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Correio do Minho

por João-Afonso Machado, em 10.12.14

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Prezado Primo:

Escrevo estas linhas breves a rebentar de contentamento. A nossa amada Terra está no Guiness, medalhada de bronze. Somos, nada mais, do que os terceiros a apresentar um pedido de Habeas Corpus para a libertação imediata do Sócrates!!! O caro Primo perguntará a quem pertenceu a iniciativa. Pois foi ao empresário Luís, que há-de conhecer tão bem como eu não. Mas, estimado Primo, que força de argumentos! Que ele foi preso em ausência de crimes, porque inexistindo factos! Ele (o Sócrates), o introdutor da austeridade, agora acusado de defraudar os portugueses! Ele, encarcerado, enfim, sem qualquer fundamento indiciante!... Vítima de uma conspiração, vergonha que atinge toda a gente decente!

E por aí fora. Expôs, expôs, expôs, o Luís. Este nosso conterrâneo que a seu favor conta, além do mais, ter recebido 25.000 euros do sucateiro Manuel Godinho daquele caso Face Oculta, para quê não se sabe; e que ofereceu boleia ao motorista do Ferreira Torres, destino Brasil, em vésperas da sua audição em julgamento... Um homem de calibre grande, como esta bomba bem pantenteia.

Eu não sei se o Primo alcança o peso deste novo Habeas Corpus. Do seu sucesso, ninguém duvida cá para estas bandas: Sócrates é livre, novamente. Ao pé do nosso Luís, Camilo Castelo Branco é uma camélia murcha. Bernardino uma carcassa. Os mais heróis, pedestais demolidos. E dir-se-à, finalmente - aqui, em Famalicão, nasceu ou renasceu (já ora cá se discute o Renascimento) a liberdade.

Creia o amável Primo o manterei ao corrente do sucedido. Despede-se com um abraço apertado e os desejos de

Saúde e Fraternidade!

o primo

JAM

 

 

 

 

Aquilo que conta

por João Távora, em 10.12.14

"As crianças, mais do que teorias, precisam de exemplos. Muito mais do que teologia, percebem testemunhos de fé. E é aqui que a coisa se complica. É fácil teorizar sobre a verdade revelada no Evangelho: dar a outra face, perdoar sem reservas, amar quem nos quer mal. São palavras boas e necessárias, mas apenas palavras. Chegam aos ouvidos, mas não tocam o coração. Não podemos exigir deles que respeitem os mais velhos, se nós, os pais, negligenciarmos os nossos idosos. Não perceberão a necessidade de manter unida a família, se não virem em nós sinais de amor conjugal."

 

A ler na integra o Rui Castro em grande forma, aqui

Generation gap

por João Távora, em 09.12.14

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Mãe e filho pequeno aos saltos em corridas descem a rua à minha frente: 

Mãe: Curtiste?
Filho: O quê?
Mãe: (mais alto) Curtiste?!
Filho: O que é isso?
Mãe: Se gostaste?
Filho: Gostei!!!

Não é grave, mas...

por João-Afonso Machado, em 08.12.14

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A visão do forte de Peniche lembra a longa série de mártires que Salazar criou em desproveito da sua II República. As causas políticas vivem muito desses mártires (da Pátria, da Liberdade, do fascismo...), essenciais à exaltação dos seus seguidores. A corrupção patenteada pela III República fez outro tanto, içando aos altares a probidade. E por isso o salazarismo continua aí, não somente nos desabafos dos taxistas.

A guerra entre as Repúblicas tem os seus intervenientes próprios e terá, até, os seus doutrinadores - vivos, conhece-se nenhum. O mal está, precisamente em o salazarismo, doutrinariamente, ser uma corruptela do pensamento integralista, cujos Mestres, de resto, acabaram quase todos perseguidos por Salazar. E assim, de equívoco em equívoco, vai-se de Sardinha até El-Rei D. Miguel num tropel bárbaro de anacronismos e absurdas comparações. O salazarismo está reincendiando a Guerra Civil sob o pretexto da sua fobia anti-liberal e partidária.

Pelo meio, uma feira de mitos (ou, para os não ledores de Sardinha, de diversões) onde pontifica a caça ao maçon, uma das acusações preferidas, recíprocamente trocada; e o anti-semitismo, o beatério e senhoras ignorantes e alarmadas porque "eles" vêm aí.

Acresce o pior. Sem comunistas não há salazarismo. Donde, na absoluta ausência de qualquer ideia ou projecto de futuro, Marx e Lenine e os seus apaniguados vão gozando de tranquila imunidade. O passadismo desta gente, se não investe de cabeça rapada (no cabelo e nos conhecimentos) contra quem os contrarie, suscita questões há décadas sepultas, como seja a da legitimidade dinástica. E as barbaridades que não se ouvem então!

Enfim, hoje dia da Imaculada Conceição esta "União Nacional" naturalmente debaterá qual a verdadeira Nossa Senhora: a de Fátima, miraculosa, ou a nossa Padroeira e Rainha de Portugal... Na minha Fé, a Senhora da Nazaré nada ficará ofendida.

 

 

 

Negócios de Inverno

por João-Afonso Machado, em 07.12.14

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Manhã de sol, domingueira, quando já algumas bicicletas a atravessam e os cães, à trela, gozam o consolo possível, coitados. Uma manhã tão igual a outras, todas com hora marcada para essa panóplia dos rituais das gentes, não esquecendo o cafezinho e o jornal.

Ainda assim, a ímpar manhã de uma praia varrida, desempoeirada, vaga, disponível. Apetecível. Maquilhada ao jeito das agendas imobiliárias. Estava à venda por bom preço.

Assim a comprei, num impulso de milionário excêntrico. Apenas porque sim. Porquê é Dezembro e há vida para além do Verão. Porque no silêncio de tantas portas e janelas cerradas se forma o eco das nossas palavras e dos passos sem atropelos. Sempre recordando cores, convicções, planos entusiasmados, anos para trás.

Aquecido pelo blusão, iluminado pelo sol, abastado em espaço livre, vergado ao peso da nostalgia - eis, em suma, porquê. Porque comprei a praia.

E terei feito bom negócio. Lá para Maio começarão a não faltar os interessados. Em Junho estará madurinha e em Julho valerá decuplicadamente. O coração não pode ter voz activa nestas decisões e as mais-valias hei-de disfarçá-las entre a multidão.

 

Ruído de fundo

por João Távora, em 07.12.14

Não vale a pena perder tempo com a violência do manifesto do eng. Sócrates, anteontem publicado no Diário de Notícias. Toda a gente que ele ataca não abriu a boca. Os políticos não comentaram, os jornalistas não comentaram, os professores de Direito não comentaram e “as pessoas decentes” com certeza que não leram aquela diatribe de autopiedade e fúria. Ainda por cima, Sócrates não percebeu que para fabricar uma polémica precisava de quem se dispusesse a discutir com ele. Não basta que ele se torça de raiva ou que insulte este mundo e o outro, se não tiver resposta; e ele já anda pelas páginas “mortas” dos jornais. Claro que o “animal feroz” não se calará. Mas não me cheira que o país se rale com isso, nem que o PS se ache no dever de o carregar por muito mais tempo. 

 

Vasco Pulido Valente no Público.

2º Domingo do Advento

por João Távora, em 07.12.14

Evangelho segundo São Marcos

 

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Início do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus. Está escrito no profeta Isaías: «Vou enviar à tua frente o meu mensageiro, que preparará o teu caminho. Uma voz clama no deserto: ‘Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas’». Apareceu João Baptista no deserto, a proclamar um baptismo de penitência para remissão dos pecados. Acorria a ele toda a gente da região da Judeia e todos os habitantes de Jerusalém e eram baptizados por ele no rio Jordão, confessando os seus pecados. João vestia-se de pêlos de camelo, com um cinto de cabedal em volta dos rins, e alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre. E, na sua pregação, dizia: «Vai chegar depois de mim quem é mais forte do que eu, diante do qual eu não sou digno de me inclinar para desatar as correias das suas sandálias. Eu baptizo-vos na água, mas Ele baptizar-vos-á no Espírito Santo».

 

Da Bíblia Sagrada 

 

Uma coisa é certa:

por João Távora, em 06.12.14

um primeiro-ministro que deixa o país na miséria não se pode instalar, sob o pretexto de estudar filosofia, num dos bairros mais caros de Paris. José Sócrates sofre de um défice moral.

Maria Filomena Mónica hoje no Expresso

Sebastião

por João Távora, em 06.12.14

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Tinha aprendido a amar de uma forma plausível e há muito reconhecia os limites duma efabulada felicidade que a obstinada fantasia infantil o induzira a acreditar até tarde de mais. Chegado perto dos 50 anos Sebastião tinha a existência relativamente pacificada. Relativamente porque sobejavam aqueles tortuosos minutos (ou seriam apenas segundos?), que o inquietavam naquele twilight do despertar madrugador, em que de forma violenta do profundo sono em queda livre esbarrava numa realidade vazia, sem os filtros culturais, os fetiches da consciência de si e o sentido de pertença, as certezas construídas em camadas mais ou menos firmes. Naquele ponto da madrugada morna e inconsciente abruptamente entrecortada para mais outro dia de trabalhos e contendas, por uns segundos, (talvez fossem minutos), o mundo apresentava-se-lhe assim como se fora desalmado, ósseo, feito de seres vazios, expurgados de afecto. Esses momentos de sinistra lucidez, eram afinal instrumento de reconhecida eficácia para, ainda antes de se levantar para enfrentar a jornada, friamente esclarecer sentimentos e arbitrar indecisões ou conflitos, destroços do dia anterior, quase sempre de âmbito profissional - a crueza daquela racionalidade mórbida ajudava-o a corrigir juízos e a tomar decisões. Mas o certo é que esse buraco negro se esvaía com relativa rapidez, engolido com o pequeno-almoço e definitivamente digerido pelo urgente e escaldado café da manhã. Sebastião, homem bem-aventurado, plenamente realizado e vivido, tinha naquela sua secreta vertigem, naquela visão do abismo, a consciência próxima da morte, antes de o ser. De que a vida era uma preciosa conquista diária ao nevoeiro, à obscuridade.  

Conselhos vitais do Estado aos ignaros 10 milhões

por José Mendonça da Cruz, em 05.12.14

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 A Direcção Geral de Saúde informa que, perante temperaturas próximas do zero, as pessoas devem usar vestuário mais quente, e recorrer sem hesitação a camisolas interiores, camisolas de lã, blusões e casacos. Por idênticas razões não devem expor-se ao frio circulando nas vias ou no campo nuas, nem usarem fato de banho ou roupa interior durante o horário de trabalho ou nos tempos livres. Os ciadãos portugueses devem abster-se de ir à praia durante o Inverno, a menos que bem agasalhados e com botas impermeáveis e meias grossas. Às refeições devem preferir sopa quente e comida acabada de cozinhar, em vez de gaspacho, vichyssoise ou salada russa fria. O Instituto de Mobilidade previne os senhores automobilistas contra a prática de percorrer estradas com gelo a velocidades superiores a 200 km/h, e recomenda a todos os condutores que quando pretendam virar à direita voltem o volante para a direita, abstendo-se da prática errada de o voltar nessas ocasiões para a esquerda. A Câmara Municipal (__ preencher__) recomenda o uso de guarda-chuva em períodos de chuva intensa ou, em alternativa, de impermeáveis com capuz ou touca; caso algum fenómeno imprevisto trouxer temperaturas próprias de Verão durante o Inverno, os munícipes devem optar, então -- mas só nesse caso -- por roupas mais frescas. O Ministério da Saúde recomenda às pessoas que sintam sede que bebam água; da mesma forma, as pessoas que sintam fome devem ingerir alimentos. No dia a dia, todos devem ter o cuidado de respirar ar, e não gás natural ou propano. O Ministério da Economia recomenda a todos os cidadãos que guardem algum período das 24 horas para o sono, de preferência numa cama e adverte contra períodos de trabalho superiores a 96 horas. O Ministério dos Assuntos Sociais recomenda aos pais que alimentem e vistam os filhos, e lhes proporcionem educação, em alternativa a deixá-los errar pelas ruas sem destino, famintos e nus. Etc.

Que seria de nós, de facto, pobres e abúlicos ignorantes, sem os conselhos avisados e iluministas da querida e benfazeja Administração Pública?

A António Costa sai-lhe despesa pelos intervalos do riso

por José Mendonça da Cruz, em 05.12.14

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 O diabo do conto de Jorge de Sena, Razão de o Pai Natal Ter Barbas Brancas, é desmascarado porque  «não se pode rir muito alto, porque lhe sai enxofre pelos intervalos do riso». O «novo» PS é parecido: sai-lhe défice e dívida pelos intervalos da «política de crescimento».

Já ontem, na Assembleia da República, João Galamba, fiel do socratismo e membro do novo secretariado de António Costa, prometia que, a ser governo, o PS haveria de arranjar maneira de ignorar o Pacto Orçamental, que classificou de «erro», porque sempre se há-de poder «violar de alguma forma o seu espírito sem violar necessariamente a letra».

Para confirmar que não houve engano, que essa é a linha oficial do partido, que os gastos ruinosos à Sócrates são o núcleo do seu programa, António Costa veio agora criticar o controlo da despesa (que diz ser de direita), defender um Estado gordo (à maneira da sua esquerda), e propor que a comparticipação dos Estados-membros no novo plano europeu para o investimento estratégico não seja contabilizada para apuramento do défice. Ou seja, Costa quer gastar e esconder a despesa debaixo do tapete. E gastar em quê? Ora, na miragem socialista da «educação» e da «requalificação», que certamente proporcionariam ao PS mais «festa» como na Parque Escolar e novas oportunidades para adultos dinâmicos.

O programa político de Sócrates teve as consequências que sofremos. Mas o programa político do PS de António Costa também é como o diabo de Sena: «Era inevitável que apareceria, pela calada da noite, e vestido de outra maneira, para não ser conhecido.»

 

É preciso ter lata...

por Vasco Mina, em 05.12.14

PS diz que ainda é possível "defender" a PT

 

Há gente que nem memória tem...

Maravilhas em directo

por José Mendonça da Cruz, em 05.12.14

Tem ainda uma hora para assistir em directo, através da emissão da Nasa, aqui, aos momentos finais do voo de teste da nave Orion, que na década de 2030 levará pessoas a Marte.

Heroísmos

por Luísa Correia, em 05.12.14

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Eu temo muito o mar, o mar enorme,

Solene, enraivecido, turbulento,

Erguido em vagalhões, rugindo ao vento;

O mar sublime, o mar que nunca dorme.

 

Eu temo o largo mar rebelde, informe,

De vítimas famélico, sedento,

E creio ouvir em cada seu lamento

Os ruídos dum túmulo disforme.

 

Contudo, num barquinho transparente,

No seu dorso feroz vou blasonar,

Tufada a vela e n’água quase assente,

 

E ouvindo muito ao perto o seu bramar,

Eu rindo, sem cuidados, simplesmente,

Escarro, com desdém, no grande mar!

 

Cesário Verde  

Não quero o meu Portugal à beira de um Rio triste

por José Mendonça da Cruz, em 05.12.14

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Partidos de protesto

por Vasco Lobo Xavier, em 05.12.14

António Costa piscou o olho a Rui Tavares e acusou o PCP e BE de serem partidos de protesto. E se são partidos se protesto não contem com o apoio do PS. Fica só para o Rui Tavares, que curiosamente não será um partido de protesto (sabe-se lá porquê). Mas o mais engraçado disto tudo, para além da arrogância, é que o PS também tem demonstrado, nos últimos anos, não ser mais do que um partido de protesto, sem qualquer ideia ou rumo.

 O PS levou o país à bancarrota, teve de pedir ajuda externa porque ninguém nos emprestava dinheiro, já nem aos juros altíssimos que o PS logrou atingir para nos dar cabo da dívida hoje; negociou essa ajuda, concretizou essa negociação, anunciou-a com entusiástica alegria (só duvidando se se deveria virar para a câmara da esquerda ou se para a da direita, mas o Luís resolveu isso rapidamente) e, poucos meses depois (em Setembro de 2011), já era contra todo o programa que tinha negociado. Daí para cá esteve sempre a berrar contra tudo o que tinha acordado fazer. Protestou contra qualquer redução de despesa e exigiu sempre aumentos de despesa. Sempre. E sem nunca dizer como resolver os problemas que tinha criado aos portugueses.

Depois veio Costa, que continuou a protestar sem dizer como solucionar os problemas. Rasgou de imediato o único acordo decente que se tinha feito (IRC). E sem justificação. Sim, pois o fundamento utilizado só me faz recordar o diferendo socialista açoriano com os Estaleiros Navais de VC e que deu no que deu. No IRS é o que é. Quanto às questões relevantes, fecha-se em copas.

O PS, de Costa ou de Seguro, mais não é do que um partido de protesto. Não se distingue do PCP nem do BE. E nem do Rui Tavares, valha a verdade. São todos partidos de protesto.

Rui Rio ficou chocado

por Vasco Lobo Xavier, em 05.12.14

Rui Rio declarou-se chocado com o espectáculo mediático. Não lhe ocorreu uma frase sobre a gravidade das suspeitas mas considerou que o espectáculo mediático envergonha a justiça, deixa-a na lama. “Chamaram a comunicação social para a detenção!”, acusou ele. Eu estou a dar em doido: parece que uma parte substancial da população portuguesa assistiu à detenção de Sócrates e eu, que me julgava minimamente informado, eu, que passei a noite fatal agarrado às televisões e computadores, eu, que gasto variado papel de jornal diário e semanal, nunca consegui ver uma imagem, uma foto, um esboço da “mediática detenção” para a qual “chamaram a comunicação social”. Já procurei em todo o lado mas deve haver uma cabala para me privar dessas imagens. Durante muito tempo até pensei que quem dizia semelhantes coisas era intelectualmente desonesto ou um refinado mentiroso, coisa que não queria apontar a Rui Rio nem a muitos dos que se queixam do mesmo. Peço então encarecidamente que me enviem as imagens dessa detenção mediática, que eu não as conheço nem nunca vi. Pleeeeease!

 

Pelo que tenho lido, imaginem, parece que se conseguiu deter um ex-PM sem ser perante as câmaras televisivas, nem sequer um passageiro do avião logrou tirar uma foto rápida com o telemóvel. Ao que parece, conseguiu fazer-se essa detenção só com o conhecimento prévio do próprio, do seu filho e do seu advogado (que soube de véspera e de imediato se foi reunir com ele em Paris). Paris onde estava desde quarta-feira depois de ter almoçado na terça-feira com um antigo PGR, a quem queria oferecer um livro e contar viagens, pelos vistos no mesmo dia em que Carlos Alexandre tinha determinado a sua detenção. E não sem antes mandar limpar os computadores de casa (tudo via Correio da Manhã, 4.12.14). Coincidências. É sempre a chatice das coincidências. Mas isso já não choca Rui Rio. Nem a maioria das pessoas.

 

O que os choca é o espectáculo mediático. Detenhamo-nos então sobre a coisa, pois é muito engraçada (este país é, realmente, muito divertido). Vejamos: eu ainda não vi os magistrados a debaterem publicamente o processo nem os factos a ele ligados. Não os vi fazerem conferências de imprensa nem a comentar o assunto nem a passear-se pelas televisões. Pelo contrário, vejo muitos dos que que se queixam das fugas ao segredo de justiça a criticarem a mesma por não divulgar os fundamentos da detenção, como se esta fosse livre para o fazer, o que me faz sempre sorrir com gosto de tal desgosto.

 

Julgo que aqueles que criticam o espectáculo mediático, como Rui Rio, não têm sequer a menor noção de que estão a criticar – não a justiça – mas a própria comunicação social, que como também não percebe essa evidência divulga alegremente as críticas sem se aperceber que são para ela. O espectáculo mediático não é feito pela justiça, mas pela comunicação social que vai filmar carros inocentes para o aeroporto e se posta acampada à porta do presídio de Évora à espera que chova. Ou faça sol. E que, na falta de melhor, entrevista os tolinhos do costume que se vão passear para lá, com a certeza de aparecerem nos noticiários. E escreve sobre a dieta do sítio, da falta de água quente, do minuto em que foi ao wc, do tempo que faz e do que fez, tudo numa histeria total. O que tem a justiça a ver com isso? Claro que é notícia e vende jornais o acompanhamento da detenção de um antigo PM suspeito de se ter alambazado com vinte e tal milhões e que vivia de uma forma que até na América Latina, aqui há uns anos, não deixaria de levantar algumas dúvidas. Claro que assim se percebe que a comunicação social se poste ali e escreva sobre o que há e não há para contar. Mas o que tem a justiça a ver com isso? Não é essa a liberdade de imprensa? E não é também a liberdade de imprensa que justifica que alguma mais séria investigue, ao invés de de acampar em Évora, e publique o resultado das suas investigações? O que tem a justiça a ver com isso, com esse espectáculo? E essa liberdade de imprensa não deveria obrigar qualquer jornalista sério a perguntar ao entrevistado, sempre que ele se manifestasse chocado com as fugas ao segredo de imprensa, coisas tão simples como: “sim, sim, está muito bem, e o que acha da gravidade dos crimes de que o homem é acusado? O que tem a dizer sobre isso?”

 

Este país é muito divertido. Eu também me sinto chocado. Com Rui Rio.

A opção do atraso

por José Mendonça da Cruz, em 04.12.14

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 A reforma do IRS que o Governo propõe beneficiará todos os contribuintes de todos os níveis de rendimento, confirma a Price Waterhouse Coopers («aliviará» todos os contribuintes, será mais correcto dizer). No entanto ela não avançaria se prevalecesse a vontade do PS. Apesar das alterações introduzidas pelo governo para convidar a adesão do PS (o que, de caminho, introduziu confusão nas medidas), o PS propõe-se vetar por causa de uma desculpa qualquer. A desculpa qualquer desta vez é o «quociente familiar», as regalias fiscais a atribuir a quem tem filhos, que diferem conforme os rendimentos. Esquecendo que quem recebe mais pagou antes mais, e quem recebe muito mais pagou antes muito mais, os demagogos socialistas, travestindo sem pejo nem vergonha uma questão de proporcionalidade numa avaliação monetária de crianças (segundo eles os filhos dos ricos valeriam mais), gritam por «igualdade», retomam o estribilho vesgo de «neoliberal» e banham-se no pior populismo da cartilha mais arcaica da esquerda. Com o chumbo da (modesta) reforma do IRS os socialistas demonstram que as reformas modernizadoras de Portugal só serão feitas contra eles. Ou não serão.  

O poder de uma boa história

por Luísa Correia, em 04.12.14

 

""Encontros de Outono" com o Ultramar"

por João-Afonso Machado, em 04.12.14

TROPA DE LINHA.JPG

A “inspecção” era um acontecimento marcante. A gente fazia-a aos 18 anos e dela dependia o nosso glorioso futuro militar. Havia sempre uma carta-convocatória e uma certa manhã, bastante madrugadora, num quartel do Porto, reunindo mancebos oriundos de todo o Minho e Trás-os-Montes.

Quando compareci a esse tremendo julgamento de armas, entrara já na Faculdade e fui reencontrar muitas caras conhecidas de S. Tiago da Cruz, rapaziada do meu tempo de catequese. Foi em 1978. Recebeu-nos um sargento redondíssimo, já de meia-idade, tarimbeiro, que, direito quanto conseguia, logo nos agraciou com uma breve alocução patriótica, a provocar incontrolada e sonora – e contagiante… - gargalhada de um punk de Bragança. A apoplexia do denodado sargento esteve iminente, como era possível a sua exortação ser assim acolhida? Enquanto isso, outros militares, de aspecto mais desembaraçado, circuitavam entre nós, inquirindo se alguém pretendia ir para os Comandos. – Não, obrigado, vou para a advocacia… - E depois avançámos para a medição e a pesagem. Nessa altura, um outro sargento, admirado com a minha extrema magreza e atento à minha identificação, quis saber se eu não era familiar do nosso coronel fulano de tal, com quem ele estivera não sei onde no Ultramar… Por acaso era… - Olhe, eu tiro-lhe aqui um quilinho – e apontava para o papel à sua frente – e o meu amigo vê-se livre disto, está abaixo do peso mínimo…

Por acaso, convinha-me. A tropa era um estorvo, a recruta em Tavira um empecilho ao meu estágio e, portanto, aos meus primeiros passos forenses. Além de que, de um modo geral, acho que as fardas não me assentam bem. Mas nunca gostei de ficar inapto para as coisas da vida. Pelo que recusei a amável dádiva. – Não, não, deixe lá o quilinho no sítio, obrigado. – E o atónito sargento, julgando estar a lidar com um tolo, impedido de assim homenagear o nosso coronel de grata memória, acabou inscrevendo correctamente os cinquenta e poucos quilinhos que eu pesava então.

No fim, foi um almoço penosamente mastigado, uma espécie de bacalhau à Brás sem salsa e azeitonas nem espinhas, porque também lhe faltava o expectável bacalhau. Após o que, verifiquei, todas estas milícias d’aquém Douro, metodicamente organizadas, marcharam a conhecer os encantos de algumas vielas tripeiras.

Quatro anos antes, quando a Revolução de Abril pôs cobro à II República, nenhum de nós, no essencial, ignorava o que se passava em África. Somente, o tempo parecia espreguiçar-se tão arrastadamente, o espectro da guerra a ninguém tirava o sono e era até uma diversão mázinha assistirmos ao desfile dos soldados na TV, enviando de lá, às respectivas famílias, votos de bom Natal e de um Ano Novo cheio de «propriedades». Não nos ocorre, agora mesmo, não fora o 25/A, depressa nos veríamos incorporados e de malas aviadas para um destino muito pouco simpático.

São tudo memórias trazidas à tona por ocasião dos recentes Encontros de Outono, este último fim-de-semana na Casa das Artes. Subordinados ao tema «Colonialismo, Guerra Colonial e Descolonização». Um desfile de perspectivas diversas, o produto de estudos actuais sobre este capítulo da nossa História ainda fresca. Mas, aqui e ali, com mostras de um congelamento que a deteriora. Como se dirá.

A participação do público, muito animada, veio enriquecer o tema da descolonização com alguns testemunhos pessoais, obviamente indispensáveis a um registo que se pretende idóneo. O pós-independência em Angola, para dar um exemplo, foi uma «tragédia», na expressão de alguém da plateia, então alferes-miliciano em Luanda onde, perante a chegada dos MPLA’s, UNITA’s e FNLA’s, recebeu ordens para quase andar desarmado no patrulhamento da cidade. Sofreu – contava ele – emboscadas, ataques, autênticos bombardeamentos, viu morrer muitos e muitos camaradas, mortes escusadas, e foi castigado por, desobedecendo a essas inusitadas ordens, se armar convenientemente para evitar a continuação do massacre.

E, muito claramente neste evento, o academismo oficial pareceu querer desconhecer ou ocultar tão fiáveis documentos, o depoimento de quem lá esteve, no «teatro de guerra». Ora, a História são os factos e a sua interpretação. Àqueles, aproveita a sua mais exacta reprodução; a esta, a imparcialidade de quem julga e a serenidade proporcionada por alguma distância temporal. O que decididamente é um absurdo é atribuir-se a hermenêutica de qualquer matéria histórica aos que nela intervieram directamente. Podemos compreender, no julgamento do Passado, advogados de defesa ou acusação; juízes em causa própria – nunca.

E, na minha humilde reflexão, isso acontece em Portugal. Consequência, provavelmente, da solidariedade – ou mesmo da rivalidade – entre camaradas de armas no que tange à Descolonização.

 

(Da crónica De Torna Viagem, in Cidade Hoje de 04.DEZ.2014).

 

 



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