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Gente estranha

por João Távora, em 19.04.19

"É verdade que são estranhos aqueles cristãos, explica o autor da carta [Epístola a Diogneto, Séc. II], os cristãos daquele tempo; não se importam com o mundo, desprezam a morte, e ignoram os deuses pagãos, deuses de pedra, de bronze, madeira, de prata, ferro, deuses de barro, materiais perecíveis. Também não querem saber das práticas judaicas, diz o autor, de interdições alimentares, superstições de calendário, ou não queriam, os cristãos daquele tempo. São gente estranha mas que não se distingue dos outros cidadãos, vestem as mesmas roupas, têm os mesmos usos, vivem onde os outros vivem: “Todo o país estrangeiro é para eles uma pátria, e toda a pátria um país estrangeiro.” São estranhos porque não cultivam o domínio, a posse, mas a entreajuda, a mansidão. E quando querem persuadir, aqueles cristãos, usam a palavra, não a força, “porque a força não é um atributo de Deus”, frase espantosa."

Pedro Mexia na Revista do Expresso

Estas são as notícias de quem tem medo das «redes sociais»

por José Mendonça da Cruz, em 19.04.19

O retrato da imprensa alinhada está hoje nas primeiras páginas do Público e do Diário de Notícias. O primeiro, apela às «ciências sociais» para defender o seu governo das críticas de incompetência. O segundo, mais pró-activo, lança-se às canelas de quem ousou perturbar o governo dos seus amores. O medo e nojo que esta pobre gente tem ao que (estes mesmos, os autores destas peças) chama «fake news» compreende-se cada vez melhor. 

 

Título de hoje do Público:

«Combustíveis: Sociólogos alertam para aproveitamento político e excessiva mediatização»

Título de hoje do Diário de Notícias

«Quem é o advogado de Maserati que dirige os camionistas»

Sondagens, para que vos quero!

por João Távora, em 18.04.19

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Segundo a sondagem de Abril da Aximage, enquanto o PSD alcança o PS, o PCP e o BE sobem ligeiramente, o CDS recua para os 6,4% e os partidos novos não obtêm expressão significativa. Dir-me-ão que o inquérito é para as Europeias, não replicável para as legislativas, que é só mais uma sondagem (sempre erradas no que refere ao CDS e pouco fiáveis com votações exíguas como será o caso do PAN, do IL e do Aliança); mas o que é inegável é que ela reflecte a já proverbial inamovibilidade do “mercado” eleitoral português.

Como é que se explica tudo isto? As coisas às vezes são muito mais simples do que parecem:  Ontem quando ouvia o final do Debate Quinzenal no parlamento confesso que fiquei chocado com o discurso radical socialista. Fiquei com a ideia de que, em desespero com as recentes broncas e casos, o PS está a cometer um erro ao extremar-se à esquerda, quando, como se sabe é tradicionalmente ao centro que se ganham eleições.

Quanto ao CDS, tenho há muito a convicção de que o seu espaço de crescimento é relativamente limitado num país pobre como o nosso. É um partido de nicho, e tem o seu espaço entre os conservadores e os liberais (à antiga), que em vez de assumir esse discurso com clareza, cai demasiadas vezes na tentação de querer “apanhar tudo” (veja-se a ambiguidade do partido na questão dos professores). O sucesso eleitoral autárquico (em Lisboa) não é replicável numas eleições legislativas, e muito bom será se Assunção Cristas nas europeias ou legislativas alcançar os resultados de Portas, que admitamos, tinha outro carisma.
Mas a grande surpresa destas sondagens é a performance de Rui Rio. O que é que ele tem feito para isso? Tem-se fingido de morto, que é a única estratégia que lhe permite chegar vivo a Outubro (em coerência com esta tese foi um erro ontem no parlamento o PSD ter pegado no pavoroso assunto da sustentabilidade da Segurança Social). O PSD sabe, como António Costa deveria saber, que em Portugal as eleições se ganham ao centro e não fazendo muitas ondas. Acontece que a grande maioria dos portugueses vive no limiar da pobreza e só anseia manter a cabeça de fora deste pântano imundo.  

O jornalismo e Catarina Martins

por henrique pereira dos santos, em 18.04.19

Que Catarina Martins diga que "A greve dos motoristas de mercadorias perigosas, como outras que estão em curso, são o reflexo da deterioração da negociação colectiva imposta no tempo da troika", uma versão pouco sintética do "a culpa é do Passos", é normalíssimo e reflecte a infantilidade habitual do discurso do Bloco de Esquerda (bem ilustrado no famoso "que chova" para comentar incêndios em que morreram pessoas, também da autoria de Catarina Martins).

O que é inquietante é que Catarina Martins pode dizer isto para segurar os seus 10% do eleitorado, e não haja um único jornalista que lhe pergunte para que serve votar no Bloco se no fim da legislatura ainda se atiram responsabilidades para o governo anterior a propósito da gestão dos problemas causados por uma greve.

Dizer o que é transcrito acima é o mesmo que dizer que o Bloco apoia um governo a troco de coisa nenhuma, a julgar pela incapacidade para influenciar uma gestão minimamente segura dos efeitos de uma greve.

O que é inquietante é que isto se passa permanentemente com o Bloco, como no caso da deputada Mariana Mortágua, confessadamente enganada pelo governo que apoia, que continuou a apoiar depois de ter sido enganada, e cujas cativações que a enganaram continuaram a ser usadas para a enganar, sem que haja jornalistas que lhe perguntem por que razão apoia um governo que a engana e que a continua a enganar e como é que confia num governo que a engana e continua a enganar.

É o jornalismo que é o problema, não é o Bloco, que é uma espécie de jardim infantil político para tomar conta de 10% do eleitorado que acha que "é triste ser-se crescido e ter responsabilidades", como diria o Carlos Tê

O autocarro e a ridícula reivindicação da dor

por José Mendonça da Cruz, em 17.04.19

Eu já tinha reparado, ao ver os relatos televisivos no local, que nas cabecinhas dos reporteres o desastre de um autocarro turístico, na Madeira, com a morte de 28 passageiros, era fruto de dor e sofrimento, não para as vítimas, sobreviventes ou mortos e respetivos familiares, mas para a Madeira e os madeireses. Estava eu intrigando-me sobre isto, quando vem uma pessoa normalmente serena e inteligente, Guilherme Silva, reafirmar isso mesmo: que o desastre trazia o pesar e a dor à ilha. Ainda perplexo, ouvi o primeiro-ministro manifestar pesar aos madeirenses (aos madeirenses!) e o Presidente da República declarar que o desastre faz sofrer madeirenses e magoa e cala fundo no coração dos portugueses.

E eu, que tenho um coração pouco empedernido, mas que já seria cinza se cada acidente de viação lhe calasse fundo, constato, alarmadíssimo, que para os repórteres, e o deputado pela Madeira, e o primeiro-ministro, e o Presidente da República, portanto, sofrem menos os alemães que morreram ou ficaram feridos e respetivas famílias do que o cenário do desastre e os residentes no mesmo.

Semana Santa (2)

por João Távora, em 17.04.19

Jesus: «Os reis da nações exercem domínio sobre elas e os que têm sobre elas autoridade são chamados malfeitores. Vós não deveis proceder desse modo. O maior entre vós seja como o menor e aquele que manda seja como quem serve. Pois quem é o maior: o que está à mesa ou o que serve? Não é o que está à mesa? Ora Eu estou no meio de vós como aquele que serve. Vós estivestes sempre comigo nas minhas provações. E Eu preparo para vós um reino, como meu Pai o preparou para Mim: comereis e bebereis à minha mesa, no meu reino, e sentar-vos-eis em tronos, a julgar as doze tribos de Israel. Simão, Simão, Satanás vos reclamou para vos agitar na joeira como trigo. Mas Eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça. E tu, uma vez convertido, fortalece os teus irmãos».
Pedro respondeu-Lhe:
«Senhor, eu estou pronto a ir contigo, até para a prisão e para a morte».
Disse-lhe Jesus:
«Eu te digo, Pedro: não cantará hoje o galo, sem que tu, por três vezes, negues conhecer-Me».

 

(Evangelho segundo São Lucas)

 

Resultado de imagem para bombas de gasolina filas

Há quatro dias que está anunciada esta greve dos motoristas dos transportes de materiais perigosos (leia-se gasolina e gás, por exemplo), que paraliza o país, e o Governo não tinha uma estratégia preparada. Por exemplo, não tomou a iniciativa de avisar a população da necessidade de tomarem medidas, tais como abastecerem os carros atempadamente, e deixou chegar a esta situação caótica de as bombas de gasolina ficarem sem combustíveis.

O caos está instalado. Não foram só os aeroportos que ficaram sem combustíveis, também as ambulâncias do INEM, os Bombeiros e outros. E foram ainda todos os postos de abastecimento que ficaram à beira da ruptura, com as pessoas a serem apanhadas "de calças na mão", ou seja, com os carros vazios. Isto, ainda por cima, à beira da Páscoa, quando as pessoas viajam mais.

Esta reunião, que houve hoje entre a ANTRAM, o Governo e o sindicato do setor, para definir serviços mínimos da requisição civil, não devia ter sido feita antes?

O Governo não antecipava que ia ser preciso a requisição civil nesta greve? 

Em pleno caos, o Presidente da República apressou-se a dizer que o Governo devia reunir-se com os sindicatos, esquecendo que quem tem de se reunir com os sindicatos é a entidade patronal, a ANTRAM, e não o Governo. Pois não se trata de função pública em que o patrão é o Estado. Mas Marcelo é o comentador político compulsivo, que tem sempre coisas para dizer, às vezes muito além do que deveria. Razão tem José Miguel Júdice quando diz que Marcelo precisa daquilo que tinham os imperadores, de alguém ao lado, que lhe diga "lembra-te que és mortal". 

E o Governo? Casa roubada, trancas na porta, tem sido o lema deste Governo em todas as "calamidades".

Mais uma vez, António Costa, em cima do fogo (metáfora cara a este Governo), lá pôs, e bem, os ministros da Administração Interna e do Ambiente e da Transição Energética a declararem a “situação de alerta”  e “declaração de reconhecimento de crise energética", para acautelar de imediato níveis mínimos nos postos de abastecimento, de forma a garantir o abastecimento de serviços essenciais, designadamente para forças e serviços de segurança, assim como emergência médica, proteção e socorro.

Isto, é pôs militares e outras forças e serviços de segurança, bem como todos os agentes de proteção civil, e ainda todos os motoristas de pesados, de prevenção para poderem conduzir camiões-cisterna cheios de combustíveis para fazer o país andar. Um solução de emergência, que podia ter sido mitigada por uma jogada de antecipação que era expectável que existisse da parte do Governo.

Costa lá chamou o seu negociador de causas difíceis, Pedro Nuno Santos, para se sentar à mesa com os patrões e empregados de uma atividade que é vital para o país. Nesta altura, e depois de uma reunião com o Governo (com Pedro Nuno Santos, o negociador), estão assegurados serviços mínimos de abastecimento de combustíveis. Hospitais, aeroportos, bombeiros, polícias com abastecimento a 100%. Mas apenas 40% das bombas em Lisboa e Porto vão ser abastecidas com 30% do volume habitual. O resto do país, pode ficar sem combustíveis. Se isto não é uma trapalhada? É o quê?

As pessoas que gostam de ser idolatradas e querem agradar carregam em si toda a violência do mundo.

Os governantes devem governar com convição e não em função do que podem pensar deles. Essa é talvez a maior diferença de Passos Coelho (e a que o torna irrepetível) face à maioria dos primeiros-ministros.

Semana Santa (1)

por João Távora, em 16.04.19

Depois afastou-Se deles cerca de um tiro de pedra e, pondo-Se de joelhos, começou a orar, dizendo:
«Pai, se quiseres, afasta de Mim este cálice.
Todavia, não se faça a minha vontade, mas a tua».
Então apareceu-Lhe um Anjo, vindo do Céu, para O confortar.
Entrando em angústia, orava mais instantemente e o suor tornou-se-Lhe como grossas gotas de sangue, que caíam na terra.

 

(Evangelho segundo São Lucas)

Também eu não atiro pedras…

por Vasco Mina, em 14.04.19

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Recentemente fomos confrontados com o caso, ocorrido em Espanha, do casal Maria José Carrasco e Ángel Hernández. Ela, com 61 anos, sofria, há trinta anos, de esclerose múltipla e ele foi, durante todo este tempo, marido, enfermeiro e curador. Não vou, neste escrito, alongar-me sobre a tragédia que esta doença significa pois é do conhecimento geral o sofrimento de todos os pacientes que a contraem; apenas referir que a esclerose afetou a mobilidade, a visão e quase por completo a fala; tecnicamente, Maria José tinha 82% de incapacidade reconhecida pelas entidades oficiais e era totalmente dependente (alimentação, higiene, mobilidade,…) do marido. Estava num estado considerado como de terminal e com um sofrimento enorme. Ángel, não suportando mais o sofrimento de Maria José, decide avançar para o suicídio assistido.

Vamos aos factos e tentar compreender porque acabou a vida de Maria José em suicídio assistido. Em Outubro de 2018 o jornal “El País” edita um longo artigo no qual é apresentada a situação deste casal. Maria José Carrasco afirma, com toda a clareza, que “Quero o final quanto antes”. Mas, como é referido no texto, não tem condições de executar a sua vontade pois as suas limitações físicas a tal impediam. Ángel Hernández refere que algum tempo antes, ainda menos limitada, Maria José tinha tentado o suicídio e que tinha sido ele quem tinha conseguido impedir pois considerava, então, que apesar de tudo a sua mulher “tinha suficiente qualidade de vida”. O tempo foi passando e a doença agravando-se progressivamente.

Ao longo dos anos foram pedindo ajuda mas acabaram por ficar sós. Não tiveram filhos pois cedo adoeceu Maria José. Os irmãos de ambos viviam longe e não puderam ajudar. Dos vizinhos sabe-se apenas que tinham conhecimento da situação. As tentativas de apoio por parte do Estado foram totalmente fracassadas: nove anos em lista de espera para uma residência adequada à situação de Maria José e… nada! Tentaram pedir ajuda domiciliária mas ficaram também à espera. Há pouco mais de um ano, Ángel necessitou de ser operado a uma hérnia mas acabou por não entrar no bloco operatório pois não conseguiu apoio para a sua mulher.

Sem apoios de ninguém (o Estado apenas lhe concedeu, uns anos antes, uma reforma antecipada para cuidar de Maria José) montou ele uma verdadeira enfermaria em casa onde nada faltou, nem uma grua para içar a mulher. Mais, conseguiu, com as suas poupanças, suportar alguns cuidados paliativos domiciliários. Com todo o amor tratou de Maria José e esteve ao seu lado todas as horas do dia e da noite. Mas o estado de saúde sempre a agravar-se, o tempo a pesar e o esgotamento de ver, minuto a minuto, o sofrimento de Maria José, levaram Ángel a tomar a decisão de a ajudar a suicidar-se. No dia 3 de Abril passado injetou pentobarbital sódico e ela morreu serenamente pouco depois. Esta ação foi filmada e o vídeo circula na net.

Ángel Hernández sempre manifestou, antes e depois da morte da Maria José, a sua esperança na legalização da eutanásia como solução para o sofrimento de sua mulher. Eu sou contra a legalização da eutanásia mas percebo a posição deste homem. Não é possível a ninguém suportar, só e sem apoio humano, um sofrimento deste tipo! Esta história revela o falhanço total de uma sociedade perante o sofrimento. Falhou a família, falharam os vizinhos, falharam as instituições de solidariedade social, falhou o Estado, enfim… apenas Ángel agiu! Vamos por isso legalizar a eutanásia? Não! Vamos sim dotar de cuidados paliativos, de assistência hospitalar e residencial, de acompanhamento humano, todos aqueles que sofrem. O caminho não é acabar com o sofrimento pela via da morte!

E o Ángel Hernández? Choro com ele e rezo por ele e pela Maria José. Será condenado? Sim, será! Mas sem pena efetiva! Também eu não lhe atiro pedras…

 

Domingo de ramos

por João Távora, em 14.04.19

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

 

Naquele tempo, Jesus seguia à frente dos seus discípulos, subindo para Jerusalém. Quando Se aproximou de Betfagé e de Betânia, perto do monte das Oliveiras, enviou dois discípulos e disse-lhes: «Ide à povoação que está em frente e, ao entrardes nela, encontrareis um jumentinho preso, que ainda ninguém montou. Soltai-o e trazei-o. Se alguém perguntar porque o soltais, respondereis: ‘O Senhor precisa dele’». Os enviados partiram e encontraram tudo como Jesus lhes tinha dito. Quando estavam a soltar o jumentinho, os donos perguntaram: «Porque soltais o jumentinho?». Eles responderam: «O Senhor precisa dele». Então levaram-no a Jesus e, lançando as capas sobre o jumentinho, fizeram montar Jesus. Enquanto Jesus caminhava, o povo estendia as suas capas no caminho. Estando já próximo da descida do monte das Oliveiras, toda a multidão dos discípulos começou a louvar alegremente a Deus em alta voz por todos os milagres que tinham visto, dizendo: «Bendito o Rei que vem em nome do Senhor. Paz no Céu e glória nas alturas!». Alguns fariseus disseram a Jesus, do meio da multidão: «Mestre, repreende os teus discípulos». Mas Jesus respondeu: «Eu vos digo: se eles se calarem, clamarão as pedras».

 

Palavra da salvação.

Pérolas a porcos...

por Corta-fitas, em 12.04.19

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As palavras mais lúcidas que li até agora sobre a pedofilia na Igreja são de Ratzinger: a duríssima carta aos bispos da Irlanda e o texto conhecido ontem. Em ambos os textos, Ratzinger situa a origem do problema dentro, e não fora, da Igreja. Na carta aos bispos irlandeses, critica uma estrutura de poder muito condicionada pelos factores históricos específicos de uma sociedade em que a hierarquia eclesiástica era vista como guia espiritual da nação, estrutura essa que, na prática, protegeu os pastores e não as ovelhas (uma linha de pensamento que seria retomada pelo Papa Francisco sob o nome de clericalismo). Em certo sentido, o texto mais recente é o segundo painel de um díptico, agora mais atento aos factores culturais e doutrinais do que à questão do abuso de poder sempre presente na pedofilia. Sem surpresa, as reacções que li até agora ficaram pela superfície do pensamento de Ratzinger, ou seja, pelo Maio de 68, pela revolução sexual e pelo Benfica-Sporting a que os espíritos mais apressados reduzem a teologia. Poucos notaram o seu diagnóstico certeiríssimo de que a crise é muito mais profunda e começa na tentativa de substituir o direito natural pela exegese bíblica como fundamento da moral católica, um fenómeno de protestantização (a palavra é minha) que levou fatalmente ao relativismo dos anos 60 e do pós-concílio. Com efeitos óbvios na moral sexual, mas não só: atente-se em especial ao que é dito sobre a Eucaristia. Quem conhece minimamente a obra de Ratzinger sabe que este diagnóstico não é novo e não nasceu de um súbito ataque de pânico perante a dimensão do escândalo. O que me parece novo, e mais notável, é a sua reflexão espiritual (na terceira parte) sobre a natureza ao mesmo tempo histórica e salvífica da Igreja, uma reflexão que, como sempre em Ratzinger, vai aos fundamentos da coisa. É isso que verdadeiramente interessa. E é muito claramente dirigido para dentro, para os católicos, a quem Ratzinger, no fundo, convida a fazer um sério exame de consciência. Aliás, não será por acaso que o texto se publica em vésperas da Semana Santa. O resto é ruído. E não é com ruído que se resolve o problema.

 

Pedro Picoito

Marxismo cultural

por João Távora, em 10.04.19

Eu acho que faz falta uma designação, um rótulo, qualquer coisa que defina a guerra cultural travada pelos progressistas quando não estão entretidos a estatizar a nossa existência. Chamem-lhe albertina se quiserem, mas por favor não enfiem a cabeça na areia.

Costa desrespeita a "igualdade de género"

por João-Afonso Machado, em 08.04.19

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A apresentação do paquete World Express, em Viana da Foz do Lima (vulgo "Viana do Castelo") mereceu a presença do Chefe Costa e uma gala animada pelo, também incontornável, Manuel Luís Goucha. Até aí, nada mais além do mesmo. Mas Goucha não é personagem que não se desboque. E lá foi dizendo (segundo os jornais), pesado de ironia, - Comi uma óptima cataplana em Viana. Não sei se era melhor do que a sua Senhor 1º Ministro, pois só a faz para certos apresentadores.

Estas miúdices nada interessam (conquanto o dito seja rigorosamente "marialva"), embora pareça a alusão fosse para a beldade nacional Cristina Ferreira, a cujo programa Costa compareceu e cataplanou. "Apresentador", quanto a ela, julgo ser maldoso. Eu voto na Cristina feminina! Votemos todos: viva o slogan - "Cristina feminina"!!!

Aparte isso, Costa tem de cumprir a Constituição. Tem de acompanhar todas as tendências da LGTB, já não sei quantas. Mas a igualdade do género é uma obrigação sua. Toca a cataplanar homo, hetero, bi e transsexuais, entre o restante que apareça na praça.

Costa, estás... Estás o quê? Olha, já ninguém sabe.

 

Um discussão que me interessa

por henrique pereira dos santos, em 08.04.19

A Iniciativa Liberal, de que não sou militante mas apoio ao ponto de fazer parte da equipa que criaram para os ajudar a definir uma visão para Portugal 2040, contribuindo sobretudo na área do ambiente, manifestou uma posição sobre a Política Agrícola Comum que vale a pena discutir:
"Não precisamos de impostos europeus, precisamos de eficiência na despesa. ‬
A introdução de impostos europeus tem sido tema de campanha nestas europeias, assim como o aumento do Orçamento da União Europeia. O partido Iniciativa Liberal está contra ambas as possibilidades. Actualmente, 41% do orçamento da União Europeia é gasto em políticas de apoio à agricultura que representa menos de 2% da riqueza criada. A Política Agrícola Comum é contrária aos princípios que defendemos para a União Europeia. Fomenta o protecionismo, a subsídio-dependência e aumenta de forma artificial o preço dos bens alimentares, prejudicando os mais pobres. Para além de prejudicar os europeus mais pobres é também um mecanismo de empobrecimento de países subdesenvolvidos exportadores de produtos agrícolas, impedidos de concorrer com os produtores europeus.
A Iniciativa Liberal defende a redução progressiva e rápida dos fundos dedicados à PAC. O orçamento europeu deve ser dedicado a fomentar as quatro liberdades de movimento (bens, serviços, pessoas e capital) e não a políticas protecionistas de defesa de lobbies agrícolas que prejudicam os europeus mais pobres e impedem o comércio livre que ajudaria países subdesenvolvidos a sair da armadilha da pobreza. Se a manutenção das quatro liberdades exigir mais recursos, eles devem vir da redução da PAC e não de um aumento de impostos a nível europeu. Por comparação, o programa Erasmus, que representa aquilo que a UE deveria ser e marcou uma geração de europeus, recebe menos de 5% do orçamento da PAC."

Há ideias de fundo nesta posição política com que manifestamente estou de acordo: 1) seria bom acabar com os subsídios à produção agrícola; 2) a existência de subsídios à produção agrícola por parte dos países desenvolvidos (não apenas da União Europeia) condena à pobreza milhões de produtores agrícolas dos países menos desenvolvidos.

Mas há também coisas com que não estou de acordo, umas por razões práticas - o fim unilateral dos apoios à produção agrícola permitiria a concorrência desleal por parte dos agricultores do resto do mundo desenvolvido -, outras por razões de fundo, que são as que me interessam discutir.

Não me parece nada linear que as políticas de apoio à produção de bens alimentares faça aumentar o seu preço ao consumidor, portanto não me parece nada linear que os europeus mais pobres sejam prejudicados por estes apoios, pode ser que assim seja, mas está longe de ser linear, parece-me.

Não é esta, no entanto, a minha discordância de fundo, é sim o facto dos produtores agrícolas serem gestores de paisagens, gestores da produção de serviços de ecossistema, como a regulação do ciclo da água, dos nutrientes, produtores de biodiversidade e amenidade, gestores do fogo, etc..

E por isso, para mim, estando de acordo com as vantagens em acabar com os apoios à produção, estou em completo desacordo com a desvalorização que a sociedade faz (e, neste caso, a Iniciativa Liberal) dos benefícios difusos proporcionados pela gestão da paisagem, considerando que os seus gestores têm a obrigação de gerir esses benefícios gerais com os seus recursos próprios, socializando os benefícios e privatizando os custos.

Daí que, para mim, a discussão central em relação à PAC não seja tanto a dimensão financeira que lhe está associada (matéria sobre a qual não tenho a menor competência e conhecimento que permita entrar na discussão com um mínimo de utilidade), mas sim o que fazer com esses recursos: distorcer mercados, como tem sido feito, ou pagar os serviços de interesse comum que o mercado não remunera, o que também tem sido feito mas de forma muito, muito mitigada?

É uma discussão complexa, mas está no coração das políticas de sustentabilidade: os recursos públicos devem servir para "domesticar mercados", como defendeu em tempos Capoulas Santos, ou devem servir para resolver falhas de mercado com consequências sociais muito negativas, como o padrão de fogos que temos, ou o congestionamento do tráfego urbano?

E é uma discussão que me interessa muito pela sua eventual construibuição para um pensamento liberal sobre sustentabilidade, matéria que tem sido uma coutada das correntes mais estatistas de pensamento, com base no pressuposto, errado, de que o bem comum é mais bem defendido pelo Estado que por mercados bem regulados.

Mais «genuine news» a assobiar para o ar

por José Mendonça da Cruz, em 06.04.19

O presidente e quatro funcionários da Câmara de Vila Viçosa foram condenados por peculato. Usaram dinheiros públicos para fins só deles. O presidente, comunista, gastou dinheiro dos contribuintes, comprou meios e dispensou funcionários para fornecer gente a uma manifestação da CGTP, em Lisboa, contra o Governo de Passos Coelho.

Porque é que na notícia do jornal das 20 da Tvi, hoje, não há uma referência ao partido dos condenados, nem ao organizador da manifestação, mas apenas a «uma manifestação» contra  «o governo Passos Coelho»?

Que «valor informativo» é que se alevanta para impedir a Tvi de informar?

O PAÍS TEM O QUE MERECE!

por Vasco Lobo Xavier, em 05.04.19

Pedro Filipe Soares, presidente do grupo parlamentar do Bloco de Esquerda, está neste momento na SIC-N a falar contra o lobby, ou lobbying, que, segundo a Wikipédia, será o nome que se dá à actividade de influência, ostensiva ou velada, de um grupo organizado com o objetivo de interferir directamente nas decisões do poder público, em especial do poder legislativo, em favor de causas ou objetivos defendidos pelo grupo por meio de um intermediário.

Ou seja, e basicamente, aquilo que o Bloco de Esquerda faz com enorme sucesso junto deste governo socialista. E ninguém se indigna. É o país que temos, é o que merecemos.

Este país não tem emenda!

por Vasco Lobo Xavier, em 05.04.19

António Costa, no debate quinzenal na AR e a propósito da promiscuidade familiar que se verifica no seu Governo, defendeu que é preciso mudar a lei. E ninguém se indigna! Mudar a lei para quê? Eu não preciso de uma lei que me diga que não se pode matar ou que não se pode roubar para não matar ou roubar. António Costa, aquele que manda no país, ao defender que é preciso alterar a lei para proibir o que ele próprio andou a fazer está a admitir, a um tempo, que discorda do que faz e fez mas que só deixa de o fazer se o proibirem por lei. Ele, por si, não se mexe nem impede os outros.

Isto é de uma estupidez, de uma imbecilidade sem limites! Se António Costa acha mal o que faz, ao ponto de defender como necessária uma alteração legislativa que o impeça de fazer o que faz e fez, não faça! Não o tivesse feito! Não é preciso lei alguma, bastava vergonha na cara, um mínimo de decoro e de ética. E evitava ter levado nas trombas com a frase de Marcelo “se a ética não chega, temos de mudar a lei”.

A comunicação social, sempre amiga de Costa, não quer dar importância à frase mas nunca ouvi nada de mais assassino a Marcelo Rebelo de Sousa (invariavelmente frouxo com as atitudes da geringonça e em particular tendo-se portado muito mal nesta novela do circo da família socialista).

Marcelo acusou António Costa de falta de ética e considera que só por lei António Costa respeitará minimamente a ética. Leve-se ou não a sério o que Marcelo diz sempre que lhe põem um microfone à frente, eu, que não sou nada nem ninguém, e se ele tivesse dito de mim o que disse de Costa, ou me enfiaria num buraco cheio de vergonha ou reagiria com indignação à acusação.

António Costa lá vai cantando e rindo, nem tenho a certeza de que tenha percebido a gravidade da acusação. Mas enfim…, a nossa comunicação social também não deve ter percebido, pois não vê nem comenta a evidência: Marcelo Rebelo de Sousa considera que António Costa só agirá com ética se existir uma lei que o impeça ou que o proíba de agir sem ética. E Costa ri-se e concorda. É o que temos. Chegámos muito baixo.

 

Temos aquilo que merecemos

por João Távora, em 05.04.19

O que nos deveria fazer pensar é como é que eles (os progressistas) fizeram uma guerra civil que arruinou o país (com a destruição das estruturas do Antigo Regime) para nos imporem uma constituição à francesa; depois assassinaram cobardemente o nosso rei e o príncipe herdeiro para nos impingirem uma tirânica república... para andarmos cem anos depois a discutir a endogamia e o nepotismo nos cargos públicos. Às vezes sinto que ser português é um castigo.

 

PS.:

Os socialistas andam excitadissimos com os casos dos familiares dos ministros de Cavaco Silva. Sugiro que investiguem a endogamia no governo de Costa Cabral (no reinado de D. Maria II). Talvez assim consigam relativizar melhor o escândalo do governo da geringonça.

Crónica dum destino miserável

por João Távora, em 03.04.19

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Há quem estranhe os casos de endogamia e nepotismo denunciados no governo e gabinetes por aí abaixo. Este fenómeno, mais do que demonstrar-nos que a elite socialista tem recursos limitados e é pouco permeável (sinal dos tempos de austeridade), revela-nos que perdeu o pudor. A vida é dura, o Estado é um apetecível salão de banquetes, mas também serve uma sandocha se for suplicada nos canais certos: em tempos soube de uma feroz disputa partidária por um lugar subalterno (de ordenado mínimo) numa junta de freguesia de Lisboa. Mas os lá de cima conhecem-se todos uns aos outros há décadas, e como nas famílias da antiga nobreza (como a minha) dão muita importância aos apelidos porque eles revelam parentescos e fidelidades sempre úteis. Frequentam os mesmos restaurantes e vernissages, encontram-se nas férias em selectos destinos de veraneio, os filhos frequentam as mesmas escolas privadas e laicas, enfim, falam a mesma linguagem, são a reserva da Nação. Quando um dia por improvável e injusto acaso os socialistas tiverem de saír do governo para alguém vir arrumar a casa, esta pseudofidalguia retornará aos seus lugares, a minar as autarquias, institutos, arrumadas em direcções e gabinetes de empresas entretanto recuperadas para a esfera do Estado, na certeza de que o inverno será curto. E que, com as relações certas, alguma dedicação ao partido e um pouquinho de sorte, em breve se reencontrarão com o estrelato nos corredores do Terreiro do Paço e muitas viagens para Bruxelas. Entretanto, cá em baixo os portugueses contentam-se com um ordenado de menos mil euros (a única forma de não serem esmagados por impostos) e um desconto no passe social (que dá para pagar pão, leite e frangos, dizia ontem um popular na TV). Esses portugueses que ainda não perceberam que eles são muito poucos e não andam armados, só vivem à nossa custa e ainda por cima riem-se de nós como alarves.

 

Fotografia Lusa

Quem é Rui Rio?

por João-Afonso Machado, em 02.04.19

A primeira figura do PSD não é, seguramente, incontroverso. De tal modo que a cisão no partido não tardou e logo surgiu o incontornável Santana Lopes e o seu Aliança.

Aparentemente, Rio ou é ingénuo e estúpido, ou sabe o que faz e para onde quer ir. Somente talvez não denuncie, desde já, os seus planos. Primeiro sintoma de um político sagaz, reconheça-se, - na esteira do velho Costa.

Rio é inquestionavelmente social-democrata. (Eu também.) Rio não gosta de perder. (Ninguém.) Os próximos meses talvez calem tanta atoarda. Rio não gostará do CDS, mas nunca aceitará uma aliança pré ou pós eleitoral com o PS, não sendo o PSD o partido mais votado. Sobretudo com o PS de Costa. Conviria estar atento aos passos que se seguem na triste política portuguesa até Outubro.


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