Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]




A ética siciliana

por João-Afonso Machado, em 21.02.19

Especialmente gozosa a crónica, no JN, de Nuno Botelho, presidente da Associação Comercial do Porto, versando a inefável ética republicana. Explicando, nas suas contradições, essa ética que pressupõe duas Éticas, uma - a dos republicanos - superior à outra, a dos inquestionáveis valores primordiais.

Nuno Botelho ilustra a impagável ética republicana com o Governo de Costa. Com os Cabritas, os Vieiras da Silva, os Cravinhos - descobriu-se agora: os Zorrinhos também - os Soares e quantos mais, tudo ao monte e fé no Supremo Arquitecto.

Assim - desde sempre assim - a República se explica. Aos costumes (à costumeira vozearia) redarguirei com o cunhado do Rei de Espanha, a cumprir pena de prisão. E com Carlos César, num último dizer antes de embarcar para o Continente - a César o que é de César. E lá ficou a sua família, zelando pelos seus interesses. Não há dúvida, assim nasceu a República, assim subsistirá, entre punhais e veneno, compadrios e intrigas, nepotismo e revanches - perseguições políticas em que Salazar apenas se evidenciou um bocado mais do que os outros.

Autoria e outros dados (tags, etc)

"Não houve fantasma nenhum – o socratismo despesista existiu mesmo, teve implicações catastróficas para o país, e é imperdoável negá-lo, ou andar a fazer ironia com a página política mais dramática de toda a nossa democracia: a dívida pública portuguesa passou de 96 mil milhões no primeiro trimestre de 2005 para 195 mil milhões de euros no primeiro trimestre de 2011. Em apenas seis anos, o governo de José Sócrates agravou a dívida em 100 mil milhões de euros, cerca de 44 pontos percentuais do PIB (de 67,4% em 2005 para 111,4% em 2011). São números estratosféricos."

Autoria e outros dados (tags, etc)

Figuras tristes

por João Távora, em 20.02.19

homem elefante.jpg

É importante que se perceba que quem rejubila com o retorno às luzes da ribalta de Bruno de Carvalho é a comunicação social que vive de conteúdos baratos e “sensacionais”… e os adversários do Sporting que se banqueteiam com o suculento pratinho assim caído do céu. Antigamente havia o circo de horrores, com o homem elefante, o gigante, o anão, o gordo e a mulher de barba que faziam as delícias de plateias cheias de voyeuristas. Ufanos, lampiões meus amigos já se propuseram oferecer-me o livro do destituído. Definitivamente é feio gozar assim com as misérias dos outros: podiam ter um filho assim.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Uma garrafa de Cave Real, Bruto natural...

por henrique pereira dos santos, em 19.02.19

… que era o que havia cá em casa para comemorar logo ao jantar.

É tão raro ter razão em relação ao futuro que acho que desta vez mereço.

Há uns anos, o então presidente do Instituto de Conservação da Natureza, João Menezes, que foi um excelente presidente talvez por não ter grande ligação ao assunto mas saber ouvir, apareceu com ideias para comunicarmos a política de conservação da natureza usando o urso.

Eu, como todos os técnicos de conservação, dissemos-lhe que era uma ideia absurda, não havia ursos há demasiado tempo em Portugal e não se fazia a menor ideia de quando haveria de novo.

Depois disso, estudei mais o assunto e a evolução dos sistemas naturais e concluí que João Menezes tinha razão, começando a falar (e a escrever) na entrada de ursos em Portugal, num prazo de dez a vinte anos.

Desde então tenho ouvido muitos comentários trocistas, incrédulos, agressivos, enfim, os mais variados, sempre que repetia a ideia de que a existência de ursos em Portugal (animais divagantes, não populações estabilizados) poderia ser realidade num prazo de dez a vinte anos.

Foi hoje que me disseram que foram detectados ursos divagantes em Portugal, as pegadas foram fotografadas e confirmadas por especialistas espanhóis.

Enganei-me sim, mas foi só porque a natureza reagiu mais rapidamente do que pensei.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Domingo

por João Távora, em 17.02.19

Leitura da Primeira Epístola do apóstolo S. Paulo aos Coríntios 


Irmãos: Se pregamos que Cristo ressuscitou dos mortos, porque dizem alguns no meio de vós que não há ressurreição dos mortos? Se os mortos não ressuscitam, também Cristo não ressuscitou. E se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé, ainda estais nos vossos pecados; e assim, os que morreram em Cristo pereceram também. Se é só para a vida presente que temos posta em Cristo a nossa esperança, somos os mais miseráveis de todos os homens. Mas não. Cristo ressuscitou dos mortos, como primícias dos que morreram. 


Palavra do Senhor. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

As vítimas colaterais

por João Távora, em 16.02.19

Papa.jpg

O realce dado pela investigação do Observador a abusos sexuais ocorridos na Igreja Católica em Portugal, provoca em mim, como católico, uma inusitada revolta: talvez por terem acontecido mais perto da minha porta, cada novo capítulo publicado foi como uma nova sessão de tortura que não consigo evitar enfrentar. Mas a dor que sinto não pode toldar-me o raciocínio – aquilo que está em questão não é o mensageiro que, com mais ou menos competência fez o seu trabalho, mas a mensagem. E a mensagem é uma aberração. A minha vergonha e repulsa são inteiramente devotadas ao pseudo-sacerdote que trai de forma escandalosa e cobarde os seus votos, usando-se da preponderância outorgada pela sua função de serviço à Igreja de Pedro para praticar as suas obscuras perversões carnais sobre seres vulneráveis - podia ser o meu filho, podia ser o seu filho. Apesar de saber que a corrupção é impossível de erradicar do ser humano, deposito grandes espectativas na reunião convocada pelo Papa Francisco para o Vaticano de 21 a 24 de Fevereiro para o debate deste problema com os bispos de todo o mundo, que dela saiam medidas de profilaxia e procedimentos para uma rápida expulsão e denúncia dos elementos prevaricadores às autoridades civis.

Mas há uma outra injustiça que emerge de todo este pesadelo que me amargura profundamente e que merece de todos, quanto a mim, uma profunda reflexão (e dos crentes também muita oração): refiro-me ao profundo padecimento que tudo isto causa à esmagadora maioria do clero, gente de infinita generosidade e incansável entrega ao exigente exercício da mensagem de Cristo, que lideram paróquias recondidas, ensinam nas escolas, dão apoio espiritual e material aos mais pobres e aflitos, e que na nossa cultura, cada vez mais anticlerical, sofrem com a estigmatização e preconceito de quem, mais ou menos inocentemente, confunde a árvore com a floresta. É essa grande maioria de homens (e mulheres) de Deus, às vezes em missão nos mais inóspitos cenários, que devemos saber acarinhar e proteger daqueles traidores que tanto nos envergonham, e de quem também são vítimas - os nossos padres (e freiras). 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Destino fatal

por João Távora, em 16.02.19

E depois há a misteriosa atracção que Santana Lopes exerce sobre os jornalistas "de referência"... para mais tarde, assim que puderem, o estraçalharem com requintes de malvadez.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Moção de Censura

por João Távora, em 15.02.19

Assunção Cristas.jpg

Há quem critique Assunção Cristas pelo anúncio da Moção de Censura ao governo da geringonça que o CDS irá entregar no parlamento, por considera-lo tacticista. Já ouvi de um comentador na TV a interpretação de que a sua finalidade é tão só a clarificação das águas no PSD de Rui Rio, mas eu vejo mais vantagens: a clarificação das águas dentro da própria geringonça num período em que os partidos da extrema-esquerda estão a fazer um esforço comunicacional de descolagem com o governo de António Costa, utilizando um discurso muito duro e a colocarem no tabuleiro a artilharia dos sindicatos para marcação de terreno eleitoral com mais e mais protestos. Faz bem Assunção Cristas com esta jogada de política pura e dura. Assim como assim, quem vem sendo taticista há 3 anos para cá é o desgoverno PS, a navegar à vista, sem qualquer programa ou estratégia duma recuperação económica com futuro para o País, que se encontra absolutamente impreparado para enfrentar o arrefecimento económico mundial que se prenuncia: foram as 35 horas, o IVA da restauração, foram os impostos indirectos em cima dos outros para pagar as “devoluções” às clientelas, o desinvestimento público e as cativações; tudo por um prato de lentilhas que os mantivesse no poleiro. Afinal de que serve a estabilidade se ela é usada para comprometer o futuro do nosso País?

 

Imagem Público

Autoria e outros dados (tags, etc)

A ASAE e o crowdfunding

por henrique pereira dos santos, em 15.02.19

Sou um radical apoiante do crowdsourcing, quer na chamada economia da partilha (Uber, AirBnb, RAIZE e todas essas actividades estritamente empresariais), quer no financiamento colaborativo (crowdfunding), quer na ciência cidadã (Biodiversity4all), quer no voluntariado (mobilização da força de trabalho da multidão), quer na inovação (Patient Inovation) e todas as variantes possíveis em que seja possível mobilizar as pessoas comuns para obter resultados socialmente mais eficientes e que aumentam a liberdade de que gozam.

Acresce que conheço a PPL, a principal plataforma de crowdfunding portuguesa praticamente desde o início (uma das primeiras campanhas da PPL era de uma das minhas filhas), os seus fundadores foram professores e colegas do MBA da minha filha mais velha, tendo sido nesse contexto que nasceu a plataforma, e desde o princípio fiquei fascinado pela ideia e uso-a frequentemente (já devo ter organizado ou participado na organização de mais de meia dúzia de campanhas, estando mais uma na calha).

O Estado, com a mania de nos querer proteger de nós próprios, resolveu legislar sobre o assunto e chamar a si um poder regulatório que não fazia grande falta.

O que é mais arrepiante é que tenha decidido usar essa poder de forma absurda, sem que a generalidade da imprensa, que há muito deixou de defender a liberdade como a primeira e única das causas a que um jornalista deveria estar vinculado, se inquiete e faça meia dúzia de perguntas, a saber:

1) Onde está o despacho que determina a fiscalização da ASAE à plataforma de crowdfunding, quem o assina e com que fundamentação?

2) Sendo o poder da ASAE assente na legislação que enquadra a actividade de crowdfunding, a que propósito fiscaliza campanhas e não o funcionamento da plataforma?

3) Sendo uma campanha, qualquer campanha de crowdfunding, uma actividade privada entre doadores que voluntariamente confiam noutro privado e lhe entregam livremente recursos, a que propósito o Estado investiga uma campanha, com que objectivo e com base em que suspeita de ilícito?

4) Por último, que eventual ilícito na actividade económica de crowdfunding se pretende fiscalizar com o acesso à identidade e dados pessoais dos doadores, que diferença legal pode haver em o doador ser o Joaquim, Vladimir Putin, a Cuf Saúde ou António Costa?

5) Qual é a legitimidade do Estado para querer saber se eu contribuí ou não para a montar tabuleiros para gaios como forma de fomentar a expansão de carvalhais (o exemplo não é fictício, estive envolvido numa campanha de crowdfunding para isto mesmo)?

Pois bem, os nossos jornalistas, que questionam a transparência do crowdfunding, aparentemente estão confortáveis com a opacidade com que o Estado usa o seu poder para condicionar a liberdade dos cidadãos pedirem ou darem dinheiro para o que quer que seja.

Estranho jornalismo este que em vez de estar do lado da liberdade, está do lado da força que permite o uso discricionário e abusivo do poder do Estado para condicionar a liberdade das pessoas comuns.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Bons augúrios

por João-Afonso Machado, em 13.02.19

Costa não pode garantir que o aeroporto do Montijo é uma certeza por que esperou quase 60 anos; e no dia seguinte, matreiramente, afirmar não haverá esse aeroporto sem um prévio estudo do impacto ambiental

(a não ser conheça de antemão as conclusões do mesmo, circunstância não impossivel na reinação socialista...),

não pode Costa, dizia, perfeitamente sabedor de que mente, e habituado a mentir sem pudor, continuar a enganar os portugueses. Dando sempre uma no cravo, outra na ferradura, em nome do seu vício particular, o poder político.

A este propósito, o auto-afastamento de uma vintena de bloquistas, pelas razões que são deles, mas radicam nesta ambiguidade, vale muito mais do que vinte votos. Vale a rejeição da Esquerda, na sua coerência própria, vale um sinal claro de que, afinal, talvez Costa não tenha descoberto a galinha dos ovos de ouro, isto é, não se perpetue no governo deste pobre País.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Resultado de imagem para cgd administradores

Era evidente que uma auditoria à CGD que abrangesse 15 anos ia apanhar praticamente todos os gestores de bancos (banqueiros) do país. Portugal é um bidé. Todos se conhecem e se não se conhecem já "ouviram falar", toda a gente é parente mais próxima ou mais distante de alguém, toda a gente é amiga ou amiga de um amigo de alguém.

No caso concreto da Caixa Geral de Depósitos, há meia dúzia de bancos que dão emprego a uma geração de administradores, ou mesmo duas, e a probabilidade de  ter no currículo a passagem pela CGD (a mais recente liability do sistema financeiro português) é enorme. Só a idade e uma carreira estável de largas décadas (o que já não existe) num qualquer banco evitariam estar agora na quadratura do círculo dos administradores da Caixa Geral de Depósitos de 2000 a 2015. 

É fácil ver incompatibilidades na outra banda.

O governador do Banco de Portugal, diz-se que, tem um conflito de interesses porque esteve na administração da CGD naqueles 15 anos abrangidos pela auditoria da EY. Também já se tinha posto a questão das "suspeitas de falta de independência" quando se descobriu que tinha sido o responsável pelas offshores quando era quadro do BCP.  

A vice-Governadora Elisa Ferreira tem o marido que foi vice-presidente da La Seda, uma das empresas com o maior incumprimento de crédito à CGD. Mais uma acha para a fogueira das incompatibilidades.

Gabriela Figueiredo Dias, presidente da CMVM, é filha de um administrador do BPI (pediu escusa para assuntos relacionados com o banco).

Mas a questão das "suspeitas de incompatibilidades" é uma espiral sem fim. Paulo Macedo esteve no BCP ao lado de Armando Vara na administração liderada por Carlos Santos Ferreira. Armando Vara que por sua vez está preso.

Também se pode olhar de soslaio para o facto de Carlos Tavares, que foi durante anos presidente da CMVM, e agora estar no Montepio.

Não acabam os exemplos de "potenciais incompatibilidades".

Portugal é um país pequeno, de poucos empregos e baixos salários, como escapar a este circulo fechado e limitado de empresas e de relações? Será que a independência implica ausência de qualquer contacto? É um caso a pensar nesta caça às bruxas.

Por exemplo Berardo pediu dinheiro emprestado à CGD e deu ações como garantia. Ora isso era o pão nosso de cada dia nos bancos até 2007. Todos os bancos davam crédito assim. Todos emprestaram para comprar ações (talvez se exceptue aqui o BPI). Desde o insuspeito Santander Totta até à suspeitíssima CGD. Talvez a diferença que é importante salientar é quem, ou que banco, é que executou os colaterais quando as ações que serviam de garantia começaram a cair a pique, e quem é que o não fez e porquê? 

Por falar em incompatibilidades. Mais um exemplo de que este país é um bidé. Como é possível que em 46 operações de crédito e mais umas operações de mercado, identificadas pela EY na auditoria à CGD não tenha havido pelo menos um dos escritórios de advogados de referência a trabalhar com alguma destas empresas. Incompatibilidades? Não há escritório de advogados, que se preze, sem elas. Os advogados são caros e difíceis de contratar em Portugal. A CGD revelou que teve de contratar três escritórios (e pode não ficar por aqui) para analisar os atos de gestão daquele período para, eventualmente, colocar ações de responsabilidade civil sobre ex-gestores. Isto é o que acontece a um país com as caraterísticas do nosso.

Depois há outro tipo de "incompatibilidades", menos formais, chamemos-lhe assim. Mário Centeno é "independente de espírito" face ao Governador do Banco de Portugal que o seu ministério tutela? Pode levantar-se sempre a questão da histórica má relação entre ambos quando trabalharam juntos no Banco de Portugal.

Pode-se questionar tudo e vamos acabar a não chegar a conclusão nenhuma.

Somos um país de incompatibilidades, conflitos de interesses ... e de salários baixos.

Autoria e outros dados (tags, etc)

O crucifixo na sala de aula

por João Távora, em 10.02.19

crux1.jpg

"A fé dos outros não me diz respeito; aquilo em que acredito ou não acredito já é um trabalho a tempo inteiro. Mas admito que me faz alguma impressão a total indiferença religiosa. Não a indiferença à fé ou às igrejas, mas ao sagrado enquanto facto antropológico e alegoria do humano. Entendo, e às vezes acompanho, as críticas às intolerâncias e iniquidades das religiões organizadas, incluindo as cristãs, mas sempre achei bizarro que alguém declare, por exemplo, que nunca leu a Bíblia porque é ateu, como se a Bíblia fosse imprestável para incréus.

Uma refutação veemente desse tipo de recusas encontrei-a num artigo que a escritora italiana Natalia Ginzburg (1916-1991) publicou no jornal comunista “l’Unità” a 22 de Março de 1988. Nascida numa família laica de origens judaicas, filiada no PCI, Ginzburg interveio inesperadamente na polémica sobre os crucifixos nas escolas. Não é a questão concreta que aqui me interessa, até porque defendo que num Estado não-confessional os edifícios públicos não devem ter símbolos religiosos; mas impressionou-me a valorização simbólica que a escritora faz da cruz de Cristo, que ela não interpreta exclusivamente como um artefacto religioso. Admitindo que, se fosse professora, preferia ter a cruz na sala de aula, Ginzburg assevera que “o crucifixo não gera nenhuma discriminação” E que é, bem pelo contrário, a imagem de uma revolução, a “revolução cristã que espalhou pelo mundo a ideia de igualdade entre homens”. E, então, pergunta: vamos negar que essa ideia mudou o mundo? E vamos negar que é justo celebrá-la?

Pode contrapor-se que a cruz simboliza para muita gente alguns aspectos do cristianismo bem menos benévolos. Mas o argumento do artigo é que o crucifixo é igualmente um símbolo de todo o sofrimento humano. Os pregos e a coroa de espinhos e a cruz evocam a dor, a solidão, a morte, males aos quais ninguém está imune. Quem é aquele condenado na cruz? Filho de Deus para uns, judeu perseguido para outros, é para tantos a imagem viva de um homem martirizado pelo amor a Deus e ao próximo. E esta ideia do “próximo” não pode ser indiferente nem a um ateu, muito menos a um progressista. Jesus na cruz representa todos aqueles que sofreram e morreram pelos outros, escreve Ginzburg, e esclarece logo que não vê escândalo nenhum nessa afirmação: “Porque antes de Cristo ninguém tinha dito que todos os homens são iguais, e irmãos; todos, ricos e pobres, crentes e não-crentes, judeus e não-judeus, negros e brancos; e ninguém tinha dito que no centro da nossa existência deve estar a solidariedade entre os homens. E ser vendido, traído, martirizado e morto por causa da fé é uma coisa que pode acontecer a todos. Acho que é bom que os rapazes, as crianças, aprendam isso nos bancos da escola”.

A autora de “Léxico Familiar” [livro recenseado nesta edição] diz que olhamos para o crucifixo como coisa muda que está numa parede ou faz parte da parede, mas que o crucifixo não é mudo nem inócuo: é um símbolo que traz consigo palavras. Palavras cristãs mas que há muito fazem parte da consciência colectiva, palavras como “bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça porque serão saciados”. Pergunta Ginzburg: “Como e onde serão saciados? No Céu, dizem os crentes. Enquanto os outros não sabem nem quando nem onde, mas estas palavras fazem com que sintam, sabe-se lá porquê, a fome e a sede de justiça de forma mais severa, mais ardente e mais forte”."

 

Pedro Mexia na Revista do Expresso desta semana

Autoria e outros dados (tags, etc)

Domingo

por João Távora, em 10.02.19

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas 


Naquele tempo, estava a multidão aglomerada em volta de Jesus, para ouvir a palavra de Deus. Ele encontrava-Se na margem do lago de Genesaré e viu dois barcos estacionados no lago. Os pescadores tinham deixado os barcos e estavam a lavar as redes. Jesus subiu para um barco, que era de Simão, e pediu-lhe que se afastasse um pouco da terra. Depois sentou-Se e do barco pôs-Se a ensinar a multidão. Quando acabou de falar, disse a Simão: «Faz-te ao largo e lançai as redes para a pesca». Respondeu-Lhe Simão: «Mestre, andámos na faina toda a noite e não apanhámos nada. Mas, já que o dizes, lançarei as redes». Eles assim fizeram e apanharam tão grande quantidade de peixes que as redes começavam a romper-se. Fizeram sinal aos companheiros que estavam no outro barco, para os virem ajudar; eles vieram e encheram ambos os barcos, de tal modo que quase se afundavam. Ao ver o sucedido, Simão Pedro lançou-se aos pés de Jesus e disse-Lhe: «Senhor, afasta-Te de mim, que sou um homem pecador». Na verdade, o temor tinha-se apoderado dele e de todos os seus companheiros, por causa da pesca realizada. Isto mesmo sucedeu a Tiago e a João, filhos de Zebedeu, que eram companheiros de Simão. Jesus disse a Simão: «Não temas. Daqui em diante serás pescador de homens». Tendo conduzido os barcos para terra, eles deixaram tudo e seguiram Jesus. 


Palavra da salvação

Autoria e outros dados (tags, etc)

Fazer género

por João Távora, em 08.02.19

Gostei particularmente da argumentação do PCP contra a lei da paridade hoje aprovada no parlamento que obriga à inclusão de 40% de mulheres nas listas eleitorais, proclamada pela voz de Rita Rato que reclama não acompanhar “a ideia de que aquilo que determina a opção política de cada eleito seja o seu sexo e não a sua opção ideológica” (...) “Queremos registar que ainda na anterior legislatura houve uma presença muito significativa de mulheres no parlamento” que não impediu as “medidas tomadas por ex-ministras de Pedro Passos Coelho, como Maria Luís Albuquerque e Assunção Cristas” (que eram mulheres), rematou a deputada comunista. O PCP preferia uma lei que impusesse uma quota maioritária e significativa de deputados(as) de esquerda, já se vê.
Já Assunção Cristas podia suportar-se no facto do CDS ter actualmente um grupo parlamentar com 44% de mulheres (e liderado por uma mulher) para demonstrar a inutilidade desta lei.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Saco azul, Ana Sá Lopes?

por henrique pereira dos santos, em 08.02.19

"O facto dos enfermeiros estarem a ser pagos por um crowdfuding secreto, uma espécie de saco azul com contribuições sabe-se lá de quem - e quem sabe se dos grupos de medicina privada, que são quem está a lucrar efectivamente com esta greve - é um fenómeno novo que mancha o exercício do direito à greve.

Infelizmente, por muitas razões que tenham - e têm - os enfermeiros em greve estão a sujeitar-se à pior das suspeitas, a de que poderão estar a servir interesses concorrenciais com o Serviço Nacional de Saúde. Em nome da transparência, o mínimo era divulgar a lista de doadores."

Ana Sá Lopes, que é jornalista, resolveu suspeitar que a greve dos enfermeiros é financiada pelos grupos privados de saúde com o objectivo de destruir o Serviço Nacional de Saúde.

Pessoalmente acho uma suspeito profundamente estúpida (a suspeita, não Ana Sá Lopes, evidentemente) porque não vejo como esta greve destrua o Serviço Nacional de Saúde, não consigo perceber como os enfermeiros se poriam de acordo em destruir os seus postos de trabalho para beneficiar os accionistas privados dos grupos de saúde e não vejo a lógica empresarial de financiar o aumento dos custos do trabalho dos meus concorrentes que, por arrastamento, vai implicar o aumento dos meus custos de trabalho.

Mas saltemos por cima da minha opinião sobre a suspeita, admitamos que seria uma suspeita razoável, e discutamos o que seria normal um jornalista fazer quando tem essa suspeita, partindo do que diz Ana Sá Lopes no editorial do Público de hoje.

Diz Ana Sá Lopes que a greve é financiada por um crowdfunding secreto, demonstrando desconhecer por completo o que é um crowdfunding (é o problema de ter jornalistas com a cabeça no século XIX a escrever sobre o século XXI).

Como se pode ver aqui, o crowdfunding é tudo menos secreto, qualquer pessoa, incluindo Ana Sá Lopes, pode ir à página da campanha. E aqui tem a segunda campanha.

Se Ana Sá Lopes fizesse o seu trabalho de jornalista, em vez de se sujeitar à pior das suspeitas que pode pairar sobre um jornalista, a de que, consciente ou inconscientemente, está simplesmente ao serviço de interesses políticos que pretendem manipular os seus leitores, em vez de estar ao serviço dos leitores, abriria as páginas on line das campanhas num separador que diz "comunidade".

Aí poderia ver que houve 14 415 doações a financiar 360 297 euros, o que dá uma média de 25 euros por doação, das quais apenas 178 doações foram superiores a 100 euros (para a segunda campanha, os números são os seguintes 10 842 apoiantes, a financiar 423 945 euros, o que dá uma média de 40 euros por doação, das quais só 636 foram superiores a 100 euros).

Mais relevante para discutir a suspeita levantada por Ana Sá Lopes (muito bem acompanhada por muita gente com medo dos movimentos orgânicos da sociedade que fogem ao controlo do Estado ou das instituições que rodam à sua volta, como os mais que opacos sindicatos cuja representatividade é activamente escondida com o argumento da confidencialidade necessária à manutenção da liberdade sindical e à protecção dos trabalhadores) é verificar que o tal crowdfunding secreto, com doações sabe-se lá de quem, só tem 2 983 doadores anónimos (na segunda campanha, 2 318) podendo facilmente Ana Sá Lopes, se quiser fazer o seu trabalho de jornalista, e se tem estas dúvidas excruciantes, pegar nos outros milhares de doadores não anónimos e verificar, por amostragem, se correspondem ou não a pessoas concretas (diz-me quem fez isso que não encontrou ninguém que não fosse quem dizia ser, como aliás é normal nas campanhas de crowdfunding, seria completamente estúpido montar uma campanha de crowdfunding, que obriga ao registo de todos os participantes, incluindo o registo de todas as transferências de dinheiro, quer na plataforma, quer no sistema financeiro, para financiar secretamente o que quer que seja).

Se Ana Sá Lopes se quiser informar sobre a novidade da criação de fundos de greve, pode começar por ler um post de Raquel Varela sobre o assunto, onde facilmente descobrirá que o financiamento de greves pela comunidade tem alguns cem anos, pelo menos.

E se está mesmo preocupada com a saúde do Serviço Nacional de Saúde, o melhor mesmo é ir falar com os verdadeiros responsáveis pela sua degradação real: António Costa, que é o primeiro ministro responsável pelo subfinanciamento do sistema, em especial no que diz respeito ao investimento, Mário Centeno, que é responsável por executar uma política enganosa de inscrição de verbas no Orçamento de Estado e posterior cativação com escasso escrutínio público (incluindo de jornalistas fortemente empenhados em escrutinar o que por natureza é transparente), Marta Temido, que resolve reduzir a qualidade do serviço e aumentar o custo, como no caso do hospital de Braga sem que Ana Sá Lopes lhe pergunte insistentemente pelos estudos que justificam a decisão, os responsáveis pela ADSE que alimentam a quimera de que o Estado está a financiar os privados através da ADSE, quando o dinheiro da ADSE não é do Estado, é um fundo integralmente pago voluntariamente pelos trabalhadores do Estado que aceitam descontar 3,5% do seu ordenado para não estar estritamente dependentes de um Serviço Nacional de Saúde que pagam através dos seus impostos, mas que nem sempre corresponde às suas necessidades (o que significa que no dia em que a ADSE deixar de entendida como uma vantagem, por ser apenas usada para financiar o SNS, a ADSE deixa de ter dinheiro porque os seus utentes a abandonam), etc..

Saco azul, Ana Sá Lopes?

Saco azul foi que o Belmiro de Azevedo instituiu para financiar o Público, isso sim, é um saco azul que, por respeito pela grandeza de Belmiro de Azevedo nesse gesto, lhe competiria a si homenagear fazendo o seu trabalho de jornalista com o mínimo dos mínimos de profissionalismo e dignidade, em vez de escrever o que escreveu neste editorial.

Autoria e outros dados (tags, etc)

O PAÍS TEM O QUE MERECE!

por Vasco Lobo Xavier, em 07.02.19

Vejo na comunicação social que Centeno disse hoje no Parlamento que é falso que tenha havido aumento de impostos, justificando a afirmação com a eliminação da sobretaxa de IRS, a reorganização dos escalões do IRS, a subida do mínimo de existência e a descida da taxa do IVA na restauração. Acrescenta que o enorme aumento de impostos ocorreu em 2013 e que os portugueses pagam agora mais impostos apenas porque ganham mais. Teve ainda o topete de se referir a um “alívio fiscal”. É espantoso!

A primeira constatação que se pode fazer é desde logo que o Ministro é um charlatão, para não dizer aldrabão, que a oposição anda ali aos papéis, pois não oferece contestação a este tipo de disparates, e que a comunicação social continua a limitar-se a ser um papagaio, provavelmente a pensar numa futura contribuição do desgraçado contribuinte. Três em um.

Ora bem. A sobretaxa do IRS foi paga ainda agora, em Agosto de 2018, por muito boa gente. Gente da classe média ou mesmo remediada. O mesmo tipo de gente que, não podendo em lado algum do mundo considerar-se rica ou equivalente, paga em Portugal impostos no escalão dos mais ricos. Eu, por exemplo, e para registo de declaração de interesses.
Mexida nos escalões do IRS?!? Mas pensará ele que somos todos parvos? Que somos todos comunicação social? Que somos todos amigos da geringonça e de António Costa? As alterações nos escalões foram mínimas e não alteraram o essencial! Esta malta do PS, que tanto criticou (e continua a criticar, sem pejo nem vergonha) o enorme aumento de impostos numa altura em que o país estava a tentar sair da bancarrota em que o próprio PS o tinha colocado, praticamente mantém a coisa tal como estava! Reponha o PS os escalões que existiam anteriormente, que era o que devia fazer antes de aumentar a despesa!

É verdadeiramente inconcebível que António Costa se ponha a prometer mais aumentos na função pública antes de repor os escalões de IRS que existiam antes da bancarrota; e ninguém se incomoda com isto! A oposição cala-se, a comunicação social acomoda-se, e esta malta socialista diz e faz o que lhe apetece! E ainda se queixam de que a juventude esclarecida fuja do país!

Os portugueses pagam mais impostos porque estão a ganhar mais?!? Este tipo é um mentiroso! Uma enorme fatia dos portugueses está a pagar mais impostos ganhando o mesmo, ou sensivelmente o mesmo, mas apenas porque foram colocados em escalões diferentes de IRS perfeitamente inconcebíveis! Reponha o PS os escalões anteriores à troika, anteriores às alterações de 2013! Se está tudo tão bem, se tanto criticaram as medidas na altura, façam-no agora! Estão há três anos no governo!

Mas o que mais me impressiona é que tenha de ser eu a dizer isto! Eu tenho outra vida, outra ocupação, outro trabalho. Não há políticos na AR ou jornalistas e comentadores sérios na comunicação social que constatem estas evidências, este embuste, esta mentira? Esta geringonça mantém os níveis de impostos anteriores, os escalões de IRS impostos pela bancarrota socialista, e ainda aumenta brutalmente os impostos indirectos, e ninguém se indigna?!? No Parlamento não se oferecem contestações? Na comunicação social papagaia-se a propaganda socialista sem comentário?
Isto é um país miserável, tem o que merece!

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Parabéns a nós

por João Távora, em 06.02.19

fita-vermelha.jpg

Hoje o Corta-fitas faz 13 anos de existência, que são 13 anos de resistência: de resistência à inercia, à desistência e ao conformismo. De 2006 até hoje passou uma vida, uma crise severa, apareceu o Facebook, o Twitter e o Instagram; os blogs deixaram de estar moda e tivemos um governo sustentado pelos partidos da extrema-esquerda ao arrepio da nossa tradição parlamentar. Entretanto descobriu-se a importância das notícias falsas e do populismo e o discurso políticamente correcto refinou-se. Nada de novo, portanto. E dado que o Corta-fitas mantém uma freguesia fiel de cerca de 700 visitantes por dia em média, achamos que devemos continuar a resistir. Desculpem a maçada... dos dias sem publicações.   

Autoria e outros dados (tags, etc)

E novidades, há?

por henrique pereira dos santos, em 06.02.19

Pela enésima vez, o Governo (quando digo o Governo, não falo apenas deste governo, falo de todo os governos de há uns anos a esta parte) entretém o circo mediático com medidas de gestão dos seus trabalhadores que não passarão do papel, a não ser marginalmente.

Periodicamente o Governo inventa um esquema em que, para adequar a sua força de trabalho às necessidades, admite ter trabalhadores a receber dinheiro sem produzirem trabalho.

Numa empresa esta pode ser uma medida razoável de redução de custos com baixa contestação social (ainda assim, são medidas menos eficazes para isso que a liberalização dos despedimentos, associada a um bom sistema de protecção dos desempregados, desenhado para evitar os custos sociais da repentina perda de rendimentos, mas também para incentivar o retorno ao mercado de trabalho), situação que é limitada pelo facto dos donos da empresa não terem interesse em perder dinheiro pagando a quem não produz.

Quando se pretende transferir estes modelos de gestão de recursos humanos para o Estado, levanta-se o velho problema de uns comerem os figos e a outros lhes rebentar a boca: quem decide (o dirigente, neste caso o membro do governo responsável pelas finanças, o que evidentemente vai bloquear todo o processo e o tornar presa fácil de quem conhece exactamente como se obtém a assinatura necessária) não perde nem ganha nada por aceitar que alguém receba sem trabalhar, excepto o benefício que existe em ter muitos amigos, quem beneficia (o trabalhador) não tem qualquer incentivo para não querer esta situação, mas quem paga (o contribuinte) não tem qualquer capacidade de influenciar a decisão, tanto mais que, com a opacidade da administração portuguesa nestas matérias, nem vai perceber o que está a acontecer até estar atulhado de obrigações contratuais em que alguém o comprometeu, sem lhe dar cavaco.

O governo pretende que a percentagem do que se recebe seja negociada entre o Estado e o trabalhador, variando entre 25% e 100% do ordenado, sem ao menos explicar que critérios de decisão devem ser usados para definir esta percentagem. Lógicamente, o trabalhador vai pedir 100% do ordenado. O dirigente A vai pedir às finanças que autorize, as finanças vão-lhe responder que sendo assim, isso signifca que tem gente a mais no departamento, portanto escusa de pedir novas contratações no futuro, o dirigente A vai dizer ao funcionário que a 100% não dá, é melhor tentar a 90% para poder justificar com a diminuição de despesa, e a novela vai continuar até se chegar a um valor arbitrário qualquer.

O resultado disto vai ser que afinal é preciso definir critérios para estabelecer essa percentagem (até lá as finanças não decidem nada para não criar um precendente, porque sabem que uma vez definida uma percentagem alta num único caso vai receber uma chuva de pedidos de revisão de eventuais decisões anteriores em que, ao abrigo do princípio do tratamento igual para todos, se reivindica para todos o tratamento mais favorável, o que pressurosamente será concedido ao abrigo da equidade de tratamento dos seus trabalhadores a que o Estado está obrigado).

Nessa altura um ministro das finanças qualquer faz um despacho (discricionário, não escrutinado pelos poderes democráticos) que estabelece uma percentagem qualquer (muito provavelmente, um esquema complexo de percentagens com critérios fundados nas categorias profissionais envolvidas, no tempo até à reforma, e por aí fora, esquema esse cujos buracos vão, mais uma vez, permitir um aproveitamente favorável por parte de quem passa o tempo a pensar como sacar dinheiro ao Estado, em vez de estar a trabalhar, que é uma das categorias mais especializadas entre os trabalhadores em funções públicas, normalmente facilmente reconhecível pelo número de horas de formação e participação em seminários destes trabalhadores especializados).

Se essa percentagem for baixa, o assunto morre aí porque não há adesão dos trabalhadores.

Se a percentagem for alta, há uma corrida a estes processos, que chocará nas recusas sistemáticas de aprovação por parte das finanças, com excepção de alguns casos isolados por razões nem sempre fáceis de identificar (no meu caso, beneficiário de um destes esquemas, tinha-se inventado uma regra em que os serviços em reestruturação podiam tomar a decisão em vez das finanças e dava-se o caso do presidente do serviço onde eu trabalhava ter um especial gosto em me ver pelas costas, que coincidia com o meu especial gosto em ver as costas do Estado, naquela altura).

O resultado será o resultado já obtido em todos os esquemas anteriores: afinal a situação é escandalosa e é preciso acabar com o despesismo criado pelo governo anterior, extinguindo este esquema manhoso (no meu caso, o Estado começou por alterar unilateralmente o contrato que tinha celebrado, reduzindo a remuneração em 50%, depois foi alterando uma série de outras condições para corrigir o problema financeiro que tinha criado e, mais tarde, acabou definitivamente com o esquema, com a ressalva de umas excepções para quem tinha mais de 55 anos).

Nada disto é muito relevante, no sentido que isto é o esquema habitual de gestão de recursos humanos do Estado, fortemente influenciado pelos sindicatos, que na verdade recusam violentamente qualquer passo que possa ir no sentido em que é preciso ir: aumentar a liberdade de gestão dos gestores públicos, aumentando a sua responsabilidade pessoal e financeira nas decisões tomadas, de modo a que progressivamente se caminhe na resolução dos dois cancros centrais da administração pública portuguesa: 1) a ausência real de distinção entre funcionários bons e maus, com claros reflexos na progressão de carreira e na remuneração; 2) a mais absoluta irresponsabilidade das chefias intermédias, para quem a opção mais inteligente, no actual contexto, é não fazer ondas, não fazer nada, nunca assumir responsabilidades e dizer que sim aos maiores absurdos do mundo, desde que as instruções tenham vindo por escrito, mesmo que numa língua de pau em que ninguém perceba o que foi decidido, desde que eu possa dizer que a responsabilidade não foi minha.

O exemplo que costumo usar como a verdadeira caracterização do funcionamento da administração pública é o da decisão sobre o Estudo de Impacte Ambiental do campo de golfe de Carlos Melancia, há já mais de vinte anos: depois de um processo muito conturbado, um serviço público faz uma longa informação em que propõe duas hipóteses de decisão incompatíveis (não me lembro se eram mais de duas, mas pelo menos duas eram de certeza), a ministra da altura (Elisa Ferreira) exara um despacho exemplar perante as duas hipóteses de decisão "concordo" e, até hoje, ninguém sabe com qual das hipóteses concordou Elisa Ferreira, e o campo de golfe foi construído (e entretanto destruído por falência do promotor), sem que se consiga identificar quem foi o responsável por essa decisão.

O estranho é apenas o ar sério com que imprensa noticia estas faenas administrativas, como se isto não fosse apenas uma garraiada para entreter a plateia.

Autoria e outros dados (tags, etc)

JornadasMundiais.jpg

Estranho (ou talvez não) é verificar a animosidade de uma certa elite intelectual que se arroga defensora das liberdades e da igualdade em teoria, mas que fica profundamente acossada com a sua prática no concreto. Será certamente uma maçada para ela ver Lisboa invadida por jovens em festa, vindos de todos os cantos do mundo, de diferentes línguas, raças e nações, a encher Lisboa por amor de Jesus Cristo e à Sua Mensagem, apenas com uma linguagem comum: a generosidade de que sejam capazes, a sua Fé, energia e poder de reivindicação que lhe é intrínseca. Julgo que esse rancor se explica pelo temor e incompreensão daqueles que nunca experimentaram a Liberdade profunda que nos devolve uma Fé sincera e cultivada. Afinal é com os joelhos no chão e os olhos no céu que nos redimimos e libertamos, e isso, hoje como há 2000 anos, é uma verdade chocante aos olhos do mundo. 

Como é bom de ver, mas não conveniente aprofundar, é nessa prática cristã, que testemunhamos o desabar das fronteiras nacionais num benigno multiculturalismo realizado, porque fundado sobre a rocha dos mais basilares valores fundamentais da humanidade: «Amarás a teu próximo como a ti mesmo. Maior do que estes não há mandamento algum». Esta é a chave desse mistério, o legado de Jesus Cristo. No princípio os cristãos distinguiam-se pela alegria e amor que irradiavam, “olhai como eles se amam”, um desafio que ainda hoje enfrentamos. E quem conheça a vida da Igreja nas nossas cidades, sabe muito bem como é normal celebrarmos uma Eucaristia presidida por um sacerdote africano de pele retinta e ajoelharmo-nos lado a lado com um individuo ou família de diferente condição económica, da mais exótica etnia ou cor de pele, sem que isso esmoreça o fervor da oração comunitária.
Ao fim de 2000 anos temos de nos perguntar se haverá caminho alternativo para a humanidade que não a mensagem de amor cristão emanado de Jesus Cristo. Porque será que esta proposta de harmonia não vos serve? Porque será que os dois milhões de jovens de tantas e distintas pátrias e continentes reunidos no Panamá em torno do Papa Francisco causam tanto incómodo à intelectualidade bem pensante europeia? Porque estas reuniões constituem a desconstrução da Luta de Classes e do Marxismo Cultural que nos querem impingir aqueles que há séculos  prometem acabar com a Igreja de Pedro?

Como aconteceu nos diferentes grandes eventos católicos sucedidos em Portugal desde a visita de Paulo VI, sempre que foi dado protagonismo devido à juventude generosa e entusiástica, estes acontecimentos resultaram no reforço do catolicismo, mas principalmente foram ocasião para muitas mentes inquietas (e que perigo é a inquietação para o status quo), de gente inconformada com a precariedade das respostas do tempo, se converterem ao desafio que Jesus Cristo a todos propõe.
No fundo a grande ameaça que constituem as Jornadas Mundiais da Juventude em Lisboa em 2022 é o reforço dessa identidade cristã neste extremo da Europa, fervorosamente laicista, tecnocrática, economicista e anódina, que preconiza tornar a nossa gente meros consumidores divididos em segmentos de mercado. Um continente em que a caridade (leia-se Amor) se quer desligada das pessoas, regido por um algoritmo legal, sem alma, sem identidade, sem pertença... sem consequência. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Trivialidades de um mundo rural invisível

por henrique pereira dos santos, em 04.02.19

É possível que quem me leia regularmente saiba que sou, até ao fim deste ano, presidente de uma associação de conservação da natureza, provavelmente a única que, simultaneamente, assume um âmbito nacional e tem sede numa vila de pouco mais de mil habitantes.

Por razões que agora não interessam, essa associação gostaria de ter a possibilidade de ter pelo menos uma casa alugada em uma das aldeias da região, perto de propriedades geridas por nós (a associação centra a sua actividade na gestão de terrenos com objectivos de conservação, não é uma associação que sirva para influenciar políticas favoráveis à conservação da natureza).

Qualquer pessoa que tenha tentado alugar casas em grande parte das aldeias do mundo rural mais despovoado sabe que, de maneira geral, há muitas casas vazias, ou vazias na grande maioria do ano (para nós não levantaria qualquer problema manter o uso dos proprietários parte do ano), mas há uma baixíssima disponibilidade de casas para alugar. Sobretudo se não for alguém da aldeia ou que não conheça bem alguém na aldeia.

Depois de muitas voltas, indicaram-nos uma pessoa que poderia estar disponível para nos alugar a casa, visitámos a casa, identificámos as dificuldades inerentes às condições em que estavam, mas tudo se resolveu e acertou-se um preço para o aluguer: 100 euros mensais.

Mas, e aqui começa o post depois desta longa introdução, o dono queria cem euros líquidos, ou seja, ou cem euros sem recibo (o que acontece na generalidade dos casos neste mundo rural em que Judas perdeu as botas), ou o contrato teria de ser feito por 140 euros, para que, retirados os 28% de taxa liberatória do IRS, o dono ficasse com os tais 100 euros.

Vejamos o que isto quer dizer na prática.

Neste caso uma associação, mas poderia ser uma pessoa, uma empresa, seja o que for, quer levar gestão do território até onde faz falta, quer contrariar o quadro geral de abandono, quer levar gente nova para uma aldeia onde só há gente que agradece profundamente um bocadinho de atenção, para isso precisa de uma casa e o que faz o Estado para apoiar esse conjunto de benefícios colectivos que resultam desta opção?

Aumenta os custos, por via fiscal, em 40% (sim, a taxa são 28%, mas para receber cem euros líquidos, o dono tem de pôr o preço 40% acima do que quer receber).

Esta é só uma das milhares de pequenas decisões do Estado (e da sociedade) que, reconhecendo o problema do abandono da gestão em grande parte do território, na prática cria regras que em vez de contrariar esse abandono, acentuam as dificuldades de quem opta por gerir território.

É assim com as kafkianas regras da produção pecuária (a generalidade das pessoas não fazem ideia do peso regulamentar e das exigências que são feitas à mais pequena das instalações pecuárias, seja directamente na produção, seja numa pequena queijaria artesanal), é assim com as impressionantes regras para o abate de animais, que liquidam qualquer veleidade de valorizar pequenas produções pela exploração de mercados de nicho dispostos a pagar a diferenciação usando canais directos de comercialização, é assim com os pesados custos de contexto na compra e venda de terrenos, por mais pequenos que sejam, é assim com as absurdas regras de gestão de combustíveis junto de casas, estradas, infraestruturas, etc., é assim com o tratamento fiscal dado a pequenos produtores ou aos trabalhos eventuais e temporários inerentes à opção por explorações agrícolas de microdimensão não especializadas, e poderia dar mais não sei quantos exemplos, alguns deles completamente ridículos, como as regras para a realização de campos de férias, de tal maneira absurdas que exigem condições de espaço à mesa para as refeições que qualquer família numerosa não cumpre em sua casa, liquidando a possibilidade de acrescentar mais meia dúzia de euros à facturação através da prestação desse tipo de serviços (claro que são prestados na mesma, por muita gente, porque a pormenorização das regras é inversamente proporcional à capacidade do Estado verificar o seu cumprimento, mas não deixa de ser um risco relevante que muita gente não está disposta a correr).

O mesmo Estado que passa o tempo a impor obrigações a toda a gente que queira fazer qualquer coisa neste mundo rural invisível, é o Estado que, naquilo que lhe competiria, não cumpre, sendo miserável a segurança de pessoas e bens que garante, já nem falando da gestão do fogo, não têm conta os roubos, sejam de gado, de pivots, de paineis solares, de cortiça, de pinha (como o Estado não consegue assegurar uma presença suficientemente dissuasora do roubo de pinhas, inventa um complicado sistema de prazos para a colheita de pinha que inferniza a vida dos proprietários, mas teoricamente facilita o controlo dos roubos), de casas, de fruta, de azeitona, de madeira, que qualquer jornalista minimamente interessado no mundo rural poderia documentar facilmente (e por que razão haveria um jornalista de se interessar pelo mundo rural, se os seus leitores não querem saber disso para nada?).

É o mesmo Estado que desvia os milhões do Fundo de Coesão para financiar os metros de Lisboa e Porto, ou os autocarros eléctricos de Lisboa, com o pretexto da descarbonificar a economia, mesmo à custa do aumento da macrocefalia, mas é incapaz de pôr de pé um sistema de transporte a pedido que libertasse todos os velhotes que vivem por estes pagos mas não guiam, permitindo-lhes ir à vila quando lhes fosse conveniente, sem ser à custa da generosidade dos vizinhos (quando existem e podem ajudar neste aspecto) ou dos custos do táxi que mandam vir de outro lado para lhes resolver a vida, resolvendo também os milhares de quilómetros de carreiras cheias de ausentes que circulam por trajectos pouco convenientes, a horas pouco convenientes, porque alguém decidiu que isso é que é o transporte colectivo adequado a estes mundos de baixa densidade populacional.

E é o mesmo Estado que se recusa a pagar a gestão de serviços de ecossistema a quem os presta, para resolver a falha de mercado que está na base do problema dos fogos como o conhecemos (o Governo tem andado, nos últimos dias, a encher a boca com dois milhões que vai gastar neste Orçamento de Estado em pagamentos de serviços de ecossistema, mas não vale a pena deitar foguetes, não se trata de um programa em que o Estado apoie as melhores candidaturas, com maior efeito demonstrativo e replicativo, de gente que anda por aí a gerir serviços de ecossistema com utilidade social e que o mercado não remunera, trata-se de uns programas piloto em áreas que o governo decidiu, para fazer o que o governo decidiu e suspeito que grande parte desses milhões retornam ao Estado: o governo fala sempre em apoiar os proprietários e os municípios, o que na lingua de pau normal neste tipo de políticas costuma dizer os municípios com alguns proprietários que lhes sejam próximos).

Francamente, que o post vai muito longo, estou farto de anúncios de milhões para desenvolver o interior (o que nem sei o que seja), o que queria mesmo é que o Estado percebesse que tem é de deixar de moer o juízo às pessoas, criando-lhes dificuldades desnecessárias e, por exemplo, limitar-se a dizer que em todas as freguesias não urbanas com menos de X habitantes (escolham lá um número qualquer) os impostos associados ao arrendamento de uma casa são ZERO.

O resto as pessoas vão fazendo, se o Estado quiser ajudar a resolver as falhas de mercado, óptimo, mas se não quer, ao menos não complique aplicando as mesmas regras ao matadouro de Lisboa e à Quinta Lógica.

Autoria e outros dados (tags, etc)


Pág. 1/2



Corta-fitas

Inaugurações, implosões, panegíricos e vitupérios.

Contacte-nos: bloguecortafitas(arroba)gmail.com




Notícias

A Batalha
D. Notícias
D. Económico
Expresso
iOnline
J. Negócios
TVI24
JornalEconómico
Global
Público
SIC-Notícias
TSF
Observador

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes

  • António

    Não, não, foi o Passos Coelho. Foi o Passos Coelho...

  • Anónimo

    E quem é que estava sentado ao lado dele? E quem é...

  • Anónimo

    VARANDAS É COM LETRA MAIÚSCULA! (CADA UM FAZ O QUE...

  • Anónimo

    Há ursos que chegam a atravessar as paredes das ca...

  • Anónimo

    varandas promove na tv a prata da casa para a vend...


Links

Muito nossos

  •  
  •  
  • Outros blogs

  •  
  • Links úteis


    Arquivo

    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2018
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2017
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2016
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2015
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2014
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2013
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2012
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2011
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2010
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2009
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2008
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D
    157. 2007
    158. J
    159. F
    160. M
    161. A
    162. M
    163. J
    164. J
    165. A
    166. S
    167. O
    168. N
    169. D
    170. 2006
    171. J
    172. F
    173. M
    174. A
    175. M
    176. J
    177. J
    178. A
    179. S
    180. O
    181. N
    182. D

    subscrever feeds