram o país do fosso de onde eles o meteram, como o trauliteiro Santos Silva; ou, como o senhorito Fernando Medina, resmungam contra quem critica a apropriação de dinheiro alheio (da Segurança Social, desta vez) para investimentos úteis como propaganda, mas medíocres e irresponsáveis financeiramente; ou dizem uma patetice diária com um esgar sorridente, e depois, na calma dos gabinetes, põem fim a todas as PPPs hospitalares que garantem bom serviço aos utentes com poupanças para o Estado, para as entregarem a clientes e primos.  Se os criticam, exaltam-se contra tudo e todos, de reizinho na barriga.

Chefia-os, nas boas e nas más horas, um homem que esta semana na Assembleia da República se espantou com sugestões de baixar os impostos para reanimar a economia, por as considerar «pensamento mágico». Portugal vai sendo ultrapassado por países que praticam, exatamente, esse «pensamento mágico», ou seja, uma governação não socialista, e resvala firme e consistentemente para a situação de país mais pobre da Europa. Mas por cá estamos assim; gostam deste caminho e deste destino uma maioria relativa de portugueses, o descaso dos abstencionistas, a apatia da direita e um númeroindeterminado de ovinos. 

Rua das Pretas vítima de racismo

por José Mendonça da Cruz, em 16.01.20

img_800x533$2020_01_16_18_30_52_917430.jpgTomando para mim a ponderação, o conhecimento e a inteligência de um Mamadou Ba e das suas confrades do Bloco, declaro que a Rua das Pretas vem sendo vítima de racismo por parte da Câmara de Lisboa, que permite inundações frequentes naquela artéria com total desprezo e indiferença.

Mais declaro, fazendo meus o a-propósito e a sapiência do inultrapassável ministro do ambiente que, dada esta situação, a Rua das Pretas devia mudar-se imediatamente mais para cima, ou seja, muito apropriadamente para o Campo dos Mártires.

Do 28 Congresso do CDS

por João Távora, em 16.01.20

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A minha irrelevância dentro do CDS é um facto, não levo a mal: não estarei no Congresso de Aveiro porque não consegui merecer um lugar elegível na lista única de delegados por Cascais, segundo me constou por não ter participado muito na vida da Concelhia. Tenho consciência de que outros compromissos que considero prioritários me limitaram a disponibilidade para a vida partidária, para a qual porventura não tenho vocação. Sem ressentimentos portanto. 
Resolvida essa questão, não posso deixar de manifestar a minha profunda preocupação com o aperto por que passa o meu partido de (quase) sempre. E tenho a confessar que fui daqueles que chegaram a se entusiasmar com Assunção Cristas, cuja estética política (e de vida) corresponde em boa medida à minha. Tenho dificuldade em compreender a dinâmica de derrota que no último ano se foi evidenciando, e acho que a “questão dos professores”, tendo sido um erro grave, não justifica o descalabro verificado, que porventura vinha de trás, dos tempos do resgate da Troika mas que estava mascarado. Gostava de deixar expresso que fico agradecido a Assunção Cristas pelo empenho e entrega que demonstrou na liderança do CDS nos últimos anos, e tenho dúvidas que nos tempos mais próximos apareça alguém com as suas qualidades políticas, intelectuais e humanas.
Quanto ao futuro, confesso que nenhum dos cinco candidatos pré-anunciados me consegue seduzir por aí além e receio que a travessia do deserto que espera a direita moderada - o ar do tempo não está para moderados e a inteligência sempre teve dificuldade de se fazer ouvir – signifique a dissolução do partido. Acho pouco plausível que surja uma boa surpresa em Aveiro mas estou disponível para admitir o engano. Para a semana ficarei por cá pelo Estoril a torcer pelos meus amigos, e vou rezar para que a disputa pelo partido não dê cabo do que resta dele (o espectáculo que se vem assistindo nas redes sociais não é um bom indicador). Afinal é muito mais o que nos une do que aquilo que nos separa.

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Um bocado de sentido crítico seria útil

por henrique pereira dos santos, em 13.01.20

Numa peça do Observador, lê-se: "No Irão, o estratega militar Soleimani era uma das figuras mais amadas, um herói do regime. Prova disso foi o funeral do general, presidido por Khamenei e com a presença de milhares de iranianos nas ruas, que choraram a morte de um líder.".

Estas coisas acontecem, é certo, e eu não gostaria de ser injusto para com o jornalista, mas admitir como prova de amor do povo a um dirigente, a presença de milhares de pessoas no funeral de um dirigente de um regime autocrático, parece-me que é ir longe de mais para um jornalista.

Por essa ordem de ideias, quase todos os ditadores do mundo são amadíssimos pelos seus povos, a julgar pelas milhares de pessoas em manifestações promovidas pelos respectivos regimes (os exemplos não faltam, desta a triunfal deslocação de Marcelo Caetano a África, já quase nas vascas do regime, até ao enterro de Fidel Castro).

Teresa Andresen e Gonçalo Ribeiro Telles

por henrique pereira dos santos, em 12.01.20

Este é um post invulgarmente longo (parece que coisas deste tamanho não se escrevem em blogs) porque essencialmente reproduz o discurso de Teresa Andresen na aceitação da primeira edição do prémio Gonçalo Ribeiro Telles.

De meu tem apenas a introdução que é irrelevante para o essencial, mas que preferi fazer para deixar claro o que penso numa matéria sobre a qual quem me conhece poderá ter dúvidas.

Hoje, à procura de um outro texto, tropecei no que escrevi em 2012 sobre Ribeiro Telles: "Ao passar à porta de um café vi Ribeiro Telles sentado a ler os jornais do dia. Quem tem lido o que escrevo sabe que, de maneira geral, onde estiver Ribeiro Telles eu estarei na oposição. Mas nunca confundi as minhas divergências de opinião com a genuína simpatia que tenho por Ribeiro Telles pelo que, apesar do tempo contado, entrei no café e fiquei por ali dez minutos a conversar sobre o projecto da Faia Brava ou sobre o que estamos a fazer em Vila Pouca de Aguiar com o controlo de combustíveis através do pastoreio dirigido. Como sempre a curiosidade de Ribeiro Telles, as perguntas que faz, o interesse pelo que desconhece é cativante e saí dali, atrasado (coisa que me incomoda profundamente) mas a achar que tinha valido a pena." e, depois, encontrei um texto de 2011 em que era mais explícito no que são as minhas divergências conceptuais com Ribeiro Telles, mas também o respeito inequívoco que merece, a que Teresa Andresen, com muito mais propriedade, dá corpo neste discurso que acho notável e subscrevo praticamente na íntegra.

Senhor Presidente da República
Conselho de Administração da FCGulbenkian
Caros membros do Júri do Prémio Gonçalo Ribeiro Telles para o Ambiente e a Paisagem
Senhor Presidente do Conselho de Gestão do Instituto Superior de Agronomia, Professor António Guerreiro de Brito
Senhora Presidente da Direção Nacional da Causa Real, Teresa Lobo de Vasconcellos Corte-Real
Senhor Presidente do Colégio Nacional de Eng. Agronómica da Ordem dos Engenheiros, Eng. Fernando Manuel Moreira Borges Mouzinho
Senhor representante da Família Ribeiro Telles, Miguel Ribeiro Telles
Senhor Presidente da Associação Portuguesa dos Arquitetos Paisagistas, arquiteto paisagista Jorge Cancela

Quatro instituições que representam interesses e causas diferentes e um representante da família Ribeiro Teles uniram-se em torno de Gonçalo Ribeiro Telles para perpetuar o nome e o legado de uma figura singular e uma referência incontornável na vida pública portuguesa. Criaram um prémio para o Ambiente e Paisagem por ele inspirado.
Agradeço a decisão do júri pela distinção que me fizeram. Gostava de lhes dizer que é de forma muito sentida que lhes expresso o meu reconhecimento e louvo a vossa iniciativa. Não escondo que foi com surpresa e emoção que recebi a notícia da atribuição do prémio a mim.
Gonçalo Ribeiro Telles é um homem com uma vida intensa dedicada à intervenção pública, empenhado em diversas causas cívicas. Partilho com Ribeiro Telles uma formação em engenharia agronómica e em arquitetura paisagista no Instituto Superior de Agronomia, uma combinação que nos preparou para um modo próprio de compreender o mundo, em que a prática profissional se torna uma forma de estar na vida. A formação recebida instrui-nos e responsabiliza para a intervenção, educa a mente e, em particular, educa o olhar e a capacidade de ler os sinais inscritos na paisagem. Aproveito para testemunhar o meu apreço ao Instituto Superior de Agronomia e aos mestres que aí tive e que continuam a ser uma referência na minha vida. Fui professora durante 30 anos, dos quais dois anos no Instituto Superior de Agronomia. A muita alegria e motivação que vivi na sala de aula, ao longo de 30 anos de ensino universitário em Aveiro e no Porto, deveram-se em grande parte a esses mestres.

Gonçalo Ribeiro Telles é um nome maior da arquitetura paisagista portuguesa. Para ele, o exercício da arquitetura paisagista e a luta política como que se confundem. No 40º aniversário da Associação Portuguesa de Arquitectos Paisagistas, aqui nesta sala a pedido de Jorge Cancela, seu Presidente, proferi uma palestra fazendo uma síntese sobre o percurso da arquitetura paisagista portuguesa. Disse então que Gonçalo Ribeiro Telles tinha o enorme mérito de ter transposto para o discurso político português a frescura e o vanguardismo da teoria e prática da arquitetura paisagista, da causa ecológica, da sustentabilidade avant la lettre. Referia-me concretamente ao legado de uma legislação decisiva nos domínios do ordenamento do território, do ambiente e da conservação da natureza. A paisagem portuguesa de hoje – apesar das vicissitudes – deve muito dos valores que nela perduram à visão e a gestos maiores de Gonçalo Ribeiro Telles. Nessa ocasião, disse ainda que só por isso, ele já merecia o nosso reconhecimento e que se não tivesse feito mais nada, já tinha feito muito. Acrescentei que – “no entanto, Gonçalo Ribeiro Telles tinha ainda feito muito mais do que isso”. Daí o nosso imenso reconhecimento.
Gonçalo Ribeiro Telles é um exemplo de cidadania ativa. Recorro-me das palavras do voto de saudação da Assembleia da República a Gonçalo Ribeiro Telles, por ocasião do seu aniversário já depois dos tremendos incêndios rurais de 2017: “o que o País e os Portugueses mais lhe continuam a dever é essa capacidade permanente de sonhar e acreditar num futuro melhor e mais justo, ensinando-nos que a construção da Paisagem é uma exigência cívica e uma obrigação das mulheres e dos homens livres.”
Recebo assim este prémio que tomo como um compromisso que aqui assumo de promover este legado. Gostaria de o fazer conjuntamente com o júri do prémio Gonçalo Ribeiro Telles para o Ambiente e a Paisagem.
A 1ª vez que ouvi falar de Gonçalo Ribeiro Telles foi um momento marcante da minha vida. Pertenço àquela geração que fechou o ciclo dos exames de admissão ao liceu no dia 31 de julho de 1967. Passei assim ao lado das reformas educativas. Nos princípios da década de 1970, tomei a decisão de enveredar pela alínea g) para ingressar na Faculdade de Economia do Porto. Eis senão quando a minha Mãe me diz que eu deveria ser arquiteta paisagista como um senhor chamado Gonçalo Ribeiro Telles, que tinha feito um jardim lindo que ela tinha visitado no Algarve. Com minha Mãe aprendi a jardinar num enorme quintal, na Praia da Granja, que ela converteu num jardim. Minha Mãe já não assistiu aos mil tormentos porque passei para abandonar a tal alínea g) das Ciências Económicas e conseguir ingressar no Instituto Superior de Agronomia para ser arquiteta paisagista.
No ano em que nasci, Gonçalo Ribeiro Telles terá tido o maior revés da sua vida profissional pois entrou em conflito com a Câmara Municipal de Lisboa. A rainha Isabel II de Inglaterra visitava Portugal coincidindo com as obras da Avenida da Liberdade. Francisco Caldeira Cabral e Gonçalo Ribeiro Telles eram os autores da execução do projeto de renovação da avenida e Gonçalo Ribeiro Telles, que era então funcionário da Câmara Municipal de Lisboa, depois da partida da rainha, recebeu ordens para desfazer a obra que tinha sido feita... Gonçalo Ribeiro Telles opôs-se a cumprir a ordem. O sistema e o establishment reagiram à ousadia do projeto deles. Gonçalo Ribeiro Telles deixou a Câmara Municipal de Lisboa .... Mesmo assim, a cidade de Lisboa esteve sempre no centro da intervenção de Gonçalo Ribeiro Telles.
Que coincidência estarmos aqui hoje, a escassas horas da inauguração da Lisboa Capital Verde Europeia 2020. Quanto este prémio que a cidade de Lisboa recebeu deve a Gonçalo Ribeiro Telles!
O meu cruzamento com Gonçalo Ribeiro Telles aconteceu em Lisboa em ambiente familiar nos finais da década de 1970. Eu estudava no Instituto Superior de Agronomia e Gonçalo Ribeiro Telles dava os primeiros passos na então jovem Universidade de Évora na criação da nova licenciatura em arquitetura paisagista. Quando a Fundação Calouste Gulbenkian em 2001, me convidou para fazer a exposição “Do Estádio Nacional ao Jardim Gulbenkian. Caldeira Cabral e a 1ª geração de arquitetos paisagistas” adquiri um vasto conhecimento sobre a obra projetual de Gonçalo Ribeiro Telles. Impressionada com o elevado número de projetos para a cidade, e em particular com a exemplar intervenção na envolvente da Capela de São Jerónimo em Lisboa, perguntei-lhe qual o projeto que mais tinha gostado de fazer. A resposta que Gonçalo Ribeiro Telles então me deu teve um grande impacto em mim e, hoje, partilho-a aqui convoco. Disse-me: “O último”.
O jardim é o ecossistema de partida do arquiteto paisagista. Do jardim para a paisagem, a paisagem total. O arquiteto paisagista que pratica a arte do jardim e da paisagem é portador de um conhecimento ancestral. Não podemos permitir que se dispense ou apague conhecimento seja qual for. No exercício da jardinagem e da arte do jardim e da paisagem estamos sempre a ler sinais, a interpretar, a dialogar, a experimentar, a fruir ...
O jardim pode ser visto como um microcosmo a partir do qual se entende o macrocosmo. A construção das grandes cidades nasceu da experiência da construção dos jardins. Os jardins são laboratórios de aclimatação de plantas, guardando soluções para a adaptação às alterações climáticas. Os jardins são redutos para a contemplação, intrínseca à condição humana. São lugares de encontro dos seres humanos com a natureza. Os jardins são um dos poucos redutos do belo na sociedade contemporânea. Gonçalo Ribeiro Telles é um homem que sabe sobre muitas coisas e que tem o jardim bem no centro da sua intervenção e inspiração.
No entanto, a arquitetura paisagista é uma pequena profissão - uma profissão de poucos, em contraste com engenheiros, médicos ou advogados. Isso faz dos arquitetos paisagistas uma comunidade em modo de resistência e sobrevivência. Tornamo-nos um alvo vulnerável nos momentos de afirmação da mudança de políticas.... Depois de 40 anos de organização associativa, não conseguimos igualar as outras profissões – inclusivamente algumas bem recentes - e ver a Ordem dos Arquitetos Paisagistas reconhecida. Na academia, quando chega o momento de os órgãos de gestão tomarem decisões tíbias e se permitem a gestos pretensamente assertivos, o ensino da arquitetura paisagista é extinto ... Não tem sido fácil nem será fácil. A adversidade leva ao combate e fortalece-nos, cria oportunidades. Mas não devia ser sempre assim ... Vamos resistir, atentos aos sinais ... Sabemos que as comunidades pequenas são vitais – pelo conhecimento e prática que transportam, pela possibilidade de renovação e inovação que representam, porque podem fazer a diferença.
Gonçalo Ribeiro Telles é um exemplo marcante desta circunstância, o seu estatuto de monárquico, arquiteto paisagista, ecologista colocou-o sempre no combate, tantas vezes desigual, mas tanto consenso que ele foi gerando!
Gonçalo Ribeiro Telles tem uma alegria inata e contagiante e é um esteta. É um homem que sonha. Como ele, eu também ainda sonho e procuro o belo.
Gostava de ver as instituições do ensino pré-escolar motivadas para educar jardineiros. Os meninos deviam passar horas a jardinar ... a ler e a interpretar os sinais da horta, do jardim, da mata, da paisagem ... a pintar, a fazer música, a brincar ...
Gostava de ver os nossos parques naturais, os nossos parques e jardins públicos, os nossos corredores verdes e azuis, os nossos jardins históricos amados como lugares únicos e sagrados. É preciso dizer não à sua “disneylandização” ....
Gostava de ver a figura de “paisagem cultural” há mais de 20 anos consagrada na Convenção do Património Mundial da UNESCO transposta para o quadro legal português.
Gostava de ver políticas dirigidas para o património que dessem uma oportunidade à perpetuação da diversidade e da sustentabilidade das nossas paisagens enquanto obras combinadas do homem e da natureza.
Gostava de ver as políticas públicas com uma forte base territorial.
Gostava de construir uma política pública de agricultura e floresta para Portugal que fosse simultaneamente um instrumento ordenador do território.
Gostava que as politicas públicas atacassem o âmago do problema da nossa paisagem contrariando o abandono da gestão da paisagem, promovendo o cultivo sustentável da paisagem, inventando novos modelos de apropriação, e que se deixassem de pequenos gestos imediatos de reconstruir o edificado depois de atingido por flagelos naturais quando se sabe que casas, fábricas e fabriquetas não devem permanecer ali ...
É necessário olhar para a paisagem. É necessário ler os sinais da paisagem ... A paisagem fala-nos, quando estamos predispostos a ouvi-la. A paisagem é um arquivo da nossa identidade e nela residem também as soluções para o nosso futuro viável ... No entanto, as soluções estão cada vez mais em nós. O caminho que temos pela frente reclama desprendimento, inteligência, reinvenção, ousadia, e parece sem fim.
A causa ambiental e da paisagem sustentável não nos pode deixar distraídos nem alheados. Gonçalo Ribeiro Telles esteve sempre alerta e agindo. Hoje, a tragédia que vivem os cidadãos australianos, os coalas, os cangurus, os corais do reef, as suas florestas não é mais um problema deles, lá longe – também é nosso, aqui nesta sala. Reunidos em nome de Gonçalo Ribeiro Telles.
Obrigado Gonçalo Ribeiro Telles por tudo o que aprendemos consigo. Devemos-lhe um pedido de desculpa coletivo por as vezes que nos alertou para a causa ambiental e da paisagem sustentável e não o ouvimos ou o levamos a sério. Mas, as suas lições e os seus gestos permanecerão.
Obrigado Gonçalo Ribeiro Telles.
Lisboa, 10 de janeiro de 2020
Teresa Andresen


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