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Todos os dias

por henrique pereira dos santos, em 21.08.19

Todos os dias, por volta das sete da manhã, duas horas antes da abertura, já há uma bicha de mais cinquenta metros (dezenas de pessoas) à porta da Conservatória dos Registos Centrais.

Todos os dias os pais sabem que a escola funciona, mas sabem bem que funciona abaixo dos limites mínimos, só não entrando em ruptura porque o brio de muitos funcionários, dirigentes e professores as fazem funcionar.

Todos os dias os doentes e as pessoas que os acompanham sabem bem que os hospitais e centros de saúde funcionam, e são bastante seguros em relação ao que é urgente e prioritário, mas sabem bem que só o brio dos seus funcionários, enfermeiros e médicos os mantém a funcionar assim e à custa das dificuldades no que não é urgente ou absolutamente prioritário.

Todos os dias são dias de desespero para quem queira resolver qualquer assunto minimamente diferente com a segurança social.

Todos os dias, com excepção de algumas bolsas politicamente mais sensiveis, a administração pública funciona muito abaixo dos limites mínimos de eficiência e serviço às pessoas comuns, faltando sobretudo aos mais fracos e desamparados, apesar do brio de muitos dos seus funcionários (há de tudo, como na botica, incluindo pessoas absolutamente incapazes e sem o menor sentido de serviço público, mas a liberdade e poder que têm para funcionar como funcionam é uma responsabildiade das suas chefias, que se louvam na falta de recursos para justificar a sua falta de espinha).

Sim, as pessoas têm hoje um bocado mais de dinheiro que o que tinham antes deste governo, mas às que mais falta faz um Estado mais eficaz, dificilmente essa pouca de dinheiro compensa o abandono a que o Estado votou a sua administração, cortando recursos onde era mais fácil cortar, sem que se desse conta imediata de que era isso que se estava a fazer e das implicações que isso tinha na degradação dos serviços públicos e na vida dos desamparados.

A legislatura foi isto:

Reduz-se o horário de trabalho para 35 horas, prometendo que isso não teria implicações nem despesa acrescida, para no fim estar a contratar mais gente para tentar tapar o buraco criado, sem que pelo meio a imprensa fosse clara a dizer que era evidentemente um embuste dizer que se poderia cortar 12,5% da força de trabalho na administração pública sem que isso se traduzisse em degradação de serviços ou aumento de custos.

Investe-se os impostos de todos para comprar acções da TAP, com o argumento de que era preciso o Estado ter uma posição estratégica, para acabar a retirar a TAP do perímetro dó défice porque o Estado não manda nada na empresa, sem a imprensa dizer explicitamente que era um embuste a compra dessas acções.

Revertem-se concessões de transportes públicos prometendo mais investimento e melhor serviço e acaba-se com tempos de espera maiores, mais equipamentos parados, maior sujidade e recurso aos fundos azuis cujo destino depende inteiramente do despacho de um ministro, como é o caso do Fundo Ambiental, para tentar tapar os buracos no investimento, desviando da sociedade e da economia os recursos que existem para uma transição energética suave, justa e sem deixar de fora os desamparados.

Fecham-se escolas preferidas pelas famílias e mais baratas por aluno, tendo como resultado menos satisfação com o serviço prestado, mais custos e maior desequilíbrio territorial, sem que a imprensa fale do embuste da argumentação usada.

Guerreiam-se os operadores privados de saúde (o BE continua a dizer que o dinheiro gasto a aliviar a pressão sobre os serviços estatais, a custo mais baixo para o Estado que a prestação directa de cuidados, é um fardo como o SNS, sem que haja jornalistas que perguntem pelas contas e discutam os números concretos com quem diz estas barbaridades), para se chegar uma uma lei de bases da saúde que nem é carne nem é peixe, sem que a generalidade do jornalismo se entretenha a explicar o embuste de desenterrar uma guerra de alecrim e manjerona para evitar falar da degradação quotidiana dos serviços.

A legislatura tem sido isto: a vida quotidiana das pessoas é o que é, o governo e seu apoiantes dizem o que dizem, e a imprensa assobia para o lado, preocupada com petições sobre museus locais, acessos a casas de banho, declarações irrelevantes de pessoas que não representam ninguém e contabilizações de quem ganha ou perde em cada um destes jogos florais que a imprensa se não organiza, pelo menos arbitra.

Todos os dias são bons dias para depressões.

Ao cuidado dos senhores jornalistas

por henrique pereira dos santos, em 20.08.19

Senhores jornalistas,

Foi lançada uma petição contra a criação de um Museu Salazar e, três dias depois, essa petição tem perto de 8500 assinaturas. Uma dia antes, praticamente todos os jornais tinham notícias pelo facto de dois dias depois de lançada a petição, já ter mais de 5600 assinaturas.

Ao fim desses dois dias, outras pessoas lançam uma nova petição a favor da liberdade de se fazer um Museu Salazar, e umas horas depois a petição tem cerca de 2000 assinaturas e, penso, nenhuma notícia para já, tanto quanto vi.

Assim sendo, senhores jornalistas, parece-me que estão a deixar passar o que poderiam ser notícias sobre este assunto:

1) Somando uns e outros, e admitindo uma duplicação de assinaturas nos próximos dias, há 20 mil portugueses que acham que o assunto vale o esforço de uma assinatura, e outros quase dez milhões que acham que não (e se forem 100 mil o essencial continua válido, embora em menor grau, claro);

2) Pela primeira vez, que me lembre, há um grupo de pessoas suficientemente fartas do policiamento do pensamento feito em nome da liberdade para lançar uma contra-petição sobre o assunto;

3) E, pela evolução de assinaturas, a contra-petição, mesmo tendo números menores que a petição do costume feita pelos do costume, parece dizer que há uma alteração social relevante na forma como a sociedade está disposta a olhar para este assunto e assuntos conexos: ter sido uma vítima da ditadura já não é suficiente para comover a generalidade das pessoas e atribuir a quem quer que seja um estatuto de superioridade moral.

Isto parecem-me três aspectos que poderiam ter interesse noticioso ou merecer atenção jornalística, mas pelos vistos continuam viciados no modelo de fazer grandes parangonas com manifestações a que ninguém vai, desde que sejam sobre as causas certas, e ignorar as manifestações em que estão milhares de pessoas de quem não gostam, a "basket of deplorables".

Depois queixem-se de que o vosso negócio anda pelas ruas da amargura.

Por caridade

por João Távora, em 19.08.19

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Se como cristão não tenho dúvidas que o primeiro dever de uma pessoa decente é o socorro de imigrantes em apuros no mar, com base nesses mesmos princípios parece-me que não é bom que do lado de lá do Mediterrâneo transpareça a ideia de que o mar é uma fronteira aberta e uma via segura para o eldorado europeu. É que, se assim for, não só corremos o risco de nos tornarmos cúmplices das sinistras redes de tráfego humano, como seremos responsáveis para que mais e mais vidas inocentes de homens, mulheres e crianças se percam a meio caminho, afogadas em barcaças putrefactas, ludibriadas por cânticos se sereia homicidas. Definitivamente este é um problema complexo, um drama difícil de resolver, e para o qual se exige um debate racional e desapaixonado, desligado de disputas ideológicas. Por caridade.

Não posso deixar de elogiar o título de um artigo publicado no site da Comunidade da Cultura e Arte sobre o último (9º) filme de Tarantino: “Era Uma Vez em… Hollywood”, de Quentin Tarantino: para acabar de vez com a verdade. Isto porque resume numa ideia o argumento do realizador. Tarantino aproveita a sétima arte para reescrever a história macabra do célebre assassinato em série da então mulher de Roman Polanski, Sharon Tate, e de todas as pessoas que estavam na casa da atriz, em Cielo Drive, Los Angeles, quando esta estava à espera de bebé a menos de um mês de dar à luz, praticado pelos hippies liderados pelo louco do Charles Manson, em agosto de 1969, como todos gostavam que tivesse sido.

Tarantino sabe que a verdade não tem qualquer papel na arte. A arte é do domínio das ideias, do desejo, da profundidade, da maturidade.

O filme de Tarantino é uma espécie de evocação aos clássicos westerns. Há um cowboy bom, o herói (Cliff Booth) e um cowboy mau (Tex Watson, um dos assassinos de Sharon Tate), que no filme aparece mesmo a cavalo no rancho ocupado pela comunidade hippie de Manson. Mas já lá vamos.

Quentin Tarantino não está minimamente interessado na “verdade” da história do macabro Caso Tate-LaBianca, e junta no seu filme, história e ficção, dando mais destaque à ficção. Há factos históricos sabiamente misturados com factos e personagens fictícias. Dessa mistura surge uma nova imagem, bela e potente com a assinatura Tarantino.

A personagem principal é um duplo (Brad Pitt, mais sexy que nunca) do ator Rick Dalton (Leonardo DiCaprio), antiga estrela de filmes e séries de ação e figura de proa em westerns. Rick Dalton era um astro de westerns, cujo auge televisivo aconteceu durante a década de 1950 e que com a época do flower power (hippies) passam à condição de filmes ignorados e malditos. Os spaghetti western são, aliás, apontados como solução para reabilitar a carreira decadente do ator que já virara alcoólico em resposta à crise de autoconfiança.

Rick conta com o apoio moral do seu duplo de cinema, Cliff Booth (Brad Pitt), sem dúvida o melhor personagem do filme, e que é a representação da calma e tranquilidade, o elemento que nos diz que tudo vai ficar bem, pois é quem dá o final feliz típico de uma Once Upon a Time story.

Tarantino corrige a história verdadeira de 9 de agosto de 1969 e põe os três hippies seguidores de Charles Mason a entrar na casa errada (do ator e duplo fictício) e a cruzarem-se com Cliff Booth (que estava igualmente drogado como os loucos hippies), e que, bem à medida dos heróis de Tarantino, é uma arma letal tenuemente disfarçada de ser humano, como já li algures.

Cliff Booth é o típico homem viril, misterioso, sobre quem paira a ambiguidade de ter matado (ou não) a sua mulher, tal e qual os clássicos heróis dos westerns dos anos 50. Paralelamente há aqui uma ténue alusão ao caso Natalie Wood o marido Robert Wagner. Natalie Wood, então com 43 anos, foi encontrada afogada em 29 de novembro de 1981, quando navegava perto da Ilha Catalina, na Baía de Los Angeles, com seu segundo marido, o ator Robert Wagner, o ator Christopher Walken, amigo do casal, e o capitão do iate “The Splendor”. O marido é o principal suspeito.

Cliff, tal e qual os heróis dos velhos westerns, é humano. Faz pequenas reparações na mansão de Rick, é o seu melhor amigo, confidente e também motorista. Guiar despreocupadamente pelas ruas de Los Angeles onde o realizador cresceu dá origem a cenas de verdadeira nostalgia e invoca a estética sublime de Tarantino. A música também volta a ser protagonista do filme de Tarantino, tal como já estamos habituados.

Mas à parte da arte pura e dura é possível ler algumas críticas nas entrelinhas.

O filme é uma crítica ao movimento hippie (que era a esquerda ideológica da época). Movimento esse que acaba precisamente com a carnificina levada a cabo pela seita de Charles Manson no número 10050 de Cielo Drive, em Los Angeles. Reza a história que a seita hippie queria provocar uma guerra racial para acabar com a classe alta. Paradoxalmente (para não usar a palavra hipocritamente) esses hippies eram os mesmos que condenavam o envolvimento dos EUA na guerra do Vietname, por causa das elevadas mortes de soldados norte-americanos.

Mas há também críticas à superficialidade de Hollywood. Leonardo DiCaprio (Rick Dalton) é a face da solidão da fama, é face do esforço e do falhanço, mas também do egocentrismo e procura de atenção como condição de existência.

Claro que está também presente o típico humor que se vê nas obras de Tarantino juntamente com a clássica violência sanguinária que, desta vez, tem a particularidade de imitar a vida real, pois os crimes praticados pelos hippies do Manson não ficaram atrás dos representados por Tarantino, pelo contrário.

Existem vários storylines ao longo do filme. São retratados momentos particulares do dia-a-dia de cada personagem como forma de os dar a conhecer melhor e de os desenvolver no meio do ambiente onde se encontram, mas tudo caminha para aquele desfecho da tentativa de assassinato de Rick, Cliff e Francesca (a italiana de Rick, agora estrela dos Western Spaghetti), mas que o verdadeiro herói cowboy, com o seu cão, trata de virar o feitiço contra o feiticeiro. Vitória, acabou-se a história e os assassinos históricos são assassinados no cinema por Tarantino. Sharon Tate (Margot Robbie) retrata no filme a inocência, a felicidade, a juventude e a loucura em L.A nos anos 60. Tarantino dá-lhe apenas o papel de referência histórica. Assim como a Polanski que aparece fugazmente.

Há ainda lugar ao aparecimento de um Bruce Lee convencido (estavam na moda os seus filmes na época) e um Steve McQueen um dos atores mais populares da época por filmes como “A Grande Evasão”. O curioso é que Steve MacQueen estava convidado para jantar em casa da Sharon Tate naquela fatídica noite, mas por sorte não foi, por causa de uma namorada nova. Talvez por isso apareça no filme.

O 9º filme de Tarantino é um desfile de estrelas do cinema. Mesmo com papéis pequenos vemos várias estrelas de Hollywood neste filme (Luke Perry, Al Pacino, Kurt Russel, entre outros).

Francisco e Alexandre

por henrique pereira dos santos, em 18.08.19

Caro Francisco,

Ouvi com muito interesse a sua reacção à notícia da morte de Alexandres Soares dos Santos.

Resumindo, o que Francisco tem a dizer sobre o assunto é que Alexandre Soares dos Santos foi um grande empresário da distribuição, embora não tenha as dimensões de inovação de outros grandes empresários da indústria (podia logo ter dito que era simplesmente um merceeiro maior que os outros, escusava de ter dado tantas voltas para dizer o que queria), construiu um império e a dinastia familiar de um dos grandes grupos económicos de Portugal.

Compreendo a contenção, no fundo o Francisco, com razão, reconhece que o percurso de Alexandre Soares dos Santos e o seu não são assim tão diferentes.

Os dois provêem de famílias burguesas que nunca tiveram dificuldades económicas que os fizessem sofrer na pele a pobreza, os dois criaram organizações que se foram transformando (no caso do Francisco, o PSR, depois da LCI, até que uma operação de fusão e concentração desembocou na sua insígnia de maior sucesso, o Bloco de Esquerda), os dois beneficiaram material e socialmente das organizações que criaram, os dois deixaram à família uma fonte de rendimentos razoável (no caso do Francisco, a sua filha, paga para fazer trabalho parlamentar, faz trabalho partidário na organização que o Francisco criou, gerando sinergias interessantes, por exemplo, publicando o que o Francisco escreve, como aqui, ou fazendo publicidade a livros que o seu genro, e companheiro da editora do esquerda.net escreveu, por exemplo, aqui, sem que seja necessário fazer qualquer declaração de interesses resultante da proximidade pessoal da editora em relação aos autores que publica), os dois criaram muitos empregos nas organizações em que se empenharam (mesmo não contando com "a senhora que ajuda lá em casa", uma criação de emprego de uma dimensão bem diferente da que Alexandre Soares dos Santos criou "com as senhoras e senhores que ajudam lá no supermercado").

Tem pois razão o Francisco em falar sobre a morte de Alexandre Soares dos Santos da forma desprendida como o fez, em vez de espalhar mentiras como a sua filha resolveu fazer com este post cheio de mentiras e distorções. Já agora, o Francisco, que é de economia, explique lá à Joana, que é a editora, e ao Jorge Costa, que escreveu, que dizer "Da riqueza gerada no negócio da Jerónimo Martins em Portugal, pouco mais do que a parte paga em salários é taxada. Os dividendos volumosos são repartidos pelos acionistas na Holanda, para onde foi deslocalizada a sede social do grupo" é uma rotunda mentira de quem não faz a menor ideia (ou faz, mas finge que não) do que é um "estabelecimento estável" para efeitos de impostos, sendo mais que evidente que todos os impostos, incluindo IRC, das empresas do grupo que são portuguesas, como o Pingo Doce e o Recheio, pagam todos os seus impostos em Portugal.

Peço desculpa por esta divagação, estava eu a dizer que realmente tem razão, na essência, o percurso do Francisco e de Alexandre Soares dos Santos é um percurso normal de pessoas normais.

A única coisa que os distingue é a grandeza do que diz respeito a Alexandre Soares dos Santos, incluindo a grandeza de carácter, e a mesquinha pequenez do que diz respeito a Francisco Louçã, incluindo a pequenez de carácter.

No resto, o percurso parece-me muito semelhante, nisso dou-lhe razão.

Domingo

por João Távora, em 18.08.19

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas 


Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Eu vim trazer o fogo à terra e que quero Eu senão que ele se acenda? Tenho de receber um baptismo e estou ansioso até que ele se realize. Pensais que Eu vim estabelecer a paz na terra? Não. Eu vos digo que vim trazer a divisão. A partir de agora, estarão cinco divididos numa casa: três contra dois e dois contra três. Estarão divididos o pai contra o filho e o filho contra o pai, a mãe contra a filha e a filha contra a mãe, a sogra contra a nora e a nora contra a sogra». 


Palavra da salvação. 

Interlúdio cómico na Sic notícias

por José Mendonça da Cruz, em 15.08.19

O zelo da Sic notícias na defesa dos socialistas e no ataque a quem quer que os incomode teve hoje um pequeno sobressalto cómico no jornal das 19. Para atacar o Sindicato dos Motoristas de Matérias Perigosas, a Sic contava com a apresentadora, um Pedro qualquer da redacção, e julgou ficar descansada convidando Raquel Varela. Mas Raquel Varela não lhes fez o recado, muito ao contrário: lembrou que os motoristas são obrigados a trabalhar entre 40 e 50 horas semanais por cerca de 600 euros; que o seu sindicato está mobilizado e tem grande proximidade com os associados; que as greves se destinam a causar incómodo e a prejudicar o negócio; que os trabalhadores têm direito à greve e, naturalmente, a provocar efeitos políticos com a greve, visto também serem eleitores; que há uma campanha negra contra o porta-voz do sindicato; que o governo está a atacar o direito à greve, nomeadamente obrigando membros das forças policiais a trabalhar dezenas de horas diárias de borla.

Nada do que Raquel Varela disse era cómico, e era tudo verdade. Cómico foi ver a apresentadora a torcer-se em sorrisos tentanto contrapor palermices (logo rebatidas por RV) e o Pedro qualquer coisa da redacção da Sic a torcer-se em contradições confrangedoras, a dizer que o direito à greve é muito bom, mas que outra coisa muito diferente são greves que produzam efeitos.

Se a Sic ainda tiver jornalistas em vez de pobres diabos desejosos de agradar ao poder eles terão morrido de vergonha.

Nossa Senhora da Assunção

por João Távora, em 15.08.19

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"Naqueles dias, Maria partiu para a região montanhosa, dirigindo-se, às pressas, a uma cidade da Judeia. Entrou na casa de Zacarias e saudou Isabel. Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança agitou-se no seu ventre, e Isabel ficou cheia do Espírito Santo. Com um grande grito exclamou: "Tu és bendita entre as mulheres, e é bendito o fruto do teu ventre! Como posso merecer que a mãe do meu Senhor me venha visitar? Logo que a tua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança saltou de alegria no meu ventre. Bem-aventurada aquela que acreditou, porque vai acontecer o que o Senhor lhe prometeu." Então Maria disse: "A minha alma proclama a grandeza do Senhor, e o meu espírito se alegra em Deus, meu salvador, porque olhou para a humilhação de sua serva. Doravante todas as gerações me chamarão bem-aventurada, porque o Todo-Poderoso realizou grandes obras em meu favor: o seu nome é santo, e a sua misericórdia chega aos que o temem, de geração em geração. Ele realiza proezas com seu braço: dispersa os soberbos de coração, derruba do trono os poderosos e eleva os humildes; aos famintos enche de bens, e despede os ricos de mãos vazias. Acolheu Israel, seu servo, lembrando-se da sua misericórdia, conforme prometera aos nossos pais em favor de Abraão e da sua descendência, para sempre". Maria ficou três meses com Isabel; e depois voltou para casa."

Lucas 1, 39-56

Férias são férias...

por João Távora, em 13.08.19

A minha mulher, que sabe mais disto a dormir que eu acordado, diz que as férias só são férias quando, com a ajuda do sol e da praia, a nossa cabeça é invadida por uma espécie de névoa, que nos tolda a capacidade de concentração na medida em que nos desperta os sonhos (não os de grandes obras, evidentemente). Eu acho que ela tem muita razão e o António Costa também.

Mais uma dos "neo-liberais"?

por João-Afonso Machado, em 12.08.19

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Eis-nos no primeiro dia da, desde sempre, mais reveladora greve. Porque dela resulta a queda de todas as máscaras.

Desde logo, comprova-se não ser necessária a manifestação, a simbólica subida do escadório de S. Bento (com a polícia de choque a contrariá-la) para que o Governo se perturbe. Ao invés, todo esse espectáculo consiste apenas num espicaçar dos intervenientes pelos seus patrões da CGTP.

(Evidentemente, é importante estejamos face a face com sectores estratégicos. Se a greve fosse dos empresários de carroceis e carrinhos de choque- altamente penalizados por Centeno com o IVA - Costa roncaria mais um dia todo de férias. E a CGTP compareceria, solidária com os grevistas, à pesca de mais uns jaquinzinhos por o próximo bródio eleitoral.)

Assim cai a segunda máscara. Onde param os grandes budas sindicais, os duces dos trabalhadores, agora que os camionistas resolveram levar adiante as suas reivindicações, excessivas ou não, - tão legítimas quanto as dos demais?

Param dormindo a sua soneca ao lado de Costa. Esta é uma greve que eles não controlam, o sindicato é independente, logo reaccionário. Vale o mesmo para os médicos, enfermeiros, magistrados - e só não para os professores porque estes são numerosos e Mário Nogueira é "da corda".

Assim clarificadas as coisas - a diferença entre greves de direita (perniciosas aos interesses dos trabalhadores) e greves de esquerda (as dos propriamente ditos trabalhadores), constata-se, 45 anos volvidos, a III República permanece um fascismo socialista. Desta feita, insurgindo-se contra gente que vive do seu ordenado mas há de carregar o estigma "neo-liberal".

 

O Estado e a greve dos motoristas

por henrique pereira dos santos, em 11.08.19

Aparentemente - é muito confusa a informação sobre a substância do que está em causa e a generalidade dos jornalistas estão mais empenhados no papel de confusionistas que no que lhes caberia - uma das questões centrais nas reivindicações dos camionistas resume-se ao facto de grande parte do seus ordenados lhes serem pagos como se não fossem ordenados.

A curto prazo, está é uma boa solução para trabalhadores e patrões, mas é muito complicado quando ficam doentes ou se reformam, porque as prestações sociais só atendem à parte sobre a qual caem os descontos, isto é, o tal ordenado base.

Ora é aqui que entra o papel do Estado, não apenas na greve dos camionistas, mas na vida quotidiana de milhares de trabalhadores e empresas: por cada euro que o trabalhador recebe, o patrão paga uns 30% a mais, e a diferença é metida ao bolso pelo Estado.

O que é diferente nos camionistas poderá ser o peso que os pagamentos extraordenados representam (mas não é caso único no mercado de trabalho, bem pelo contrário) e, sobretudo, a capacidade que têm de chantagear a sociedade para os patrões paguem mais ao Estado de maneira a aumentar a cobertura social dos trabalhadores.

Mas na substância há milhares de pessoas que formalmente têm um ordenado, mas que na verdade ganham muito mais de outras formas que sejam fiscalmente mais favoráveis, por exemplo, em pagamentos de quilómetros de deslocações, umas vezes de forma totalmente legal, outras vezes na franja de uma legalidade impossível de verificar.

Quanto maior for a diferença entre o pagamento líquido ao trabalhador e o custo do trabalho para o patrão, maior será o incentivo para que trabalhadores e empresas se empenhem numa optimização fiscal que permita pagar melhor, com menos custo para a empresa (a ideia de que as empresas têm interesse em pagar o mínimo possível, só não o fazendo por imposição legal, é uma ideia infantil de quem nunca geriu nenhuma empresa. Claro que há patrões que procedem assim, tal como há trabalhadores calões, maus governantes, comerciantes aldrabões e etc., mas a generalidade das empresas, sobretudo das que têm mais sucesso e dimensão, têm todo o interesse em pagar o melhor possível aos seus trabalhadores).

De todo este enquadramento resulta um custo de trabalho brutal para as empresas, uns ordenados miseráveis para os trabalhadores, uma burocracia interna às empresas, mas também do Estado, estratosférica e que rouba recursos que seria mais útil aplicar no desenvolvimento da empresa e na criação de riqueza.

A proposta da Iniciativa Liberal de taxar todos os rendimenos acima de 650 euros com uma taxa fixa, acabando com todas as excepções e não sujeição a imposto de rendimento, sejam eles quais forem e venham de onde vierem, tem sido criticada por supostamente ser socialmente injusta, mas é uma crítica que falha o alvo.

A enorme simplificação daqui decorrente, bem como o incentivo à melhoria de rendimentos, fariam bem mais pelo pagamento de salários decentes aos trabalhadores que o complicado, opaco e pesado sistema do Estado retirar agora quantidades brutais dos rendimentos dos factores de produção (trabalho e capital) para mais tarde os devolver através de um sistema ineficiente, injusto e muito aberto à fraude, como é o nosso sistema de segurança social.

Um bom contributo do Estado para resolver questões como  as dos motoristas (e, de caminho, de todos os outros sectores com o mesmo tipo de problemas mas sem a mesma capacidade de sitiar o país) era reduzir a parte que reserva para si em todo este processo.

Domingo

por João Távora, em 11.08.19

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas 


Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Não temas, pequenino rebanho, porque aprouve ao vosso Pai dar-vos o reino. Vendei o que possuís e dai-o em esmola. Fazei bolsas que não envelheçam, um tesouro inesgotável nos Céus, onde o ladrão não chega nem a traça rói. Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará o vosso coração. Tende os rins cingidos e as lâmpadas acesas. Sede como homens que esperam o seu senhor ao voltar do casamento, para lhe abrirem logo a porta, quando chegar e bater. Felizes esses servos, que o senhor, ao chegar, encontrar vigilantes. Em verdade vos digo: cingir-se-á e mandará que se sentem à mesa e, passando diante deles, os servirá. Se vier à meia-noite ou de madrugada, felizes serão se assim os encontrar. Compreendei isto: se o dono da casa soubesse a que hora viria o ladrão, não o deixaria arrombar a sua casa. Estai vós também preparados, porque na hora em que não pensais virá o Filho do homem». Disse Pedro a Jesus: «Senhor, é para nós que dizes esta parábola, ou também para todos os outros?». O Senhor respondeu: «Quem é o administrador fiel e prudente que o senhor estabelecerá à frente da sua casa, para dar devidamente a cada um a sua ração de trigo? Feliz o servo a quem o senhor, ao chegar, encontrar assim ocupado. Em verdade vos digo que o porá à frente de todos os seus bens. Mas se aquele servo disser consigo mesmo: ‘O meu senhor tarda em vir’, e começar a bater em servos e servas, a comer, a beber e a embriagar-se, o senhor daquele servo chegará no dia em que menos espera e a horas que ele não sabe; ele o expulsará e fará que tenha a sorte dos infiéis. O servo que, conhecendo a vontade do seu senhor, não se preparou ou não cumpriu a sua vontade, levará muitas vergastadas. Aquele, porém, que, sem a conhecer, tenha feito acções que mereçam vergastadas, levará apenas algumas. A quem muito foi dado, muito será exigido; a quem muito foi confiado, mais se lhe pedirá». 


Palavra da salvação. 

Pungente

por henrique pereira dos santos, em 10.08.19

Até fiquei comovido com o ar aflito com que Catarina Martins se candidatou ontem ao concurso de Miss Compreensão e Tolerância, a meia dúzia de semanas de umas eleições, a propósito de uma greve.

Tendo a perfeita consciência de ter sido encurralada, tendo de optar entre manter as portas entreabertas do poder ou falar para os seus eleitores, deve ter sido dolorosa a decisão de defender os interesses de Costa em detrimento dos interesses dos trabalhadores.

Costa é brutal, grosseiramente brutal, para com os adversários que não consegue controlar e encaixar na sua estratégia, de que é exemplo evidente a forma como sempre tratou Passos Coelho, mas é muito pior, sibilinamente muito pior, para com os amigos que se deixam enredar pelos seus cantos de sereia.

Neste desafio da Visão, Catarina Martins responde "Futuro" quando vê a palavra "Revolução" e responde "Revolução" quando vê a palavra "Sonho", mas o que verdadeiramente define o actual Bloco de Esquerda é ter respondido "Negociação" quando vê o nome de António Costa.

O problema, aparentemente, é que ninguém lhe terá explicado o peculiar significado de "Negociação" para António Costa, uma palavra que usa com enorme liberdade polissémica e que acaba quase sempre com o outro lado da negociação encurralado e a defender os interesses de António Costa, acima dos seus próprios interesses.

Causas perdidas

por João Távora, em 09.08.19

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Os que deviam andar aos urros na rua e nos jornais furiosos com o despudorado apoio do governo ao patronato e a forma manhosa como vem manietando os sindicalistas dos transportes de matérias perigosas eram os comunistas e bloquistas. Mas encheram os depósitos e foram todos convenientemente a banhos a mais ao Marx e ao Trotsky que agora são nomes dos seus animais de estimação. Antigamente a política era mais emocionante, convenhamos.

Na fotografia: André Matias de Almeida, irmão de Bruno Matias Almeida, adjunto do secretário de Estado da Economia João Correia Neves, militante do PS e porta-voz da Associação Nacional de Transportadores Públicos Rodoviários de Mercadorias (ANTRAM), sócio da sociedade de advogados Albuquerque & Almeida, nomeado em 2017 pelo então secretário de Estado da Indústria do governo da geringonça, João Vasconcelos presidente do Conselho Geral do Fundo Autónomo à Concentração e Consolidação de Empresas (FACCE) e presidente do Conselho Geral do Fundo Imobiliário Especial de Apoio às Empresas (FIEAE). Tudo em família.

Sentido único

por João Távora, em 07.08.19

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A questão que deixa livre o terreno para o crescimento do BE aqui referido por José Manuel Fernandes é que ela deixou de ser a economia - esse assalto fica adiado para futuras núpcias, se a coisa se proporcionar. O BE socialdemocratalizou-se (o modelo económico obrigatório em Portugal) e cavalga, entranhado com outros "progressistas" nas redacções dos media de massas (Obesrvador incluído), a batalha cultural. Desse modo, sem pudor, estabelecem os parâmetros do que é um discurso politicamente aceitável - veja-se a forma "activista" como as televisões abordam o Brexit, os migrantes, ou, nos últimos dias relacionam os assassinatos em massa nos EUA com o discurso (!) de Trump. Sem contraditório nem lugar à complexidade, pura propaganda, um proselitismo tão descarado que enjoa. Não vos quero estragar as férias, mas abram os olhos: eles são muitos, e o mais grave é que, no recreio do regime de que se sustentam, eles são os donos da bola. Nós só jogamos quando eles querem e na posição que lhes apetece. Para não estorvarmos deixam-nos ir à baliza, já não e mau - sem demérito para os bons guarda-redes, que são o último reduto e às vezes fazem milagres.

Portugal e as leis

por henrique pereira dos santos, em 06.08.19

Vejo a chamada de primeira página: "Portugal pioneiro na rede para alunos com dificuldades", vejo a primeira setinha verde para cima ao lado da cada do Ministro da educação e depois percebo a notícia: Portugal fez umas leis para criar umas escolas que serão uma segunda oportunidade para casos graves de abandono escolar.

O mais curioso é que uma página inteira do jornal (mais a chamada de primeira página e a setinha para cima) não foram espaço suficiente para os jornalistas perguntarem, se não ao ministro, ao menos para o ar: mas com as escolas no estado em que estão, e com os recursos que são conhecidos, como se passa do diploma legal para a realidade? Já há umas escolas destas (ou seja, o enquadramento legal, pelos vistos, não impediu a sua existência) e lei vai-se operacionalizar através de uns protocolos e tal, mas quanto à substância, isso é um pormenor, o que importa é que fomos os primeiros a fazer a lei.

Tal como fizemos a lei das incompatibilidades, tal como as leis de defesa da floresta contra incêndios, tal como o código da estrada (a maior parte dos mais lentos de qualquer auto-estrada em Portugal são os que andam só no limite legal), tal como fazemos muitas outras leis, esquecendo a sábia analogia que Porfírio Silva usou no seu livro "Podemos matar um sinal de trânsito?": as leis, e em geral as normas sociais, ao contrário dos corta-relvas, não se gastam, pelo contrário, reforçam-se pelo o uso e deixam de ser úteis com a falta de uso.

Um dia, um dos técnicos da minha divisão, que acompanhava uma obra, veio ter comigo a pedir-me para simularmos uma alteração de projecto para se pagar uma obra que já estava feita, mas que tinha sido executada com uma solução diferente da prevista no projecto, muito mais barata. Como de maneira geral acho que as leis são feitas de forma racional, lá lhe pedi para trazer a legislação que enquadrava o assunto e descobri umas normas que permitiam que os empreiteiros propusessem soluções de execução diferentes do projecto que poupassem dinheiro, sendo metade da poupança do empreiteiro e a outra metade ficava para o Estado. Lá fizemos o processo todo direitinho, de acordo com a lei, e passados uns tempos começo a receber queixas do empreiteiro porque nunca mais lhe pagavam. Quando fui ver o que se passava, o chefe da contabilidade tinha o processo parado. Quando lhe perguntei qual era a questão, respondeu-me que o que eu tinha proposto (e estava aprovado) nunca tinha sido feito e, mais importante, que não concordava que se andasse a pagar ao empreiteiro sem ele ter feito nada.

Nós temos esta relação íntima com a lei, e por isso é nossa, o que quer dizer que depende do que cada um acha da lei, Santos Silva não inventou nada quando disse que era óbvio que a lei não podia ser aplicada literalmente, foi o porta-voz de um povo inteiro.

Também me lembro de um tal José Sócrates ter mandado recado por um dos muitos criados de servir que tinha (e que hoje nem o conhecem), que por sinal era o meu superior hierárquico, que me iam pôr um processo disciplinar por ter dado a um jornalista uma cópia de um documento que me tinha sido pedido, sem ter pedido autorização superior. Respondi que fizessem o que quisessem, mas que antes lessem a legislação sobre acesso a documentos administrativos que me mandava dar livre acesso aos documentos públicos, como era o caso daquele. Do que gosto mais da história é da resposta desalentada do meu superior hierárquico: "eu logo vi que devias ter uma alínea qualquer da lei para te proteger".

O extraordinário não era a hierarquia toda, até ao dito José Sócrates (e passando pelo seu jurista de estimação, Pedro Silva Pereira), não fazer ideia das suas obrigações legais, o extraordinário é que chamada a atenção para o que dizia a lei, a preocupação não consistiu em aprender para o futuro de forma a cumpri-la, a preocupação é que se tinha perdido a oportunidade para me porem na ordem.

Isto é o país, o pioneiro a fazer leis avançadas, cujo cumprimento, naturalmente, é um pormenor de que ninguém cuida seriamente.

Os últimos cartuxos

por João Távora, em 06.08.19

cartuxo.jpg

Claro que me incomoda profundamente o encerramento do Convento da Cartuxa em Évora, o último mosteiro contemplativo masculino existente Portugal. Hoje, um espasmo de gozo aliviou momentaneamente o tormento de Afonso Costa a arder no inferno dos déspotas. Vem nas notícias: com idades entre os 80 e os 90 anos, os quatro monges que lá resistem em clausura, em "silêncio, oração e absoluta entrega a Deus", em Outubro vão ser transferidos para outro mosteiro, em Barcelona. A questão que me aflige não tem tanto que ver com o destino a que irá ser dado àquele precioso património monumental e arquitectónico, mas ao facto da ordem em Évora, nas últimas frívolas décadas, não ter sido capaz de se renovar. Um sinistro sinal dos tempos. Quem não acredita que a oração (e o silêncio, meu Deus, o que fizeram ao silêncio?!) seja vital para a nossa harmonia como pessoas e sociedade, talvez perceba que estas ancestrais comunidades ao se extinguirem, na mesma medida em que vão perdendo corpo as velhas paróquias e rareando as famílias com laços sólidos, deixam expostos os indivíduos, cada vez mais solitários e vulneráveis, ao controlo e voracidade do cada vez mais desmesurado Leviatã, e à sua sagrada Ordem - aparentemente só querem os nossos impostos mas estamos bem domesticados. Não quero ser desmancha-prazeres, mas suspeito que isto, antes de um dia se voltar a humanizar, ainda vai piorar muito.

Fotografia daqui

Combate desigual

por João Távora, em 06.08.19

Francisco Sousa Tavares.jpg

(…) Concebido assim, nenhum Rei é obstáculo. A nenhum ideal político o rei é oposto. A nenhum homem e a nenhuma ideia. Só ele é por si, um princípio de síntese, de integração histórica dos contrários no processo evolutivo da vida nacional. Só o rei, só o princípio real, contem a força política autónoma que o torna «indiferente». O Rei não precisa de partido porque não é votado; não precisa de propaganda porque não é efémero; não precisa de conquistar o poder porque está para além do poder.

O princípio da autoridade, que nele se contém é como o fundamento da participação de todos nós no mistério do poder. Nas grandes crises nacionais, nas épocas em que a Nação busca ansiosamente rumo, como é a nossa, só o Rei tem a virtualidade de se identificar com todos e com ninguém, de «servir», de realizar todos os ideais sem com eles se confundir, de consentir todas as esperanças sem que uma exclua ou mate necessariamente as outras. (…)
Não será necessário que a Nação viva livremente e que como outrora, da pujança nacional brotem gradualmente as formas genuínas da liberdade, da convivência e da política do homem português?
E quem garante a vida livre da Nação? Quem tem por si o dom de El-Rei, o dom da serenidade no poder, o dom de deixar, sem medo, brotar a liberdade?  (...)

 

Francisco Sousa Tavares in "Combate Desigual - Ensaios" 1960

Domingo

por João Távora, em 04.08.19

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas 


Naquele tempo, alguém, do meio da multidão, disse a Jesus: «Mestre, diz a meu irmão que reparta a herança comigo». Jesus respondeu-lhe: «Amigo, quem Me fez juiz ou árbitro das vossas partilhas?». Depois disse aos presentes: «Vede bem, guardai-vos de toda a avareza: a vida de uma pessoa não depende da abundância dos seus bens». E disse-lhes esta parábola: «O campo dum homem rico tinha produzido excelente colheita. Ele pensou consigo: ‘Que hei-de fazer, pois não tenho onde guardar a minha colheita? Vou fazer assim: Deitarei abaixo os meus celeiros para construir outros maiores, onde guardarei todo o meu trigo e os meus bens. Então poderei dizer a mim mesmo: Minha alma, tens muitos bens em depósito para longos anos. Descansa, come, bebe, regala-te’. Mas Deus respondeu-lhe: ‘Insensato! Esta noite terás de entregar a tua alma. O que preparaste, para quem será?’. Assim acontece a quem acumula para si, em vez de se tornar rico aos olhos de Deus».

 
Palavra da salvação. 

Mais um anito, Marco

por João-Afonso Machado, em 03.08.19

IMG_8897.JPG

Eles já pedalam outra vez e eu vi-te na televisão, finalmente, depois de anos seguidos apenas ouvindo o teu imenso anasalado saber - o que tu sabes, Marco!, essa tua enciclopédica torrente de esquemas tácticos e estratégicos, a geografia inteira do nosso Portugal, um cultura geral que impressiona pela sua latitude.

Mas estás mais velhote, de cabeça pelada e uns quantos sulcos na cara. Deixa lá, estamos todos... Há quantas décadas deixaste a prática velocipédica, Marco, depois de umas tantas Voltas ganhas e, se bem me lembro, de um ou outro escandalozinho com o doping?

Ficou-te a voz, a tua inesquecível voz, que tão bem vai com a musiqueta de sempre das reportagens televisivas sobre a prova e as imagens iniciais, antigas, pretas e brancas, vergadas ao peso das bicicletas, nada era como agora. Nem mesmo o público, proibido de se despir nas bermas das estradas. Mas numeroso, sempre, a Volta é um enigma, ainda não percebi porque gosto da televisão especialmente no tempo da Volta, e tudo seria diferente não estivesses lá tu, Marco, o mais famoso fanhoso nacional.

(Há um outro, também muito conhecido, mas nada percebe de bicicletas e, ao contrário de ti, é um grandessíssimo malcriado, dado a negócios menos limpos.)

Continua, Marco. Fala-nos todos os dias das «dorsais», das «fugas», do pelotão, dos «heróicos esforços» dos corredores. Temos-te para quinze dias! Manda um abraço ao Vidal Fitas, que com esse nome já ninguém o tira da História pátria. E diz-me, Marco, a edição deste ano volta a estar para os da W52/FCPorto... Sim?! Porreiro, pá!




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