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Os meus livros

por João Távora, em 23.04.08
Cresci no meio de livros, pequenos, pesados, grandes ou leves,  de todos os géneros formas e feitios. Experimentei-os feitos de pano, em papel e até pergaminho, quando o meu pai mos deixava apalpar para  satisfação da minha curiosidade. Habituei-me a viver com eles, empoleirados nas estantes do escritório e ao longo do corredor lá no 3º andar de Campo d’ Ourique. Até na casa de banho se formava uma pequena biblioteca de circunstância com pilhas de “patinhas”, “argonautas”, “vampiros” e “selecções”.
Foi na Avenida da Liberdade, na casa dos meus avós, que descobri o armário dos Tintins, no quarto do meu tio, ausente no ultramar. A minha vida nunca mais seria a mesma. Recordação remota é a dum fascinante livro de mesa, que se escondia no armário da grande sala da avenida, em papel sedoso e pesado, com fotografias e ilustrações do Parque da Gorongosa, que ficava lá nas áfricas, para onde os meus tios iam prá guerra. Então perdia-me na savana africana, entre coloridas fotografias de leões e gazelas, enquanto a televisão imponente e pesada transmitia a mira técnica entre duas aulas da telescola.
A determinada altura, os meus pais estabeleceram prémios por objectivos, atribuídos à leitura de livros “sem bonecos” da Virgínia de Castro e Almeida, Condessa de Ségur ou Enid Blyton, aos quais por preguiça eu ainda resistia. Fazia-me muita impressão a rapidez com que o meu pai devorava todo o género de livros, a toda a hora. Hoje ainda tenho dúvidas se os lia na diagonal ou salteado, pois era vulgar encontrá-lo tempos depois afincado de novo ao mesmo romance ou ensaio que despachara numa hora.
Sou dos que lêem os livros devagar, não sei se por jeito ou falta dele. Estou condenado a escolher bem as minhas leituras, pois o “meu tempo” é um bem muito escasso. Nunca alcancei uma fórmula de leitura rápida que satisfizesse a minha compreensão. Facilmente me perco entre duas linhas dentro da história, na senda dum fugaz pormenor, ou duma recordação espicaçada. Também me zango com os livros, desisto, troco-os e traio-os quando me entediam ou fazem sofrer. Mas termino-os quase sempre e tenho dificuldade em me desfazer deles: um drama para quem mora numa casa de subúrbios, atravancada de gente e respectivas tralhas. E que falta nos faz aquele sentido prático dos que inventaram os paperback, aqueles livros descartáveis de que os bifes se "esquecem" nos hotéis... pois afinal onde é que guardamos uma boa leitura?



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