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Não gosto que me chamem estúpido

por João Távora, em 17.07.17

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Neste artigo publicado na semana passada no jornal i sobre  abandono da religião pelos millennials (a geração que atinge a idade adulta no novo milénio, agora entre os vinte e os trinta anos), o fenómeno é justificado num destaque como tendo origem no acesso a mais informação por essas novas gerações. Sem querer contrariar aquilo que me parece ser uma evidência, o declínio da religiosidade na Europa e em Portugal, atribuo as causas disso mais à decadência do próprio Ocidente do que à proclamada "facilidade de acesso ao conhecimento", que me parece um mito - o verdadeiro "conhecimento" é por natureza difícil de aceder e equacionar. Pretender que a prática religiosa é proporcional à ignorância (ou à falta de informação) parece-me um equívoco recorrente e pouco inocente. Para tanto basta verificar como ao longo dos tempos o conhecimento conviveu pacificamente com a religiosidade de boa parte das elites culturais. Não me parece intelectualmente honesto afirmar que Santo Agostinho, Bacon, Burke, Dostoiévski, Kierkegaard, Pascal, Roger Scruton, ou Galileu Galilei, C. S. Lewis ou J. R. R. Tolkien ou Chesterton fossem pessoas pouco informadas. Ou que dizer do poeta Ruy Belo, da escritora Agustina Bessa Luís, ou dos recém-convertidos ao catolicismo, o encenador Luís Miguel Cintra ou a jornalista Clara Ferreira Alves? A verdade é que chegados aos nossos dias a religiosidade apresenta-se frequentemente parceira da erudição. Era Afonso Costa que afirmava acreditar que a prática religiosa se extinguiria numa geração informada"? A perda de religiosidade dos povos europeus pode ter diversas causas, mais ou menos directas, mas nenhuma estará ligada ao acrescimo de “conhecimento”. Atrevo-me a afirmar, "antes pelo contrário". Qual será afinal a origem da perda de exigência filosófica, num mais profundo questionamento existencial por parte das novas gerações? Não será o inalienável direito ao entretenimento e à leviandade? 

Controlo passivo de combustíveis

por henrique pereira dos santos, em 17.07.17

Espero, com este post, fechar um conjunto de posts sobre o mito da estreita relação entre fogos e espécies.

O que tenho vindo a escrever, insistentemente, é que o essencial são os combustíveis finos, que se relacionam mais com os modelos de gestão que com as espécies arbóreas que dominam o povoamento.

Para além de acusações sobre a forma desonesta como estou a defender os eucaliptos e os interesses das celuloses (o tipo de argumento de quem não tem grandes argumentos), há um comentário recorrente que se prende com os benefícios para a gestão do fogo que haveria se tivéssemos uma muito maior área de carvalhais adultos.

O argumento tem uma parte em que está certo e é razoável: os povoamentos maduros das nossas folhosas, quando suficientemente densos, criam um ensombramento profundo que limita o crescimento dos matos e dos outros combustíveis finos que alimentam as frentes de fogo.

Ao contrário dos modelos de gestão sobre que tenho escrito, não se trata de uma gestão activa destes combustíveis finos (por corte, fogo ou gado) mas sim da criação de condições para que o crescimento dos matos seja muito limitado pelo ensombramento, sem que seja preciso fazer o seu controlo activo: nessas circunstâncias a ausência de gestão não tem o efeito de aumentar o risco de incêndio.

É aliás a este ponto, em que não precisamos de gerir para obter o que procuramos (biodiversidade, amenidade, qualidade paisagística, diversidade económica potencial, etc.) que procuramos chegar na gestão dos terrenos que estão sob gestão da associação de conservação a que pertenço.

Há portanto vantagem, do ponto de vista da gestão do fogo, em aumentar a área de povoamentos densos de folhosas maduras.

Se assim é, por que razão não se faz um grande esforço nacional para ter esses povoamentos e resolver de vez o problema dos fogos?

Em primeiro lugar sabemos pouco como se comportam estes povoamentos quando o fogo entra de copas, isto é, quando a progressão do fogo não se faz pela transmissão da chama através dos combustíveis finos junto ao solo, mas sim pela transmissão da chama copa a copa. É provável, quer pela história natural que temos, quer pelos exemplos da Califórnea, que este povoamentos ardam também, em condições meteorológicas extremas, quando o fogo entra de copas.

Apesar de tudo seria uma situação bem mais fácil de gerir que a actual (não o fogo de copas que esteja a ocorrer, mas a sua fragmentação à escala da paisagem).

O problema é que entre o momento em que se decide ter um carvalhal maduro e o momento em que ele realmente atinge as características citadas no início (uma sombra profunda e contínua), podem passar muitos anos, dificilmente menos de vinte, nas situações mais favoráveis, seguramente acima de trinta, na grande maioria das situações.

E durante esses muitos anos, um carvalhal é tão susceptível ao fogo como os matos altos, pelo que não vale a pena discutir qualquer solução de aumento da área de carvalhal (que está a ocorrer naturalmente, em paralelo com o padrão de fogo que temos, mas demorando muito tempo a chegar ao ponto em que o carvalhal pode ser útil no controlo de matos e outros combustíveis finos) sem discutir como se gere a transição entre a situação actual e a situação desejável: que gestão é necessária para encurtar o tempo até se atingir o objectivo, quanto custa, quem paga, quando, de que maneira, a quem? e por aí fora, como se faz em qualquer projecto de investimento.

A experiência que tenho é a de que são precisos muitos recursos (António Giestas, um proprietário de Vouzela, tem uma gestão exemplar orientada para este objectivo: há trinta anos que mantém consistentemente esta linha de orientação, financiada por si próprio, não pelo retorno que lhe é dado pelo carvalhal, está numa das zonas mais favoráveis a esta opção, mas ao fim de trinta anos, tem menos de 30 hectares de carvalhal) para que seja possível reduzir de forma consistente o tempo que o carvalhal demorará a chegar a um ponto de "não gestão" aceitável, sem que exista grande contrapartida em retorno financeiro do investimento.

Ou seja, sim, é bom que haja uma área maior de carvalhal maduro para nos ajudar a gerir o fogo, não, não é uma solução nem imediata, nem fácil, nem generalizável.

E não, não basta querer, é condição sine qua non querer, mas não é condição suficiente, é mesmo preciso saber onde ir buscar os recursos para isso, sabendo que não há, nem pode haver, recursos suficientes para que esta opção jogue um papel relevante na gestão do fogo nos próximos trinta ou quarenta anos, com excepção de situações pontuais e, mesmo nessas, que não dispensam uma gestão atenta aos resultados e que saiba fugir das ideias feitas sobre o assunto, para evitar gastar recursos à procura de milagres que, provavelmente, não acontecerão.

O mito da relação entre espécies de árvores e fogos

por henrique pereira dos santos, em 16.07.17

A longa história dos fogos rurais, tal como os conhecemos hoje, começa por meados dos anos 50 do século XX quando se dá início a uma grande migração no mundo rural português.

Esta migração, deixando os campos ao abandono e, sobretudo, desvalorizando totalmente as pastagens pobres (o que foi potenciado pela introdução dos adubos industrais), é a raiz da alteração do padrão de fogo que existia - fogos muito frequentes, mas em mosaico e pouco severos - para o padrão que hoje existe - fogos menos frequentes, mas muito mais extensos e severos.

Esta relação entre as alterações económicas e sociais dessa altura, e o crescente problema dos fogos, que se manifesta mais ou menos a partir de meados dos anos 70 do século XX (um desfasamento temporal que se compreende facilmente que exista dado que os efeitos do abandono não são imediatos), só muito mais tarde foi compreendida e, ainda hoje, é dificilmente aceite, mesmo por parte dos que compreendem a racionalidade da explicação - e a sua evidência empírica - mas que acabam por dar mais peso a outros factores nas explicações que procuram para a dimensão do problema em Portugal.

Um dos primeiros grandes fogos, o fogo de Macinhata do Vouga, em 1972 (se não me engano), determina o fim do comboio a vapor no vale do Vouga, porque foi esse o bode expiatório.

Em 1975, as responsabilidades foram atribuídas à política de terra queimada do Partido Comunista, pelos seus adversários, ou ao boicote ao Processo Revolucionário Em Curso, pelos da outra barricada, mas em qualquer caso a moda desse anos era justificar politicamente os fogos.

Mais tarde eram os madeireiros, porque assim compravam a mandeira mais barata, esquecendo-se, grande parte das pessoas, que se eu queimar a casa do meu vizinho é natural que a compre por um preço mais baixo, mas porque a cada passa a valer menos depois de ardida, não ganhando eu grande coisa em comprar a casa mais barata.

Depois veio a moda dos meios de combate, que acabou quando já era difícil equipar mais os bombeiros.

Mais tarde a moda era atribuir a responsabilidades ao negócio do fogo, em especial ao chorudo negócio das horas dos meios aéreos, o que teve com consequência o Estado comprar uns Kamovs e fazer uma empresa de meios aéreos, tendo-se verificado a circunstância clássica de que quando se atira dinheiro para cima de um problema, uma das duas coisas desaparece, mas raramente é o problema.

Depois eram as ignições e os incendiários, já sem justificação específica, esquecendo-se muita gente de olhar para os números e verificar que 80% das ignições são num raio de 2 quilómetros à volta das aldeias e que 1% das ignições são responsáveis por 80 a 90% da área ardida.

Este ano a moda são os eucaliptos e as árvores bombeiras, uma funesta ideia, na opinião do homem que inventou o termo, numa brincadeira no Facebook para falar de situações muito específicas em que o fogo se auto-extingue. Perdeu-se completamente o controlo da expressão, que entrou rapidamente no jargão do pensamento mágico que domina grande parte das conversas sobre fogos.

Esta fotografia notável, de Paulo Novais/ Lusa, é um bom exemplo de como ter esta ou aquela espécie à volta do que quer que seja, conta muito pouco como instrumento de defesa contra incêndios:

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Esta outra, em que se vêem uns eucaliptos em primeiro plano, é muito clara sobre a forma como pode arder um sobreiral, que é o que está a arder ao fundo, em Monchique.

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E esta outra, mostra como arde um carvalho isolado, em algumas circunstâncias

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Estranhamente, para mim, o facto de se dizer o que está dito acima é interpretado, por pessoas conhecedoras e com informação, como estando a dizer-se que "as espécies ardem todas da mesma maneira". 

Mas não, não se está a dizer isso, nem está correcto dizer-se que arde tudo igual, quer na quantidade de combustível disponível em diferentes povoamentos, quer na velocidade do fogo em diferentes povoamentos, quer nas projecções de fogos que incêndios especialmente violentos provocam (as famosas bolas de fogo que alguns interpretam como a demonstração de que são fogos postos, mas que apenas demonstram que quem pensa assim sabe pouco do que está a falar), em que, por exemplo, o eucalipto bate largamente a concorrência na distância a que lança projecções (chegando quase dez vezes mais longe que outras espécies).

A questão é outra: em condições meteorológicas extremas essas diferenças inerentes às diferentes espécies ficam muito esbatidas, porque todas ardem muito bem e, muito mais importante, o peso dessas diferenças na forma como o fogo evolui é incomparavelmente menor que o peso da estrutura de combustíveis finos presentes (matos e folhadas), que depende muito mais do modelo de gestão que da espécie arbórea dominante.

A asneira, agora frequente, de que há umas árvores bombeiras que podem proteger as casas não teria importância de maior - o direito à asneira é sagrado - não se desse o caso de haver a possibilidade de alguém acreditar nessa mezinha, cujo nível de eficácia é semelhante ao das rezas do professor Karamba, e desatar a pôr umas árvores à volta de casa, criando uma falsa sensação de segurança que diminui o incentivo para que faça o que deve ser feito: uma gestão adequada dos combustíveis finos (matos, ervas e folhagem) do espaço envolvente da casa, seja qual for a espécie que lhe fica mais próxima.

Para além desta nova moda servir, como serviram as modas anteriores, para nos desviarmos do essencial: 1) aumentar a capacidade de auto-protecção ao nível de cada aglomerado; 2) integrar prevenção e combate aos fogos; 3) pagar o preço justo pelos serviços ambientais que algumas economias e opções de gestão nos prestam a todos e que hoje ninguém paga.

O inquérito já foi aberto?

por henrique pereira dos santos, em 16.07.17

Estou aqui com uma dúvida: um agente político faz declarações de grande impacto público susceptíveis de influenciar o valor das acções de empresas cotadas em bolsa.

A CMVM já abriu um inquérito para investigar quer a fundamentação, quer os efeitos e eventuais beneficiários dessas declarações de maneira a excluir a hipótese de se tratar de uma manobra de manipulação das cotações em bolsa com base em informação privilegiada?

A bolsa é um assunto sério e seria muito mau sinal que fosse a CMVM a dar cobertura a actuações destas, desvalorizando-as como se não se passasse nada.

Domingo

por João Távora, em 16.07.17

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

 

Naquele dia, Jesus saiu de casa e foi sentar-Se à beira-mar. Reuniu-se à sua volta tão grande multidão que teve de subir para um barco e sentar-Se, enquanto a multidão ficava na margem. Disse muitas coisas em parábolas, nestes termos: «Saiu o semeador a semear. Quando semeava, caíram algumas sementes ao longo do caminho: vieram as aves e comeram-nas. Outras caíram em sítios pedregosos, onde não havia muita terra, e logo nasceram, porque a terra era pouco profunda; mas depois de nascer o sol, queimaram-se e secaram, por não terem raiz. Outras caíram entre espinhos e os espinhos cresceram e afogaram-nas. Outras caíram em boa terra e deram fruto: umas, cem; outras, sessenta; outras, trinta por um. Quem tem ouvidos, oiça». Os discípulos aproximaram-se de Jesus e disseram-Lhe: «Porque lhes falas em parábolas?». Jesus respondeu: «Porque a vós é dado conhecer os mistérios do reino dos Céus, mas a eles não. Pois àquele que tem dar-se-á e terá em abundância; mas àquele que não tem, até o pouco que tem lhe será tirado. É por isso que lhes falo em parábolas, porque vêem sem ver e ouvem sem ouvir nem entender. Neles se cumpre a profecia de Isaías que diz: ‘Ouvindo ouvireis, mas sem compreender; olhando olhareis, mas sem ver. Porque o coração deste povo tornou-se duro: endureceram os seus ouvidos e fecharam os seus olhos, para não acontecer que, vendo com os olhos e ouvindo com os ouvidos e compreendendo com o coração, se convertam e Eu os cure’. Quanto a vós, felizes os vossos olhos porque vêem e os vossos ouvidos porque ouvem! Em verdade vos digo: muitos profetas e justos desejaram ver o que vós vedes e não viram e ouvir o que vós ouvis e não ouviram. Escutai, então, o que significa a parábola do semeador: Quando um homem ouve a palavra do reino e não a compreende, vem o Maligno e arrebata o que foi semeado no seu coração. Este é o que recebeu a semente ao longo do caminho. Aquele que recebeu a semente em sítios pedregosos é o que ouve a palavra e a acolhe de momento com alegria, mas não tem raiz em si mesmo, porque é inconstante, e, ao chegar a tribulação ou a perseguição por causa da palavra, sucumbe logo. Aquele que recebeu a semente entre espinhos é o que ouve a palavra, mas os cuidados deste mundo e a sedução da riqueza sufocam a palavra, que assim não dá fruto. E aquele que recebeu a palavra em boa terra é o que ouve a palavra e a compreende. Esse dá fruto e produz ora cem, ora sessenta, ora trinta por um».

 

Palavra da salvação.

E a ética política Dr. Ferro Rodrigues?

por Vasco Mina, em 15.07.17

Ferro Rodrigues deu uma entrevista à TSF em que afirma o seguinte: "para mim há um mistério nisto que é o fato de haver um empresa que patrocinava a seleção nacional de futebol, a GALP, ter feito uns convites a umas pessoas e elas terem aceite. Onde é que isto configura um crime parece-me totalmente absurdo. É a minha posição pessoal". E a ética política Dr. Ferro Rodrigues? Aceitar oferta de bilhetes para ir ver um jogo é eticamente aceitável por parte de um político que ocupa funções no Estado? Qual a intimidade pessoal e institucional entre as partes (a que oferece e a que aceita)? Como bem refere Miguel Poiares Maduro, “na política (como no futebol…) qualquer discussão ética é transformada numa discussão jurídica. Parece que só há violação ética se corresponder a um crime.” E acrescenta “no fundo, é a incapacidade de tirar conclusões éticas e políticas sobre estes comportamentos que acaba por não deixar outra alternativa que a intervenção da justiça.”

João Miguel Tavares escreve hoje, no Público, o seguinte: “É perigoso nós querermos saltar de uma cultura onde a cunha, o amiguismo e a informalidade estão perigosamente disseminadas, para um quadro jurídico onde a aceitação de uma simples ida ao futebol passa a ser criminalizada. Não porque ache que a borla à bola seja aceitável – não é –, mas porque uma grande exigência moral necessita de sustentação cultural, social e política.” Acompanho a argumentação mas coloco a questão: como fazer para sustentar cultural, social e politicamente a grande exigência moral? Só vejo uma via: a de uma ética política exigente. Porque se somos fracos nas pequenas questões também o seremos nas de maior dimensão. Assim, o exemplo das elites é fundamental para que se consiga a tal sustentação cultural, social e política. Infelizmente para o Presidente da AR (e que é o segundo na hierarquia do Estado) a questão só se coloca em termos de ser, ou não, crime, ou seja no plano jurídico.

Num ponto concordo com Ferro Rodrigues: "Porque é que passado um ano há agora esta situação de serem constituídos arguidos. É um mistério da Justiça portuguesa." Não se percebe, de facto, o porquê de tanto tempo para a tomada de decisão do Ministério Publico. A menos que, como refere a revista Sábado, “os secretários de Estado dos Assuntos Fiscais, da Indústria e da Internacionalização terão, activamente, solicitado, à petrolífera, viagens, bilhetes para os encontros e/ou refeições para aqueles que os acompanharam - e os custos para a empresa com cada convidado rondaram os 3.000 euros”. Se os Secretários de Estado meteram “um cunha” para membros do seu staff poderem ir “à bola”, poderão ser acusados de crime? Mais uma vez e antes da questão jurídica o que está em causa é a ética política.

Mas e os carvalhos, os castanheiros, os sobreiros e as nogueiras?

por henrique pereira dos santos, em 14.07.17

Com frequência me dizem: já percebi os seus argumentos, mas afinal que floresta devemos ter no país?

Confesso que apesar da frequência da pergunta, estranho-a sempre.

Para mim é o mesmo que me perguntarem que tipo de sapatos devemos fabricar, ou que culturas devemos ter no país, ou que teatro, ou outra coisa qualquer.

Depois procuro responder seriamente: não sei, não faço ideia e, na verdade, não me parece que valha muito a pena perder tempo a pensar nisso porque independentemente do que cada um de nós pense que deveria ser a floresta do país, ela continuará o seu caminho, indiferente aos nossos desejos.

Nós teremos a floresta que os donos dos terrenos quiserem e os donos dos terrenos farão a floresta que acharem melhor, em cada momento, para os objectivos que têm e com os incentivos económicos que existam (sejam eles de mercado, como os preços dos produtos e serviços ou a vontade dos consumidores, sejam eles incentivos criados pelo Estado).

Tomemos o meu exemplo.

Tenho algures um terreno talvez entre dois e três hectares (nunca tive curiosidade em saber) que em tempos recuados terá sido terra de cultura (quando o conheci já não era), foi um pinhal que lentamente foi evoluindo para um eucaliptal, com umas plantações feitas pelo meu pai, sobretudo para marcar as estremas, com uma espécie esquisita de eucalipto, numa altura em que pouca gente plantava eucaliptos (o meu pai chegou a produzir amendoim na Beira Alta, não era, portanto, representativo do padrão).

Desde que me lembro, eu diria, há pouco mais de quarenta anos, o meu pai sempre foi acarinhando os carvalhos, mesmo quando cedia o mato para a cama do gado, mas um proprietário ausente, mesmo quando interessado, acaba por ter menos influência do que se pensa na gestão dos seus terrenos.

O terreno arde periodicamente, nós (eu só sou dono de um nono) fazemos um corte de eucalipto entre cada fogo, agora estão umas acácias a entrar com mais força no terreno (o estranho é não ter acontecido mais cedo e lá me entretenho eu a descascá-las, se são grandes, ou a arrancá-las, se são pequenas, quando calha), fazemos um corte de matos uns anos depois de cada fogo e fazemos alguma selecção de varolas de eucaliptos.

Os carvalhos, castanheiros, sobreiros que aparecerem são bem vindos e acarinhados, o princípio é aquilo não consumir grande dinheiro em gestão, mas ninguém espera que aquilo dê nada.

É portanto uma floresta mista de eucalipto e pinheiro, com bastante regeneração de carvalho roble e sobreiro e uma carga combustível razoável, embora não das piores.

À volta da propriedade há umas propriedades que não têm qualquer gestão e estão a ser progressivamente invadidas de acácias, há muitos anos. Hoje poderemos classificá-las como acacial. Os donos não têm objectivos para o terreno. Há outras propriedades que têm maior intensidade de gestão, isto é, os donos querem optimizar o rendimento, e são portanto eucaliptais mais ou menos monoespecíficos (naquela região nada é monoespecífico, em bom rigor).

Ora a floresta que teremos, naquele bocadinho, será a que resultar dos objectivos de cada proprietário, em função dos estímulos externos: o preço das diferentes madeiras, o peso que o rendimento do terreno tem (ou pode ter) no conjunto dos rendimentos do proprietário, os usos alternativos possíveis que possam remunerar uma compra de terreno por outras pessoas e muitos, muitos outros factores.

Algumas pessoas argumentam que isto não pode ser, que isso é um risco para toda a sociedade.

Admitindo o argumento (e ele não é linear), vamos admitir que a sociedade tem o direito de se defender e impôr aos proprietários uma gestão que seja optimizada socialmente.

Então, volta a pergunta, o que devemos fazer, ou melhor, que floresta devemos ter?

Se o meu terreno fosse um carvalhal maduro, de copado denso, criando o ensombramento necessário para que o mato não cresça muito, seria socialmente mais interessante, neste caso em que nem eu, nem os meus irmãos, nos oporíamos a isso. Desde que não fôssemos nós a pagar a gestão para lá chegar. Não há problema se não houver rendimento, mas não nos peçam para pegar no dinheiro que nos faz falta para educar aos filhos, acudir às aflições ou ir à opera ou ao futebol, para o enterrar num suposto bem comum que os beneficiários não querem pagar, nem directamente envolvendo-se numa qualquer organização que queira fazer a gestão da propriedade (a associação a que pertenço não o pode fazer porque estatutariamente não pode haver acordos desses com membros dos orgãos sociais), nem através de novos impostos.

E, na verdade, apesar do carinho do meu pai, e depois meu, pelos carvalhos e sobreiros que vão aparecendo, ainda vai demorar muitos anos a chegar ao tal carvalhal maduro. Ou então, são precisos recursos para encurtar o tempo e, mesmo assim, apesar da elevada produtividade primária da região, ainda demoraria uns vinte ou trinta anos a dar qualquer resultado do ponto de vista da gestão do fogo.

Os meus vizinhos que hoje não sabem sequer o estado em que estão as suas propriedades, e que as venderiam de bom grado, não têm quem as compre porque o rendimento esperado e o risco de incêndio inibem potenciais investidores.

E os meus vizinhos que estão concentrados no rendimento, são os que na verdade têm as suas terras com menor risco de incêndio, mas o rendimento não é de tal maneira que se entusiasmem a comprar mais uns tapados, até porque sabem bem que aquilo só dá porque não fazem contas ao tempo que gastam no monte.

Eu faço parte de uma associação que compra, ou gere por acordo, terrenos marginais para reconstruir neles carvalhais e mosaicos, mas também nós temos a nossa acção limitada pelos recursos que somos capazes de mobilizar.

A floresta que devemos ter é pois uma discussão que não interessa nada, o que interessa é saber o que devo eu fazer, no mercado, na sociedade civil, no Estado central e no Estado local para optimizar socialmente a gestão.

No mercado é seguramente aumentar a eficiência e criar valor, porque essa é a condição base para que o mercado traga gestão para o mundo rural. Isso não se faz com a kafkiana lista de obrigações legais dos proprietários florestais, que só não tem piores efeitos porque os únicos que ligam alguma coisa à legislação são os da certificação florestal, visto que cumprir a lei é o primeiro requisito da certificação. Os outros, saudavelmente, estão-se nas tintas para a legislação florestal, e fazem muito bem.

Na sociedade civil é concentrar esforços naquilo que nos parece útil (no nosso caso, criar matas adultas e mosaicos biodiversos), fazendo, avaliando, demonstrando e replicando. Quem passa uma noite no nosso carvalhal tem mais vontade de contribuir voluntariamente para que o façamos amadurecer e expandir-se, mas demora tempo a ter resultados visiveis e com algum significado. Para já o que temos são resultados mais simbólicos que outra coisa qualquer, mas que mesmo assim valem a pena.

No Estado central, o melhor é adoptar o mínimo de medidas: 1) proibir taxativamente o Estado de recorrer a outros fundos que não os do Orçamento do Estado para a sua actividade, libertando os fundos autónomos, nacionais (como o Fundo Florestal Permanente ou o Fundo Ambiental) para o financiamento da gestão concreta por parte dos operadores económicos e sociais, em vez do Estado os capturar, como faz actualmente; 2) aumentar o peso da produção de serviços de ecossistema no financiamento do mundo rural, mesmo que isso signifique cortar nos fundos para a produção; 3) e não complicar, pelo contrário, reactivar os serviços de proximidade que em tempos se chamaram de extensão rural, para apoiar tecnicamente os produtores, em vez de ter formulários de candidatura absurdamente complicados, ou regras e planos, mais planinhos e planetes que não servem para nada.

No Estado local, basta que estejam quietos e deixem de sistematicamente defender os interesses das suas corporações de bombeiros, para passar a defender o bem comum, que nem sempre coincidem.

É o que consigo dizer sobre os carvalhos, os castanheiros, os sobreiros, as nogueiras e etc.: são bons, são úteis, mas quem os quiser, que faça por isso, em vez de mandar os outros fazer.

A verdade é que há muitos e muitos proprietários absolutamente disponiveis para ceder a terceiros a gestão dos seus terrenos, sem outra contrapartida para além de saberem que estão a contribuir para o bem comum, com uns magníficos carvalhais maduros (daqui a trinta anos, se forem geridos de forma constante, pode ser uma gestão de baixa intensidade, mas tem de ser constante).

Assim haja terceiros com recursos para isso e em que os proprietários confiem, o que seguramente não inclui o Estado: porque não tem recursos e porque não é de confiança.

Uma imprensa inútil para os leitores, mas muito útil para o poder

por henrique pereira dos santos, em 14.07.17

“Receio bastante que a forma irresponsável como foi feita aquela privatização [pelo anterior Governo PSD/CDS-PP] possa dar origem a um novo caso Cimpor..."

A frase é de António Costa, mas o acrescento entre parêntesis é de jornalistas e espelha a ideia que a generalidade da imprensa tem e propagandeia do que foi dito por António Costa.

O problema é que o governo anterior não privatizou a PT, quem privatizou a PT foram vários governos, ao longo do tempo, sendo na grande maioria desse tempo governos de que António Costa fazia parte ou, pelo menos, apoiava notoriamente.

A única coisa que o governo anterior fez foi vender uma golden share, por imposição de um memorando de entendimento subscrito por Sócrates, golden share essa cuja única utilidade, aparentemente, foi ter permitido a algumas pessoas, notoriamente apoiadas por António Costa, meter uns milhões ao bolso em luvas através da venda do poder conferido ao Estado pela golden share.

Agora imaginem que em vez de António Costa era Passos Coelho a dizer uma coisa destas sobre estes factos e percebemos bem a disfunção real que existe na nossa democracia: não, o problema não é a disfuncionalidade dos partidos (que existe) o problema central é mesmo a disfuncionalidade da imprensa.

Nova época, vícios antigos

por Maria Teixeira Alves, em 14.07.17

Imagem relacionada

António Costa em público fez campanha contra uma empresa que desenvolve a sua actividade no mercado português. Uma discriminação sem paralelo que não é aceitável num chefe do Governo do país. Fez campanha comercial anti-PT, ostracizou a PT porque ... foi privatizada. Vícios cubanos?

A questão foi posta no debate parlamentar pelo PCP. O primeiro-ministro disse que “receio bastante pelo que possa acontecer à PT, pela forma irresponsável como foi feita a privatização, que possa ser um novo caso da Cimpor. E que isso possa pôr em causa quer os postos de trabalho, quer o futuro da companhia. Era bom que a autoridade reguladora visse o que aconteceu, desde logo no caso de Pedrógão. Onde algumas operadoras conseguiram manter sempre comunicações, outras não. Olhe, eu por mim já fiz a minha escolha da companhia que utilizo”.

Foi um autêntico ataque do primeiro-ministro a uma empresa estrangeira que investiu em Portugal, a Altice.

É uma autêntica república das bananas, este país.

O António Costa não se conforma, a PT deixou de ser pública. Queria continuar a decidir o futuro da PT como aconteceu no passado e que acabou como acabou? Queria usar a PT como instrumento?

Ora se calhar o motivo destas inconvenientes declarações, não foi impulso, nem descuido, foi um aviso.

É que a Altice está perto de anunciar acordo de compra da Media Capital que controla a TVI. Talvez esta compra de um canal de televisão, sem golden share do Estado na PT, não agrade ao primeiro-ministro.

Deixar o mercado funcionar é uma coisa que António Costa não parece adorar.

P.S. O caso da Cimpor é fruto de uma intervenção desastrosa da CGD, não tem nada a ver com privatizações, até porque a Cimpor foi privatizada, se não me engano, pelo Pina Moura.

P.S.II E se alguma coisa correu mal com a MEO em Pedrógão (e eu que pensava que o Governo tinha dito que tinha corrido tudo bem com o Siresp) penso que o primeiro ministro tem instrumentos para reagir, agora um slogan comercial no Parlamento é abaixo dos mínimos.

A comunicação social que temos:

por Vasco Lobo Xavier, em 13.07.17

O texto sobre o qual escrevo é uma notícia do Observador. Foram retirados os negritos da notícia e a negrito vão só as minhas observações. Foram também corrigidas gralhas da notícia (pode ter-me escapado alguma e não mexi nas vírgulas erradas nem no “passo a expressão”).

 

Costa. Armas roubadas não representam perigo para a Segurança Interna – Título muito bonito, muito querido e sugestivo.

 

António Costa disse hoje que foi informado logo a seguir ao roubo do material militar em Tancos que este não aumentava o perigo para segurança interna, nem havia associação a grupos terroristas.

O primeiro-ministro afirmou esta terça-feira que foi informado ainda antes de ir de férias que o material militar roubado em Tancos, “com grande probabilidade”, não aumentava os riscos para a segurança do país ou para qualquer atividade terrorista, em Portugal ou no estrangeiro. Lança-granadas anti-carro roubados estavam marcados para abate.

 

Vamos lá ver. O PM foi informado disto antes de ir de férias?!? E o CEME esteve para mais de uma semana a falar de tudo e sem referir tal coisa? E o que quer dizer “com grande probabilidade”? Baseia-se em quê? Convicções religiosas? E só agora é que descobriram que o material estava marcado para abate? Naqueles paióis não estava, antes de Costa regressar de férias, o material mais sensível? E como sabem que aquilo não é para actividade terrorista ou que não há associação a grupos terroristas? E cá dentro ou fora do país? E, se não for, será para quê? Para as festas de S. Miguel, nos finais de Setembro? Não aumentava os riscos? Então iria baixá-los? Porquê? E quantos eram? Ninguém vê a imbecilidade da coisa?

 

 António Costa esteve reunido esta terça-feira com os chefes dos principais ramos das Forças Armadas Portuguesas e no final, reforçou a sua confiança nas Forças Armadas e no ministro da Defesa, que diz terem agido apropriadamente.

 

 Continuo a pensar que deveria ter havido um alerta geral imediato, barreiras nas estradas e operações diversas, mas provavelmente eu não percebo nada sobre o que será “apropriadamente” numa situação destas.

 

 António Costa disse ainda que, logo na resposta ao assalto aos paióis de Tancos, foi informado pela secretária-geral para a Segurança Interna que o material roubado não representaria qualquer risco acrescido para a segurança interna, algo que soube ainda antes de ir de férias.

 

 Gosto desta insistência nos conhecimentos obtidos “antes de ir de férias”, que são dados depois de vir de férias. Nada como umas boas férias. Também quero.

 

 “Logo depois de ter desaparecido esse material foram acionados os mecanismos próprios de segurança interna, designadamente a reunião da unidade de coordenação anti terrorista, com a participação do Chefe de Estado Maior das Forças Armadas, onde foi feita uma primeira avaliação, e onde foi verificado, com grande probabilidade, que este acontecimento não teria qualquer impacto no risco da segurança interna e designadamente associação a qualquer tipo de atividade terrorista nacional ou internacional.

 

 O mecanismo próprio de segurança é a reunião da unidade de coordenação anti terrorista?!?... Para discutir o quê, se de nada sabiam? E em que factos se terão baseado nessa “primeira avaliação” para verificar, “com grande probabilidade, que este acontecimento não teria qualquer impacto no risco da segurança interna e designadamente associação a qualquer tipo de atividade terrorista nacional ou internacional?!? Como sabem? Verificaram o quê e como? Com base em quê? Então roubaram aquele material para quê? E, não tendo impacto na segurança interna (a gente vive sossegada com os paióis do exército a serem roubados com enorme facilidade), por motivos que desconhecemos, também não terá impacto na segurança de outros Estados?

 

 Essa garantia foi-me, aliás, transmitida diretamente pela senhora secretária-geral de Segurança Interna, Helena Fazenda, com quem tive contacto ainda antes de ter interrompido o exercício de funções para gozo de férias”, disse.

 

 “Garantia”?!?... Que garantia?!? “Garantia” com “grande probabilidade”?!?... Isto é garantia?!?... Mas estará tudo doido? Isto não é “gozo de férias”, isto é gozar com o pagode!

 

António Costa foi ainda questionado pelos jornalistas se o ministro da Defesa, Azeredo Lopes, tem condições para continuar a exercer funções como parte do Governo, com o primeiro-ministro a garantir que este tem a confiança do Governo.

“O que é essencial é que o senhor ministro da Defesa tem toda a confiança do primeiro-ministro para o exercício das suas funções, e exerceu as suas funções como é função do ministro da Defesa”, disse.

O primeiro-ministro estendeu ainda a sua confiança à estrutura de comando das Forças Armadas portuguesas, dizendo que já foram tomadas medidas “que permitirão reforçar a segurança e garantir a plena operacionalidade das nossas forças armadas”, adiantou.

O Chefe de Estado Maior General das Forças Armadas, Pina Monteiro, também fez uma análise semelhante, dizendo que o material mais perigoso, na verdade não deve funcionar porque estava marcado para abate.

 

 “Não deve funcionar”?!? Não se sabe se funciona ou não?!? O CEMGFA não sabe o que tem em casa? Não sabe o que tem à sua guarda? Não era o material mais sensível, ainda há menos de uma semana (enquanto Costa gozava férias)?!? E nós devemos ter confiança nisto e ficarmos sossegados?

 

Os lança-granadas foguetes que foram roubados provavelmente não terão possibilidade funcionar com eficácia, porque estavam selecionados para serem abatidos. O Exército avaliou em detalhe e esse, que é talvez o que mais significado tem em termos de potencial de perigo, não tem a relevância que provavelmente quem os levou achou que poderá ter”, disse Pina Monteiro.

 

 “provavelmente não terão possibilidade funcionar com eficácia, porque estavam selecionados para serem abatidos”?!?... (mantive a vírgula erradamente colocada)

“Provavelmente não terão”?!? “Com eficácia”?!? São estas as “garantias” que descansaram Costa?!?

 

 Depois de explicar que o material roubado tem um custo avaliado em 34 mil euros, o responsável disse que o roubo foi um “soco no estômago” das Forças Armadas e prometeu medidas.

(a relevância do valor não se consegue explicar e não vou perder tempo com a coisa)

 

 “Depois de termos levado, passo a expressão, um soco no estômago, quero dizer que os chefes militares levantaram logo a cabeça. Face a isso, há lições a tirar e vão ser tiradas. Há medidas que vão ser tomadas a curto e médio prazo, não me peçam para dizer que medidas de segurança são, porque não vamos facilitar quem possa ter intenções semelhantes [às de quem roubou o material em Tancos]”, disse o responsável.

“A avaliação que é feita pelos chefes dos ramos, e por mim próprio, é que não caímos. Estamos direitos e estamos prontos para continuar a garantir a confiança dos portugueses nas forças armadas”, disse.

 

Não me interessa a cabeça nem o estômago dos militares que os meus impostos pagam. Interessa-me o sentimento de segurança que os portugueses esperavam, e se exigia, e, agora, no caso do meu texto, a comunicação social. A comunicação social está sempre a chorar-se porque ninguém a paga, ninguém a compra, ninguém a quer. Escolhi a notícia do Observador porque o leio, sigo, gosto, admiro e critico e porque, com alguma infelicidade, reparei não estar muito diferente do que vejo e leio em outros órgãos de comunicação social. Eu não sou jornalista, tive uma breve disciplina no Liceu, mas ninguém se interroga sobre as questões que levantei? Passam-se as notícias assim? São meros papagaios do que se pretende transmitir? E pretendem ser comprados porquê? Eu compro por bom dinheiro um bom pastel de nata, um excelente pastel de Chaves, uma bela bola de carne ou um cremoso queijo da serra, um saboroso arroz de polvo vitela, um leitãozinho estaladiço, Savora original em frasco de vidro e uma sanduíche de maravilhoso rosbife. Que razão teria eu para gastar o pouco dinheiro que me resta depois dos impostos em má comunicação social? A comunicação social não se interroga sobre isso? Não se interroga sobre isto que me perguntei, um mero observador, sobre factos tão importantes? E quer ser comprada para quê? – Para ter um papagaio bastava-me comprar um e um pouco de alpista.

Com o regresso de Costa regressou em toda a glória a fundamental falta de seriedade da governação.

«Fundamental», diz Costa, é que depois do roubo de armamento em Tancos o ministro da Defesa mantém toda a confiança do primeiro-ministro, segundo o qual fez tudo o que havia a fazer. Como em Pedrógão («foi um raio», «foi mão criminosa», «foi um downburst», «foi algo anormal», foi «o eucalipto» capitalista, foi «tudo o que era possível»), nada, portanto, se passou de relevante.

«Fundamental» é que o Chefe do Estado Maior General das Forças Armadas descansa em que o material roubado só vale uns 34 000 euros e que, «provavelmente», acrescenta ele, os lança-granadas-foguetes não estão em grande estado. Tudo, portanto, coisas sem importância.

«Fundamental» é que apareça o inefável Vasco Lourenço a dizer que o roubo de Tancos foi uma hsitória «mal contada», uma «encenação» feita para prejudicar o governo. Há de ser, portanto, uma conspiração da direita.

Fundamental é que as televisões comuniquem sem escrutínio que o défice está em 2,1% -- seja qual for o montante das cativações, e independentemente do dinheiro dos contribuintes metido na Caixa Geral de Depósitos para tapar vigarices antigas (sobre as quais estamos proibidos de ser informados) -- e que nada comuniquem ou escrutinem sobre a dívida pública que continua a bater recordes, e a aumentar com empréstimos a taxas de juro de 4%.

Podem todos ir para férias descansados. A bandalheira continua.

Que gente é esta?

por Corta-fitas, em 12.07.17

Para quem se digna pensar e discernir minimamente sobre a origem do aroma eternamente fétido que teima em pairar em Portugal não pode certamente ignorar que o mesmo tem origem maioritária nos partidos políticos. Enquanto nas outras áreas a realidade vai-se impondo de uma forma ou de outra através da remoção das ervas daninhas, nos partidos a coisa parece de tal forma empedernida que a sua remoção parece impossível.

Por estes tempos os partidos têm como perfis de referência caracteres que não são propriamente do mais recomendável. Não que noutros sectores da sociedade eles não existam, mas parece que nos partidos existem agora forças de tal forma poderosas que impedem o florescimento de modelos mais virtuosos. Como qualquer sistema fechado com vida e mecânicas próprias, a subjugação da meritocracia e do conhecimento aos ditames e regras próprias da seita resultam a prazo em resultados absurdos. Alguns exemplos:

  1. Inconcebível a sequência de estroinices que levaram ao aumento desmesurado da despesa pública com início da década de 90. O resultado for o pedido de resgate em 2011.
  2. Impensável como este governo opta por cortar no regular funcionamento do Estado para distribuir uns quantos amendoins como moeda de troca de poder. O resultado é Tancos e parcialmente Pedrogão Grande. (Embora os cortes no funcionamento do Estado já antes se tivessem iniciado, neste governo atingiram patamares nunca antes imaginados)
  3. Irresponsável como o PCP e o BE sempre gritaram e espernearam a toda a hora sem nada proporem. E quando digo sem nada proporem, refiro-me a qualquer coisa com cabeça, tronco, e membros. O resultado é a vulgarização da banalidade e da irresponsabilidade.
  4. De loucos como ninguém se preocupa seriamente com um país onde a taxa de poupança é de 4% do rendimento disponível e ainda por cima se fala constantemente nas virtudes do consumo privado (até na Direita!). Este é talvez o melhor indicador de que tudo vale para sobrepor a ilusão à razão. O resultado é a dependência financeira externa.
  5. Asquerosa a promiscuidade entre o poder político e o poder económico. O resultado é o capitalismo de compadrio que produz dívidas monstruosas, berbicachos judicias e outros fardos.
  6. Impressionante a facilidade como se corre com um ministério competente em benefício da parte que desencadeia uma crise política. O que o CDS fez ao ex-Ministro Álvaro Santos Pereira e sua equipa é uma marca que desonra a Direita. O resultado é que a irresponsabilidade pode também entrar pela Direita.
  7. Incrível como muitos julgam gozar de prerrogativas especiais na sua relação com o Estado. É velha a frase “Um partido é um ónibus que leva aos empregos” (Eça de Queiroz dixit). O resultado é a família César e a jactância deste.
  8. Inacreditável como a cobardia se sobrepõe à coragem, ou como a “gestão política” se sobrepõe à Política. O resultado é um Primeiro-ministro em fuga para férias no momento mais duro do governo.


Obviamente impõem-se perguntas. Que gente é esta? Como se desenvolve? Como extrai-los dos partidos por troca de perfis normais? Este é o ajustamento que falta fazer na sociedade portuguesa. Presumo que hercúleo, e sinceramente não sei como terá de ser feito.

Pedro Bazaliza
Convidado Especial

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Mais acções da TAP para o Estado pôr seis administradores, incluindo Diogo Lacerda Machado parece ser cada vez mais a única vantagem do Estado em ter revertido a privatização da TAP feita pelo Governo de Passos Coelho, que implica a venda de 61% da companhia aérea ao consórcio Gateway. Seis lugares de não executivos escolhidos pelo Governo de António Costa. De resto o que ganhou o Estado? O direito a ter de investir na companhia sempre que esta tiver de aumentar o capital?

A transportadora aérea "voltou" para o Estado, mas este só fica com 50% do capital, sem o controlo da gestão e com apenas 18,75% dos direitos económicos da TAP. Isto é caso a TAP venha a ter lucros dentro de alguns anos, o Estado apenas terá direito a receber 18,75% desses dividendos, apesar de controlar metade do capital. 

O consórcio de Humberto Pedrosa e David Neeleman baixou para 45% da TAP, tendo os restantes 5% sido destinados para os trabalhadores da empresa. Coisa simbólica, que serviu para António Costa dizer que cumpriu uma bandeira eleitoral (das eleições que não ganhou) e para empregar seis gestores, um amigo incluido.

O Estado paga e investe só para cumprir uma bandeira simbólica de António Costa de uma campanha que não lhe deu vitória. Uma teimosia? Um capricho? Quanto custa?

Numa primeira fase, o Estado comprou 11% do capital ao consórcio Gateway, por 10,93 euros por ação, o que dá um total de 1,9 milhões de euros. Mais tarde, o Estado subscreveu 30 milhões de euros do empréstimo obrigacionista de 120 milhões de euros que serve para refinanciar a transportadora.

Resumindo, o Estado devolveu dinheiro da primeira venda, pagou 30 milhões de euros e ficou com menos dividendos. Mas com seis poleiros na administração.

O horror feito belo

por João Távora, em 11.07.17

O Meças.jpg

O Meças, de José Rentes de Carvalho trata-se em minha opinião de uma obra de uma beleza superior, na forma encontrada – sublime, diga-se - para descrever os meandros mais obscuros da condição humana. Para mim, essa narração encontra o seu cúmulo no capítulo em que o Meças, do interior do seu predilecto Mercedes observa uma família feliz a fazer um picnic ruminando um ódio explosivo, emergente da conjugação desordenada dum cocktail de sentimentos chamados de “baixos”. Ou de como afinal o leitor “inocente” possuí a intuição natural de descodificar tamanha malvadez, e assim embalar numa inquietante tensão que se nos cola do principio ao final da novela. Há no Meças um mergulho profundo nos interstícios de uma mente perturbada, do potencial de violência que um individuo pode (não) conter. Tão plausível quanto o retrato dum café incaracterístico de província. Ou de diferentes misérias contrastantes, como o caso da figura flacidamente vulgar e cândida do filho do Meças.

E terminamos esta leitura densa com a sensação de termos assimilado um quadro próximo do perfeito, assim sendo do Belo. Há uma mestria sublime de Rentes de Carvalho na construção frásica, na utilização da palavra e da tensão que ela gera. Em que cada palavra é escolhida para a construção dum sentido próprio, uma coloração, uma textura, uma sonoridade meticulosa que nos revela cada poro que dá forma a um retrato profundamente humano da gente com que nos arriscamos cruzar nos abismos de nós próprios. Pois que se assim não fosse toda a leitura resultaria num nonsense.

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Imãs contra o terrorismo

por Vasco Mina, em 10.07.17

Frequentemente se coloca a pergunta sobre o paradeiro dos muçulmanos que condenam os atos terroristas praticados pelo dito Estado Islâmico (EI) ou Daesh. Ouvem-se, pontualmente, algumas posições mas, sendo isoladas, fica-se com a perceção de serem intervenções pessoais não necessariamente representativas de uma comunidade (neste caso a islâmica). Por outras palavras e numa linguagem mais comum: onde andam os muçulmanos defensores da paz e que condenem o terrorismo? De acordo com esta notícia,” Imãs fazem "tour" europeia contra o terror”. Hoje em Bruxelas mas tendo passado por Paris e Berlim e seguindo depois para Nice. Claro que fica por saber qual a representatividade destes Imãs na comunidade islâmica europeia . Mas em tempos conturbados com ações terroristas, é uma manifestação a saudar.

Manif Muculmanos.png

 

Costa esconde e Marcelo expõe

por Vasco Mina, em 09.07.17

Duas atitudes distintas marcaram as intervenções de António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa nestas últimas semanas. Em Pedrógão, Costa só começou a aparecer, com regularidade, quando Marcelo passou a deslocar-se diariamente. Ou seja, foi o PR que deu toda a exposição do drama enquanto o PM ía atrás e procurando não destacar o problema. Marcelo distribuiu afetos por todos mas Costa nem por isso. O PR a exigir relatórios e investigações completas com conclusões e identificação de responsabilidades e Costa a “passar culpas” para o clima. Depois o roubo de armas em Tancos com o PR a exigir, novamente, investigação ao caso e Costa em silêncio deixando “a solo” o Ministro da Defesa. Marcelo vai a Tancos visitar as instalações e Azeredo Lopes lá teve de ir pois Costa tinha ido de férias para o estrangeiro e decidira não interromper. O PR convoca o Conselho Superior de Defesa Nacional e o Conselho de Estado para o mesmo dia. Costa em férias. PR volta, uma vez mais, a Pedrógrão para assistir ao concerto em memória das vítimas do incêndio e diz que vai “acompanhar [as obras], vindo cá, pois tenciono neste Verão vir muitas vezes, em vários momentos, precisamente para dar apoio ao que está a ser feito e mostrar como exemplo. Para a semana estarei outra vez, daqui a três semanas, cinco semanas, eu não vou esperar pelo Natal”. E até admitiu levar a família até lá naquela quadra festiva. Costa não assistiu ao concerto pois permanecia em férias. Marcelo não irá “largar” Pedrógrão e Costa lá irá o menos possível. Costa gosta de dar os casos como encerrados (como aconteceu na situação das viagens oferecidas pelas GALP aos Secretários de Estado agora exonerados) mas Marcelo prefere que tudo em aberto até ao esclarecimento total. Assim acontecerá sempre que ocorrerem casos (ou seja, más notícias para Costa): Marcelo será uma verdadeira picareta (não “falante” como Guterres) presencial. Até agora, Costa agradeceu e elogiou a presença de Marcelo. A partir de agora vai sempre tentar esconder sempre que Marcelo tentar expor.

Porque é que isto acontece sempre nos Governos PS?

por Maria Teixeira Alves, em 09.07.17

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Manuel Pinho foi o ministro da Economia que decidiu os pagamentos dos CMEC e do prolongamento das barragens, no Governo de José Sócrates. A seguir deu-se a criação de um curso na Universidade de Columbia, em Nova Iorque, sobre energia eólica e renováveis. Este curso foi criado em 2010 e tinha a EDP como patrocinador, isto é, a empresa portuguesa pagava parte dos custos. Um dos professores convidados foi Manuel de Pinho, ex-ministro da Economia e amigo de António Mexia. 

Para já não falar de Sócrates, PT, TVI e ligações ao BES de Ricardo Salgado. 

A equipa que investiga a Operação Marquês descobriu que o plano de José Sócrates para a compra da TVI pela PT – que veio a ser descoberto no processo Face Oculta, em 2009 – começou em 2008 e previa envolver o Grupo Lena, investidores angolanos e o Taguspark.

Mas sobre esse triangulo das bermudas que foi o BES, PT e Sócrates há pano para mangas.

Agora neste Governo três Secretários de Estado têm de passar pela vergonha de passado um ano terem de se demitir por causa de terem ido viajar a convite da Galp, ao mesmo tempo que a Galp tem em tribunal um litigio fiscal contra o Estado provocado por um imposto aplicado pelo Governo anterior de Passos Coelho.

Mas esta panelinha é tradição nos Governos socialistas?

Domingo

por João Távora, em 09.07.17

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus 


Naquele tempo, Jesus exclamou: «Eu Te bendigo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas verdades aos sábios e inteligentes e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, Eu Te bendigo, porque assim foi do teu agrado. Tudo Me foi dado por meu Pai. Ninguém conhece o Filho senão o Pai e ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar. Vinde a Mim, todos os que andais cansados e oprimidos, e Eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de Mim, que sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e a minha carga é leve».

 

Palavra da salvação. 

Gente realmente importante

por João-Afonso Machado, em 09.07.17

NA CONSTITUIÇÃO.jpg

Não se fale mal da escuridão das ruas do Porto. Das suas paredes sem brilho, daquelas casas tristes de falar mudo. Há figuras a colori-las nos mais diversos tons. Por exemplo, o cor-de-rosa. De cima a baixo, da cartola aos sapatos brancos, com flor na lapela a condizer. A gente pensa e nada conclui.

Gigolo? Não, não dominava a pose. Pink Panther? Também não. Friz Freleng não a animaria assim. O tal dia do "orgulho gay"? Não fora divulgado e eles são pródigos em publicidade...

Quem seria? Não sei. Sei-o apenas nada incomodado com o espanto causado entre os transeuntes. Parecia esperar uma boleia. A seus pés uma saquinha de cartão carregada imagine-se lá com quê. Impávido. Honra lhe seja feita, era o sol que girava em torno de si, contrariando todas as certezas estabelecidas por Copérnico.

As coisas são como são:

por Vasco Lobo Xavier, em 09.07.17

Independentemente das razões que tenham, e têm muitas, magistrados judiciais não fazem greve. Ponto.




Corta-fitas

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