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Quando apareceu nos jornais a colaboração informal que Lacerda Machado dava ao Governo, António Costa fez umas larachas sobre a falta de importância do assunto e, formalmente, disse coisas extraordinárias:
"2. Apesar de não existirem quaisquer razões para pôr em causa a colaboração tal como tem vindo a ser prestada, julguei atendível a critica de que a forma dessa colaboração podia significar a desconsideração do valor do trabalho.
3. Por isso, dei instruções para que fosse formalizada a contratação do Dr. Diogo Lacerda Machado como consultor do gabinete do Primeiro- Ministro".
Zero de sentido de Estado e zero de compreensão da natureza das relações entre o Estado e os seus servidores, mas isso não é de estranhar em António Costa: não se pode esperar das pessoas mais do que podem dar.
O que é de estranhar é a ligeireza com que a sociedade (e os mediadores de comunicação) olham complacentemente para o assunto, considerando-o uma questão menor.
Se tivesse sido um caso isolado talvez não fosse grave deixar passar o assunto, tal como cada um dos casos isolados de Sócrates talvez não tivessem importância em si, mas não é disso que se trata, o que se trata é de um caso (tal como em Sócrates, pesem as diferenças) que pode reflectir, e no caso reflecte, um padrão de comportamento no uso do poder.
Já deverei ter escrito algures sobre a situação de uma dirigente que, estando em exercício de funções na sequência de um concurso público, aceita ser exonerada com o fundamento previsto na lei (reorientação dos serviços, ou qualquer vacuidade semelhante, que em politiquês depois se explica dizendo que é uma questão de perfil das pessoas, não é uma questão de competência ou de inadequação à função) para imediatamente ser nomeada, em substituição de si própria, para a mesma função, de forma a garantir a tal nova orientação aos serviços (que todos se abstêm de explicar em que consiste).
Não é verdade que este tipo de actuação, e a falta de escrutínio público sobre a gestão do Estado que lhe está na base, tenham nascido com este governo, bem pelo contrário.
Aliás, para responder a este tipo de questões, Passos Coelho inventou um sistema complicadíssimo, gerido por um louco para quem as regras da lei eram bem menos importantes que a sua opinião. O erro de Passos Coelho foi manter a ficção de que tudo estava mais ou menos resolvido em matéria de nomeações ao atirar o problema para cima de uma comissão, sobre cuja actuação faltavam claramente mecanismos de escrutínio e avaliação de resultados. Mais ainda, quando os frágeis mecanismos de escrutínio (Comissão de Acesso aos Documentos Administrativos, Provedor de Justiça, mesmo o tribunal, no único caso que chegou ao tribunal) apontaram para uma actuação claramente ilegal, ilegítima e prepotente, Passos Coelho fechou os olhos e não mexeu uma palha para pôr a CRESAP na ordem, impondo regras de funcionamento que lhe dessem transparência e permitissem o seu escrutínio sério.
Foi a falta de credibilidade da CRESAP que abriu o caminho para que os amigos de Costa (muitos deles ostentam nas suas páginas das redes sociais, em lugar de destaque, fotografias com Costa) dominassem esmagadoramente os lugares dirigentes da administração pública, contribuindo para a degradação profunda em que se encontra o aparelho de Estado, totalmente capturado pelos interesses dos governos (na melhor das hipóteses), pelos interesses dos partidos (na generalidade dos casos) e pelos interesses particulares ilegítimos (nos casos mais graves que os dois primeiros facilitam).
Discute-se agora, tarde e a más horas, a relação entre esta opção pela ocupação dos lugares dirigentes da administração pública e a ineficiência da administração em sectores chave da acutação do Estado. Grande parte destas pessoas têm como principal qualificação a certeza da sua fidelidade às linhas gerais de comunicação do governo (essa é, mais que a fidelidade partidária, a característica mais evidente de grande parte das nomeações feitas por este governo), independentemente do interesse que a sua nomeação tenha para garantir que o Estado serve as pessoas comuns e respeita o dinheiro dos contribuintes.
Não, não é só na protecção civil, ou na defesa, ou nas florestas que a questão se põe: a gangrena da incompetência e irresponsabilidade é transversal a todo o Estado, não começou com este governo, longe disso, mas é uma das identidades centrais deste governo.
O que, aparentemente, a comunicação social considera um assunto menor a que só párias do jornalismo, como o Correio da Manhã, ou Sandra Felgueiras, dedicam algum tempo e esforço.
Os outros, os gigantes da profissão, não perdem tempo com ninharias destas.
No Verão do ano passado, António Costa, afirmou que “tinha esperança que as férias tivessem dado ao doutor Passos Coelho alguma imaginação…” Será que agora, após umas férias no estrangeiro (só um boçal PM goza férias em Portugal), o PM nos dará um exemplo do que é a imaginação estival?
Só eu é que acho que há um paradoxo entre estas duas sentenças?
"EN236 só foi fechada depois de se saber das mortes [a GNR não fechou a estrada porque não recebeu ordens para isso]"
e
"Primeiro-ministro mantém confiança política na ministra da administração interna"
Ou entre estas:
O ministro da Defesa, Azeredo Lopes, disse em Castelo Branco que assume a "responsabilidade política" após o furto de material de guerra em Tancos pelo "simples facto de estar em funções".
e
Pedro Nuno Santos "As demissões têm muitas vezes consequências perversas”. "Não se devem misturar incêndios e Tancos. Nem fazer rolar cabeças”.
Em Tancos o caso de incompetência é tão grande que até já veio o Chefe de Estado-Maior do Exército, o General Rovisco Pais em salvação do Governo dizer que aos deputados que assumia as responsabilidades do assalto ao paiol de Tancos, ilibando totalmente o poder político pelo sucedido dizendo "todas as responsabilidades pelas falhas de segurança foram militares".
E isto a espuma dos nossos dias. Os políticos a dizer como devemos pensar. Devemos não pedir explicações ao Governo, não pedir a demissão dos Governantes perante a morte cruel e excusada de 64 pessoas em Pedrógão e perante o enorme assalto de material de guerra nas barbas dos militares, que nem se davam ao trabalho de guardar o paiol. Devemos sim criticar o líder da oposição porque sim, e ridiicularizar Cristas só porque é mulher e pede demissões descaradamente deste Governo imaculado pelo detentores do poder de formar opinião.
O Governo já nem se mexe com as críticas da imprensa ou de opinion makers, só as tiradas de Marcelo o levam a fazer comunicados e a explicar-se. Foi o estado a que chegámos.
A notícia de que o primeiro-ministro tinha ido de férias, em plena crise do furto de armas de guerra em Tancos e após o trágico incêndio de Pedrógão Grande, foi avançada pelo jornal i, e é desde essa altura o tema da atualidade.
António Costa e o Governo admitem os erros todos, mas depois "mantém a confiança"; "não se deve fazer rolar cabeças", etc
Pior, o primeiro-ministro até se deu ao luxo de ir de férias. Para não ter que ser confrontado com a demissão do ministro da defesa, como foi com a ministra da administração interna.
Quando explicou a resposta ainda foi mais hilariante. Resposta: "As férias de António Costa já tinham sido planificadas e que o chefe do Governo está sempre contactável”.
Ena! Ninguém diria que em pleno século XXI o primeiro-ministro, tal como qualquer pessoa, não estivesse contactável.
Os jornais espanhóis é que chamaram o tem da fragilidade do Governo com a tragédia de Pedrógão (El Mundo)
Os jornais espanhóis é que deram a lista exaustiva da enorme lista de armas de guerra roubadas nas barbas do exército no paiól de Tancos (El Jornal)
E são mais uma vez os jornais espanhóis que põem a nú o ridiculo num artigo irónico (El País):
O jornalista começa o artigo por lembrar que Portugal é o terceiro país mais pacífico do mundo, para logo sublinhar, que é “tão pacífico” que na semana passada “uns estranhos foram à base militar de Tancos e levaram num carro armas sem que ninguém os impedisse”.
“Desde há cinco anos, Tancos, situada 120 quilómetros a noroeste de Lisboa, tem o sistema de videovigilância avariado, os sensores de movimento também não se mexem, a vedação não aguenta uma tesourada, e as 25 guaritas estão de tal forma devolutas que é melhor que nenhum soldado arrisque nelas a sua vida”, prossegue em tom irónico.
O correspondente do El Pais faz notar a seguir que os militares a quem cumpre passar ronda às instalações “vão rezando para que nada os ataque porque só se poderiam defender de uma cacetada”.
Em seguida, Javier Martín dá como certo que “os assaltantes chegaram num camião, fizeram um buraco na rede e foram até uma vintena de paióis mas só entraram naqueles onde estava o material de que necessitavam”. “Até no frigorífico lá de casa demoram mais tempo a encontrar os iogurtes”, escreve o jornalista.
“Depois de conhecer o Exército que cuida de Tancos, se Portugal não ficar em primeiro lugar no índice Global de Paz em 2018, será uma injustiça de pegar em armas”, conclui o jornalista.

Às voltas com as biografias de Gonçalo Ribeiro Telles e Henrique Barrilaro Ruas, deparo-me com este cartaz da Comissão Eleitoral Monárquica, fundada por Henrique Barrilaro Ruas na sequência da chamada "primavera marcelista", concorrente às eleições de 1969 em que terá obtido "uma votação demasiado expressiva que o regime não podia tolerar". A este movimento sucederá em 1971 a Convergência Monárquica que reunia os militantes dos vários grupos existentes (e como é difícil conciliar monárquicos!). Como curiosidade registe-se que em 1973 os organizadores do 3º Congresso da Oposição Republicana em Aveiro concederam alterar o nome do evento para Congresso da Oposição Democrática para acolher uma delegação desta organização monárquica.
Continuo sem perceber a razão pela qual quase ninguém se interroga sobre o facto de não ter havido um alerta geral imediatamente a seguir ao assalto ao paiol de Tancos. Não se interroga nem pede responsabilidades.
O programa de sapadores florestais foi criado para "garantir a existência de estruturas dotadas de capacidade e conhecimentos específicos adequados que, ao longo do ano, desenvolvam, com caráter permanente e de forma sistemática e eficiente, ações de silvicultura preventiva e simultaneamente ações de vigilância e de apoio ao combate de incêndios florestais".
A existência deste programa é um dos grandes consensos entre os envolvidos na gestão florestal, no entanto, muito provavelmente - e digo provavelmente porque não existe avaliação séria de resultados - é um programa caro e ineficiente.
Primeiro porque ao segregar completamente a silvicultura preventiva do combate, o que estamos a fazer é deitar dinheiro à rua, criando oportunidades de combate que não são usadas.
Em grandes fogos, o que é possível fazer não é exactamente o combate directo (muito menos com água) mas levar os fogos à extinção retirando-lhe o combustível de que se alimenta. Como é virtualmente impossível retirar todo o combustível (e é duvidoso de que essa fosse uma boa solução, mesmo que fosse possível), o que se procura fazer é criar áreas em que a redução do combustível obriga o fogo a perder intensidade e, nessa circunstância, permitir o combate directo (em casos muito favoráveis, o fogo pode auto-extinguir-se, sem combate, mas o melhor seria correr e não confiar demasiado na Virgem).
Mas os nossos bombeiros, de maneira geral, ignoram as oportunidades de combate criadas pela silvicultura preventiva e, por isso, todo o sistema que montámos, mesmo quando é executado, tem um impacte relativamente pequeno na gestão dos grandes fogos, em especial em condições meterológicas extremas.
O que me parece mais relevante é que, em média, estas equipas de sapadores (que na verdade pouco combate fazem), tratam cerca de 40 hectares de combustíveis por ano, isto é, mesmo que existissem as 500 equipas previstas, apenas seriam tratados, anualmente, 20 000 hectares de combustíveis, muito longe, portanto, dos 200 mil que precisaríamos de gerir, se contarmos 4% dos seis milhões de hectares dos espaços florestais, ou 100 mil no caso de apenas contarmos os povoamentos.
Como os sapadores são pagos pelo Estado central em 50%, quem os recebe (a maior parte, associações florestais, mas também autarquias) fica muito satisfeito por ter cinco trabalhadores por metade do preço, portanto não contesta a existência deste programa (até porque os sapadores podem mesmo ser úteis para a gestão, embora sejam marginais para a gestão do fogo, salvo algumas excepções).
Ora havia outra maneira bem mais eficiente de desenhar esta política pública, que seria o Estado concentrar-se nos resultados e, em vez de apoiar uma solução pré-formatada, no fundo, apoiar qualquer actividade que garantisse os objectivos de gestão estabelecidos.
Ou seja, em vez de sapadores cuja aprovação depende de um processo burocrático cheio de alçapões, o Estado contrataria resultados (por concurso), independentemente da forma de os obter: com equipas de sapadores, se fosse essa a melhor solução, com gado, com fogo controlado, com resinagem, não interessa: desde que os resultados contratados aparecessem, eles seriam pagos.
Tal como a situação está, sem avaliação séria de resultados e com os agentes sem qualquer incentivo para procurar melhores soluções na gestão dos matos (mesmo que as quisessem fazer, o Estado não os apoiaria), a solução vai-se tornando mais pesada, mais burocratizada e com resultados cada vez mais medíocres.
Talvez fosse a altura de avaliar o desempenho dos sapadores, de forma global, e avaliar se o apoio directo às actividades económicas que façam gestão de combustíveis, não seria muito mais barato, mais criador de emprego e riqueza e muito mais eficaz que o sistema actual.
Segundo esta notícia e a propósito dos estragos causados no Convento de Cristo na sequência da rodagem de um filme e noticiadas a 02 de Junho na RTP, considera o Ministério da Cultura (MC), através da Direção-Geral do Património Cultural (DGPC) "as situações descritas no referido programa [emitido a 2 de junho], 'carecem de rigor e revelam desconhecimento científico', levando ao empolamento e à adulteração de factos". Mais, a mesma entidade diz "atestar que as filmagens foram antecedidas de uma avaliação criteriosa”. Infelizmente, temos sido bombardeados, nas últimas semanas (e a propósito do que se passou em Pedrógão Grande) com inquéritos contraditórios. Este, da DGPC, é mais outro que nos deixa algumas dúvidas quer pela informação prestada pela RTP quer por alguns funcionários que não se quiseram identificar. Mas nem tudo deve ter sido feito com o tal rigor pois outra notícia refere que a mesma DGPC revelou que foi já iniciada a revisão do Regulamento de Utilização de Espaços "com o propósito de uniformizar critérios de utilização e reforçar as exigências às empresas que solicitam o aluguer". A nota da DGPC adianta ainda outra medida: a criação de uma "unidade interna permanente nos serviços centrais" da DGPC, "que se pronunciará previamente sobre todos os aspetos de segurança relativos às pretensões de utilização dos espaços, tanto a nível patrimonial, como humano". Se tudo correu bem e com avaliação prévia rigorosa, porque se altera agora o Regulamento de Utilização de Espaços?
Recentemente (em declarações ao Expresso de 10 de Junho), na sequência dos acontecimentos no Convento de Cristo e também a propósito de festas privadas no Mosteiro dos Jerónimos e exposição de carros elétricos no Museu dos Coches, o Ministro da Cultura declarou que “a rentabilização dos monumentos é necessária para a sua manutenção e preservação” e acrescentou que “as festas privadas não me chocam, não são um problema”. Ora acontece que uma parte significativa do Património Cultural foi construído para o culto religioso e tem ainda, apesar dos séculos, um significado que traduz a sua natureza. Por esta razão e também atendendo ao acordado na Concordata o Estado Português deveria ter mais respeito pelas tradições e significados religiosos do povo português.
O que atualmente se passa no Mosteiro de Alcobaça é um bom exemplo do desrespeito pelas pretensões dos paroquianos de Alcobaça que têm no Mosteiro a sede da sua Paróquia. Pretendem apenas que seja colocada, a expensas próprias, a colocação de uma porta interior de vidro na Capela do Senhor dos Passos (também conhecida por Capela do Santíssimo), já que esta porta, sendo transparente e mesmo quando fechada, permitiria o acesso visual e ao culto do Santíssimo Sacramento quer dos paroquianos quer de todos aqueles que visitam este espaço. Acontece que num primeiro momento foi dada autorização, pela Direção do Mosteiro de Alcobaça, para a colocação da referida porta mas quando a mesma foi efetivamente colocada, a DGPC (tão zelosa de regulamentos) exigiu a remoção da referida porta de vidro. Apesar das insistências do Pároco, de uma petição pública lançada pelos paroquianos (que recolheu, localmente, não incluindo as eletrónica, cerca de 1.300 assinaturas) e ainda pelas questões levantadas pelos deputados (curiosamente do PS) do Distrito de Leiria ao Ministro da Cultura, a situação mantém-se inalterada. Saliente-se que o Estado destruiu, no início do Sec. XX, três Igrejas em Alcobaça e por esta razão o Mosteiro é, também, a Igreja da Paróquia de Alcobaça.
Ou seja, para festas e eventos que gerem receitas não há problemas para os atuais responsáveis do MC mas para a uma simples alteração de uma Capela (que até daria mais visibilidade ao património construído) a resposta é negativa (o popular “não porque não”) sem qualquer explicação justificativa.
Exorta o Papa Francisco: “Que a Igreja esta sempre de portas abertas”. No Mosteiro de Alcobaça o Estado entende que a Porta da Capela do Santíssimo esteja fechada!
Augusto Santos Silva, Ministro dos Negócios Estrangeiros do governo da geringonça, veio afirmar pomposamente que se está a desenvolver "todas as medidas para reaver o material [de guerra] roubado". Deve tomar-nos a todos por jornalistas, por parvos.
É que a nenhum jornalista ocorreu perguntar o que foi feito realmente e se efectivamente foi feita alguma coisa. É que eu não consigo compreender, perante a dimensão do assalto e a gravidade do material furtado, como é que o governo não fez nada de imediato, que era quando deveria ter reagido.
Não houve um alerta geral mal se conheceu o furto, não se viram barreiras nem estradas barricadas, controlo de camiões, de mercadorias, de pessoas, perímetros cercados, não vimos as fronteiras fechadas nem policiadas. Portugal deveria ter-se separado de Espanha e toda a península ibérica deveria ter sido, na hora, separada de França, mas não se fez nada!
Apelos à população, cartazes, avisos, visionamento de câmaras de vigilância, mais polícia nas ruas, mesmo militares nas estradas, mais operações de auto-stop, não se viu nada! A porcaria da geringonça deste governo não fez nada (e suspeito que por questões políticas, para esconder e abafar o caso, o que é mais grave!). Este governo não soube ou não quis reagir, não vale nada!
Perante o assalto, perante a quantidade enorme de armamento, munições e explosivos furtados, as nossas autoridades não fizeram nada! Não se viu nada! Continuou tudo na mesma, e António Costa foi de férias. Diz-se que para a praia, onde nada!

Com a morte de Medina Carreira perde-se uma voz incómoda e insubmissa, que contracorrente abordava a realidade sem paninhos quentes, discurso antagónico ao destes novos tempos dos afectos, reversões e abracinhos. O lamaçal permanece debaixo dos nossos pés, não vamos enganados e por isso nunca saberemos agradecer-lhe. Deus o tenha na Sua eterna Glória.
Não sei o que seria o António Costa a governar o país sob resgate, com a Troika de um lado e as grandoladas do outro: com duas crises em 15 dias mete logo férias, não pode com uma gata pelo rabo. Como já não há reversões a fazer, podiam ir todos de férias, para o sitio onde há meses se escondem o BE e o PCP que ninguém notava.
O rápido aproveitamento político dos inimigos do eucalitpto que está a ser feito é tanto mais irracional quando, a terem sucesso na campanha desencadeada, o resultado será mais eucalipto e pior gestão da produção do eucalipto e do território.
Na verdade o eucalipto não passa de um espantalho nesta discussão sendo usado por demagogos politicamente empenhados, e aceite por uma enorme quantidade de bem intencionados que estão convencidos de que se, num piscar de olhos, todo o eucalipto do país fosse erradicado, a área que hoje ocupa se transformava, miraculosamente, em frondosos carvalhais maduros.
Por isso uma das linhas de argumentação que tem sido usada é a desvalorização do que hoje se sabe, a partir da investigação científica, sobre a relação entre a produção de eucalipto e a conservação do solo, da água e da biodiversidade: como em quase tudo, os efeitos (positivos ou negativos) da produção de eucalipto sobre esses factores, tal como a sua relação com o fogo, depende essencialmente dos modelos de gestão adoptados, e consequentes práticas silvícolas, e não da espécie em si.
Na falta de argumentos sólidos fornecidos pela investigação científica (é tristemente ridículo o esforço de João "Lysenko" Camargo listar uma longa séria de papers científicos que supostamente dariam suporte ao que diz e ler as reacções dos autores de algumas das referências mais importantes dessa lista tentando explicar-lhe que teria sido útil ler antes o seu conteúdo, para verificar que dizem o contrário do que pretende João "Lysenko" Camargo) a técnica, velha e relha, é dizer que os investigadores são avençados das celuloses. Este assunto não merece mais que a curta resposta de José Miguel Cardoso Pereira (um dos visados) lhe deu: "Avençada seria a senhora sua mãe".
O que me interessa são as legiões de bem intencionados que, furiosos com a heterodoxia sobre eucaliptos vinda do campo da conservação (eu, por exemplo), inventam uma suposta guerra entre os que defendem os eucaliptos (ou seja, os interesse privados) e os que defendem os carvalhais (ou seja, o bem comum).
Por mim estão convidados a visitar os terrenos em que se preparam carvalhais para o futuro, também com o meu empenho directo, e estou muito interessado em conhecer os carvalhais concretos geridos por muitos dos que pretendem que têm uma posição mais favorável aos carvalhais maduros que eu.
O essencial, no entanto, é um erro estratégico: enquanto pressionam o Estado a adoptar uma política de repressão ao eucalipto com prejuízo da economia e da capacidade de gestão do território, abrem espaço a que ninguém esteja a fazer três perguntas concretas aos responsáveis pelas decisões do Estado:
1) Por que razão, havendo milhões de euros disponíveis para o mundo rural, o Estado dá prioridade ao apoio à produção e ao financiamento do Estado, desprezando a oportunidade de usar esses dinheiros na remuneração de serviços de ecossistema (e o mesmo em relação ao POSEUR, aos PO regionais, etc.)?
2) Por que razão, sendo o Estado o gestor do Fundo Florestal Permanente, o afecta prioritariamente ao financiamento do próprio Estado e ao combate aos fogos, em vez de o afectar prioritariamente ao pagamento de serviços de ecossistema por parte dos produtores florestais, contribuindo para equilibrar de forma socialmente mais útil o retorno que é possível obter de diferentes usos do solo, em especial daqueles que prestam serviços de ecossistema que o mercado tem dificuldade em remunerar?
3) Por que razão, sendo o Estado o gestor do Fundo Ambiental, o afecta ao financiamento do próprio Estado e, pior ainda, a grupos de interesse como os organizadores de festivais de música, em vez de o usar para pagar serviços de ecossistema efectivamente produzidos?
A guerra não é entre defensores de eucalipto e defensores do bem comum, a guerra é entre a introdução de racionalidade na decisão de políticas públicas e o uso de espantalhos como cortinas de fumo para desviar as atenções da real captura do Estado por interesses privados, sejam eles os interesses das celuloses, dos bombeiros, dos organizadores de festivais de música, das associações florestais ou outros quaisquer.
A guerra do eucalipto tem apenas servido os interesses políticos de demagogos e a manutenção de posições de favor na afectação de recursos do Estado (isto é, dos contribuintes).
Como defesa do bem comum, convenhamos que é muito pouco útil.

Em traços gerais:
Brexit ajuda a economia portuguesa porque aumentou a tolerância dos parceiros da UE ao défices excessivos.
Ameaças terroristas na Europa ajudam turismo português
Turismo salva economia portuguesa
Défice melhora, dívida continua lá e aumenta.
Juros da República começam por subir, mas já estão a melhorar
Banca: capitalização da CGD e nada mais porque o resto não foi feito pelo Governo, nem a capitalização do BCP, nem a OPA do BPI, nem a venda do Novo Banco (e nem a potencial venda de parte do Montepio). Malparado não vai ter solução nacional.
Lesados do BES serão pagos em parte (mas quem paga? Provavelmente o Estado, quando as ações em Tribunal, trocadas por dinheiro, forem perdidas).
Reversão da venda da TAP, e venda noutras condições em que são salvos lugares no board para o Estado
Falha do Siresp e das forças de combate aos fogos florestais de Pedrogão Grande, morrem 64 pessoas, a maioria numa estrada nacional para onde foram encaminhadas pela GNR. Ninguém se responsabiliza.
Assalto e roubo, cuja lista é infindável, de material de guerra que ocorreu na semana passada nos Paióis de Tancos. O ministro da Defesa afirmou em Castelo Branco que assume a "responsabilidade política" após o furto de material de guerra em Tancos pelo "simples facto de estar em funções". Mas não se demite.
O exército não sabe explicar o que aconteceu, nem porque é que falhou a segurança. Escondeu a lista do material roubado, mas eis que sai a lista num jornal espanhol. O Chefe das forças armadas, o Presidente da República, lá pediu investigações exaustivas para apurar responsabilidades.
P.S: o melhor deste Governo é capaz de ser mesmo o Simplex.
Bom e não estou a ver muito mais, mas corrijam-se se estiver enganada :)
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
Naquele tempo, disse Jesus aos seus apóstolos: «Quem ama o pai ou a mãe mais do que a Mim, não é digno de Mim; e quem ama o filho ou a filha mais do que a Mim, não é digno de Mim. Quem não toma a sua cruz para Me seguir, não é digno de Mim. Quem encontrar a sua vida há-de perdê-la; e quem perder a sua vida por minha causa, há-de encontrá-la. Quem vos recebe, a Mim recebe; e quem Me recebe, recebe Aquele que Me enviou. Quem recebe um profeta por ele ser profeta, receberá a recompensa de profeta; e quem recebe um justo por ele ser justo, receberá a recompensa de justo. E se alguém der de beber, nem que seja um copo de água fresca, a um destes pequeninos, por ele ser meu discípulo, em verdade vos digo: Não perderá a sua recompensa».
Palavra da salvação.
O incêndio de Pedrogão Grande veio expor uma série de idiossincrasias que marcam de forma iniludível a matéria de que é feita a classe dirigente em Portugal. Já muito foi dito sobre o que as reacções de todos (Presidente, Primeiro-ministro, entidades da Protecção Civil, etc) revelam. Eu gostaria de realçar um aspecto. A facilidade com que a ignorância se sobrepõe ao conhecimento e a resultante falta de visão de longo prazo que impede a escolha de estratégias acertadas.
Não tenho um mínimo conhecimento sobre a gestão de florestas, sobre o fogo, ou sobre como prever ou combater incêndios. Mas sei bem percepcionar quem entende sobre o assunto e quem dele nada entende. O domínio das matérias, o à-vontade e facilidade com que uns discorrem opõem-se outros com máximas de ocasião (do tipo “nem mais um eucalipto”). Ao distanciamento e frieza sobre o objecto em análise tão úteis à compreensão dos fenómenos e potenciação do conhecimento opõem-se outros que falam de alto e de conclusão rápida. Lendo Henrique Pereira dos Santos e o engenheiro social Francisco Louçã ficamos com uma clara noção dos diferentes estilos à disposição do decisor político.
Para mal de Portugal a ignorância tem luz verde. Teve-a no passado e temo bem que nem 64 mortes sejam suficientes para que a deixe de ter no futuro. Ao espaço mediático, onde chafurda a ignorância com as pseudo soluções de curto prazo, opõem-se o espaço discreto, onde melhor floresce o conhecimento. Enquanto este último assusta o nosso decisor político, o primeiro dá-lhe o refúgio e o conforto que o incómodo da situação exige. Até já se promete legislação à pressa e “nem mais um eucalipto”.
Este modelo reactivo e preconceituoso é evidentemente estúpido, pois por definição não ataca os problemas na raiz e tende ainda a produzir outros efeitos nefastos. Mas por os acontecimentos estarem sempre um passo à frente dos ignorantes e todos aqueles que não tem um mínimo de perfil para ocupar cargos de responsabilidade, e por ser da natureza humana a necessidade de ter de fazer qualquer coisa, e sabendo ainda que o desassossego e outros sobressaltos são o calvário do ignorante e o seu socorro é prioritário, este modelo passa como a resposta unitária destas almas.
Nas últimas décadas a ignorância, jactância, e o dinheiro fácil levaram-nos a priorizar o combate ao incêndio em lugar da sua prevenção. Hoje é mais fácil de perceber o porquê. A gestão da floresta implica a adopção de doses elevadas de conhecimento com tradução práctica, estratégia, gestão multidisciplinar, prevenção, e trabalho de bastidores. Tudo tópicos que a classe política não trata propriamente por tu. Já a prioridade ao combate implica meios vistosos, palco, inaugurações, grupos de pressão, e contractos. Tudo aspectos que a classe política não só trata por tu, como são também aqueles que melhor casam com as suas agendas.
Por esta altura, calmada a jactância com a restrição financeira, o incêndio de Pedrogão Grande vem-nos evidenciar a outra faceta que os partidos têm para oferecer, a ignorância. Ou talvez pior, porque a montante, vem-nos revelar a matéria torpe e insuficiente de que são feitos muitos que de lá emanam quando o vento não lhes sopra pelas costas. Quando se precisa de um pedido formal de desculpas políticas por parte do Primeiro-ministro (não confundir com assumir culpas) por o Estado ter falhado, este surge preocupado com a popularidade. Quando se precisa de uma Ministra da Administração Interna forte, surge uma ministra de aparência demasiado frágil e com uma expressão de medo e assaz titubeante.
Nada disto é de estranhar. Falta de carácter e perfis desajustados caminham bem com a ignorância.
Pedro Bazaliza
Convidado Especial
O PR, Comandante Supremo das Forças Armadas, decidiu hoje, após 4 dias, pronunciar-sesobre o roubo de armas em Tancos. Também hoje, em Espanha, o Jornal El Español divulgou durante a madrugada e domingo uma lista completa do material bélico roubado dos paióis de Tancos. O Exército Português tinha optado por não divulgar a lista para não prejudicar a investigação mas o jornal espanhol teve acesso à informação e publicou não só o tipo de equipamento roubado mas também as quantidades. Marcelo Rebelo de Sousa exigiu “uma investigação que apure tudo, factos e responsabilidades”. Será melhor, porque mais célere, pedir a um jornal espanhol. É que das autoridades militares, do Ministro da Defesa, do Primeiro Ministro (que este fim de semana parace "desaparecido em combate") vai ter de esperar muito tempo.
O Ministro da Defesa Azeredo Lopes já admitiu o seguinte quanto ao roubo de armas em Tancos: “Tenho de dizer que é uma situação grave”; Há um facto indiscutível: que esse material estará agora a tentar entrar no mercado ilícito de trafico de armas que podem depois servir para os mais diferentes fins, como o que referiu [o terrorismo]“; “À luz da natureza instrumental” do armamento”, disse o ministro, o furto poderia ter como objetivo o abastecimento de “redes clandestinas de tráfico ou que possam indiretamente contender com a nossa segurança”; “Por muito estranho que possa parecer o ministro da Defesa Nacional não sabe se há falta de vigilância em Tancos”; "Está prevista uma verba de 95 mil euros na Lei de Programação Militar (LPM), um plano que tem um sistema integrado de videovigilância do Exército, que vai estar concluído em 2018 e que visa reparar as deficiências que foram detetadas neste domínio”. O que significa, então, para Azeredo Lopes, o "assumo a responsabilidade política pelo simples facto de estar em funções"?

Quanto tudo, ou quase, falha, importa compreender e estudar os casos de sucesso. Neste tempo de discussão em torno da tragédia do fogo de Pedrógão Grande, deveríamos ter em conta a experiência vivida, no passado, em situações igualmente trágicas em termos de incêndios. Em 2003 Mação viu a sua floresta perder 22.000 dos seus 40.000 hectares. Um verdadeiro desastre que só não se tornou tragédia humana porque, felizmente, não foram registadas vitimas mortais. Ao tempo, o Governo tinha Durão Barroso como Primeiro Ministro e, tal como os seguintes PM, demorou tempo a dar resposta aos verdadeiros problemas e causas dos fogos florestais. O mesmo não aconteceu com a Câmara Municipal que, não muito tempo depois, desenvolveu práticas florestais elogiadas em vários países. Tal assim foi que em 2016 o atual PM, António Costa, visitou Mação no Dia Internacional das Florestas para se inteirar, localmente, do sistema de monitorização e de combate aos incêndios em tempo real. Pena foi ter sido apenas uma visita para “imprensa ver” sem qualquer consequência na política florestal.

O que fez então a CM de Mação após o incêndio de 2013? Apostou numa abordagem integrada que incluiu, entre outras, as seguintes medidas (mais detalhadamente aqui): além do conceito de “Zona de Intervenção Florestal (ZIF) de Gestão Total” e da “Sociedade de Gestão Territorial”, fez distribuir o kit de aldeia (depósito com 600 litros de água com motobomba e mangueiras e colocado numa pick-up ) e criou o sistema MacFire, ferramenta informática que permite levar a informação existente sobre a zona de combate para o Posto de Comando e monitorizar o desenvolvimento do fogo em tempo real. Em simultâneo foram abertos mais estradões na floresta, maior limpeza das bermas, 22 aldeias envolvidas por uma circular (numa primeira barreira contra o fogo) e ainda limpeza de linha eléctricas. O MacFire (Mac de Mação) assenta num sistema integrado controlado a partir de uma viatura (ou seja, um posto de comando operacional móvel). Esta solução permite, sempre que desponta um incêndio, com rapidez e eficiência, gerir as operações no terreno. Mação dista de Pedrógão poucas dezenas de quilómetros e no dia da tragédia O SIRESP não funcionou mas o MACFire deu resposta a cinco ignições registadas no seu concelho e que foram rapidamente resolvidas
A visão integrada de Mação, que “já foi dada a conhecer a sete secretários de Estado portugueses”, tem merecido a atenção de entidades internacionais e, inclusive, recebeu prémios como o “Batefuegos de Oro”, em Espanha, além de outras distinções e convites de entidades ligadas ao desenvolvimento rural espanholas, da Universidade de Santiago de Compostela, da Hungria e da Sérvia. Tudo resultado do trabalho do vereador António Louro ( responsável pela implementação desta estratégia) e dos Presidentes de Câmara José Saldanha Rocha e Vasco Estrela

Mas as boas práticas de Mação não são ainda suficientes e seria necessário avançar com um projecto de ordenamento do território que necessita de apoio governamental para ultrapassar ários obstáculos jurídicos. O projecto encontra-se há anos nas gavetas de vários governos.
O bom exemplo de Mação, que tem evitado tragédias idênticas às que todos atualmente conhecemos em Pedrógão ou às vividas em 2003, não é a panaceia para o problema dos fogos florestais. Mas se cada município desenvolvesse a mesma abordagem teríamos, certamente, menos mortes, menos famílias com casas destruídas e menos hectares ardidos.
"Caríssimos senhores, eu ainda tenho lareira, basta nós irmos queimar um toro de sobreiro ou medronheiro e metam lá eucalipto a arder ao lado. Um arde três horas e outro ao fim de dez minutos tem a labareda muito mais alta e desapareceu. Não é preciso ir fazer um estudo científico. Basta metermos a lareira a trabalhar e metermos lá tipos de madeira diferentes".
Esta enésima declinação da ideia de que não vale a pena ler Galileu ou Copérnico porque eu todos os dias vejo o Sol levantar-se de manhã e nunca vi a Terra mexer-se, portanto sei bem que é o Sol que anda à volta de mim, e não eu à volta do Sol, foi ouvida nas audições que a Assembleia da República está a fazer sobre a reforma da floresta.
“a madeira que arde num incêndio é aquela mais miúda e morta, com menos de 10 cm de diâmetro, e arde não na frente de chamas, mas após esta passar. Madeira mais grossa pode arder, especialmente se estiver apodrecida, mas arde principalmente sem chama… Por definição, a propagação de um incêndio florestal é alimentada pelo combustível fino com diâmetro inferior a 6 mm”, diz Paulo Fernandes, que prefere estudar o fogo a sério, a ficar à lareira.
Ou seja, aparentemente, quem tem como profissão andar no campo, quem faz parte do Dispositivo Especial de Defesa da Floresta Contra Incêndios, consegue ver o que se passa na sua lareira e tirar conclusões gerais sobre fogos, ao mesmo tempo que ignora a evidência de que as árvores, num incêndio, ficam de pé e não ardem, como ardem na lareira.
Este mecanismo de seleccionar os dados que confirmam as nossas convicções - e por isso protegem a nossa identidade, de que as convicções fazem parte integrante - rejeitando toda informação que põe em questão o que acreditamos, é responsável por grande parte da irracionalidade das discussões sobre matérias que envolvem grande emocionalidade (tipicamente, política, religião, futebol, família, coisas que tal, nas quais se incluem os fogos ou os eucaliptos).
Não se pense que isto se resolve com informação, educação e formação, pelo contrário, as maiores capacidades que eventualmente consigamos através do estudo e da informação são, em geral, usadas para nos defendermos melhor da informação que questiona aquilo em que acreditamos.
É o caso de um professor universitário de economia, cujas capacidades intelectuais ninguém de bom senso questiona, mas que, confrontado com a sua profunda ignorância numa matéria em que está politicamente muito empenhado, em vez de ir estudar o assunto para procurar a verdade, usa o seu grande acesso à informação para seleccionar novos argumentos que dêem racionalidade às suas convicções.
"pergunto só por que é que a Alemanha ou a Espanha não correm para este el dorado (o eucalipto). A resposta é que é perigoso, não é que os empresários alemães ou espanhóis sejam estúpidos".
A imensa ignorância de Francisco Louçã sobre o assunto nem lhe permite fazer a análise crítica do argumento, impedindo-o de perceber que, sendo Portugal o maior produtor mundial de cortiça, o seu argumento também se aplicaria, concluindo nós que não há sobreiros na Alemanha porque é perigoso ter muitos sobreiros.
A luta contra o obscurantismo é essencialmente uma luta contra nós próprios e as nossas convicções, é por isso que é tão difícil.
E o principal instrumento que temos é mesmo o método científico, a revisão transparente e clara de dados e interpretações por terceiros que o possam fazer de forma independente.
Todas as discussões em que a nossa experiência directa é usada como a verdade definitiva e que a contestação aos argumentos de terceiros é assente na suspeita de que os interesses definiram os resultados, são apenas contributos para uma sociedade medíocre que toma decisões com base no pensamento mágico.
Compreende-se a opção: é muito mais fácil pedir que chova que preparar um território para conviver, serena e positivamente, com o fogo.
O único problema é que a realidade se compadece pouco com os nossos desejos, por mais ferverosos que sejam.
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