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Na próxima, todos!

por Vasco M. Rosa, em 14.05.17

Por causa da tolerância de ponto de sexta-feira passada, João Miguel Tavares escreveu no Público relatando o problema que isso constituiria para muitas famílias sem substitutos para deixar os seus filhos em idade escolar, e desafiou o primeiro-ministro a receber e entreter os seus filhos.

O desafio era retórico, porque teria de ser multiplicado por muitos milhares de casos. Mas AC preferiu brincar com tudo isso, recebendo as crianças e fazendo disso uma notícia e um cartaz da sua «agilidade para resolver problemas».

O quotidiano dum estadista — espera-se! — não deve ser algo comparável ao de uma sala de aula ou infantário, mas a infantilização de todos nós não é obstáculo para o chefe do governo. 

Vamos todos rir, sorrir e brincar, que o bom caminho se abrirá diante dos nossos pés. Muito simples!

No futuro, em situação análoga, sugiro que muitos milhares apareçam sem aviso à porta do senhor com os seus petizes. Afinal, um jornalista mediático não é mais do que um honesto padeiro, carteiro, contabilista, bibliotecário ou peixeira, cozinheira ou condutor de autocarro da carris. 

Contra essa discriminação positiva, marchar, marchar!

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Insistir no erro, para ver se desta vez funciona melhor

por henrique pereira dos santos, em 14.05.17

Esta notícia do Observador (em rigor, da Lusa, transcrita pelo Observador) é a típica notícia da véspera da fase qualquer coisa dos fogos e provavelmente nem valeria a pena comentar.

Ainda assim, sem a menor esperança de que algum governo, de alguma maioria de qualquer conjunto de partidos, tenha a veleidade de levar o problema a sério, aqui ficam alguns comentários antes da fase qualquer coisa dos fogos.

"“Onze mil hectares ardidos até hoje é algo preocupante. O ano passado foi muito mau em termos de incêndios e, no período homólogo, tínhamos 360 hectares ardidos. É uma diferençazinha um pouco assustadora”, disse o secretário de Estado da Administração Interna, Jorge Gomes, a 27 de abril.".

Comecemos o comentário por citar Paulo Fernandes "Alguém informe o Sec. Estado que ter um inverno muito chamuscado não nos diz nada sobre o queimado final. Aliás já houve um ano em que no mesmo espaço de tempo ardeu o triplo do que ardeu até agora e no final acabou por ser um dos anos com menos área ardida.".

Ou seja, na verdade brincamos com a informação, escolhemos uns anos da forma como convém, uns números que não dizem nada (por exemplo, discutir área ardida em vez de discutirmos valores perdidos) e é com base nisso que vamos tomando decisões em matéria de fogos.

"O DECIF deste ano tem como novidades um reforço de meios para combate a incêndios florestais nos distritos de Braga e Viana do Castelo, colmatando assim uma deficiência sentida em 2016."

Eu gostava de ver as avaliações que foram feitas para chegar a estas conclusões sobre deficiências de meios para combater fogos em Portugal. Primeiro, porque há poucos países no mundo que tenham tantos meios e tão actualizados como Portugal, mas aparentemente é sempre preciso mais. Depois porque uma boa parte da área que ardeu foi no distrito de Aveiro, onde aparentemente não havia falta de meios (de acordo com esta decisão de afectar mais meios a Braga e Viana). Acresce que embora o distrito de Viana tenha ardido bastante, Braga nem por isso, portanto não se percebe em que medida a carência de meios afectou os distritos em causa. Por fim, porque tendo ardido muito em Viana, a sua propensão para arder agora é menor e andar a deslocar meios atrás dos fogos, em vez de andarem a antecipar os fogos (depois da meteorologia, que explica a esmagadora maioria dos fogos, a sua geografia e a sua dimensão, o principal factor de explicação da área ardida é o tempo decorrido desde o último fogo), parece-me pouco útil.

O que existe em Portugal é uma situação de impasse institucional em que os interesses da Liga dos Bombeiros se impõem aos interesses do país através de fortíssima rede de ligações entre corporações de bombeiros, protecção civil e autarquias, que torna politicamente impossível a qualquer governo cortar o nó górdio que bloqueia o mínimo de racionalidade na gestão do fogo.

É bom deixar claro que a Liga dos Bombeiros, a favor de quem se fazem galas, sorteios, quermesses e muitas outras acções de boa vontade, não representa os bombeiros, mas sim as corporações de bombeiros, isto é, as entidades patronais dos bombeiros (dizer que a Liga dos Bombeiros representa os bombeiros é o mesmo que dizer que a CIP representa os trabalhadores portugueses).

É bom também deixar claro que muita da abnegaçãoda boa vontade e do espírito de missão que torna os bombeiros especialmente queridos das populações não tem nenhuma relação com a questão dos fogos florestais, mas sim com a sua actividade diária de apoio às populações.

E é ainda bom deixar claro que o famoso voluntariado dos bombeiros não é o que normalmente se chama voluntariado, grande parte dos bombeiros voluntários, nomeadamente em situações de prontidão para o combate e no combate propriamente dito, têm um pagamento, não é um pagamento que se possa chamar a justa retribuição pelo trabalho prestado, mas há pagamento (há até no Algarve um problema de recrutamento de bombeiros porque se ganha mais a passar a ferro ou a servir cafés).

Nenhum presidente de câmara no seu perfeito juízo quer ter um conflito com corporações de bombeiros do seu concelho (muitos acumulam funções na autarquia e na associação de bombeiros, tomando decisões como presidentes de câmara que beneficiam associações de cujos orgãos sociais fazem parte sem que ninguém tenha dado, até hoje, pelo conflito de interesses) e, consequentemente, nenhum partido quer ter uma revolta dos seus autarcas e das suas distritais fazendo uma coisa muito simples: profissionalizar a sério o núcleo duro do combate aos fogos florestais, enquadrando devidamento o imenso esforço dos voluntários, separando as funções de protecção civil dos bombeiros, que são adequadamente desempenhadas, de maneira geral, das funções de protecção florestal, que deveriam competir a quem faz gestão florestal. É na gestão florestal que se criam oportunidades para o combate, e é no combate que se afinam as melhores opções para criar essas oportunidades.

E porque é impossível resolver o impasse institucional que existe nesta matéria, a solução tem sido sempre a mesma, esperando que alguma vez resulte a estúpida ideia de um Portugal sem fogos que, dizem eles, depende de todos.

É por isso que tudo isto passou de um custo de 30 milhões anuais para 100 milhões anuais sem que se registe qualquer diferença nos resultados.

É por isso que o governo faz um estúpido plano nacional de fogo controlado em que se propõe queimar 5 mil hectares através de fogo controlado onde só é preciso acompanhar os pastores (nas zonas de matos e silvo-pastorícia) para ter resultados desses sem grandes custos para o contribuinte, ao mesmo tempo que proíbe o apoio ao fogo controlado em povoamentos, que é onde realmente ele faz falta.

E, mais ridículo ainda, o mesmo governo que quer queimar 5 mil hectares ano em fogos controlados, manifesta a sua preocupação por terem ardido 11 mil hectares, sem custos especiais para o contribuinte, grande parte dos quais exactamente nas condições em que teriam ardido com o tal plano de fogo controlado para o qual o governo reservou uns milhões, não para os proprietários e gestores, mas para o próprio Estado manter a habitual prepotência com que trata os agentes do sector (reclamas? não tens financiamento).

E ano após ano, insiste-se no mesmo erro, obtendo o péssimo resultado esperado, após o que se reforça o erro para o ano seguinte, obtendo-se o péssimo resultado esperado, após o que se reforça o erro, etc., etc., etc..

A lição do Tetra

por João Távora, em 14.05.17

Os não benfiquistas que me perdoem a sobranceria, mas creio existir alguma lição a aprender com a sucessão de quatro campeonatos ganhos pelo Benfica. Contém muito daquilo que rareia em Portugal, nomeadamente na governação ao mais alto nível. Estratégia de longo prazo, liderança, profissionalismo na gestão de topo, estabilidade, perseverança, e sobreposição do todo sobre a parte. A caminhada iniciou-se no início do século, não ontem.

Com frequência durante esta época fui dizendo aos meus amigos sportinguistas que a conquista destes títulos simbolizam mais a distribuição de dividendos resultantes da estratégia adoptada desde há anos e menos o rasgo de génio deste ou daquele. E que não vislumbro nada de substancial no horizonte que possa mudar o rumo dos acontecimentos. A Norte o passado não quer sair de cena, revelando por um lado o clássico problema de sucessão e a excessiva dependência num indivíduo. Do outro lado da Segunda Circular temos dois galos que se digladiam por objectivos de curtíssimo prazo e por palco, revelando quer o xico espertismo que tanto vilipendiamos mas que tanto premiamos, como também alguma incapacidade de trabalhar em conjunto numa óptica de complementaridade onde o defeito de um é ofuscado pela virtude do outro.

Descontando o calor da vitória que pode diminuir o discernimento, creio que o futebol português contém matéria suficiente para retirar algumas boas lições para os portugueses. Haja para isso frieza e pouca clubite.

Sugiro assim aos sportinguistas e portistas que façam bem o seu trabalho de casa. Não só para garantir campeonatos interessantes no futuro, mas também para dar bom exemplo aos nossos governantes. Não faço esta sugestão em jeito de provocação pois não quero atraiçoar o fair play e o objectivo deste texto, que mais não é que perceber de vez que pensar a longo prazo e com cabeça tende a produzir mais resultados.

E já agora sugiro aos benfiquistas que não embandeirem em arco sob pena de ter um dia de escrever um texto que não me apetece.

 

Pedro Bazaliza

Convidado Especial

Domingo

por João Távora, em 14.05.17

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João


Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Não se perturbe o vosso coração. Se acreditais em Deus, acreditai também em Mim. Em casa de meu Pai há muitas moradas; se assim não fosse, Eu vos teria dito que vou preparar-vos um lugar? Quando Eu for preparar-vos um lugar, virei novamente para vos levar comigo, para que, onde Eu estou, estejais vós também. Para onde Eu vou, conheceis o caminho». Disse-Lhe Tomé: «Senhor, não sabemos para onde vais: como podemos conhecer o caminho?». Respondeu-lhe Jesus: «Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vai ao Pai senão por Mim. Se Me conhecêsseis, conheceríeis também o meu Pai. Mas desde agora já O conheceis e já O vistes». Disse-Lhe Filipe: «Senhor, mostra-nos o Pai e isto nos basta». Respondeu-lhe Jesus: «Há tanto tempo que estou convosco e não Me conheces, Filipe? Quem Me vê, vê o Pai. Como podes tu dizer: ‘Mostra-nos o Pai’? Não acreditas que Eu estou no Pai e o Pai está em Mim? As palavras que Eu vos digo, não as digo por Mim próprio; mas é o Pai, permanecendo em Mim, que faz as obras. Acreditai-Me: Eu estou no Pai e o Pai está em Mim; acreditai ao menos pelas minhas obras. Em verdade, em verdade vos digo: quem acredita em Mim fará também as obras que Eu faço e fará obras ainda maiores, porque Eu vou para o Pai».


Palavra da salvação.

O tempo dos gestos magnânimos mediáticos

por Maria Teixeira Alves, em 13.05.17

Foto de João Miguel Tavares.

O que têm em comum António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa? Ambos apostam numa política de proximidade com os "súbditos" (chamemos-lhes assim). Bom António Costa está mais apostado em agradar pessoalmente à direita e aos católicos e Marcelo Rebelo de Sousa está mais preocupado em agradar aos marginalizados e aos "fracos e oprimidos" (chamemos-lhes assim). 

Não há uma grande diferença entre um primeiro-ministro que responde a uma crítica de um opinion maker da ala direita com um gesto "magnânimo" e desconcertante de aceitar o desafio de lhe tomar conta dos filhos no dia em que o Governo deu tolerância de ponto e as selfies que o Presidente da República tira com todos os que visita (e os beijos que distribui e as condecorações que atribui). 

Ambos se preocupam em conquistar, sobretudo, quem está (em teoria) nos seus antípodas. O que é isso senão um gesto magnânimo (cristão?)? Mas é preciso não esquecer o mediatismo. Será mesmo magnânimo quando o nosso gesto é difundido ao público? Não será vaidade então?

Vivemos um tempo interessante em que há uma ânsia de novos "Messias" (que demonstrem que o amor e o altruísmo não morreram) e a facilidade com que tudo se difunde nas redes sociais e chega à população. O populismo tem aqui muito da sua raiz. 

O presidente do Estados Unidos usar o Twitter para comunicar não é senão uma manifestação desses tempos em que vivemos. 

O facto de tudo ser em directo leva a que se crie facilmente (demasiado fácil digo eu) deuses e capachos. O reverso da medalha deste tempo da política dos afectos é o maniqueísmo de se criarem estériotipos facilmente. A cisão entre o bom e o mau vilão nunca passou de uma visão redutora da humanidade. Cada pessoa tem tudo, tem os dois lados. Não existe isso de aquele é bom e o outro é mau.

A verdade é que há um paradoxo que resulta desta política dos afectos, é que tem origem no propósito de criar pontes, mas ao estar a servir para criar deuses está a criar muros. 

Veja-se o caso do Papa Francisco, fala-se dele como o Papa que chega às pessoas, o Papa da tolerância, como se fosse um novo "Messias". Nessa visão está um crítica implícita à igreja e ao Papa (aos Papas) anterior (es). Ora não há nada de diferente nas homilias do Papa Francisco, face às homilias do Papa Bento XVI e às homilias do Papa João Paulo II. Há diferenças de estilo essencialmente, e os dogmas da igreja são os mesmos. Mas o que chega às pessoas são os afectos do Papa Francisco.

Queremos quem crie pontes, mas depois endeusamos tanto essas pessoas que criamos muros.

Semente de civilização

por João Távora, em 13.05.17

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Neste tempo em que a religião é quase sempre relevada por uma só bitola, como assunto de ignorantes, fundamentalistas e fanáticos se tratasse, é reconfortante o testemunho dado por mais de meio milhão de pessoas que de forma serena e pacifica se reuniram em comunhão e oração à Mãe de Jesus. Definitivamente não é tudo a mesma coisa. Pela minha parte confesso-vos que nesta hora em que o Papa Francisco despede-se do “altar do Mundo” sinto um orgulho enorme de ser dos de Cristo, de pertencer a esta Igreja, obra divina e universal, tão humanamente rica, tolerante (misericordiosa) e diversa. 

Fotigrafia Reinaldo Rodrigies/Global Imagens 

Bem-vindo a Portugal, Papa Francisco!

por João Távora, em 12.05.17

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Há muito tempo que queria que a esquerda deixasse a Igreja Católica em paz, por isso não me incomoda nada o fascínio que o Papa Francisco exerce sobre ela. A Igreja é universal e foi erguida para todos que se quiserem deixar converter ao exemplo de Jesus Cristo. E não haverá conversão se a sua mensagem não conseguir chegar às periferias, se o seu magistério não for exercido também no “Páteo dos Gentios” – e eu sei bem como isso incomoda alguns católicos  “puritanos”. Acontece que o colégio cardinalício que com uma sabedoria imensa elegeu Bento XVI foi o mesmo que elegeu o jesuíta Bergoglio, que teve o enorme mérito de mudar a tónica da mensagem da Igreja para a Misericórdia. De facto a vocação da Igreja não é ser um hotel para santos, é ser um hospital de campanha para os pecadores como eu. Havia um erro de percepção que vem sendo corrigido, a doutrina não mudou, mudou a sua percepção. Obrigado Papa Francisco, bem-vindo a Portugal.  

Vida independente e preconceito ideológico

por henrique pereira dos santos, em 11.05.17

Não sei o suficiente do assunto, mas chamaram-me a atenção para decisões que estão a ser tomadas sobre o Modelo de Apoio à Vida Independente de pessoas que precisam do apoio de terceiros para o seu dia a dia.

Tanto quanto sei do assunto (reconhecidamente pouco) classicamente ou as famílias tomavam conta das pessoas, ou o próprio tinha dinheiro suficiente (e é sempre muito) para pagar a assistentes pessoais escolhidos por si, ou as pessoas são institucionalizadas em algum lado em que possam ter o apoio de que precisam.

Com cada vez mais peso (que se justifica facilmente pela razão que lhes assiste), as pessoas que precisam de apoio para a sua vida diária têm reivindicado um modelo de apoio que, ao menos, ponha em pé de igualdade, do ponto de vista dos apoios do Estado, as instituições e as pessoas que precisam de apoio, acabando com situações em que uma instituição recebe mais de 900 euros per capita para tratar da pessoa, mas se a pessoa estiver em casa, recebo 180 euros de apoio.

Com estranho consenso, apenas quebrado pelo CDS, as decisões tomadas, que visam permitir aos interessados ter uma vida independente com apoio de assistentes pessoais por si escolhidos, rejeita liminarmente a hipótese desse apoio ser prestado por familiares, com argumentos como os que aqui transcrevo: "Concordo inteiramente que não estejam na lista de assistentes. Percebemos as famílias que se sentem revoltadas porque a grande responsabilidade do apoio tem estado a seu cargo, sobretudo as mães, que abandonam muitas vezes o trabalho para se dedicar aos seus filhos. E agora ficam revoltadas. Mas creio que até para haver uma autodeterminação das pessoas em relação às famílias e não desvirtuar as relações familiares, é benéfica essa decisão".

O argumento em si parece-me meridianamente idiota: as famílias não são mares de rosas e com certeza há famílias onde pode ser um problema haver dinheiro a entrar por esta razão. Mas isso é verdade para qualquer parte da sociedade, incluindo as instituições que são alternativa à vida independente, ou a prestadores de serviços fora do círculo familiar e isso não se resolve proibindo as famílias de aceder a este apoio, resolve-se com o Estado a cumprir as suas funções inalienáveis de defesa dos direitos das pessoas, incluindo a fiscalização da aplicação da lei.

No entanto, o que é verdadeiramente arrepiante é que haja um conjunto de iluminados que resolva assumir que sabe melhor que os interessados qual é a melhor solução, em vez de se lhe deixar a decisão, criando-se condições para que a decisão seja tomada com a maior liberdade possível.

Intuitivamente (porque não sei o suficiente do assunto, insisto) eu diria que, estando os interessados no pleno uso das suas faculdades mentais, o apoio deve ser entregue directamente ao interessado para fazer o que bem quiser com esses recursos: garantir a sobrevivência da mãe ou do irmão que sempre foram os seus assistentes pessoais, contratar terceiros porque não quer depender da família, ou entregar-se a uma instituição onde entende que se sente melhor.

O que claramente me parece absurdo (e insisto que pode haver razões que não estou a ver) é que seja o Estado a discriminar negativamente as famílias, sem que isso resulte da vontade dos interessados mas sim de ideias de iluminados sobre o que é uma família e da falta de respeito pela liberdade dos directamente interessados no assunto.

Salvador Macron

por José Mendonça da Cruz, em 11.05.17

«Gullible», diz-se dos facilmente iludíveis, dos que, perante os factos, no entanto se deixam embalar na ilusão de que os seus sonhos se concretizam. Gullible. Não sei porquê, a palavra parece-me quase onomatopeica, os que engolem o que se lhes dá e rejubilam.

Iludidos como gostam, os gullible vislumbraram promessas no discurso de vitória do Salvador Macron. Eu (mal, com certeza) vejo um discurso branco, perigosíssimo na sua vontade de agradar a todos e não se comprometer com ninguém. E vejo votos nulos e brancos, e abstencionistas, e a desorganização das forças tradicionais E vejo uma Marine Le Pen ferozmente intuitiva que logo compreendeu o caminho e promete refundar-se politicamente. Os gullible festejam o salvamento da Europa. Eu (mal, com certeza) vejo um Macron incapaz de reconhecer os problemas (a emigração, a ocupação islâmica, a descaracterização de França), e com isso a entregar a França a um problema terminal europeu: um governo com um programa de esquerda e extrema-esquerda a quem os gullible apelidam de extrema-direita (the horror, the horror).

O fenómeno

por João Távora, em 10.05.17

Vejo por aí nas redes sociais muita gente estranhamente agastada com o entusiasmo provocado por uma canção simples de 3 minutos que vai disputar um concurso internacional no próximo sábado. Pela minha parte não vejo o que isso possa incomodar, pois o facto não acontece em prejuízo de quaisquer outros temas que sejam considerados mais pertinentes ou importantes, ou lesando outras formas de expressão artística mais "nobres". O facto é que a cançoneta do Salvador Sobral é apenas uma bonita canção que na minha casa teve o condão de reunir a família toda na sala a ver televisão por uns minutos, coisa cada vez mais rara nesta era de fragmentação em que cada um vive virado para o seu ecrã. Isso não é pouco.

Um raio de luz

por henrique pereira dos santos, em 10.05.17

Este artigo de Luis Aguiar-Conraria sintetisa o essencial do que defendo em matéria de sustentabilidade ambiental (por exemplo, nos posts sobre animais de companhia ou sobre a transferência de tributação do trabalho para o consumo) de uma forma muito mais sistematizada, informada e elegante do que alguma vez eu conseguiria fazer.

Este post, para além de celebrar o artigo, tem apenas como objectivo reforçar um aspecto de que o artigo só fala de raspão: uma solução deste tipo é a solução central para garantir uma economia mais sustentável ambientalmente, em que o consumo de recursos é mais taxado que o trabalho  ou o capital, gerando incentivos para uma maior poupança e um consumo mais racional e, naturalmente, um maior investimento em soluções ambiental e economicamente mais eficientes.

Green and competitive é o título do artigo, já com muitos anos, que provavelmente mais me aproximou desta visão da fiscalidade que hoje o Luis Aguiar-Conraria descreve neste artigo que, de caminho, resolve algumas das minhas dificuldades em perceber como se resolviam as objecções de injustiça social que me pareciam existir no que eu pensava sobre o assunto.

E green and competitive ainda é o slogan que me faria deixar de votar sempre por exclusão de partes e passar a votar para escolher alguma coisa que realmente valesse a pena por si, e não por ser a menos má das opções (que, em todo o caso, já não é pouco).

Ilustrações

por henrique pereira dos santos, em 10.05.17

Diz Clara Barata, no Público de ontem: "Uma manifestação contra o novo Presidente logo no dia a seguir a ser eleito, ilustra a dificuldade do seu caminho".

Para mim ilustra muito melhor as dificuldades dos promotores da manifestação em conviver com a Democracia e a ideia de que a legitimidade do poder lhe advém do voto das pessoas comuns e não do consentimento dos iluminados que dizem defender os interesses do povo.

A verdadeira revolução

por Vasco M. Rosa, em 08.05.17

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A actividade editorial de livros é hoje de alto risco económico, num país preso à televisão, ao facebook e ao futebol, mas também pouco consciente de si enquanto comunidade historicamente vetusta.

O imediatismo de tudo e os cuidados com a vida prática também pesam na redução do tempo mental de cada um para ocupações valorativas de longo prazo. E as bibliotecas com empréstimo domiciliário são fraca e tardiamente abastecidas e nunca se implantaram como um serviço público essencial, ao nível dos hospitais e dos transportes.

Deste modo, tudo está fora do seu lugar sem criar uma mola de desenvolvimento humano que também não é apetecido por quem cresceu a só ouvir reivindicações economicistas e a só exigir direitos colectivos, em vez de entender a importância dos deveres individuais.

Donde a equação de tudo isso represente uma deriva colectiva de difícil correcção, a menos que cada qual ponha a mão na consciência e mude de vida. Mas isso demora longos anos até dar prova de efectiva mudança geral, que ninguém parece querer — a vida material prevalecerá sempre.

Enquanto isso, é preciso força para contemplar sem desmurecimento a decadência nacional que políticos sem escrúpulos e mentirosos também promovem pelo seu exemplo às avessas, cientes de que a população está entretida com likes, sms e selfies e não se prepara para a verdadeira revolução que importa fazer: a da nossa qualificação rumo à liberdade.

 

 

 

 

 

O Fundo Ambiental e o interior

por henrique pereira dos santos, em 08.05.17

Li que o investimento anunciado no metro de Lisboa vai ser financiado pelo Fundo Ambiental.

Que o investimento em transportes públicos nas grandes cidades é um investimento na sustentabilidade parece-me de meridiana clareza.

O que tenho mais dificuldade é em perceber por que razão resolve o Estado pegar no Fundo Ambiental e investi-lo exactamente onde há mais mercado e mais operadores de mercado disponíveis para investir, aumentando a macrocefalia do país, a concentração económica e, consequentemente, a concentração populacional que está na raiz do problema ambiental que se quer resolver.

Não faria mais sentido investir o Fundo Ambiental no transporte a pedido, dotando as áreas de baixa densidade populacional de transportes públicos que quebrassem a segregação dos que não têm carta ou já não podem guiar e são obrigados a ficar confinados às suas terras ou depender do favor de terceiros?

Não faria mais sentido investir o Fundo Ambiental no pagamento dos serviços de ecossistema que o mercado não remunera, como a gestão do fogo, da biodiversidade ou do ciclo da água, sustentando riqueza e economia no interior de modo a que seja possível gerir o território e diminuir a pressão sobre os grandes centros?

Depois do absurdo de pôr o Fundo Ambiental a financiar festivais de música, temos agora o Fundo Ambiental a pagar a factura da reversão das concessões dos transportes públicos de Lisboa e Porto, ao mesmo tempo que se dá um empurrãozinho à campanha eleitoral do actual presidente de câmara de Lisboa.

Mas como a imprensa também é essencialmente Lisboa, nada disto passa de uma não discussão sobre paisagem, até porque, de acordo com a imprensa e o governo (desculpem-me o pleonasmo), para resgatar o interior o governo tem uma estratégia.

Que o Fundo Ambiental desconhece, claro.

Vós que aqui entrais, deixai toda a esperança

por henrique pereira dos santos, em 08.05.17

Quando até o Diário da República está rendido às fake news, não pode haver grande esperança no resto da imprensa.

Animais de companhia

por henrique pereira dos santos, em 07.05.17

Há dias fiz um post a dizer duas coisas relativamente simples:

1) a posse de animais cuja utilidade social dominante é dar prazer aos seus donos terá crescentes externalidades negativas sobre terceiros, quer financeiras, quer de sustentabilidade;

2) decorrente desta ideia, sugeri que era tempo de reequilibrar custos e benefícios, o que significa pôr os principais beneficiários da posse desses animais a pagar mais pelas externalidades negativas que hoje recaem sobre a generalidade da sociedade.

Estes dois pontos motivam algumas objecções razoáveis (por exemplo, a posse de animais é da esfera das decisões privadas e o Estado não tem nada com isso, ou a operacionalização de um esquema de poluidor pagador ser excessivamente complicado para o benefício esperado), e muitas objecções pouco razoáveis (essencialmente negando as externalidades negativas, ou empolando os meus benefícios decorrentes do meu vizinho do sétimo andar ter um cão, um gato ou um hamster, ou ainda dizer que os meus cães, ou gatos, ou hamsters são fantásticos e se os dos outros têm externalidades negativas, é responsabilizar esses outros).

Para além disso motivam reacções emocionais sem grande utilidade para a discussão e que faço por ignorar.

O que não esperaria era a investida do proselitismo animalista tentando convencer-me de que estou a dizer o mesmo que as correntes associadas aos direitos dos animais e que a única opção ética consistente é ser vegan, esquecendo o essencial do post: é exactamente essa posição ética, sobre a qual não emiti qualquer juízo de valor, que foge como o diabo da cruz de discutir as implicações de consumo de recursos que tem para toda a sociedade, quando aplicada aos animais de companhia (por animais de companhia estou a dizer os animais cuja vida consiste em fazer companhia aos seus donos, não estou a falar de animais de trabalho, incluindo cães de gado, gatos que controlam ratos, pássaros que avisam os mineiros da falta de oxigénio e as milhares de outras utilizações produtivas e sociais em que são usados animais, como os ratos usados na desminagem de campos de batalha).

Tenho de facto uma grande sobreposição de pontos de vista com as correntes animalistas em relação aos animais criados para consumo: não há razão para o tratamento fiscal favorável que têm os lacticínios (que deveriam ser taxados a 23% e não a 6% no IVA, por exemplo) e a carne de produção intensiva, alguns modelos de produção intensiva são claramente desumanos e os recursos que o Estado usa para financiar o mundo rural deveriam estar concentrados no pagamento de serviços de ecossistema que não podem ser valorizados no mercado, e não ser gastos no apoio a produções intensivas de porco, por exemplo, cuja única externalidade social positiva que tem é a carne que os consumidores compram, cujo preço deve ser determinado pelo mercado, sem distorção provocada pelo abaixamento de preço induzido pelo Estado.

Mas não confundo a produção de animais para benefício de terceiros, com a posse de animais para benefício próprio, dizendo que porque a primeira situação tem externalidades negativas (e tem, muitas), então a única solução é deixar de consumir produtos derivados dos animais.

É que a produção de animais que tem pesadas externalidades negativas é a produção intensiva, fortemente regulada pelo Estado, também para resolver essas externalidades negativas, como qualquer pessoa que leia o kafkiano Regime de Exercício da Actividade Pecuária pode constatar.

Há um conjunto de outros modelos de produção pecuária, como a pastorícia extensiva, ou a caça (em rigor, não é um modelo de produção pecuária, mas chamemos-lhe um modelo de consumo animal) que podem ter imensas externalidades positivas, compensando largamente as suas externalidades negativas.

A questão central do meu post anterior é um pouco ao lado desta discussão dos diferentes impactos dos diferentes modelos de exploração animal, porque essa é uma discussão sobre a qual existem quilómetros de prateleiras de documentos escritos sobre o assunto.

O meu post anterior é sobre uma matéria bem menos discutida: qual é o custo social do aumento exponencial de animais de companhia nas nossas sociedades, potenciado pelas ideias associadas aos direitos dos animais? E é esse custo justamente repartido entre beneficiários e prejudicados?

Nada nesta discussão se relaciona com mais ou menos amor ou respeito pelos animais, mas sim com escolhas a fazer, de que a legislação contra o abate de animais nos canis é um bom exemplo.

Com a melhor das intenções e um mundo de compaixão decide-se que é desumano abater os animais. O resultado é que alguém vai ter de pagar a sua alimentação e tratamento durante o resto da vida. Pretender que pagar isso não tem implicações para terceiros é absurdo. Negar que esses custos existem, é absurdo.

Não deveríamos estar a discutir se esses recursos não seriam muito mais bem empregados em campanhas sérias de esterilização de animais?

Eu acho que talvez, mas que a questão nunca estará em cima da mesa se se continuar a negar o custo social associado à decisão de proibir os abates (com o resultado, não previsto, de se estar a estrangular as associações que recolhem animais vadios, muitas vezes associadas ao bem estar animal, simplesmente porque se tomou a decisão com base em ideias gerais, sem estudo nenhum sobre a situação no terreno e as implicações da decisão).

É por isso que acho útil discutir as externalidades negativas associadas aos animais de companhia, "serenamente, 
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição, e sobretudo sem desapego ou indiferença" como diria o Jorge de Sena.

Outro "erro de percepção mútua", este logo resolvido

por João-Afonso Machado, em 07.05.17

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Ana Catarina Mendes abriu a goela e quis tragar Rui Moreira para  um próximo sucesso eleitoral do PS. Um sufoco de que Rui Moreira não gostou. Com três ditos contundentes seus, os socialistas já forjavam à pressa um candidato próprio à Câmara do Porto.

(Interessante será constatar até onde irá Manuel Pizarro na sua campanha, auto-justificando-se e demarcando-se de Moreira... Se Louçã é exemplo, talvez avance pela tradição comercial da família do seu agora opositor...)

Todavia, e desde logo, - o alívio de quantos sofrem os males do monopólio partidário às Autárquicas. Mais a constatação de que o PS (pela voz da sua Catarina) quer eleitoralmente tudo ser, mesmo as candidaturas que se apresentam como independentes.

Depois, a noção de que a reeleição de Rui Moreira se afigura mais problemática (embora obra feita seja obra feita...), devido precisamente aos "carneirinhos" das urnas.

Finalmente, uma nota: o senhor do PSD (cujo nome não fixei) que anda por aí em campanha autárquica, bem podia repensar. O próprio PSD também. Não seria pior desistirem da candidatura, recomendando o voto em Moreira.

Mas, é claro, sem reivindicarem o segundo lugar na hierárquia da edilidade...

 

Ai não fica sem resposta...

por Vasco M. Rosa, em 07.05.17

O bizarro caso de Pizarro-Mendes no Porto é só o início das surpresas autárquicas do PS. Em Lisboa, revelaram fontes bem informadas ao CF (em primeira mão!!), num gesto sem precedentes nem tradições partidárias o nunca eleito presidente Medina vai ceder o seu lugar ao efectivo presidente arquitecto Manuel Salgado, o homem que realmente decide — desde Costa — na CML.

Nos bastidores do renovado pavilhão Carlos Lopes (e quanto pagou o PS pelo uso?..), num assumo de sinceridade e clarificação, ambos protagonistas decidiram vestir as suas próprias roupas e calçar os seus próprios sapatos, dedicando-se doravante Fernando Medina è redacção de intervenções políticas do mais fino recorte, de que só havia podido fazer pequeninos ensaios em cerimónias públicas, e pelas quais pretende distinguir-se a breve trecho para assim aceder a mais altos e nobres cargos de estado condizentes com a sua qualidade de filho de resistentes clandestinos a uma ditadura.

AC disse-lhe logo que sim, pois também ele — algures num passado distante — se considerou digno dum lustroso futuro político, como herança directa e legítima de opositores estigmatizados.

O anúncio deste rearranjo foi considerada pelo lúcido e prudente Carlos César como a mais vibrante resposta à «arrogância independentista» de Rui Moreira, que dispensou o apoio do partido socialista. Costa quis demonstrar — confirmou César — que também ele tem um independente em Lisboa e quando quiser coloca-o na chefia declarada do município. Porque, como disse o outro coelho, quem se mete com o PS leva...

 

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Tripas à florentina

por henrique pereira dos santos, em 06.05.17

Rui Moreira e o PS deram-se conta de que as eleições para a Câmara do Porto iriam ser disputadas entre dois independentes apoiados pelos dois maiores partidos e que do lado de lá já não estava um desgastado Luis Filipe Menezes, com metade do partido contra ele, o que diminuía o potencial de Rui Moreira como outsider do sistema partidário.

Rui Moreira e o PS deram-se conta de que o apoio do PS a Rui Moreira criava mais problemas do que resolvia: obrigava a uma negociação de listas que diminuía a imagem de independência de Rui Moreira e acentuava a ideia de Rui Moreira era uma porta de cavalo para a influência do PS na Câmara, ideia tanto mais credível quanto o seu acordo pós-eleitoral com o PS a fundamentava. E impedia Pizarro de ser o número dois da Câmara, como tem sido, obrigando a colocá-lo num lugar pouco interessante das listas, para reduzir a ideia de que o PS tinha sequestrado Rui Moreira.

A solução agora encontrada (o PS puxa a corda, Rui Moreira parte-a e o PS arranja uma candidatura relâmpago autónoma) tem a parte desagradável de obrigar o PS a uma votação semelhante à das últimas eleições, ou ligeiramente mais baixa, mas tem a enorme vantagem de permitir reforçar a imagem de independência de Rui Moreira, não prejudicando a possibilidade de novo acordo pós-eleitoral que reconduza Pizarro a número dois da Câmara, ou seja, provavelmente permite um maior número de vereadores e de votos (e permite ao aparelho do PS ocupar as juntas de freguesia) e só seria arriscada se a distância para o PSD fosse curta e não os quase vinte pontos percentuais das últimas eleições.

Para quem gosta da política florentina, este é um exemplo brilhante e elegantíssimo.

Os amigos de Costa

por henrique pereira dos santos, em 06.05.17

É muito cedo, as coisas podem ainda mudar muito (veja-se o Porto) mas, neste momento, acho que os amigos de Costa, de tanto o amarem, lhe criaram uma armadilha de que será difícil escapar-se.

Passos Coelho, desde muito cedo, baixou as expectativas sobre as autárquicas, e logo os amigos de Costa trataram de anunciar, urbi et orbi, que estava ali a demonstração da sua fraqueza e fragilidade, a confissão da derrota anunciada que o iria obrigar a demitir-se (antes das autárquicas, para evitar a derrota, ou depois das autárquicas, em consequência da derrota, variava conforme os amigos que falavam).

Há meses que qualquer percalço de Passos Coelho na mercearia das autárquicas era visto como mais uma demonstração da sua incapacidade e da derrota antecipada.

Pelo contrário, no PS havia uns arrufos, questões de personalidades locais, mas António Costa pairava soberanamente sobre tudo isto, orientando, com soberba capacidade, a gestão dessas pequenas questiúnculas, razão pela qual as autárquicas seriam (e serão) um mero passeio triunfal para Costa.

Mesmo no meio da confusão do Porto, o jornal I é claro a vincar os dotes quase sobrenaturais de negociador de Costa: "Em contagem decrescente para a convenção autárquica de hoje, na qual o Porto será inevitavelmente o centro de todas as atenções, António Costa pode acabar por ser forçado a apresentar um candidato. Mas tentou ao máximo evitar esse cenário, usando os seus conhecidos dotes de negociador". Se não funcionaram neste caso, é apenas porque outros foram absolutamente incapazes, Costa não tem qualquer responsabilidade no caminho que levou o PS até aqui no Porto.

Com isto tudo, as expectativas gerais vão no sentido de que, com Porto, ou sem Porto, Costa vai ter um resultado inequívoco nas autárquicas, demonstrando o apoio do povo à solução governativa que existe.

E é aqui que a porca torce o rabo: ganhar qualquer coisa nas autárquicas é bom para Passos Coelho, mas perder não é dramático, ganhar de forma clara é vital para Costa e perder é um desastre.

Só que Costa parte de um resultado extraordinário do PS nas últimas autárquicas e tem garantido uma perda de votos substancial em Lisboa (Medina não é Costa) e uma perda substancial no Porto, o que lhe deixa uma estreitíssima margem para dizer que ganhou as eleições e que o apoio do povo a esta solução se tem vindo a reforçar.

Percebe-se que a intenção dos amigos de Costa era fazer uma pressão tal sobre Passos Coelho que a sua demissão fosse inevitável.

O problema é que, aparentemente, Passos Coelho resistirá e, mesmo perdendo substancialmente, pode ganhar na percepção dos resultados, o que é razoável para Passos Coelho e o pior cenário para Costa.

Com amigos destes, Costa pode até dispensar os inimigos.




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